Israel belo de azevedo



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status quo
formando em 1767 uma associação de igrejas (Warren Association) para lutar pela liberdade 
religiosa. A "Bill of Rights", que a garantiria, só viria com a independência. 
   
Isto explica a adesão à guerra americana, contemporânea de outro movimento 
igualmente modelador: o chamado Grande Despertamento ("Great Awakening") religioso, 
que tendo feito avançar as denominações, permitiu que elas também contribuíssem para a 
causa da independência. 
   
Não houve propriamente um só despertamento, mas uma série deles, conquanto 
independentes entre si, [240]com a duração de um século, entre 1725 e 1825. Antes disso, a 
vitalidade puritana desaparecera e as denominações que emergiam não tinham ainda 
qualquer vigor. O calvinismo encontrava dificuldades para prevalecer num ambiente rodeado 
pelo deísmo e pelo arminianismo. Como aconteceu na Alemanha e na Inglaterra, 
   
  
   
"a predestinação, a pessoa de Cristo e a natureza da redenção tinham sido constituídas 

no foco central das formulações ortodoxas. Uma interpretação mais racional tendia a tornar 
estas doutrinas mais aceitáveis, mas esta como as formulações ortodoxas tinham se 
convertido primordialmente em objetos de debate intelectual. Eram artigos para serem cridos 
e não expressões de fé viva. Uma mesma tendência racionalista se manifestava na ênfase 
sobre a decisão e responsabilidade humanas em função mais do pacto do que da iniciativa de 
Deus. Era preciso escolher entre um puritanismo desprovido de vitalidade e versões 
racionalizadas como substitutas. Nem um nem outro tocava o coração e a cabeça, ao mesmo 
tempo". [241] 
   
  
   
O que se pedia, então, dos fiéis? 
   
As palavras de um dos "pais" destes despertamentos podem ser úteis para 
compreender as mudanças esperadas. Um primeiro problema, em função do ambiente em 
que se vivia, a ser enfrentado era a supremacia da razão sobre a fé. Talvez, por isto, num 
sermão de 1733, o filósofo e pastor presbiteriano Jonathan Edwards (1703-1758) mostrava 
como o coração e a mente deviam estar envolvidos na verdadeira religião, já que há uma luz 
espiritual e divina, comunicada por Deus à alma e que é diferente da iluminação obtida por 
meios naturais. "Aquele que é iluminado espiritualmente verdadeiramente apreende e vê" o 
"verdadeiro sentido da excelência divina e superlativa das coisas da religião" e "o real sentido 
da excelência de Deus e Jesus Cristo e da obra da redenção", bem como "os caminhos e obras 
de Deus revelados no evangelho". Iluminado é aquele que 
   
  
   
"não somente crê racionalmente que Deus é glorioso, mas tem o sentido da glória de 
Deus em seu coração. Não há apenas uma crença de que Deus é santo e que a santidade é uma 
coisa boa, mas um sentido da prazerosidade da santidade de Deus. Não somente um juízo 
especulativo de que Deus é gracioso, mas (...) um sentido da beleza deste atributo divino. (...) 
Há uma diferença entre ter uma opinião de que Deus é santo e ter um sentido da 
prazerosidade e beleza desta santidade e graça". [242] 
   
  
   
A toda hora, Edwards repete a expressão "é racional supor", como uma forma de 
dizer que sua doutrina também passa pelo crivo da razão, que ele considera um dom divino. 
Ele tentou dialogar com a filosofia européia, especialmente com Locke, mas no interior da 
perspectiva calvinista, cujo pensamento, diluído pelo arminianismo, pretendeu restabelecer. 
Mesmo assim, não tem dúvida de mostrar a superioridade da dimensão espiritual. 
   
  
   
"Há uma dupla compreensão ou conhecimento do bem que Deus tornou capaz a 
mente humana. A primeira, que é meramente especulativa e nocional, é quando uma pessoa 
apenas especulativamente julga que é uma coisa. (...) A outra consiste no sentido do coração, 
quando há um sentido de beleza, amizades ou doçura de uma coisa, de modo que o coração 
sente prazer e se delicia na presença de uma determinada idéia. Na primeira, exercita-se 
meramente a faculdade especulativa ou a assim chamada compreensão ou a distinção da 
vontade ou disposição da alma. Na última, a vontade, ou inclinação, ou coração, é 
amplamente considerada". [243] 
   
  
   
Sob este pano de fundo, Edwards propõe que o crente se deixe possuir pela luz divina, 
cujo fruto é uma ampla "santidade de vida" e "não uma mera compreensão nocional ou 
especulativa das doutrinas da religião". 
   
  

   
"Esta luz, ao alcançar o centro do coração e mudar sua natureza, fará dele realmente 
disponível para a obediência completa. Ela mostra como a dignidade de Deus deve ser 
obedecida e servida. Ela desenha no coração um amor sincero a Deus, que é o princípio 
básico da obediência verdadeira, graciosa e completa, e o convence da realidade das 
gloriosas recompensas que Deus tem prometido para aqueles que o obedecem". [244] 
   
  
   
Durante os despertamentos religiosos, deu-se à Bíblia não só o papel de guardiã da 
revelação, mas o instrumento cujos ensinos transformam as pessoas. Isto está muito claro 
num sermão, publicado um século depois pelo neto de Edwards, Timothy Dwight 
(1752-1817). Numa espécie de resumo do cristianismo evangélico, Dwight mostra que o 
Evangelho é a Palavra de Deus, que todos somos pecadores necessitados de perdão e 
salvação, que a Bíblia é o livro em que os termos e os meios da salvação são publicados de 
forma exclusiva e que, para ser salvo, os homens precisam compreender os meios e os termos 
desta salvação. A relação do crente com a Bíblia ganha, assim, contornos penetrantes no 
pensamento deste também representante da chamada escola teológica da Nova Inglaterra, de 
matriz completamente calvinista. Como o sermão é uma síntese do pensamento protestante 
sobre a Bíblia, vale transcrever alguns de seus parágrafos: 
   
  
   
"As melhores opiniões de um homem são úteis apenas enquanto conselhos. As 
Escrituras são a Lei, possuídas de autoridade divina e obrigação. (...) Elas são a Palavra dEle, 
que não podem conter erro, engano ou ofensa. Conseqüentemente, elas contêm todas as 
coisas necessárias para a vida e a piedade. (...) Como a Palavra de Deus, as Escrituras nos 
anunciam que, a despeito de nossa rebelião, ele está disposto a se reconciliar conosco. (...) 
Como a Palavra de Deus, as Escrituras são a Palavra dEle, de quem dependemos diariamente 
para a vida, para a respiração e para todas as coisas. (...) Sem ele, somos pobres, miseráveis e 
carentes de tudo. Com seu favor, somos ricos e não precisamos de nada. 
   
(...) 
   
Como pecadores, estamos irreversivelmente condenados pela lei divina. (...) Se 
continuamos nesta situação, o inferno está diante de nós. (...) Fora do Evangelho, toda a raça 
de Adão está sob a sentença da condenação, sem um amigo, sem uma esperança. Para estes 
solitários e miseráveis, o infinitamente misericordioso Deus se dignou fazer conhecido um 
caminho de fuga, um livramento da destruição. (...) Esta grande salvação, no entanto, é 
proferida por Deus em seus próprios termos. Nas mesmas Escrituras, estes são encontrados. 
(...) Podemos obter vida e nos livrarmos da morte. O caminho da santidade, para a qual o 
Evangelho nos dirige, é um caminho elevado. (...) Nas Escrituras (...) somos ensinados, 
somos transformados em possuidores de um título para a vida eterna pela Fé, 
Arrependimento e Santidade. (...) Todas estas coisas não são apenas expostas nas Escrituras, 
mas introduzidas no coração com poder e eficácia supremos. Motivos de grande magnitude 
são nela apresentados para persuadir o pecador ao arrependimento". [245] 
   
  
   
Os despertamentos foram o que foram porque ganharam a fronteira, [246]assim como 
os EUA são o que são porque ganharam a fronteira. A piedade em movimento era a piedade 
dos despertamentos, [247]cujo "evangelho simples" e emocional, de graça para todos, 
combinava método e mensagem, num contexto dominado pelo espírito democrático. [248] 
Como resultado, as denominações populares cresceram rapidamente. [249] 
   
Participar da independência era decorrência do crescimento denominacional, para o 
qual também contribuiu. Partindo-se que, em 1776 e o seria por um bom tempo, as crenças 

prevalecentes "ainda eram o pecado original e a necessidade da graça", [250]não é exagero 
aceitar que "a religião foi a causa fundamental da revolução americana". [251]Não há dúvida 
de que "a revolução foi pregada às massas como um avivamento religioso" e tomada como 
"uma ação de Deus contra os maus". [252] 
   
A profusão de sermões pró-independência o demonstra. Em 1780, Samuel Cooper 
pregou: 
   
  
   
"Paz, paz, desejamos ardentemente, mas não em termos desonrosos para nós ou 
perigoso para nossas liberdades. (...) A voz da providência (...) invadiu o país e o lamento de 
todos nos estimula para prosseguirmos, todos unidos, a guerra com redobrado vigor". [253] 
   
  
   
Uma reafirmação do espírito de religião civil não poderia ser mais explícita como no 
sermão de Ezra Stiles, em 1783. 
   
  
   
"O Congresso pôs na chefia de seu animado exército o único homem [George 
Washington] sobre quem os olhos de todo o Israel estavam colocados. (...) Este Josué 
americano foi levantado por Deus e divinamente formado, por uma influência peculiar do 
Soberano do universo, para a grande obra de liderar os exércitos deste José Americano (agora 
separado de seus irmãos) e conduzir este povo através de um conflito duro e árduo para a 
liberdade e a independência". [254] 
   
  
   
Um resumo do espírito americano aparece num artigo de jornal de Boston, em 1777: 
   
  
   
"Esta nossa terra é uma propriedade de Deus, que no-la deu por herança. 
   
Nenhum outro homem, ou corporação de homens, tem o direito a esta propriedade, ou 
de qualquer parte dela, a menos que nós tenhamos motivo para lhe (ou lhes) dar. (...) 
   
A Grã-Bretanha, ao enviar um exército para nos retirar de nossa propriedade, 
simplesmente porque não renunciamos a nós mesmos e à nossa propriedade, (..) é injusta e 
bárbara.(...) 
   
Como seu exército veio contra nós e não podemos confiar em um exército de carne, 
(...) devemos fitar nossos olhos em Deus para ele esposar nossa causa e pôr um fim à batalha. 
   
(...) Quando Deus, em sua providência, nos chama para tomar a espada. Se alguém se 
recusa a obedecer, a terrível artilharia dos céus é apontada contra ele. (...) Maldito aquele que 
guardar a sua esposa do sangue. (...)" [255] 
   
  
   
As motivações, para este engajamento, foram distintas. Entre os batistas, por 
exemplo, ficou bem explícito que queriam a independência para separar igreja e estado e, 
separando-os, "criar um verdadeiro estado cristão no qual os homens atenderiam a César 
somente naquilo que fosse realmente de César e devotariam o máximo de sua energia para 
servir a Deus". [256] 
   
  
   
Deste modo, o perfil do protestantismo americano vai se delineando cada vez mais 
claramente. Anterior, contemporânea e posteriormente aos despertamentos e ao avanço 
territorial, gestou-se um outro movimento filosófico e teológico, que procurava conciliar a fé 
cristã com a perspectiva ilustrada européia, ainda de matiz britânico. Um protestantismo do 
coração e outro da razão (para usar a imagem de Edwards) conviveram tanto de modo 
separado como interpenetrado. O século de Thomas Paine, John Adams, Benjamin Franklin e 

Thomas Jefferson lia Locke, Hume, Berkeley, mas também Joseph Butler, William Paley e 
os filósofos escoceses do senso comum. 
   
Nos EUA, o encontro desta nova visão com a herança puritana gestou uma nova 
teologia que, pelo seu significado, merece ser sintetizada: [257] 
   
  
   
. valorização do papel do homem na obra da redenção: arminianisticamente, "a 
liberdade e a bondade do homem foram destacadas, foi admitida a possibilidade da queda da 
graça e negada a aplicação particular dos decretos predestinadores de Deus"; 
   
  . ênfase à simplicidade da fé cristã e recusa à complexa dogmática medieval e 
reformada, numa espécie de aceitação da máxima lockeana: creia em Jesus como Senhor e 
leve uma vida virtuosa; 
   
. elevação da ética como finalidade da religião, com grande interesse da análise 
filosófica da moralidade; [258] 
   
. em busca de um cristianismo racional, tendência a considerar as crenças sob o crivo 
da natureza objetiva; [259] 
   
. desprezo pela tradição e pelos condicionantes socio-históricos da fé, já que a razão 
era vista como capaz de libertar o homem da opressão da história; 
   
. aceitação da idéia de progresso como fundamental para o pensamento religioso e 
secular, [260]decorrendo daí, entre outras conseqüências, uma escatologia pós-milenista 
(com a convicção de que o reino de Deus seria realizado na história); 
   
. concepção da relação do homem com Deus como sendo impessoal, considerando-se 
Deus como Poder e Princípio, incapaz de amar e se irar. 
   
  
   
Estas visões estão em flagrante contraponto com o pensamento dos teólogos dos 
despertamentos. Ambos parecem concebidos com preocupação nitidamente apologética. 
Num entanto, em alguns aspectos eles se encontram (como ainda se verá). 
   
Para finalizar o retrato, falta apenas considerar a experiência da secessão. A 
escravidão dividiu o povo americano. No protestantismo, esta divisão foi definitiva. 
   
Em 1855, Samuel B. How (1790-1868) escreveu ao sínodo de sua igreja (Igreja 
Reformada Holandesa), sugerindo-lhe que aceitasse membros escravagistas. Para isto, 
arrolou os argumentos bíblicos para provar que "ter um escravo não é pecado". Para ele, 
quando Deus chamou, um grande escravagista, seus filhos e seus escravos comprados para 
um pacto, não expressou "a menor desaprovação por ter escravos", mas, antes, de maneira 
clara, autorizou-o a conservá-los "como parte de sua família". Em outros textos da Bíblia, 
fica evidente que Deus estabelece o direito de propriedade "não apenas a injusta privação de 
proprietário de seu direito de propriedade, mas até o desejo secreto de fazê-lo". As Escrituras 
ensinam que há uma divisão e direitos de propriedade, como há senhores e há escravos. 
Desobedecer a isto gera anarquia. 
   
  
   
"Admitimos que há grandes desigualdades na posse da propriedade e nas condições 
dos homens, os quais são males que devem ser deplorados. No entanto, com todas as suas 
desigualdades e males, o pior despotismo na terra será preferível a um estado de constante 
anarquia e, conseqüentemente, de constante luta. (...) Sob a anarquia, nenhum está seguro na 
posse da vida ou da propriedade. Deus, portanto, exige de nós respeitar o direito de 
propriedade e deixar o proprietário legítimo dele na posse tranqüila dele, seja ele um servo ou 
uma serva". [261] 
   
  

   
Diante da escravidão, concreta e ameaçada, era preciso elaborar-se uma "defesa 
intelectual" para ela. Alguns intelectuais prepararam-na, rejeitando o ensino de Locke, de 
que a lei natural a repudia, bem como a recomendação da Declaração da Independência. 
[262] 
   
A Bíblia também serviu para oferecer as evidências em contrário. O presbiteriano 
Elijah Lovejoy (1802-1837), mártir da liberdade de imprensa e da abolição da escravatura, 
explicou em 1837: 
   
  
   
"Os abolicionistas sustentam que a escravidão americana é um erro, um sistema 
legalizado de inconcebível injustiça, e um pecado. É um pecado contra Deus, cuja 
prerrogativa de proprietário legítimo de todas os seres humanos é usurpada, e contra o 
próprio escravo, que é privado do poder de dispor de seus interesses [services] como a 
consciência determina ou seu Criador deseja. Tudo aquilo que é moralmente errado jamais 
poderá ser politicamente correto e, como a Bíblia ensina, e os abolicionistas crêem, "a justiça 
exalta a nação, enquanto o pecado é uma reprovação a qualquer povo", eles também 
sustentam que a escravidão é um mal político de enorme magnitude, o que, se não for 
removido, fará desabar rapidamente nossas instituições civis e religiosas". [263] 
   
  
   
A partir desta secessão hermenêutica, a teologia protestante retomou o velho conceito 
de Tertuliano, segundo o qual tudo que é humano é estranho ao cristão. Era um tipo de defesa 
para manter a unidade interdenominacional. Para evitar divisão, as associações de igrejas 
proibiram a discussão do tema da escravidão. As três principais denominações tiveram o 
mesmo procedimento. [264] 
   
Esquematicamente, pode-se dizer que o protestantismo do final do século 19 não era 
muito diferente daquele dos primeiros colonos. 
   
  
   
Quadro 6 
   
TEOLOGIA PROTESTANTE AMERICANA NO SÉCULO 19 
   
  
   
SÍNTESE                              Deus é alcançável pela experiência pessoal 
   
FONTE                              Bíblia como regra infalível para a fé e para a prática 
   
ANTROPOLOGIA               depravação total do homem a partir da queda 
   
SOTERIOLOGIA               tensão entre predestinação (formal) e livre-arbítrio 
(informal) 
   
MORALIDADE               taborismo (ênfase à santidade e à perfeição) 
   
ECLESIOLOGIA               igreja como associação voluntária 
   
TEORIA POLÍTICA               separação entre igreja e estado (com afirmação da 
função espiritual da igreja) 
   
  
   
Se se pudesse resumir a teologia protestante americana seria pela afirmação de que 
Deus é alcançável pela experiência pessoal. Esta concepção voluntarista foi assumida até 
pelos livre-pensadores. 
   
A doutrina da infalibilidade da Bíblia foi ainda mais desenvolvida, vindo depois a ser 
retomada no fundamentalismo, no início do século 20. Os germes foram colocados antes, 
numa espécie de reação às propostas deístas e iluministas, que encontraram grande aceitação 
entre as elites americanas, antes e depois da independência. O protestantismo dos séculos 17 
e 19 é um protestantismo de um livro, a Bíblia, entendida com manual de fé e de prática. 

   
A antropologia e a soteriologia continuam calvinistas, mas apenas no papel; na 
prática, o calvinismo foi suavizado e introduzido um arminianismo informal. Tal foi a tensão 
que chegaram a surgir denominações do livre-arbítrio. [265]Os despertamentos, conquanto 
predestinacionistas na teologia, davam uma ênfase à conversão que exigia uma teologia mais 
arminiana. Isto se aplica mais à soteriologia. A antropologia continuou estritamente 
agostiniana e calvinista. 
   
No plano moral, a conduta cristã devia ser perfeita. A proposta puritana alcançou, 
assim, o seu apogeu. A meta do crente é buscar a perfeição em todas as dimensões de sua 
vida, mirando-se no modelo de Cristo. [266] 
   
A eclesiologia variou de denominação para denominação. O denominacionalismo 
recusa a idéia de que os cristãos devam se constituir sob uma só igreja. O individualismo 
denominacional gerou, de um lado, isolacionismo, mas, de outro, não afastou o respeito 
mútuo, conquanto nem sempre houvesse propriamente cooperação. Exceto em alguns grupos 
mais isolacionistas, prevaleceu a percepção de Wesley: 
   
  
   
"Renuncio todas as outras marcas de distinção, mas dos verdadeiros cristãos, de 
qualquer denominação, sinceramente em nada desejo me distinguir. (...) Amas e temes a 
Deus? É o bastante. Eu te estendo a mão direita da comunhão". [267] 
   
  
   
A teoria política levou ao ápice o princípio de separação entre igreja e estado. Tão 
radical foi a crença e prática do princípio que gerou uma hipertrofia: a reentronização da 
doutrina de que dar a César o que é dele e a Deus o que lhe pertence significa afastar-se da 
preocupação política. À luz de toda a experiência americana, desde os primórdios coloniais, a 
doutrina não deixava de ser uma contrafação. 
   
  
   
A FORMAÇÃO BATISTA 
   
Estas características estão presentes na experiência batista, cuja história não é 
propriamente uma sucessão eclesiástica, mas teológica, dos batistas ingleses. Não começou 
de um centro único e foi se desenvolvendo. À medida que os imigrantes iam chegando, as 
igrejas iam surgindo, como já ocorrera na Europa (mercê da imensa e forçada mobilidade 
entre a Inglaterra e a Holanda, especialmente). [268] 
   
As dificuldades que tiveram para se reunir livremente reproduziram a experiência 
anterior na Inglaterra, em função do transplante da prática de uma igreja estabelecida. Esta 
realidade os levou a uma confrontação, decisiva para a formação do pensamento. No geral, 
mantiveram as crenças e práticas nascidas na Inglaterra, [269]tendo sempre uma relação 
amistosa com os batistas ingleses, exceto, obviamente, durante a guerra pela independência. 
   
Em termos numéricos, seus adeptos eram pouco mais de 500 até 1733. [270]Em 
1795, o número era ainda pequeno: pouco mais de 73 mil membros em 1.152 igrejas, 
dirigidas por 1.125 pastores. [271]Em 50 anos, a membresia se multiplicou por dez, 
chegando a 776.371 pessoas (3,1% da população americana), com 7.376 pastores e 10.914 
igrejas. [272]Mais 50 anos, já na virada do século, a membresia estava em 4.181.000 (5,4% 
da população). [273] 
   
É significativo que o período de maior crescimento numérico tenha se dado, pois, a 
partir da era revolucionária, quando ganharam popularidade, eles se expandiram porque se 
engajaram nas lutas do povo. [274]Outro momento foi a marcha para o oeste, quando, junto 
com os metodistas e outros grupos, acompanharam o movimento da economia para a 
"fronteira". Como avaliou Gaustad, "a força do apelo batista na fronteira" estava "na 

acessibilidade de sua teologia" para aqueles que faziam o oeste. 
   
  
   
"O pregador rural era encontrado comumente na fronteira batista: era um homem que, 
como seus vizinhos, tinha feito sua vida como sitiante mas que, em acréscimo, tomava a 
direção da organização de uma igreja e da pregação do evangelho. Ele poderia ser entendido; 
mais ainda, ele podia ser encontrado, em grandes números, ao longo (...) da fronteira. As 
outras denominações tinham que esperar até que os amigos no Leste pudessem enviar um 
ministro adequadamente formado; os batistas, não. A teologia era acessível, o ministro 
também. A Bíblia era tão acessível quanto rios ou riachos para o ritual do batismo". [275] 
   
  
   
Essa teologia acessível se manteve. Ao longo do período, apesar de seu sistema 
congregacional, os batistas se mantiveram de acordo na maioria dos pontos teológicos, com 
exceção para a natureza da predestinação. 
   
Possivelmente, um fator para esta coesão foram as suas confissões de fé. Apesar da 
má-vontade que sempre houve para com elas, [276]assim mesmo, os batistas americanos as 
produziram, embora em menor número que os ingleses. 
   
Em 1742, a Associação da Philadelphia adotou a Segunda Confissão Londrina 
(1689), apondo-lhe dois capítulos de natureza eclesiástica. [277]Por essa época, já circulava 
uma confissão, ignorada por Philadelphia, contendo, segundo Backus, as crenças 
fundamentais dos "pais da Plymouth Colony". [278] 
   
A Confissão de Londres-Philadelphia continuou sendo o padrão, até o surgimento da 
de New Hampshire, em 1833. Neste ínterim, apareceram outras de escopo mais regional, 
como as da Associações de Kehukee (em 1777), Sandy Creek (1816) e Elkhorn-South 
Kentucky (1801). Todas se reportavam à de Londres-Philadelphia. Além disso, muitas 
igrejas firmavam pactos internos, que eram sínteses de suas crenças. Este material, mais os 
textos dos teólogos, dá o contorno da teologia batista. 
   
O que T.B. Maston disse de um teólogo talvez se aplique a toda a produção teológica 
dos batistas: 
   
  
   
"O teólogo Backus juntou a teologia e a teoria ética da "New Divinity", a 
administração eclesiástica do congregacionalismo dos batistas e a filosofia política de John 
Locke, fundindo-os num sistema mais ou menos consistente, pelo menos consistente o 
bastante para viver por ele". [279] 
   
  
   
Toda a reflexão parece se centrar, como percebeu Backus também, na "pregação das 
doutrinas do pecado original, da justificação pela fé na justiça imputada de Cristo e na sua 
graça soberana e eficaz sobre as almas dos homens, para a sua eterna salvação". Para ele, por 
essa razão, fora feita a reforma na Inglaterra, ao tempo de Eduardo VI. [280] 
   
Pelas suas características de síntese, vale reproduzir alguns desses compromissos 
teológicos. O primeiro é a confissão citada por Backus, como sendo dos colonos de 
Plymouth. O segundo é um resumo que aparece num pacto firmado em 1757 pelos membros 
da igreja de Grassy Creek (Carolina do Norte). O terceiro é termo de união entre os batistas 
regulares e separados, estabelecido em 1801. O quarto é um excerto da Confissão preparada 
para a constituição em 1833 do primeiro seminário teológico dos batistas do sul, em 
Greenvile (Carolina do Sul). 
   
  
   
  

   
  
   
"CONFISSÃO DE PLYMOUTH (Século 17) 
   
  
   
. Deus estabeleceu Adão como a cabeça pública de toda a humanidade, pelo que, 
quando ele se revoltou contra os céus (...), toda a raça humana caiu nele e todos portam sua 
imagem terrena, até que nasçam de novo. 
   
. Numa infinita misericórdia, o Pai eterno deu um certo número de filhos de homens 
ao seu amado Filho, antes que o mundo fosse feito, " para redimir e salvar e ele, por sua 
obediência e sofrimentos, tem obtido redenção eterna para eles. 
   
. Pela influência do Espírito Santo, essas pessoas individualmente, quando vêm à 
existência, são efetivamente chamadas em tempo e salvificamente renovadas no espírito de 
suas mentes. 
   
. Sua justificação diante de Deus é totalmente pela justiça perfeita de Jesus Cristo, 
recebida pela fé. 
   
. Toda alma será guardada pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação eterna. 
   
. Todo o poder de chamar, ordenar e depor oficiais está em cada igreja particular, 
embora seja geralmente adequado e próprio chamar o conselho e assistência de igrejas irmãs. 
(...) 
   
. Todo o poder de governar e disciplinar seus membros está em cada igreja particular, 
embora o conselho de outros, em alguns casos, é benvindo e mesmo necessário. 
   
. O governo da igreja deve ser totalmente pelas leis de Cristo, exercitado em seu nome 
e não pelo braço secular. 
   
. Os ministros do evangelho devem ser sustentados por suas leis e influência e não por 
taxas e obrigações impostas pelo poder civil. 
   
. Os ministros devem pregar e não ler seus sermões, pelo menos em tempos normais, 
como era evidentemente a prática apostólica. O contrário permite aos homens se imporem 
sobre o povo, pela leitura de obras de outros. (...) 
   
. Ampla liberdade deve ser dada a todos os santos para aperfeiçoar seus dons de 
acordo com o evangelho e que a igreja deve encorajar e recomendar aqueles qualificados 
para o ministério do evangelho. 
   
. Os oficiais, quando chamados e ordenados, não têm poder arbitrário, senhorial e 
imposto, mas devem governar e ministrar com o consentimento dos irmãos, que não devem 
ser chamados de leigos, mas tratados como homens e irmãos em Cristo. [281] 
   
  
   
PACTO DE GRASSY CREEK (1757) 
   
  
   
. Batismo de crentes; 
   
. Imposição de mãos; 
   
. Eleição particular da graça pela predestinação de Deus em Cristo; 
   
. Chamada efetiva pelo Espírito Santo; 
   
. Justificação livre através da justiça imputada de Cristo; 
   
. Santificação progressiva através da graça e da verdade de Deus; 
   
. Perseverança final ou continuação dos santos na graça; 
   
. Ressurreição destes corpos após a morte, no dia que Deus indicou para julgar os 
períodos e os mortos por Jesus Cristo, pelo poder de Deus e pela ressurreição de Cristo; 
   
. Vida eterna. [282] 
   
  

   
  
   
TERMO DE KENTUCKY (1801) 
   
  
   
. As escrituras do Velho e Novo Testamento são a infalível palavra de Deus e a única 
regra de fé e prática. 
   
. Há apenas um Deus verdadeiro, e na Divindade ou essência divina há Pai, Filho e 
Espírito Santo. 
   
. Pela natureza somos criaturas decaídas e depravadas. 
   
. A salvação, regeneração, santificação e justificação são pela fé, morte, ressurreição 
e ascensão de Jesus Cristo. 
   
. Os santos perseverarão até o fim pela graça até a glória. 
   
. O batismo de crentes, pela imersão, é necessário para o recebimento da ceia do 
Senhor. 
   
. A salvação do justo e o castigo do mau será eterno. 
   
. É nossa tarefa ser fraterno e cordial uns com os outros, visar a felicidade dos filhos 
de Deus em geral e estar engajado para a honra de Deus. 
   
. Pregar que Cristo experimentou a morte por todos os homens não deve ser uma 
barreira à comunhão. [283] 
   
  
   
CONFISSÃO DO SEMINÁRIO DE GREENVILE (1859) 
   
  
   
. Desde a eternidade, Deus decreta ou permite todas as coisas que se sucederão e 
perpetuamente sustenta, dirige e governa todas as criaturas e todos os acontecimentos; isto 
não quer dizer que ele seja o autor ou aprovador do pecado ou que isto destrua o livre-arbítrio 
e a responsabilidade das criaturas inteligentes. 
   
. A eleição é a escolha eterna de Deus de algumas pessoas para a vida eterna, não por 
causa dos méritos deles, mas apenas pela Sua misericórdia em Cristo, em conseqüência do 
que foram chamados, justificados e glorificados. 
   
. Originalmente, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e livre do pecado, 
mas, através da tentação de Satã, ele transgrediu o mandamento de Deus e caiu de sua 
santidade e justiça original; por que sua posteridade herdou a natureza corrupta e totalmente 
oposta a Deus e Sua lei, está sob condenação e (...) se tornou transgressor de fato. 
   
. A santificação é progressiva através da ajuda do poder divino, que todos os santos 
buscam obter. 
   
. Aqueles a quem Deus aceitou (...) nunca totalmente ou finalmente cairão do estado 
da graça". [284] 
   
  
   
A reflexão produzida neste período lança luzes sobre os conceitos básicos do pensar 
batista. 
   
A história humana é percebida como conseqüência de um pacto, firmado por 
iniciativa divina, diante do qual os homens têm deveres. No plano da longa duração, o 
conceito explica o fracasso humano e os esforços restauradores de Deus. No plano imediato, 
a idéia regula o pertencimento a uma comunidade, que é fruto de uma associação voluntária. 
Assim como Deus faz um pacto com o homem, para regular as suas relações, os homens 
fazem o mesmo no plano político, para regular a vida na 
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