Humor, liberdade e discurso de ódio: Uma análise da cobertura de impressos brasileiros sobre o ataque ao Charlie Hebdo1



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HUMOR, LIBERDADE E DISCURSO DE ÓDIO:

Uma análise da cobertura de impressos brasileiros sobre o ataque ao Charlie Hebdo1
Bárbara Caldeira2

Marina Santos-Silva3
Resumo: Este artigo dedica-se a analisar os discursos acerca do atentado ao semanário francês Charlie Hebdo construídos nas capas de alguns dos principais periódicos impressos do Brasil, sendo eles Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de Minas, publicadas no dia seguinte ao ataque. Tensionando duas visadas comunicacionais acerca do conceito de acontecimento, além de considerações da análise do discurso sobre a noção de imaginários sócio-discursivos, o presente texto se propõe a refletir sobre as disputas de sentidos engendradas pelas narrativas jornalísticas, identificando de que modo franceses e muçulmanos foram representados neste contexto, além de problematizar a temática do humor na cobertura recortada.

Palavras-chave: Charlie Hebdo. Mídia. Discurso. Acontecimento. Humor.
HUMOR, FREEDOM AND HATE SPEECH:

an analyze of the coverage of the attack to Charlie Hebdo on brazilian printed newspapers
Abstract: This article analyzes the discourses about the attack to the french newspaper Charlie Hebdo and how it is built on the covers of some of the main newspapers in Brazil published in the day after the outrage: Folha de S. Paulo, O Globo and Estado de Minas. Tensing two communicational perspectives of the happening, and speech analysis considerations about social and discursive imaginaries, this text aims to study about the meaning controversy engendered by journalistic narratives, identifying how the french and muslim people were represented in this context and discuss the humor in the chosen coverage.

Keywords: Charlie Hebdo. Media. Discourse. Happening. Humor.

Introdução

No dia 7 de janeiro de 2015, dois homens encapuzados invadiram a redação do semanário Charlie Hebdo, instalada em Paris, e dispararam tiros, matando doze pessoas e deixando onze feridas, entre cartunistas, jornalistas e outros funcionários do veículo de comunicação, além de policiais e cidadãos que passavam pelo local. Em poucas horas, o ocorrido pautava noticiários de todo o mundo, multidões foram às ruas protestar contra o ataque e outros milhares engajavam-se via redes sociais em solidariedade às vítimas.

A ação foi reivindicada pela célula Al-Qaeda no Iêmen, organização islâmica fundamentalista, e seria uma retaliação ao jornal por publicar charges com Maomé, profeta sagrado para os muçulmanos, e representar de forma jocosa adeptos da religião. Após intensas buscas, os irmãos franco-argelinos Saïd e Chérif Kouachi, identificados como responsáveis pelo atentado, foram mortos.

Neste artigo, pretendemos analisar aspectos da cobertura feita pela imprensa brasileira desse acontecimento, refletindo sobre suas especificidades. Para tal, selecionamos três expressivos jornais diários impressos, localizados no eixo sudeste, que circularam em 8 de janeiro de 2015, dia seguinte ao ataque, sendo eles Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de Minas. Dentro do escopo deste trabalho, nos propomos a estudar apenas as capas. Ainda que seja uma amostragem reduzida, entendemos que as primeiras páginas dos impressos, enquanto “portas de entrada” para o restante da edição, são sintomáticas do tratamento e da relevância que foram atribuídos ao episódio por cada veículo. Iremos considerar os diferentes aspectos do material, tendo em vista o conteúdo linguístico, as imagens e também os layouts das capas.

É nosso objetivo, por meio da análise dos discursos construídos pelos jornais, identificar filtros axiológicos que indiquem como franceses e muçulmanos foram representados e perceber quais questões foram elencadas como mais importantes na construção das notícias, nos debruçando, também, sobre a perspectiva acontecimental do fenômeno. Dessa forma, procuramos entender a disputa de sentidos que emergem dessas representações, os lugares de identificação e a dinâmica comunicacional como operadora desse complexo processo, além de perceber o atravessamento da temática do humor na cobertura recortada, observando se ele foi, e como foi, tratado nas primeiras páginas dos jornais elencados. Além disso, visamos refletir de que modo essas notícias contribuíram para fomentar discursos de ódio e de intolerância frente ao evidente impasse entre franceses e muçulmanos ou se serviram para incitar a uma tomada de posição que refletisse a complexidade do conflito.
O atentado ao Charlie Hebdo como acontecimento
Como início do percurso proposto por este artigo, problematizaremos o ataque ao Charlie Hebdo como um acontecimento a partir de duas diferentes visadas comunicacionais sobre o fenômeno em busca de algumas entradas que já nos ajudam a pensar nas disputas de sentidos que tanto o episódio quanto a narratividade jornalística engendrada a partir do episódio fazem emergir.

A primeira perspectiva acontecimental, localizada no seio pragmatista, mais especificamente na Escola de Chicago, decorre das contribuições de G. H. Mead, que volta seu olhar para a dimensão relacional dos atos sociais; de John Dewey, que pensa na experiência humana como uma espécie de travessia; e de Louis Queré (2005), que desenvolve, mais marcadamente e na esteira dos dois autores, o conceito de acontecimento. Na concepção do francês, como ressalta Simões (2014), o acontecimento é uma “emergência que instaura sentidos e rompe com a continuidade da experiência” (SIMÕES, 2014, p. 177).

A pesquisadora Vera França (2012), parte de Queré para conceituar acontecimentos como “fatos que ocorrem a alguém; que provocam ruptura e desorganização, que introduzem uma diferença. Eles fazem pensar, suscitam sentidos, e fazem agir (têm uma dimensão pragmática)” (FRANÇA, 2012, p. 14). Nessa seara, o acontecimento está ligado, então, à ideia de ruptura da normalidade; algo que irrompe do cotidiano e que provoca estranheza. Esmiuçando as características do fenômeno, França afirma que:

[...] é importante lembrar que um acontecimento acontece a alguém; ele não é independente nem autoexplicativo, não são suas características intrínsecas que fazem o seu destaque, mas o poder que ele tem de afetar um sujeito – uma pessoa, uma coletividade [...]. Este primeiro aspecto nos permite uma conclusão importante: os acontecimentos se inserem em nossa experiência, na experiência humana, no âmbito de nossa vivência. (FRANÇA, 2012, p. 13)


Debruçando-nos sobre o caráter pragmático do acontecimento — e pensando no ataque ao Charlie Hebdo como acontecimento na perspectiva pragmatista —, temos aqui o evento como faísca para reflexão e ação. Quais são as reflexões e ações, dessa forma, suscitadas pelo episódio em questão? Podemos, de antemão, destacar uma das discussões que surgiram a partir do ataque e que foi recorrente na cobertura midiática: o mote da liberdade de expressão. Diante de tal acontecimento, essa é uma das reflexões possíveis, mas, várias outras mostram-se pertinentes, como ponderações acerca da liberdade religiosa, a islamofobia, os limites do humor, para citar algumas que saltam aos olhos. No exame das capas, mais adiante, retomaremos a discussão tentando identificar tais eixos reflexivos.

França também chama atenção para o fato de que o acontecimento gera representações, necessita ser compartilhado socialmente, o que é feito por meio de narrativas. “Acontecimentos fazem falar; nós somos animais simbólicos, capazes o tempo todo de duplicar nossa realidade a partir de construções imagéticas e representacionais” (FRANÇA, 2012, p. 14). Dessa forma, é fundamental, também, observarmos os discursos de tais representações midiáticas, especialmente quanto aos atores que nelas são colocados em ação, neste caso específico, perceber como estão representados franceses e muçulmanos a partir do ocorrido e, em consequência, Ocidente e Oriente.

Outra perspectiva em torno do acontecimento, construtivista, merece aqui ser problematizada. O pesquisador Elton Antunes (2008) busca entender o discurso jornalístico da atualidade como um “efeito de sentido produzido a partir da associação a determinadas representações da figura de tempo”, refletindo sobre como a temporalidade incide sobre a enunciação jornalística e repensando, assim, a noção de acontecimento. Convocando Charaudeau (2006), Antunes afirma que a forma do discurso de informação da atualidade é por excelência o acontecimento e que os acontecimentos, em princípio, são “representações linguajeiras do fluxo de experiência do mundo produzidos a partir de uma fragmentação semântica” (ANTUNES, 2008, p. 2).

Para Antunes, por mais que exista uma relação intrínseca entre acontecimento e acontecimento jornalístico, os dois não devem ser tomados como fenômenos equivalentes, uma vez que o jornalismo opera “em direção oposta a essa ideia de ruptura, promovendo a integração do ‘novo’ às categorias do já existente, como construído pelo sistema de informação e pela própria experiência social” (ANTUNES, 2008, p. 4). Parece haver, assim, um padrão que retém alguns acontecimentos em detrimento de outros, na tentativa de certa estabilização. Nessa acepção, os acontecimentos ocorrem e afetam alguém, constituindo-se a partir de duas visadas: “torna-se acontecimento jornalístico ou fato a partir de um olhar que busca estabelecer o contexto de sua emergência” (ANTUNES, 2008, p. 4), ou seja, um movimento que tenta explicar-lhe o sentido. Mas esse olhar é, essencialmente, um duplo olhar: “o acontecimento está na interseção entre um olhar que mostra, da instância de produção, e um olhar que vê, na instância da recepção” (p. 4).

Em Sodré (2006), retomado por Antunes, o acontecimento não seria uma ruptura, e sim uma marcação, uma vez que a mídia é uma maneira específica de estruturar o tempo a partir de um ritmo, sendo a notícia uma espécie de “ritmista” que “cadencia de alguma maneira a passagem do ‘bloco’ da vida social” (ANTUNES, 2008, p. 6). A grande questão do acontecimento, então, estaria no sentido de atualidade: a composição textual da notícia operaria e articularia, de alguma forma, tal sentido. Para Antunes, a atualidade não seria uma qualidade intrínseca dos acontecimentos e, assim, da informação jornalística, mas uma forma de apresentar-se, “propor-se como”.

Assim, como o jornalismo propõe o atentado ao Charlie Hebdo como acontecimento? Se ele não o é a priori, como o discurso jornalístico o posiciona como um, e de grande apelo? Refletir sob essa abordagem nos faz pensar, por exemplo, em porque o ataque ao periódico francês foi sistematicamente abordado pela mídia e a investida do grupo islâmico Boko Haram na Nigéria, ocorrida na mesma época e somando mais de 2 mil mortos, não reverberou da mesma maneira4. Não se trata, aqui, de desconsiderar questões do próprio fazer jornalístico, como a quantidade de correspondentes e a estrutura para cobertura de cada país, entre outros aspectos, mas, sim, perceber que o gesto jornalístico — mas não apenas, para não cairmos em uma armadilha midiacêntrica — funciona em uma dinâmica de proposição de que vejamos um evento como acontecimento.


Imaginários sócio-discursivos
Para refletirmos sobre o modo como franceses e muçulmanos foram representados pelos jornais brasileiros, nos valeremos do conceito de “imaginários sócio-discursivos”, do linguista e analista do discurso Patrick Charaudeau.

Segundo Charaudeau (2007), constantemente utilizamos o termo “estereótipo” para nos referir a ideias repetitivas, já “cristalizadas” em nossa sociedade e que são consideradas simplificadas e generalizantes. O termo já carrega em si uma conotação pejorativa, diz de um julgamento negativo. Em função disso, se buscamos os discursos que incidem sobre a representação de grupos humanos, é preferível usarmos a palavra “imaginário”.

Noção que se inscreve em uma tradição filosófica e psicológica, recuperada e reconceitualizada pela antropologia social, e que melhor atende ao quadro da análise do discurso, imaginário é uma forma de apreensão do mundo que reflete a organização das sociedades humanas. Através dos imaginários, construímos a significação sobre os objetos, os fenômenos naturais, os seres humanos, seus comportamentos e relações. Cumprindo uma função de elo social, eles seriam responsáveis por criar valores e justificar ações.

Segundo Charaudeau, os imaginários podem ser qualificados como sócio-discursivos, pois o sintoma de um imaginário é a fala, ou melhor, os discursos circulantes que se realizam dentro de um domínio de prática social (em nosso estudo, o discurso de informação jornalístico), atuando de modo a sedimentar uma memória coletiva, um universo de pensamento, os lugares de instituição de verdades. Nesse sentido, os meios de comunicação têm papel capital para a formação e propagação de imaginários.

É importante nos determos mais profundamente em dois pontos: a conexão da linguagem à realidade e o papel da mídia na atividade de simbolização representacional do mundo. De acordo com Charaudeau (2007), a realidade precisa ser “formatada” para torna-se real. Há, portanto, uma distinção entre esses dois termos: “realidade” e “real”. Enquanto o primeiro diz do mundo empírico e fenomenológico, cuja existência independe e impõem-se ao homem, lugar a-significante (e ainda a-significado), o segundo está ligado à atividade de racionalização do homem por meio do exercício da linguagem. O real é o mundo construído e estruturado através das diversas operações de nominação dos seres, caracterização de suas propriedades, descrição das ações inseridas em um espaço-tempo e de suas causalidades.

Ainda que os meios de comunicação afirmem buscar transparência e certa autenticidade dos acontecimentos, "os fatos não tem uma verdade em si", pois “a informação é pura enunciação” e o que está em jogo são apenas “efeitos discursivos de real”, explica o analista do discurso (CHARAUDEAU, 2009, p. 36). Ele diz: "É em sua encenação, num certo dispositivo, que surge, diante daquele que é tomado por este mesmo dispositivo, uma verdade subjetiva que tende a objetivar-se num movimento universal" (p. 169). De acordo com Charaudeau, ainda que se apresentem como verdades indiscutíveis, o que a mídia nos oferece são “opiniões existenciais provisórias” (p. 267).

É válido ainda ressaltar que um dos efeitos da máquina de informar é a “dramatização dos acontecimentos” (CHARAUDEAU, 2009). Isto porque a informação se fabrica muito depressa e a mídia é impelida a uma tomada de posição, que muitos vezes obedece a uma lógica simplista e antagônica, segundo um “roteiro dramatizante”. Roteiro este que consistiria em:

(1) mostrar a desordem social com suas vítimas e seus perseguidores; (2) apelar para a reparação do mal, interpelando os responsáveis por este mundo; (3) anunciar a intervenção de um salvador, herói singular ou coletivo com o qual cada um pode identificar-se. (CHARAUDEAU, 2009, p. 254)

Tal roteiro apresentado será um dos nortes para a análise empreendida neste artigo, sendo observadas as dinâmicas listadas e como elas se estabelecem. De acordo com o teórico, "a focalização dramatizante do relato midiático (...) pode transformar toda pessoa, entidade ou instituição em herói ou em vilão" (CHARAUDEAU, 2009, p. 272). É nosso objetivo também entender como se dá esse dualismo na cobertura de impressos brasileiros sobre o ataque em Paris.

Qual é a graça do Charlie Hebdo? Algumas ponderações sobre humor e islamofobia

Antes de empreendermos as análises das três capas propostas por este trabalho, acreditamos que uma breve problematização quanto ao humor e a islamofobia se faz necessária, na tentativa de observamos alguns dos atravessamentos do acontecimento “ataque ao Charlie Hebdo” e ponderarmos se tais questões aparecem na enunciação discursiva do acontecimento jornalístico.

Atualmente cerca de 5 milhões de muçulmanos vivem na França, o que corresponde a 8% da população5. No entanto a integração entre esses grupos humanos esbarra em discordâncias de ordem religiosa, cultural e sociopolítica, como corrobora o ataque em princípios deste ano. Diante desses conflitos, emerge a necessidade de debatermos sobre como os discursos circulantes, especialmente na mídia, contribuem para incentivar uma postura de empatia e respeito, ou de exclusão e intolerância entre esses sujeitos.

Fundado em 1970, o Charlie Hebdo é uma publicação francesa satírica, com humor ácido e irreverente, ao ponto de usar como sloganjournal irreponsable” (jornal irresponsável). Sua linha editorial ataca principalmente autoridades políticas e figuras religiosas, sendo o Islã um alvo recorrente nos últimos anos. O conteúdo do semanário poderia ser enquadrado, de acordo com a Organização para Cooperação Islâmica (OIC), como uma manifestação de islamofobia. Para a OIC, segunda maior organização intergovernamental do mundo, superada apenas pelas Nações Unidas, e representante dos interesses dos muçulmanos:

Islamofobia é uma forma contemporânea de racismo e xenofobia motivada pelo medo infundado, desconfiança e ódio aos muçulmanos e ao Islã. A Islamofobia também se manifesta por meio de intolerância, discriminação, desigualdade de tratamento, preconceitos, estereótipos, hostilidade e discurso público adverso. Diferenciando-se do racismo e da xenofobia clássica, a islamofobia é baseada principalmente na estigmatização da religião e de seus seguidores. Como tal, a islamofobia é uma afronta aos direitos humanos e à dignidade dos muçulmanos. (SEVENTH OIC OBSERVATORY REPORT ON ISLAMOPHOBIA, October 2013 – April 2014, ORGANIZATION OF ISLAMIC COOPERATION, p. 10)6

Apesar de nossa análise se dedicar às narrativas jornalísticas construídas nos três impressos brasileiros destacados, cabe a nós problematizar o humor presente nas charges do Charlie Hebdo e a função do riso como instrumento de coerção e coesão social, uma das perspectivas possíveis sobre o assunto, para melhor debruçarmo-nos sobre o fenômeno e sua complexidade.

Posto isto, para entendermos os procedimentos de fabricação do humor, o que perpassa as sátiras do Charlie Hebdo, tomamos como principal base a teoria do riso de Henri Bergson. De acordo com o filósofo, rir faz parte da natureza humana, mas entender o que provoca o riso é tão difícil de apreender quanto qualquer efeito psicológico. No entanto o autor destaca três pontos comuns presentes nas diferentes técnicas de comicidade: a humanidade, a insensibilidade e a sociabilidade (2001, p. 4-5).

Para Bergson, se buscamos desvendar o porquê e do quê rimos, caminhamos no sentido de entender um pouco mais sobre nós mesmos e nosso mundo. “Não existe comicidade fora daquilo que é propriamente humano”, assegura o filósofo (BERGSON, 2001, p.1). Isso se dá de tal modo que, mesmo quando rimos de um animal, o fazemos à medida que identificamos nele uma atitude ou expressão que se assemelha à humana. O mesmo ocorre com os objetos. Rimos de um chapéu, por exemplo, quando percebemos nele características próprias ao homem, por meio da forma e do uso que a ele atribuímos.

Para que o riso ocorra, ainda é necessário que haja “insensibilidade” da parte de quem ri. Segundo Bergson, a emoção é a maior inimiga da comicidade, enquanto a indiferença é seu meio natural. Esse princípio é também chamado de “inteligência pura”, já que o riso só seria possível quando os sentimentos não se sobrepõem à razão.

A respeito do terceiro fator, a sociabilidade, o filósofo afirma: “Nosso riso é sempre o riso de um grupo” (p. 5). Entendido como um “gesto social”, o riso seria um mecanismo de contenção e correção de comportamentos considerados desviantes. Assim, ainda que de forma sutil e até inconsciente, o humor possui um importante papel regulatório que incide sobre as condutas em sociedade. Rir é uma forma de represália quando percebemos uma situação de inadequação, algo ou alguém que se distancia do senso comum, daquilo que uma maioria acredita ser o correto. Nas próprias palavras do teórico:

(...) a sociedade não pode intervir nisso por meio de uma repressão material, pois ela não está sendo materialmente afetada. Ela está em presença de algo que a preocupa, mas somente como sintoma – apenas uma ameaça, no máximo um gesto. Será, portanto, com um simples gesto que ela responderá. O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma espécie de gesto social. (BERGSON, p. 14-5. Grifo do autor)

A relevância do trabalho de Bergson está não somente no fato do filósofo ter conseguido empreender uma análise sistemática e consistente sobre a comicidade, ainda em fins do século XIX, mas por atribuir ao riso uma função social. Sua teoria nos revela que, embora o humor não tenha, a princípio, o propósito de ensinar, ele acaba nos ensinando, pois apenas se torna viável se está em consonância com o funcionamento de determinada sociedade e em sintonia com o tempo histórico. O humor é revelador das expectativas sociais e enquanto um instrumento de vigilância e coesão social, atua de modo a reenquadrar o indivíduo segundo valores e costumes hegemônicos. É, nesse sentido, uma censura jocosa, lugar de afirmação da negação.



Após essa breve retomada sobre a teoria do riso, podemos entender que o humor satírico, como o presente no Charlie Hebdo, ao ridicularizar indivíduos e ironizar suas crenças e modo de vida, frequentemente acaba por propagar discursos de ódio. Certamente, esta é apenas uma das abordagens e das consequências possíveis do humor. Mas é importante que a consideremos ao tratar do último confronto entre franceses e muçulmanos, em Paris, e ao analisar o modo pelo qual o episódio reverberou na mídia. Seguiremos, então, com a análise das três capas.

Jornal Folha de S. Paulo

Figura 1: Reprodução da capa da Folha de S. Paulo de 8 de janeiro de 2015


Em 8 de janeiro de 2015, o periódico Folha de S. Paulo (Figura 1), impresso de maior circulação do país, estampava a manchete “Terroristas matam 12 em ataque a jornal de Paris; multidão vai às ruas”. Logo abaixo, o bigode complementa a informação: “Polícia aponta franceses de origem argelina como suspeitos de atentado ao semanário ‘Charlie Hebdo’, que satiriza o Islã.” Aqui podemos ressaltar que o emprego do termo “terroristas” transmite a ideia de que a identidade dos responsáveis e a motivação do ataque já haviam sido dadas como certas, ao passo que a palavra “suspeitos”, em seguida, tende a relativizar essas afirmações. O excerto “segundo testemunhas, os atiradores se identificaram como membros da Al-Qaeda, mas não houve confirmação” reforça tal incerteza.

O assunto, desmembrado em quatro outras chamadas com diferentes enfoques, ocupou dois terços da página e contou com três diferentes imagens como recurso narrativo, o que indica a importância a ele conferida pelo jornal. Na porção superior, duas fotos assinalam o “roteiro dramatizante” do qual nos fala Charaudeau. A primeira é um frame do vídeo que registra o momento em que um policial francês, deitado no chão, está prestes a ser morto pelos homens encapuzados. É possível perceber a desordem social ali instaurada. A figura do vilão que mata em situação na qual a vítima aparenta estar indefesa acaba por suscitar o desejo de reparação do mal observado pelo analista do discurso.

É interessante perceber que o reforço da cena do atentado se dá, em grande parte, por meio dessa escolha de imagem, que presentifica o ataque e reforça a noção de que houve um acontecimento; algo grave aconteceu. Mas essa imagem se refere ao acontecimento, como algo externo aos processos jornalísticos? Ou essa imagem é o acontecimento por fazer parte da narrativa construída pelo discurso do jornal? É possível delimitar? Nos parece importante dizer, aqui, que a narrativa jornalística é entretecida por diversos eventos, de forma que é possível dizer não de um, mas de vários acontecimentos. Na segunda imagem, vemos um cartaz com a expressão “Je suis Charlie”, levantado na manifestação em Berlim como homenagem às vítimas do atentado, que reforça uma polarização e demonstra a identificação de um grupo com os vitimados. Essas manifestações não seriam, em si mesmas, acontecimentos também, visto que convocam outros conjuntos de relações? Sobre o acontecimento que é reportado, Antunes afirma que

Amparado por uma rede intertextual de acontecimentos outros, uma cadeia de contextos e registros socioculturais vários, elementos cognitivos específicos, biografias variadas, textos diversos, a identificação do “fato principal” revela-se mais problemática do que o próprio imaginário jornalístico leva a crer. (ANTUNES, 2013, p. 108).

A terceira imagem, disposta mais abaixo, uma charge assinada por Angeli, endossa o posicionamento da publicação. Ao apresentar figuras com lápis nas mãos, identificados como “Charlie Hebdo”, e o mote “Allons enfants de la Patrie”, ou “Avante, filhos da pátria”, trecho da Marselhesa, hino nacional da França, o jornal, por meio da ilustração de um dos seus mais célebres chargistas, deixa transparecer seu apoio ao semanário francês e seu repúdio ao ataque.

Na chamada “Atentado é ápice da violência contra a mídia, diz órgão global”, a questão da liberdade de imprensa é levantada, e a própria escolha da frase a ser destacada indica que a Folha compartilha desse direcionamento. No depoimento de Adão Iturrusgarai, cartunista que publica tiras diárias na Folha de S. Paulo, há a exaltação de um dos escritores de quadrinhos mortos no atentado, o que sugere um movimento de heroicização das vítimas: “Georges Wolinski era minha maior influência”.

A Folha, porém, abre espaço para outra discussão, ponderando o rechaço aos responsáveis pelo ataque quando, na chamada para a coluna de Clóvis Rossi, “Radicais islâmicos e islamofóbicos se alimentam mutuamente e criam horror”, levanta a questão da islamofobia. Apesar da assimetria de abordagens, é possível dizer que o periódico paulista reconhece, em certa medida, a complexidade do ataque ao Charlie Hebdo e seu contexto.

Jornal O Globo

No dia seguinte ao do ataque ao Charlie Hebdo, o jornal carioca O Globo (Figura 2), de forma mais explícita do que a Folha de S. Paulo, expôs seu posicionamento a favor do periódico francês. É importante ressaltar que o assunto ocupou praticamente toda a página, apoiando-se em sete imagens. A frase “Eu sou Charlie” está em destaque, logo acima da manchete, sem a marcação de aspas, que indicariam uma fala atribuída a outra pessoa ou modalização autonímica. Dessa forma, O Globo toma para si a expressão, deixando claro que está ao lado dos chargistas mortos no atentado.



A chamada de capa, “Ataque à liberdade de expressão mata 12 em Paris”, salienta a visão do meio de comunicação sobre o ataque: o episódio é compreendido sob a questão principal da violência à liberdade de expressão e de imprensa e, por esse motivo, fere os órgãos midiáticos como um todo. No bigode, “Massacre em redação de jornal satírico deixa a França em choque”, percebemos, pelos termos “massacre” e “choque”, a gravidade do acontecimento em uma dinâmica de ação (violência extrema) e reação (proporcional perplexidade do país atacado e do mundo, na construção do jornal).

Figura 2: Reprodução da capa do jornal O Globo publicado em 8 de janeiro de 2015

É possível dizer que, aqui, a construção da narrativa jornalística opera em um movimento de sugestão do que veio a ser o “ataque ao Charlie Hebdo”, reforçando sua carga de excentricidade, relevo em relação a outros fatos que ocorrem no cotidiano. Mas, para além do atentado ser uma ruptura da normalidade no mundo de referência, o gesto jornalístico é que o insere em um quadro mais amplo e tenta, de alguma forma, organizá-lo. Se a normalidade do cotidiano são os acontecimentos, atravessados e superpostos, e não o contrário, isso nos volta para o gesto jornalístico, nesse caso, como grande articulador do acontecimento, especialmente as primeiras páginas dos jornais que, para Antunes (2013), “misturam relato e argumento e fabricam uma adesão a algum tipo de representação do acontecimento” (ANTUNES, 2013, p. 112).

No texto correspondente, a palavra “terroristas” é utilizada, bem como nas legendas das imagens. A organização à qual os homens que atacaram o Charlie Hebdo pertenceriam, mesmo que supostamente, não é citada em outros momentos, dando a informação como concluída. A única relativização se torna aparente no trecho “segundo autoridades policiais, dois dos três terroristas seriam os irmãos franceses (...)”, por meio da escolha do verbo “ser” no futuro do pretérito. Em chamadas menores, a questão da liberdade de expressão é reforçada, respaldada por atores sociais aglutinados nas figuras de “associações de jornais e ONGs”, essa última, sigla utilizada para Organizações Não Governamentais. Até aqui, vigora a unilateralidade de representações no jornal. O mesmo acontece com a chamada para a coluna de Veríssimo, “Condenar a irreverência seria condenar a inteligência”, e de Míriam Leitão, “Atentado atingiu o jornalismo, a liberdade e o futuro”.

O único contraponto, ainda que discretamente, é a chamada para a entrevista com o pensador francês e sociólogo da Sorbonne, Michel Maffesoli, que suscita uma reflexão sobre liberdade religiosa e respeito aos muçulmanos com a afirmação, marcada por aspas: “Não sabemos lidar com os religiosos porque os negamos”. Nesse momento, é possível observar um discurso controverso, ainda que sutil, na construção da notícia.

As imagens presentes na capa da edição também merecem atenção. Da mesma forma que a Folha de S. Paulo, O Globo utiliza o frame que mostra o policial francês prestes a ser morto e a foto de manifestantes erguendo cartazes com os dizeres “Je suis Charlie”, dessa vez, pelas ruas da França. Mas há um recurso interessante que pode acabar provocando uma aproximação entre o leitor e as vítimas do atentado: estão dispostas fotografias individuais dos rostos de quatro cartunistas, classificados pelo jornal como “renomados”. As faces, três delas com notáveis sorrisos, trazem certa noção de inocência, evidenciando para o leitor dessas representações a polarização já descrita entre vítimas e assassinos e convidando para a identificação com um desses grupos.



Por fim, a charge assinada por Chico apresenta um homem vestido de preto e encapuzado, em alusão aos terroristas, segurando a cabeça da Estátua da Liberdade, que sangra no pescoço, onde foi cortada. Além da associação imediata da imagem com o tolhimento da liberdade, o que representaria a escultura, há outra camada de informação como pano de fundo, uma vez que o monumento, de nome “A Liberdade Iluminando o Mundo”, é uma obra francesa, idealizada por Édouard Lefèbvre de Laboulaye, historiador e político do país europeu7. Misturando referências americanas e europeias, o recurso imagético une as potências do ocidente sob o mesmo mote, contrapondo-as com o oriente, especialmente quando lembramos, por meio de uma evocação de memória, que os norte-americanos já foram vitimados, em outro expressivo acontecimento, por terroristas de religião islâmica.
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