Israel belo de azevedo



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[76] 
   
  
   
Diferentemente do que se vulgarizou acerca de sua obra, Weber não aceitava a tese, 
que chamava de "tola", de que o "espírito do capitalismo" surgiu como uma "conseqüência de 
determinadas influências da Reforma", ou que o capitalismo foi "um produto da Reforma", 
como se lhe contrapõe "o fato de algumas formas importantes do sistema comercial 
capitalista serem notoriamente anteriores à Reforma". [77] 
   
Para ele, o feito do puritanismo foi representar "a conclusão lógica do processo de 
eliminação da magia no mundo". [78]Agora, não havia espécie alguma de meio para se obter 
a graça de Deus, cuja obtenção era possível no mundo medieval através da participação nos 
sacramentos da igreja. 

   
Na verdade, segundo Weber, particularmente os batistas e todos os predestinistas 
(calvinistas estritos) desvalorizaram radicalmente todo e qualquer meio de salvação, 
realizando assim "uma `desmistificação' religiosa do mundo". [79]Uma das conseqüências 
desta nova atitude foi a compreensão de que 
   
  
   
"o homem é apenas um guardião dos bens que lhe foram confiados pela graça de 
Deus. Como o servo da Bíblia, deve prestar conta até o último centavo, não lhe sendo, pois, 
nem um pouco imaginável gastar o que quer que fosse sem uma finalidade que não a glória 
de Deus, mas apenas para a sua própria satisfação". [80] 
   
  
   
A esse propósito, o próprio Reformador ensinou que "todas as coisas foram criadas 
para nós, a fim de que reconheçamos o Autor e agradeçamos sua bondade para conosco". 
Como "foram criadas para nós pela bondade de Deus, destinadas para nosso benefício e 
confiadas a nós", "deveremos um dia prestar contas delas". [81] 
   
A conclusão de Weber é que 
   
"à medida que se foi estendendo a influência da concepção de vida puritana -- e isto, 
naturalmente, é muito mais importante do que o simples fomento da acumulação de capital -- 
ela favoreceu o desenvolvimento de uma vida econômica racional e burguesa. Era a sua mais 
importante, e, antes de mais nada, a sua única orientação consistente, nisto tendo sido o berço 
do moderno "homem econômico", [contribuindo] poderosamente para a formação da 
moderna ordem econômica e técnica, ligada à produção em série através da máquina". [82] 
   
  
   
A posição de Weber, portanto, é que o protestantismo originário favoreceu o 
surgimento do espírito moderno, especificamente por sua ética do trabalho, segundo a qual 
a atividade, e não o ócio ou o lazer, contribui para aumentar a glória de Deus. A conclusão, 
que não fazia parte do projeto weberiano, é que conquanto a formulação religiosa básica do 
protestantismo fosse ainda medieval, as suas conseqüências no plano econômico tiveram um 
escopo profundamente moderno. 
   
Em síntese, na percepção weberiana, 
   
  
   
"a ética calvinista da vocação, com a sua sobriedade, o seu controle do trabalho, o 
seu tabu sobre a ociosidade de qualquer espécie, a sua utilização de toda oportunidade de 
ganho, a sua confiança na bênção de Deus, lançou as bases de um mundo de trabalho 
especializado e ensinou aos homens a trabalho pelo próprio trabalho, produzindo, assim, as 
condições para a atual vida burguesa". [83] 
   
As conclusões de Weber deram margem às mais diversas vulgarizações, para 
aceitá-lo ou para recusá-lo. Parte daqueles que argumentavam a favor de sua tese 
fundava-se na superfície de sua pesquisa e nas conclusões também de outros autores. Suas 
conclusões chegaram a ser utilizadas por apologistas, interessados em mostrar o 
protestantismo como a alavanca principal do progresso tecnoeconômico. 
   
A proposta de Tawney é diversa. Para ele, o protestantismo encontrou em gestação 
uma transformação econômica de natureza capitalista. Os reformadores queriam outra 
coisa e suas idéias ajudaram à formação de um espírito capitalista, foi à sua revelia, muito 
embora o puritanismo tenha efetivamente contribuído para a construção de um novo tipo de 
homem e de sistema econômico. Segundo este autor, 
   
  
   
"as virtudes da empresa, da diligência e da frugalidade são as bases indispensáveis 

de qualquer civilização complexa e vigorosa. Foi o puritanismo que, investindo-as de uma 
sanção sobrenatural, transformou-se de uma excentricidade anti-social em um hábito e uma 
religião". [84] 
   
  
   
Mais radicalmente, Robertson retoma Tawney e inverte Weber, para insistir que o 
protestantismo não influiu no capitalismo, mas, ao contrário, foi o capitalismo que influiu na 
ética protestante. [85] 
   
Fanfani leva estas idéias às últimas conseqüências, ao argumentar que 
   
  
   
"o mundo europeu evoluiu em sentido capitalista ao tempo em que se inicia a 
revolução protestante. A evolução capitalista do século 16 tinha começado a manifestar-se 
pelo menos um século antes. Não apenas indivíduos isolados, mas também grupos sociais 
completos, animados pelo novo espírito, lutavam contra a sociedade, que ainda não se 
encontrava impregnada dele, muito antes de se dar a revolução contra Roma. (...) O 
protestantismo não representou senão um desenvolvimento ulterior no processo de 
desvinculação das ações humanas dos seus limites sobrenaturais. Ao agir neste sentido, não 
produziu efeitos novos, facilitou as manifestações de um movimento que tinha dado provas 
sensíveis de vitalidade antes da Reforma e continuou depois dela". [86] 
   
  
   
À parte essas perspectivas, a conclusão de Richard Niebuhr sintetiza bem uma 
posição aceitável: "não se pode discordar da afirmação fundamental de que existe nos 
tempos modernos estreita relação" entre o calvinismo e o protestantismo. [87] 
   
Troeltsch segue na mesma direção, aceitando a contribuição substancial da Reforma 
para a consolidação do capitalismo moderno. Ao formular sua resposta ao problema, estava 
preocupado, não só com a relação entre teologia e economia, mas entre teologia e teologia. 
Por isto, observou que a cultura moderna é uma luta contra a cultura eclesiástica e sua 
conseqüente substituição por idéias culturais autonomamente elaboradas. Conquanto não 
sejam sinônimas, "a Renascença e a Reforma constituem o fim da cultura 
católico-eclesiástica do Ocidente, geralmente chamada de Idade Média". [88]Como 
corolários desta nova percepção, o individualismo nas convicções, o relativismo das teorias, 
a intramundanidade da orientação existencial e o otimismo humanista tornam difícil a 
sustentação de qualquer cultura eclesiástica. 
   
  
   
"Como o protestantismo tira seu significado ao elaborar este individualismo 
religioso e transmiti-lo ao amplo campo da vida em geral, fica claro (...) que teve de 
cooperar consideravelmente na criação do mundo moderno". [89] 
   
  
   
O pensador alemão distinguiu, no entanto, o velho protestantismo e o novo 
protestantismo. Para ele, o velho protestantismo luterano e calvinista representa, em que pese 
sua soteriologia anticatólica, "uma cultura eclesiástica no sentido da Idade Média e procura 
ordenar o estado e a sociedade, a educação e a ciência, a economia e o direito segundo os 
critérios sobrenaturais da revelação", [90]o que o torna, então, completamente antimoderno. 
Em síntese, para Troeltsch, este velho protestantismo 
   
  
   
"responde, em primeiro lugar, à velha questão acerca da certeza da salvação, que 
pressupõe a [certeza] da existência de Deus e sua natureza ético-pessoal, em geral, a imagem 
bíblica e medieval do mundo, e converte em problema a necessidade de como, diante da 

condenação de todos pelo pecado original e da fragilidade ou nulidade de todas as forças da 
criatura humana, se poderá obter a salvação do juízo condenatório, a eterna beatitude e uma 
paz serena e esperançosa sobre a terra". [91] 
   
  
   
A conclusão de Troeltsch, no entanto, é que este velho protestantismo foi se 
transformando, de modo que, se não é o criador do espírito moderno, pelo menos 
fomentou-o, condicionando-lhe o curso. 
   
  
   
"No fundo, o protestantismo não tem feito mais que eliminar em seu âmbito os 
obstáculos que o sistema católico, apesar de todo o seu brilho, opôs ao nascimento do mundo 
novo e, sobretudo, tem proporcionado o terreno saudável de uma boa consciência e de uma 
força pujante para a plenitude de idéias seculares e livres da modernidade". [92] 
   
  
   
Diante do neoprotestante Troeltsch, a pergunta a fazer é se os batistas representam o 
velho (e real) ou o novo (e ideal) protestantismo. Evidentemente, aplicado o postulado, os 
batistas representam o velho protestantismo, velho, porém, real. 
   
Analista do protestantismo brasileiro, Rubem Alves faz a mesma pergunta para o 
protestantismo, particularmente para o de missão. Ele aceita parcialmente as argumentações 
de Weber e Troeltsch, ao ver no protestantismo "notáveis semelhanças estruturais com o 
espírito medieval", apesar de articular os temas da liberdade de consciência, do livre exame 
da Bíblia e da democracia representativa. Sua visão sacral, no entanto, conduz a uma 
sacralização da sociedade racional e burocrática moderna. 
   
  
   
"A justaposição do espírito medieval ao espírito da modernidade tem, como 
resultado, a superposição de um outro discurso de natureza ontológica ao discurso utilitário 
de que a sociedade racional burocrática se vale para legitimar-se. O meramente funcional é 
elevado à condição de verdade". [93] 
   
Além disso, Rubem Alves entende que o Brasil não conheceu o tipo de 
protestantismo descrito por Weber. Neste continente, a espiritualidade protestante não 
implicou numa ética de caráter político a exigir a transformação para a glória de Deus. Antes, 
a ética foi interiorizada e individualizada. O crente tende, por um lado, a se a adaptar "ao 
mundo tal como ele é", já que "suas leis, jurídicas ou funcionais, são uma expressão da 
vontade de Deus", e se comportar como um excelente "funcionário" interessado em aumentar 
a eficiência das estruturas existentes. Por isto, "ele é o bom empregado, o bom funcionário, o 
bom cidadão, aquele que obedece às regras do jogo, tais como foram impostas". [94] 
   
Na mesma tradição crítica, Prócoro Velasques Filho interpreta o protestantismo 
brasileiro como uma anti-Reforma, pela perda, operada já nos Estados Unidos de onde vem, 
da ênfase na justificação pela fé. "Na prática, o protestantismo voltou a afirmar que a 
salvação se realiza através da aceitação de um corpo de doutrinas". [95] 
   
Transcorridos quase cinco séculos da proposta original dos pais do protestantismo, o 
problema é determinar se se pode julgar o protestantismo por sua fidelidade a Lutero ou a 
Calvino, os teólogos que venceram. De qualquer modo, a reflexão se impõe, especialmente 
considerando-se o fato de que Lutero e Calvino, por exemplo, têm sido muito pouco lidos 
realmente no Brasil, inclusive pelos teólogos. Lutero tornou-se um patrimônio exclusivo dos 
luteranos. Só para mencionar outras três grandes denominações históricas, os batistas o 
ignoram porque a Reforma que fez não foi completa. [96]Os presbiterianos o esquecem 
porque têm seu próprio pai. Os metodistas também têm herói próprio. 

   
No entanto, isto não significa que mesmo estes pais da fé foram lidos no Brasil. Basta 
olhar-se para a bibliografia teológica. Lutero só ganhou traduções de poucos dos seus livros. 
Sua obra completa não está disponível em português. Quanto a Calvino, só as Institutas 
foram traduzidas. Wesley ganhou a tradução dos seus sermões e mais nada. 
   
  
   
Apesar dessa realidade, determinada por fatores que não convém considerar aqui, o 
protestantismo brasileiro é ainda protestantismo. Se é verdade que foi transformado em 
religião civil nos Estados Unidos, também é verdade que foi retransformado aqui numa 
contra-religião civil. Percorrer este itinerário ajuda a compreender o modo brasileiro de ser 
protestante. 
   
  
   
A SÍNTESE DO NOVO 
   
O nascimento do protestantismo faz parte de um movimento histórico integrado por 
setores interdependentes. Há uma correlação, sem necessariamente haver uma precedência, 
entre Renascença/humanismo e Reforma/protestantismo. 
   
Assim, o protestantismo, com seu humanismo teocêntrico (sic), seu secularismo 
psicológico (sic) e sua ética metafísica (sic), integra um mesmo movimento, de que fazem 
parte o humanismo e o capitalismo. 
   
O sólido humanismo fez como os primeiros filósofos cristãos da era patrística, que 
adaptaram o pensamento helênico genericamente tomado aqui como um discurso (poético, 
teológico, filosófico e científico) secularizante da felicidade, da natureza e da história pelo 
homem, classificado, enfim, como o cânon de si mesmo. 
   
O nascente capitalismo ofereceu condições para o surgimento de um pensamento 
gestado por um novo tipo de determinação histórica, o liberalismo, que faz surgir a mítica 
figura do mercado como regulador da polis. De certo modo, o individualismo protestante só 
pôde florescer neste novo solo industrial. 
   
Ao invés, pois, de se falar numa filiação de um ao(s) outro(s), talvez seja melhor 
buscar uma paternidade comum, esta: a exaustão das respostas, o cansaço das instituições e o 
esgotamento das culturas medievais. 
   
Por isto, quando proclamou que a salvação se recebe na justificação pela fé ("sola 
fide"), Lutero catalisou os anseios expressos num grande medo de punição pessoal diante das 
desgraças que se abateram sobre os seus contemporâneos, então insatisfeitos com a resposta 
sacramental (isto é, operação da salvação pelas obras) organizada pela Igreja Católica. 
Quando insistiu que a mediação do homem com Deus se faz por meio de Jesus Cristo ("solus 
Christus"), o monge de Erfurt dispensou uma instituição cuja mediação era vista por muitos 
como tendo fracassado e mesmo que não o tivesse, era preferível, na concepção humanista, 
ser mediado pelo próprio Deus (isto é, não ser mediado). Quando propôs a Bíblia como guia 
infalível para teologia e para a vida ("sola Scriptura"), o agostiniano ofereceu uma autoridade 
normativa diante de tantos nomos existentes, todos falíveis (a Igreja mesmo, a filosofia 
disponível, a física de então) porque humanos. [97] 
   
A Reforma era vista pelos primeiros protestantes como uma nova plenitude dos 
tempos a libertá-los do caos romano. No funeral de Lutero, Philip Melanchton sintetizou 
assim o trabalho do seu mestre: 
   
"Lutero trouxe à luz a doutrina verdadeira e necessária. Que as densas trevas 
existentes afetaram a doutrina do arrependimento é evidente. Em suas discussões, ele 
mostrou o que é o verdadeiro arrependimento e qual é o refúgio e o conforto seguro da alma 
que teme a ira de Deus. Ele expôs a doutrina de Paulo, que diz que o homem é justificado pela 

fé. Ele mostrou a diferença entre a lei e o evangelho, entre a justiça da fé e a justiça civil. Ele 
também mostrou o que é o verdadeiro culto a Deus e reconvocou a igreja da superstição pagã 
que imaginava que Deus é cultuado, mesmo quando a mente, agitada por alguma dúvida 
acadêmica, afasta-se de Deus. Ele nos ofereceu o culto em fé e com uma boa consciência e 
levou-nos ao único Mediador, o Filho de Deus, que está assentado à mão direita do Pai 
Eterno e intercede por nós -- não às imagens ou a homens mortos". [98] 
   
  
   
Olhando para sua experiência, Lutero recordou, poeticamente: 
   
  
   
"Fui prisioneiro de Satã   
   
a noite me envolvia. 
   
A minha vida, triste e vã, 
   
nas trevas se esvaía. 
   
Abismo horrível me tragou, 
   
o mal de mim se apoderou
   
fui preso no pecado". 
   
(LUTERO, c. 1525) [99] 
   
  
   
Como lembra bem Christopher Hill, o protestantismo interiorizou o sentido do 
pecado, ao descartar os mediadores e afirmar que cada fiel tinha um sacerdote em sua própria 
consciência. A substituição da penitência e da absolvição externas pela penitência interna 
   
"libertou alguns homens dos terrores do pecado. Os eleitos eram os que sentiam 
dentro de si o poder de Deus. Deus falava diretamente às suas consciências, sem passar pela 
mediação de sacerdotes ou sacramentos. A doutrina luterana do sacerdócio de todos os fiéis 
destruiu a velha moldura hierárquica da Igreja e colocou o homem diretamente na presença 
de Deus". [100] 
   
  
   
  
   
Se isto é novo, o velho continua: "os homens emanciparam-se dos padres, porém não 
dos terrores do pecado, ou do padre interiorizado em suas consciências". [101] 
   
Em certo sentido, pode-se dizer que as primeiras (preocup)ações de Lutero 
resultaram num protestantismo de espírito (ou da misericórdia), com uma dimensão profética 
(na acepção judaico-cristã). Os desdobramentos europeus do seu movimento 
transformaram-no num protestantismo de Estado, designação válida para as experiências nos 
países onde os princípios Reformados se tornaram hegemônicos, sejam de contorno luterano, 
presbiteriano ou anglicano. O Lutero da misericórida teve que ceder (ou conviver) ao Lutero 
do Estado. Com Calvino não foi diferente. Nem com Zwinglio. 
   
O(s) protestantismo(s) daí resultante(s) conserva(ra)m esta tensão. O percurso interno 
das igrejas protestantes de igual modo mantém o paradigma: começam orientadas pelo 
profetismo (interessadas no protesto, na Reforma da sua igreja e do mundo) e passam para o 
denominacionalismo (preocupados com a expansão da igreja e com a manutenção da 
doutrina estabelecida). 
   
A tipologia de Reinhold Niebuhr pode ser útil para a compreensão do fenômeno 
protestante. Ao considerar a relação dos cristãos com a sociedade, ele os classifica em três 
grupos. Os perfeccionistas (ou santificacionistas) se recusam a se comprometer com a 
sociedade. Os profetas insistem em despertar as consciências para as necessidades de 
vivência das responsabilidades sociais. Os estadistas são capazes de encetar compromissos 

com o mal em benefício da justiça social. [102] 
   
Há outras tipologias, mas preferimos sugerir (mais) uma, inspirados na de Niebuhr, 
mas com outra preocupação. O desenvolvimento do protestantismo pode ser interpretado a 
partir de dois pólos: o protestantismo de doutrinas e o protestantismo de princípios. [103] 
   
Cedo, muito cedo, os princípios formal (sola Scriptura) e material (sola fide) da 
Reforma passaram a ser controlados por grupos que, nos Estados Unidos, acabaram 
recebendo o nome de denominações, as quais se ocuparam de erigir sistemas religiosos 
completos, numa espécie de escolástica sem filosofia. Assim, os princípios acabaram se 
subordinando às doutrinas e o indivíduo protestante tornou-se aquele que se submete a estas 
doutrinas, mesmo que ignorante do princípio que as deveria ter gerado. 
   
Este protestantismo de doutrinas é basicamente denominacional, desenvolvendo-se a 
partir de si mesmo. Como conseqüência, voltou-se para a expansão, isto é, para o aumento do 
número de pessoas a ele ligados enquanto membros. Assim, protestante não é quem diz que 
é, como o católico, mas quem adere às doutrinas e se empenha por sua disseminação. 
   
No plano do pensamento, o protestantismo de doutrinas não se preocupa com as 
perguntas da filosofia, porque se entende fazendo uma meditação apenas para explicitar o 
que já está posto numa fonte divina (a Bíblia). No máximo, a filosofia é utilizada para 
explicar essas mesmas doutrinas, nunca para questioná-las. 
   
Historicamente, no interior do protestantismo denominacional triunfou a perspectiva 
calvinista, na verdade, um sistema de pensamento que pervadiu praticamente todas as 
denominações. Isto é verdade para o protestantismo europeu e para o norte-americano. Para o 
brasileiro, também o é, mas com tantas transformações que se torna difícil identificá-lo, 
apesar de ser a sua uma teologia da repetição. [104] 
   
Na Europa, houve muitas Reformas. A luterana passou ao largo, por razões teológicas 
e geográficas, do calvinismo. A influência só viria mais tarde, com a irrupção do movimento 
pietista. Por igual, a Reforma anabatista, que não gerou nenhuma grande denominação, 
porque acabou derrotada, também não bebeu de Calvino. A Reforma inglesa inicialmente 
não era propriamente uma Reforma, porque a teologia continuava mais católica do que 
protestante. Até hoje se discute se o anglicanismo é protestantismo ou um paracatolicismo. O 
desenvolvimento posterior do puritanismo, no entanto, foi uma construção mental do 
calvinismo, tanto na sua cosmologia quanto na sua teoria política. Quanto ao 
presbiterianismo, ele é a própria carne do calvinismo. 
   
Os batistas são um caso especial, porque, herdeiros do puritanismo, tiveram pouco a 
ver com ele e muito menos ainda com o anglicanismo. No entanto, eles são o exemplo da 
tensão entre calvinismo e anticalvinismo vivida pelas diversas denominações. A dificuldade, 
na verdade, nunca foi resolvida. O calvinismo não afirmado foi sempre vivido na prática. 
Basta ler os manuais batistas de teologia. 
   
Ainda na Europa, cedo se desenvolveu um outro tipo de protestantismo, mais 
interessado nos princípios protestantes e menos na expansão das igrejas. Se o protestantismo 
de doutrinas estava pouco interessado no método da correlação (no sentido tillichiano), o de 
princípios estava mais voltado para as implicações culturais da fé. Por isto, esses 
protestantes, teólogos e filósofos, queriam uma Reforma que fosse além e não se tornasse 
apenas uma contrafação do catolicismo. 
   
Esta tendência permaneceu por entre as frestas das igrejas e do protestantismo de 
princípios. Na verdade, o protestantismo de princípios se desenvolveu no interior do 
protestantismo denominacional. O resultado do seu trabalho resultou numa espécie de 
reconciliação entre religião e ciência, entre religião e filosofia, entre religião e economia. 

Todo o movimento iluminista faz parte deste movimento. 
   
Outro conceito de Tillich ajuda a entender este protestantismo ilustrado. É o chamado 
método da correlação. Tillich entende que a filosofia e a teologia "não andam separadas, nem 
são idênticas, mas correlatas". A filosofia coloca as perguntas, para as quais não pode dar 
respostas "finais ou existenciais", [105]tarefa que cabe à teologia, que "considera o que nos 
preocupa de maneira inescusável, final e incondicional. Não enquanto 
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