Hoje eu já tenho que pensar em mim e na minha filha



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... hoje eu já tenho que pensar em mim e na minha filha”: O papel da paternidade na adolescência e juventude na transição para a vida adulta em Belo Horizonte e municípios da Região Metropolitana, Brasil


Introdução

A transição para a vida adulta é um fenômeno que vem sendo estudado nos Estados Unidos desde a década de 1970 e, mais recentemente, no Brasil (VIEIRA, 2009). Diferentes áreas, tais como a sociologia, a pedagogia, a psicologia e a demografia vêm desenvolvendo estudos sobre a transição para a vida adulta englobando questões de cunho individual, que impactam a estrutura da população no que diz respeito ao lugar que os indivíduos assumem na sociedade. Essas questões são a conclusão dos estudos, a entrada no mercado de trabalho, a saída de casa, a inserção em uma união conjugal e ter um filho. Já a repercussão disso no arranjo social implica em mudanças de status – passar de estudante a trabalhador, de dependente para chefe de domicílio, transitar de solteiro a casado ou em união estável e de filho a pai ou mãe (VIEIRA, 2009).

As múltiplas experiências juvenis, que garantem diversidade à condição juvenil na sociedade contemporânea, devem ser consideradas. Da mesma forma, nos estudos sobre transição para a vida adulta, há uma perspectiva que trata a transição apenas sob a ótica da transição escola-trabalho mas, além dela, há a linha mais abrangente que aborda todos os eventos, considerando a complexidade do fenômeno e as diversas experiências de trajetórias, “recusando a linearidade como ponto de vista privilegiado” (PAPPÁMIKAIL, 2010, p. 380). Camarano (2006) afirma que os modelos tradicionais de transição, que seguem os protocolos de linearidade, estão se tornando cada vez mais inapropriados segundo o contexto social, econômico e cultural que prevalecem atualmente, sugerindo uma flexibilidade nos processos de transição vivenciados hoje.

O objetivo deste trabalho é investigar o papel da paternidade na transição para a vida adulta entre homens que foram pais na adolescência (15-19 anos) e juventude (20-24 anos). Para tal, foram realizadas 22 entrevistas semi-estruturadas com homens entre 21 e 30 anos, que foram pais antes dos 24 anos, residentes em Belo Horizonte e outros municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte, Brasil.


O que diz a literatura

Diversos modos de entrada na vida adulta são registrados, já que os eventos clássicos da transição não necessariamente precisam ocorrer em uma ordem específica, bastando que apenas um deles ocorra. Segundo Nascimento (2008), a transição para a vida adulta acontece cada vez mais de modos variados, em arranjos cada vez mais heterogêneos, e, portanto, com significados, específicos. O autor cita como o significado do evento “sair de casa” tem diferentes conotações, a saber: rito de passagem; marco para alcançar a vida adulta; porta de entrada para a vida adulta dada a necessidade de independência financeira e emocional, e; modo crucial no ciclo de vida para a entrada na vida adulta.

Mesmo na perspectiva da transição para a vida adulta, considerada mais recente, não há uma concordância sobre qual evento marca a fase adulta, fundamentalmente, por causa dos novos padrões de vida experimentados pelos jovens, quais sejam: maior permanência na escola para alcançar um maior nível educação a fim de conquistar um lugar melhor no mercado de trabalho e, em função disso, a maior permanência na casa e na dependência dos pais em alguma medida.

Sumarizando, é factível supor que ser jovem significa estar dentro de um limite etário e estar inserido em um contexto com o qual o indivíduo se identifica. Sendo que o contexto vai determinar, em grande medida, o aparato sociocultural do jovem, e este varia segundo classe social, gênero e lugar (GROPPO, 2000). Logo, é plausível aceitar que não há um padrão que deva ser seguido criteriosamente para que os jovens transitem para a vida adulta e que é aceitável a não sucessão de eventos para tal.

Bourdieu (1984) além de defender a construção social das categorias jovem/velho, reforça que, para entendê-las do ponto de vista de como se “cortam as gerações”, “é preciso conhecer as leis específicas de funcionamento do campo” social (p. 113). Aqui fica claro que a concepção funcionalista é levada em conta, já que, segundo o autor, “a idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável” e que ao falarmos de jovens como uma categoria social única já indica tal manipulação.

A compreensão da juventude só é possível pelas diversas juventudes, onde, segundo Vieira (2009) ser jovem significa estar sob uma “condição biossocial” (p.4). Para tal segue-se a recomendação de Bourdieu (1984) que indicou a comparação entre as juventudes, ou seja, entre jovens com mesma idade, porém em condições juvenis diferentes, o que significa dizer de jovens em contextos distintos, porém na mesma condição de jovens.

A junção dos aspectos etário (positivista) e cultural (funcionalista) colabora para a definição da categoria social a qual abordaremos neste trabalho: a juventude e mais especificamente, a juventude paterna. Apesar desta breve e simples categorização, há autores que afirmam ser a juventude uma categoria social de definição complexa, ou mesmo volátil (PAPPÁMIKAIL, 2010).

Uma categoria social pode ser definida como um grupo de indivíduos na mesma condição (jovens) concebido simbolicamente por outro grupo social (a sociedade como um todo) ou pelos próprios indivíduos que o compõem, para dar significado a uma série de comportamentos a eles atribuídos e por eles praticados. No nosso caso, os jovens são assim concebidos pela sociedade, como um grupo de indivíduos que vivenciam um período que antecede a vida adulta, segundo a perspectiva positivista, passando pelo evento da paternidade. Portanto, buscaremos compreender estes jovens enquanto indivíduos que passaram pela paternidade na adolescência e juventude (15 a 24 anos), definindo-os, assim, como uma sub-categoria social – a juventude paterna de Belo Horizonte e Região Metropolitana de Belo Horizonte.

A gravidez abaixo dos 20 anos de idade tem implicações que repercutem na vida dos indivíduos sob o ponto de vista do descumprimento ou do atropelamento de fases da vida esperadas para tal etapa, o que se constitui como uma “antecipação dos movimentos socialmente institucionalizados para a reprodução” (CAMARANO, 1998, p. 110). Assim, espera-se que o jovem cumpra etapas socialmente institucionalizadas como concluir os estudos, preparar-se para o mercado de trabalho conquistando sua autonomia e independência financeira, sair de casa, casar-se ou unir-se a alguém, para só então ter filhos. Entretanto, como reforçamos anteriormente, a juventude não segue um padrão único para todos os que estão nesta fase etária da vida, logo é vivenciada de formas variadas. Assim, o jovem pode postergar ou antecipar os eventos desta etapa para transitar à vida adulta (CEPESC, 2009), sem maiores constrangimentos.

A discussão acerca da transição para a vida adulta traz à tona uma aproximação da resposta para o modo como a fecundidade na adolescência tem sido abordada sob a perspectiva de problema social ou precocidade. Mesmo que, segundo Cabral (2009) a lógica do controle da gravidez na adolescência adotada por políticas de planejamento não remeta à “ótica de uma responsabilização individual” (pág. 322), mas sim a de um comportamento sexual contraceptivo fora daquilo que se espera para uma população como um todo, a gravidez nesse período da vida de um indivíduo é vista como prejudicial por estar rompendo com um ciclo de vida ideal que se espera que se cumpra.

O transtorno na vida dos jovens é, em muitos estudos, o primeiro plano abordado. Segundo Cabral (2005) os aspectos indesejados da gravidez na adolescência mencionam, principalmente, os fatores de incapacidade fisiológica das jovens mães, que repercutem na formação do filho e de imaturidade psíquica destas, que provoca descuido com a criança. A queda da idade média à menarca e da primeira relação sexual também aparecem associada à gravidez na adolescência e prevalecem nos estudos. Além destes fatores, o pertencimento a determinada classe social e a falta de escolaridade sugerem explicar o fenômeno da gravidez na adolescência. Ou seja, muitos estudos não consideram as diferenças de classe, gênero e contexto do fenômeno, a saber, aqueles que focam nas mulheres, pobres, mães, jovens e adolescentes.

Segundo Rodriguez (2005), ainda que pertinente, as evidências de que há uma interrupção nos estudos com o evento da fecundidade não são conclusivas de que a causa é a fecundidade, havendo um grande debate sobre a decisão de interrupção dos estudos tomada previamente à paternidade e maternidade. O autor aponta estudos realizados que permeiam o debate, citando um dos principais que é a “Tercera Ecuesta de Juventud, donde solo um 10% de los jóvenes que no estudia declara que la causa es la maternidade/embarazo”. (RODRIGUEZ, 2005 p. 136; CEPESC, 2009). O autor reforça a necessidade de se trabalhar com a noção de trajetória educativa para melhor aplicação analítica e maior aproximação da relação entre interrupção dos estudos e fecundidade. Tal perspectiva parte do pressuposto de que “hay uma trayectoria “normal” según la cual se espera que a uma determinada edad la persona haya llegado a um cierto grado escolar.” (pág. 136).

Oliveira et al (2006) em um estudo baseado na Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV), realizada nas regiões Nordeste e Sudeste do Brasil, em 1996 e 1997 concluíram que ter o primeiro filho não representou o principal motivo para a saída da escola, já que o risco de deixar a escola para mulheres que já tiveram o primeiro filho foi de apenas 0,9%, sendo que que tal decisão (ter o primeiro filho) sucede a saída da escola e a entrada no mercado de trabalho. Além disso, os autores identificaram que cada ano a mais de escolaridade, controlando por demais variáveis, reduz em 2,2% o risco das mulheres terem filhos.

Um trabalho que procurou investigar sobre como as desigualdades de classe e de gênero influenciam no comportamento sexual e reprodutivo de adolescentes e jovens do sexo feminino, entre 15 e 24 anos, de classe média e baixa em Belo Horizonte, traz resultados interessantes. Chacham et al (2012) identificaram, em uma amostra de 648 adolescentes e jovens, onde 292 eram residentes de bairros de classe média e 356, de favelas, que entre as mulheres de classe média, quase a totalidade (98%) ainda estavam estudando, enquanto entre as residentes em favelas, mais de 30% já haviam interrompido os estudos e, entre estas, algumas afirmaram que pararam de estudar independente da gravidez. O estudo apontou que as mulheres de classe média alcançam maior escolaridade em comparação com as residentes de favelas, afirmando que “o ensino médio é o limite da escolarização das moradoras das favelas” (p. 394), pois entre as de 15 a 19 anos apenas 7% haviam concluído o ensino médio, contra 44% das residentes em bairros de classe média. Já entre as de 20 a 24 anos residentes de favelas, apenas 3,3% cursavam nível superior, contra 70% das de classe média estavam cursando ou já tinha concluído.

A discussão sobre a entrada no mercado de trabalho e saída da escola, relacionadas à fecundidade na adolescência e juventude, permeia a questão de gênero, já que segundo Oliveira et al (2006) “enquanto a escola e trabalho podem ser mais importantes para os homens, as mulheres têm maior preocupação com a escola e a maternidade” (p. 110). Por isso, seria mais interessante se tivéssemos estudos que avaliassem a relação dos eventos acima comparando homens e mulheres.

Além disso, há uma exposição midiática excessiva que qualifica a gravidez na adolescência como precoce e indesejada, surgindo como justificativa para enquadrar o evento como um problema social, fundamentando na lógica médica e epidemiológica que se mobiliza, então, em coibir a gravidez neste período do ciclo de vida (CABRAL, 2009). Imagens de pais brigando com os filhos, de susto, de decepção, desespero, medo e surpresa por parte dos envolvidos são frequentes em uma simples busca na internet e representam, respectivamente, o rompimento com o vínculo familiar (pais brigando com os filhos) e o pensamento: “E agora, o que vai ser da minha vida?” (para cenas de susto, decepção, desespero, medo e surpresa).

Assim, os termos “precoce”, “indesejada” ou “não planejada” buscam representar a interrupção de fases do ciclo de vida, no abandono dos estudos, enfatizando a entrada no mercado de trabalho precário. Entretanto não enfatizam a superação desta nova etapa: a entrada no mercado de trabalho, que mesmo precário, diz muito sobre a formação dos indivíduos enquanto pais ou mães e como cidadãos inseridos num determinado contexto. E, portanto, não buscam responder se a carreira profissional e educacional destes jovens teria sido diferente caso não fossem pais. Além disso, sequer mencionam outros aspectos de superação, como por exemplo, o abandono da criminalidade, ou mesmo, o aspecto do planejamento da fecundidade entre essa população, que sim, ocorre em casos atípicos.
O arcabouço teórico

A abordagem do curso de vida se aproxima mais da demografia se fizermos uma analogia ao conceito de coorte, que implica em acompanhar um determinado grupo de pessoas ao longo do tempo. Ela trabalha com três conceitos básicos, a saber: trajetória, transição e turning point, que pode ser traduzido como ponto de inflexão, segundo Blanco (2011).

Neste sentido, a trajetória corresponde a uma linha do tempo ao longo de toda a vida, representando uma perspectiva, a longo prazo, que pode ser definida como o processo de desenvolvimento etário que culmina no envelhecimento. Segundo Blanco, na abordagem do curso de vida, não há pressuposto de sequência, tampouco de tempo para ocorrência dos eventos, apenas “mayores o menores probabilidades em el desarrollo de ciertas trayectorias vitales” (BLANCO, 2011, p.12). O que vale dizer que não há ou não se espera padrões ideais de ocorrência de determinados eventos. As trajetórias, no entanto, podem ser observadas em várias esferas da vida, podendo ser trabalho, escola, vida reprodutiva, migração, etc, que são interdependentes entre si. É a análise desses eventos e sua relação com a trajetória de um indivíduo ou de uma coorte que se torna central no enfoque do curso de vida.

A transição, por sua vez faz referência a mudanças de estado, posição ou situação, tendo como parâmetro a “situación em que se encuentra alguien o algo” (idem, p. 12). Se pensarmos do ponto de vista mais preciso no campo da demografia, esta corresponde à posição que uma pessoa ocupa num determinado momento do tempo, a exemplo das possíveis situações numa relação conjugal como caracterizadas por 4 estados, a saber: solteiro, casado, divorciado ou viúvo. Assim como na trajetória, na transição não há eventos previsíveis ou pré-determinados, podendo variar segundo contextos culturais e tempo. Como são estados ocupados pelos indivíduos, as transições podem ocorrer simultaneamente e condicionam o indivíduo a ocupar ou desenvolver novos papéis e representações sociais, cumprindo com novos direitos ou deveres. Por exemplo, o indivíduo transita da adolescência para a juventude e, passa, então, a exercer e cumprir seus direitos e deveres enquanto jovem, garantidos pelo Estatuto da Juventude. Passar por uma transição significa exatamente o momento, ou seja, o timing que corresponde ao momento em que ocorre o evento, seguido de sua sequência, enquanto ocupar um estado corresponde à duração do evento na vida do indivíduo.

Sobre esses dois pontos (Trajetória e Transição), é interessante apresentar a discussão de Sackmann e Wingens (2003). Os autores lançam o conceito de “sequência” como uma proposta de superar o “problematic hiatus between the two key concepts “transition” and “trajectory” (SACKMANN & WINGENS, 2003, p.96). Assim, estabelecem que a “sequência” é qualquer movimento que inclui, no mínimo, duas transições entre estados, sendo, portanto, um evento mais expressivo que a transição e menos expressivo que a trajetória. Os autores argumentam que a abordagem de sequência colabora mais para a teoria do curso de vida, já que se preocupa com a combinação de estados ao longo do curso de vida. Por isso, propõem transformar as inúmeras possibilidades de combinações de estados na trajetória, para um modelo parcimonioso de sequências, através de um número menor de transições. Para tal, os autores estabelecem as seguintes tipologias (constituídas e caracterizadas por sequências particulares de estados):
1ª – Ruptura (Rupture): representa uma só transição. Serve como um parâmetro de contraste para as sequencias seguintes.

Ex.: Emprego – Aposentadoria.

A B
2ª – Interrupção (Interruption): representa a continuação de um determinado estado depois que um evento ocorre inesperadamente.

Ex.: Estudos – Gravidez – Estudos.

A B A
3ª – Mudança (Change): Marca a descontinuidade do evento inicial após um evento inesperado.

Ex.: Estudos – Paternidade – Emprego

A B C
4ª – Ponte (Bridge): Esta sequência representa a repercussão de um estado combinado.

Ex.: Trabalho – Licença paternidade (=Trabalho + não-trabalho) – Desemprego.

A AB B
5ª – Retorno (Return): Esta sequência representa a transição de um estado combinado (licença paternidade), retornado ao estado original.

Ex.: Trabalho – Licença paternidade (=Trabalho + Não trabalho) – Trabalho:

A AB A
6ª – Fusão (Fusion): A combinação de estados é resultante no último estado da sequência.

Ex.: Trabalho – Desemprego – Trabalho parcial (=Trabalho + Não-trabalho):

A B AB
Segundo os autores, a sequência da Ruptura colabora com as abordagens clássicas da estatística para avaliar a absorção de estados. Em contrapartida, as sequências Interrupção e Mudança avançam nas possibilidades de análises, permitindo aprofundar os estudos que buscam demonstrar o efeito da duração de um determinado evento na manutenção de certo estado. As sequências que permitem combinações de estados – Ponte, Retorno e Fusão – são estruturadas, normalmente, no nível macro e, metodologicamente, são mais difíceis de aplicar para avaliações comparativas de pesquisas sobre curso de vida, pois não são institucionalizados em diversos países. Para tal, decide-se qual o melhor estado puro se assemelha mais de algum estado combinado (SACKMANN e WINGENS 2003).

Uma das aplicações mais usuais da tipologia de sequências estabelecidas pelos autores é a sequência escola-trabalho, a qual mais nos interessa, já que estamos abordando pais que tiveram seus filhos no momento em que estavam estudando e/ou trabalhando.

A sequência escola-trabalho é frequentemente abordada pela perspectiva da teoria do capital humano, já que a permanência na escola é vista como uma decisão de investimento a ser feita tanto pelo próprio indivíduo jovem ou pelos pais deste jovem (BRADLEY e NGUYEN, 2004). Entretanto, não será esta a abordagem dada neste estudo, já que a intenção aqui é apenas exemplificar a metodologia do curso de vida.

Nesta transição é possível compreender todas as sequências mencionadas acima, sendo que: na Ruptura, o indivíduo deixa um estado e absorve outro; a Interrupção refere-se a tal, porém sem a conclusão da etapa anterior; a mudança, a transição escola trabalho pode ser seguida por desemprego ou outros fatores; a Ponte, nesse tipo de transição, pode ser compreendida pelo período de estágio pelo qual o aluno passa antes de escolher sua profissão, para tal os autores citam o sistema de aprendizagem Alemão; a sequência do tipo Retorno pode ser compreendida pela volta do aluno, pós-estágio, a estudar, podendo ser ou ingressando no ensino superior, ou em um preparativo para vestibular; e por fim, a sequência do tipo Fusão, permite a entrada no mercado de trabalho prévia à formação, dada por cursos a o longo da carreira profissional.

A aplicação do método se dá no momento da aplicação entrevista semi-estruturada, por meio das perguntas que possibilitam investigar sobre as transições vivenciadas pelos pais entrevistados.

O percurso metodológico

As entrevistas são a estratégia de coleta de informações mais utilizada no trabalho científico. Elas levantam informações junto ao sujeito de interesse do pesquisador, que então relata, por meio de reflexão sobre seu cotidiano, as “ideias, crenças, maneira de pensar, opiniões, sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar; condutas; projeções para o futuro; razões conscientes ou inconscientes de determinadas atitudes e comportamentos” (MINAYO, 2014, p. 262). A entrevista semi-estruturada é guiada por um roteiro com questões abertas e fechadas, sem, no entanto, se prender a ele, pois novas questões podem complementar as questões estabelecidas no roteiro.

A coleta dos dados foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais1. As 22 entrevistas individuais foram realizadas entre 20 de janeiro e 28 de fevereiro de 2015, com homens que tiveram filhos entre 15 e 24 anos e, no momento da entrevista, tinham até 30 anos.

O recrutamento dos entrevistados teve início com o banco de dados da “Pesquisa Jovem – Avaliação do Ensino Médio”, um estudo amostral longitudinal, financiado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Esportes de Minas Gerais (Sedese) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), realizado pelo Cedeplar entre os anos de 2007 e 2010. Entre as muitas perguntas do questionário, foram coletadas informações sobre paternidade. Por ser uma pesquisa longitudinal, os respondentes eram identificados e registravam seu endereço e telefones de contato. Para maximizar o número de pais localizados, utilizamos apenas os dados de 2010. Foram utilizados dados dos municípios de Belo Horizonte, Betim, Brumadinho, Contagem, Esmeraldas, Ibirité, Pedro Leopoldo, Ribeirão das Neves e Sarzedo.



A partir da base de dados de 2010, selecionamos apenas os jovens do sexo masculino que declararam terem filho(s), naquele momento, a partir da variável “R3_VNL0108 – Você tem filhos?”. Além disso, para identificarmos se o entrevistado teve filho no período que nos interessa (15 a 24 anos), subtraímos a idade do respondente pela idade do filho, esta última declarada pelo próprio pai. Assim, identificamos 69 entrevistados em 2010 que declararam terem tido filho entre os 15 e 24 anos. No entanto, havia pais com idade até 46 anos. Como a idade de corte era 30 anos no momento da entrevista, excluímos 9 casos. A partir dos dados selecionados, iniciamos as ligações e agendamento com os pais da amostra, que acabou se constituindo apenas no pontapé inicial para a realização do trabalho de campo. Os dados dos entrevistados traziam três opções de telefones de contatos, os quais podiam ser da casa de parentes (tios, avós, primos, pais), vizinhos, trabalho ou da própria residência. Além disso, em alguns casos, foi passado um quarto contato para a tentativa de efetivação do contato com o jovem pai. Nos casos em que o contato se efetivava, mas não se falava diretamente com o pai, foram deixados recados ou foi solicitado um quarto telefone de contato para falar diretamente com o pai. Desta forma, dos 135 números de telefones cadastrados para os 60 entrevistados que se declararam pais, a situação foi a seguinte:
Tabela 1 – Situação do cadastro telefônico e resultado dos contatos dos perfis levantados

Quantidade de telefones cadastrados

135

Telefones não existentes/não completa/números indisponíveis/Caixa postal (3 tentativas)

51

Telefones em que a pessoa não existia

17

Casos de mudanças ou perda de contato

2

Falecimento

1

Números não contatados

37

Contatos efetivados

27

Recusas

16

Entrevistas realizadas

11

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da Pesquisa Jovem – 2010
A base de dados da Pesquisa Jovem favoreceu muito no início dos trabalhos, pois alguns telefones ainda estavam atualizados e obtivemos êxito na efetivação do contato, mas não nos prendemos a ela, uma vez que foram realizadas somente 11 entrevistas com pais que responderam à Pesquisa Jovem em 2010. Dado que as possibilidades de sucesso de contato, a partir desta base de dados, estavam se esgotando, bem como o tempo programado para a pesquisa de campo, ao longo das entrevistas fomos pedindo indicações dos participantes, aderindo ao método “bola de neve”, para alcançar mais entrevistados. Este método conhecido é uma “estratégia de conveniência”, considera as “redes de contato e de conhecimento” (Miranda-Ribeiro et al, 2009, p. 397) para a realização das entrevistas. Neste caso, utilizou-se a rede de contatos da primeira autora e, também, dos entrevistados, perfazendo o total de 6 entrevistas por indicações. Ressalta-se que as indicações por meio da rede contatos da entrevistadora/pesquisadora não influenciou nas entrevistas, já que todos os indicados desta forma são conhecidos de conhecidos da entrevistadora/pesquisadora. Além disso, a estratégia de acaso também foi adotada para 6 entrevistas realizadas no Parque Municipal de Belo Horizonte, em que os indivíduos foram abordados ao acaso pela entrevistadora/pesquisadora. Desta forma, as entrevistas foram realizadas segundo as seguintes abordagens de recrutamento:
Tabela 2 – Realização das entrevistas segundo origem do recrutamento (n=23)

Entrevistados extraídos da Pesquisa Jovem – 2010

11

Conveniência (Indicações/“Bola de Neve”)

6

Acaso (Parque Municipal)

6

Fonte: Elaboração própria

As entrevistas foram transcritas e os dados foram analisados a partir da técnica de Análise de Conteúdo (AC), que surge com mais força no contexto do behaviorismo americano, em que se pretendia identificar o comportamento político e estratégias de países estrangeiros, a partir de documentos acessíveis (jornais de áudio e impresso), tornando o analista em um investigador/detetive, cabendo-o verificar e interpretar tais documentos. A AC, portanto, tem as funções de explorar contextos ou de levantar outras hipóteses e pretende cumprir com os seguintes objetivos:



  • “Superação da incerteza”: respondendo às perguntas e hipóteses;

  • “Enriquecimento da leitura”: ultrapassando preconceitos e abertura a novos significados que aparecem;

  • “Integração das descobertas: desvendando a lógica interna subjacente às falas, aos comportamentos e às relações” (BARDIN, 2009; MINAYO, 2014, p. 300).

Para a elaboração das nuvens de palavras, recurso muito utilizado em análises qualitativas, utilizou-se de um software livre chamado Tagul – Word cloud art (https://tagul.com/). O aplicativo disponibiliza, em seu site, ferramentas que permitem a criação de nuvens de palavras em diversos formatos, para diversas finalidades.

Vale ressaltar que todos os resultados apresentados aqui são referentes ao grupo de entrevistados que fez parte desta pesquisa, que corresponde a 22 jovens, entre 21 e 30 anos, que tiveram seus filhos entre os 15 e 24 anos, sendo que onze tiveram filhos na adolescência e onze, na juventude. Todos são egressos do sistema de educação pública, concluintes do Ensino Médio (regular ou técnico), Ensino Fundamental e não concluintes, e residentes de bairros periféricos de Belo Horizonte ou moradores da Região Metropolitana, representada pelos seguintes municípios: Brumadinho, Contagem, Esmeraldas, Ibirité, Ribeirão das Neves e Sarzedo. Os nomes dos entrevistados, fictícios, têm iniciais de acordo com a idade em que eles foram pais. Os nomes que começam com a letra A são daqueles que foram pais na adolescência (15-19 anos), enquanto os nomes iniciados com a letra J se referem a pais na juventude (20-24 anos).


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