Israel belo de azevedo



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polis e também na igreja. 
   
Curiosamente, a idéia do pacto não é explicitada nas confissões americanas, mas 
talvez se possa pressupor que a sua aceitação tenha sido ampla. Possivelmente, como o indica 

a argumentação de Backus, perdeu fôlego precisamente pela indefinição dos campos, ao ser 
empregada como modelo para as relações políticas. 
   
  
   
"A palavra Pacto, quando usada para se referir a contratos entre homem e homem, 
inclui muitas idéias que não acontece nos assuntos entre a criatura e o Criador. Tanta 
escuridão tem aparecido nas controvérsias sobre o assunto que alguns homens dignos têm 
pensado ser melhor adotar a palavra Testamento em lugar de Pacto para o último caso. No 
entanto, uma resenha pode nos convencer que não ficamos livres de dificuldades com esta 
troca de palavras, uma vez que Testamento, quando usada para a vontade de um pai que está 
ausente de nós, é essencialmente diferente da vontade de Deus, que está sempre presente e vê 
nossos pensamentos mais interiores. Assim, Testamento significa sempre a vontade expressa 
do testador e também uma disposição livre de sua propriedade como lhe apraz. (...) 
Consentimento mútuo, com obrigações e privilégios mútuos, é uma idéia essencial em todos 
os pactos. Faça isto e viverás foi a linguagem de Deus a Adão na inocência, com o que seu 
coração concordou; esta obrigação de amar é imutavelmente pertencente a todos os seus 
filhos". [285] 
   
  
   
Se o conceito de pacto foi desaparecendo, a natureza da revelação bíblica como sendo 
infalível foi se afirmando. Segundo os pactuadores de Grassy Creek (1757), as Escrituras 
revelam "a mente e a vontade Deus", contendo "a regra perfeita para a nossa fé e prática", 
pelo que deve ser suficiente para a disciplina da igreja. [286] 
   
A síntese de Kehukee (1777) afirmava-a como contendo também a mente de Deus. 
[287]O termo de Kentucky (1801) era mais explícito, ao tomar as "escrituras do Velho e 
Novo Testamento" como "infalível palavra de Deus e a única regra de fé e prática". [288]A 
confissão de New Hampshire (1833) se tornaria o padrão: 
   
  
   
"Cremos que a Bíblia Sagrada foi escrita por homens divinamente inspirados e é o 
tesouro perfeito da instrução celestial; que tem a Deus como seu autor, a salvação como seu 
fim e a verdade, sem qualquer mistura de erro, por sua preocupação; que ela revela os 
princípios pelos quais Deus nos julgará; e que, por isto, permanecerá até o fim do mundo 
como o verdadeiro centro da união cristão e o supremo padrão pelo qual conduta, credos e 
opiniões humanos serão aferidos". [289] 
   
  
   
Estava entreaberto, assim, o tema que seria transformado no carro-chefe do 
fundamentalismo do século 20: a inerrância bíblica. De qualquer modo, a doutrina da Bíblia 
apenas seguiu as linhas básicas já colocadas na Inglaterra. Neste momento, pois, a Bíblia não 
foi objeto de discussão, como aconteceu com a doutrina da eleição. 
   
Majoritário desde o período colonial, embora já aí contestado, o estrito calvinismo da 
doutrina da eleição foi sendo suavizado, em meio a um conflito teológico que, entre os 
batistas, nunca se resolveu. Na realidade, os batistas parecem ter feito uma conciliação entre 
Armínio e Calvino, sem que, no entanto, tenha havido uma completa aceitação da proposta 
intermediária. 
   
Os primeiros batistas americanos afirmavam que, por sua "infinita misericórdia", "o 
Pai eterno deu um certo número de filhos de homens ao seu amado Filho", para "redimi-los e 
salvá-los". Por causa desse decreto, todos os escolhidos serão guardados para a salvação 
eterna. [290] 
   
Os batistas de Grassy Creek colocaram a eleição particular ("eleição particular da 

graça pela predestinação de Deus em Cristo"), deixada intuída pelo termo de Kentucky, e a 
perseverança dos salvos em sua plataforma teológica ("perseverança final ou continuação 
dos santos na graça"), reafirmada por este último ("os santos perseverarão até o fim pela 
graça até a glória").   
   
A declaração de Kehukee segue o mesmo diapasão: 
   
  
   
"Deus, antes da fundação do mundo, para o propósito de Sua própria glória, elegeu 
um certo número de homens e anjos para a vida eterna e que Sua eleição é particular, eterna e 
incondicional da parte das criaturas". [291] 
   
  
   
Quanto à perseverança, os termos são os mesmos: todos os "convertidos", 
"justificados" e "chamados" sem dúvida nenhuma "perseverarão em santidade" e jamais 
cairão. [292]Os termos de Sandy Creek são os mesmos. 
   
A confissão de Greenvile, que não teria maior repercussão, reafirma os mesmos 
postulados, embora se preocupe com a possibilidade de a doutrina tradicional gerar confusão 
quanto à responsabilidade do homem. Talvez por isto, o texto não faça qualquer referência à 
predestinação para a perdição, mas se conserve a idéia da perseverança. [293] 
   
A mudança maior veio com a declaração de New Hampshire, que não toca na 
predestinação e coloca a perseverança nos termos que acabaria triunfante entre os batistas, ao 
estabelecer que só "os verdadeiros crentes resistirão até o fim", resistência que os distingue 
dos "crentes superficiais". A perseverança é garantida por uma "Providência especial". [294] 
   
Assim, num primeiro momento, a mesma tensão européia ganhou o espaço 
americano. A repetição das idéias inglesas na Confissão de Philadelphia foi o instrumento 
para calvinizar os batistas. Em 1752, a Associação decidiu que uma pessoa que negasse a 
eleição incondicional, o pecado original e a perseverança final seria afastado da comunhão 
plena. [295]A decisão não pôs termo ao debate. Em 1776, por exemplo, um pastor separado, 
Benjamin Randall, pregava, quando alguns colegas o questionaram porque não pregava 
sobre a eleição como devia. Ele respondeu: "Porque não creio nela". [296] 
   
Se, por um lado, muitas igrejas de tendência arminiana foram calvinizadas, processo 
que parecia terminado em 1810, [297]por outro, prevaleceu a síntese elaborada por John 
Leland, em 1791: 
   
  
   
"Concluo que tanto os eternos propósitos de Deus como a liberdade da vontade 
humana são verdadeiros. Na realidade, a pregação que tem sido mais abençoada por Deus e 
mais proveitosa para os homens é a doutrina da graça soberana na salvação das almas, 
associada com um pouco daquilo que é chamado de arminianismo. Estas duas proposições 
podem ser toleravelmente bem conciliadas entre si, embora o equívoco moderno seja que os 
homens geralmente gastam muito tempo explicando continuamente um ou outro ou fixando a 
presilha para manter os outros juntos. Por isto, dedicam pouco tempo num sermão para 
insistir nestas duas verdades que Deus abençoa". [298] 
   
  
   
Em resumo, os despertamentos livraram os batistas dos efeitos de um 
predestinacionismo rígido, para o qual tendiam, especialmente nas colônias centrais, onde o 
calvinismo era mais estrito. A Confissão de New Hampshire pode ser vista como a coroação 
deste processo de modificação da primeira geração de calvinistas. [299] 
   
Num ponto, no entanto, os batistas ficaram fiéis à letra de Calvino: a salvação 
continua aceita como imutável, que determinada pelos decretos de Deus. A crítica de Backus 

ao wesleyanismo é revelador da posição que venceria: 
   
  
   
"Wesley sustenta que Cristo morreu igualmente por toda a humanidade, mas que os 
homens são salvos pela fé e obediência, da qual eles podem cair e perecer para sempre. (...) 
Mas todos os homens devem saber que não há tal decreto na palavra de Deus e também que 
ele nunca colocou a reprovação em oposição a eleição. (...) O Filho de Deus diz: todos 
aqueles que o Pai me deu devem vir a mim e aquele que veio a mim não lançarei fora". [300] 
   
  
   
Quanto à moralidade, os padrões decorrem da idéia do pacto, não mais entre o 
homem e Deus, mas entre os homens, como forma de convivência mútua. A meta da igreja 
deve ser ajudar seus membros a viverem de modo santo. Para tal, a disciplina interna deve ser 
exercida. 
   
No manual de algumas igrejas de North Caroline, em 1793, estava definido que os 
membros faziam um pacto um com o outro, com os seguintes deveres, entre outros: 
   
. "celebrar o culto ao Deus Altíssimo"; 
   
. "edificar um a outro em seu culto"; 
   
. "guardar o dia santo", velando para que todas famílias fizessem o mesmo, inclusive 
comparecendo às reuniões; 
   
. "reger nossas práticas pela palavra de Deus", admoestando, encorajando e 
reprovando aqueles que agiram fora das regras do Evangelho. [301] 
   
  
   
Um dos artigos de Kehukee recorda que é tarefa de "todo povo de Deus andar 
religiosamente em boas obras", mas de um modo diferente do velho pacto, quando se deve 
buscar o favor de Deus, mas como uma decorrência do "princípio do amor". [302] 
   
A Confissão de New Hampshire é bastante explícita quanto ao domingo, bem no 
interior da tradição puritana. O primeiro dia da semana "deve ser guardado para propósitos 
religiosos, com a abstinência de todo trabalho secular e recreações" e "com a dedicada 
observância de todos os meios da graça, tanto privada quanto publicamente". [303] 
   
É, porém, na doutrina da igreja que a idéia de um pacto ganha uma forma jurídica, 
para reger a vida da igreja. Um dos primeiros foi firmado em 1682, por ocasião da 
organização de uma igreja sulista do Maine. Os membros firmaram um "pacto solene", 
movidos pelo fato de que Deus os assistia por sua graça e espírito e dava "divina sabedoria, 
força, conhecimento e compreensão". [304] 
   
O pacto ficou, portanto, no domínio da prática eclesial. Devia residir, como uma "lei 
escrita do amor", no coração de cada crente. Como diz Backus, a "natureza exata do pacto é 
precisamente demonstrar "que nenhuma pessoa pode" entrar para a igreja "sem seu próprio 
consentimento", já que "o pacto não pode obrigar" ninguém "a agir de uma forma contrária à 
revelada vontade Deus nem se eximir de sua obrigação para agir de acordo com os seus 
corações". [305] 
   
Quem melhor definiu a eclesiologia batista foi John Leland em seu "The government 
of Christ a Christocracy", de 1804: 
   
  
   
"Os santos na terra são súditos de Cristo, formando seu reino aqui. Quando Cristo foi 
para os céus e deixou sua casa aqui, deu autoridade aos seus servos e a cada homem sua obra. 
Assim, o governo da igreja é o governo de Cristo, seu gênio democrático. O governo da 
igreja é congregacional, não paroquial, diocesano ou nacional. Cada igreja congregada 
descarta o poder de papas, reis, bispos, parlamentos, igrejas ou presbitérios e considera o 

direito e o poder de governar-se a si mesma de acordo com as leis de Cristo. 
   
(...) 
   
O espírito e a regra pelos quais os súditos do reino de Cristo devem viver entre si se 
assemelham grandemente ao gênio de uma república. (...) Por cristocracia, entendo nada 
mais que o governo em que Cristo é o legislador, rei e juiz, de modo que cada igreja 
congregacional é uma república completa em si mesma, mas não controlada por um governo 
civil ou hierarquia. [As igrejas são] pequenas repúblicas que formam o império de Cristo". 
[306] 
   
  
   
Em síntese, a igreja local não compõe um corpo maior, mas é um microcosmo do 
reino espiritual de Cristo. Como tal, é auto-suficiente e tem plena liberdade para tratar de 
todos os seus assuntos, sem qualquer dependência de qualquer outro corpo eclesiástico. O 
relacionamento fundamental é entre Cristo e o indivíduo, já que a salvação antecede à 
membresia. A igreja é importante como um fator posterior à salvação. [307] 
   
As associações foram formadas dentro deste quadro. De fato, a eclesiologia batista 
americana ratificou a ênfase localista, mas encontrou lugar para afirmar o valor das 
associações de igrejas, nos moldes ingleses. Temerosa que elas se transformassem num 
poder supraeclesiástico, já em 1749, a Associação da Philadelphia publicou um "Essay on the 
Authority of Associations", no qual afirmava que "uma associação não é uma judicatura 
superior, com qualquer poder superior sobre as igrejas filiadas, mas que cada igreja particular 
tem poder e autoridade completos de Jesus Cristo para administrar as ordenanças 
evangélicas", independentemente "de qualquer outra igreja ou associação". A participação 
numa associação deveria ser voluntária e por "livre consentimento", para o fim, entre outras 
vantagens, do "fortalecimento e do conselho mútuos". [308] 
   
Essas associações, fique bem claro, não podem se impor às igrejas. O princípio é 
congregacional: cada igreja é independente em assuntos de disciplina. [309] A igreja é 
definida, assim, nos princípios de Sandy Creek, como uma "congregação de pessoas fiéis, 
que têm obtido fraternidade uma das outras e se dado a Cristo e aos outros e concordado entre 
si numa disciplina pia, segundo as regras do Evangelho. [310] 
   
Uma das conseqüências do congregacionalismo foi o landmarkismo, típico do século 
19, quando os batistas eram a segunda maior denominação do país. Por seu significado para 
os batistas brasileiros, será preciso comentar um pouco mais longamente a doutrina, 
formulada por James Robinson Graves (1820-1893), do Tennessee, quando perguntou 
retoricamente, em 1851: 
   
  
   
"Podem os batistas, coerentemente com seus princípios ou as escrituras, reconhecer 
aquelas sociedades, não organizadas de acordo com o modelo da Igreja de Jerusalém mas 
possuidoras de um governo, oficiais diferentes, diferentes tipos de membresia, diferentes 
ordenanças, doutrinas e práticas, como a Igreja de Cristo? 
   
Podem elas ser chamadas de Igrejas do Evangelho ou Igrejas num sentido religioso? 
(...) Podemos coerentemente chamar de irmãos aqueles que professam o cristianismo, mas 
que não somente não têm as doutrinas de Cristo e não caminham de acordo com seus 
mandamentos, mas se postam em direta e dura oposição a eles?" [311] 
   
  
   
A resposta estava clara, mas Graves clareou-a mais ainda, ao introduzir o resumo de 
suas idéias, em 1880, cujo objetivo era 
   
  

   
"estabelecer o fato na mente de todos, que me ouvem imparcialmente, que as igrejas 
batistas são as igrejas de Cristo e que somente elas sustentavam, e somente elas têm 
sustentado e preservado a doutrina do evangelho em todas as eras desde a ascensão de 
Cristo". [312] 
   
  
   
Como salienta Harold Bloom, Graves cria que os batistas eram ao mesmo tempo 
autônomos em suas igrejas individuais mas também os únicos autênticos habitantes do Reino 
de Deus e os legítimos descendentes da antiga tradição cristã. A proceder assim, Graves 
inverteu a doutrina da Luz Interior acerca da autonomia do espírito. Agora, cada igreja local 
tinha a autoridade de ditar a crença aos seus próprios membros. [313] 
   
Os velhos landmarkistas centralizaram sua eclesiologia na primazia da igreja local, 
que deve ser composta de crentes batizados (por imersão), razão por que as igrejas 
pedobatistas (conforme o vocabulário da época) não poderiam ser reconhecidas como igrejas 
verdadeiras, mas apenas como sociedades religiosas; seus ministros não poderiam receber 
autoridade para pregar numa igreja batista e nem deveriam ser chamados de ministros do 
Evangelho. 
   
Agir diferentemente disto seria reconhecer a "igualdade eclesiástica ou ministerial" 
dessas "sociedades" em relação aos batistas. [314] 
   
Como conseqüência, a Ceia do Senhor deveria ser ministrada tão somente aos 
membros de uma igreja local, requisito restritivo em função de uma igreja não poder exercer 
disciplina sobre os membros de outras igrejas locais. O que interessava a Graves era 
   
  
   
"preservar e perpetuar o verdadeiro sentido e simbolismo da Ceia do Senhor como 
uma ordenança da igreja local, para um só propósito -- a comemoração da morte sacrificial de 
Cristo --, e não como uma ordenança denominacional ou como um ato para expressar nossa 
comunhão cristã e pessoal, nem muito menos como uma cortesia para com os outros". [315] 
   
  
   
A partir daí teve início uma série de lutas pelos seus ideais, alguns dos quais 
triunfaram entre os batistas. Embora uns tenham sido rechaçados formalmente, vários foram 
absorvidos imperceptivelmente em suas ênfases. Dessas ênfases, sem dúvida o 
denominacionalismo batista muito lhe deve, mesmo que por antítese. 
   
O movimento conseguiu que as igrejas batistas repudiassem a autoridade das igrejas 
não batistas, bem como de seus ministros e de suas ordenanças. Assim, uma igreja batista não 
poderia convidar um pastor pedobatista para ocupar seu púlpito. Já que uma igreja verdadeira 
é aquela composta de crentes batizados (por imersão), as igrejas pedobatistas não poderiam 
ser reconhecidas como igrejas verdadeiras, mas apenas como sociedades religiosas; seus 
ministros não tinham autoridade para pregar e nem deveriam ser chamados de ministros do 
Evangelho. [316] 
   
Consideradas as doutrinas batistas acerca da Bíblia, do homem, da salvação, da 
moralidade e igreja, pode-se passar a tratar de sua teoria política, centrada no princípio da 
separação entre igreja e estado, do qual decorrem dois valores onipresentes no pensar batista: 
um visceral anticatolicismo e uma visão reducionista da missão da igreja. 
   
Comece-se por definir a compreensão do princípio do estado laico, filho do desejo da 
liberdade religiosa. 
   
Em meio a um ambiente hostil, os colonos batistas de Plymouth reafirmaram que "o 
governo da igreja deve ser totalmente pelas leis de Cristo, exercitado em seu nome e não pelo 
braço secular. [317]A declaração de Greenvile também repetiu o mesmo princípio, ao dizer 

que só Deus é o senhor da consciência, pelo que as ordenações humanas não podem 
contrariar sua palavra, neste sentido. O dever da resistência aos tiranos aparece 
discretamente: a sujeição ao poder civil está condicionado às leis legítimas. [318]A 
Confissão de New Hampshire mantém a restrição, mas a limita mais explicitamente ao 
campo religioso. Deve-se orar e obedecer às autoridades, "exceto nas coisas opostas à 
vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo".[319] 
   
A ausência de liberdade religiosa, que não era meramente retórica, [320]colocou os 
batistas na trincheira da sua defesa. 
   
A doutrina, já expressa nas confissões inglesas de fé e aceitas pelos colonos, levou os 
batistas a radicalizar o princípio da separação do Estado. É isto que explica sua teoria 
política, desenvolvida em solo americano, bem como sua prática aí vivida. 
   
A confissão de fé dos "pais da Plymouth Colony" já estabelecia que "o governo da 
igreja deve ser totalmente pelas leis de Cristo, exercitado em seu nome e não pelo braço 
secular". Conseqüentemente, fora dos padrões vigentes, "os ministros do evangelho devem 
ser sustentado por suas leis" e "não por taxas e obrigações impostas pelo poder civil". [321] 
   
Quando começou a guerra revolucionária, os batistas, aparentemente diferente do que 
determinava suas crenças, se associaram imediatamente ao lado americano, não sem 
surpresa, censura e discussão interna. Evidentemente, não houve unanimidade no primeiro 
momento, o que explica o esforço de Backus por justificar a opção. Sua explicação, oferecida 
no calor da hora, é suficiente para entender o que aconteceu. Os batistas se engajaram desde a 
primeira hora porque nas colônias eram "geralmente oprimidos" e sofriam mais do que 
sofreram na Grã-Bretanha. Motivos não lhes faltavam, todos de matiz religioso: 
   
  
   
"1. Quando os episcopais tiveram todo o poder de governo, nunca permitiram aos 
outros a liberdade que nós experimentamos aqui. Na Inglaterra, todos são taxados em seu 
culto e ninguém é admitido a cargos civis se não for membro de sua igreja. Na Virgínia, eles 
prenderam cruelmente ministros batistas apenas por pregarem o evangelho (...) sem licença 
de suas cortes, até que foram compelidos a desistir disto. Disto temos evidência 
incontestável. Portanto, não poderíamos ter qualquer esperança racional de qualquer 
vantagem em nos associar com eles. 
   
2. O pior tratamento que encontramos aqui veio dos mesmos princípios, e muito dele 
das mesmas pessoas, enquanto a guerra americana se fazia. Muitas provas disto já foram 
dadas e muitas estão à mão se necessário. 
   
3. O primeiro ministro batista na América publicamente sustentou que todo governo 
justo é fundado no pacto, expresso ou implícito, que é igualmente aplicável sobre 
governantes e governados; logo nenhum oficial, seja ele por sucessão ou por eleição, (...) vai 
além desta comissão. Quando, então, nossos cidadãos adotam estes princípios e se opõem às 
pretensões arbitrárias, evitaríamos nós de nos associarmos com eles? (...) 
   
4. Estas pretensões nos pareceram absolutamente injustas e uma violação direta das 
regras imutáveis da verdade e da igualdade; de modo que a concordância com eles traria 
culpa sobre nossas consciências (...). Embora pesadas correções fossem esperadas, uma forte 
esperança foi gerada de livramento final para esta terra; os bons efeitos poderiam até retornar 
ao povo que agora invadiu nossos direitos". [322] 
   
  
   
A atitude dos batistas fica evidenciada no comportamento da Associação Batista 
Geral da Virgínia, que, em 1775, tomou duas providências. Ao mesmo tempo em que pediu 
para pregar às tropas, ofereceu orações para a vitória do exército americano. "Alarmados 

com a chocante opressão" imposta pelas "hostes britânicas", com "cruel usurpação", 
consideravam prudente que os batistas atuassem, certos de que "era legítimo ir à guerra" para 
oferecer "resistência militar contra a Grã-Bretanha, diante de sua injusta invasão e tirânica 
opressão e repetidas hostilidades contra a América". Como muitos batistas se alistaram na 
guerra, a Associação pediu para lhe ser possível pregar durante a campanha "sem 
molestamento ou abuso". [323] 
   
O documento termina assim: 
   
  
   
"Concluímos com nossas sinceras orações ao Deus Altíssimo por sua bênção divina 
sobre todos os patriotas (...), para o bem da humanidade e da liberdade americana e para o 
sucesso de nossos exércitos em defesa de nossas vidas, liberdades e propriedades". [324] 
   
  
   
A preocupação dos batistas era, pela independência, garantir sua liberdade religiosa. 
[325] De modo algum, admitiam uma religião estabelecida, que "reduz a religião ao nível dos 
princípios da política estatal e faz dos oficiais da igreja ministros de estado". [326] 
   
Isto levou, por exemplo, o pastor batista John Allen a pregar um sermão na presença 
do Secretário de Estado para as Colônias, em 1772, acerca das "belezas da liberdade", no 
qual afirmou, entre outras coisas: 
   
  
   
"A liberdade é o direito natural dos americanos. (...) Aqueles que oprimem os 
americanos devem ser grandes inimigos da lei da natureza. (...) Oh América! América! não 
permita que seja dito que desististe da Grande Causa e tenha se submetido à tirania 
ministerial inglesa". [327] 
   
  
   
A experiência estabeleceu o conceito da competência individual, que seria mais tarde 
desenvolvida, nestes termos, por Edward Mullins, nos Estados Unidos, [328]e A.B. 
Langston, no Brasil. Em 1791, Leland escreveu: 
   
  
   
"Cada indivíduo deve dar conta a Deus e, portanto, todo homem deve ter a liberdade 
de servir a Deus no caminho em que melhor a reconcilia com a sua consciência. Se o governo 
pode responder pelos indivíduos no dia do julgamento, pode controlar os homem em 
questões religiosas; se não pode, deve deixá-los livres. (...) Religião é um assunto entre Deus 
e os indivíduos. As opiniões religiosas de homens não são objetos do governo civil e nem 
está em nenhum caso sob controle". [329] 
   
  
   
O clima contribuiu para fortalecer o princípio batista. Um dos pregadores-pensadores 
mais significativos da história americana, Backus escreveu, em 1779: 
   
  
   
"Todos os homens nascem igualmente livres e independentes e têm certos direitos 
naturais, inerentes e inalienável, entre os quais estão usufruir e defender a vida e a liberdade, 
adquirindo, possuindo e protegendo a propriedade e possuindo e obtendo felicidade e 
segurança". [330] 
   
  
   
A conclusão era lógica, convicto de que o fim do governo civil é buscar o bem dos 
governados, tarefa ditada tanto pela razão quanto pela revelação. [331] 
   
  
   
"Os governantes civis estão muito longe de qualquer direito de impor qualquer pessoa 

ou pessoas para julgar outras nestes assuntos e forçar seus julgamentos com a espada, que seu 
poder deve ser exercido para proteger todas as pessoas e sociedades, dentro de sua jurisdição 
de ser injuriado ou interrompido em seu livro usufruto deste direito". [332] 
   
  
   
Em 1783, ele já tinha escrito que "o cristianismo é a obediência voluntária à vontade 
revelada de Deus". Por isto, tudo o que for contrário a este princípio da voluntariedade 
constitui-se em "anticristianismo". Assim, os invasores dos direitos religiosos estão se 
autocondenando e agindo contra a felicidade, meta dos governos. [333] 
   
Numa petição ao Congresso da Virginia, em 1786, definiram de modo cabal a teoria 
política dos batistas: 
   
  
   
"A religião ou a obrigação que devemos ao Criador, a maneira de cumpri-la, deve ser 
dirigida somente pela razão e convicção, não pela força ou violência. (...) 
   
As igrejas do Novo Testamento, como humildemente concebemos, são, ou deveriam 
ser, estabelecidas pela Legislatura do Céu, e não por poder terreno, pela Lei de Deus e não 
pela Lei do Estado; pelos atos dos Apóstolos e não pelo Atos de uma Assembléia". [334] 
   
  
   
Foi esta posição que explica a atitude anticatólica. Nisto, não inovavam, nem estavam 
sozinhos. O catolicismo era visto como agente estrangeiro. Depois que os americanos se 
libertaram do jugo britânico, iriam agora se deixar dominar pelo romano? 
   
A segunda confissão de Londres nega ao papa a chefia da igreja, já que ele é o 
anticristo, "o homem do pecado e filho da perdição, que se exaltou na igreja contra Cristo". 
[335]O "Orthodox Creed", ao apresentar suas doutrinas, condena frontalmente aquilo que 
chama de "erros" católicos, especialmente quanto ao batismo de crianças. [336] 
   
O problema se tornou agudo quando, por força dos grandes contingentes migratórios 
a partir de 1840, o catolicismo também passou a crescer em solo americano. [337]Havia um 
sentimento americano de que seu nacionalismo era ameaçado pelo catolicismo. Numa 
eleição realizada, por exemplo, em Illinois, em 1856, o lema era: "Deixe que os americanos 
governem os americanos". [338] 
   
Este medo da Igreja Católica foi pervasivo na história colonial americana. Em 1641, 
por exemplo, a Colônia da Virginia determinou que nenhum "papista" poderia assumir 
cargos públicos. [339] 
   
O medo era americano, protestante e batista, pelo que a expulsão dos jesuítas, os 
principais agentes dos déspotas (papas) estrangeiros, no dizer do congregacional inventor 
Samuel Morse (1791-1872), [340]foi muito bem recebida. Para ele, escrevendo em 1835, era 
fato que a Igreja Católica se opunha ao republicanismo democrático, portanto, "como sistema 
político e religioso, oposto à liberdade civil e religiosa e, conseqüentemente, à nossa forma 
de governo". [341] 
   
Josiah Strong (1847-1916), escrevendo meio século depois, insistiu no mesmo 
argumento, ao ver que os "romanistas alienígenas", que buscam a cidadania americana, na 
verdade prestam completa obediência ao papa em lugar de "renunciar toda aliança a qualquer 
príncipe, potentado, estado ou soberania estrangeiros", como exigido pelas leis. Para ele, 
havia "uma diferença irreconciliável entre os princípios papais e os princípios fundamentais 
de nossas instituições". O fundamento é simples: "o governo popular americano é uma 
espécie de autogoverno". [342] 
   
Já em 1836, seria empregada uma estratégia também adotada posteriormente no 
Brasil: um panfleto anônimo narrava a experiência de um(a) ex-católico(a), que garantia "ser 

ignorante das Escrituras", embora estivesse "vários anos sob a direção dos católicos". 
Testemunha o convertido: "Não ouvi qualquer apelo à Bíblia como autoridade, mas fui 
ensinado, tanto por preceito quanto por exemplo, a receber como verdade tudo o que fosse 
dito pelos sacerdotes". [343] 
   
A partir de 1850, várias sociedades foram organizadas para resistir ao papado e 
mostrar seu efeito deletério sobre a sociedade. Uma delas, "The american Society to Promote 
the Principles of the Protestant Reformation", pretendia agir como uma Home Missionary 
Society para 
   
  
   
"difundir informações corretas sobro e as distinções entre o protestantismo e o 
papado, suscitar entre os protestantes um senso de sua tarefa em referência aos romanistas e 
usar todos os métodos evangélicos para converter os papistas ao cristianismo através de 
conferências e a disseminação de folhetos e livros adequados sobre a controvérsia 
romanista". [344] 
   
  
   
Este ideário era também batista: 
   
. "os batistas têm sido os únicos intérpretes adequados da Reforma"; 
   
. "os batistas têm fornecido à civilização americana a mais espiritual interpretação do 
cristianismo que o mundo tem visto"; 
   
. "os batistas têm exibido perante a civilização americana o mais notável exemplo de 
unidade denominacional"; 
   
. "os batistas contribuíram para a civilização americana com a idéia completa da 
liberdade"; 
   
. "os batistas têm fornecido os análogos espirituais de todo o nosso sistema político. 
Foram eles que proveram as idéias morais e espirituais sobre as quais se levanta a nossa 
estrutura política. Ora, há dois princípios que sumarizam a teoria política da república 
americana, e ambos se reduzem a um, que é a competência dos cidadãos para tratarem dos 
seus destinos políticos". 
   
Por isto, após estas considerações e a partir das confissões já sintetizadas e de 
contribuições teológicas produzidas no período, pode-se elaborar o seguinte quadro 
esquemático da teologia batista no século 19, época em que os missionários batistas 
começaram a vir para o Brasil. 
   
  
   
  
   
  
   
Quadro 7 
   
PRINCÍPIOS DA TEOLOGIA BATISTA AMERICANA ATÉ O SÉCULO 19 
   
  
   
SÍNTESE                              a competência exclusiva do indivíduo 
   
FONTE                              Bíblia como regra infalível para a fé e para a prática 
   
ANTROPOLOGIA               depravação total do homem a partir da queda 
   
SOTERIOLOGIA               compromisso (tenso) entre predestinação e livre-arbítrio 
   
MORALIDADE               taborismo (ênfase na santificação) 
   
ECLESIOLOGIA               igreja como comunidade local de regenerados (batismo 
por imersão) 
   
TEORIA POLÍTICA               radical separação entre Estado e igreja 
   
  

   
  
   
PRIMEIRA CONCLUSÃO 
   
Como estava, então, o protestantismo americano ao final do século 19? 
   
Em certo sentido, o século fechou forjado pela discórdia doutrinária e pela erosão da 
prática religiosa, como diz Richard Wolf. 
   
  
   
"Os princípios calvinistas passaram a ser usados pelos porta-vozes do 
conservadorismo para fortificar a doutrina do individualismo radical que drasticamente 
estreitou o sonho [americano], promovendo a auto-preocupação e contribuindo para o 
surgimento de uma tendência isolacionista. O calvinismo secara e nenhuma outra visão 
religiosa do destino da América exerceu uma influência dominante. Os ideais igualitários e 
pragmáticas do liberalismo americano ganharam a aceitação geral: a justiça das obras 
suplantara a graça divina e os resultados práticos e não os padrões transcendentes 
tornaram-se o critério para a conduta. No entanto, faltaram a estes princípios operantes uma 
estrutura básica; uma nova filosofia era necessária para apoiar a interpretação humanística e 
materialista do sonho americano como "boa vida". [345] 
   
  
   
Se isto é verdade, o século 19 era otimista e fazia uma avaliação muito positiva de si 
mesmo. O mesmo acontecia com o protestantismo e com os batistas. Eles se viam cheios de 
vitalidade. Por isto, eles se lançaram a uma empreitada mundial, que o batista Francis 
Wayland (1796-1865) definiu assim, num sermão em 1824: "Nosso campo é o mundo. Nosso 
objetivo é realizar uma completa revolução em toda a raça humana". [346] 
   
Este protestantismo que se lançou para conquistar o mundo tinha algumas 
características que o distinguem do protestantismo europeu. Assim, ao final do século 19, o 
entendimento da corrente majoritária do protestantismo é indispensável para a compreensão 
do protestantismo brasileiro. 
   
Essas características podem, em resumo, ser assim nomeadas: entronização do 
princípio da liberdade religiosa, gestação de um tipo de religião civil, instrumentação 
utilitária do individualismo, desenvolvimento de uma consciência denominacionalista 
anticatólica, a formação do espírito missionário e a subjugação da razão à sua dimensão 
prática. 
   
  
   
  
   
. entronização do princípio da liberdade religiosa 
   
Como já salientado, a nação americana enquanto tal nasceu lutando pela liberdade 
religiosa. O ideal, nascido entre os puritanos radicais da Inglaterra e da Holanda, não se 
concretizou nas colônias, já que o grupo hegemônico não era separatista e transpôs o modelo 
de igreja estabelecida. Parte do engajamento protestante se deve ao interesse defenestrar esta 
possibilidade. 
   
Nesta luta, a atuação dos batistas [347]foi determinante, já que, por razões óbvias, 
anglicanos e congregacionais pretendiam uma igreja nacional; luteranos, católicos e 
reformados alemães e holandeses estavam em mui pequeno número para serem levados em 
conta e os presbiterianos estavam envolvidos em discussões internas de doutrinas e 
estratégias. 
   
O resultado foi a realização, especialmente a partir da independência, do princípio de 
separação radical entre religião e fé, entre igreja e estado, com a aceitação de todas as 
confissões religiosas. Desde então, a primeira emenda à Constituição determina que o poder 

legislativo americano simplesmente não fará qualquer lei para estabelecer uma religião ou 
para proibir o seu exercício. 
   
A experiência americana cristaliza o que pedira Leland, em 1791, como já citado: a 
"religião é um assunto entre Deus e os indivíduos", razão por que as crenças de um indivíduo 
não devem ser objeto de qualquer controle por parte do poder civil. [348] 
   
Não é preciso dizer que o pai deste ideário foi Locke. Uma comparação, que não 
objeto do presente esforço, entre o que pensador inglês e alguns teólogos batistas disseram 
acerca do princípio de separação entre igreja e estado seria revelador. A síntese do 
pensamento lockeano parece tirada de um porta-voz protestante:   
   
  
   
"Não cabe ao magistrado civil o cuidado das almas, nem tampouco a quaisquer outros 
homens. (...) O cuidado das almas não pode pertencer ao magistrado civil, porque seu poder 
consiste totalmente em coerção. Mas a religião verdadeira e salvadora consiste na persuasão 
interior do espírito, sem o que nada tem qualquer valor para Deus, pois tal é a natureza do 
entendimento humano, que não pode ser obrigado por nenhuma força externa. (...) O poder 
civil não deve prescrever artigos de fé, ou doutrinas, ou formas de cultuar Deus, pela lei civil. 
(...) Ninguém, portanto, nem os indivíduos, nem as igrejas e nem mesmo as comunidades têm 
qualquer título justificável para invadir os direitos civis e roubar a cada um seus bens terrenos 
em nome da religião". [349] 
   
  
   
É esta visão, através do pensamento norte-americano e francês, que repercutirá no 
Brasil com força a partir do pensamento de Rui Barbosa, expresso na fórmula "uma igreja 
livre num estado livre" e presente na Constituição de 1891. 
   
  
   
. gestação de um tipo de religião civil 
   
A luta pela liberdade religiosa determinou o princípio da separação entre igreja e 
estado, mas não evitou o desenvolvimento de um certo tipo de religião civil. 
   
Sem dúvida, a idéia estava subjacente à noção de pacto. Desde a Nova Inglaterra, os 
colonos se entendiam como constituindo o novo Israel de Deus, cujo apoio seria o 
sustentáculo de uma nação a ser construída sobre a colina, como fora a Jerusalém bíblica. 
Como escrevera Winthrop, a tarefa era um ato de obediência à uma comissão dada por Deus. 
A idéia perpassou a colônia, sendo realçada na Guerra de Independência na Guerra da 
Secessão. Como diz Bellah, esta autocompreensão tinha, ao mesmo tempo, um conteúdo 
social e coletivo, mas também um elemento individual e voluntarista, a partir da concepção 
de "um deus absoluto objetivo como revelado nas Escrituras". [350] 
   
Diante desta realidade, o protestantismo tergiversou entre aceitar acriticamente este 
tipo de religião civil secularista e messiânica e "sustentar a crença sagrada e evitar as 
tentações da idolatria, recordando aos homens os ideais do país e pregando que o Deus de 
Israel é juiz de todas as nações". [351] 
   
Desta herança, só o messianismo, na sua vertente missionarista, chegou ao Brasil.   A 
religião civil aqui é de outra cepa, em decorrência da colonização católica. [352] 
   
  
   
. fortalecimento do princípio do individualismo 
   
Este fortalecimento decorreu da ascese calvinístico-puritana, com o surgimento do 
voluntarismo e uma renovação da piedade em direção à perfeição pessoal 
   
Como já se observou, o individualismo é filho de uma combinação das doutrinas 
luteranas da justificação pela fé e do sacerdócio universal de todos os crentes. Se em Lutero, 

a salvação era de e pela graça, no calvinismo, especialmente na versão puritana, sua posse 
pela fé era evidenciada por uma vida vivida para a glória de Deus, em nome da qual se podia 
tanto "prosperar neste mundo quanto conquistar o Reino dos Céus". [353]Os puritanos 
acreditavam que era intenção (vontade, na linguagem teológica) de Deus, com o qual se 
podia cooperar, melhorar a vida dos homens na terra. [354]O trabalho passava a ter uma 
dignidade sagrada. 
   
Nos EUA, as mesmas convicções permaneceram e foram desenvolvidas. Esse 
individualismo tornou-se ainda mais utilitário, gerando um certo tipo de voluntarismo de 
associações, de um lado, e um tipo de radical privatização da experiência religiosa, de outro. 
[355] 
   
Especialmente a partir da contribuição pietista ao puritanismo, o princípio 
voluntarista permitiu às igrejas locais, às denominações e as sociedades realizarem seus 
trabalhos, ao inculcar nelas a noção de que poderiam pelo trabalho individual realizar os 
feitos a que se propunham. 
   
Com o pietismo, a doutrina do sacerdócio de todos os crentes teve como corolário a 
insistência sobre a responsabilidade de uns pelos outros. Os crentes não só estudavam juntos 
a Bíblia como se exortavam e se recordavam mutuamente acerca de responsabilidades. [356] 
   
Esta visão acerca da responsabilidade humana ganhou contornos novos a partir da 
decisiva experiência dos grandes despertamentos espirituais. A doutrina da predestinação 
teve que ser reinterpretada para dar lugar à ação humana. No calvinismo clássico, toda ênfase 
estava colocada na soberania de Deus, com diminuto espaço para a liberdade e a 
responsabilidade humana. Como poderia o homem responder à iniciativa salvadora de Deus? 
Na tradição de Westminster e Dort, para Jonathan Edwards, Deus, por uma decisão soberana, 
tornou a vontade humana capaz de responder à sua graça. Em resumo, Deus inclinou a 
vontade humana para tornar o homem capaz de responder à salvação que oferece. [357] 
   
O calvinismo estava prestes a se fundir com o arminianismo, particularmente quanto 
ao lugar do indivíduo. Isto se tornou possível com o pietismo, especialmente o wesleyano, 
que acabou adotado nos EUA, convivendo numa tensão permanente com a herança 
calvinista. Para Wesley, a perfeição cristã pessoal era recebida instantaneamente pela fé, 
através da conversão, e confirmada pelo testemunho do Espírito Santo. 
[358]Paradoxalmente, a conversão instantânea é uma forma de afirmação da liberdade 
humana. 
   
No entanto, não se pode pôr de lado que o ensino wesleyano acerca da eleição era 
completamente tributário do arminianismo que, apenas em alguns aspectos, é antitético ao 
calvinismo. A antropologia de Wesley é a antropologia de Agostinho, vale dizer, a 
antropologia de Calvino. Mesmo alguns ensinos wesleyanos acerca da santidade já estavam 
presentes em algumas confissões batistas de fé. A tradição pietista não pode ser vista como 
uma invenção de Spener ou Wesley. Foi o levantamento de alguns valores já presentes. 
   
Isto explica, por exemplo, a aceitação da mensagem neopietista dos grandes 
despertamentos. A discussão que se travou em torno deles foi mais quanto ao método do que 
ao seu conteúdo. [359] 
   
Não foi preciso mudar-se a teologia para aceitar a pregação de Finney, por exemplo. 
Havia uma teologia para a liberdade e para a responsabilidade humana, que o calvinismo 
ortodoxo parecia obliterar. 
   
Os avivamentos são filhos do princípio voluntarista aplicado à perfeição cristã. O 
voluntarismo é puritano. O perfeccionismo, também. O que o neopietismo fez foi 
reinterpretar o puritanismo, reforçando-lhe o individualismo, especialmente ao destacar a 

experiência da decisão pessoal. 
   
  
   
. desenvolvimento de uma consciência denominacionalista 
   
Esta consciência foi gerada por uma necessidade de organização para defesa contra a 
ausência de liberdade e para o crescimento interno, e alimentada permanentemente por um 
espírito de repúdio ao catolicismo 
   
As denominações não são propriamente uma invenção americana mas elas ganharam 
aí tamanha força que parecem ser. As origens do denominacionalismo podem ser colocadas 
na emergência das nações na virada do período medieval para o moderno. Como mostrou 
H.R. Niebuhr, as denominações tiveram originariamente um caráter étnico como as nações. 
[360]Assim, "as fontes básicas do denominacionalismo americano devem ser procuradas da 
história européia das igrejas que imigraram para o novo mundo". [361] 
   
Não há dúvida que o denominacionalismo, especialmente por suas conseqüências, 
constituiu-se numa contribuição americana ao cristianismo mundial. Sua base era o princípio 
voluntário, subjacente ao de separação entre igreja e estado. [362] 
   
Esta ênfase à religião laica tornou o protestantismo americano visceralmente 
anticatólico, como já mostrado. Pouco adiantou a advertência de Philip Schaff, em 1845, de 
que o maior inimigo do protestantismo "não era a Igreja de Roma, mas a praga das seitas, não 
um papa único da cidade das sete colinas, mas os incontáveis papas -- germânicos, ingleses e 
americanos, que se deliciam em escravizar os protestantes uma vez mais à autoridade 
humana". [363] 
   
  
   
. desenvolvimento de um espírito de expansão missionária 
   
Isto ocorreu a partir de sua descoberta como mandato divino pelos batistas ingleses 
do século 18 e fortalecida pelo messianismo norte-americano (que já estava presente na 
Inglaterra) 
   
Evidentemente, o formato do protestantismo se constituiu a partir de sua visão 
denominacionalista voltada para uma espécie de fim para si mesmo: o crescimento interno, 
buscado como uma forma de superação dos outros grupos. Uma das expressões do 
denominacionalismo foi o desenvolvimento de uma consciência missionária, que não foi 
uma descoberta americana, mas inglesa. [364]As notícias sobre Carey incendiaram o 
imaginário protestante dos EUA. No messianismo americano (com a chamada para si do 
papel de conquistar o mundo, como queria Wayland), a idéia ecoou com uma revolução no 
protestantismo americano. Como na Inglaterra, houve violentas controvérsias em várias 
denominações, motivadas pela introjeção da doutrina calvinista da eleição. Constituídas 
sociedades missionárias interdenominacionais, as igrejas se lançaram à empreitada como se 
estivessem numa guerra para conquistar tanto os Estados Unidos [365]quanto o mundo. 
[366] 
   
Esta característica moldou o protestantismo inglês, norte-americano e brasileiro. 
   
  
   
. subjugação da razão à sua dimensão prática 
   
Esta atitude gerou posições paradoxais, como um certo antiintectualismo, derivação 
das crenças da razão e ênfase ao ensino. 
   
Em solo americano, um dos primeiros esforços dos colonizadores foi abrir escolas 
para seus filhos. Como observou Moses C. Tyler, na América pioneira, 
   
  
   
"as árvores cortadas mal haviam começado a apodrecer em seus primeiros campos de 

lavoura, o uivar noturno do lobo era ouvido nos seus povoados, e eles haviam cuidado para 
que mesmo naquela região selvagem seus jovens pudessem imediatamente iniciar-se no 
estudo de Aristóteles, Tucídides, Horácio, Tácito e da Bíblia hebraica". [367] 
   
  
   
As universidades, mesmo aquelas fundadas e mantidas por igrejas, mantiveram a 
liberdade na expressão da opinião e na orientação da pesquisa. Nelas o racionalismo europeu 
se disseminou amplamente, com ataque à própria religião. Em meio a este território sem 
limites entre razão e fé, os teólogos protestantes se esforçaram para mostrar a inexistência de 
contradições entre as duas vertentes da condição humana. Edwards, por exemplo, não 
aceitava a separação entre "coração" (
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