Israel belo de azevedo



Baixar 4.8 Kb.
Pdf preview
Página10/28
Encontro26.03.2020
Tamanho4.8 Kb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   28
desideratum, a Bíblia foi divulgada pelo país e os missionários 
norte-americanos se puseram a fundar escolas seculares que servissem de modelo à nova 
pedagogia necessária. 
   
O pressuposto básico era que o catolicismo romano era o responsável pelo atraso (em 
todos os planos) da nação, no que se seguia alguns autores europeus, principalmente o 
economista belga Émile Laveleye (1822-1892), cuja obra é de 1875 e para quem o 
protestantismo é sinônimo de progresso e o catolicismo, de atraso, na história ocidental 
moderna. Conquanto sua obra só aparecesse publicada em volume muito mais tarde, 
[400]idéias semelhantes (surgidas em decorrência ou independentemente das suas) 
circularam desde cedo, seja pela boca dos propagandistas protestantes, como James C. 
Fletcher (1823-1901), seja pela pregação de não-protestantes, como Tavares Bastos, a partir 
de 1862. Todos os discursos protestantes sobre o social têm repetido, menos ou mais 
enfaticamente, este mesmo credo. O comportamento se explica pelo fato de que o 
protestantismo brasileiro se constitui(u) competindo com o cristianismo católico. 
   
A tese de Laveleye e MacAuley, lida aqui através de Rui Barbosa, é a seguinte: o 
protestantismo é um aliado da democracia e do progresso, porque implica numa norma mais 
elevada de moralidade pessoal, trazendo para os fiéis conseqüentes benefícios em termos de 
saúde e prosperidade individuais; é a base da democracia; por sua ênfase no livre-exame da 
Bíblia e na abertura de escolas, promove a educação, com inevitável progresso para a nação 
como um todo. 
   
Por Rui, pode-se perceber toda a eloqüência do argumento e todo o seu 

anticatolicismo, bem presente na sua introdução a O papa e o concílio. Sua religião, no 
entanto, continua pouco estudada. Os trabalhos de Evaristo de Moraes Filho e Miguel Reale 
não tocam no seu protestantismo. Sua geração perguntou intensamente acerca da religião, em 
função dos combates travados no seu tempo, contrapostas duas perspectivas: de um lado, a 
crença no progresso como regenerador da sociedade, encontrada em países de formação 
protestante (Alemanha e Inglaterra, especialmente) e mesmo na cultura (deística/ateística) 
francesa seguindo as brechas abertas pela Ilustração nas veias do Corpus Christianorum; de 
outro, a luta católico-romana pela permanência dos valores tradicionais, mesmo que opostos 
à vertigem do progresso tecnocientífico. 
   
Rui achava que a Igreja Católica tinha medo da civilização, da "independência do 
pensamento individual", da "precedência temporal do Estado na administração da sociedade 
visível". Ele estava certo de que a nacionalidade se urde com a fé, como acontece nos 
"celeiros do mundo", fertilizados "com o suor dos povos crentes", pois neles "a consciência 
domina todas as instituições e todos os interesses". Conforme o pensamento de alguns 
autores europeus, que Rui deu a conhecer no Brasil, a religião destes povos os fizera livres, 
fortes e poderosos. 
   
O regime ideal, portanto, para o Brasil devia nivelar todas as confissões religiosas: "o 
crente emancipado na igreja, a igreja livre no Estado, o Estado independente da igreja". Para 
ele, o catolicismo legítimo não era o ultramontano, mas o evangélico, sem infalibilidade 
papal e sem desvio da função eclesiástica (do espiritual para o temporal). 
   
Por isto, conquanto tenha feito, no plano doméstico, concessões ao catolicismo 
vigente no Brasil, as suas posições, que poderiam ser tachadas de moderadamente liberais, 
permaneceram intactas. No plano da fé propriamente, um trecho de um de seus discursos dá o 
tom da sua crença: "Posso não orar em Lourdes; mas Lourdes não me separa da humanidade. 
Quando uma criancinha me reclina e abraça ao seio, não vou repulsá-la por causa dos 
amuletos". 
   
  
   
"O protestantismo nasceu da liberdade da consciência individual, cuja conseqüência 
política é a liberdade religiosa; do protestantismo é filha a instrução popular, que constitui a 
grande característica, o principal instrumento e a necessidade vital da civilização moderna; 
ao protestantismo está associada (...) uma exuberância de prosperidade industrial, luxuriante 
e vigorosa como a vegetação dos trópicos, em contraste com os países onde os processos de 
governos católicos, aplicados em seu rigor, cansaram as almas e esgotaram a energia moral 
do povo". [401] 
   
  
   
Nestas águas, navegaram outros apologistas, imbuídos do ideal messiânico de salvar 
o Brasil. 
   
  
   
"É uma bênção de inestimável valor, para o Brasil contemporâneo, a obra poliforme 
que o protestantismo vai prestando, nessa colaboração com as forças construtivas do país, 
oferecendo o tesouro da sua espiritualidade, através da regeneração de centenas de milhares 
de brasileiros que espontaneamente aceitam, como norma de uma vida cristã, a moral do 
Evangelho, calcada nos princípios e nos exemplos de Jesus Cristo. 
   
Quem poderá calcular a projeção e as conseqüências dessa obra? 
   
Certamente a sua projeção transpõe os limites do tempo e penetra na eternidade; e as 
suas conseqüências passam da salvação do indivíduo para a salvação do Brasil". [402] 
   
  

   
A tragédia do Brasil, portanto, não era o cristianismo, mas o catolicismo romano. 
Como o principal crítico do catolicismo brasileiro foi Rui Barbosa, ele merece uma 
referência, mesmo que breve. Fiel da velha igreja católica, viu no modo protestante de ser a 
expressão aceitável do cristianismo, conciliável com as necessidades do seu tempo. 
Basicamente, seu liberalismo consistiu na compreensão da democracia como sendo "a 
representação proporcional das minorias", com o reconhecimento de que o direito, mesmo o 
de um indivíduo apenas não pode se sacrificar aos interesses, mesmo que de todo povo, uma 
vez que a democracia "é a sagração da propriedade individual, da liberdade da palavra, da 
liberdade de imprensa, da liberdade de reunião, da liberdade de cultos, da liberdade de 
trabalho, da liberdade política". [403]Sua fé passava pelo crivo de um racionalismo 
moderado e de um tradicionalismo renascentista, uma vez que não seguiu os deístas, na tarefa 
de depurar o catolicismo daquilo que não passasse pelo cânon da razão, e no projeto de 
recuperar o original do cristianismo, recuperando-lhe a evangelicidade. O catolicismo, 
legítimo para Rui, não é o ultramontano, [404]mas o evangélico, sem infalibilidade papal e 
sem desvio da função eclesiástica, porque o catolicismo brasileiro não era mais cristianismo; 
antes, era "a mais flageladora de quantas gangrenas morais podem afligir uma sociedade. É 
pior que uma doutrina; é uma política, um partido, uma permanente solapa às instituições 
liberais". [405] 
   
Para ele, Deus é "a garantia suprema" da liberdade, [406] por providenciar a 
regeneração moral da humanidade através do cristianismo. [407]O que ele queria, enfim, era 
"o crente emancipado na igreja, a igreja livre no Estado, o Estado independente da igreja". 
[408] 
   
Assim, não é por acaso que Rui Barbosa era chamado de "oráculo" dos batistas; nem 
é acidental que uma foto sua abra os Anais da Convenção em página de praxe destinada aos 
ilustres mortos batistas. [409]Afinal, ele ajudava a pintar o catolicismo como teologicamente 
corrompido, politicamente avaro e aspirando reger os destinos do Brasil para benefício 
próprio, razão porque perseguia os evangélicos no país. Este discurso, produto da prática 
religiosa executada por missionários (que desconheciam este tipo de problema nos Estados 
Unidos) e brasileiros no embate diante das dificuldades impostas pela hierarquia católica do 
século 19 e da primeira metade do século 20, encontrou no filologista e pastor Eduardo 
Carlos Pereira (1855-1923) seu sintetizador. 
   
Seu "O Problema Religioso da América Latina", de 1920, suscitou a mais memorável 
polêmica intelectual travada entre protestantes e católicos neste século, tendo como principal 
contendor o padre Leonel Franca (1893-1948), com o seu "Roma, a Igreja e a Civilização", 
de 1928. [410]Se a discussão nascera intelectual, o fundamento básico (defesa da igualdade 
jurídica e superioridade teológica do protestantismo) sujbazeria ao seu corolário, quando da 
ascensão de Getúlio Vargas ao poder. A partir de então, teve início uma nova "questão 
religiosa" agora em torno do princípio republicano (leia-se ruibarboseano?) da laicidade do 
Estado, que a hierarquia católica (Sebastião Leme e as Ligas Eleitorais Católicas à sua frente) 
pretendia discutir na Constituinte. O que se viu, especialmente em torno da introdução do 
ensino religioso nas escolas públicas, foi a arregimentação da intelectuália protestante, ao 
lado de outros pensadores não-católicos e também não-protestantes, para a defesa do velho 
princípio da Carta de 1891. 
   
Esta controvérsia, que durou cerca de 20 anos, com desdobramentos 
intradenominacionais por outros 20, marcou de modo definitivo o tipo de relacionamento 
entre os dois segmentos cristãos, bem como o tipo de teologia e o contorno da ética 
protestante no Brasil, pelo resto do século. 

   
Entre os batistas, a lista de teólogos cuja obra principal se cingiu ao ataque à igreja 
católica não é pequena. Só para mencionar aqueles batistas que escreveram livros de 
polêmica anticatólica, a partir de 20, eis pela ordem de aparecimento dos seus principais 
títulos alguns desses autores: Archiminia Barreto, [411] Rosalino Costa Lima, [412] Delcyr 
de Souza Lima [413] e Aníbal Pereira Reis. [414] 
   
Retrata uma época comparar Archiminia Barreto e Aníbal Pereira Reis. Filha de um 
padre, ela, que se converteu do catolicismo em finais do século passado, procurou 
demonstrar que os santos católicos se assemelham aos ídolos do paganismo. [415]Seu livro 
teve várias edições e era respeitada como teóloga no meio batista. A última edição é de 1970, 
quando foi perdendo fôlego para um anticatólico mais contemporâneo: Aníbal Pereira Reis, 
que era padre mesmo e também deixou o catolicismo. A partir do final dos anos 60, seus 
livros venderam muito, especialmente em suas requisitadíssimas conferências pelas igrejas, a 
ponto de criar uma editora (Caminho de Damasco) para publicar suas polêmicas. O último 
dos grandes anticatólicos morreu no ostracismo, com a agenda praticamente vazia. Seu 
anticatolicismo também perdera o fôlego. 
   
Se bem permanecesse este espírito, a conjugação de três fatores gerados nos anos 50 
permitiu, minoritária mas ruidosamente, uma distensão em relação ao catolicismo e um 
posicionamento diferente diante da sociedade. 
   
A tranqüilidade oferecida pelo expressivo crescimento numérico da membrasia das 
igrejas evangélicas nos anos 50 levou alguns pensadores a relativizarem a força do inimigo e 
a deporem suas armas, por entenderem que poderiam até conjugar esforços para algumas 
batalhas comuns. 
   
A chegada de novos missionários, como Richard Shaull, com uma mentalidade 
menos denominacionalista, a partir da segunda guerra mundial, despertou a juventude a olhar 
para o cenário internacional e a se envolver numa visão de Reino de Deus onde havia lugar 
para o social. 
   
Evidentemente, estas duas possibilidades devem ser vistas também como 
codecorrentes de uma outra: a entrada (nas igrejas) de protestantes de segunda e terceira 
geração, as quais não tinham qualquer motivo biográfico (como o tiveram seus pais de lá 
vindos e por lá perseguidos após sua conversão) para hostilizar o catolicismo. 
   
Assim, especialmente os jovens, como Waldo César e Jovelino Pereira Ramos, entre 
alguns outros, tendo à frente mentores missionários e trabalhando a partir de organismos 
como a Confederação Evangélica do Brasil, começaram a pensar a Nação. Um destes frutos 
foi a Conferência do Nordeste (1962), que reuniu religiosos e cientistas sociais para discutir o 
Brasil a partir de um compromisso cristão pela transformação das estruturas sociais. [416] 
   
Além destes movimentos supradenominacionais, houve no interior das igrejas outros 
esforços específicos na mesma direção até que o golpe militar de 1964 baixasse a cortina do 
silêncio sobre o palco da teologia. 
   
Antes de Shaull e seus seguidores, mas também na tradição presbiteriana, houve um 
teólogo visceralmente preocupado com a dimensão conscientizadora do protestantismo. 
Embora longo, um parênteses se faz necessário para uma revisão do pensamento de Erasmo 
Braga (1877-1932). Ele mesmo se entendeu como 
   
  
   
"um cristão sul-americano, que recebeu desde a infância o influxo do evangelismo, 
das idéias liberais e democráticas professadas por seus pais, e que, tendo convivido com 
anglo-americanos por muitos anos, associado como discípulo e como professor à obra de 
implantação, no Brasil, dos métodos práticos da pedagogia americano, membro do 

magistério oficial secundário do Estado de S. Paulo, observador e estudante de aspectos 
variados da vida nacional como jornalista". [417] 
   
  
   
Coerente com esta dupla missão, educador da consciência e analista da realidade 
brasileira, Erasmo Braga produziu uma obra pedagógica renovadora, [418]uma teologia da 
cultura integradora e uma proposta eclesiológica antecipadora. 
   
Para ele, a tarefa evangelizadora da igreja cristã é uma tarefa educacional. Os dois 
aspectos de sua vocação, chamada que foi "para ensinar e para continuar o ministério 
curativo do cristianismo", são "apenas diferentes formas de evangelismo". [419] 
   
Na sua análise, o protestantismo tem um papel relevante, especialmente porque o 
catolicismo romano fracassou na tentativa de "redimir a alma de uma grande nação", 
conquanto capaz de fazer "esplêndidas catedrais", produzindo "estagnação espiritual, 
ignorância e degradação das massas". [420]Não se espere, porém, anticatolicismo 
incondicional de Erasmo Braga, mesmo vendo as igrejas evangélicas como portadoras por 
excelência da mensagem cristã. [421] 
   
Em sua visão, o cristianismo evangélico em especial, "poderá consubstanciar-se com 
os ideais latino-americanos e assim vir a ser o agente de transformação social". Sua ação na 
América Latina é análoga à "do cristianismo apostólico sobre o império romano, de cujo 
espírito e cultura os povos latinos da América são herdeiros". [422] 
   
Por isto, é urgente a tarefa da evangelização, por ele compreendida como: 
   
  
   
". a apresentação da pessoa adorável de Jesus Cristo, (...) capaz de satisfazer com a 
beleza de seu caráter e intensidade de seu amor, os mais fundos e reais anelos de nosso 
espírito; 
   
. a transfusão, em nossa alma de uma energia dinâmica que produz caráter; 
   
. a divulgação de um livro -- a Bíblia -- aberta na língua vernácula, livro em que está 
documentada a "salvação da graça mediante a fé", o "dom de Deus", possível e acessível a 
toda a humanidade, para nos incendiar com um otimismo contagioso, que transcenda os 
limites das nações, do continentes e das idades, na expectativa solidária do Reino de Deus". 
[423] 
   
  
   
Ao proceder assim, o protestantismo se aproxima do centro da vida espiritual, que é 
Jesus Cristo, passando a corresponder às legítimas aspirações do homem contemporâneo. 
[424]É deste cristianismo que a América Latina necessita. para voltar a respirar, como "nos 
dias da libertação democrática, os ideais mais alevantados da liberdade aqui fizeram sede e os 
criadores das repúblicas tiveram uma grande visão de pátrias livres, progressistas e 
exaltadas". Só assim se evitará a "amarga realidade", de uma situação moral e social da 
América Latina contrastando "dolorosamente com a letra e com o espírito liberal de suas leis 
fundamentais". [425] 
   
  
   
A teologia nos arcanos do inconsciente 
   
Se é incipiente a produção teológica propriamente brasileira, o protestantismo não 
vive(u) sem teologia. Há uma teologia orgânica não sistematizada, mas muito forte. Há 
pouco livros de teologia porque não são necessários. A teologia está nos textos devocionais, 
nos estudos para educação religiosa, nos artigos para os jornais e sobretudo nos hinos 
cantados pelas congregações. 
   
Se se quer ler a teologia protestante brasileira é nestas fontes que se deve beber. Feito 

este esforço, o resultado poderá surgir próximo à síntese abaixo elaborada. 
   
  
   
O anticatolicismo: as seitas sitiadas 
   
Curiosamente, nos Estados Unidos, de onde veio, a luta era entre protestantismo e 
protestantismo, em busca de hegemonia. 
   
No caso dos batistas, até a história denominacional teve que ser reescrita. Quando no 
século XVII, as denominações começaram a se desenvolver, e teve início um processo de 
competição, cada uma se apresentava como superior. Um dos indícios desta superioridade 
estava na antigüidade de sua constituição e na representatividade do seu fundador. Os 
presbiterianos tinham João Calvino, os luteranos tinham Martim Lutero, os metodistas 
tinham João Wesley. Os batistas não tinham ninguém. Foi preciso inventar: os batistas não 
tinham fundador, porque surgiram no período do Novo Testamento. Assim, todos aqueles 
que, ao longo da história, não transigiram com o catolicismo, foram batistas... 
   
A teologia anabatista da igreja como um corpo local de regenerados teve de ser 
fortalecida e transformada. Assim, só a igreja local é igreja verdadeira. Não existe uma igreja 
que possa receber este nome, senão a congregação local... 
   
Aqui, este sentimento anti-outras denominações foi transferido para o catolicismo, 
tido como o inimigo comum, já que ele se desviara e não mais "representa o espírito do 
Cristianismo na sua pureza primitiva", como o resume um dos pensadores batistas. [426] 
   
Assim, os missionários se tornaram anticatólicos ao chegarem ao Brasil. Nos Estados 
Unidos, eles tinham como inimigo o próprio protestantismo, que se tornara já uma espécie de 
religião civil marcada por um nominalismo O termo é aqui entendido no sentido de 
assentimento à igreja não traduzido em freqüência regular já forte, como qualquer um de nós 
pode observar nos filmes de bangue-bangue clássicos. Era isso que impedia que suas igrejas 
crescessem. 
   
Aqui também as igrejas que fundaram precisavam crescer. Como toda a população 
era, pelo menos nominalmente, católica, seu público-alvo eram os católicos. Acontece que o 
clero católico não ia entregar assim de graça seu rebanho para estes irmãos separados. E 
resistiu. 
   
E era isso que os missionários queriam. No plano intelectual, os missionários se 
apresentaram como pregoeiros do verdadeiro cristianismo, baseado na Bíblia e não na 
tradição, centrado em Jesus Cristo e não no papa, enfim uma religião em que a pessoa tem 
acesso direto e livre ao Pai, sem intermediação de padres e santos, sem necessidade de 
sacramentos, esmolas e procissões. 
   
Ademais, conquanto isto não fizesse parte do seu discurso inicial, eles souberam tirar 
proveito da identificação, feita por intelectuais brasileiros, entre protestantismo e progresso... 
progresso este representado pela emergente potência dos Estados Unidos, de onde vieram. A 
solução política e econômica para o Brasil era tornar-se protestante, como o "grande irmão 
do norte". 
   
O argumento é simples, como já indicado: o protestantismo é um aliado da 
democracia e do progresso (contra as pontas-de-lança do atraso -- leia-se catolicismo) 
material das nações; onde ele está não há atraso: basta olhar a história. Isto pode ser colocado 
do seguinte modo: 
   
  
   
. o protestantismo implica numa norma mais elevada de moralidade pessoal, trazendo 
para os fiéis consequentes benefícios de saúde e prosperidade individuais; 
   
  

   
. o protestantismo (o calvinismo em particular) é a base da democracia; daí a fórmula 
de alguns presbiterianos: presbiterianismo = calvinismo e calvinismo = democracia; 
   
  
   
. o protestantismo, através de sua ênfase no livre-exame da Bíblia e na abertura de 
escolas, promove a educação, com inevitável progresso para a nação como um todo. 
   
Um pastor brasileiro definiu o problema nos seguintes termos: 
   
  
   
"Por muito tempo esteve a igreja no Brasil preocupada tão somente com a sua missão 
espiritual de evangelizar diretamente. (...) Agora, porém, começou ela, melhor esclarecida, a 
compreender que não pode deixar de interessar-se pelos problemas sociais, já tratando desses 
assuntos no púlpito e na imprensa, já os ventilando nas lições bíblicas dominicais, já 
cogitando de reuniões sociais e esportivas para a juventude, já, quando possível, criando 
postos e empresas de assistência social, como hospitais, asilos, orfanatos, consultórios, etc. 
Há um aspecto, porém, da missão da igreja, que tem sido deliberadamente posto à margem: a 
cultura diretamente cívica do crente como cidadão, o seu dever de se interessar positivamente 
pelos negócios públicos, a sua obrigação de intervir imediatamente no destino nacional pelo 
exercício do voto... Agora nós, os que pela história e pela experiência conhecemos as 
tendências e as finalidades do movimento ultramontano do clero, não estaremos nesta hora 
sendo chamados para, com o nosso voto esclarecido, ajudarmos no melhoramento de nossa 
pátria, pela adoção de uma constituição verdadeiramente liberal, progressista e portanto 
cristã no seu espírito". [427] 
   
  
   
Até hoje, nas igrejas batistas se canta este desejo: 
   
  
   
"Minha pátria para Cristo! 
   
Eis a minha petição: 
   
Minha pátria tão querida, 
   
Eu te dei meu coração; 
   
Lar prezado, lar formoso, 
   
É por ti o meu amor. 
   
Que o meu Deus de excelsa graça 
   
Te dispense seu favor. 
   
Quero, pois, com alegria, 
   
Ver feliz a mãe gentil,   
   
por vencer seu Evangelho 
   
Esta terra do Brasil. 
   
Brava gente brasileira, 
   
Longe vá temor servil; 
   
Ou ficar a pátria salva 
   
Ou morrer pelo Brasil". [428] 
   
  
   
As estratégias utilizadas para a pregação foram variadas: distribuição de Bíblias, 
embora o povo fosse analfabeto; abertura de escolas anexas, já que o povo era analfabeto; 
abertura de colégios de elite, para alcançar a classe média e demonstrar a eficiência do seu 
método pedagógico; e, principalmente a pregação direta, pessoa-a-pessoa e a grupos. Se o 
padre local concordava ou não, nunca lhe era perguntado. 
   
O resultado foi uma espécie de luta religiosa. Do lado protestante, isto tinha um 

nome: perseguição religiosa. O verdadeiro cristianismo estava sendo ferozmente perseguido 
pelo falso. 
   
Em resumo, a mentalidade desenvolvida foi a de uma seita sitiada pelas trevas... do 
catolicismo. 
   
Isto influenciou a teologia dogmática, a ética social e a moral de costumes. A ênfase 
dogmática recaiu sobre a autoridade da Bíblia, a centralidade de Jesus Cristo e a 
exclusividade da fé, em oposição à co-validade da tradição, à cooperação de Maria e à 
co-legitimidade das obras. Este aspecto não foi bem desenvolvido, porque a teologia aqui 
produzida foi uma teologia da repetição dos grande clássicos do protestantismo. 
   
A ênfase da ética social resultou na defesa do princípio da separação entre igreja e 
estado. Este princípio ("igreja livre num estado leigo") gerou nos anos 20 e 30, uma luta 
aberta contra o ensino religioso nas escolas públicas. Um dos corolários desta movimentação 
foi a promoção de um dia nacional de protesto contra a construção, com recursos públicos, da 
estátua do Cristo redentor no Rio de Janeiro, um símbolo notoriamente... católico-romano. 
   
Outros resultados da adoção deste princípio naturalmente anticatólico foi o 
desinteresse pela cultura brasileira, porque impregnada dos valores católicos, e num 
desinteresse pela política, porque dominada pelos líderes católicos. 
   
Isto era capitalizado no plano apologético: esta cultura brasileira tem como resultado 
o atraso moral e tecnológico do povo: a nova cultura protestante tem como resultado o 
aperfeiçoamento moral e tecnológico. A política brasileira era movida pelo interesse: os 
brasileiros podem estar tranqüilos: os protestantes são diferentes: eles não vão se intrometer 
nesta área. 
   
A ênfase da moral de costumes recaiu sobre a pedagogia da diferença: o protestante é 
aquele que não faz aquilo que o católico faz: não gasta dinheiro naquilo que não é pão: logo, 
não fuma, não bebe (bebida alcoólica), não joga, não freqüenta bailes, não etc. Ele é honesto, 
trabalhador, sabe ler (pelo menos a Bíblia), logo, progride na vida. 
   
Esses traços, embora tenham sofrido variações ao longo do século, continuam ainda 
hoje presentes. Nesta raiz, deve-se encontrar a explicação para o forte espírito 
denominacionalista, capaz de levar um jovem a escrever em sua pasta: "EU NÃO SOU 
CRENTE BATISTA; EU SOU BATISTA CRENTE", pensamento que evangélicos de outras 
denominações adaptariam tranqüilamente. Neste isolacionismo, cada uma é superior não só 
ao catolicismo, mas às outras, seja por seu padrão moral, seja por sua eclesiologia, seja pela 
sistematização de sua teologia, seja pelo seu ardor evangelizador-missionário. 
   
O anticatolicismo explica também a evangelização guerreira. A própria vida cristã é 
entendida como uma guerra espiritual, baixada das regiões celestes (Ef. 6:11-18) para as 
terrestres. O inimigo metafísico é o mal, como o demonstra o estribilho de um hino cantado 
nas igrejas evangélicas: 
   
  
   
"Vamos com Jesus e marchemos sem temor! 
   
Vamos ao combate, inflamados de valor! 
   
Com coragem vamos todos contra o mal! 
   
Em Jesus teremos nosso General!" [429] 
   
  
   
Como o mal se espalha no Brasil, embora (ou talvez precisamente por isto) seja um 
país católico, o inimigo passa a ser o próprio catolicismo; assim, toda evangelização é uma 
evangelização contra. Por isto, é necessário acreditar-se que o catolicismo não mudou e não 
mudará. É fundamental acreditar-se que um católico não pode ser salvo e, se o for, terá que 

deixar sua igreja. Sem inimigo não dá pra viver... [430] 
   
Em síntese, o catolicismo é uma forma de paganismo, nada tendo mais de comum 
com o cristianismo apostólico; por isto, a unidade cristã só é possível a partir da conversão do 
catolicismo. 
   
Dois outros exemplos bastam para entender o pensamento protestante (batista em 
particular) a respeito deste aspecto. 
   
  
   
"O véu dos mistérios do papa foi se rasgando pouco a pouco ao passo que ia lendo a 
Bíblia, vendo a vontade de Deus revelada aos homens; e de tal maneira que pude descobrir 
muitas outras razões por que não devia mais me demorar em tal igreja. As más doutrinas por 
si mesmas se condenam: erros, superstições, idolatrias, contradizem-se à vista da Bíblia e da 
razão. Vi a condenação da igreja de Roma". [431] 
   
  
   
"O chorar não salva! 
   
Mesmo o lacrimar sem fim, 
   
Jamais mancha carmesim 
   
Poderá lavar em mim; 
   
O chorar não salva. 
   
Obras não me salvam! 
   
Meus esforços sem cessar 
   
Não me podem transformar, 
   
Nem meus males expiar; 
   
Obras não me salvam. 
   
Orações não salvam! 
   
Apesar do seu fervor, 
   
Petições não têm valor 
   
Pra salvar o pecador; 
   
Orações não salvam. 
   
É Jesus quem salva! 
   
Ele a obra consumou, 
   
Meus pecados expiou, 
   
Com seu sangue me lavou; 
   
É Jesus quem salva". [432] 
   
  
   
Estas visões, entre outras, fazem parte da cultura protestante brasileira. Como faz 
parte também um certo peregrinismo. 
   
  
   
O peregrinismo: somos todos forasteiros 
   
Uma casa protestante com certeza... tinha um quadro na parede de frente da sala: "os 
dois caminhos". [433]Com a urbanização e com o aburguesamento dos protestantes, o 
quadro foi desaparecendo. Hoje ele está presente no interior e nas zonas periféricas das 
cidades, ou nesta forma ou na de uma outra: "a arca de Noé". 
   
Ambos simbolizam que o protestante não é deste mundo. Ele está de passagem, como 
Noé esteve na arca. A exemplo dos fundadores da nação norte-americana, que se chamaram 
de peregrinos, eles também estão em marcha só que para uma outra pátria, a mansão celestial. 
   
Os hinos cantados nas congregações evangélicas atualizam dominicalmente esta 
perspectiva: 

   
  
   
"Oh! tão cego eu andei, 
   
E perdido vaguei, 
   
Longe, longe do meu Salvador; 
   
Mas a glória desceu 
   
E seu sangue verteu 
   
Pra salvar um tão pobre pecador. 
   
Eu ouvia falar 
   
Dessa graça sem par, 
   
Que do céu trouxe nosso Jesus 
   
Mas eu surdo meu fiz, 
   
Converter-me não quis 
   
Ao Senhor que por mim morreu na cruz. 
   
Mas um dia senti 
   
Meus pecados e vi 
   
Sobre mim o castigo da lei; 
   
Mas depressa fugi, 
   
Em Jesus me escondi 
   
E refúgio seguro nEle achei. 
   
Oh! que grande prazer 
   
Inundou o meu ser, 
   
Conhecendo este tão grande amor 
   
Que levou meu Jesus 
   
A sofrer lá na cruz 
   
Pra salvar um tão pobre pecador". [434] 
   
  
   
Há hinos ainda mais específicos: 
   
  
   
"Peregrinos, quais estrangeiros, 
   
Nós seguimos pelo mundo a viajar. 
   
Aqui há trevas e iniqüidade, 
   
Aqui há luta contra a maldade. 
   
(...) 
   
Cidadãos, pois, daquela pátria, 
   
Nós seguimos pelo mundo a caminhar". [435] 
   
  
   
Sou forasteiro aqui, em terra estranha estou; 
   
Do reino lá dos céus embaixador eu sou! [436] 
   
  
   
Eu sou um peregrino 
   
Da estrada pouco sei; 
   
E dizem que perigos 
   
Eu sempre encontrarei, 
   
Apertos e trabalhos, 
   
Penosos para mim; 
   
Mas quero andar com Cristo 
   
Até da vida ao fim. 

   
(...) 
   
E mesmo quando a noite 
   
Eu enfrentar, no fim, 
   
Além da morte, a glória 
   
Encontrarei, enfim". [437] 
   
  
   
Da linda pátria estou mui longe, 
   
Triste eu estou; 
   
Eu tenho de Jesus saudade; 
   
Quando será que vou? 
   
Passarinhos, belas flores 
   
Querem me encantar. 
   
Oh! Vão terrestres esplendores, 
   
Não quero aqui ficar!" [438] 
   
  
   
  
   
Evidentemente, o peregrinismo é uma visão da história. É um tipo de dualismo 
apocalíptico, no qual existe um plano de Deus para cada pessoa; este plano já está dado: ele 
preexiste às decisões de cada um na história. 
   
E nesta história, pré-determinada, o fim será trágico: cabe a cada um salvar-se. Para 
estes salvos, o futuro será glorioso. Importar-se com o presente é irrelevante. Os eventuais 
sofrimentos devem ser relativizados porque o fim da história reserva ao crente um vida 
completamente diferente, infinitamente melhor na sua qualidade. 
   
  
   
"O mundo vil já desprezei, 
   
E seu caminho abominei; 
   
(...) 
   
No mundo não encontro paz, 
   
Pois ele não me satisfaz; 
   
Aqui só tenho que sofrer, 
   
Contigo quero, pois, viver. 
   
(...) 
   
A tua glória, já no fim, 
   
OH meu Jesus, me leva, sim, 
   
E me sustenta até chegar 
   
Às portas do celeste lar". [439] 
   
  
   
A esperança é projetada para o futuro. 
   
Como Noé, os crentes entrarão pela obediência individual triunfalmente para uma 
nova história. 
   
Se o anticatolicismo é uma criação brasileira, o mesmo não se pode dizer do 
peregrinismo. Esta visão de mundo está inscrita no protestantismo universal, desde "O 
Peregrino", de John Bunyan (1628-1688). 
   
É uma hipertrofia do princípio da justificação pela fé. A Reforma protestante foi, 
entre outras possibilidades, uma resposta ao problema da salvação; diante de um mundo 
decadente, o sentimento comum era: "como eu posso me salvar, já que a participação nos 
sacramentos da igreja católica não me pode dar esta certeza?" 

   
Lutero mesmo se fez esta pergunta. A resposta foi que a salvação é possível mediante 
uma relação direta do homem com Deus, sem qualquer tipo de intermediação (seja 
sacramental, eclesial ou moral). O indivíduo, coerentemente com o novo ideário 
secularizante de então, é afirmado como a medida de sua fé, pela qual se justifica diante de 
Deus. 
   
Assim, a solução do problema fundamental do ser humano se dá no plano individual, 
diferentemente da clássica resposta do catolicismo (tanto medieval quanto brasileiro) que 
cria no sacramento comunitário. 
   
Este individualismo nasceu junto com a modernidade; a ética do trabalho é 
individualista; poupar é uma empreitada individual; seguir a Jesus é uma resposta individual 
ao seu convite individual. Este individualismo marcou o puritanismo inglês e chegou à ética 
protestante norte-americana, tanto pela via original quanto pela secundária do pietismo 
europeu. Com isto, o que se quer dizer é que o protestantismo norte-americano tinha no 
primeiro um forte traço individualista, que foi salientado com a Reforma que sofreu no 
século 18, com a entrada do pietismo em cena, por meio dos reavivamentos lá verificados. 
Foi no bojo deste movimento, que o espírito missionário se formou. Portanto, o 
individualismo chegou até nós através do protestantismo para cá transplantado. 
   
Nunca se fez segredo deste individualismo. Um missionário chegou a escrever um 
opúsculo intitulado "O princípio de individualismo em suas expressões doutrinarias". 
[440]Neste livro, que, curiosamente, não fez sucesso comercial, A.B. Langston entende este 
individualismo como sendo a liberdade, a competência e a responsabilidade do indivíduo em 
todas as relações da vida. Conforme esta visão verticalista do problema, para se salvar, o 
homem precisa ver-se como o único ser humano em todo o mundo. Ele está totalmente 
corrompido, carecendo da irrupção total da graça em sua vida para que encontre a salvação 
que é pessoal, intransferível e incorporatizável; assim, quando se encontra face a face com 
Cristo, a comunhão é estabelecida e o problema, resolvido, numa interação direta de duas 
vontades: a sua e a do Criador. De um lado, está Deus em Cristo e, do outro, o homem 
sozinho. A salvação ocorre, portanto, num encontro secreto entre os dois. 
   
A primeira declaração de fé batista publicada no Brasil reforçava este pensamento 
luterano e calvinista: 
   
  
   
"A grande bênção evangélica que Cristo assegura aos que crêem nele é a justificação 
que inclui o perdão do pecado (...) que é conferido, não em consideração de quaisquer obras 
de justiça que nós temos feito, mas somente pela fé no sangue do Redentor; (...) que é que nos 
traz ao estado da mais bem-aventurada paz e favor com Deus e assegura todas as outras 
bênçãos necessárias para o tempo e para a eternidade". [441] 
   
  
   
Novamente, os hinos são ilustrativos: 
   
  
   
"Eu confio em meu Jesus; 
   
Bem seguro estou, 
   
Pois morrendo sobre a cruz, 
   
Ele me salvou. 
   
(...) 
   
Gozo, paz, consolação, 
   
Tenho em meu Jesus; 
   
Meu descanso e redenção, 

   
Descem lá da cruz". [442] 
   
  
   
Uma das conseqüências desta mentalidade é a crença de que todas as coisas podem 
ser resolvidas no plano da vontade: se o interior do homem mudar, o homem mudará. Assim, 
toda mudança, mesmo a social, tem que passar pela experiência da conversão. Pode-se mudar 
as formas de governo, mas se não mudar o coração dos homens, não se pode esperar melhoria 
alguma. O manifesto do "Brasil Presbiteriano" (em 1962) é claro: "Coloquem-se nos 
postos-chaves do país homens deste alto coturno e tudo mudará de figura e de rumo como por 
encanto". [443] 
   
Neste caso, o político torna-se uma dimensão secundária da organização humana. A 
pretensão é a de neutralidade. Não importa o sistema em vigor: o crente é cidadão de outra 
pátria. Não importa o regime em ação: o crente o considera como um mal necessário. Não 
importa o governo no poder: o crente deve obedecê-lo. 
   
A vontade é soberana e mágica: 
   
  
   
"A religião de Jesus Cristo converte a mente, regenera o espírito, saneia o corpo, faz 
com que o homem sinta que um coração puro não pode palpitar dentro de um corpo sujo. O 
verdadeiro crente é um homem asseado, é uma pessoa asseada. Quando o homem tem 
cuidado com o asseio do corpo, também não quer morar numa casa suja, imunda. O homem 
que tem asseio no corpo, necessariamente há de ter asseio no lar. Quando o homem tem 
asseio em sua residência concorre para que outros, contemplando o seu exemplo, procurem 
imitá-lo. À proporção que o evangelho conquista os corações, conquista a família, e 
necessariamente a higiene há de ser um fato geral para a sociedade, e quando a higiene for 
geral na sociedade, as pestes desaparecerão! 
   
O homem convertido pela Palavra de Deus, convertido em Cristo, compreende que 
deve trabalhar seis dias, e, trabalhando seis dias, estanca uma das fontes da tuberculose, que é 
a miséria. 
   
A miséria, pela má alimentação e falta de conforto, é uma das causas da tuberculose. 
Mas o homem pelo labor adquire saúde para o corpo. E não somente saúde para o corpo, mas 
também os recursos para sustentar a sua vida e a de sua família com dignidade e conforto 
relativos ao seu salário. O homem convertido não somente trabalha seis dias, mas tem 
cuidado de dispensar o sétimo, o domingo. E o homem que descansa no dia de domingo 
economiza as forças necessárias para a labutação cotidiana da semana". [444] 
   
  
   
  
   
Dito de forma hinódica, a certeza é uma só: 
   
  
   
"Oh! crentes brasileiros,   
   
Firmai-vos no Senhor, 
   
O seu perdão erguendo, 
   
Pendão do seu amor. 
   
"A pátria para Cristo" 
   
Bem alto apregoai, 
   
E a graça do Evangelho 
   
Na vida proclamai. 
   
(...) 
   
Oh! crentes brasileiros, 

   
O Mestre tem poder 
   
De aos nossos conterrâneos 
   
A vida conceder!" [445] 
   
  
   
Neste percurso, lê-se, numa curiosa síndrome, Romanos 13 literalmente e 
interpreta-se Apocalipse 13 simbolicamente. Daí para o apoio aos regimes totalitários, como 
ocorreu no Brasil militar, é apenas uma conseqüência natural. 
   
A conversão determina, ainda, que o fiel, para fruir melhor da graça, deve abandonar 
os costumes anteriores, passando a viver segundo os padrões de uma nova (contra)cultura, 
que, por ser superior, pode ser oferecida a todos, desde que passem pela crise da conversão 
pessoal. 
   
E aqui se desenvolve uma tensão antiga, herdada do protestantismo europeu. O que é 
mais importante: a vida ou a doutrina? A resposta teórica é clara: as duas. Na prática, porém, 
é a doutrina. Quando uma pessoa é afastada da igreja, sua volta por razões teológicas passará 
por um processo bastante longo. No caso da falha moral, bastam a confissão do pecado e a 
disposição de evitá-lo. 
   
Obviamente, este arraigado dogmatismo é necessário enquanto garantia da coesão 
denominacional. 
   
O sentido deste (novo) homem está num cumprimento da missão jesuânica, a do 
anúncio da verdade a todos, sejam eles seus vizinhos/amigos, estejam eles distantes em 
outras regiões ou outras nações: 
   
  
   
  
   
"A missão primordial do povo de Deus é a evangelização do mundo, visando a 
reconciliação do homem com Deus. É dever de todo discípulo de Jesus Cristo e de todas as 
igrejas proclamar pelo exemplo e pelas palavras a realidade do Evangelho, procurando fazer 
novos discípulos em todas as nações. (...) A responsabilidade da evangelização estende-se até 
aos confins da terra e por isso as igrejas devem promover a obra de Missões, rogando sempre 
ao Senhor que envie obreiros para a sua seara". [446] 
   
  
   
Dito de outro modo, espera-se que cada crente seja um missionário. 
   
  
   
"Povo de Deus, cumpri o vosso encargo 
   
De proclamar do nosso Deus o amor! 
   
Pois Ele, compassivo, não deseja 
   
A perdição do pobre pecador. 
   
Oh! contemplai milhares que perecem 
   
Presos nas garras do pecado e mal, 
   
Sem que haja que, com pena, lhes indique 
   
Cristo Jesus, Libertador real. 
   
(...) 
   
Oh! consagrai os vossos bens e filhos 
   
Pra difundir de Cristo a santa luz! 
   
Com orações constantes, fervorosas, 
   
Auxiliai a causa de Jesus!" [447] 
   
  
   
O biblicismo: uma autoridade fundamental 

   
Para não restar dúvida, a Bíblia é o livro que oferece todas as certezas. Os evangélicos 
são leitores, portadores e seguidores da Bíblia. Isto faz parte da tradição maior do 
protestantismo. Um dos primeiros gestos de Lutero foi traduzir a Bíblia para o alemão. 
   
Na América Latina, a distribuição de bíblias em português ou espanhol precedeu 
mesmo a chegada formal dos missionários. Os colportores se encarregaram de fazê-la 
conhecida. Sua leitura é algo semi-interdito no catolicismo; os protestantes a liberaram geral 
para o uso do povo que soubesse ler. [448]Isto logo caracterizou os evangélicos, como ainda 
caracteriza: o seu porte dominical, numa pasta ou debaixo do braço, já é um traço da cultura 
brasileira. 
   
Ser um leitor da Bíblia é motivo de orgulho. Em alguns casos, ela se torna mesmo um 
amuleto: possuí-la traz proteção de Deus. Por isto, não deve ser rasgada ou descuidada. 
   
Exageros à parte, este livro é fonte de orientação existencial, bem como de 
conhecimento teológico. A vida e a doutrina têm que passar pelo crivo das Escrituras. 
   
Como a Bíblia é lida no Brasil, pelos evangélicos? 
   
Cada fiel é livre para examiná-la e é incentivado a fazê-lo. O livre-exame, 
paradoxalmente, não produz diversidade teológica no interior de cada denominação. Isto faz 
supor que a Bíblia é sempre lida de um jeito, o jeito da denominação. Em outras palavras, a 
liberdade do exame é controlada, sem que os leitores o percebam, pela interpretação oficial, 
recebida do púlpito, do ensino da Escola Dominical, dos hinos e das publicações. Assim, a 
tradição, que é objeto de crítica no catolicismo, volta por um tipo de acordo tácito. 
   
O protestantismo, no entanto, tem uma espécie de itinerário geral para a leitura da 
Bíblia. 
   
  
   
Primeiramente, seu leitor deve tomá-la como a palavra de Deus, o modo atual como 
Deus se revela. Isto está presente nos protestantismos clássicos. No caso do movimento 
pentecostal, no pentecostalismo clássico, mais organizado, a iluminação interior do profeta 
deve se lhe subordinar; se a profecia contradisser a Bíblia, é falsa. No ultrapentecostalismo, 
ou qualquer outro culto pentecostal de constituição recente, o discurso é o mesmo; na prática, 
porém, a iluminação é inicialmente mais forte, como revelação dinâmica de Deus para um 
grupo majoritariamente de iletrados ou semi-letrados. No entanto, dentro de um modelo 
geral, à medida que o grupo vai se sedimentando, a autoridade final vai sendo conferida à 
Bíblia. Também para estes setores, a Bíblia é a alavanca da coesão. É o antídoto para o 
relativismo. 
   
Em segundo lugar, a Bíblia deve ser lida existencialmente. O primeiro objetivo de sua 
leitura é aprender a viver, a partir dos princípios dela retirados. Aí, não importa o pré-texto (a 
história da produção do texto) nem o seu con-texto (a parte anterior e posterior do texto lido). 
Importa o que aquele texto específico tem para dizer. Esta leitura atomizada tem sua 
hiperbolização no sucesso comercial das caixinhas de promessas, que contêm em tiras os 
mais agradáveis e consoladores versículos da Bíblia. 
   
Como ela é a regra de fé e prática, todos os atos humanos devem estar autorizados por 
ela. Numa discussão, é muito comum sair-se a seguinte pergunta: 
   
-- Mas o que a Bíblia diz a respeito? 
   
Evidentemente, há assuntos sobre os quais ela nada diz, porque são preocupações que 
não povoavam a mente dos seus autores. A saída é buscar-se na Bíblia princípios gerais que 
possam ser aplicados ao caso. Do contrário, chega-se a um rigorismo, típico dos taboritas do 
século 16: o crente só deve fazer o que é explicitamente autorizado pela Bíblia. Se Jesus não 
fala para usar o rádio para a evangelização, é proibido fazê-lo. Conquanto alguns grupos 

caminhem por esta rota, o mais comum é seguir João Calvino: o crente pode fazer tudo aquilo 
que a Bíblia não condena explicitamente. 
   
Em terceiro lugar, a leitura recomendada é a literal. Até prova em contrário, cada 
texto deve ser lido por ele mesmo, tomando-se seu sentido palavra por palavra. Quando a sua 
aplicação não for possível, entrará em cena um outro tipo de interpretação. 
   
  
   
Um caso típico é aquele texto sobre Pedro, no qual Jesus diz que edificaria a sua 
igreja sobre ele (Mt 16:18). A interpretação literal não deixa margem: Pedro será o 
instrumento usado por Jesus para liderar a igreja que está para nascer. Como conviver com 
esta interpretação utilizada pelos católicos para instituir o papado? O jeito é apelar para os 
especialistas, que dizem: no original (como quase ninguém lê no original, a expressão chega 
a ser mágica...), o negócio não é bem assim: a pedra de que Jesus fala era ele mesmo e não 
Pedro, ou a pedra de que Jesus fala era a declaração de Pedro (de que Jesus era o Messias)... 
   
  
   
Estas chaves hermenêuticas tornam a Bíblia um livro aprisionado pelas doutrinas, 
quando deveria ser a porta da liberdade. 
   
  
   
PRIMEIRA CONCLUSÃO 
   
Estes aspectos podem ser visualizados num quadro: 
   
  
   
Quadro 9 
   
CARACTERÍSTICAS DO OLHAR PROTESTANTE BRASILEIRO 
   
  
   
  
   

Baixar 4.8 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   28




©bemvin.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Prefeitura municipal
santa catarina
Universidade federal
prefeitura municipal
pregão presencial
universidade federal
outras providências
processo seletivo
catarina prefeitura
minas gerais
secretaria municipal
CÂmara municipal
ensino fundamental
ensino médio
concurso público
catarina município
Dispõe sobre
reunião ordinária
Serviço público
câmara municipal
público federal
Processo seletivo
processo licitatório
educaçÃo universidade
seletivo simplificado
Secretaria municipal
sessão ordinária
ensino superior
Relatório técnico
Universidade estadual
Conselho municipal
técnico científico
direitos humanos
científico período
pregão eletrônico
espírito santo
Curriculum vitae
Sequência didática
Quarta feira
prefeito municipal
conselho municipal
distrito federal
nossa senhora
língua portuguesa
Pregão presencial
segunda feira
educaçÃo secretaria
recursos humanos
Terça feira
educaçÃO ciência
agricultura familiar