Júlio A. B. Fernandes Amante das Leituras 2011 – Abílio Pacheco Visitante de Porlock



Baixar 0,52 Mb.
Página1/3
Encontro04.10.2017
Tamanho0,52 Mb.
  1   2   3
SINOPSE
A Antologia 2011 — a quinta do Grupo Amante das Leituras — é resultado do sonho da Ana Maria Costa — Fundadora do Grupo Amante das Leituras — que, apesar do seu tardio despertar para as Letras, almejou reunir um amplo grupo de escritores de todos os quadrantes e dinamizá-los para a publicação dos seus escritos.

A primogénita nasceu em 2007 e os auspícios do seu baptizado, deixaram o desejo de continuidade.

A obra que ora se apresenta — a quinta, repito — é fruto do empenho deste querer. Consta de 22 autores de Portugal e do Brasil, participantes do Grupo Amante das Leituras e dá ênfase ao muito que corre pelo nosso País e pelo mundo muito pouco conhecido da escrita, do qual a Ana Maria Costa se revela uma entusiasta divulgadora.

Neste exemplar encontram-se contos, minicontos e muita poesia. É de realçar o teor inédito dos escritos, muito embora em caso particular se anote como sendo resultado dos Desafios que o Grupo promove: de Prosa e de Poesia.



Júlio A. B. Fernandes
Amante das Leituras 2011 – Abílio Pacheco

Visitante de Porlock

A Coleridge

Precisava voltar para casa. Um poema para ser escrito após quase quatro anos. Veio-lhe de assalto idéia, versos de início e, entre rostos vários e vazios, ia já no quarto ou quinto pé tramado.

Cruzados os braços, fechados os olhos e sentado contra a janela da condução repetia o mote, refazia versos, comutava termos... Por pouco não passou do ponto. Não tivessem gritado o nome do bairro...

Atravessou portaria e vizinhos como se cumprisse um silêncio de rito. Entrou no cafofo, tocou-se no quarto, sentou-se à mesa, mas, à idéia intacta, ao verso tecido a pôr-se em linha, chamaram à porta.

A vizinha de frente queria saber se ele também estava sem água. Aconteceu que, recebendo incumbência de suspender o serviço de um dos vizinhos, fizeram – por descuido – o mesmo ao bloco todo.

Foram se queixar. A vizinha matraqueava a não mais poder. O síndico pedia paciência. O rapaz era novo no emprego. Tudo seria resolvido. Voltem para casa e esperem.

A custo, livrou-se da vizinha. De volta à mesa, lia e relia, mas as palavras (três inteiras, a quarta pela metade), já não faziam o menor sentido.

Noel

Nunca entendera direito o porquê de seu nome. Na escola, as brincadeiras e gozações duravam o ano todo, mas pioravam em dezembro. Na idade adulta, uniam nome e homem, punham-lhe barba, gorro e roupas vermelhas. Nos anos em que as finanças estavam complicadas, para ganhar um extra, a solução era incorporar o bom velhinho em lojas de brinquedo e de departamento. Nesses anos, o ano novo mais lhe trazia melancolia que esperança renovada.

No último natal, não era necessário faturar um extra. Mesmo assim vestiu-se de vermelho, pôs gorro, barba, barriga, gargalhada e voz rouca. Com um saco de pano nas costas partiu rumo à carruagem com renas e anões que o esperava em frente ao shopping. Sentou-se às rédeas, disse os nomes das renas e uma por uma moveu orelhas e abriu olhos. Aí soltou a inconfundível gargalhada, brandiu a brida e adejou pelos céus de dezembro.

O pretendente

A menina disse querer um esquife nos seus quinze anos. A mãe, antes de negar-lhe o pedido, indagou pelo motivo. Queria um esquife para meter-se nele e esperar a chegada do príncipe. Sem a mãe afirmar que morreria, a filha replicou: Há medicina. Fico no soro.

O pai ouviu os detalhes: três vezes por semana, abria a porta e um rapaz entraria, removeria o esquife, a beijaria... Vacilou mas assentiu. Iria providenciar tudo, desejava apenas saber se ela não temia a velhice. Caso antes, papai. Antes!

Debutou, o esquife pronto, a medicina a postos. Adormeceu. Completou 16 anos e 156 pretendentes fracassaram. Os pais, tristes, o cãozinho choramigante e a fila de pretendentes enorme. Foram-se mais dois pares de anos, e nada. Daí passaram a abrir o esquife todos os dias, depois, duas vezes por dia, depois três. Assim a fila foi diminuindo.

Não havendo mais fila, o esquife era aberto sempre que um novo pretendente surgia. Coisa cada vez mais escassa. Basta! Iremos acordá-la semanas antes de nossa próxima boda, disse o pai. Mas antes disso, ela foi beijada e acordou. Um pajem simples, contratado para cuidar do mascote... Estavam na sala do esquife quando o cãozinho, mesmo já velho, passou disparado com o jovem no encalço, pulou sobre a dona, lambeu-lhe o rosto, cheirou e, explodindo em feição de homem idoso, beijou a donzela. Depois expirou.

Fizeram-lhe velório, enterram-no dignamente.

No dia das bodas, os pais festejaram o casamento da filha com o pajem.

A carta

Havia muito que evitava, mas tivera que abrir o envelope, sacar conteúdo, desdobrar folha e passar olhos pela caligrafia caprichada, mesmo portando tão grave desagrado. A vista, logo baça, ganhou mãos enconcheadas com água, e depois enxugar de rosto em pano gasto.

De si, continha-se a custo. Como se, após longa bebedeira, desejasse e precisasse, mas resistisse vômito que sairia sem rédeas. Como se passada noite em claro, olhos se fechassem por conta. Como se prendesse respiração sob água e instinto (mais que necessidade) a fizesse emergir.

Sentou-se novamente à carta, tentando segurar emoção e choro, como se pudesse evitar a quebra de ovos ao confronto do solo. Ela mais adivinhou que leu. Antes do fecho, parou o olhar das linhas e pairou na lembrança. Já havia empapado o primeiro pano e encharcado uma toalha de banho. Zumbinizada, mais que chorava, chafarizava; sentia suar axilas, curvas dos braços e atrás dos joelhos; pranteava por vários poros. Pingos escorriam pelo rosto, costa, tórax e panturrilhas. As mãos gotejavam, os pés diluíam-se. Saíra de si; havia chorado todas as lágrimas.


Quando os demais chegaram à casa, deram apenas por – além de roupas, cabelos e unhas – envelope e carta em poça espalhada sob cadeira e mesa.

Amante das Leituras 2011 – A. M. Catarino

De volta a casa”

A minha mãe aperta-me muito contra o seu corpo enquanto esperamos que chegue o táxi. Estou nu, não sei o que aconteceu à minha roupa, acho que ficou lá em cima, no quarto do Hospital. Enrolaram-me numa manta e trouxeram-me para baixo, depois de o médico ter falado com os meus pais.

Já não me lembro do que disse o médico. A minha cabeça é fraquinha. Eu não sou esperto como os outros meninos. Só sei que os meus pais começaram a chorar. Choraram muito, como as pessoas da telenovela.

A minha mãe abraça-me muito, o que me ajuda a esquecer o frio. O táxi chega. O motorista ia sair para abrir a porta, mas o meu pai antecipou-se-lhe e abriu logo a porta de trás. A minha mãe entra muito depressa comigo ao colo e o meu pai senta-se ao lado do motorista. O taxista fica espantado e olha-me através do espelho retrovisor. O meu pai diz-lhe a nossa morada e o carro arranca devagarinho, deixando para trás o Hospital.

Gostava de me lembrar o que disse o médico aos meus pais para os deixar tão tristes. A minha cabeça é fraquinha, já não me lembro o que era. Eu não sou esperto como os outros meninos. Só sei que tinha a ver comigo, era qualquer coisa sobre “o menino”. E sei também que os meus pais começaram a chorar. Choraram muito, como as pessoas da telenovela.

A viagem vai demorar tanto tempo! Nós moramos muito longe do Hospital, mas os meus pais têm de me trazer cá cada vez mais vezes. Ainda a semana passada cá tinha andado e hoje já cá estava outra vez. Vejo os prédios da cidade a aparecerem e a tornarem-se mais pequenos até desaparecerem nos vidros do táxi. Gosto mais de viver num lugar com árvores do que com prédios. Pergunto-me se serão mais altos do que as árvores à volta da nossa casa. Se eu fosse esperto como os outros meninos conseguia descobrir a resposta. Mas a minha cabeça é fraquinha. Tenho sono. Tenho tanto sono, mas por mais que tente, não consigo adormecer.

O que dizia o médico aos meus pais? Gostava tanto de me conseguir lembrar. Dizia alguma coisa que tinha a ver comigo. Falava sobre mim. Era qualquer coisa tipo “levem o menino”. Os meus pais começaram a chorar. Choraram muito, como as pessoas da telenovela.

A minha mãe aperta-me muito, mas o frio não passa. Já saímos da cidade, as nuvens brincam aos desenhos lá em cima no céu. Os pássaros olham para mim através do vidro do táxi, continuando o caminho que lhes está escrito na cabeça. Como eu gostava de também ter um destino escrito na cabeça, saber para onde tenho de ir, em vez de andar sempre a ser levado de um lado para o outro. Como agora, a ser levado de táxi para casa, depois de ter sido trazido de ambulância para o Hospital.

Gostava tanto de me conseguir lembrar daquilo que dizia o médico. O que falava o médico aos meus pais? Dizia alguma coisa que tinha a ver comigo, falava sobre mim. Era qualquer coisa como “não sei o quê custa muito dinheiro, levem o menino”. Os meus pais começaram a chorar. Choraram muito, como as pessoas da telenovela.

Dentro do táxi ninguém fala. Nem a minha mãe, nem o meu pai, nem o taxista. Só se ouve a telefonia a cantar aqueles fados que o meu avô tanto gosta. Talvez eu pudesse dizer alguma coisa engraçada para pôr toda a gente a rir. As pessoas riem-se muito de tudo aquilo que eu digo. Acho que tenho um jeitinho especial para dizer disparates. Mas hoje não sei se me safava. O ar dentro do táxi está carregado de alguma coisa estranha, apesar de o meu pai levar uma fresta do vidro aberta. Será que é daí que vem este frio? Entramos num túnel muito comprido e muito escuro, o que torna ainda mais pesado o ambiente dentro do táxi. Sair do túnel aligeira muito pouco as coisas. Talvez se eu abrisse a boca, para dizer alguma coisa engraçada. Mas tenho tanto sono. Sono e frio. Tenho sono, mas não consigo adormecer.

Se me esforçar um bocadinho, pode ser que me consiga lembrar daquilo que falava o médico. O que dizia o médico aos meus pais? Dizia alguma coisa que tinha a ver comigo. Falava sobre mim. Era qualquer coisa como “não posso fazer mais nada, não sei o quê custa muito dinheiro, levem o menino”. E os meus pais começaram a chorar. Choraram muito, como as pessoas da telenovela.

Vi passar no vidro do táxi uma cegonha dentro do ninho em cima dum poste de electricidade. Não sei por quê, tenho a certeza que um dia uma cegonha trará um filho aos meus pais que não tenha a cabeça tão fraquinha como a minha e não precise de andar sempre a caminho do hospital. O taxista não pára de me espreitar a mim e à minha mãe no banco de trás.

– O menino vai bem? – Pergunta.

– Vai bem, vai. – Responde a minha mãe com tranquilidade. – Só está um pouco abananado dos remédios.

– Não quer que pare um bocadinho para ele apanhar ar? – Franze o sobrolho o taxista, desacelerando a marcha.

– Não, já estamos perto, quando chegar a casa vou logo deitá-lo. – Responde imperturbável a minha mãe.

O taxista, renitente, carrega novamente no acelerador, sem despegar os olhos do retrovisor. Acho que já percebeu que vou nu debaixo do cobertor. Quando finalmente pára à porta da nossa casa, a minha mãe abre a porta do táxi à pressa e corre para dentro de casa. Pelo caminho passa pelo meu avô, esgueirando-se para dentro de casa, sem lhe responder à pergunta “Então?”

Já me lembrei do que dizia o médico aos meus pais. Era “O menino acabou de morrer. Não posso fazer mais nada… Levá-lo daqui num carro funerário custa muito dinheiro, sei que estão a passar dificuldades… Levem o menino e digam que morreu ao chegarem a casa”. E foi por isso que os meus pais começaram a chorar. Foi por isso que choraram muito, como as pessoas da telenovela.

O meu pai acabou de pagar ao taxista e caminha rápida-mente para casa, mas o táxi nunca mais se vai embora. Não consigo ver lá fora, pois a minha mãe já me deitou na minha caminha, mas, de alguma forma, sei que o taxista está dentro do carro debruçado sobre o volante a olhar muito sério para as janelas da nossa casa.

É então que percebo que estou cá fora a ver o táxi a arrancar muito devagarinho. Já não sinto frio, tão pouco tenho sono… É estranho, é como se estivesse dentro dum sonho. Dentro de casa ouço os meus pais e o meu avô a chorar. Apetece-me entrar para os animar, dizer alguma coisa, mas não me vem à cabeça nenhum disparate que fosse capaz de pôr toda a gente a rir.

Amante das Leituras 2011 – Ana Maria Costa


Desafio de Prosa Outubro 2009

Amante das Leituras

— Não deves engravidar — disse ela.

Aquilo soou a agoiro. Os seus olhos estavam abertos, tão abertos que o frio saía em baforadas grossas, a sua boca era de raiva (pelo menos era o que parecia!), e, ainda hoje, não se sabe bem que sentimento dirigiam.

A casa-de-banho estava vazia. Depressa retirou as instruções do teste de gravidez de dentro da embalagem para as ler, apressada. Mas bloqueou ao primeiro obstáculo.


Sempre sentiu alguma dificuldade, sob stress, para interpretar bem algumas instruções, ordens ou pedidos — simples para muitos.

Lembra-se que em pequena não conseguia entender as perguntas das fichas de avaliação, principalmente das disciplinas de português e de matemática que fossem um pouco mais complexas. Quem não se lembra de aprender o a, e, i, o, u?! Ela demorou anos para o fixar, e era motivo chacota, na escola e nas ruas, dos colegas da escola.

Com o avançar da idade conseguiu ultrapassar algumas dessas dificuldades. Agora, alguns desses bloqueios mentais acontecem quando está ou anda sob stress. Sempre que tais situações acontecem, fica de olhos fechados, numa espécie de esfriamento, ou com eles abertos, sem nada verem, vazios!

Era como estava quando chegou à sua beira. Apercebeu-se da sua condição e começou a ler, alto, as instruções, como quem dá pápa a um bebé que não abre a boca; depois, explicou-as devagar, mais que uma vez, a sua paciência via-se no limite, perante a sua imobilidade. «Seria hora de reagir?!», pensou a jovem.

Tirou-lhe o papel da mão e fechou-se no pequeno compar-timento da casa-de-banho. A velha ficou de fora, com vontade de entrar. Ela ignorou os seus pedidos, cheios de curiosidade. Olhou os desenhos e as cores que o panfleto trazia, passo-a-passo, como se fosse um processo de nascimento de uma roseira que abre os seus botões, um-a-um. Sabia que era necessário tempo de adaptação para o cérebro se abrir a novas situações.

Apesar de estar quase na meia-idade, as primaveras passaram-lhe pelo corpo — e as andorinhas carregaram-nas no bico para longe — sem lhe deixarem descendentes, até ao momento. Talvez as aves, ouvindo a ordem da velha, tivessem levado com elas, ano após ano, o desejo que fervia naquela ser-mulher.

Ela queria um filho. Quase todas as mulheres o querem! Nem todas o conseguem e os motivos são vários. Sem conhecimentos científicos suficientes para entrar em grandes pormenores, pensou:

— A mulher é um animal selvagem que nasce cheia de ovos. Se quiserem fazer a experiência: dispam-na das mordomias da sociedade farta; depois, abandonem-na numa selva longe do conhecimento. A maior parte sobrevive e cresce no isolamento. Inventa e adapta-se ao meio, porque este a obriga. Tenta encontrar mais da sua espécie. Quando os encontra, confronta-os numa disputa feia onde vale tudo para a sobrevivência do Ser e dos ovos que lhe restam.

A nossa aspirante a mãe não sabia… mas era uma fêmea com os mesmos instintos animalescos que algumas fêmeas têm, quando não conseguem atingir os seus objectivos, e mesmo quando conseguem os primeiros, mantêm essa característica, enquanto não elimina todos os seus ovos.

Anos mais tarde, soube que ela se encontrava em fecundação. Lembrei o dia em que me contou a experiência do seu primeiro teste e da sua frase cheia de esperança no sucesso. Olho-lhe o rosto, agora, de costas para ela — e posso ver-lhe a sair da boca: galhos que começavam a brotar os primeiros botões, aves que fazem ninhos no seu umbigo e sobrevoavam seus cabelos, raízes engrossam o seu corpo e, da temperatura morna das suas palavras, vejo uma Primavera a querer nascer.



Jejuo-me

É nesses gritos que vão longe

que mãos agarram o fio.

Sabe-se que a voz se transporta

no ar, logo o fio é feito ar.
É nesses gritos que vão longe

que se conhece o cuidado a ter ao o pisar.

A necessidade leva ao engenho, logo

a palavra é substituída por pedras


acrescenta-se a frente, o tamanho dum pé.
É nesses gritos que vão longe

que solto desilusões com tamanho

e esforço as verdades nas paredes do fio

nas falhas da voz.


É também nesses gritos que envio longe

que sentimentos e partes do fio partem.


É nesses gritos que vão longe

que coloco balões vermelhos onde me perdi.



Amante das Leituras 2011 – Andreia Carneiro

Ponto de encontro

O café era sossegado, isto para quem via de fora… nos arredores de Paris iluminado. Diz quem sabe que por lá passeiam figuras ilustres. E que consegue ter mais iluminados por metro quadrado, do que a própria “Tour Eiffel”, em hora de ponta.

As escadas de pedra deixam adivinhar o rústico do espaço. As paredes pintadas de um vermelho escuro tornam o caminho aconchegante, misterioso com sucesso de paixão. Tirei os sapatos para que ninguém saia dos sues majestosos pensamentos.

Ao chegar ao cimo da vigésima segunda escada, vê-se um senhor de chapéu na primeira mesa, que se encontra, a última para quem está sentado. Ele desvia-se um pouco para o seu lado direito chupando o cigarro com a intensidade de quem diz o abecedário, vezes sem conta. Um bigode pequeno faz uma sombra conhecida. A sobrancelha não é muito farta, mas encontra-se bem delineada…. É o Pessoa, o português. Quem diria que ia encontrá-lo por aqui. Diziam que estava muito doente com uma cirrose hepática, afinal está ali muito sentando a beber um vinho fino, feito lá para as terras do Douro. Deve aguardar alguém com alguma impaciência. O fumo do cigarro não pára de sair da sua boca, que nem versos para o papel. Sejam dele ou de qualquer um dos outros, que ele contém dentro de si.

Ainda, não consegui instalar-me devido a tanto dióxido de carbono estrelado que por aqui se estende.

Olha quem ali está? Quem diria… o charme e o encanto. Pelos vistos, também gosta destas andanças. E bem que a música o deixava adivinhar. Carlos Gardel delicia-se com o som de um dos seus tangos argentinos tocados por uns músicos que se encontram encostados ao fundo da sala, para quem vê do meu prisma. O instrumental pertence à música “mi Buenos Aires querido”… Quem diria que o senhor do tango estaria sentado numa mesa, acompanhado por uma ruiva que daqui não dá para perceber quem é. Nota-se o seu ar requintado de mulher estudada e preparada para a vida… Muito bem Gardel.

Do lado direito está um balcão preto, com tanto lustro, que era preciso, provavelmente, contratar todos os engraxadores de Paris para obter aquele brilho.

Por trás, deles, estão dois homens bem vestidos a servirem os clientes com a categoria de uma cidade inundada de requinte.

Agora, um copo de água foi servido a uma mulher sentada pelo lado esquerdo da sala, numa espécie de sofá. Está acompanhada por mais duas pessoas… reparando bem, consigo decifrar mesmo ao longe que é a Mexicana Fridha Kahlo, o marido Diego e Rivera e aquela mulher que está ao lado… Deixa-me pensar é… É Angelina Beloff a primeira mulher dele. Juntar as duas na mesma mesa é obra. Diego sempre mulherengo e com obras de admirar. Pelos vistos continua em força, e não apenas na pintura.

Esbocei um sorriso, mas sem grandes movimentos…

Sai da cortina vermelha por detrás dos músicos, um aglomerado de raparigas… isto deve fazer parte de algum espectáculo improvisado. São as raparigas de Avignon, aquelas do quadro do Picasso. Meu Deus, que chuva de emoções. Mas, será que ele está por aqui? Talvez, não… Málaga tem mais encanto para si. Não fosse a sua terra natal.

Mudou a música. Enquanto olhei para toda esta gente nem reparei que agora se ouvem sons de grande intensidade, num violino que chora de saudade de Beethoven.

Olhem só para quem está abanar a cabeça, vinda da Argentina… Que elegância, que porte, que admiração. Eva Perón. Que mulherão.

Mesmo assim, sei que quando passar por esta sala, todos se vão perder de amores por mim. Não fosse eu Norma Jean, ou melhor Marilyn Monroe.

Calça as suas sandálias brilhantes.

Fica uma réstia de estrelas cadentes no céu, daquele ponto de encontro, em Paris, onde o sol se concentra num vestido branco sedutor.




Zé da Adega

Havia o Zé da Adega, com bigode farto de 20 anos. Arma confusão com os miúdos por causa de todos os rabos de saia… Põe o peito de fora com os míseros dois pêlos de fora da camisa, para dizer que a boina lhe dá força e energia… chamam-lhe o rapazola de Vila Nova das Patas.

De pau na mão leva as ovelhas, todos os dias, de casa até ao cimo do monte, lá esta a Gina na janela a fingir que sacode o pó para ver o Zé a passar, mais uma vez, por aqueles caminhos de paralelos.

O caminho faz-se andando e lá está o senhor António a tocaras suas músicas tradicionais na tuba de grande tamanho. Ele é o mestre da banda da terra, ensaiam aos sábados para quando têm saídas para as festas e romarias do norte interior. Assim, poderão dar o seu melhor. Um instrumento que, como dizem, foi um senhor chamado Wagner que lhe deu a primeira grande importância. Mas, só o senhor António sabe da existência deste outro senhor, até tem medo de falar com isso não vá o tal homem lembrar-se de lhe pedir direitos de autor. Sabe-se lá! Portugal é tão pequeno… Tudo se sabe!

Duzentos metros abaixo lá está a fonte onde o Zé molha a cara todos os dias de manhã, a Maria da Luz está todos os dias por lá à mesma hora, pois os senhores precisam de muita água e bem cedo. Com a sua blusa branca, de farta carne, um olhar intenso e um sorriso safado lá vai olhando para o Zé a dar os bons dias. Zé, fixa o olhar, e enquanto sorri, põe o pequeno raminho de árvore que encontrou no chão de lado da sua boca e começa a sorrir com um ar safado. Repara no avental da miúda que deixa adivinhar algumas formas do seu corpo. Maria da Luz pega nos cântaros e segue caminho até ao dia seguinte. Isto acontece todos os dias, religiosamente.

Chega a hora de subir para o campo com aquelas ovelhas todas. A ajuda preciosa do Farrusco o rafeiro mais inteligente da rua. Um cão grande que o Zé tinha criado desde bebé na quinta do pai. Desde cedo mostrou aptidão para líder e hoje não há nenhuma ovelha que pense em fugir da linha, pois que o Farrusco marca o terreno com precisão.

O Zé deixou os animais à vontade e foi para a Adega do tio Luís Sorte onde a pinga não falta, mas o melhor são mesmo os petiscos da Tia Zulmira. O rapaz lá vai ganhar energia e logo de manhã duas canecas, um chouricinho e pão de milho… não faltam. Passa lá o dia, descobre as notícias da terra eleva as boas novas para casa. Às 4 horas lá vai ele, buscar os animais, ninguém se atreve a fugir porque o Farrusco é muito competente. Volta para casa, deita-se na sua cama a sonhar com Maria da Luz que, espera por ele no dia seguinte.

Amante das Leituras 2011 – Bernardete Costa

Erguidas das Tumbas

Brota o silêncio na sombra da árvore

e seus cabelos de medusa encobrem os soluços

que se deitam num tálamo de lentíssima água.


Conversam com a morte, chamam-na,

mas é um acorde de vento que miram no espelho;

e a silhueta da nuvem agita-se ao som cristal dos pingos d’água

que acordam o amanhecer.


É manhã, as flores estenderão seus perfumes

sobre a terra molhada; o sino da igreja clama o fervor das matinas

e as beatas em prece suplicam respostas

para a sua solidão inquieta.


Desconhecidas mulheres, dão de beber aos mortos

exaltando seus membros na evocação das saudades e das mentiras.


O sol vai e vem num riso atrevido de quem quer

e pode o que quer, espreitando essas fêmeas heroínas,

erguendo-as das tumbas.

  1   2   3


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal