Israel belo de azevedo



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Batistas! A bandeira desfraldada que flutua sobre vós é somente a de Jesus; os 
princípios que vos governam têm somente a autoridade de Jesus; as ordenanças que vos 
distinguem têm o exemplo de Jesus somente; e o fundador de vossas Igrejas é Jesus . Seja 
vossa a devoção profunda. Seja vosso o zelo ardente. Seja vosso o espírito que animava os 
feitos de valentia e sofrimento de nossos nobres martirizados antecessores. Movamo-nos em 
harmonia, a pelejar constantemente e trazer a armadura constantemente, e logo os cânticos 
dos anjos anunciarão o advento da era em que os "os reinos do mundo serão reduzidos a 
nosso Senhor e ao seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre jamais". [744] 
   
  
   
Evidentemente, os batistas de segunda geração não têm a mesma radicalidade. 
[745]No entanto, no plano geral, e isto exigiria uma pesquisa complementar, a percepção é 
esta mesma. 
   
O que autoriza esta visão é a posse da Bíblia e sua interpretação, considerada correta, 

associada à experiência da conversão, valorizada (internamente) como superior quando 
dramática. O que é verdade para o pietismo em geral, [746]é-o também para os batistas em 
particular. [747]Afinal, a igreja é definida como uma comunidade local de regenerados, isto 
é, convertidos. 
   
A posse da Bíblia e de uma experiência religiosa primordial pervadem a visão de 
mundo e as relações. A partir delas, todos devem se interessar em multiplicá-las nas vidas 
dos outros. O crente, assim, é um portador de missão, entendida precipuamente como a 
responsabilidade de oferecer aos outros a salvação que já experimentou. 
   
Esse entendimento não estava explícito nas primeiras confissões de fé. Nos EUA, 
enquanto constituídas por imigrantes, interessados no cultivo da religião já assumida, as 
igrejas também não se ocuparam . Evangelizar tornou-se um dever a partir do início do 
século 19 norte-americano, com a arminianização da teologia batista, provocada por vários 
fatores, entre os quais as experiências de reavivamento, o encontro com o metodismo e a 
necessidade de crescimento numérico, aspectos que se conjunta na história. 
   
  
   
b. O papel que cada seguidor atribui à sua igreja pode ser vista no desenvolvimento 
interno da explicação sucessionista, segundo a qual os batistas são anteriores ao catolicismo 
romano e que permaneceram ao longo da história até seu ressurgimento na idade moderna. 
   
Nada emblematiza melhor a autocompreensão batista do que o sucessionismo que, 
aparecido praticamente no mesmo contexto do crescimento numérico dos protestantes 
norte-americanos, ainda se constitui uma visão significativa. Conquanto os autores mais 
recentes não o esposem afirmativamente, é possível que a maioria o tenha como postulado. A 
visão da igreja como sendo apenas a igreja local é uma herança batista inglesa que o 
landmarkismo cristalizou e reinterpretou. 
   
O anticatolicismo, que permeia a dogmática, a moral e a ética, é inglês, 
norte-americano e, também, brasileiro. Os missionários, ao chegarem, não eram 
anticatólicos. Ficaram aqui, a partir dos embates com o catolicismo pelo domínio do espaço 
religioso. No entanto, a argumentação contra o catolicismo não lhes era estranha, apesar de 
virem de um contexto onde eram maioria. 
   
Minoritários, afirmaram todos os seus valores, especialmente os mais antitéticos ao 
catolicismo majoritário, que consistiu numa autêntica religião civil, diferente da religião civil 
em que consistia o protestantismo-norte americano. Assim, este tipo de anticatolicismo é 
uma invenção brasileira, ao ter gerado uma moral (de costumes) mais rígida que a originária 
norte-americana e uma ética (política) de separação entre igreja e estado, como ocorrera na 
Inglaterra e nos Estados Unidos, e também entre igreja e sociedade, como não ocorreu nas 
pátrias-mães. 
   
Como fica evidente nas páginas de O Jornal Batista, [748]o anticatolicismo 
brasileiro assume a forma de uma luta pela manutenção do Estado leigo e de uma defesa da 
supremacia do protestantismo sobre o catolicismo. Por isto, como já salientado, os batistas 
desenvolveram sua teologia social a partir de uma visão do catolicismo tomado como 
inimigo da verdadeira religião, adversário de toda a forma de liberdade de expressão e 
entrave ao almejado desenvolvimento econômico do país. [749] 
   
Um dos corolários deste anticatolicismo, embora não advenha tão somente desta 
posição, foi o sucessionismo, propugnador da precedência histórica dos batistas em relação 
aos católico-romanos. Esta precedência gera um sentimento de superioridade, experimentado 
em relação ao catolicismo e também ao protestantismo em geral. A ênfase à dimensão local 
da igreja é filha desta visão, numa espécie de recusa a uma super-igreja, onde não há lugar 

para encontros pessoais, com Deus e com os outros crentes. 
   
  
   
c. Quanto à construção teológica, verifica-se um aparente desinteresse pela teologia 
enquanto ciência. A preocupação se centra no arcabouço das doutrinas, tomadas sempre 
como bíblicas, razão por que cada crente pode formulá-las e reformulá-las. Coerente com o 
princípio do sacerdócio universal, a teologia é concebida como uma tarefa de todos (os 
leigos) e não apenas de um corpo técnico (sacerdotes teólogos). 
   
O modo como os batistas vêem a reflexão teológica no Brasil foi sintetizado por W.C. 
Taylor de modo magistral: "a erudição batista está animada de paixão evangelizadora". 
[750]Pela clareza do ideário, vale a pena citar-lhe mais longamente: 
   
  
   
"Os batistas são educadores do intelecto e da consciência. (...) Seu supremo serviço 
ao reino de Deus pela educação, porém, tem sido a educação de um ministério numero para 
as igreja bíblicas. Nosso pensamento espiritual e democrático do ministério exige isto, se não 
quisermos ser vítimas de ignorancia e fanatismo". [751] 
   
  
   
Esses pastores formulam sua teologia, forte pela influência imediata, mas de curta 
duração (porque geralmente apenas verbal), pelo púlpito, pela cátedra e pelas publicações 
(livros de doutrinas e estudos curtos de educação religiosa). [752]Essa teologia aprendem-na 
nos seminários, tidos como centros de "erudição na interpretação das Sagradas Escrituras". 
[753]No caso brasileiro, não há teólogos, [754]no sentido de que não há pessoas que vivam 
para pensar/escrever teologia ou que façam da reflexão teológica o fulcro de seu labor. Os 
formuladores são geralmente pastores de igrejas no exercício também da função docente nos 
seminários. Este não é, porém, o problema. Neste sentido, não haveria filósofos no Brasil. O 
problema está na exaltação tayloriana, que subordina a qualidade da erudição a uma 
finalidade evangelizadora, associada à profissão de fé como apresentada por Roque Monteiro 
de Andrade, para quem "nunca foi e nunca será ciência nenhum esforço intelectual que 
discrepe da revelação de Deus contida nas aurifulgentes páginas da Bíblia". [755] 
   
O utilitarismo da tarefa do teólogo foi bem posta pelo pastor Irland Pereira de 
Azevedo, ao declarar que os batistas não querem nem "um gigantismo do intelecto", nem "o 
nanismo do coração", devendo o Seminário "desenvolver equilibradamente o intelecto, as 
emoções e a vontade", para o que será necessário "formar homens de Deus, dando-lhes 
conhecimento sólido das Escrituras, da reflexão teológica", de modo que estejam aptos "a 
comunicar o Evangelho, a contextualizar a mensagem Bíblica a este tempo. [756] 
   
  
   
"A maior necessidade hoje não é de conhecimentos das correntes teológicas, mas de 
conhecimento da Bíblia. O povo está à míngua da Palavra de Deus. Os pastores têm de ser 
pastores e mestres, ensinando este livro que transforma vidas, que transforma pecadores em 
santos, e santos em mais santos, de modo a servir aos propósitos de Deus no mundo". [757] 
   
  
   
Portanto, "a necessidade maior das igrejas é de obreiros e não de teólogos", 
conquanto o Seminário também vá formar "homens de reflexão", os quais "vão refletir" e 
"fazer apologética cristã", influenciando assim "a sociedade com u'a mensagem de acordo 
com categorias de pensamento e as necessidades de seu tempo". [758] 
   
Esses homens, "além de seu caráter e seu procedimento, rigor e vigor na investigação 
teológica e científica", precisam demonstrar "profunda e genuína piedade, que afinal, não são 
incompatíveis". Embora seja evidente que a "igreja precisa do intelectual, do homem de 

pensamento, do homem de reflexão", também "precisa do homem de reflexão, que seja 
piedoso, porque o homem de reflexão sem piedade desencaminha o povo de Deus e não abre 
novos caminhos". [759] 
   
Que espaço há para o pensar que não pode discrepar do dado (a Bíblia) e nem da 
finalidade (a evangelização)? [760] 
   
  
   
Uma primeira observação é que, como resultado deste programa, a teologia batista 
produzida no Brasil é sempre uma teologia bíblica, no sentido de que compreende como 
sendo sua tarefa a sistematização do saber encontrado na Bíblia. Assim, teologia é uma 
interpretação da revelação bíblica. Ao proceder assim, acaba sendo uma teologia da 
repetição. Seu objetivo principal é pedagógico: explicar os textos bíblicos aos leitores, 
especialmente os mais novos. Não se trata de um pensar. [761]Portanto, não é ela 
propriamente uma logia sobre Deus, e suas relações, como se a Bíblia já contivesse esta 
logia. Apesar do postulado acerca do livre-exame, a interpretação acaba se tornando um 
cânon à parte: não só a Bíblia é verdade como também o é certa interpretação dessa verdade. 
[762] 
   
  
   
Um segundo aspecto é que a teologia batista no Brasil, como ocorre com outras 
denominações, pretende-se supranacional, ao supor não existir uma teologia nacional em 
qualquer país. Como apenas interpreta a Bíblia, a produção teológica é tida como estando à 
margem de qualquer influência da cultura onde está inserida. 
   
Com pouquíssimas exceções, todos os formuladores da dogmática batista no Brasil 
não têm sido brasileiros. No máximo, esses brasileiros têm escrito manuais de doutrinas, que 
apenas sintetizam verdades gerais, sem qualquer reflexão. Sua virtude é apresentar o material 
de modo mais próximo ao seu público. 
   
  
   
Em terceiro lugar, a teologia aqui produzida é eminentemente utilitária. Talvez 
coubesse dizer que o teólogo batista é sempre orgânico (no sentido gramsciano). Este 
utilitarismo se revela em duas dimensões: a polêmica e evangelização. 
   
Se é verdade que a teologia é quase sempre apologética, nem toda ela é polêmica. 
Apologética é aquela que faz a defesa do cristianismo (ou elabora uma apresentação positiva 
do cristianismo a partir de negativas prévias) como um todo. Polêmica é aquela que faz uma 
defesa de uma doutrina denominacional contraposta a outra doutrina. 
   
Há algo de apologético na teologia batista, mas há muito mais de polêmico. A 
apologia está, por exemplo, na afirmação do cristianismo (mesmo que protestante) como 
indispensável para o desenvolvimento de uma nação, como fazem os autores batistas, 
tributários de Émile Laveleye, Rui Barbosa e Eduardo Carlos Pereira. 
   
Quando, no entanto, põe-se a argumentar contra os "erros" católicos ou 
presbiterianos, ela está polemizando. Há algo de apologético em não aceitar o catolicismo 
como cristianismo. Como a recusa é baseada nos "desvios" doutrinários católicos ou 
metodistas, polemiza-se apenas. 
   
Em quarto lugar, como conseqüência destas preocupações, a teologia acabando 
ficando mesmo uma teologia da repetição, sem originalidade e profundidade em sua 
meditação. Segundo a crítica de um teólogo batista, isto se dá por se "considerar a verdade 
como dádiva", à qual se deve "aderir ou assentir". A partir disso, "as pessoas falam de 
doutrinas e princípios batistas como se fossem aparelhos de gravação a repetir o que neles foi 
gravado por um processo qualquer". Essa 

   
  
   
"superficialidade doutrinal se manifesta pelo apego a fórmulas repetidas, pela 
teologia que se limita a ser uma teologia de compêndios, geralmente importada ou 
transplantada, ou pela teologia que se caracteriza por ser uma apropriação particular, de um 
indivíduo particular, numa situação particular que, então, forma uma escola de seguidores". 
[763] 
   
  
   
Em busca de maior solidez doutrinária, aquele pensador, neste caso marginal, 
entendia que a produção teológica é um fazer "essencialmente humano", passível "de todas 
as limitações" próprias das "realizações humanas", razão por que "deve nascer de um 
processo de reflexão crítica", exercício em que o indivíduo "desempenha papel 
preponderante por ser ele desafiado a interpretar o sentido da palavra de Deus para o tempo" 
presente. [764] 
   
  
   
O autor oferece algumas causas para esta superficialidade, que merecem ser listadas, 
embora não seja o caso de as discutir: 
   
  
   
. ênfase ao ativismo eclesiástico, 
   
. "pouca ênfase à reflexão em torno dos valores cristãos", 
   
. falta de hábito de leitura entre os crentes, 
   
. ausência nos sermões de reflexão sobre "os problemas enfrentados pelos crentes em 
geral", 
   
. deficiência das publicações quanto aos aspectos contemporâneos da fé, 
   
. "proliferação indiscriminada de seminários e institutos teológicos", 
   
. deficiência na educação religiosa nas igrejas; 
   
. "atitude mística e contemplativa da fé em contraste e negação ao aspecto de reflexão 
e de questionamento dinâmico de sua elaboração histórica", "atitude constantemente 
refletida na falsa dicotomia espiritual x intelectual", 
   
. "consideração da teologia como algo acabado e final que é apenas para ser recebido 
(...) e não como algo a ser elaborado a partir de e com o povo de Deus que forma a sua igreja 
no mundo", e 
   
. consideração da vida cristã como "oásis desvinculado do deserto que o circunda". 
[765] 
   
  
   
Por esses caminhos fez-se e ainda se faz teologia, embora com menor preocupação. 
   
O espírito que rege as relações entre batistas e católicos e protestantes pode estar 
nesta afirmação de cinco líderes norte-americanos, diante do problema do ecumenismo (que 
eles chamam unionismo): 
   
  
   
"Uma vez que a presente condição do cristianismo dividido é inquestionavelmente o 
resultado dos desvios dos ensinos simples e puros das Sagradas Escrituras, o único caminho 
possível para a união orgânica é a volta às mesmas Sagradas Escrituras, fielmente 
interpretadas. 
   
Se disserem que no estado atual das coisas é impraticável, responderemos que, em tal 
caso, a união orgânica com os batistas é inteiramente impossível, pois que nos sentimos 
inalteravelmente presos às Santas Escrituras, como nossa lei e regra de fé e de conduta. 
   
(...) 

   
Não convidamos, nem desejamos que alguém venha para nós, a não ser movido por 
uma convicção pessoal, resultante de um estudo das Santas Escrituras, feito com o propósito 
de acertar com o passo do dever".[766] 
   
  
   
Nota-se numa declaração destas, como em muitas outras já referidas, um certo 
messianismo, de natureza estritamente religiosa. Os batistas se vêem como detentores 
(exclusivos, no dizer de alguns autores) das verdades cristãs, auto-atribuindo-se o papel de 
disseminadores desse ideário pelo país e pelo mundo. Os lemas de suas duas juntas 
missionárias são: "a pátria para Cristo" (missões nacionais) e "o campo é o mundo" (missões 
mundiais). [767] 
   
Sua teologia é fruto desta autocompreensão utilitária. 
   
Sua teologia é fruto também de outro tipo de utilitarismo: aquele voltado para a 
solidificação da instituição. [768]A tarefa da teologia é tomada como sendo a de fornecer 
elementos para o crescimento numérico das igrejas e para o treinamento (em funções 
evangelizadoras) dos seus membros. Assim, pensar deve ter como finalidades a defesa do 
grupo religioso e a expansão do ideal cristão na perspectiva batista. 
   
  
   
Como resultado, o que se produz em geral é uma teologia: 
   
-- acrítica, enquanto incapaz de refletir sobre si mesma e, por isto, sem interesse em 
elaborar uma metalinguagem necessária à sua auto-superação e desenvolvimento; 
   
-- anti-histórica, enquanto pretendedora de uma irreferência ao político e, assim, 
senhora de uma inexistente, impossível e desnecessária neutralidade diante das dimensões 
socioeconômicas e políticas do homem; 
   
-- antimoderna, enquanto tracejada em categorias ininteligíveis para Atenas, 
conquanto aceitáveis para Jerusalém. 
   
Se estas são características que alguns tacharão de negativistas, há valores positivos, 
entre vários, que podem ser destacados: 
   
-- inteligibilidade. Por sua linguagem e por seus veículos, a teologia batista brasileira, 
elaborada nos compêndios, nas cátedras, nos púlpitos e na imprensa periódica, tem o condão 
da comunicabilidade. O discurso teológico batista brasileiro nada tem se rebuscado: qualquer 
letrado o lê; 
   
-- diversidade. Se esta comunicabilidade permite uma sólida coesão teológica, há 
espaço para um discurso marginal. Como os batistas não têm credos e praticamente não têm 
confissões (ou declarações) de fé e também não têm também conferências (sínodos, 
colegiados, etc) que decidam o que é ou não é, há margem para um pensar menos 
autolimitado. No século brasileiro, tem havido alguns esforços coletivos, como o já referido 
grupo da "Diretriz Evangélica", ou individuais, com artigos em revistas não-oficiais, como a 
desaparecida "Missão". [769]A maioria destas reflexões poderia ser classificada como uma 
teologia social, com pouco alcance em termos de público. 
   
-- congregacionalidade. Como a prática batista é congregacional, se há pressões em 
função da ortodoxia-heterodoxia de um pensador, elas estão próximas: vêm da comunidade 
local. Essa congregacionalidade é mãe da inteligibilidade e, ao mesmo tempo, da coesão 
(majoritária) e da diversidade (minoritária). Como conseqüência, o público batista tem uma 
visão teológica praticamente monolítica. [770] 
   
Deste modo, a teologia batista brasileira se mantém com uma certa coesão e unidade a 
partir de alguns fatores e meios. 
   
  

   
  
   
Os eixos da teologia 
   
A segunda hipótese trata dos paradigmas teológicos básicos dos batistas. Melhor 
talvez seja chamar-lhes agora de eixos. Esta axiologia encontra-se expressa em dois valores 
básicos que se entrecruzam: o transcendentalismo e o individualismo. Cada um dos valores 
fundamentais dos batistas se subordina a estes eixos principais, como ordenadas e 
coordenadas de uma reta. Um exemplo desta confluência está no ensino acerca da salvação: 
"O homem para salvar-se deve reduzir a questão de salvação ao ponto em que ele se veja 
como se fora o único ser humano e todo o mundo. Então, face a face com Cristo, 
estabelece-se a comunhão e resolve-se o problema. É a direta interação de duas vontades, a 
do Criador e a da criatura. De um lado, é Deus em Cristo, de outro é o homem só. E a 
salvação ocorre num secreto encontro entre os dois". [771] 
   
Alguns desses valores são comuns aos cristãos em geral e aos protestantes em 
particular. 
   
  
   
TEÍSMO -- Num dos eixos (o do transcendentalista), como a maioria dos cristãos, os 
batistas são trinitarianos segundo a fórmula nicena, crendo, teisticamente, que Deus é pessoal 
e interage pessoalmente com suas criações. Conforme a tradição neoplatônica da tradição 
teológica cristã, Deus é o totalmente outro. No outro eixo (o individualista), a vontade de 
Deus é se inter-relacionar com as vontades individuais, com as quais, no entanto, não entrará 
em contato se elas não o permitirem. 
   
  
   
BIBLICISMO -- Transcendentalisticamente, como os calvinistas em geral, os 
batistas concebem Deus como tendo uma vontade especial para cada ação humana. O 
conteúdo desta vontade está expressa na Bíblia, livro de fé e conduta por ser a palavra 
revelada de Deus. Assim, individualisticamente, os batistas procuram derivar dela todos os 
seus postulados, erigindo-a, então, como regra normativa tanto para a teologia organizada 
quanto para a devoção pessoal; tanto para as decisões com implicações individuais (morais) 
quanto aquelas de âmbito mais amplo (ética). 
   
  
   
CONVERSIONISMO -- Transcendentalisticamente, os batistas crêem (contrariando 
o esquema neoplatônico) que o totalmente outro veio ao encontro de suas criações, pelo 
método da encarnação, para transformá-las (restaurá-las) e resgatá-las para si do domínio do 
pecado. Individualisticamente, tributários do agostinianismo e do calvinismo, que é 
tributário do agostinianismo, que é tributário do paulinismo bíblico, os batistas vêem o 
homem como totalmente corrompido, carente da irrupção completa da graça de Deus em sua 
vida para que encontre a salvação, que é individual, intransferível e incorporativizável; por 
isto, insistem na responsabilidade pessoal na aceitação ou na recusa do oferecimento deste 
encontro.   
   
  
   
CONTRACULTURALISMO -- Transcendentalisticamente, os valores de Deus
demonstrados em sua graça, são superiores e antipodais em relação aos valores humanos. 
Decorrentemente, para fruir melhor dos recursos advindos da fonte da graça, os batistas 
acham, no eixo individualista, que devem abandonar os costumes anteriores à experiência da 
conversão, vivendo como um peregrino na terra e passando a viver segundo os padrões de 
uma nova (contra)cultura, que, por ser superior, precisa ser oferecida a todos os homens. 
   
  

   
SALVACIONISMO -- Transcendentalisticamente, os batistas crêem que Deus 
sempre desejou salvar os homens, razão por que fez um pacto com Abraão e, em Cristo, 
celebrou um novo pacto com o novo Israel (a igreja) para o fim de realizar esta sua vontade 
geral. Individualisticamente, herdeiros do judaísmo primitivo, os batistas tomam como tarefa 
sua a evangelização do mundo, visando chamar todos os membros da humanidade para um 
encontro pessoal de reconciliação com Deus. 
   
  
   
  
   
A moralidade 
   
A segunda hipótese enfatiza a moralidade, tomada como critério valorativo da fé e 
hierarquizador do social ao individual. 
   
Pela relação entre moral e ética, é útil recordar o modelo interpretativo de H. Richard 
Niebuhr, sobre as relações entre fé e cultura, especialmente em dois paradigmas, [772] vale 
dizer, o contracultural e o conversionista. 
   
Na perspectiva contracultural, Cristo é visto como oposto às realizações humanas e 
confronta os homens com o desafio de uma decisão: Ele ou o Mundo. [773]Segundo este 
paradigma, a lealdade a Cristo implica em rejeição à sociedade cultural, dominada pelo 
pecado. Por isto, os "costumes do mundo", como freqüência ao cinema, o "modismo" no 
corte de cabelos e na escolha do vestuário, representam uma contrafação, como se fosse um 
território onde o crente coloca sua fé à prova. [774]Os conversos pensam formar uma 
comunidade nova, a qual se põe contra a cultura, seguindo aquela velha frase de Tertuliano 
de que não há nada mais completamente estranho ao cristão do que os negócios do Estado. 
[775] 
   
Por sua vez, os conversionistas aceitam estes pressupostos e insistem na mudança do 
interior do homem como condição determinante da mudança da sociedade: a reforma social é 
possível, não por intermédio de um programa político-estrutural, mas a partir da 
transformação dos indivíduos. Enquanto o modelo contracultural é dualista, o conversionista 
vai além, aceitando que Cristo "penetrou na cultura humana", a qual "nunca esteve sem a sua 
atividade ordenadora". Por isto, não é preciso destruir a cultura, mas substituí-la por uma 
viável: "para Deus todas as coisas são possíveis em uma história que, fundamentalmente, não 
é curso de eventos meramente humanos, mas sempre uma interação dramática entre Deus e 
os homens". [776] 
   
A moralidade, no entanto, deve ser vivida no quadro do modelo contracultural, que é 
também dualista. Uma ilustração deste paradigma pode ser vista na recomendação recente de 
um pastor aos membros de sua igreja e que certamente expressa uma visão amplamente 
aceita: 
   
  
   
"Nosso corpo é objeto de culto. (...) Deus quer e pede de nós corpos santos e 
agradáveis a Ele. Ele não está colocando fora o corpo e pedindo a alma. Ele quer os dois em 
harmonia, pois o corpo é o Templo do Espírito Santo. (...) E assim sendo não deve ser usado 
para práticas de coisas imundas. Além disso, é bom notar que nosso corpo é propriedade de 
Deus. (...) Por isso, deve ser usado de forma lícita e correta para não profanar aquilo que o 
Espírito de Deus consagrou para Ele. 
   
Nosso sacrifício a Deus não deve ser pela metade, mas total, não existindo em nós 
lugar para imoralidade, carnalidade, sensualidade ou lascívia, característica de um uso 
indecente de propriedade de Deus". [777] 
   
  

   
Este texto demonstra que o corpo -- templo do Espírito Santo e propriedade de Deus 
-- é o espaço da moral. Para que se porte de modo santo e agradável a Deus, este corpo deve 
se abster de práticas ilícitas. 
   
Dessa teologia moral, infere-se que as formas que essas práticas podem assumir não 
enunciadas: estão pressupostas. O que o crente não pode esquecer é que há comportamentos 
que consagram e comportamentos que profanam o Espírito Santo nele residente. Não se fala 
em prazer do indivíduo, apenas no prazer ("santo" e "agradável") que o corpo oferece a Deus. 
Não se fala em realização pessoal, mas apenas no sacrifício que o corpo deve prestar a Deus. 
   
A moral é um assunto privado, entre o crente e Deus. 
   
Ela se alimenta do individualismo, da interpretação da Bíblia e do desejo de ser 
diferente dos homens em geral e dos católicos em particular. 
   
O conversionismo se aplica mais ao plano da ética, que associa também a axiologia 
contracultural. O médico e pastor paulista Paulo Proscurshim insiste neste tipo de 
voluntarismo: 
   
  
   
"O país só mudará verdadeiramente se a mentalidade predominante for renovada. A 
luta pela reconstrução do Brasil começa com uma batalha moral. O único que pode mudar a 
sociedade é o homem bem-estruturado, ética e moralmente saudável, seguro de si e do que 
pensa, consciente de sua importância no contexto social e disposto a dar a sua contribuição 
pessoal. 
   
Acredito que somente o cristianismo autêntico, com base exclusivamente na Bíblia, é 
que tem condições de equipar milhões de homens e mulheres para modernizar a sociedade. 
(...) 
   
Passar o Brasil a limpo implica uma completa renovação de princípios e valores, o 
que a meu ver significa o tratamento para a doença moral que aflige o nosso país. (...) A 
estabilidade política, econômica e social nasce da postura ética e moral do cidadão. O 
importante é ter ética na vida". [778] 
   
  
   
Assim, no caso batista, conquanto a moral fique no plano contracultural, a ética 
política navega pelo mar do conversionismo. É difícil, porém, distinguir os dois elementos, 
uma vez que o primeiro é visto a partir da experiência primordial, e o segundo parte desta 
experiência primordial e da relação com o mundo. [779] 
   
Assim, parece evidente, como salientado, que a moral protestante é vivida dentro do 
quadro geral do protestantismo norte-americano do século 19, que funde numa vivência só as 
contribuições do puritanismo inglês (como encontrado no século 17), do arminianismo 
holandês (embora permanentemente negado) e do pietismo alemão (como chegou aos 
Estados Unidos). 
   
  
   
  
   
A ética 
   
A formulação da quarta hipótese pretende indicar que, na ética batista, há uma síntese 
de vários postulados batistas. A hipótese pode ser duplamente escandida: 
   
  
   
a. A ética política dos batistas, que nasceu no contexto revolucionário inglês, é 
informada por sua visão liberal da sociedade e por uma cosmovisão conversionista (mas 
também contracultural) da relação indivíduo e sociedade. Como conseqüência, postulam que 
a política é o resultado de uma ética engendrada pela vontade pessoal. 

   
Como a visão liberal dos batistas será adiante retomada e o paradigma conversionista 
já foi demonstrado, cabe discutir o voluntarismo, segundo o qual toda decisão parte do 
coração do homem, mas não se exaure no plano subjetivo; alcança, antes, o mundo. Em 
outras palavras, o princípio-fundador -- o individualismo -- encontra sua expressão na vida 
social, que deve ser convertida pela "disseminação do Evangelho de Cristo". [780] 
   
  
   
b. O princípio individualista reforçou de tal modo a necessidade e responsabilidade 
da decisão pessoal em matéria de religião que contribuiu para reforçar a teoria e a prática de 
uma atitude laicista de distanciamento entre igreja e estado, comunidade religiosa e mundo 
secular, indivíduo cristão e cultura não-cristã, fé e política. 
   
A conseqüência desta leitura "redomista" [781] traduz-se num niilismo de caráter 
dualista, em que se separa o político da fé em nome de uma teologia do Reino de Deus. 
Separa-se o político da fé em nome do desinteresse em relação aos atos do homem não 
ligados à religião diretamente. Separa-se o político da fé em nome de uma esperança num 
tempo em que as estruturas sociais, por mais injustas que sejam, serão abolidas por ato de 
Deus. 
   
A fonte é o neoplatonismo, segundo o qual o Ser absoluto é a fonte transcendental de 
tudo e o objetivo do universo é a reabsorção da essência divina daquilo que dela, através de 
emanações, saiu. Em Deus está a forma de cada um de nós, independente das mudanças que 
se dão em nossas vidas. O mundo vive em harmonia, porque dirigido pela providência, 
operada pelo 
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