Israel belo de azevedo


parte do livre-arbítrio humano e da liberdade de Deus como axiomas



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Jornal Batista. O autor parte do livre-arbítrio humano e da liberdade de Deus como axiomas 
cristãos, para concluir que a eleição "foi feita antes da nossa existência, na antiga eternidade". 
Por isto, 
   
  
   
"é fútil dizer que Deus meramente escolheu aos que O tiverem escolhido, ou faz sua 
escolha depois da escolha humana de salvação. Isto reduz o Deus da eternidade a um deus de 
palanque. (...) Deus não é mero carimbo para o apoio de decisões alheias. Ele age livremente, 
como nós O escolhemos em plena liberdade de O receber ou rejeitar". [606] 
   
  
   
A salvação é fruto da aceitação humana, não de um decreto de Deus. 
   
Mesmo que haja, como admitem os teólogos batistas, "predestinados para a 
salvação", eles jamais a "obterão sem que consistam em ser salvos e façam uso dos meios que 
Deus dispôs para que todos os homens sejam salvos". Embora disponha de "recursos infindos 
para a execução de seus eternos decretos", Deus respeita de modo absoluto o livre-arbítrio 
dos seres humanos, pelo que nunca emprega a força ou a violência, conquanto faça uso de 
"meios brandos de persuasão, concordes com a liberdade individual do homem" e "com a sua 
prerrogativa de livre escolha".[607] 
   
No entanto, calvinisticamente ainda, "a salvação do crente é eterna", uma vez que "os 
salvos perseveram em Cristo". Ninguém pode separá-los de Deus. Antes, "o novo 
nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do 
Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação". [608]A 
cooperação humana, de certo modo, determina essa permanência, que decorre da 

justificação, que assegura ao homem a competência para "tratar diretamente com Deus no ato 
inicial da vida cristã". [609]O que Mullins deixa implícito, Langston apresenta em termos 
nítidos. 
   
  
   
"O pecado entrou por intermédio do indivíduo em oposição a Deus, e terá de sair por 
intermédio do mesmo indivíduo em cooperação com Deus. O homem falhou, deixando de 
cooperar com Deus na primeira criação, mas de maneira maravilhosa Deus obtém essa 
cooperação na segunda criação ou na salvação. 
   
A continuação da criação espiritual é um processo que envolve duas vontades, a de 
Deus e a do homem. O pecado não alterou em nada o método divino em criá-lo à sua imagem. 
O processo tornou-se mais difícil, mais complicado, e a salvação foi grandemente 
enriquecida; mas o método permaneceu o mesmo -- a criatura cooperando com o Criador. De 
forma que a salvação é altamente moral, pois é sempre um processo dependente da vontade, 
seja a de Deus seja a do homem, ou melhor ainda, dependente dessas duas vontades. Todo o 
processo da salvação é voluntário, é espiritual". [610] 
   
  
   
Embora seja difícil ao homem salvar-se a si mesmo ou ser salvo por outro homem, a 
graça de Deus torna-o competente para a salvação, fazendo-o "cooperar com Deus na obra da 
salvação". [611]Assim como é responsável pelo pecado, é-o pela salvação. A síntese de 
Langston o distancia da visão calvinista estrita: 
   
  
   
"É a atração de Cristo, é o impulso da graça e a insistência da fé que tornam efetivo o 
método persuasivo do apelo na salvação do homem. Não é Cristo que faz tudo; nem o faz a 
graça; nem ainda a fé; mas as três cooperam e logram o seu objetivo. 
   
Este apelo de Cristo reforçado pela graça (...) salvaguarda a liberdade do homem, 
elemento indispensável na salvação. Quando o homem vê realmente a Cristo tal qual Ele é, 
não é tanto que ele se entrega a Cristo, mas sim é conquistado por Cristo. Há aqui uma 
diferença como também uma distinção. O homem não se rende a Cristo; ele é conquistado 
por Cristo. E Cristo, no próprio ato de o conquistar, o faz vitorioso". [612] 
   
  
   
Além disso, esse apelo desperta no homem a fé, que é graça divina, mas comporta 
"certa base natural no próprio homem". [613] 
   
A cooperação humana pode ser observada ainda em dois outros aspectos. Um é a 
perseverança na salvação e a outra é a santificação. 
   
Dargan não admite que uma pessoa salva possa reverter à condição anterior, mas 
insiste que ela precisa, "para completa garantia da salvação", "perseverar até ao fim da vida". 
Para tanto, Deus capacita o ser humano. "Na verdade, é Deus que não somente depara ao 
homem os meios de se salvar, como também opera nele o querer apropriar-se da salvação". 
[614] 
   
Em geral, os batistas dizem que a salvação é um ato, que tem um processo: a 
santificação. No entanto, não há unanimidade quanto a isto. Langston, por exemplo, 
diferentemente do que ensinaram os reavivalistas norte-americanos e repetiriam os 
evangelistas mais recentes, mesmo batistas, insiste que "a salvação é por natureza um 
processo". [615] 
   
De qualquer modo, porém, a salvação é incompleta, sem a santificação, que é 
decorrência da ação humana e é necessariamente progressiva. [616]Na santificação, ensina 
Dargan, "Deus e o homem concorrem nessa transformação espiritual". [617]Em outras 

palavra, "ainda que não nos possamos fazer filhos de Deus, com o seu auxílio podemo-nos 
tornar santos". [618] 
   
  
   
Moralidade 
   
Os membros das primeiras igrejas batistas no Brasil firmaram entre si um pacto 
formal no qual prometiam "viver para a glória" de Deus, procurando andar junto a Ele "em 
amor fraternal". Este amor incluía o "cuidado" e a "vigilância cristã um sobre o outro". 
Reconhecendo-se como "a luz do mundo e o sal da terra", eles também se comprometiam a 
"negar a impiedade e toda a incontinência humana", de modo a andarem "sabiamente no 
mundo" a fim de ganharem "as almas dos homens". [619] 
   
O comportamento é em si mesmo uma missão, determinada por seu pertencimento ao 
Reino de Deus, cujos valores o crente disseminar, através de suas atividades. [620]Este 
comportamento é uma demonstração, como pedia a confissão de New Hampshire, dos 
"santos frutos de arrependimento e fé e novidade de vida". [621] 
   
Por isso, ensina Delcyr de Souza Lima, 
   
  
   
"a vida moral do crente há de refletir a santidade e a pureza do próprio Senhor Jesus. 
E em vez de se conformar com os costumes, interesses, valores, prazeres do mundo, ele vai se 
transformando, à medida que vai compreendendo a vontade de Deus revelada em sua 
Palavra". [622] 
   
  
   
Além disso, o crente deve, seguindo o modelo de Cristo, negar-se a si mesmo e 
entregar suas ambições e propósitos pessoais à vontade de Deus. Neste caminho, "sua vida 
pessoal manifestará autodisciplina, pureza, integridade e amor cristão em todas as relações 
que tem com os outros". [623]Estes princípios devem reger até sua relação com os "bens 
materiais", que "em si, não são maus, nem bons". O dinheiro, deste modo, é o meio para o 
alcance de bens espirituais. "Aceito como um encargo sagrado, o dinheiro torna-se não uma 
ameaça e sim uma oportunidade", como ensinou Jesus de se suprir "tanto as necessidades 
próprias como as alheias". Afinal, a vida toda é um "encargo sagrado", "confiado por Deus" e 
que exige o emprego responsável da vida, do tempo, dos talentos e dos bens para "o serviço 
de Cristo". [624] 
   
O viver cristão é, afinal, uma forma de cooperar na obra redentiva de Deus resistir 
pessoal ao pecado, esforçando-se "por uma vida de santificação" e procurando "trazer outras 
pessoas a Cristo". [625] 
   
Voluntaristicamente, os batistas estão convencidos que o melhor serviço que podem 
oferecer à sociedade "é produzir a retidão no caráter individual e ao mesmo tempo fazer com 
que esse caráter individual promova a retidão na sociedade em geral". Por isto, "quanto mais 
a igreja procurar promover a retidão, tanto mais eficiente será a sua obra" e mais poderá 
influenciar naqueles movimentos que visem "o melhoramento moral e espiritual da 
sociedade". [626] 
   
Como diz José Nigro, "ao homem são necessárias duas coisas: uma fé viva e sincera 
que alimente ao seu coração a esperança de gozar uma vida eternamente feliz; e uma firma 
vontade de suprir as necessidades pessoais e as de seu próximo". [627]Por isto, as igrejas não 
devem "procurar estabelecer outra ordem social, ou mudar a forma de governo, ou 
preocupar-se em absoluto de outra coisa a não ser fazer o bem a todos em nome do 
Nazareno". Desse modo, sua preocupação deve ser exclusivamente moral, seguindo o 
exemplo de Jesus, que "não intentou nenhuma mudança na estrutura social ou 

governamental", agindo apenas "na esfera moral e espiritual". Isto não quer dizer que não 
deva se interessar por "elevar por meios suasórios a vida espiritual da sociedade". Afinal, só 
cidadãos retos "poderão produzir governo reto, comércio reto e sociedade reta em todos os 
sentidos". [628] 
   
Em outras palavras, como ensina Luciano Lopes, "o ideal democrático é uma nova 
ordem de justiça social para cuja realização é indispensável o aparecimento do homem 
nascido de novo em Cristo Jesus". [629] Por isto, 
   
  
   
"a solução cristã para os problemas é tarefa dos pregadores e não dos cientistas. É 
levar os homens através da pregação e mesmo através da ciência e do raciocínio, ao 
conhecimento de Deus como Criador e sustentador de todas as coisas e não somente ao 
conhecimento das coisas por ele criadas. (...) A solução depende de levarmos os homens ao 
conhecimento e a realização de si mesmos como portadores da imagem espiritual de Deus 
através da fé na pessoa de Jesus Cristo de quem os homens estão espiritualmente separados, 
embora intelectualmente relacionados". [630] 
   
  
   
Da interpretação da sua função pode-se passar à interpretação da sociedade, no qual 
há uma certa unanimidade. Adrião Bernardes diz o que todos os outros autores dizem. Não há 
solução para os problemas do mundo "fora do ambiente moral e religioso", vale dizer, "fora 
da mediação poderosa e única de Cristo Jesus". Assim, é absolutamente "necessário que o 
mundo conheça e reconheça que sem Cristo nada pode fazer, pois é a Única Esperança para a 
solução de todos os problemas humanos". [631] 
   
Para Bernardes, "a verdadeira revolução é a que se faz tendo a base em Deus. O resto 
é fantasia". [632]Os crentes têm uma tarefa a realizar neste sentido. 
   
  
   
"O indivíduo cristianizado, salvo por Cristo, mediante experiência pessoal, torna-se 
obreiro do bem, apto a ajudar o mundo a soerguer-se do abismo em que se encontra. O cristão 
é ser consciente. Não é fruto de decreto ou de hereditariedade. É dono de experiência pessoal. 
Encontra-se a si mesmo, quando se entrega a Jesus e se transforma em colaborador valioso na 
salvação do mundo, tanto no sentido moral e espiritual, quanto no âmbito material". [633] 
   
  
   
Por isto, o cristão "tem a responsabilidade de permanecer no mundo", sem viver 
segundo os seus valores. É sua obrigação "opor-se ao mal e trabalhar para a eliminação de 
tudo que corrompa e degrade a vida humana". [634] 
   
Nesta e em outras tarefas, o crente deve imitar a cristo, embora não possa copiá-lo. 
Segundo Mullins, "a verdadeira imitação de Cristo consiste, não em perguntarmos: O que 
faria Jesus?, mas sim em perguntarmos: O que quererá Jesus que façamos? Ele é mais um 
arquétipo do que um modelo. [635] 
   
Por isto, Roque Monteiro de Andrade propõe que "os princípios e preceitos divinos 
jamais se devem constituir em alguma espécie de heteronomia", não exercendo, em outras 
palavras, qualquer cerceamento sobre a personalidade. O ideal é que a consciência se deixe 
persuadir pela transcendência divina. [636] 
   
Diferentemente, no entanto, os dois livros que se tornaram mais influentes quanto à 
moralidade propuseram caminhos diferentes. O título de um deles, o romance "Em seus 
passos, o que faria Jesus?", é bastante revelador. O outro é uma coleção de comportamentos 
"certos ou errados" especialmente para os jovens, com conselhos sobre as mais diversas áreas 
particularmente àquela convencionada como "ética de costumes". [637] 

   
Os livros de moral, de certo modo, apenas atualizam as blue laws puritanas. Uma 
evidência é o que prescreve a Declaração de New Hampshire sobre o documento, que deve 
"ser guardado sagradamente aos propósitos religiosos". [638] 
   
  
   
Eclesiologia 
   
Uma igreja batista é uma igreja local. A convicção landmarkista tornou-se uma 
convicção batista brasileira. Todos os eclesiólogos insistem na natureza local da igreja. 
Langston resumiu toda a percepção neste sentido: "só há uma Igreja no mundo, que é a Igreja 
local". [639] 
   
A Confissão de New Hampshire fora discreta quanto a este ponto, destacando apenas 
a igreja visível. Os textos utilizados posteriormente no Brasil sempre foram explícitos. De tal 
modo, a "Declaração Doutrinária", de 1986, define a igreja como "uma congregação local de 
pessoas regeneradas e batizadas após profissão de fé", como ocorre na maioria dos casos do 
Novo Testamento. [640]Ela é formada voluntariamente, para fins de culto, obediência aos 
mandamentos de Jesus e edificação mútua. Cada uma é autônoma e procura reger suas 
decisões "exclusivamente pela Palavra de Deus, sob a orientação do Espírito Santo". [641] 
   
Os princípios organizativos da Convenção Batista Brasileira são mais eloqüentes, ao 
afirmarem que uma "igreja é uma congregação local, formada por pessoas regeneradas e 
biblicamente batizadas, após pública profissão de fé, em nome do Pai, do Filho e do Espírito 
Santo". [642] 
   
Antes, Taylor já ensinara que igreja "quer dizer congregação" e que, "por isto, os 
batistas crêem num cristianismo congregacional. O Novo Testamento desconhece outro tipo 
de cristianismo. [643]Diante disto, completa Luciano Lopes, é equivocado falar-se em 
"igreja batista no singular como significando uma organização única". Para ele, como é 
prática entre os batistas, "o correto é no plural: igrejas batistas". [644] 
   
Deste conceito deriva o princípio prático da autonomia da igreja local, tornada "a 
corte e tribunal supremo de todas as questões que nela se levantam". [645]Assim, cada igreja 
batista é autônoma, constituindo uma unidade livre, segundo o exemplo das igrejas 
apostólicas. [646] Como são independentes entre si, "nenhuma associação, assembléia, 
convenção ou junta pode impor a sua autoridade" sobre ela. [647] 
   
Essa autonomia é, no fundo, uma espécie de teonomia, porque exercida a partir do 
fundamento de que "Cristo está sempre presente e é a cabeça da congregação do Seu povo". 
Só a Ele, e a nenhuma outra entidade, deve ela se sujeitar. Ademais, "o Novo Testamento 
ensina não haver nenhuma autoridade eclesiástica que possa revogar as decisões de uma 
igreja". [648] 
   
A igreja existe para estender o Reino a todos os homens. Essa é a única razão para a 
sua existência. [649]Como resume Delcyr de Souza Lima, a grande missão das igrejas "está 
na evangelização e na obra missionária cada vez mais ativas e ousadas", visando aumentar "o 
número dos salvos". [650] 
   
Desde cedo, em decorrência desta missão evangelizadora, que tem caráter nacional e 
universal, este localismo conviveu com a idéia da necessidade das associações de igrejas, 
providência regida pelo princípio prático da cooperação. [651]Segundo a "Filosofia" da 
Convenção Batista Brasileira, essa cooperação voluntária entre igrejas é uma forma de se 
juntarem esforços para a realização de tarefas comuns, especialmente nas áreas de missões, 
educação, formação de lideres e ação social. [652] 
   
Mesmo que essa associação, na forma de uma Convenção, não tenha exemplo 
bíblico, as Escrituras oferecem "ensinos e situações que apontam na direção de 

procedimentos cooperativos" e de "reunião de esforços e providências que autorizam" o seu 
surgimento, desde que controladas pelas igrejas locais. [653]Assim, 
   
  
   
"a Convenção aparece na experiência batista como um instrumento concreto para 
canalizar e dar expressão ao desejo das igrejas batistas e do povo batista de, juntos, pelejarem 
"pela fé que uma vez foi dada aos santos". A igreja batista local é o ponto de partida e de 
chegada da Convenção Batista Brasileira". [654] 
   
  
   
Na igreja local, e assim deve ser também nas associações de cooperação, as regras 
democráticas devem reger as relações. Como é composta de pessoas regeneradas, todas têm 
"direitos e privilégios iguais", sob "a autoridade absoluta de Jesus Cristo na administração" 
da igreja. [655] 
   
Essa democracia deriva do princípio da competência da alma diante de Deus. Luciano 
Lopes concluiu que, se os homens são competentes na relação com Deus, "a cuja presença 
todos têm livre acesso, logo todos são iguais" e, "se todos os membros da igreja são iguais, o 
governo só pode ser democrático". [656]O ideal é de uma democracia pura. [657] 
   
  
   
"O governo da Igreja é um governo do indivíduo, para o indivíduo, pelo indivíduo. 
Realmente nem é um governo da maioria. Não devia haver maiorias nem minorias. Nada 
disto se contempla no propósito da organização. O governo numa igreja local é uma 
democracia pura". [658] 
   
  
   
Essa democracia, orientada pelo Espírito Santo, é um exemplo para a sociedade em 
geral. Entender também a natureza da missão da igreja ajuda a entender a sua relação com o 
Estado.   
   
  
   
Teoria política 
   
A teoria política dos batistas é filha do axioma da competência da alma. Como ensina 
Mullins, este axioma inclui "a doutrina da separação entre a Igreja e o Estado", especialmente 
pelo fato de as igrejas do Estado se apoiarem "na opinião de que o governo civil é necessário 
como um fator na vida do homem, para que se realize o cumprimento do seu destino 
religioso". O ponto de partida, neste caso, é de que "o homem sem o auxílio do Estado é 
incompetente em matéria de religião". [659] 
   
A diferença entre as duas ordens é bem sintetizada por Alberto Mazoni de Andrade: 
   
"O Estado faz parte das ordenações transitórias da cidade, visando o bem-estar 
material e temporal, sob a égide da Lei. A igreja é a instituição para o bem espiritual, sob a 
égide da Graça e, dentro e acima do Estado, pela proeminência do espiritual sobre o 
temporal; sua tarefa é a da pequena porção de fermento que, lenta e seguramente, há de um 
dia levedar toda a massa social". [660] 
   
  
   
Os "Princípios Batistas", de 1964, sistematizam com clareza esses papéis, que já 
estavam na Confissão de New Hampshire, que ensinava que "o governo civil é de autoridade 
divina, para o interesse e boa ordem da sociedade humana": [661] 
   
  
   
"Tanto a igreja como o Estado são ordenados por Deus e responsáveis perante Ele. 
Cada um é distinto; cada um tem um propósito divino; nenhum deve transgredir os direitos 
do outro. Devem permanecer separados, mas igualmente manter a devida relação entre si e 

para com Deus. 
   
Cabe ao Estado o exercício da autoridade civil, a manutenção da ordem e a promoção 
do bem-estar público. O Estado não pode ignorar a soberania de Deus nem rejeitar suas leis 
como a base da ordem moral e da justiça social. 
   
Os cristãos devem aceitar suas responsabilidades de sustentar o Estado e obedecer ao 
poder civil, de acordo com os princípios cristãos. 
   
O Estado deve à igreja a proteção da lei e a liberdade plena, no exercício do seu 
ministério espiritual. A igreja deve ao Estado o reforço moral e espiritual para a lei e a ordem, 
bem como a proclamação clara das verdades que fundamentam a justiça e a paz. A igreja tem 
a responsabilidade tanto de orar pelo Estado quanto de declarar o juízo divino em relação ao 
governo, às responsabilidades de uma cidadania autêntica e consciente, e aos direitos de 
todas as pessoas. A igreja deve praticar coerentemente os princípios que sustenta e que 
devem governar a relação entre ela e o Estado". [662] 
   
  
   
Deste modo, "a função do Estado", portanto, "é prover e garantir a paz social e o 
bem-estar dos cidadãos, necessários ao desenvolvimento ético do homem. [663]Um dos 
primeiros livros traduzidos pelos batistas no Brasil deixava claro que a finalidade principal 
do Estado "é guardar os direitos naturais do povo e dar segurança à vida, à liberdade e à 
prosperidade, em todos os seus domínios". Os direitos e deveres dos homens "não podem ser 
transferidos a seus governadores". [664] 
   
Ginsburg escreveu que os batistas querem "um governo livre num povo livre" e "uma 
igreja livre num Estado livre", segundo a expressão tornada famosa por Cavour e, no Brasil, 
por Rui Barbosa. Para ser útil à sociedade, a igreja "tem que ser livre e independente" dos 
favores do Estado, [665]mesmo que em forma de subvenções. [666]Por isto, o Estado não 
pode "interferir nas decisões de uma igreja" [667] e nem a igreja precisa do Estado. Afinal, "a 
fé que o Novo Testamento nos outorga foi viável no primeiro século, sem o apoio de nenhum 
governo". [668] 
   
Em síntese, "o Estado deve ser leigo e a Igreja livre". [669]O que se quer do Estado é 
"a proteção para a sua vida particular e religiosa". Como contraparte, os batistas pagarão seus 
impostos e o apoiarão integralmente, permanecendo como um verdadeiro "esteio para o 
governo". [670] 
   
Assim, como corolário do princípio voluntário da fé, a consciência precisa de 
liberdade completa. Afinal, "o Estado pode fazer mártires, hipócritas e ateus, mas nunca 
pode, pelo poder civil, constranger a consciência do crente livre, nem fazer de hereges e ateus 
crentes ortodoxos". É por isto, informa Crabtree, que "os batistas têm sido campeões da 
doutrina da separação da Igreja do Estado, não por conveniência, mas pela coerência com os 
seus princípios". [671] 
   
O maior interesse, no entanto, é pela liberdade religiosa, considerada "um dos direitos 
fundamentais do homem, inerente à sua natureza moral e espiritual". Por isto, a liberdade 
religiosa não pode sofrer qualquer limitação, pois "cada pessoa tem o direito de cultuar a 
Deus, segundo os ditames de sua consciência, livre de coações de qualquer espécie". O 
Estado deve se empenhar para garanti-la, sem favorecer a nenhum grupo. [672] 
   
Os batistas querem mais que tolerância, a qual não admiram. 
   
  
   
"Insistimos na liberdade de crença, a separação da igreja e o estado, a voluntariedade 
em religião, na família, no estado, na escola e em toda a vida cristã. Morreremos para que 
outros tenham a liberdade de anunciar seus princípios religiosos, embora discordemos dos 

mesmos princípios". [673] 
   
  
   
Nenhum tópico mereceu tantas páginas quanto à exaltação da liberdade de 
consciência, que jamais deve ser forçada. [674] Afinal, nem mesmo Deus força a vontade 
humana. [675] 
   
Segundo Langston, a história da política é a "história do indivíduo perdendo e 
readquirindo seus direitos e sua liberdade". [676] 
   
A ética política dos batistas está fundada no voluntarismo e na noção dos dois reinos. 
   
Para Luciano Lopes, qualquer ação fundada em bases materiais é uma construção na 
areia, por faltar a pedra fundamental, que é Cristo. [677]Segundo Langston, "o indivíduo 
regenerado é o ponto de partida" para a "redenção do mundo, político, religioso, econômico e 
social". Jesus colocou o indivíduo "no centro do seu projeto e deste centro vai trabalhando 
para a extensão do seu reino, da sua obra benéfica até aos confins da terra. [678] 
   
Ao fazer isto, Jesus "plantou as sementes de uma democracia verdadeira". [679]Por 
isso, é dever do cristão empenhar-se pelo bem comum da sociedade. 
   
  
   
"Entretanto, o maior benefício que pode prestar é anunciar a mensagem do 
evangelho; o bem-estar social e o estabelecimento da justiça entre os homens dependem 
basicamente da regeneração de cada pessoa e da prática dos princípios do evangelho na vida 
individual e coletiva. Todavia, como cristãos, devemos estender a mão de ajuda aos órfãos, 
às viúvas, aos anciãos, aos enfermos e a outros necessitados, bem como a todos aqueles que 
forem vítimas de quaisquer injustiça e opressões". [680] 
   
  
   
Em resumo, o cristão deve se empenhar pela democracia. Em sua "Verdadeira 
democracia", Langston explicita seu credo democrático em várias áreas da vida. Eis o que ele 
diz, entre outras afirmações que o colocam no centro das noções liberais acerca da sociedade: 
   
  
   
"Feliz é o povo onde reina a democracia social. 
   
(...) 
   
Cada pessoa, quem quer que seja, tem o direito inerente de gozar os frutos do seu 
trabalho honesto. Riquezas e pobreza, herdadas ou adquiridas, são acidentes desta vida. (...) 
Estas coisas não podem servir de base para a vida econômica. A vida econômica, (...) deve 
basear-se em direitos iguais para todos, ricos e pobres, e privilégios para ninguém. Nem a 
riqueza nem a pobreza pode constituir uma classe privilegiada. 
   
(...) 
   
Esta democracia baseia-se em serviço mútuo, e a sua razão de ser acha-se no fato que 
ninguém vive para si; todos nós somos dependentes uns dos outros. Todos têm os mesmos 
direitos, quer ricos quer pobres. O capitalista deve ter a mesma sujeição daquele que ganha a 
sua vida pelo suor do seu rosto; e aquele que assim trabalha merece o mesmo respeito, a 
mesma consideração por parte de todos. Não há meio melhor de vencer as dificuldades e 
contentar tanto à classe abastada do que pôr em prática a democracia econômica. 
   
(...) 
   
Esta democracia se baseia nos princípios fundamentais da religião cristã; pois em 
toda a parte onde se têm praticado esses princípios as dificuldades têm desaparecido. Deus 
criou o homem livre; portanto qualquer opressão é contra as leis fundamentais da sua 
natureza. Por isso os batistas crêem na plena liberdade em todas as fases da vida: política, 
religiosa, social e econômica. 

   
(...) 
   
A educação não pode ser considerada uma espécie de luxo para os filhos dos ricos; 
porém uma necessidade para todos. A educação que não alcança a todos não é uma educação 
democrática. (...) É preciso educar o coração a fim de que o corpo e a cabeça não estraguem a 
democracia, que se quer fundar. Visto que uma democracia necessita de todos os indivíduos e 
o indivíduo necessita de todos os seus poderes, é necessário que a educação seja 
verdadeiramente democrática, difundida e vulgarizada". [681] 
   
  
   
Poucos autores atentaram tanto para as conseqüências sociais da fé do que Luciano 
Lopes, educador e autor de vários livros. Seu pressuposto é de que se deve "trabalhar pela 
maior produção de riquezas e também por uma eqüitativa distribuição delas", pois isto "é 
propugnar ao mesmo tempo pelo progresso das ciências e das artes e a filosofia, pela 
educação do povo, pela religião e pela moralidade". [682] Assim, sem o concurso da 
inteligência e do trabalho, "o Brasil há de ser sempre como um jovem robusto, assentado 
sobre um saco de ouro a pedir esmolas". [683] 
   
A noção paradoxal de Lutero também está presente. Taylor diz que "o crente tem 
duas pátrias", mas de um modo que a "celestial não prejudica a terrestre". Antes, "é sua 
suprema força salutar. É a mina de motivos morais, sociais e transformadores". [684]O 
compromisso dos batistas é tratar tão somente dos "interesses do reino espiritual dos céus": 
"de outra coisa não devem absolutamente tratar". [685] 
   
Quanto à resistência aos tiranos, que permite situar melhor a teoria dos dois reinos, 
fala-se muito pouco. Todas as confissões concordam que os cristãos precisam obedecer, 
"exceto", como já explicitara a de New Hampshire, "nas coisas opostas à vontade de nosso 
Senhor Jesus Cristo, que é o único Senhor da consciência e o Príncipe dos reis da terra". [686] 
   
A profissão de fé do deputado Adrião Bernardes é bastante elucidativa desta visão: 
   
  
   
"O cristão não se insurge contra o Estado, quando este se enquadra dentro dos seus 
próprios limites, pois há limite também à obediência que o cristão deve às autoridades 
constituídas. O apóstolo Paulo é exemplo eloqüente do que afirmamos, posto que jamais se 
arvorasse em subversivo. Foi fiel até à morte, sem esboçar qualquer gesto de subversão. É a 
verdadeira atitude cristã. A visão do cristão vai além do Estado e sobe espiritualmente até a 
presença de Deus, sem qualquer resquício de subversão . Opõe-se ao Governo quando este 
fere sua consciência e ofende a Deus e suas leis. O cristão crê no regime democrático e sabe 
que a obediência é parte fundamental de sua participação na cousa pública. Quando em 
minoria, aceita responsavelmente a vitória da maioria e continua participando 
inteligentemente na vida política da Nação. Aprova ou desaprova construtivamente a ação do 
Governo, até que a desejada mudança venha normalmente, sem agitações prejudiciais. 
Freqüentemente, obedece a leis simplesmente porque são leis emanadas do poder 
competente, embora não representem a expressão de sua vontade. A obediência firma-se na 
vontade de colaborar e no respeito ao Poder constituído dentro de sua órbita. Para que 
cheguemos a esta condição, faz-se mister que não nos entreguemos a atividades ilegais e a 
resistência violenta. Se julgamos a lei injusta, lutemos legalmente para revogá-la, dentro da 
ordem e da colaboração inteligente". [687] 
   
  
   
Um levantamento de opinião pública, realizado em 1977, indicou a postura dos 
membros das igrejas. Uma das perguntas formuladas era sobre a conveniência de um 
pregador criticar, num sermão, o governo e a ordem social vigente. Dos respondentes, 68% 

opinaram que o pregador não tem o direito de fazê-lo. As duas razões principais apontadas 
foram: o pregador "deve pregar apenas o Evangelho" e "Igreja não é lugar de fazer política"; 
alguns chegaram a assinalar que o pregador "deve procurar os atos acertados do governo e 
elogiar apenas". É possível que o quadro tenha mudado, mas não a ponto de reverter esta 
tendência. [688] 
   
A prática pode ser tomada como um esforço de enclausuramento na redoma, como 
está bastante claro num editorial de 
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