Imagens de gênero: renegociações, trajetórias e estratégias migratórias de mulheres latino-americanas no Brasil



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Imagens de gênero: renegociações, trajetórias e estratégias migratórias de mulheres latino-americanas no Brasil

Introdução

Tendo como pano de fundo o cenário cada vez mais complexo das migrações internas e internacionais na América Latina, este artigo se propõe a discutir as diferentes faces das renegociações dos papéis de gênero ao longo de trajetórias migratórias de mulheres latino-americanas. Neste sentido, são abordados desde o parentesco ritual (Speeding, 2003) das mulheres do altiplano boliviano que vivem na fronteira brasileira no Mato Grosso do Sul, até as trajetórias migratórias (Ariza e Velasco, 2012) de mulheres haitianas, passando pelas transformações experimentadas por mulheres peruanas dentro de seus domicílios, ao longo de suas trajetórias migratórias. O eixo condutor de todas essas “imagens de gênero” são as experiências transnacionais (Guarnizo et al, 2003) que perpassam as estratégias migratórias femininas antes mesmo que tenham início os projetos migratórios (MaMung, 2009).

Neste sentido, seletividade migratória, planejamento do ciclo de vida – individual e familiar –, a sucessão de diferentes etapas migratórias e negociações sobre o ir e vir são marcados por essas renegociações de gênero (Peres, 2009). As interpretações sobre o fenômeno social das migrações no século 21 não podem mais excluir a perspectiva de gênero de sua agenda, uma vez que, em contextos de circulação do capital internacional e nova divisão internacional do trabalho (Baeninger, 2015), os fluxos migratórios adquirem maior complexidade na medida em que se tornam mais dinâmicos, compostos por diferentes etapas migratórias e com expectativas temporais cada vez mais fluidas.

Migrações internacionais, a perspectiva de gênero e novos desafios teóricos e metodológicos

Ao mesmo tempo em que os fluxos migratórios no século 21 se apresentam de forma cada vez mais dinâmica, torna-se mais complexo o desafio para os pesquisadores da área. Aportes teóricos e metodológicos devem dar conta de explicar processos sociais que rapidamente se transformam, se redefinem, se reorientam. Neste sentido, a interpretação dos processos sociais migratórios exige do pesquisador um olhar apurado na construção de seu objeto de pesquisa, bem como de sua problemática.

Muitos foram os avanços observados, no campo teórico, para a interpretação do fenômeno migratório, especialmente internacional, em todas as suas faces. Mais do que conhecer os saldos migratórios, é preciso compreender, desde a origem, os fatores que contribuíram para a construção dos vetores que orientam um determinado fluxo migratório. Um desses fatores – que dificilmente poderá ser deixado de lado – refere-se às renegociações dos papéis de gênero ao longo da trajetória de homens e mulheres migrantes.

O debate acerca da perspectiva de gênero no estudo de migrações internacionais já vem se consolidando desde o final do século 20 (Morokvasic, 1984; Boyd e Grieco, 2003; Assis, 2011, Chaves, 2000, Peres, 2009, 2014). No entanto, foi preciso romper com as análises restritas aos diferenciais por sexo (Morokvasic e Erel, 2003) e avançar até a compreensão das transformações dentro dos domicílios e famílias migrantes ao longo de suas trajetórias. A estrutura etária, sexual, geracional e hierárquica observada dentro dos domicílios migrantes reforça a necessidade de incorporação da família às análises, não deixando de lado as renegociações de relações de gênero.

As diferentes experiências de homens e mulheres em suas trajetórias migratórias (Ariza e Velasco, 2012), incluindo desde os projetos migratórios (MaMung, 2009), a seletividade migratória e as reorientações dos percursos migratórios são reforçadas pelas relações de gênero ao longo de todas as etapas migratórias. Nesse sentido, domicílio e família são parte integrante dessas trajetórias, seja daqueles que migraram de fato, seja daqueles que permaneceram nos lugares de origem, mas que compartilham experiências transnacionais (Guarnizo et al, 2003).

Segundo Mummert (2012, p. 151), compreender as dinâmicas familiares, em suas formas rotineiras e cotidianas, é “como fotografar um alvo em movimento”, uma vez que as famílias se transformam continuamente. Segundo a autora, este estado permanente de efervescência é ainda mais evidente quando se trata de famílias envolvidas em processos migratórios:

Em processos migratórios internacionais, saem do foco da lente da câmera tanto os membros que se movimentam fisicamente através de fronteiras político-administrativas como seus parentes, que aparentemente permanecem imóveis (Mummert, 2012, p. 151)1.

Soma-se a este panorama teórico o cenário da migração internacional no Brasil neste início de século. Novas nacionalidades, novas rotas, novas gerações, e diversos significados para esses fluxos migratórios convivem em diferentes espaços da migração no país. Assim, para discutir família e domicílio à luz da perspectiva de gênero no estudo das migrações, observa-se algumas modalidades migratórias (Wendem, 2001) e novas lógicas migratórias (Dumont, 2006) que evidenciam essas renegociações e revelam essas diferentes “imagens de gênero” nos processos sociais da migração do século 21.



Imagens de gênero: renegociando trajetórias, redefinindo fluxos migratórios.

Partindo de pesquisas de campo realizadas em diferentes lugares do país no âmbito do projeto temático "Observatório das Migrações em São Paulo", observa-se algumas dessas "imagens de gênero", que podem ser definidas como as renegociações de homens e mulheres ao longo de suas trajetórias migratórias dentro de domicílios e famílias migrantes. Para tanto, trata-se da migração boliviana na fronteira em Corumbá-MS, da presença haitiana e peruana no município de São Paulo - SP.

Uma das principais marcas da migração boliviana na fronteira é uma rede social essencialmente feminina, que liga não apenas origem e destino, mas todas as etapas migratórias deste fluxo (Peres, 2009). Partindo de laços de parentesco simbólico e ritual (Speeding, 2003), calcado principalmente na figura da "madrinha", essas mulheres bolivianas traçam seus percursos se utilizando estrategicamente de recursos disponíveis em cada uma das etapas migratórias, negociando o ciclo de vida individual e familiar entre idas e vindas, mudanças e permanências entre os dois países.

A migração haitiana carrega em si um diferencial fundamental para sua compreensão: a condição jurídica desses migrantes, amparados pela posse do visto humanitário concedido pelo governo brasileiro, permite que homens e mulheres migrantes circulem pelo país, mantenham vínculos formais de trabalho e renegociem suas trajetórias com ainda mais rapidez. É neste contexto que as mulheres haitianas, ainda minoria neste fluxo migratório, tem construído diferentes "imagens de gênero" enquanto atravessam o país de norte a sul (Baeninger e Peres, 2015).

Um último exemplo, que é o da presença peruana em São Paulo, expressa também os resultados dessas renegociações entre homens e mulheres ao longo de suas trajetórias, entre origem, etapas e destino. Diferente de outros contingentes latino-americanos, imigrantes peruanos tem construído para si, num espaço migratório específico no centro de São Paulo, um nicho econômico de solidariedade étnica (Baeninger, Peres e Demétrio, 2014) definido pela gastronomia. Neste sentido, os papeis de homens e principalmente de mulheres vem se modificando nas famílias e domicílios migrantes na medida em que essa inserção laboral se consolida. As "imagens de gênero", neste caso, são reconstruídas a partir do ganho de autonomia das mulheres à frente dos negócios, enquanto que os homens figuram como coadjuvantes neste contexto.
Considerações Finais

É claro que as migrações internacionais no país se apresentam de forma heterogênea e dinâmica. No entanto, apenas os saldos migratórios internacionais calculados direta ou indiretamente não poderão explicar os verdadeiros impactos em lugares de origem e destino da presença desses homens e mulheres. Para entender esses fluxos migratórios - que muitas vezes utilizam o Brasil como rota estratégica para o alcance de espaços mais tradicionais da migração, como é o caso dos haitianos, por exemplo (Fernandes, Milesi e Farias, 2011) é preciso avançar. É preciso conhecer os domicílios e famílias migrantes, suas estratégias e suas renegociações ao longo de suas trajetórias. Para isso é que se definem essas "imagens de gênero", para que se possa avançar na interpretação de processos sociais migratórios, buscando novos elementos e novos aportes teórico-metodológico para o estudo das migrações internacionais.



Referências Bibliográficas

ARIZA, M.; VELASCO, L. (coord.) Métodos Cualitativos y su Aplicación Empírica. Por los caminos de la investigación internacional. Instituto de Investigaciones Sociales – UNAM, 2012.

ASSIS, G. De Criciúma para o mundo: rearranjos familiares dos novos migrantes brasileiros. Florianópolis. Editora Mulheres, 2011.

BAENINGER, R.; PERES, R. SOS Português: imigração haitiana em São Paulo. Trabalho apresentado no 39º Encontro Anual da ANPOCS. Caxambu, outubro de 2015.

BAENINGER, R.; PERES, R.; DEMÉTRIO, N. Perfil da imigração peruana em São Paulo. Trabalho apresentado no XIX Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, 2014. São Pedro, novembro de 2014.

BOYD, M & GRIECO, E. Women and Migration: Incorporationg gender into international migration theory. Migration Policy Institute. Washington, 2003.

CHAVES, F. Mulheres Migrantes: senhoras de seus destinos? Uma análise da migração interna feminina no Brasil: 1980/1991. Tese de Doutorado em Demografia. Unicamp, 2000.

DUMONT, J. C. Les migrations internationales de travailleurs qualifiés: des bénéfices à partager. In: Mouhoud, El Mouhoub (dir.) Les nouvelles migrations: un enjeu Nord-Sud de la mondialisation. Paris, Universalis, pp. 79-96, 2006.

FERNANDES, D.; MISELI, R.; FARIAS, A.. Do Haiti para o Brasil: o novo fluxo migratório. In: Cadernos de Debates Refúgio, Migrações e Cidadania, v. 6, nº 6 (2011). Brasília: Instituto Migrações e Direitos Humanos. P. 73 – 98.

GUARNIZO, L., PORTES, A. e HALLER, W. Assimilation and transnationalism: determinants of transnational political action among contemporary migrants. American Journal of Sociology, 108 (6): 1211-1248, 2003.

MA MUNG. E. Le point de vue de l´autonomie dans l´étude dês migrations internationales. In: DUREAU, F.; HILY, M. (coord.) Les mondes de la mobilité. Rennes, 2009.

MOROKVASIC, M.; EREL, U.; SHINOZAKI, K. (eds) Crossing Borders and shifting boundaries. Vol I, Gender on the move. Oplanden, 2003.

MOROKVASIC, M Birds of passage are also women… International Migration Review, vol XVIII, nº 4, 1984.

MUMMERT, G. Pensando las familias transnacionales desde los relatos de vida: análisis longitudinal de la convivência intergeneracional. In: ARIZA, M.; VELASCO, L. (coord.) Métodos Cualitativos y su Aplicación Empírica. Por loscaminos de la investigación internacional. Instituto de Investigaciones Sociales – UNAM, 2012.

PERES, R. Mulheres na fronteira: a imigração de bolivianas para Corumbá - MS. Tese de doutorado em Demografia. UNICAMP, 2009.

SPEDDING, A. Breve curso de parentesco. Editorial Mama Huaco, La Paz, Bolívia, 2003.



WENDEN, C. Un essai de typologie des nouvelles mobilités. Hommes & migration, nº 1.233, 2001. p. 5- 12.

1 Tradução livre da autora.

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