Interview #1



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Interview #1


[TJVG]: Há quanto tempo trabalha com pessoas cegas?

[IN]: 9 anos


[TJVG]: Ao longo desses anos, que funções teve junto da população?

[IN]: Passei por monitora de informático, dactilografia e utilização do computador a nivel basico e depois dentro das tarefas de fazer de tudo um pocuo, tudo dentro do uso de novas tecnologias.


[TJVG]: Aquilo que fez no CRNSA é semelhante ao que faz aqui?

[IN]: Sim, continuei a ser de informática. Windows, Microsoft word, messenger, pesquisas, motores de busca, o JAWS...no CRNSA utilizávamos leitores de ecrã.


[TJVG]: Na fundação 5 anos e no CRNSA 4 anos. Aproximadamente, com quantas pessoas cegas já trabalhou?

[IN]: Não faço ideia. Aqui passam 50 por ano...umas 300...porque algumas vão-se repetindo.


[TJVG]: Nas populações com que trabalhou aqui na fundação e na CRNSA, são populações muito diferentes? Num lado mais jovens, noutro lado mais idosos?

[IN]: CRNSA é um centro de reabilitação para recém-cegos portanto a população que passava lá era muito diversificada em termos de intervenção. Trabalhava-se individualmente. Aqui na Fundação só o facto de termos uma turma com características semelhantes isso já facilita muito o trabalho...falamos em grupos e não individualmente. Aqui na Fundação há de facto grupos muito distintos dependendo da área de curso. Os telefones tem sempre pessoas com mais escolaridade, aptidões que não têm as pessoas da tapeçaria.

[TJVG]: Isso é por escolha das pessoas ou há alguma pré-selecção?

[IN]: Passam por entrevistas iniciais, sociais e com o psicólogo.


[TJVG]: Portanto, na Fundação, cada população é diferente...

[IN]: Mesmo dentro dos cursos têm grupos muito distintos. Nos telefones têm todos que ter mais do que o 9º ano, os utentes que nos chegam com uma escolaridade acima do 9º, 12º, licenciatura são todos reencaminhados para os telefones, não só pela exigência mas porque também é o curso que tem inserção do mercado de trabalho. Existe uma grande diferença entre os utentes dos telefones e os da tapeçaria...estes são um pouco mais limitados.


[TJVG]: A parte da escolarida é decisiva. Que outras características são importantes?

[IN]: A atenção, a memória, é tudo retirado de um conjunto de testes psico-técnicos...resolução de problemas....


[TJVG]: Consegue dar exemplos de casos de pessoas que identifique que sejam muito diferentes no uso de um computador?

[IN]: Para começar, dentro da população com deficiência visual, se queres falar em características, deves começar primeiro pelas características resultantes da deficiência. Porque é isso que podes pegar para que haja algo comum...porque de resto a população é comum. Dentro da deficiência pode ser uma deficiência congénita ou adquirida, o que altera logo a forma de abordar, as dificuldades vão ser completamente diferentes da pessoa que nasceu já cego e explorou o mundo já sem visão ou de alguém que adquiriu uma deficiência visual, que já não vê mas tem todos os referenciais que a visão lhe deu. Isto muda tudo.


[TJVG]: São dois parâmetros diferentes. A altura que adquiriu a cegueira e também o tempo há que a pessoa é cega?

[IN]: Sim, também.


[TJVG]: A altura da incidência será mais relevante do que o tempo?

[IN]: Sim. Em termos de dificuldades depois tem de pensar no tipo de actividades. Um cego congénito, no dia a dia, não tem tantas dificuldades do que uma pessoa que adquiriu a cegueira mais tarde na vida. No entanto, na utilização de um computador de software, a visualização do ambiente de trabalho, do que está a ser feito, do tipo de tarefas, é sempre mais facilitada para quem é viu, e para quem tem referências visuais...um congénito tem sempre mais dificuldades em usar um computador, porque não tem as referências visuais que nós temos...ou pelo menos aqueles que não têm isso trabalhado. Aí entras a nível individual e subjectivo. Já tive cegos congénitos que nunca pegaram num computador e quando pegaram, explicaste um bocadinho o ambiente de trabalho e eles mexem como se vissem o que estão a fazer, e outras que viram durante muito tempo e não conseguem fazer nada.


[TJVG]: Aí estará ligado à parte cognitiva?

[IN]: Sim, a tudo. Aí sim entra a subjectividade individual. Aconselho-te a concentrares sempre o estudo na parte da deficiência porque senão é tudo, é um mundo inteiro.


[TJVG]: As capacidades variam mais entre as pessoas cegas do que entre os normo-visuais?

[IN]: Não. Acho que é o mesmo. A única característica que tem é a limitação sensorial, o que pode influenciar o deenvolvimento individual da pessoa, se surgir numa fase crítica de desenvolvimento. E as características que podem existir numa população adulta cega são essas, as limitações que tiveram por não verem e que resultaram em caarcterísticas porque não houve o desenvolvimento daquelas capcidades. Tirando isto, não vejo nenhum factor.


[TJVG]: Cada pessoa que chega, haverá uma ideia sobre as dificuldades que essa pessoa terá, nem que seja pela sua condição. Quais são as características identificadas que traduzem maior insucesso no uso de um computador?

[IN]: Principalmente, o pensarem que não são capazes.


[TJVG]: A atitude?

[IN]: Sim, muitas vezes são elas próprias que são teimosas e acham que não são capazes. O aspecto psicológico. Depois, em termos de dificuldades, assim de uma forma geral, a orientação espacial, a falta de.....principalmente nos congénitos. A orientação espacial num espaço reduzido ou a nível informático, num ambiente virtual.


[TJVG]: E casos de sucesso? Alguma característica em especial? Grau de literacia?

[IN]: Às vezes nem tanto. A orientação espacial não está relacionada com a literacia...pode é ser aumentada por isso. Temos casos tão diversificados. É difícil.


[TJVG]: E telemóveis? Alguma diferença que leve ao sucesso?

[IN]: É ao nível individual. Aqueles que conseguem distinguir melhor o teclado...


[TJVG]: Aí será a sensibilidade táctil?

[IN]: Sim, sem dúvida. E a sensibilidade é algo que é muito importante terem em conta porque actualmente uma grande percentagem de pessoas cegas advém de situações de diabetes que alteram também o tacto.


[TJVG]: Existem outras que alteram o tacto, para além da idade também?

[IN]: Sim, doenças degenerativas. Mas a diabetes é a mais problemática.


[TJVG]: Doenças degenerativas já entramos no campo da multi-deficiência?

[IN]: Sim. O nervo óptico é dos primeiros a ser afectado nas doenças degenerativas. Antes de perder mobilidade, equilibrio, orientações...primeiro ficam cegos.


[TJVG]: Destas características costumam fazer algum teste espcífico para além dos psico-técnicos?

[IN]: Sim, testes de destreza manual. Para os cursos de têxteis.


[TJVG]: Relacionado com o uso de computadores, algum teste?

[IN]: Ele adaptou aquele que faz para os têxteis. Vai passar a ser feito é um teste para o conhecimento que as pessoas têm a nível de computadores. Mas é só verbal.


[TJVG]: Dessas características têm alguma técnica para melhorar esses casos?

[IN]: Sobretudo treinar. Dentro da utilização do computador, a nível de informática, muitos casos tinham dificuldades de orientação do espaço e portanto dificuldade de utilização do teclado. Para isso, o teclado tem as teclas de referência e muitas vezes não são suficientes e nós aí colocamos logo umas borrachinha que realçam essas referências. Mas sobretudo é treino.


[TJVG]: Essas referências são posteriormente retiradas?

[IN]: Não. Os teclados à partida já têm os pontos de referência no F e J mas são minímos e para facilitar o trabalho de dactilografia adicionamos pontos e ficam...


[TJVG]: As próprias pessoas cegas criam algum mecanismo extra para facilitar o uso?

[IN]: Cada um deles depois adopta medidas. Da nossa parte pode-se dizer que é uma adaptação também. Se há alguns formandos que têm uma dificuldade extra, na sala tenta-se por exemplo que o teclado seja mais alto para a pessoa que tem mais dificuldade e isso depois é sugerido também ao formando...depois alguns deles usam outro tipo de estratégias.


[TJVG]: Em relação a essas tecnologias assistivas, tentam suprimir as dificuldades com pequenas alterações. Existem tecnologias assistivas mais drásticas?

[IN]: Sim, se souberem Braille, pode-se substituir por uma linha Braille, um teclado completamente adaptado. No entanto, o que se pretende é sempre que eles utilizem o que é geral. Não se pretende que sejam especializados em adaptações mas sim naquilo que vão ter quando chegarem a algum lado.


[TJVG]: O teclado Braille, o feedback voz,..têm algum pressupostos. Esses pressupostos estão normalmente assegurados?

[IN]: Não. A questão da sensibilidade no caso do Braille é um caso. No caso da diabetes, por exemplo.


[TJVG]: A utilização de um teclado Braille em vez de os teclados normais ajuda em que casos?

[IN]: A linha Braille é usada em casos de surdez, porque não podem usar software de leitura de ecrã. O esforço será sempre muito maior do que o esforço para utilizar um teclado normal.


[TJVG]: Em relação a tecnologias assistivas para telemóveis, que é que...?

[IN]: Não tenho mesmo experiência. Odeio telemóveis. Posso falar da parte funcional. Para a autonomia deles, é essencial ter um telemóvel que fale, para poderem fazer gestão de tudo autonomamente. É muito chato ter que pedir a alguém para ler mensagens, por vezes embaraçosas.


[TJVG]: Essas tecnologias também têm algum pressupostos. Nota dificuldades no uso dos dispositivos ou conseguem?

[IN]: As que vêm ter comigo é mais nas mensagens porque de resto conseguem.


[TJVG]: Acha que conseguem níveis de sucesso semelhantes na escrita de mensagens às pessoas normo-visuais.

[IN]: Sim. Essa é aquela parte em que eu não acho que haja grande diferença.


[TJVG]: E em relação às capacidades acha que eles conseguem suplantar em algumas coisas por capacidades que desenvolvem?

[IN]: Não, é a mesma coisa. Acho que é igual.


[TJVG]: Na sua opinião, quais as características individuais que definem maior sucesso no uso de Tecnologia?

[IN]: Para se dar bem com as tecnologias, primeiro a vontade. Em qualquer curso desde que tenha vontade e algum empenho consegue aprender. Características que facilitam são a orientação espacial, a memória, a concentração, a capacidade resolução de problemas e de associação de ideias, a curiosidade também. É muito pessoal.


[TJVG]: No contacto com telemóveis, a idade influencia?

[IN]: Sim.


[TJVG]: Tem um influência pela idade ou pela atitude?

[IN]: As duas coisas. Primeiro, os mais novos já nasceram com um computador.A escolaridade é toda feita com um computador, sendo cegos ou não. Os mais novos têm muita facilidade em mexer com tecnologia, que os mais velhos não têm. Depois também tem a ver com as outras questões relacionadas com a idade. Todas as competências relacionadas com a idade ficam alteradas, a memória, a atenção, a concentração...isso afecta.


[TJVG]: Essa diferença pode ser drástica na medida em que uma pessoa de idade já muito avançada não consegue ter sucesso? Ou é apenas mais lenta?

[IN]: A aprendizagem é mais lenta ou o desempenho é mais lento.


[TJVG]: Acha que a experiência que as pessoas têm influencia?

[IN]: Influencia brutalmente.


[TJVG]: Quer a experiência antes da cegueira ou depois de ser cega?

[IN]: Sim. Porque os softwares são todos feitos muito gráficos e para o entendimento do que se está ali a passar é importante já ter tido experiência. Qualquer pessoa que vai ajudar dá sempre referências visuais. Se tiver noções, vai perceber muito mais facilmente.


[TJVG]: No uso de dispositivos, não só a destreza mas também a força motora, nota que tem alguma influência? A nível de execução ou fadiga?

[IN]: Não tanto de fadiga mas a gestão da força a utilizar, do movimento que vão fazer com os dedos é bastante treinada inicialmente e há casos que têm bastantes dificuldades em perceber qual o ponto correcto para usar o teclado.


[TJVG]: [Agradecimentos e Debriefing]

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