Guerra a Guerra



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Guerra a Guerra”: movimento operário brasileiro no início do século XX
Resumo
O artigo tem por objetivo trazer ao debate a circulação de ideias e o internacionalismo no interior do movimento operário brasileiro no contexto da Primeira Grande Guerra, em que anarquistas, sindicalistas e socialistas deixaram de lado suas bandeiras partidárias e levantaram em unanimidade a da paz com um grito de abaixo a guerra.

Palavras-Chave: Anarquismo; Movimento Operário; Imprensa; Internacionalismo Operário.


"War to War": Brazilian labor movement in the early twentieth century
Abstract
The article aims to bring to debate the circulation of ideas and the internationalism within the Brazilian labor movement in the context of the First World War, in which anarchists, trade unionists and socialists put aside their party flags and raised in the unanimity of the peace with a crying down the war.

Keywords: Anarchism; Labor Movement; Press; Internationalism Worker.

"Guerra a la guerra": movimiento obrero brasileño a principios del siglo XX
Resúmen
El artículo tiene como objetivo llevar a debate la circulación de ideas y el internacionalismo en el movimiento obrero brasileño en el contexto de la Primera Guerra Mundial, en la que los anarquistas, sindicalistas y socialistas dejaron de lado sus banderas partidarias y se criaron en la unanimidad de la paz con un llanto por la guerra.

Palabras clave: El Anarquismo; Movimiento obrero; Prensa; Internacionalismo Trabajador.

Introdução
Com a deflagração europeia em 1914 a classe operária se viu diante de um novo inimigo a combater. O conflito acabou por colocar em diferentes trincheiras companheiros de luta que vinham lado a lado reivindicando melhores condições de vida e trabalho para a classe trabalhadora. No plano ideológico a guerra também acentua as divergências entre os militantes mais revolucionários colocando em trincheiras opostas militantes que obtaram por uma postura neutra em relação à guerra e de outro os intervencionistas, ambos fundamentavam suas posições no próprio plano de ideias libertárias.

No Brasil as poucas notícias que chegavam da Europa davam conta da situação enfrentada pela classe trabalhadora dos países em conflito, que agora se agrava com a guerra. Apesar do controle dos meios de comunicação a classe operária brasileira teve acesso a informações vindas da Europa sobre a luta contra a guerra.

O internacionalismo operário não perdeu sua força durante o conflito, pois, em agosto de 1914 a imprensa operária brasileira levava ao operariado nacional importantes informações sobre o associativismo europeu e suas posições diante da guerra. Segundo o editorial A Voz do Trabalhador, então órgão da Confederação Operária Brasileira (COB), os sindicalistas belgas reunidos em congresso em Bruxelas no dia 26 de julho daquele ano, votaram uma moção contra a guerra, com as seguintes conclusões:

“O congresso, afirmando a irredutível oposição do proletariado contra a guerra, lança o grito de alarme e convida a Internacional Operária a servir-se de tosos os meios para impedir esse crime contra a humanidade, e solidariza-se, desde já, com os trabalhadores dos outros países.” (A Voz do Trabalhador 20/08/1914, p. 1).


O grito unanime e internacional da classe trabalhadora de “abaixo a guerra” também ganha voz e eco em Portugal, pois em conformidade com a atitude dos sindicalistas belgas os “revolucionários portugueses” também se manifestam contra o conflito e em 29 de julho do mesmo ano é votada em assembleia em Lisboa a seguinte orientação:

Os sindicalistas revolucionários, os anarquistas e os sindicalistas reunidos na sede da comissão paroquial socialista da Encarnação, surpreendidos pela declaração de guerra da Áustria á Servia, pondo em risco a paz da Europa, e tendo conhecimento de terem sido fuzilados na Áustria dois dirigentes das manifestações contra a guerra, o que prova o instinto feroz da burguesia, rejeitando a intervenção do operariado para manter a paz, é do parecer que anarquistas, socialistas e sindicalistas devem dar tréguas às questões que os dividem, unindo-se todos através das fronteiras para impedir que os povos se assassinem á ordem de seus exploradores. (A Voz do Trabalhador 20/08/1914, p. 1).


Os dirigentes brasileiros da mesma forma se colocam contra a “calamidade universal”, pois, “na presente emergência que faz sobrenadar em sangue a Europa quase inteira” os militantes confederados da COB representando a unidade operária nacional declaram-se solidário com os sacrificados trabalhadores europeus “nesta faze dolorosa para a história rubra do proletariado”. (A Voz do Trabalhador, 5/08/1914, p.1).

Ainda na segunda edição do mês de agosto o proletariado brasileiro reforça o “grito unanime” da classe trabalhadora internacional do “abaixo a guerra”. Reunidos no dia 10 de agosto do mesmo ano, a Federação Operária do Rio de Janeiro aprovou por unanimidade o seguinte parecer:

“(...) Considerando que a miséria mais espantosa, a fome já consome e dizima as nossas vidas, assim como metralha a vida dos nossos irmãos nos matadouros europeus; e considerando que os protestos dos trabalhadores de todo o mundo deve levantar-se imediatamente contra tais atrocidades, cometidas em pleno século XX; a Federação Operária do Rio de Janeiro resolveu convocar esta reunião de protesto, afim de deliberar, de acordo com as necessidades, sobre as medidas a serem tomadas ante os bárbaros acontecimentos atuais e mais uma vez, estreitar os laços de solidariedade que nos unem aos trabalhadores de todos os países, confraternizando com eles na grandiosa internacional.” (A Voz do Trabalhador, 20/08/1914, p. 1).

A questão da solidariedade operária é evidente nas três resoluções (no Brasil e na Europa), não se discute doutrina filosófica ou concepção política-ideológica dos trabalhadores no contexto da guerra, pois, as divergências de ideias e de plano de ação ficam de lado deixando espaço para a solidariedade daqueles que se unem pela situação econômica, moral e social e não no campo político. Ou seja, a condição de trabalhador e de explorado é que passa a ser enfatizado pelos dirigentes do operariado e não a defesa de princípios e ideias seja elas anarquistas, sindicalistas ou socialistas, que em muitos casos tornam-se fator de divergência e separação entre os indivíduos, mas sim a necessidade de unirem a voz em um único grito de “abaixo a guerra”.

Com a ideia de unificar o operariado brasileiro a comissão dirigente da C.O.B. em reunião no dia 17 de agosto decidiu convocar “todas as associações operárias do Brasil” (as confederas e as não confederadas) para um comício de protesto contra a “carnificina europeia” e em solidariedade aos trabalhadores europeus. Com a intenção de reunir um grande número de trabalhadores os dirigentes da confederação brasileira apelam para a máxima da Internacional “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”. (A Voz do Trabalhador, 05/09/1914, p. 1).

O jornal órgão oficial da C.O.B., que seguiu uma linha editorial fundada nos princípios do sindicalismo revolucionário, se manifestou energicamente contra o conflito. Entre os colaboradores do periódico se encontravam importantes militantes anarquistas, que apesar de representar uma minoria no interior da confederação, deram voz a tendência antimilitarista e, portanto antiguerrista no movimento operário brasileiro.

Em 13 de setembro de 1914 “diversas organizações operárias, atendendo ao apelo da Confederação Operária Brasileira, realizaram em suas sedes” comício e sessões de protesto contra “a atual conflagração europeia e de solidariedade com o operariado de todos os países em luta”. (A Voz do Trabalhador, 1º/10/1914, p.1).

Nitidamente apoiado nos princípios anarquistas e sindicalista revolucionário do antimilitarismo o evento ganha repercussão nacional e em diversas cidades do Brasil se encontram atos de manifestação contra a guerra. Porém, em diversas cidades como “Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Santos” o proletariado não conseguiu ganhar as ruas, pois “a policia, zelosa no apoio aos opressores das classes trabalhadoras, não permitiu a efetuação das manifestações operárias nem mesmo na sede de suas associações”. As manifestações intituladas “guerra a guerra” não eram vista pela classe dominante brasileira como mero apoio aos trabalhadores nas trincheiras, mas uma ameaça à ordem do país. (A Voz do Trabalhador, 1º/10/1914, p.1).

Em Portugal diante da ameaça da unidade nacional, ainda em 1912, o antimilitarismo foi considerado antipatriótico pelos governantes, e os defensores da ideia eram duramente perseguidos. Em julho do mesmo ano foi aprovada uma lei que reforçava a repressão contra os perturbadores da ordem, conhecida como “Lei de propaganda tendenciosa ou subversiva”. (DIAS, 2011, p. 79).

No Brasil os militantes mais revolucionários são responsáveis por conscientizar a classe trabalhadora e pelo caráter antimilitarista que é levado aos sindicatos e associações operárias. Temas de reivindicações como a redução da jornada de trabalho, melhores condições de vida e trabalho, no contexto da guerra, ganham reforço com a degradação progressiva da classe trabalhadora. A luta contra carestia do pão e do emprego, causados pelo conflito, são elementos presentes no repertório das manifestações no Brasil em parte motivadas pela presença anarquista no movimento operário nacional.

Por outro lado, em âmbito internacional “o operariado não correspondia à esperança revolucionária dos seus dirigentes”, pois, a greve geral organizada pela CGT francesa (então responsável pela liderança do movimento internacional contra a ameaça de uma deflagração europeia) não teve “adesão esperada”. (DIAS, 2011, p. 76).

Segundo Joana Dias Pereira em Portugal em 1911 os anarquistas, no Primeiro Congresso Anarquista em terras portuguesas aprovam uma “orientação antimilitarista” que irá predominar no interior do movimento operário português. (DIAS, 77, 2011).

Porém, com o início do conflito o movimento libertário no país se dividiu ideologicamente em duas correntes distintas, de um lado defendendo fortemente a ação intervencionista (contra os impérios centrais e a favor das potências aliadas) influenciada pelo anarquista Pierre Kropotkine. E de outro uma corrente que se posiciona neutralista ao conflito, em que se destaca a figura do militante anarquista Errico Malatesta que se manteve fiel aos princípios anti-belicistas.

Ou seja, a “guerra virá contribuir para o aprofundar das divergências ideológicas no seio do movimento operário” (DIAS, 2011, p. 90). Sobretudo a partir da publicação do Manifesto dos Dezesseis que irá criar divisões e paralisias no interior do movimento libertário. A repercussão da polêmica ganha o território europeu e em Portugal a revista Germinal publica o manifesto gerando debates e polêmicas sobre a intervenção ou não ao conflito. A divergência entre as duas correntes ficou evidente na redação do Manifesto dos Dezesseis1 em que seus assinantes defendiam a necessidade de continuar os esforços da guerra.



No Brasil as questões do antimilitarismo antes mesmo da conflagração europeia esteve presente nos espaços proletários de sociabilidade e divulgação de ideias, a imprensa operária enquanto formadora e conscientização nos primeiros anos do século XX publicou inúmeros textos a respeito da Lei do Sorteio Militar.

Apesar dos esforços da elite brasileira em estabelecer uma lei de alistamento obrigatório para reorganização do exército e militarizar no Brasil a “ferro e fogo” à lei só começou a ser aplicada em 1916 devido à mobilização popular.

O operariado brasileiro em oposição aos princípios burgueses promove um movimento de conscientização da classe popular contra a lei do Sorteio Militar incentivando uma forte resistência popular, que logo será classificado pela classe burguesa como “falta de patriotismo”.

Em 1909 o órgão da Liga Antimilitaria Brasileira, o periódico Não Matarás revela a resistência popular diante da lei, não somente nos centros industriais do país, fazendo com que o governo “por insuficiência de alistamento” não realize o sorteio militar em 1909. Além do número de ausências no alistamento “muitas gente se revoltou contra a lei” fornecendo as juntas militares nomes falso. Ainda segundo o editorial Não Matarás no Estado de Minas Gerais as mulheres formaram uma forte frente de resistência contra lei “e algumas mortes mesmo houve que lamentar”. (Não Matarás, Dezembro de 1908, p.3)

Tendo em vista a necessidade do entendimento por parte do proletariado nacional de se posicionar contra o conflito a Confederação Operária Brasileira, reforça seu caráter antimilitarista ao convocar em 1915 o operariado nacional a reunir-se no Rio de Janeiro no nos dias 14, 15 e 16 de outubro o no Congresso Internacional da Paz que segundo os organizadores “foi um fato acima da expectativa”, o evento ainda segundo os organizadores revelou que o “pendão do internacionalismo continuava sendo empunhado pelo proletariado”. A única guerra reconhecida e aconselhada pelos dirigentes operários é “a guerra dos trabalhadores contra os patrões, dos pobres contra os monopolizadores das riquezas, dos libertários contra o Estado”. (Na Barricada, 21/10/1915, p. 2.)

Nota-se um caráter apartidário da circular intitulada “pela paz”, pois esta é direcionada “aos socialistas, sindicalistas, anarquistas e organizações operarias de todo o mundo” (Circular do Congresso Internacional da Paz, 29/07/1915, p.1). Não somente anarquistas ou socialistas, refletindo as bases de acordo do congresso operário de 1906, que entre outras aconselhava “que a única base sólida de acordo e de ação são os interesses econômicos comuns a toda a classe operária”. (PINHEIRO, Hall, 1979, p. 47).

Ou seja, a autonomia política e ideológica defendida pelos dirigentes da C.O.B. mesmo no contexto da grande guerra continua presente no interior da confederação, e que mesmo com as dificuldades que enfrentou permitiu uma ampla circulação e debates de ideias entre seus associados.

A intenção dos dirigentes brasileiros em organizar o congresso pela paz foi motivada em parte pela pressão exercida pelas nações beligerantes sobre o governo espanhol que naquele ano proibiu o Congresso Internacional da Paz organizada para o dia 30 de abril de 1915 naquele país. Pois, segundo os líderes da C.O.B. o fato revelava que os governos temiam que os proletários do mundo inteiro unissem esforços e se transformassem em um grande inimigo combater. Ainda segundo a circular do congresso brasileiro:

“Basta já de filosofar: vamos aos fatos. Beligerantes e neutrais, sofremos as mesmas consequências do atual estado de coisas, - uns dando a sua vida nos campos de batalha, em holocausto ao deus Capital, os outros, por efeito da crise industrial e comercial, morrendo, por efeito da crise industrial e comercial, morrendo de fome e de miséria (...) ( Circular do Congresso Internacional da Paz. 29/07/1915, p.1)
Na nota podemos ver que a questão sobre a polêmica antimilitarista e neutralistas é conhecida pelo operariado brasileiro, não ficando somente em território europeu, que devido ao internacionalismo das ideias libertárias a polêmica atravessou o Atlântico e foi semeada em terras brasileiras. Porém, novamente as questões sociais e econômicas geradas pelo conflito e que devem ser consideradas pela classe trabalhadora como fator de união e não as concepções políticas e filosóficas. Além, das questões militaristas podemos perceber que as concepções políticas e ideológicas também são deixadas do lado de fora do congresso, pois, a circular enfatiza o caráter autônomo do evento ao convocar “aos socialistas, sindicalistas, anarquistas e organizações operarias de todo o mundo”.

Portanto, não somente nos primeiros anos de atividade da C.O.B. logo após o congresso operário de 1906 onde se optou pelo sindicalismo revolucionário como método de luta, mas também durante a Primeira Guerra Mundial, os dirigentes brasileiros procuraram seguir uma orientação autônoma e neutra em relação a uma declaração de princípios, favorecendo uma ampla circulação e debate de ideias no interior das associações filiadas a confederação.

Desta forma, se por um lado durante o conflito às divergências (políticas, ideológicas, morais) entre os militantes mais revolucionários acentua-se, por outro lado a guerra reforça a solidariedade entre o proletariado mundial. Ou seja, o congresso realizado no Rio de Janeiro em 1915, como revela a circular, acentua o caráter classista, pois não direcionada somente a um grupo específico, mas, a “todos os proletários do mundo, e todos os homem de espírito altruísta e de grandes ideias de redenção humana”, que deveriam se apresentar para a luta. (Circular Congresso Internacional pela Paz. 29/07/1915, p. 1).

Entre os temas discutidos no congresso brasileiro pela paz se deu a discussão sobre os “meios mais eficazes para fazer terminar a guerra europeia”, a partir deste tema a Confederação Operária Brasileira reconhecia que a única luta, que a única trincheira legítima era entre o proletariado e o capital, segundo a comissão organizadora “antes que morrer nas trincheiras, defendendo os interesses da classe capitalista, é preferível morrer nas barricadas, defendendo a vossa emancipação”. Ou seja, para os dirigentes do operariado brasileiro ao terminar a guerra não haveria vencidos e nem vencedores, pois, a classe trabalhadora continuaria “os mesmo escravos do salário”. (Circular do Congresso Internacional da Paz, 29/07/1915, p.2).

O Congresso pela Paz realizado no Brasil reforça ainda caráter internacionalista do movimento operário brasileiro, que não somente devido ao fluxo imigratório do início do século XX, mas, sobretudo pela circulação de ideias e informações entre as associações operárias espalhadas pelo mundo. E por outro lado comprova que a circulação de ideias e de pessoas no contexto do conflito não foi interrompida pela censura e controle do governo. Além da participação das associações brasileiras o congresso pela paz teve adesão, segundo balanço apresentado pela comissão organizadora, do:
“Partido Socialista (Argentina), Federação Obrera Reginal Argentina (F.O.R.A), Agrupacion Infantil Anarquista, Agrupacion Anarquista ‘A prepararde’ (ambas de Buenos Aires), União Anarquista da Regiao do Sul (Lisboa), União das Juventudes Sindicalistas de Portugal, Grupo Educacion Anarquista (Barcelona), Grupo ‘Los hijos de Acracia’ (Morón, Espanha), ‘A Luz’ (folha portuguesa racionalista de New Bedford, Mass, U.S.A)” (Relatório da Comissão Organizadora, 14/10/1915, p.1-2)
A comissão organizadora ao fazer o balanço do congresso pareceu otimista com o posicionamento e atitude do operariado internacional, ainda nas palavras dos organizadores:

“Camaradas! Esta assembleia, reunida, apesar de tudo, em meio do geral descalabro causado pelo monstruoso crime guerreiro. É bem uma prova evidente de que as aspirações e os sentimentos do proletariado revolucionário não se acham mortos nem apagados. Podemos gritar para o mundo: ao velho pendão da Internacional nós o empunhamos, por sobre todas as ruínas, como um sinal de energia vital, de energia invencível. Viva a Internacional!

Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1915.

A Comisão organizadora:

Antonio F. Vieytes

Astrojildo Pereira”

(Relatório da Comissão Organizadora, 14/10/1915, p.3)
Ou seja, o congresso realizado em terras brasileiras foi uma vitória para o apartidarismo defendido pelos dirigentes sindicalistas revolucionário, que além de defender a neutralidade política do sindicato incentiva uma cultura política fundamentada no internacionalismo. Revela, ainda que durante o conflito o associativismo operário não foi prejudicado, pois em pleno conflito os dirigentes encontravam formas de se organizaram e circularem ideias e valores a respeito da situação econômica e social que viam enfrentando, e por outro lado o mostra que o internacionalismo influenciava e contribuía para construção de uma cultura política operária em solo brasileiro.

Considerações finais
Com a deflagração da guerra a necessidade de unidade política e ideológica apregoada pelos dirigentes da Confederação Operária Brasileira parece ecoar no interior do movimento operário nacional. E mesmo com a deflagração do conflito tendo sua condição econômica e social agravada, a classe trabalhadora uniu-se em torno da bandeira pela paz e possibilitou em só grito um caráter de unidade de classe em território brasileiro.

Não somente na Europa como fez referência o órgão da C.O.B a classe popular teve sua condição de vida devastada pelo conflito, ou seja, se na Europa “a guerra, a morte, a miséria, a fome” invadia os lares operários, no Brasil “a crise de trabalho, a miséria, a fome” assolavam o proletariado nacional, que não encontravam outra saída a não ser posicionar-se em solidariedade aos trabalhadores dos países em conflito. (A Voz do Trabalhador, 05/09/1914, p.1).

Diante do regime político predominante na Primeira República brasileira, o sindicalismo revolucionário canalizou o estado de espírito da classe trabalhadora em torno do sindicalismo de caráter autônomo. Anarquistas, socialistas e sindicalistas encontraram na concepção uma oportunidade de colocarem em prática suas ideias de harmonia e libertação contra o Capital, acumulando forças para alcançarem a revolução. Perante a conflagração europeia os militantes sindicalistas brasileiros em sintonia com os dirigentes da CGT francesa conscientizam a classe trabalhadora brasileira sobre a orientação referente à tendência antimilitarista, fortalecendo os laços de solidariedade e identidade operária em nível internacional.

Referências bibliográficas
ARAÚJO, Silva, CARDOSO, Alcina. Jornalismo e militância operária. Curitiba: Ed. da UFPR, 1992
AZEVEDO, Raquel de. A Resistência Anarquista: uma questão de identidade (1927-1937). São Paulo: Arquivo do Estado, Imprensa Oficial, 2002. (Coleções Teses e Monografias, vol. 3).
BATALHA, Cláudio H. M. Formação da classe operária e projetos de identidade coletiva. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de A. Neves (Org.). O tempo do liberalismo excludente. 1 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 161-189, 2003 (O Brasil Republicano, v. 1).
PINHEIRO, Paulo Sergio; HALL, Michael M. A Classe Operária no Brasil, 1889-1930, documentos. São Paulo, Alfa-Ômega, v. 1,1979.
PEREIRA, Dias Joana. Sindicalismo Revolucionário: A História de uma Idéa, Lisboa: CNCCR e Caleidoscópio. 2011.
Referência documental
A Voz do Trabalhador - Rio de Janeiro1908 - 1916

Circular do Congresso Internacional da Paz Confederação Operária Brasileira - Rio de Janeiro - 29 de junho de 1915.



Na Barricada - Rio de Janeiro 1915 - 1916

Não Matarás - Rio de Janeiro 1908

Relatório da Comissão Organizadora do Congresso Internacional da Paz - Rio de Janeiro - 14 de outubro de 1915.




1 O manifesto foi publicado em 14 de abril de 1916 no diário sindicalista francês La Bataille. No mesmo mês no jornal Freedom Errico Malatesta publica suas ideias sobre a questão com o título “Anarquistas partidários do governo”.


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