Honoré de Balzac Eugénia Grandet



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Honoré de Balzac Eugénia Grandet

Tradução de Moacyr Werneck de Castro CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte Câmara Brasileira do Livro, SP Balzac, Honoré de, 1799-1850. B 1 58e Eugénia Grandet / Honoré de Balzac ; tradução de Moacyr Werneck de Castro. - São Paulo: Abril Cul tural, 1981. (Grandes sucessos) 1. Romance francês 1. Castro, Moacyr Werneck, 1915 - II. Título. 80-0740 CDD-843 [ 1981 Indices para catálogo sistemático: 1. Romances: Literatura francesa 843 EDITOR: VICTOR CIVITA Titulo original: Eugénie Grandet

Capa: Ilustração de Dilvacy M. dos Santos

(c) Copyright desta edição, Abrü S.A. Cultural e Industrial, São Paulo, 1981 Publicado sob licença da Difusão Européia do Livro, IVa edição São Paulo, SP

À MARIA* Seja o teu nome aqui - pois que o teu retrato é o mais belo adorno desta obra - como um ramo bento de murta, apanhado numa árvore qualquer, mas certamente santificado pela religião e renovado, sempre verde, por mãos piedosas **, para proteger a casa. O Autor. * * * Trata-se de Marguerite Fresnay, que foi, por algum tempo. a amante de B e que, segundo se julga, lhe deu uma filha, Marie C'arohne du Fresnay, nascida em Sartrouvilje em 1834 e falecida em Nice em 1930,

. com mais de noventa anos de idade. ** Charpentier, de 1839, onde apareceu pela primeira vez. essa dedicatória termina na palavra "piedosas"; o último trecho da frase



SÓ foi acrescentado na edição de 1843.

. Assinatura da dedicatória da edição de 1839. PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO* Encontram-se, em certas cidades de província, alguns tipos dignos de um estudo sério, caracteres cheios de originalidade, existências tranquilas na superfície, e devastadas secretamente por tumultuosas paixões; porém as asperezas mais marcadas (as arestas mais vivas), as exaltações mais apaixonadas acabam por cessar ali, na constante monotonia dos costumes (na constante atonia dos costumes iguais e sem acidentes). Nenhum poeta foi tentado a descrever os fenómenos dessa vida que se vai, esmaecendo sempre. Por que não? Se há poesia na atmosfera de Paris, onde turbilhona um simum que arrebata fortunas (onde reina um simum que arrebata, carrega as fortunas) e que quebra os corações, não a haverá também nessa lenta acção do siroco da atmosfera provinciana, que desgasta as mais altivas coragens, relaxa as fibras e desarma as paixões de sua agudeza? Se tudo Este prefácio, na primeira edição, precedia o texto sem se distinguir deste por nenhum título especial, e como um preâmbulo inerente ao romance. Indicamos em grifo, e entre parênteses, as variantes que apresenta o texto que apareceu na Europe Littéraire em relação a este. Não há data nesse prefácio da Europe Littéraire; na edição de 1839 a data é: "Paris, dezembro de 1833". 7 acontece em Paris, na província tudo passa; ali, não há relevo, nem saliência (nem saliência, nem relevo); mas ali estão os dramas em silêncio; ali, os mistérios habilmente dissimulados; ali, os desfechos numa só palavra; ali, os enormes valores emprestados pelo cálculo e pela análise às acções mais indiferentes. Ali se vive em público. Se os pintores literários abandonaram as admiráveis cenas da vida de província, não o fizeram nem por desdém, nem por falta de observação; talvez tenha sido por impotência. Com efeito, para iniciar o leitor num interesse quase mudo, que vive menos na acção do que no pensamento; para reproduzir figuras ao primeiro aspecto pouco coloridas, mas cujas meias-tintas e matizes solicitam as mais sábias pinceladas; para restituir a esses quadros as suas sombras cinzentas, o seu claro-escuro; para sondar uma natureza aparentemente oca, mas que ao exame se revela plena e rica sob uma superfície lisa - não será preciso uma infinidade de preparativos, cuidados inéditos e, para tais retratos, as subtilezas da miniatura antiga? A soberba literatura de Paris, ciosa das horas que, em detrimento da arte, dedica aos ódios e prazeres, quer seu drama já pronto; quanto a procurá-lo, falta-lhe o lazer para isto, numa época em que o tempo falta aos acontecimentos; quanto a criá-lo, se algum autor tivesse tal pretensão, esse ato viril excitaria (a pretensão, seria anunciar um ato que excitaria) motins numa república onde há muito é proibido, pela crítica dos eunucos, inventar (pela crítica, inventar) uma forma, um género, uma acção quaisquer. Essas observações eram necessárias, tanto para tornar conhecida a modesta intenção do autor, que só quer ser aqui o mais humilde dos copistas, como para estabelecer incontestavelmente o seu direito de abusar das extensões exigidas pelo círculo de minúcias no qual é obrigado a mover-se. Enfim, no momento em que se dá às obras mais efémeras o nome glorioso de Conto, que só deve pertencer às criações mais vivazes da arte, ser-lhe-á sem dúvida perdoado o descer às mesquinhas proporções da história, da história vulgar, da narrativa pura e simples do que se vê todos os dias na província. Mais tarde, ele trará seu grão de areia ao monte ergui do pelos operários da época; hoje, o pobre artista só apanhou (só encontrou) um desses fios brancos que bailam no ar com a brisa e com os quais se divertem as crianças, as raparigas, os poetas, e não interessam absoluta mente aos sábios; mas que, segundo se diz, caíram da roca de uma fiandeira celeste. Cuidado! Há moralidades nessa tradição campestre. Por isso, o autor dela faz a sua epígrafe. Ele vos mostrará como, durante a prima vera da vida, certas ilusões, brancas esperanças, fios prateados descem dos céus (do céu) e para lá retornam sem haver tocado a terra. T 1: 8 9 FISIONOMIAS BURGUESAS Há, em certas cidades de província, casas cuja vista inspira uma melancolia igual à que provocam os claustros mais sombrios, as charnecas mais desoladas ou as ruínas mais tristes. Talvez haja a um tempo nessas casas o silêncio do claustro, a aridez da charneca e as ossadas das ruínas; a vida e o movimento, ali, são tão tranquilos que um forasteiro as julgaria desabitadas, se não topasse de súbito com o olhar mortiço e frio de uma pessoa imóvel, cujo rosto quase monástico surge na janela ao rumor de um passo desconhecido. Essas características de melancolia existem na fisionomia de uma casa situada em Saumur, no fim da rua em ladeira que conduz ao castelo, na parte alta da cidade. Essa rua, hoje pouco movimentada, quente no verão, fria no inverno, escura em alguns trechos, é notável pela sonoridade de sua pequena calçada de pedras, sempre limpa e seca, pela estreiteza de seu leito tortuoso, pela paz de suas casas, que pertencem à cidade velha e são dominadas pelas muralhas. Ali se vêem habitações três vezes seculares, ainda só lidas, embora construídas de madeira, e cuja diversidade de aspectos contribui para a originalidade que recomenda essa parte de Saumur à atenção dos antiquários e artistas. É difícil passar diante dessas casas sem ad* Diz Claude Serval que em 1830 havia duas ruas subindo para o castelo, e "que se chamavam, uma e outra, a Subida do C mas "hoje em dia há uma só, chamada Rua da Fori". Quis-se reconhecer, na casa número 7 dessa rua, a casa de Grandet, mas é suposição bem arriscada, pois não corresponde à descrição feita por Balzac, a não ser pelo fato de ficar reconhecida.

. (C Claude Serva!, Autour d'Eugénie Grandet, págs. 29-30.)



mirar as enormes vigas cujas extremidades são talhadas em figuras estranhas e que coroam com um baixo-relevo negro o rés-do-chão da maioria delas. Aqui, peças transversais de madeira são cobertas de ardósias e desenham linhas azuis sobre os frágeis muros de uma casa terminada por um teto à guisa de pombal, que os anos fizeram vergar e cujas ripas apodrecidas foram torcidas pela acção alternada da chuva e do sol. Ali, apresentam-se vãos de janelas gastos, enegrecidos, onde as delicadas esculturas são quase invisíveis e que pare cem leves demais para o vaso de barro pardo, onde crescem os craveiros ou as roseiras de uma pobre operária. Mais adiante, são portas guarnecidas de enormes pregos, onde o génio de nossos antepassados traçou hieróglifos domésticos cujo sentido nunca mais se tornará a descobrir. Ora é um protestante que ali deixou inscrita sua fé, ora um partidário da Liga que amaldiçoa Henrique IV. Algum burguês esculpiu ali as insígnias da sua nobreza de sino, a glória de sua esquecida condição de almotacé. Lá está, inteira, a história da França. Ao lado da casa cambaleante, de tosca alvenaria, em que o artesão divinizou o seu instrumento de trabalho, ergue-se o palacete de um fidalgo onde, em pleno arco da porta de pedra, ainda se vêem alguns vestígios de seus brasões, despedaçados pelas diversas revoluções que a partir de 1789 agitaram o país. Nessa rua, os pavimentos térreos do comércio não são nem lojas nem armazéns: os amigos da Idade Média ali encontrariam as oficinas artesanais de nossos antepassados em toda a sua ingénua simplicidade. Essas salas baixas não têm dianteira, nem vitrina, nem vidraças; são profundas, escuras e sem ornamentos externos * Lizire escreve: "Gentis-homens do sino, nobreza do sino, nome que se dava aos descendentes dos prefeitos e dos almotacés. proprietários, em sua qualidade de funcionários municipais, do sino da comuna e com foros de nobreza, em certas cidades, devido a alguns encargos municipais". Diz-se também que essa denominação era atribuído a esses magistrados pelo facto de as assembleias municipais serem convocadas pelo dobre dos sinos. ou internos. A porta abre-se em duas partes inteiriças, grosseiramente ferradas, das quais a superior se reco lhe e a inferior, provida de uma campainha de mola, vai e vem constantemente. O ar e a claridade chegam a essa espécie de furna húmida ou pela abertura superior da porta ou pelo espaço compreendido entre a abóbada, o assoalho e a pequena parede de meia altura à qual se adaptam sólidas adufas, retiradas de manhã, repostas e mantidas à noite com barras de ferro cavilhadas. Essa parede serve para exibir as mercadorias do negociante. Ali, nenhum charlatanismo. Conforme a natureza do comércio, as amostras consistem em duas ou três tinas cheias de sal e de bacalhau, alguns fardos de lona para velas de barco, cordas, latão pendurado nas vigas do teto, arcos de barril ao longo das paredes, ou algumas peças de fazenda em prateleiras. Entrai. Uma rapariga limpa, estuante de juventude, lenço branco ao pescoço, braços vermelhos, deixa o seu tricô, chama o pai ou a mãe, que chega e vos atende fleumática, complacente ou arrogantemente, conforme o carácter, seja para vender 2 vinténs ou 20 000 francos de mercadoria. Vereis um negociante de tábuas de carvalho sentado à sua porta e rodando os polegares, em conversa com um vizinho: esse homem só possui, aparentemente, umas prateleiras muito ruins para garrafas e dois ou três molhos de sarrafos; mas, no porto, o seu depósito entulhado abastece todos os tanoeiros de Anjou; ele sabe, sem erro de uma só aduela, .quantos tonéis pode, se a colheita for boa; um bom sol o enriquece, uma chuva o arruina: numa mesma manhã, tonéis valem 11 francos ou caem a 6 libras. Nessa região, como na Touraine, as vicissitudes da atmosfera dominam a vida comercial. Vinhateiros, proprietários, negociantes de madeira, tanoeiros, taverneiros, marinheiros, todos ficam à espreita de um raio de só!; quando se deitam, tremem à perspectiva de saber 12 13 na manhã seguinte que geou durante a noite; têm me do da chuva, do vento, da seca e querem água. calor, nuvens, à vontade. Há um duelo constante entre o céu e os interesses terrestres. O barómetro entristece, desanuvia, alegra alternativamente as fisionomias. De uma ponta a outra dessa rua, a antiga rua principal de Saumur, as palavras: "Está um tempo de ouro!" comunicam-se de porta em porta. E cada qual responde ao vizinho: "Chovem luíses!", sabendo o que lhe rende um raio de sol, ou uma chuva oportuna. No sábado, por volta de meio-dia, durante o verão, não se compra .1 vintém de mercadoria nas casas desses bravos negociantes. Cada qual tem a sua vinha, a sua quinta, e vai passar dois dias no campo. Ali, depois de tudo previsto, a compra, a venda, o lucro, os comerciantes têm dez horas em doze a passar em alegres partidas, em observações, comentários, bisbilhotices contínuas. Uma dona de casa não compra uma perdiz sem que os vizinhos perguntem*/* ao marido se ficou bem cozida. Uma moça não põe a cabeça à janela sem ser vista por todos os grupos desocupados. Ali, por conseguinte, as consciências es tão às claras, e aquelas casas impenetráveis, negras e silenciosas não têm mistérios. A vida é quase sempre ao ar livre: cada casal senta- se à porta, ali almoça, ali janta, ali briga. Não passa ninguém na rua que não seja estudado. Por isso, antiga mente, quando um estranho chegava a uma cidade de província, era troçado de porta em porta. Daí as sabo rosas histórias, daí o apelido de copiosos dado aos ha bitantes de Angers, que eram mestres nessas galhofas urbanas. Os antigos palacetes da cidade velha estão situados no alto dessa rua, outrora habitada por gentis-homens Littré, depois de dar a etimologia desse termo quando tem o sentido de abundante, vindo de copia, abundância, acrescenta: "Encontra-se nos sé culos XV e XV a palavra copieux significando zombeteiro, escarninho; mas não é a mesma palavra: copieux, nesse sentido, vem de copiar, aquele que copia, que imita". 14 da régião. A casa, cheia de melancolia, onde se desen rolaram os acontecimentos desta história, era precisa mente uni desses edifícios, restos veneráveis de um sé c no qual as coisas e os homens tinham aquele cará ter de simplicidade que os costumes franceses vão dia a dia perdendo. Depois de seguir os meandros desse caminho pitores co, onde os menores acidentes despertam lembranças e cujo efeito geral tende a suscitar uma espécie de deva neioffaquinal, percebereis uma reentrância sombria, no centro da qual se acha oculta a porta da casa do Sr. Grandet. Ë impossível compreender o valor dessa expressão provinciana, sem dar a biografia do Sr. Grandet. • O Sr. Grandet gozava em Saumur de uma reputação cujas causas e cujos efeitos não serão inteiramente come préendidos pelas pessoas que, por pouco que sej a, não viveram na província. O Sr. Grandet, a quem alguns • aínda chamavam Pai Grandet - mas o número desses velhos diminuía sensivelmente -' era, em 1789, um mestre tanoeiro bastante próspero, sabendo ler, escre ver e contar. Quando, no distrito de Saurnur, a Repú blica pôs à venda os bens do clero, o tanoeiro, então com quarenta anos, acabara de desposar a filha de úm rico negociante de tábuas. Munido de sua fortuna líquida e do dote, munido de 2 000 luíses de ouro, Grandet cómpareceu ao distrito, onde, graças a 200 luíses du plos oferecidos pelo sogro ao feroz republicano que administrava a venda dos domínios nacionais, obteve, a troco de nada, legalmente, senão legitimamente, um dos mais belos vinhedos da região, uma velha abadia e algumas terras arrendadas. Pouco revolucionários como eram os habitantes de Saumur, o Pai Grandet passou por um homem ousado, um republicano, um patriota, um espírito afeiçoado às novas idéias, quando na verdade o tanoeiro era simples mente afeiçoado às vinhas. Foi nomeado membro da 15 administração do distrito de Saumur, e sua influência pacífica fez-se sentir nos domínios político e comercial. Politicamente, ele protegeu os nobres e usou de todo o seu poder para impedir a venda dos bens dos emigra dos; comercialmente, forneceu aos exércitos republica nos 1 ou 2 milhares de barris de vinho branco e se fez pagar em soberbos prados, pertencentes a uma comuni dade de mulheres, que haviam sido reservados como derradeiro lote. Sob o Consulado, Grandet foi prefeito, administrou sabiamente, vindimou melhor ainda; sob o Império, vol tou a ser o Sr. Grandet. Napoleão não gostava dos re publicanos: substituiu o Sr. Grandet, de quem se dizia que usara o barrete vermelho, por um grande proprie tário, um portador de partícula no nome, um futuro barão do Império. O Sr. Grandet deixou as honras mu nicipais sem nenhum pesar. Mandara abrir, no interes se da cidade, excelentes estradas que conduziam às suas propriedades. Sua casa e seus bens, mui vantajosamente cadastrados, pagavam impostos módicos. Com a classi ficação das suas diferentes quintas, suas vinhas, graças a cuidados constantes, haviam-se tornado a cabeça da região, termo técnico empregado para indicar os vinhe dos que produzem a melhor qualidade de vinho. Teria podido solicitar a cruz da Legião de Honra. Este acontecimento deu-se em 1806. O Sr. Grandet tinha então 57 anos e sua mulher andava pelos 36. Uma filha única, fruto de seus amores legítimos, tinha dez anos de idade. O Sr. Grandet, a quem provavelmente a Providência quis consolar da desgraça administrativa em que caíra, herdou sucessivamente, naquele ano, da Sra. de la Gau dinière, nascida de la Bertellière, mãe da Sra. Grandet; depois, do velho Sr. de la Bertelliêre, pai da finada; e ainda da Sra. Gentillet, avó pelo lado materno: três he ranças de cuja importância ninguém teve conhecimento. A avareza desses três velhos era tão apaixonada que 16 de há muito acumulavam o dinheiro para poder con templá-lo secretamente. O velho Sr. de la Bertellière considerava qualquer aplicação de dinheiro uma prodi galidade, encontrando maiores compensações na visão do ouro do que nos lucros da usura. A cidade de Sau mur calculou, pois, o valor das economias segundo a renda dos bens visíveis. O Sr. Grandet alcançou então o novo título de no breza que nossa mania de igualdade não fará desapa recer nunca: tornou-se o mais tributado da região. Ex plorava 100 arpentes de vinhas, que, nos anos de abun dância, lhe davam de setecentas a oitocentas pipas de vinho. Possuía treze quintas arrendadas, uma velha aba dia, cujos cruzeiros, ogivas e vitrais mandou murar, por economia, o que os conservou; e 127 arpentes de terra, onde cresciam e engrossavam 3 000 choupos plantados em 1793. Enfim, a casa em que morava era própria. Assim se podia avaliar o seu pecúlio visível. Quanto aos seus capitais, apenas duas pessoas poderiam, vaga- mente, presumir-lhes o vulto: uma era o Sr. Cruchot, notário, encarregado das inversões usurárias do Sr. Grandet; outra, o Sr. des Grassins, o mais rico banquei ro de Saumur, de cujos lucros o vinhateiro participava segundo sua conveniência e secretamente. Embora o velho Cruchot e o Sr. des Grassins possuíssem essa pro funda discrição que, na província, gera a confiança e a fortuna, testemunhavam publicamente ao Sr. Grandet um respeito tão grande que os observadores podiam me dir a extensão dos capitais do ex-prefeito pelo alcance da consideração obsequiosa de que era alvo. Não havia em Saumur uma só pessoa que não esti vesse convencida de que o Sr. Grandet possuía um te souro particular, um esconderijo cheio de luíses, entre gando-se de noite aos gozos inefáveis que proporciona a contemplação de uma grande massa de ouro. Os so vinas tinham uase certeza disso, ao observarem os olhos dó velho, aos quais o metal amarelo parecia ter comu 17 1 4. b i nicado o seu matiz. O olhar de um homem acostumado a tirar de seus capitais um juro enorme adquire neces sariamente, como o do libertino, o do jogador ou o do cortesão, certos hábitos indefiníveis, movimentos furti vos, ávidos, misteriosos, que não escapam aos correu gionários. Essa linguagem secreta constitui de certo mo do a maçonaria das paixões. O Sr. Grandet inspirava, pois, a estima respeitosa a que tem direito um homem que nunca deveu nada a ninguém e que, velho tanoeiro, velho vinhateiro, adivi nhava com a precisão de um astrônomo, quando ne cessitava fabricar para sua colheita mil tonéis ou ape nas quinhentos; que não perdia uma só especulação, tinha sempre pipas a vender quando a pipa valia mais que a mercadoria a recolher, podia guardar a vindima em suas adegas e esperar o momento de entregar o to nel a 200 francos, quando os pequenos proprietários davam o seu em troca de 5 luíses. Sua famosa colheita de 1811, sabiamente guardada, lentamente vendida, rendeu-lhe mais de 240 000 libras. Financeiramente f a lando, o Sr. Grandet fazia lembrar o tigre e a jibóia: sabia deitar-se, encolher-se, fixar longamente a presa até dar o bote: depois abria a goela de sua bolsa, engolia um monte de escudos e estirava-se tranqüilamente. como a cobra que digere, impassível, fria, metódica. Ninguém o via passar sem experimentar um senti mento de admiração mesclado de respeito e terror. Pois todos em Saumur já não haviam sentido o rasgar deli cado das suas garras de aço? Para este, Mestre Cruchot conseguira o dinheiro necessário à compra de um do mínio, mas a 11 por cento; daquele, o Sr. des Grassins aceitara letras, mas com um medonho desconto de ju ros. Poucos dias se escoavam sem que o nome do Sr. Grandet fosse pronunciado, quer no mercado, quer nos serões, nas conversas da cidade. Para alguns, a riqueza do velho vinhateiro era objeto de um orgulho patrió tico. E mais de um negociante mais de um dono de albergue dizia aos forasteiros, com certo contentamento: Meu senhor, temos aqui duas ou três casas milio nárias; mas o Sr. Grandet, nem ele mesmo sabe mais de quanto é a sua fortuna! Em 1816, os mais hábeis calculadores de Saumur avaliavam os bens territoriais do homem em perto de 4 milhões; mas, como, em média, ele devia ter tirado por ano, de 1793 a 1817, 100 000 francos de suas pro priedades, era de presumir que possuísse em dinheiro soma quase igual ao valor dos seus bens de raiz. Por isso, quando, depois de uma partida de bóston ou de alguma conversa sobre as vinhas, se começava a falar do Sr. Grandet, as pessoas entendidas diziam: "O Pai Grandet?... O Pai Grandet deve ter de 5 a 6 milhões". - O senhor é mais esperto que eu, pois nunca con segui saber o total - era a resposta do Sr. Cruchot ou do Sr. des Grassins ao ouvir esses comentários. Se algum parisiense mencionava os Rothschild ou o Sr. Laffitte*, a gente de Saumur perguntava se esses eram. tão ricos quanto o Sr. Grandet. Se o parisiense lhes lançava, a sorrir, uma afirmação desdenhosa, eles s entreolhavam, sacudindo a cabeça com um ar de incredulidade. Tàmanha fortuna cobria com um manto de ouro to das as ações daquele homem. Se a princípio algumas particularidades de sua vida deram azo ao ridículo e à troça, troça e ridículo acabaram gastando-se. Nos me i atos, o Sr. Grandet tinha em seu favor a autorida de da coisa julgada. Sua palavra, seu traje, seus gestos, o piscar de seus olhos, ditavam a lei na terra, onde cada um, depois de havê-lo estudado como um naturalista es tuda os efeitos do instinto nos animais, pudera compro var a profunda e muda sabedoria dos seus menores Tílóvimentos. -O inverno vai ser rigoroso. .. - dizia-se. - O ' Jacques Laffitie nasceu em 1767. em Bavonp,c. 18 19 Pai Grandet está de luvas forradas: é preciso vindimar. O Pai Grandet está comprando muita aduela, vai haver vinho este ano. O Sr. Grandet nunca comprava carne nem pão. Seus rendeiros lhe traziam por semana uma provisão sufi ciente de capões, frangos, ovos, manteiga e trigo. Pos suía um moinho cujo locatário, além do aluguel, tinha obrigação de comprar-lhe certa quantidade de cereal em grão e trazer-lhe depois o farelo e a farinha. A gran de Nanon, sua única empregada, embora não fosse mais criança, todos os sábados amassava o pão da casa, O Sr. Grandet arranjara-se com os hortelões, seus locatá rios, para que lhe fornecessem legumes. Quanto às fru tas, sua colheita era tão abundante que vendia grande parte dela no mercado. A lenha era cortada em suas sebes ou vinha das velhas truisses* meio apodrecidas que ele recolhia da beira dos seus campos; seus arren datários levavam-na em carroças à cidade, arrumavam- na complacentemente em seu depósito de lenha e re cebiam os seus agradecimentos. Suas únicas despesas conhecidas eram o pão bento, o vestuário da mulher e da filha e o pagamento dos lugares que elas ocupavam na igreja; a luz, os ordenados da grande Nanon, a solda das panelas; o pagamento dos impostos, o conserto de suas casas e os gastos com as plantações. Tinha 600 arpentes de bosques, recentemente comprados e cuja guarda estava confiada ao vigia de um vizinho, a quem prometia uma compensação. Só depois dessa compra é que passou a comer carne de caça. As maneiras desse homem eram muito simples. Fa lava pouco. Geralmente, expressava suas idéias por pe quenas frases sentenciosas e ditas com voz branda. Des de a Revolução, época em que começou a atrair as aten ções sobre si, gaguejava de maneira fatigante logo que * Trujsse: "Tufo de árvores, tu, Veníiéja". (Bescherelle.) Lüiré não dá esse termo, O Nouveau Larousse Iflustré dá a mesma definição que Bescherelle. e ainda este exemplo: "uma truisse de carvalhos", tomado, aliás, de Balzae. 20 era obrigado a discorrer longamente ou a sustentar uma discussão. Esse tartamudear, a incoerência de suas pa lavras, o fluxo de palavras em que afogava seu pensa mento, sua aparente falta de lógica, atribuidos a um defeito de educação, eram afetados e serão suficiente mente explicados por alguns episódios desta história. De resto, quatro frases, tão exatas quanto fórmulas al gébricas, lhe serviam habitualmente para abarcar e re solver todas as dificuldades da vida e dos negócios: "Não sei, não posso, não quero, veremos isso". Não dizia nunca nem sim nem não, e jamais escre via. Se lhe falavam, escutava friamente, o queixo na rnão direita, o cotovelo direito apoiado nas costas da mão esquerda, e formava de todo negócio uma opinião da qual não voltava atrás. Meditava longamente as me nores transações. Quando, depois de uma hábil conver sa, o adversário lhe entregava o segredo de suas preten sões, julgando dominá-lo, ele respondia: - Não posso decidir nada sem consultar minha mulher. A mulher, que fora reduzida a um completo hilotis mo, era em seus negócios o biombo mais cômodo. Ele nãó freqüentava a casa de ninguém, não recebia nem oferecia um jantar; nunca fazia barulho e parecia eco nomizar tudo, até o movimento. Não tirava nada do lu gar em casa dos outros, por um constante respeito à propriedade. • Entretanto, apesar da brandura de sua voz, apesar dó seu todo circunspecto, a linguagem e os hábitos do tanoeiro irrompiam, sobretudo quando estava em casa. onde se constrangia menos que em qualquer lugar. No físico, Grandet era um homem de 5 pés de altura, eheio de corpo, robusto, com panturrilhas de 12 pole gadas de circunferência, rótulas nodosas e ombros lar goa; seu rosto era redondo, curtido, marcado pela bexi ga; o queixo era reto, os lábios não ofereciam nenhuma Sinuosidade e os dentes eram brancos; os olhos tinham 21 1 aquela expressão calma e devoradora que o povo em presta ao basilisco; à testa, cheia de linhas transversajs, não faltavam protuberâncias significa os cabelos, amarelados e grisalhos, eram, ouro sobre branco, como diziam alguns moços que desconhecjan a gravidade de uma pilhérja feita às custas do Sr. Grandet. O nariz, grosso na ponta, sustentava um lobinho venoso que o vulgo dizia, não sem razão, cheio de malícia. Esse rosto anunciava uma sutileza perigosa, uma probidade sem arroubos, o egoísmo de um homem habituado a con centrar os sentimentos no gozo da avareza e no Único ser que para ele representava realmente alguma Coisa. sua filha Eugénia, sua única herdeira. Atitude, maneiras, andar, tudo nele, aliás, atestava essa crença em si mes mo que proporciona o hábito de vencer sempre em todos 05 empreendimentos Assim, embora de Costumes fáceis e suaves na aparência, o Sr. Grandet tinha um caráter de bronze. Sempre vestido da mesma maneira, quem o Visse hoje via-o tal como era desde 1 791. Seus sapatos fortes eram amarrados com cordões de couro; usava todo o tempo meias de lã felpudas, uma Calça curta de fazenda mar rom grossa, com fivelas de prata, um colete de veludo com listras alternadamente amarelas e cor de pulga, abo toado de viés, um casaco marrom, largo, de grandes abas, uma gravata preta e um chapéu de quacre. Suas luvas, tão sólidas quanto as dos gendarm duravamlhe vinte meses e, para conserválas limpas, ele as colocava sempre na aba do chapéu, no mesmo lugar, com gesto metódico. Saumur nada mais sabia dessa Personagem. Somente seis moradores da localidade tinham o di reito de entrar naquela casa, O mais notável dos três primeiros era o sobrinho do Sr. Cruchot. Desde a sua nomeação para presidente do Tribunal de Primeira Instância de Saumur, esse rapaz acrescentara ao no me de Cruchot o de Bonfons, e trabalhava para que 22 Bonfons prevalecesse sobre Cruchot. Já se assinava C. de Bonfons. O litigante assaz incauto para tratá-lo de "Senhor Cruchot" logo se apercebia, na audiência, da tolice que cometera. O magistrado protegia aqueles que que o chamavam de "senhor presidente", mas favorecia com os seus mais graciosos sorrisos os aduladores que lhe diziam "Senhor de Bonfons". O senhor presidente tinha 33 anos, era proprietário do domínio de Bonfons (Boni Fontis), que valia 7 000 libras de renda; espe rava a herança de seu tio notário e do seu tio Abade Cruchot, dignitário do cabido de Saint-Martin de Tours, tidos, ambos, como bastante ricos. Esses três Cruchot, sustentados por grande número de primos, aliados a vinte famílias da cidade, formavam um partido, como outrora em Florença os Médicis; e, como os Médicis, os Cruchot tinham os seus Pazzi. A Sra. des Grassins, mãe de um filho de 23 anos, vinha assiduamente jogar com a Sra. Grandet, espe rando casar o seu querido Adolfo com a Srta. Eugénia. O Sr. des Grassins, o banqueiro, apoiava vigorosamen te as manobras da mulher, graças a constantes servi ços prestados em segredo ao velho avarento, e sempre chegava a tempo ao campo de batalha. Esses três Des Grassins tinham também seus aderentes, seus primos, seus fiéis aliados. Do lado dos Cruchot, o abade, o Talleyrand da fa mília, bem apoiado pelo irmão notário, disputava en carniçadamente o terreno à banqueira, tentando reser var a pingue herança para seu sobrinho presidente. Esse combate secreto entre os Cruchot e os Des Grassins, cujo prémio era a mão de Eugénia Grandet, ocupava apaixonadamente os diversos círculos de Saumur. A Srta. Grandet desposará o senhor presidente ou o Sr. Adolfo des Grassins? A esse problema, alguns respondiam que o Sr. Gran det não daria a filha nem a um nem a outro. O velho tanoeiro, roído pela ambição, procurava para genro 23 diziam - algum par da França, a quem 300 000 libras de renda fariam aceitar todos os tonéis passados, pre sentes e futuros dos Grandet. Outros replicavam que o Sr. e a Sra. des Grassins eram nobres, muito ricos, que Adolfo era um cavalheiro distinto, e que, a não ser no caso de trazer um sobrinho do papa no bolso do colete, uma aliança tão conveniente devia satisfazer a um ho mem vindo do nada, a quem toda Saumur tinha visto de enxó na mão e que, de resto, usara o barrete verme lho. Os mais sensatos observavam que o Sr. Cruchot de Bonfons entrava a qualquer hora na casa, ao passo que o rival só era recebido aos domingos. Estes sustenta vam que a Sra. des Grassins, mais ligada às mulheres da família Grandet, podia inculcar-lhes certas idéias que, mais tarde ou mais cedo, a fariam vencer. Retor quiam aqueles que o Abade Cruchot era o homem mais insinuante do mundo e que, mulher contra padre, a partida era igual. - É braço a braço - dizia um espirituoso de Sau mur. Com maior conhecimento, a gente antiga da região achava que, sendo os Grandet demasiado cautos para deixarem sair da família os seus bens, a Srta. Eugénia Grandet, de Saumur, se casaria com o filho doSr. Gran det, de Paris, um rico negociante de vinhos por ataca do*. A isto respondiam os cruchotinos e os grassinistas: - Para começar, os dois irmãos não se viram duas vezes nestes trinta anos. E depois, o Sr. Grandet de Pa ris tem altas pretensões para o filho. É prefeito de um distrito, deputado, coronel da Guarda Nacional, juiz no Tribunal de Comércio; renega os Grandet de Sau mur e pretende aliar-se a alguma família ducal pela graça de Napoleão. Quantas coisas se diziam daquela herdeira, de quem se falava 20 léguas ao redor e até nas diligências, de Angers a Blois inclusive! Trata-se de Vic:or-Aizge-Guillauine Grandel, que aparece assinando, com todos os seus prenomes, uma carta dirigida a seu irmão. 24 No começo de 1818, os cruchotinos conseguiram assinalada vantagem sobre os grassinistaS. A terra de Froidfond, notável pelo seu parque, seu admirável cas telo, suas fazendas, seus rios, lagunas, florestas, e va lendo 3 milhões, foi posta à venda pelo jovem Marquês de Froidfond, obrigado a realizar seus capitais. Mestre Cruchot, o Presidente Cruchot e o Abade Cruchot, aju dados pelos seus aderentes, conseguiram impedir a ven da em pequenos lotes. O tabelião concluiu com o moço um negócio da China, convencendo-o de que haveria processos sem conta a mover contra os adjudicatários antes de entrar no preço dos lotes; melhor seria vender ao Sr. Grandet, homem solvável e aliás em condições de pagar a terra à vista. O belo marquesado de Froid fond foi então encaminhado para o estômago do Sr. Grandet, que, para grande espanto de Saumur, pagou-o, com um abatimento, após as formalidades. Essa tran sação repercutiu em Nantes e em Orléans. O Sr. Grandet foi ver o seu castelo, aproveitando uma carroça que para lá voltava. Depois de lançar à sua pro priedade o olhar de senhor, retornou a Saumur certo de haver colocado os seus fundos a cinco, e empolgado pelá magnífica idéia de aumentar o marquesado de Froidfond, reunindo-lhe todos os seus bens. Em segui da, para encher de novo o tesouro quase vazio, decidiu abater sem piedade seus bosques, suas florestas e ex plorar os choupos de seus prados. É fácil agora compreender todo o significado desta expressão: a casa do Sr. Grandet - essa casa pálida, fria, silenciosa, situada no alto da cidade e abrigada pela ruína das muralhas. As duas pilastras e a abóbada que formam a abertu ra da porta tinham sido, como a casa, construídas com tufo, uma pedra branca peculiar à região do Loire e tão mole que sua duração média é de apenas duzen tos anos. Os estranhos buracos, desiguais e numerosos, que as 25 r 1: intempéries ali haviam aberto, davam ao arco e aos umbrais do portal a aparência das pedras vermiculadas da arquitetura francesa e alguma semelhança com o pórtico de um calabouço. Por cima do arco ostentava- se um extenso baixo-relevo de pedra dura esculpida, re presentando as quatro estações, figuras já carcomidas e completamente escuras. Esse baixo-relevo era enci mado por um plinto saliente onde cresciam várias des sas plantas devidas ao acaso, parietárias amarelas, cam painhas, convólvulos, tanchagens e uma cerejeira já bas tante crescida. A porta, de carvalho maciço, parda, ressequida, toda gretada, frágil na aparência, era solidamente mantida pelo sistema de suas cavilhas, que figuravam desenhos simétricos. Uma grade quadrada, pequena, mas de bar ras apertadas e vermelhas de ferrugem, ocupava o meio do postigo e servia, por assim dizer, de motivo a uma aldrava que a ela se prendia por um anel e batia na cabeça amassada de um cravo. Essa aldrava, de forma oblonga e no género daquelas chamadas por nossos avós jaquemart*, parecia um. grande ponto de exclamação: e, a um exame atento, um antiquário descobriria nela alguns traços da figura essencialmente bufa que repre sentava antigamente, e que o uso prolongado apagara. Pela gradinha, destinada a reconhecer os amigos no tempo das guerras civis, os curiosos podiam perceber, ao fundo de uma abóbada escura e esverdeada, alguns degraus semidestruídos pelos quais se subia a um jar dim pitorescamente cercado de muros espessos, úmidos, cheios de infiltrações e de tufos de arbustos raquíticos. Esses muros eram os das antigas fortificações. sobre as quais ficavam os jardins de algumas casas vizinhas. No rés-do-chão da casa, a peça principal era uma sala, à qual se tinha acesso pela entrada do portão. Poucas pessoas conhecem a importância de uma sala nas pe Figura metálica de homem armado que, nos relógios antigos, dava a com um martelo. (N. do T.) quenas cidades do Anjou, da Touraine e do Berry. A sala é ao mesmo tempo vestíbulo, salão, gabinete, quárto de vestir, refeitório; é o teatro da vida domés tica, o lar comum; ali, o cabeleireiro do bairro vinha cortar duas vezes por ano os cabelos do Sr. Grandet; ali eram recebidos os arrendatários, o padre, o subpre feito, o moleiro. Esta peça, cujas duas janelas davam para a rua, era assoalhada; painéis de madeira cinzen tos, com molduras antigas, cobriam as paredes de alto a baixo; seu teto era feito de barrotes aparentes, tam bém cinzentos, cujos intervalos eram cheios de reboque branco, que amarelara. Uma velha moldura de cobre, incrustada de arabes cos em escama, ornava o pano da lareira de pedra branca, mal esculpido, e em cima do qual ficava um espelho esverdeado, cujos bordos, cortados em bisei para mostrar a espessura, refletiam um fio de luz ao longo de um tremó gótico de aço tauxiado. Os dois candelabros de cobre dourado que decoravam cada um dos cantos da lareira tinham duas finalidades: retiran do-se as rosas que lhes serviam de arandelas, e cuja base se adaptava ao pedestal de mármore azulado e ornado de cobre velho, esse pedestal formava um cas tiçal para os dias comuns. As cadeiras, de forma antiga, tinham estofos onde se representavam as fábulas de La Fontaine; mas era preciso saber disso para reconhecer os temas, tanto as cores desbotadas e as figuras crivadas de remendos eram difíceis de distinguir. Nos quatro cantos dessa sala viam-se cantoneiras, espécies de aparadores terminados em prateleiras muito sujas. Uma velha mesa de jogo, de madeira marchetada, cuja parte superior formava um tabuleiro de xadrez, ficava no vão entre as duas janelas. Em cima dessa mesa havia um barômetro oval, de cercadura negra, enfeitado com listões de madeira dourada, onde as moscas se tinham divertido tão licen ciosamente que o dourado era um problema. 2b 27 Na parede oposta à lareira, dois retratos em pastel supostamente representavam o avô da Sra. Grandet, o velho Sr. de la Bertellière, fardado de tenente da guar da francesa, e a falecida Sra. Gentillet, de toucado. As duas janelas tinham cortinas de grosso tecido vermelho de Tours, repuxadas por cordões de seda com borlas de igreja. Essa luxuosa decoração, tão pouco em har monia com os hábitos de Grandet, fora incluída na compra da casa, assim como o tremó, a moldura, os estofados e as cantoneiras de pau-rosa. Na janela mais próxima da porta via-se uma cadeira de palha cujos pés eram montados sobre calços, a fim de erguer a Sra. Grandet a uma altura de onde pudesse ver os transeuntes. Uma mesa de costura de tábuas de cerejeira desbotadas preenchia o vão, e bem junto ficava a pequena poltrona de Eugénia Grandet. Durante quinze anos a fio, todos os dias da mãe e da filha se haviam escoado tranqüilamente naquele lugar, num trabalho constante, de abril a novembro. No dia 1.O deste último mês, elas podiam dar início à sua estação de inverno na lareira. Só nesse dia Grandet permitia que se acendesse fogo na sala; e mandava apagá-lo no dia 31 de março, sem conside ração nem às primeiras friagens da primavera, nem às do outono. Um pequeno fogareiro, mantido com a brasa vinda do fogo da cozinha, que a grande Nanon lhes reservava usando de habilidade, ajudava a Sra. e a Srta. Grandet a passarem as manhãs ou as noites mais frescas dos meses de abril e outubro. Mãe e filha eram responsáveis por toda a roupa branca da casa, e empregavam tão conscienciosamente os seus dias nesse verdadeiro trabalho de operárias que. se Eugénia queria bordar um cabeção para a mãe, era obrigada a perder horas de sono, enganando o pai para poder ter luz. Desde muito tempo, o sovina distribuía a vela à sua filha e à grande Nanon, assim como de manhã distribuía o pão e os géneros necessários ao consumo do dia. • A grande Nanon era talvez a única criatura humana capaz de aceitar o despotismo daquele amo. Toda a cidade invejava o Sr. e a Sra. Grandet por causa dela. A grande Nanon, assim chamada graças à sua estatura de 5 pés e 8 polegadas, pertencia a Grandet havia 35 anos. Embora tivesse um ordenado de 60 libras apenas. • passava por uma das empregadas mais ricas de Saumur. Aquelas 60 libras, acumuladas ao longo de 35 anos, haviam-lhe permitido recentemente colocar 4 000 libras a render juros com Mestre Cruchot. Esse resultado das longas e persistentes economias da grande Nanon pare ceu gigantesco. Cada empregada, vendo que a pobre sexagenária garantira o pão da velhice, tinha-lhe ciúmes, sem pensar na dura servidão pela qual o - ganhara. Na idade de 22 anos, a pobre criatura não arran java nenhum emprego, tanto seu aspecto era repelente: essa impressão, aliás, era muito injusta: aquelas mes mas feições seriam dignas de admiração sobre os ombros de um granadeiro da guarda; mas tudo, como se diz, deve ter o seu propósito. Forçada a abandonar uma granja incendiada, onde cuidava das vacas, veio para Saumur à procura de serviço, animada por aquela robusta coragem que não se recusa a nada. O Sr. Grandet pensava na ocasião em casar-se, e já queria montar casa. Reparou naquela moça, rejeitada de porta em porta. Sabendo avaliar a força corporal, na sua qualidade de tanoeiro, adivinhou o partido que podia tirar de uma criatura fêmea talhada como um Hércules, plantada sobre os pés como um -carvalho se xagenário sobre suas raízes, forte de ancas, quadrada de ombros, com mãos de carreteiro e uma probidade tão vigorosa como a sua intacta virtude. Nem as verrugas que ornavam aquele rosto marcial, nem a tez cor de tijolo, nem os braços nervosos, nem os trapos da Nanon assustaram o tanoeiro, que ainda estava na idade em que o coração estremece. E, em conseqüên cia, vestiu, calçou, alimentou a pobre rapariga, deu-lhe 28 29
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