Integración: Cooperación y Conflictos III seminário internacional dos espaços de fronteira



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III SEMINARIO INTERNACIONAL DE LOS ESPACIOS DE FRONTERA (III GEOFRONTERA)

Integración: Cooperación y Conflictos

III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DOS ESPAÇOS DE FRONTEIRA (III GEOFRONTEIRA)

Integração: Cooperação e Conflito

EIXO 6: FRONTEIRAS, TERRITÓRIOS E CULTURAS.




TERRITÓRIO INDÍGENA – É PRECISO “CERCAR” PARA SER RECONHECIDO

CABRAL, Ana Cristina Bochnia1

UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná,

bochniacabral@hotmail.com



Resumo: A temática dos deslocamentos indígenas Guarani foi amplamente discutida a partir de categorias de várias áreas do conhecimento, deste modo, há uma vasta literatura existente sobre esses povos que constantemente vem se deslocando por essas matas. Partindo dos deslocamentos, contudo, podemos afirmar que a terra é essencial à vida dessas pessoas, pois está relacionada com a cultura, a religião, bem como a economia, a política e a vida social de seus habitantes. Nos dias atuais, há um grande contingente de pessoas que vivem em territórios provisórios, assim, a luta pelo direito à terra é recorrente. Apesar de não haver fronteiras físicas para esses grupos, hoje, é preciso que ela seja marcada para garantirem reconhecimento perante a sociedade que os envolve. A base para essa pesquisa foi o trabalho de campo através do método etnográfico realizado numa aldeia localizada em Guaíra – PR. Analiso os conceitos territoriais bem como, o contexto de conflitos acendidos em torno destes, articulados com o “viver bem” Guarani que caracteriza sua identidade. Pretendo com isso, compreender o sentido de viver numa área não demarcada que condiciona o fator da imobilidade. Entretanto a perspectiva da mobilidade é reavivada através da cosmologia que é intermediada pela figura expressa do xamã.

Introdução
Quando do processo de colonização, os conquistadores avistaram que essas terras já eram habitadas principalmente por índios da etnia Guarani Mbya e Ñandeva, estes por sua vez, percebiam como sendo seu, o espaço territorial que vai de Foz de Iguaçu até Guaíra, por meio do Rio Paraná. Hoje, esses grupos analisam e internalizam sua nova configuração territorial, transpondo-se através de suas próprias categorias, por conta das conjunturas expostas.

Com as frentes expansionistas o território foi massivamente ocupado, dando lugar a uma grande trama de conexões internas. Nesse espaço fixaram-se fronteiras tanto culturais quanto físicas, gerando alteridades. Por serem completamente distintos em suas espacialidades, ocasionaram assim um contexto de conflitos. A região oeste é caracterizada então, como um lugar da diferença entre os indígenas e os não-indígenas. Esse contato ocasionou alterações e vários desdobramentos para a coletividade Guarani.

Com o intuito de expulsar os índios, os colonizadores usaram de todas as artimanhas possíveis para expropriá-los de suas terras, sem levarem em consideração que esses espaços utilizados por povos autóctones carregam uma bagagem simbólica e cultural de suas tradições no qual garantem a continuidade de sua coletividade, ou seja, sua identidade.

Segundo Souza (2000), os territórios são lugares por determinação, onde, são definidas as relações sociais e étnicas distintivas. Seguindo o pensamento e as concepções dos ideais de Estado-nação é imprescindível que a classe hegemônica estabelecida detenha o poder e o controle territorial, assim é muito mais fácil conseguir que o Estado, aqui no caso a região oeste, venha a se modernizar. Sublinha-se que, para se efetivar esse ideal é preciso que a população seja simétrica, portanto, os povos tradicionais indígenas devem dar lugar para que esse ideal se concretize.

Nesses termos, o conceito de territorialidade vem de encontro, mesmo que, sendo abstrato, denota uma relação entre homem e lugar (Souza, 2000), por sua vez, auxiliando para especificar a relação que os indígenas têm com a terra, realçando o imperativo de um aspecto geograficamente determinado, para que este local seja considerado seu, como é o caso desta região.

Nesse sentido, o espaço é um lugar de vivências, produção, reprodução e também de expressão do sentimento de pertença. Assim, o espaço mostra-se como um conjunto de códigos encobertos de significados dos grupos, conferindo a essência desse lugar. Os Guarani têm seu modo particular de viver e agir no espaço, configurando-os em seus lugares, contudo, os projetos de expropriações os forçam a se reconfigurarem constantemente. Assim, as reflexões acerca das implicações que as transformações que acontecem nessa região representam para os Guarani que ali vivem, são indispensáveis.

Diante do exposto, busco com esta pesquisa compreender a problemática da terra a partir dos conflitos existentes no entorno da aldeia (externos) e conflitos intergrupal (internos), ou seja, conflitos com não-indígenas e conflitos entre os próprios indígenas que dividem o mesmo território ainda não demarcado no oeste paranaense. Para tanto, há necessidade de se trabalhar com conceitos centrais como os de território e identidade, para possibilitar a compreensão do modo como eles se organizam em grupo, e como asseguram a sua identidade num território de conflito.

O direito por eles reivindicado está associado a um território ideal, que outrora pertenceu a seus antepassados, onde nada lhes faltava. O território em que estão é um território dentro de um contexto de conflitos, onde lutam para manter a sua identidade, mas que, em função das suas práticas culturais necessitam de um território socialmente constituído.

Levando em consideração as dimensões conceituais que a teoria e a literatura nos proporcionam, é imprescindível entender o que os Guarani sentem, pensam e esperam do território enquanto elemento de unidade grupal, ou seja, identidade. Desse modo, trabalharei em cima da expectativa deles quanto à conquista do território.

Entre tantas definições existentes para o conceito de território, utilizarei, no meu ponto de vista, a que mais se aproxima da questão, o qual pode ser segmentado em quatro concepções centrais, no entanto, possuem aspectos em comum e se complementam, são eles: natural, econômica, política e cultural. É nessas características que estão os elementos básicos para compreendermos os Guarani, nas suas práticas culturais, sociais, simbólicas e materiais. Partindo das perspectivas que consiste o território ocupado, pelos Guarani da aldeia Tekohá Y’Hovy localizado na região oeste do Paraná no município de Guaíra, compreenderemos a maneira pela qual as concepções do conceito se apresentam na organização do território.

Para compreender a concepção que os Guarani têm de território, devemos também entender sua mobilidade. Eles não são considerados nômades apesar de suas andanças, são grupos que transitam em áreas antes habitadas por seus antepassados com finalidades específicas, assim como constatou Silva (2010). Ainda que, as aldeias sempre estejam habitadas, seus moradores nem sempre são os mesmos. É recorrente ter nas aldeias alguém partindo, enquanto tem outro chegando, isso implica também na imprecisão de dados que consigam de maneira exata informar a quantidade de indígenas Guarani existente no Brasil.

Em meados do século XX, a configuração imposta pelo Estado, de que somente podemos habitar um território desde que se tenha a documentação de posse deste, fez com que os Guarani desta região, temessem em deixar o espaço ocupado por não possuírem a demarcação. Isso acabou gerando um conflito interno entre seus moradores, pois, a ideia de confinamento é relacionada com a temática da imobilidade2.

Nessa configuração de conflitos gerados pela problemática da terra não demarcada, parto do pressuposto de que há uma manutenção da identidade grupal estabelecida pelo xamanismo e assegurada pelas práticas culturais de produção e reprodução do espaço. Salienta-se, que o território ocupado remete a lembranças de um passado em que eles tinham de tudo, sendo hoje, a única opção possível que lhes resta, embora ele faça parte de uma expectativa de vir a ser um território ideal, a partir da demarcação territorial.

Para que este estudo se efetive, a revisão bibliográfica vem sendo adotada de forma intensa. Buscar auxílio nas literaturas existentes sobre os povos indígenas e em específico os temas propostos a serem trabalhados na dissertação é de suma importância para compreender essa cultura que de longe é diferente da convencional a qual estamos tão acostumados. A compreensão destes oferece suporte a realização da pesquisa. Os clássicos, não só eles, mas os contemporâneos são muito importantes para o conhecimento prévio antes de adentrar no campo, pois, estes nos dão a oportunidade de ver os Guarani como sujeitos coletivos e ao mesmo tempo particulares.


A terra dos Guarani
Alguns estudiosos3 apontam os Guarani da região de Guaíra como sendo da etnia Avá-Guarani4 por constituírem em maior número de indivíduos. Contudo, durante a minha inserção no campo pude perceber que eles não se intitulam como sendo de uma etnia somente, mas um grupo que é constituído pelos quatro subgrupos5 do tronco linguístico Guarani que formam uma identidade grupal. Optei por utilizar a denominação Guarani por ser dessa maneira que os indígenas estudados aqui se identificam.

Sobre os estudos realizados na região oeste do Paraná, vários estudiosos utilizam a terminologia Ñandeva, entre eles estão, Ribeiro (2002); Conradi (2003); Lima (1994) e Fochezatto (2003).

O espaço geográfico onde tradicionalmente os Guarani configuravam seus territórios é reivindicado, pela aldeia aqui pesquisada, numa faixa de área localizada próxima ao centro da cidade, visto que, de acordo com eles, esse espaço foi habitado por seus antepassados.

Os processos de desterritorialização que os Guarani sofreram ao longo dos anos, principalmente pelas frentes colonizadoras e depois pela ordem de reserva de terras por parte do Estado e outros agentes. Essas imposições tiveram significativas consequências quanto à organização dessas comunidades e suas relações de contato, principalmente de cunho político. Esses processos de organização fizeram com que os indígenas se distribuíssem de maneira “diferente”, mas, com o mesmo sentido, no qual possam expressar suas tradições.

Cabe observar que essas demandas pela demarcação das terras já ocupadas, são espaços que foram ocupados por seus antepassados e de modo que “os índios proporcionam as próprias demandas fundiárias em função das situações históricas, de modo que estas possam ser minimamente atendidas” (MURA, relatório, 2002). A forma de se organizar no espaço é uma categoria essencial e uma das características para se compreender o sentido social, bem como o histórico e o sentido religioso.

Ressalta-se que a terra para a concepção indígena é um grande espaço de sobrevivência, e o Oeste do Paraná é uma área específica onde, tornou-se um “laboratório de culturas indígenas”. Assim como, a partir do momento das expansões colonizadoras, a terra também se tornou para os colonos questão de sobrevivência, ou seja, os Guarani e esses agricultores que vieram depois da colonização não vivem sem a terra.



A desterritorialização dos índios Guarani
Os conflitos pela posse das terras, hoje em Guaíra – PR, envolvem, de um lado, os povos indígenas Guarani, e do outro, os fazendeiros latifundiários, agricultores e empresa estatal que se apossaram dessas terras a partir do processo de expansão. Expansão essa, que foi encabeçada pela administração colonizadora a partir do século XX.

Hoje, assim como no século XVI, esses conflitos se expressam a partir de visões de mundos diferentes. A visão dos indígenas sempre foi adversa, tanto no contato com os europeus, quanto no conflito que acontece nos dias atuais. As concepções de terra e território que os indígenas têm vão em desacordo com a concepção que os fundiários têm da terra. A primeira tem o intuito de não explorar e nem de desenvolver-se de maneira capitalista, e a segunda, toda a sua concepção é calcada em processos essencialmente capitalistas de se organizar enquanto produção e de desenvolvimento, visando no agronegócio um futuro promissor para essa lógica.

Hoje, a quantidade de indígenas na região vem aumentando significativamente. Este aumento pode estar atrelado às necessidades de demarcação das terras, que dizem ser suas por direito, já que pertenceram a seus antepassados. Uma das hipóteses levada em consideração é que, os indígenas que tiveram que se refugiar em países vizinhos, estariam voltando para requerer o direito das terras que um dia lhes pertenceram.

Essas falas também estão conectadas aos resquícios deixados pelas reduções jesuíticas, visíveis ainda, já que na região tem registros de duas das primeiras que foram implantadas no Brasil e também em países vizinhos como o Paraguay e a Argentina. São sítios arqueológicos, que estão localizados na região da Foz do Rio Piquiri, denominada hoje de “Ciudad Real del Guairá”6.

A FUNAI, representada pelo Conselho Técnico Local (CTL), está instalada em Guaíra desde 2010. A sua instalação foi em conseqüência da ocupação de alguns territórios pelos indígenas Guarani. A maioria dessas ocupações, ou retomada de posse, começaram a surgir a partir de 2008 e 2009, algumas antes, outras depois. Desde que a FUNAI se instalou na região, com o objetivo de viabilizar atendimentos que são julgados prioritários ou emergenciais e fazer com que o processo de demarcação das terras aconteça para que possa “assentar” os indígenas dessa região que estão sem terra.

Por conta desses conflitos os indígenas Guarani, de várias etnias diferentes, tem se unificado para que o processo de demarcação aconteça o mais rápido possível. Essa unificação também pode ser vista como um Movimento Social que vem ganhando força entre eles mesmos, entretanto, essa união tem sido vista pelos “proprietários” das terras em que estão ocupando, como uma ameaça. E essa ameaça também é repassada pelas mídias televisivas e escritas, que apóiam os “donos” repassando assim, dados sem referências, fazendo com que todos os moradores fiquem com medo de perder suas terras para os indígenas. Tanto no campo quanto na cidade essa oposição de pensamentos vem gerando conflitos e dividindo opiniões, mas o certo é que, a maioria dos moradores está do lado dos não-indígenas.

Nesse contexto de conflitos relacionados com o território, os indígenas foram o que mais perderam. Não falo só da perda de território, esta, veio acompanhada com diversos outros agentes, entre eles, as perdas de seus costumes, crenças, tradições, seus modos de se organizar, de viver, agir, sua dinâmica territorial e outras que nem podemos dar conta ou imaginar. Essa questão vem de encontro com a questão identitária, pois, com a perda de seus costumes e de seus territórios e outras coisas relacionadas, isso implica ainda, na perda de sua identidade.

O povo Guarani vem se afastando de suas origens e tradições, pois são obrigados a viver com imposições do sistema global dominante, tendo que assumir diversos papéis que não estão relacionados com os de sua cultura. A sociedade dominadora, global, tem dificuldades de aceitar o modo de produção dos indígenas e o modo de organização de trabalho7, com isso tentam impor seu modo capitalista de produção e consumo. Dessa forma os indígenas vão se afastando de sua cultura por não ter um território8 disponível com que possam viver de acordo com seus costumes.

Todavia, a conquista da demarcação do território indígena, expressada através da concepção que eles próprios têm da terra, viria de encontro com o restabelecimento e a manutenção de sua identidade enquanto indivíduo e enquanto um grupo que busca os mesmos objetivos.

Seguindo essa compreensão, os indígenas de Guaíra estão organizados para reconquistar seu espaço, pois, essa retomada de território e de suas terras implica outro elemento essencial para eles, o reconhecimento e além de tudo a reafirmação de sua identidade que foi, ao longo dos processos de expansões com o intuito capitalistas, sendo segmentada por propósitos que aqui na região do oeste paranaense é expressada através do agronegócio.

A concepção de terra para os indígenas vai muito além, de questões relacionadas à subsistência. A terra possui representações nas quais todo o sentido de existência se baseia. É um suporte na vida dos indígenas onde acontecem as relações sociais humanas e também, é o palco das relações com seres dos cosmos que também habitam a terra, no qual o xamã tem o poder, e somente ele, de conversar e ver, sem ser afetado por seus atos malignos9. Para tanto, o fator terra é crucial para a manutenção desses povos.

A relação que esses povos estabelecem com a terra e com o espaço onde vivem não são meramente geográficas, todas as coisas da natureza, como as montanhas, as florestas, os rios são seres vivos que possuem poderes. Essas concepções influenciam as relações desses indivíduos com o espaço que os cercam. Esses saberes indígenas nunca foram levados em consideração pelas pessoas que expulsaram dos seus territórios.

O convívio com os moradores da aldeia Tekohá Y’Hovy permitiu a minha compreensão do significado que a terra tem para seus habitantes. Nas conversas nas rodas, dentro da casa de rezas e em alguns eventos, bem como em reuniões políticas dentro da aldeia que discutiam temas relacionado com os conflitos acerca do território, pude perceber e compreender o sentido dado à terra e ao território.

Penso que as reivindicações dos povos indígenas, nesse caso, elas estão muito relacionadas com o fato de eles tentarem reescrever as suas próprias histórias. Por que, o modo como foram percebidos e representados, geralmente são modos de caráter colonial. Eles foram representados pelos missionários, pelos colonos e pelas elites intelectuais e políticas, contudo, as colocações sempre tiveram esse embate de como eles eram representados e de fato como eles se concebiam a si mesmo.

E isso está relacionado com a etnohistória, no sentido de que são as historicidades, o modo de pensar o mundo, de representá-lo e de concebê-lo é pensado em termos de suas próprias cosmologias, em termos de seus próprios regimes políticos, econônicos, sistemas sociais e sistemas rituais. Então, toda essa concepção de mundo foi representada, imaginada e inventada por uma série de agentes sociais colonizadores e depois neocolonizadores, e em seguida veio o Estado, para representar o outro10.

Então, não é o modo como eles pensam a história deles, e sim, as percepções das historicidades e como elas são representadas, ou seja, reisignificadas. Assim, devemos nos reportar a maneira como elas são referidas e quais são os referenciais que esses povos utilizam para se representarem e se conceberem. Aqui, seria importante se pensar e analisar quais são os referenciais que os Guarani levam em consideração para dizer que a terra é deles.

Isso faz parte de um contexto histórico, que não é do passado e nem do presente que estão se reportando, estão falando de uma etnohistória de longo tempo que se reisignifica no presente, mas, também com novos embates.

Hoje, os Guarani dessa região, vivem em situação de extrema pobreza e miséria. Com a posse dessa extensão territorial, e ficando longe dos não-indígenas, poderão desenvolver sua cultura livremente. Ou seja, essa busca constante por novas terras está relacionada à subsistência e a sobrevivência de suas tradições culturais.

Além da afirmação e reconhecimento da própria existência, a busca por terras desencadeia outra categoria chave para o entendimento do pensamento Guarani, a mobilidade. Tema de várias discussões e análises na literatura indígena, a mobilidade vista por Evaldo Mendes da Silva (2007) difere das visões de outros estudiosos. Enquanto uns relacionaram a mobilidade à busca da terra sem mal11 esse autor trouxe uma perspectiva adversa àquelas encontradas até então. Para o autor essa condição em que os Guarani se apresentam, está atrelada com uma ação que é intrínseca ao indivíduo. O corpo precisa movimentar-se sobre a superfície da terra, e esse movimento está relacionado com a vida, pois a condição inicial de um ser vivo é o caminhar. Isto é “a vida nesta terra, é concebida como um processo que transcorre através de muitos caminhos (ape). (SILVA, 2007, p. 150).

A micromobilidade que o autor observa é a necessidade de caminhar para passear ou visitar um parente ou até mesmo para encontrar alguém em outra aldeia para se casarem. Assim, neste sentido, o caminhar concretiza-se como uma forma de se manterem vivos enquanto Guarani.

Os povos Guarani sempre foram caminhantes em busca de uma terra que lhes proporcionasse uma base alimentícia, além de espaços para a manutenção de suas práticas culturais. Através de sua mobilidade foram estabelecendo no seu meio de circulação um território simbólico, aludido nos cenários de contato e na constituição de uma rede de parentesco (SCHADEN, 1974).

De acordo com Schallenberger a “espacialidade deste território pode ser representada pelo conjunto dos territórios ocupados pelos diferentes cacicados e revelava os lugares até onde se poderia ir. Cada um destes territórios era denominado pelo nome do seu cacique” (2011, p. 25).

No que tange as relações interculturais a partir do contato de visões de mundo diferentes, o autor aponta o estabelecimentos de “fronteiras culturais, sustentada por uma lógica binária em relação às representações simbólicas, às evidências religiosas, ao universo linguístico, ao culto do corpo e, em suma, aos hábitos e costumes” (Idem, p. 25-26).

CONCLUSÃO
Os conflitos são criados justamente para contrapor esses dois elementos da terra, não são criados nem pelos colonos e nem pelos indígenas, são criados pelo Estado. O Estado colonizou essas terras indígenas e os dois são vítimas do processo da expansão do capital.

Penso que a posse do território pelo grupo indígena Guarani que habita a aldeia Tekohá Y’hovy conquistada através da demarcação das terras, implicará no fortalecimento da identidade enquanto um grupo que se organiza e busca os mesmos objetivos.

Acredito que a manutenção de sua identidade, que é a identidade Guarani, acontece mesmo durante as situações de conflito, que além de tudo, possui um contexto, não somente de resistência, mas de existência também. Essa manutenção é percebida através da resistência ao modo capitalista de produção de desenvolvimento que impõe uma identidade.

Em relação à manutenção da existência Guarani tenho como pressuposto o transitar, ou seja, a mobilidade, pois, é nela que reflete toda a sua essencialidade. Com a demarcação do território tradicionalmente constituído, é que terão a garantia que aquela terra é deles por direito e que ninguém poderá tirá-la. Com isso, será possível o transitar por entre os espaços sem medo de querer partir e não poder, por conta do medo que eles têm de ficar sem essas terras que aqui ocuparam. Ou seja, somente com a demarcação esses conflitos de mobilidade versus imobilidade, ou melhor, de querer ir e ter que ficar, serão extintos dando lugar então para a vivificação de mais um costume que alguns moradores da região não podem mais realizar.

Estudar o território e a identidade desses povos indígenas, a partir dos conflitos internos e externos e, propondo uma identidade que esteja atrelada aos conflitos sociais, é poder mostrar para a sociedade envolvente quão é importante o fortalecimento dessa cultura que insiste em “ser diferente” mesmo com tantas mudanças, apropriações e assimilações dos modos nacionais, no entanto, essas apropriações se dão a partir de suas categorias próprias.

Não somente mostrar a importância dessa cultura tão distinta da nossa, mas mostrar a causa das lutas pelas terras tradicionalmente ocupadas e dos conflitos que fazem com que os povos indígenas Guarani dessa região batalhem pelo seu território, pois, essas lutas traduzem a busca de direitos coletivos do espaço, que um dia fizeram parte de seu passado.

A compreensão do território e a identidade, tomando como referência os conflitos sociais internos e externos que se dá a partir da expropriação de uns para a apropriação de outros, faz com que possamos entender os sujeitos envolvidos nesta história, são eles, proprietários fazendeiros, colonos, empresas estatais e indígenas.

Compreender a relação existente entre território, que é negada desde o século XVI até os dias atuais pelas frentes colonizadoras e pela expansão capitalista, e a perda ou manutenção da identidade.



Salienta-se que as ações dos indivíduos em suas interações com a coletividade Guarani, produziram alterações no modo de viver destes, assim como foi dito por Ribeiro (2005) “metamorfoseando-os em rudimentares criaturas do Estado-nação”12. O intuito de cultivar suas práticas culturais também dá espaço para as recorrentes formas de estruturar-se no território. Não é somente resgatar o que antes era praticado, mas resgatar dando espaço para as tranformações necessárias perante as conjunturas criadas e impostas pela forma de viver dos não-indígenas. Assim, sua identidade, transposta pela unidade do grupo, vem sendo reconfigurada a cada instante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CONRADI, Carla C. N. As Estratégias do poder: a construção da Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu e a articulação dos órgãos governamentais diante da presença indígena.Trabalho Final de Conclusão de Curso/Monografia (Graduação em História), UNIOESTE -Campus de Marechal Cândido Rondon/PR: 2003.
DEPRÁ, Giseli. O lago de Itaipu e a luta dos Avá-Guarani pela terra: Representações na imprensa do Oeste do Paraná (1976-2000). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Grande Dourados. Dourados, 2006.
DIAS, Roberto dos Anjos. Sem tekohá não há Teko: O material e o simbólico na construção do território Avá-Guarani – o caso do Tekoha Y Hovy. Trabalho de Conclusão de Curso. Graduação em Geografia, UNIOESTE/ Campus Marechal C. Rondon, 2014.
FOCHEZATTO, Anadir. Um estudo das experiências cotidianas de Resistências dos expropriados da Itaipu. Trabalho Final de Conclusão de Curso/Monografia (Graduação em História), UNIOESTE - Campus de Marechal Cândido Rondon/PR, 2003.
LIMA, Ivonete T. C. de. Terras e Liberdade: a luta dos índios Awás-Guaranis no Oeste do Paraná. Monografia (Especiliazação em História) Faculdade de Ciências Humanas de Marechal Cândido Rondon/PR, 1994.
MURA, Fabio & THOMAZ DE ALMEIDA, Rubem F. Relatório Antropológico de Revisão de Limites da T.I. Porto Lindo (Jakarey) e identificação da Terra Indígena Guarani-Ñandéva do Yvy Katu. Brasília: FUNAI, 2002.
RIBEIRO, Sarah. O horizonte é a terra: manipulação da identidade e construção do ser entre os guarani no Oeste do Paraná (1977-1997). Tese (Doutorado em História) PUC-RS, Porto Alegre, 2002.
RIBEIRO, Sarah. Os guarani no oeste do Paraná: espacialidade e resistência. In: Espaço Plural, Ano VI, nº 13, 2º semestre de 2005. Disponível em: www.unioeste.br/saber. Acessado em 25/05/2015.
SILVA, Evaldo Mendes da. Folhas ao vento: A micromobilidade de grupos Mbya e Nhandéva (Guarani) na Tríplice Fronteira. Tese (Doutorado), PPGSA, UFRJ, 2007.
SOUZA, Marcelo José Lopes de. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO, Iná Elias de et al. (orgs.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. pp. 77-116.


1 Graduada em Ciências Sociais – Licenciatura e Bacharel – pela UNIOESTE. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNIOESTE, área de Concentração: Fronteiras, Identidades e Políticas Públicas; Linha de Pesquisa: Cultura, Fronteiras e Identidades. Bolsista da CAPES/ Fundação Araucária.

2 Faço referência aqui a fala de uma vice-liderança guarani da aldeia pesquisada. Por ser ela uma pessoa de liderança e voz ativa da comunidade, há rumores de que, se ela se ausentasse do território, eles (não-indígenas) conseguiriam retomar aquele espaço. E, ela sabe disso, assim a ideia de imobilidade está carregada de significados que perpassa o entendimento individual, ele é grupal. É preciso que ela se sacrifique para que o grupo se mantenha.

3 Entre eles Deprá (2006) e Dias (2014).

4 Salienta-se que há uma diversidade em relação a nomenclaturas para esse mesmo subgrupo, a saber, Chiripa, Nhandéva, Ñandeva assim como Avá-Guarani.

5 Embora exista uma contradição entre os autores e o povo Guarani.

6 Para saber mais sobre essa redução ler: Parellada (1996) e Schmitz (2010).

7 Entre outros costumes, por fim, seu modo de existência.

8 Essa questão do território apenas amenizaria o fato, pois, o contato com a sociedade nacional faz com que algumas de suas tradições não possam ser avivadas e as que ainda são possíveis de vivência são influenciadas constantemente pelas imposições sofridas desde o contato com os não-indígenas.

9 É aquilo que Viveiros de Castro denomina de “perspectivismo ameríndio”, onde os seres humanos, quando andam sozinhos na floresta, se encontram com os bichos e passam a ver esse animal em toda a sua essência. Despido da pele de animal, é possível ver então o bicho como ele realmente é, humano. É nesse contato que o ser humano pode ser acometido pelo ­–jepotá, doença que pode levar a morte.

10 Para um melhor entendimento sobre o “outro” e o “tempo” e a questão de “revisitar o outro” ler Johannes Fabian (2013).

11 Entre eles, Hélene Clastres (1978).

12 Disponível em: http://www.pr.anpuh.org/resources/anpuhpr/anais/ixencontro/comunicacao-individual/SarahIGTRibeiro.htm


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