Guy de maupassant



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BEL-AMI

GUY DE MAUPASSANT

COLECÇÃO NOVIS

BIBLIOTECA VISÃO - 26

Guy de Maupassant é considerado um dos mais influentes

contistas e romancistas franceses da segunda metade do século

XIX, apesar de uma actividade literária que durou apenas dez

anos, durante os quais escreveu cerca de trezentos contos e

seis romances. Entre estes últimos, salienta-se Bel-Ami, no

qual o autor oferece o retrato do seu tempo e da sua classe

social, narrando as peripécias de George Duroy, que deambula

pelas ruas de Paris em busca de dinheiro e êxito. Uma obra em

que se patenteiam os princípios literários de Guy de

Maupassant, nomeadamente o estilo objectivo, a linguagem

rigorosa e o realismo psicológico.

Título: Bel-Ami

Título original: Bel-Ami

Autor: Guy de Maupassant

Tradução: Jaime Brasil

Tradução cedida por Vega Editora

BIBLIOTEX, S. L.

para esta edição ABRIL/CONTROLJORNAL

Impressão AGosto de 2000

Primeira parte

I

Mal a empregada da caixa lhe deu a demasia da moeda de



cem soldos(1), Jorge Duroy saiu do restaurante. Era de boa

presença e, por hábito e atitude de antigo sargento,

empertigou-se, torceu o bigode, num gesto marcial, e lançou

aos comensais atrasados um rápido olhar envolvente, um destes

olhares de rapaz bonito que penetram como a unhada do gavião.

As mulheres ergueram a cabeça: três raparigas empregadas, uma

professora de música, de meia-idade, mal penteada, desleixada,

com um chapéu sempre poeirento e um vestido pontudo, e duas

mães de família com os maridos, frequentadoras daquele

restaurante de mesa redonda.

Ao chegar ao passeio, Jorge ficou um instante imóvel, como a

perguntar a si próprio que faria. Era o dia 28 de Julho e só

tinha no bolso três francos e quarenta para acabar o mês. Isso

representava dois jantares sem almoços, ou dois almoços sem

jantares, à escolha. Pensou que, como as refeições da manhã

eram a vinte e dois soldos, em vez dos trinta que custavam à

tarde, restar-lhe-ia, se preferisse os almoços, um franco e

vinte cêntimos de saldo, o que representava ainda dois

repastos de pão com salpicão e mais duas canecas de cerveja no

bulevar. Era esta a sua grande despesa e o seu maior prazer à

noite.

Começou a descer a Rua de Notre-Dame-de-Lorette. Andava como



no tempo em que usava o uniforme dos hussardos, com o peito

para fora, as pernas um tanto abertas como se acabasse de se

apear do cavalo. Caminhava arrogantemente pela rua apinhada de

pessoas, dando encontrões e empurrando toda a gente, para não

alterar a sua rota. Inclinara para a orelha o chapéu alto,

bastante usado, e batia com os tacões no pavimento. Tinha o ar

de estar sempre a desafiar alguém, os transeuntes,

*1. O soldo era uma moeda de cobre equivalente a cinco

cêntimos do franco. Designavam por cem soldos as moedas de

prata de cinco francos, que valiam, na época, cerca de mil

réis. (N. do T.)

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as casas, a cidade inteira, por atitude de belo militar



decaído na vida civil.

Embora vestisse um fato de sessenta francos, a sua elegância

era um bocado berrante, assaz vulgar, embora real. Alto, bem

feito, loiro, dum loiro acastanhado vagamente ruivo, com um

bigodinho que parecia espumar no lábio, de olhos azuis,

claros, furados por uma pupila pequeníssima, o cabelo

naturalmente ondulado, separado por uma risca ao meio, tinha o

tipo do sedutor dos romances populares.

Era uma dessas noites de Verão em que o ar falta em Paris. A

cidade, quente como uma estufa, parecia suar na noite

sufocante. As sarjetas exalavam, pelas bocas de granito, os

seus hálitos empestados, e as cozinhas subterrâneas lançavam

para a rua, pelos seus respiradouros, os miasmas repugnantes

das águas de lavar a louça e dos molhos requentados.

Os porteiros, em mangas de camisa, escarranchados em

cadeiras de palhinha, fumavam cachimbo, às portas, e os

passeantes caminhavam com passo fatigado, em cabelo, de chapéu

na mão.


Ao chegar ao bulevar, Jorge Duroy parou, outra vez indeciso

acerca do que faria. Deu-lhe vontade de ir até aos Campos

Elísios ou à Avenida do Bosque de Bolonha, para apanhar algum

fresco debaixo das árvores, mas outro desejo o minava também:

o dum encontro galante.

Como seria ela? Não sabia, mas esperava-a, havia três meses,

todos os dias, todas as noites. Algumas vezes, no entanto,

graças ao seu bom aspecto e feitio galanteador, roubava, aqui

e ali, uma noite bem passada, mas esperava sempre mais e

melhor.


Com o bolso vazio e o sangue a ferver, excitava-se em

presença das raparigas que murmuravam, à esquina das ruas:

"Vem comigo, simpático!", mas não ousava segui-las, não lhes

podia pagar, esperava, também, outra coisa, outros contactos

menos vulgares.

Jorge gostava, no entanto, dos locais onde se juntam as

raparigas da rua, dos seus bailes, dos seus cafés, das suas

ruas. Gostava de andar ao lado delas, de lhes falar, de as

tratar por tu, de aspirar os seus perfumes violentos, de estar

no meio delas. Sempre eram mulheres, embora mulheres fáceis.

Não as desprezava de maneira nenhuma, com o desprezo inato nos

filhos de boas famílias.

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Dirigiu-se para a Madalena(1) e seguiu a torrente da



multidão que caminhava vencida pelo calor. Os grandes cafés,

cheios de gente, transbordavam para os passeios, derramando o

seu público de bebedores sob a luz crua e cegante das suas

fachadas iluminadas. Diante deles, nas mesinhas quadradas ou

redondas, os copos com líquidos vermelhos, amarelos, verdes,

castanhos, de todos os tons, e no interior das garrafas de

água os grandes cilindros transparentes de gelo que

refrescavam o belo líquido claro.

Duroy afrouxara o passo e a sede secava-Lhe a garganta. Era

uma sede ardente, sede de noite de Verão, e pensava na

sensação deliciosa duma bebida fresca a correr-lhe na boca. Se

bebesse, porém, duas canecas de cerveja naquela noite, adeus à

magra refeição do dia seguinte. Conhecia demasiado essas horas

de fome do fim do mês.

Disse para si: "Se esperar até às dez horas, tomarei a minha

cerveja no Americano. Com os diabos! Que sede tenho, apesar de

tudo!" Olhava para todos aqueles homens sentados a beber,

todas aquelas pessoas que podiam matar a sede quando lhes

apetecia. Passava em frente dos cafés, com um ar provocador de

valentão, e queria ajuizar, num relance de olhos, pelo

aspecto, pelo vestuário, o dinheiro que cada consumidor tinha

consigo.


Invadia-o uma grande cólera contra aquela gente sentada e

tranquila. Se lhes vasculhassem as algibeiras, encontrariam

oiro, moedas brancas e soldos. Em média, cada um devia ter

pelo menos dois luíses(2) - estava bem uma centena de pessoas

no café, cem vezes dois luíses fazem quatro mil francos! Jorge

resmungava: "Grandes porcos!", enquanto flanava com ar

despreocupado. Se pudesse apanhar um deles ao canto de uma

rua, numa sombra bastante escura, torcer-Lhe-ia o pescoço,

palavra, sem escrúpulos, como fazia às galinhas dos camponeses

quando andava em manobras. Lembrava-se dos seus dois anos de

África, da maneira como explorava os árabes, nos pequenos

postos do Sul. Um sorriso cruel e alegre passou-lhe pelos

lábios, ao lembrar-se de uma surtida que custara a vida a três

homens da tribo dos Uled Alane,

*1. A Igreja da Madalena, no começo dos grandes bulevares de

Paris.


2. Moeda de oiro de vinte francos, também chamada napoleão,

equivalente, então, a 4000 rs. (N. do T)

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e que lhes valeu, a ele e aos seus camaradas, vinte galinhas,



dois carneiros e oiro, além de assunto para seis meses de

risota. Nunca foram descobertos os culpados, que, aliás,

ninguém tentou procurar, visto o árabe ser um tanto

considerado como presa natural do militar.

Em Paris, era outra coisa. Não era possível fazer

requisições galhardamente, de sabre à cinta e revólver em

punho, em plena liberdade, longe da justiça civil. Sentia, no

fundo, todos os instintos do tarimbeiro à solta em terreno

conquistado. Não havia dúvida de que tinha saudades daqueles

seus dois anos de deserto. Que pena não ter ficado lá! O diabo

fora ter esperado conseguir coisa melhor ao voltar. Agora!...

Ah! Sim, agora, torcia a orelha. Jorge dava voltas com a

língua na boca, aos estalidos, como para se certificar da

secura da sua garganta.

A multidão deslizava a seu lado, extenuada e lenta, e Jorge

continuava a pensar: "Cambada de brutos! Todos estes imbecis

estão cheios de dinheiro!" Dava encontrões e assobiava

modinhas alegres. Os cavalheiros empurrados voltavam-se a

resmungar, as mulheres proferiam: "Olhem que animal!"

Passou em frente do Vaudeville e parou diante do Café

Americano, a dizer a si próprio se não iria tomar a sua

cerveja, tanto se sentia torturado pela sede. Antes de se

decidir, olhou para os relógios luminosos no meio da rua. Eram

nove horas e um quarto. Conhecia-se bem: desde que tivesse a

caneca de cerveja na sua frente, emborcá-la-ia. Que faria

depois até às onze horas? Passou adiante: "Irei até à

Madalena", disse para si, "e voltarei devagarinho."

Ao chegar à esquina da Praça da Ópera cruzou-se com um rapaz

nutrido que lhe deu a vaga impressão de já ter visto aquela

cara algures. Pôs-se a segui-lo, enquanto revolvia as suas

recordações, repetindo a meia voz: "Onde diabo vi eu este

sujeito?"

Vasculhava a memória sem conseguir recordar-se; subitamente,

por um estranho fenómeno, viu a mesma pessoa mais magra, mais

nova e com o uniforme de hussardo. Exclamou, muito alto:

"Olha, o Forestier!", e, alargando o passo, foi bater no ombro

do passeante. O outro voltou-se, olhou para ele e disse:

- Que é que o senhor me quer?

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Duroy pôs-se a rir:



- Não me reconheces?

- Não.


- Jorge Duroy, do sexto de hussardos.

Forestier estendeu-lhe os braços:

- Ah! Meu velho! Como vais tu?

- Muito bem, e tu?

- Oh! Não vou lá muito bem, imagina que tenho agora o peito

arrombado, tusso seis meses em cada doze, em consequência de

uma bronquite que apanhei em Bougival, no ano do meu regresso

a Paris, já lá vão quatro anos.

- É boa! Tens, no entanto, um aspecto sólido.

Forestier meteu o braço no do seu antigo camarada, falou-lhe

da sua doença, contou-lhe as consultas, as opiniões e

conselhos dos médicos, a dificuldade de seguir os seus

pareceres na sua situação. Ordenavam-Lhe que fosse passar o

Inverno para o Sul, mas podia lá fazê-lo. Estava casado e era

jornalista com uma bela posição.

- Dirijo a secção política na Vie Française, faço o Senado

para o Salut, e, de tempos a tempos, crónicas literárias para

Planète. Aqui tens, faz-se pela vida.

Duroy, surpreendido, olhava para ele. Estava bastante

mudado, mais amadurecido. Tinha um aspecto, atitude e

vestuário, de homem bem instalado, senhor de si, e um ventre

de pessoa que janta bem. Antigamente, era magro, fino,

flexível, estroina, estoira-vergas, zaragateiro e sempre

bem-disposto. Em três anos, Paris fizera dele outro, mais

gordo e sério, com alguns cabelos brancos nas fontes, embora

não tivesse muito mais de vinte e sete anos.

Forestier perguntou:

- Para onde vais?

Duroy respondeu:

- Para parte nenhuma, dou uma volta antes de ir para casa.

- Olha lá: queres vir comigo à Vie Française, onde tenho

umas provas para corrigir, depois, iremos beber uma cerveja?

- Acompanho-te.

Puseram-se a caminho, de braço dado, com aquela

familiaridade fácil que se mantém entre companheiros de escola

ou camaradas de regimento.

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- Que fazes em Paris? - perguntou Forestier.



Duroy encolheu os ombros:

- Rebento de fome, muito simplesmente. Mal acabei o meu

tempo quis vir aqui para... fazer fortuna ou antes para viver

em Paris, ora, há seis meses que estou empregado nos

escritórios do Caminho-de-Ferro do Norte, com mil e quinhentos

francos por ano, nada mais.

Forestier murmurou:

- Apre! Não é nenhuma ucharia.

- Também me parece. Como queres que arranje coisa melhor?

Estou sozinho, não conheço ninguém. Não me falta boa vontade,

faltam-me os meios.

O seu camarada olhou-o de alto a baixo, como homem prático

que avalia um sujeito, e depois proferiu, com ar convicto:

- Vês, meu velho, tudo aqui depende da linha. Um homem, que

seja um bocado esperto, torna-se mais depressa ministro do que

chefe de repartição. É preciso uma pessoa impor-se e não

pedir. Como diabo não encontraste coisa melhor do que um lugar

de empregado do Caminho-de-Ferro do Norte?

Duroy replicou:

- Procurei por toda a parte, mas não encontrei nada. Tenho

uma coisa em vista, neste momento: prometeram-me um lugar de

picador na Escola de Equitação Pallerein. Lá, terei, pelo

menos, três mil francos.

Forestier cortou-lhe a palavra:

- Não faças isso, é estúpido, quando poderias ganhar dez mil

francos. Estás a estragar o teu futuro. Na tua repartição,

pelo menos, estás escondido, ninguém te conhece, podes sair de

lá, se tiveres sorte, e fazer carreira. Uma vez picador,

acabou-se. É como se fosses mordomo numa casa onde toda a

Paris vai jantar. Depois de teres dado lições de equitação às

pessoas da sociedade ou aos seus filhos, não poderão

acostumar-se a considerar-te seu igual.

Calou-se, reflectiu alguns segundos, e depois perguntou:

- Tens o curso do liceu?

- Não. Fiquei reprovado duas vezes.

- Isso não tem importância, desde o momento que frequentaste

as aulas até ao fim. Se te falarem de Cícero ou de Tibério,

sabes, pouco mais ou menos, de quem se trata?

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- Sim, pouco mais ou menos.



- Bem, ninguém sabe mais do que isso, com excepção de uma

vintena de imbecis que não têm jeito para mais nada. Não é

muito difícil passar por esperto, acredita, o principal é não

se deixar apanhar em flagrante delito de ignorância.

Manobramos, esquivamo-nos à dificuldade, contornamos o

obstáculo e batemos os outros por meio de um dicionário. Todos

os homens são estúpidos como galinhas e ignorantes como

carpas.


Forestier falava como um sujeito tranquilo, que conhece a

vida, e sorria enquanto a multidão desfilava. Subitamente,

pôs-se a tossir, e, passado o ataque de tosse, disse num tom

desanimado:

- Não é aborrecido uma pessoa não se poder ver livre desta

bronquite? E estamos em pleno Verão. Oh! Este Inverno, irei

tratar-me para Menton. Suceda o que suceder, a saúde acima de

tudo.


Chegaram ao Bulevar Poissonière, em frente de uma grande

porta envidraçada, detrás da qual um jornal aberto estava

colado dos dois lados. Três pessoas estavam paradas a lê-lo.

Por cima da porta estendia-se, como um apelo, em grandes

letras de fogo desenhadas pelas chamas do gás: La Vie

Française. Os transeuntes, ao entrarem bruscamente na

claridade que lançavam essas três palavras luminosas,

apareciam de súbito em plena luz, visíveis, claros e nítidos

como em pleno dia, e depois entravam imediatamente na sombra.

Forestier empurrou a porta.

- Entra! - disse.

Duroy entrou, subiu uma escadaria, luxuosa e suja, que se

via da rua, chegou a uma antecâmara, onde dois contínuos

cumprimentaram o seu camarada. Depois, parou numa espécie de

sala de espera, poeirenta e mal arrumada, atapetada com uma

espécie de veludo verde desbotado, crivado de nódoas e,

nalguns pontos, como se tivesse sido roído pelos ratos.

- Senta-te - disse-lhe Forestier. - Volto dentro de cinco

minutos.

Desapareceu por uma das três portas que davam para esse

gabinete. Um cheiro estranho, especial, inexprimível, o cheiro

das salas de redacção, flutuava no local.

14 15

Duroy mantinha-se imóvel, um tanto intimidado, sobretudo



surpreendido. De tempos a tempos, passavam homens na sua

frente, a correr. Entravam por uma porta e saíam pela outra,

antes de ter tempo de olhar para eles.

Eram, ora rapazes, muito novos, com ar apressado, que

levavam na mão uma folha de papel que se agitava com o ar

deslocado pela corrida, ora tipógrafos, com a blusa manchada

de tinta, que deixava ver um colarinho muito branco e umas

calças de fazenda iguais às das pessoas da sociedade, e

levavam, com precaução, tiras de papel impresso, as provas

frescas, ainda húmidas.

Algumas vezes, entrava um homenzinho, vestido com elegância

demasiado aparente, a cintura apertada na sobrecasaca, a perna

muito cingida pela calça, o pé comprimido num sapato

pontiagudo, algum repórter mundano que levava os ecos de

qualquer recepção. Chegaram ainda outros, graves, importantes,

de chapéu alto de borda direita, como se essa forma os

distinguisse do resto dos homens.

Forestier voltou, trazendo pelo braço um homem alto, magro,

duns trinta a quarenta anos, de casaca e gravata branca, muito

moreno, o bigode frisado com as pontas muito finas e que tinha

um ar insolente e satisfeito de si próprio.

- Adeus.


- Até à vista, meu caro - replícou o outro, apertando-Lhe a

mão e descendo a escada a assobiar, com a bengala debaixo do

braço.

- Quem é? - perguntou Duroy.



- É Jaime Rival, sabes, o famoso cronista, o duelista. Veio

rever as suas provas. Garin, Montel e ele são os três

primeiros cronistas, com espírito e sentido de actualidade,

que temos em Paris. Ganha aqui trinta mil francos por ano para

escrever dois artigos por semana.

Ao saírem, encontraram um homenzinho de grande cabeleira, de

aspecto pouco limpo, que subia os degraus a resfolegar.

Forestier fez-lhe um grande cumprimento.

- É Norberto de Varenne - disse -, o poeta, autor de Soleils

morts, outro homem de grande cotação. Cada conto que nos dá

custa trezentos francos, e os maiores não têm mais de duzentas

linhas. Vamos ao Napolitano, pois estou a morrer de sede.

Quando se sentaram à mesa do café, Forestier gritou:

"Duas canecas!" Engoliu a sua de um trago, enquanto Duroy

bebia a cerveja a golos lentos, saboreando-a como uma coisa

preciosa e rara. O seu companheiro, calado, parecia reflectir.

Depois, disse subitamente:

- Por que não hás-de tentar o jornalismo?

O outro olhou para ele, surpreendido, a seguir replicou:

- Mas... é que... nunca escrevi nada.

- Ora! Tenta-se. Para começar, poderias treinar-te a ir

procurar-me informações, fazer diligências e visitas. Terias,

de começo, duzentos e cinquenta francos e as despesas de carro

pagas. Queres que fale ao director?

- Evidentemente que quero.

- Então, façamos uma coisa: vem jantar a minha casa amanhã.

Tenho somente cinco ou seis pessoas de fora: o patrão, o

senhor Walter, sua mulher, Jaime Rival e Norberto de Varenne,

que viste há pouco, e ainda uma amiga de minha mulher. Está

combinado.

Duroy hesitava, corando, perplexo. Murmurou, por fim:

- É que... não tenho fato conveniente.

Forestier ficou estupefacto:

- Não tens casaca? Apre! É, porém, uma coisa indispensável.

Num repente, Forestier meteu a mão no bolso do colete, tirou

de lá um punhado de moedas de ouro, pegou em dois luíses,

pô-los em frente do seu antigo camarada e disse-lhe num tom

cordial e familiar:

- Pagar-me-ás quando puderes. Aluga ou compra a prestações

mensais, dando alguma coisa por conta, a roupa de que

precisas: enfim, arranja-te como quiseres, mas vai jantar lá a

casa, amanhã, às sete e meia, é no dezassete da Rua Fontaine.

Duroy, perturbado, pegou no dinheiro, balbuciando:

- És muito amável, fico-te muito obrigado, tem a certeza de

que não esquecerei...

- Vamos, está bem! - interrompeu-o o outro. - Outra caneca,

não? - e gritou: - Rapaz, duas cervejas!

Após terem bebido, o jornalista perguntou:

- Queres deambular um bocado, durante uma hora?

- Com todo o gosto.

Puseram-se de novo a caminho da Madalena.

16

- Que vamos fazer? - perguntou Forestier. - Pretendem que em



Paris um passeante tem sempre em que se ocupar: isso não é

verdade. Eu, quando quero passear à noite, nunca sei para onde

hei-de ir. Uma volta pelo Bosque só é interessante com uma

mulher, e nem sempre temos uma à mão, os cafés-concerto podem

distrair o meu farmacêutico e sua esposa, mas a mim não.

Então, que fazer? Nada. Devia haver aqui um jardim de Verão,

como o Parque Monceau, aberto à noite, onde ouviríamos boa

música, a beber coisas frescas debaixo das árvores. Não seria

um lugar de divertimento, mas um sítio para larear, e

pagar-se-ia cara a entrada, a fim de atrair as mulheres

bonitas. Podíamos andar pelas alamedas bem ensaibradas,

iluminadas a luz eléctrica, e sentarmo-nos quando quiséssemos

para ouvir a música de perto ou de longe. Tivemos isso, pouco

mais ou menos, outrora, no Musard, com ressaibos de hortas e

muita música de dança, mas numa pequena extensão, sem bastante

sombra, sem bastante penumbra. Era preciso um bonito jardim,

muito grande. Seria encantador. Para onde queres ir?

Duroy, perplexo, não sabia que havia de dizer, por fim

decidiu-se:

- Não conheço as Folies-Bergère. Daria de boa vontade uma

volta por lá.

O seu companheiro exclamou:

- As Folies-Bergère?! Apre! Assaríamos lá como num forno.

Enfim, seja, é sempre divertido.

Deram meia volta para se dirigirem à Rua

Faubourg-Montmartre.

A fachada iluminada do estabelecimento lançava um grande

clarão para as quatro ruas que se encontravam em frente dela.

Uma fila de fiacres(1) esperava à saída.

Forestier entrou, Duroy deteve-o:

- Esquecemos de passar pela bilheteira.

- Comigo não se paga - respondeu o outro num tom importante.

Quando se aproximou da recepção, os três empregados

cumprimentaram-no. O do meio estendeu-lhe a mão. O jornalista

perguntou:

*1. Fiacre era a vitória, ou o cupé, semelhante às antigas

tipóias, que se chamava assim por a sua principal cocheira ser

na Rua de Saint-Fiacre. (N. do T.)

17

- Tem um bom camarote?



- Evidentemente, senhor Forestier.

Pegou no cartão que lhe deram, empurrou a porta estofada,

com os batentes revestidos de couro, e entraram na sala.

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