Gilson amado e o educandário da multidão brasileira



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GILSON AMADO E O EDUCANDÁRIO DA MULTIDÃO BRASILEIRA

Raylane Andreza Dias Navarro Barreto

Universidade Tiradentes

raylanenavarro@bol.com.br

Palavras-chave: Educação à distância. Gilson Amando. TV educativa.

Eixo temático: Impressos, intelectuais e história da educação.

INTRODUÇÃO

Itaporanga d’Ajuda conta hoje com cerca de 28.131 habitantes numa área de 757 quilômetros quadrados. A cidade tem em seu cenário muito verde, mar e o rio vaza-barris, um dos rios da história, já que por ele chegou boa parte dos colonizadores da região. Mas Itaporanga não é apenas uma cidade privilegiada pela natureza ela é, também, berço de alguns dos grandes personagens da história de Sergipe e do Brasil, a exemplo do médico, historiador, político e primeiro Presidente do Estado Felisbelo Firmo de Oliveira Freire, a quem o movimento republicano deve homenagens; Baltazar Góis também líder republicano no Estado, sendo membro da primeira junta para instalação da república no Estado; Arnaldo Rollemberg Garcez, o mais jovem deputado do Estado e que fora o governador que criou a faculdade de Serviço Social, uma das seis que, reunidas, compuseram, em 1967, a Universidade Federal de Sergipe e alguns dos membros da Família Amado a exemplo de Gildásio, Genolino e Gilson Amado, irmãos do escritor, poeta, jornalista, deputado, senador Gilberto Amado (1887-1969), que exerceu, dentre outras funções a de Presidente da Comissão de Direito internacional das Organizações das Nações Unidas – ONU em sua fundação e membro da Academia Brasileira de Letras.

A Itaporanga do começo do século XX, com ainda menos casas e menos habitantes fora o berço da primeira educação dos filhos de Melksedeque e Ana Amado, ou simplesmente, Melk e Donana como eram reconhecidos. A cidade, fora, por certo, um ponto de referência para ao menos 2 dos 141 filhos do casal. Em “Memórias de minha infância” Gilberto relembra as apresentações em Itaporanga:

Assisti também em Itaporanga à passagem de Canário Pardo, rapsodo popular do sertão. Cego como Homero, fazia-se acompanhar por mulheres bonitas, três ou quatro, de cabelos soltos, encarregadas de angariar as contribuições dos ouvintes. Sentado num Toro de pau, reunia gente. No seu canto, acompanhado por um crequeché, fazia o histórico dos incidentes políticos e sociais das localidades. (AMADO, 1954, p. 192)

Em “Um menino sergipano” Genolino deixa claro o antes e o depois de perceber a cidade:

Ir a Rua Grande, às lições da madrinha, me forneceu o primeiro conhecimento de um mundo além do que via o menino preso em casa. E dali eu só via a nossa rua, o pequeno adro da simples capela, mas com o nome de Igrejinha, e a curva que, por ouvir dizer, ia dar na ladeira da costa. Até então a existência deste mundo eu só a pressentia, nas suspeitas iniciais de geógrafo infantil, por certas indicações. (AMADO, 1977, p. 43)

Tais lembranças, somadas a tantas outras que compuseram as memórias dos filhos “Amados” fazem, por certo, de Itaporanga o lugar onde as primeiras descobertas e interrogações se deram, e de onde saiu à plêiade que contribuiu com o destino da educação brasileira. Gilberto Amado, que nascera em Estância, outra cidade sergipana, fora criado em Itaporanga. Foi lá onde ele iniciou seus estudos e de onde saiu para estudar em Aracaju e depois na Faculdade de Direito do Recife, para onde voltava nas férias para rever a família. Na Faculdade, ele, assim como seu conterrâneo Tobias Barreto de Menezes, acabou lecionando tempos depois, mas precisamente em 1911, quando fora nomeado professor da cadeira de Direito Criminal (hoje Direito Penal). De inteligência, cultura e senso crítico notáveis, Gilberto Amado entra na história política e social brasileira como figura atuante e como precursor dos outros “Amados” de Sergipe.

Gildásio, Genolino e Gilson comporiam, tempos depois, dada a diferença de idade com o primogênito, o quarteto Amado que fez história no campo educacional brasileiro. Gildásio Amado, (1906-1976) itaporanguense de nascimento foi professor do Colégio Pedro II, da Faculdade Nacional de Filosofia da ex-Universidade do Brasil e exerceu vários cargos no Ministério da Educação e Cultura, sendo membro e presidente da antiga Comissão Nacional do Livro Didático; diretor da ex-Diretoria do Ensino Secundário, no período de 1956 a 1968; assessor técnico do Departamento de Ensino Fundamental e chefe da Assessoria do Ensino de 1º grau em 1971. Participou também dos grupos de trabalho para a reforma do ensino de 1º e 2º graus, sendo, em 1972, membro da comissão responsável pela definição da política do Ensino Supletivo. É dele a idéia das "classes experimentais" no ensino secundário, da inclusão de matérias técnicas no ginásio acadêmico e do ginásio polivalente, o que para ele contribuiria com a flexibilização do currículo e autonomia escolar, pressupostos incorporados pela Lei de Diretrizes e Base da Educação de 1961.

Genolino Amado (1902-1989) que também nascera em Itaporanga, se destacou no campo jornalístico, na crônica, como ensaísta, teatrólogo e tradutor e na educação, sendo, inclusive, membro da academia brasileira de letras como seu irmão Gilberto.
Iniciou sua educação na província natal e depois em Aracaju no Colégio Salesiano Maria Auxiliadora e fez humanidades no Colégio Carneiro, em Salvador quando se mudara de Sergipe junto com sua família. Aos 17 anos, ingressou na Faculdade de Direito da Bahia, assim como seus ilustres e renomados colegas Hermes Lima, Pedro Calmon, Nestor Duarte e Adalício Nogueira. Completou o curso jurídico no Rio de Janeiro, onde se diplomou em 1924.

Diplomado, segue para São Paulo com o intuito de exercer a advocacia, mas logo foi tomado pelo talento de escrever e por isso compôs, como redator, o quadro de funcionários do Correio Paulistano, onde figurou entre os seus principais redatores, tendo sido indicado por Menotti del Picchia para substituí-lo na crônica diária. Por conta destas, foi convidado para assumir a chefia da Censura Teatral e Cinematográfica de São Paulo, em começo de 1928, cargo perdido com a Revolução de 1930. Ao voltar ao jornalismo inicia carreira no rádio. Tempos depois volta ao Rio de Janeiro onde foi nomeado professor do curso secundário da então Prefeitura do Distrito Federal e onde também atuou na Rádio Mayrink Veiga, nela apresentado além de suas crônicas sobre a “cidade maravilhosa” o programa “Biblioteca no Ar”, ganhador, por duas vezes, do prêmio “melhor programa cultural do rádio brasileiro”. Dentre autoria de livros e traduções ele coroa sua carreira no magistério como um dos mestres que iniciaram o Curso de Jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia e Letras.

Gilson Amado (1908-1979), o mais novo do quarteto “Amado” também nascera em Itaporanga d’Ajuda, de onde saiu aos 03 anos de idade, na companhia dos pais que por motivos políticos tiveram que mudar-se para Aracaju, a capital do Estado. Foi em Aracaju que ele iniciou seus estudos formais e assim como Genolino e outros de seus irmãos foi matriculado no Colégio Salesiano Maria Auxiliadora. Mas, acompanhando a família, terminou seus estudos no Colégio Antonio Vieira. O curso de Direito, entretanto, fez na Faculdade de Direito do Catete na cidade do Rio de Janeiro. De seu currículo o que mais se destaca é sua contribuição com a democratização do ensino através da criação da TV educativa do Brasil.

GILSON AMADO E A TV EDUCATIVA DO BRASIL

Foi no Rio de Janeiro que Gilson Amado constituiu família e começou sua carreira profissional, entrando, na história da educação brasileira, como idealizador e fundador da TV educativa no país, a qual, segundo ele, constituiu-se o “educandário da multidão brasileira”. Foi naquela cidade que ele criou, em 1967, a Fundação Centro Brasileira de TV Educativa – FCBTVE, que embora tenha um período pré-histórico que remete aos idos de 1952 e as figuras de Roquete Pinto e Tude de Souza não pôde, por motivos políticos, ser concretizada. Gilson Amado, entretanto, com experiência na área, pois já havia trabalhado na programação educativa do rádio e da TV Continental, bem como da TV Tupi2, levou a idéia adiante e deu inicio aos trabalhos de educar a distância via televisão. A ideia de Gilson era a de alfabetizar o maior número de pessoas do país.

Vale ressaltar que a essa época o Brasil estava vivendo sob o regime militar e no mesmo ano de 1967 foi eleito indiretamente para assumir a presidência da República no lugar de Castelo Branco o general Arthur da Costa e Silva. Nesse ano também uma nova constituição foi promulgada, o índice de analfabetismo chegou a 32,05% e foi criado, através da Lei 5.370, o Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL que sofrera várias críticas, pois fora instituído como extensão das campanhas de alfabetização de adultos iniciada por Lourenço Filho, mas alguns educadores o consideravam apenas um espaço criado para ensinar a ler, escrever e contar sem, necessariamente, formar o indivíduo e prepará-lo para a vida.   

 Foi nesse mesmo contexto que Gilson Amado conseguiu fundar a FCBTVE. Embora constituída legalmente e com a concessão de se estabelecer como rádio e televisão através da Portaria Interministerial n° 408 em 1970 e do decreto federal n° 72637, em 1973, a TVE do Brasil iniciou seus trabalhos funcionando em circuito fechado em um pequeno apartamento no décimo andar de um edifício comercial na Av. Nossa Senhora de Copacabana na cidade do Rio de Janeiro.

Sobre os primeiros programas veiculados, ressalta Franci Silveira Borges, ex-secretaria de Gilson Amado,

Nem bem surgiu, em 1967, a Fundação já decolava com um projeto de Recuperação do Ensino Primário. No ano seguinte, esse projeto foi revisto e acrescido de mais um curso para professores leigos, idealizado por Manoel Jairo Bezerra. Também nesse mesmo ano, realizou-se o I Seminário Internacional de Televisão Educativa, que contou com a participação de especialistas internacionais da UNESCO e representantes brasileiros. (MILANEZ, 2007b, p. 37)

Como ainda não havia telecentro, a transmissão era feita através de cerca de 30 emissoras comerciais cuja permissão fora concedida no período diurno.

Em 1972 Gilson Amado obteve, da Fundação Konrad Adenauer, da Alemanha, os primeiros equipamentos para o Telecentro próprio da FCBTVE. Montado na Av. Gomes Freire, 474, no Centro da cidade, o Telecentro que contava com a concessão do Canal 2 da antiga TV Excelsior (década de 1960) começou a funcionar no dia 26 de novembro de 1973, mas sendo sua transmissão feita pela TV Rio. Essa transmissão, contudo, fora precedida de vários cursos, seminários, treinamentos e estudos. O Programa veiculado era a novela “João da Silva” uma espécie de “telenovela e curso supletivo de 1° grau, com o ator Nelson Xavier” destinado a jovens e adultos das séries iniciais. A idéia de Gilson era ser o mais didático possível e isso só aconteceria de ele conseguisse despertar a atenção e o interesse dos possíveis alunos. E que forma melhor do que a novela para isso?

Nessa “novela” noções de matemática eram tratadas como sendo usuais e como parte do cotidiano dos personagens que representavam os vários tipos sociais que compunham a sociedade.

Você viu na TV o Sr. Edson dizer que ele precisava construir uma caixa d’água, na forma de um paralelepípedo de 4 m por 3 m, por 2 m, isto é, 4 m de comprimento, 3 m de largura e 2 m de altura. O Sr. Edson mostrou primeiro que na parte inferior ou na base do paralelepípedo poderia construir 4 X 3 quadrados de 1 m de lado. E, a seguir, mostrou que sobre cada um desses quadrados poderia construir tantos cubos de 1 m de aresta quantos fossem os metros de aresta (2

nesse caso). Então, poderia construir 4 X 3 X 2 cubos de 1 m de aresta (...) e o volume da caixa d’água seria 24 m³ ou 24.000 l. O volume de uma caixa d’água que tenha a forma de um paralelepípedo é obtido calculando o produto dos números que indicam as medidas do comprimento, da largura e da altura do paralelepípedo, e acrescentando a unidade de volume – m³ ou dm³ ou cm³ - conforme a unidade de comprimento – m ou dm ou cm – das dimensões do paralelepípedo (KURY, [ca 1973], v.3, p. 36)

Segundo Maciel

O Projeto “João da Silva” foi um marco para a teleducação brasileira e, conseqüentemente, para o ensino da matemática. A tentativa pioneira de educar uma grande massa de cidadãos excluídos do ensino formal, a utilização de uma tecnologia, a serviço da educação, em um formato de dramaturgia, e o prêmio inédito concedido pela televisão Japonesa, fez deste curso supletivo um paradigma para a época. (MACIEL, S/D, P. 6)

Noções da língua portuguesa também eram explicadas, de modo que o aluno que assistisse as aulas em casa ou através dos telepostos3, tirasse suas dúvidas com os monitores, atentasse para o fato de que cada tópico abordado apresentava explicações, exercícios prontos e exercícios a serem resolvidos, além de algumas curiosidades, estava apto a responder as provas que vinham anexadas aos cinco volumes de autoria do professor Manoel Jairo Bezerra e que uma vez respondidas deveriam ser encaminhadas a sede da FCBTVE para correção. Vale ressaltar que a Professora Alfredina de Paiva e Souza também contribuiu com o material didático e a programação da FCBTVE.

Se atentarmos para o fato de que esse sistema de avaliação priorizava o aprendizado em detrimento da forma de avaliação se explica os cerca de 11.000 alunos expectadores. Se ainda avaliarmos a dimensão e a cobertura do projeto de Gilson Amado perceberemos o seu potencial engajador para além do criador. Jean François Sirinelli (2003), em sua definição sociológica e cultural acerca do intelectual, deixa clara a noção de engajamento direto ou indireto na vida da cidade. Ao alocar jornalistas, escritores, professores secundários, sábios, etc, Sirinelli legitima a ação de Gilson como eminentemente intelectual, principalmente se o associarmos a causa que defendia, ou seja, o educandário da multidão brasileira.

Embora os estudos de Sirinelli recaiam sobre o campo de atuação política, visto que o seu objetivo é o desenvolvimento de ferramentas conceituais que possam dar conta de uma nova maneira de pensar e fazer a história dos intelectuais, ao observar o itinerário percorrido por Gilson Amado a fim de criar, implementar e mesmo sua atuação a frente da TVE Brasil é possível entender os “eixos de engajamento” e considerá-lo um intelectual criador e engajador. Vale ressaltar que para Sirinelli (1997), a noção de intelectual é uma questão de qualidade humana, existindo um caráter polimorfo e polifônico, ou seja, de compreensão e de extensão da noção, que podem recair em dois significados do intelectual, uma ampla e sociocultural, englobando os criadores e os mediadores culturais e a outra mais estreita, baseada na noção de engajamento.

Em 1975 a TVE fez uso de seu próprio canal, embora somente em 1977 a emissora fosse utilizada em caráter definitivo e com programação diária de 6 horas. Nesse espaço de tempo entre a criação em 1967 e a sua independência física em 1977 muitos foram os programas veiculados pela FCBTVE tendo a voz de Dulce Monteiro como apresentadora. Além do projeto de “Recuperação do Ensino Primário”, do “curso para professores leigos”, idealizado por Manoel Jairo Bezerra e da telenovela “João da Silva”, destacaram-se os programas: "É Preciso Cantar" e "Pequena Antologia da MPB", apresentado por Grande Otelo com o objetivo de preservar a memória nacional; Pluft, o Fantasminha" (1975) e "Sítio do Pica-Pau Amarelo" (1977) espécies de teletramaturgia infantil que foram financiados pela TV Globo e produzidos pela TVE e a série "Patati-Patatá", premiada no Japão como melhor programa de conteúdo pedagógico do mundo em 1981.

Além desses ressaltaram-se “Vamos gostar de matemática”, “As aventuras do Tio Maneco”, “Plim-Plim o Mágico do Papel”; “Janela da Fantasia”, “A Turma do Lambe-Lambe”; “Canta Conto”, “e “I Love You” onde se ensinava inglês através de músicas. Some-se a esse o programa “Sem Censura” um programa de entrevistas e debates iniciado por Lucia Leme e que perdura até hoje a cargo da jornalista Leda Nagle.

Em 1979 dois acontecimentos marcaram a história da Educação à Distância no Brasil: A TVE passa a coordenar uma rede de emissoras educativas denominada Sistema Nacional de Televisão Educativa – SINTED contando, como afiliadas com a Televisão Educativa do Amazonas, a Televisão Educativa do Ceará, a Televisão Educativa do Maranhão, a Televisão Educativa do Espírito Santo, a Televisão Educativa do Rio Grande do Sul, a Televisão Universitária de Pernambuco, a Televisão Universitária de Natal, a Televisão Nacional de Brasília, a Televisão Rondônia, a Televisão Acre, a Televisão Roraima, a Televisão Amapá e a Televisão Amazonas, além de distribuir programas educativos para mais 56 emissoras brasileiras, como a TV Globo (MACIEL, 2009) e nesse mesmo ano, em 7 de dezembro, morre o intelectual criador Gilson Amado deixando uma multidão brasileira carente de sua figura e de seu engajamento.

A partir de então uma série de mudanças administrativas ecoam no desempenho da modalidade educacional. Em 1998 a TVE Brasil deixou de ser administrada por uma fundação e passou para a condição de Organização Social com o nome de Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto. Embora esse novo formato facilitasse a contratação de pessoal, visto não precisar de concurso público e de se isentar de licitações na compra de materiais, no ano de 2007 a TVE deixa de existir ficando em seu lugar a TV Brasil, administrada pela recém-criada Empresa Brasil de Comunicação - EBC.

Nesse ínterim algumas iniciativas devem ser destacas. Dentre elas o nome da FCBTVE que passou a chamar-se, em 1981, FCBTVE Gilson Amado. Nesse mesmo ano a Fundação passou a englobar 4 centros de comunicação: TV, Rádio, Informática e Multimeios no que se constituiu a Funtevê; foi criado o programa "Intervalo", em 1988, que reapresentava antigos comerciais de TV e foi implantado o programa "Um Salto para o Futuro", na década de 1990, que divulgou programas de educação à distância, visando a capacitação de professores do ensino básico.

Dos fatos que sucedem a TVE Brasil, talvez o mais importante seja a criação, em 1996, da TV Escola. Esta como programa da Secretaria de Educação a Distância, do Ministério da Educação, e com objetivo, ao contrário do que propunha Gilson Amado, de direcionar a capacitação e valorização de professores de Ensino Fundamental e Ensino Médio da rede pública, transmitindo quatro horas diárias de programação o que inclui material (cadernos, vídeo, guia e pesquisas) para planejamento pedagógico e uso dos programas em sala de aula. Embora a proposta educativa estivesse presente, o público era outro.

Por fim, em 1998, a fundação tornou-se Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto (ACERP), passando a captar patrocínio para financiar parte de sua programação. O que lhe retira o caráter público, ficando a mercê de patrocinadores.

De certo os programas educativos em sua origem e com métodos próprios fizeram da TV Educativa um educandário, uma escola, uma universidade popular precursora do que hoje é a Educação a Distância no Brasil. Esta com métodos próprios, ferramentas diversificadas, ambientes virtuais de aprendizagem, teleaulas, fóruns, podcasts, livros didáticos com uma linguagem compreensível e principalmente acessível a uma multidão brasileira a margem do sistema educacional tradicional. Por certo, essa modalidade deve aos intelectuais Roquette Pinto, Tude de Souza, Albertina Paiva, Manoel Jairo Bezerra e principalmente ao itaporanguense Gilson Amado sua história bem sucedida.

Ao levar em consideração que

A história de uma instituição educativa inicia-se pela reinterpretação

dos historiais anteriores, das memórias e do arquivo, como fundamento de uma identidade histórica. Esta identidade implica ainda, para alem da internalidade, a inscrição num quadro sociocultural e educacional mais amplo, constituído pela rede de instituições congêneres e pelo sistema educativo. (MAGALHAES, 2004, p. 147).

Se atentarmos para a trajetória da instituição educativa TVE perceberemos o quão atrelada ela foi ao itinerário de seu criador, o professor Gilson Amado. Ao reinterpretar as histórias e memórias e perceber os acertos e mesmo as falhas deixadas ao longo do seu processo de implementação culminando em seu encerramento e na sua substituição, perceberemos, também que ela consta no quadro das instituições educativas bem sucedidas da nação. Mérito do seu intelectual criador e dos atores sociais envolvidos.


1 São eles: Gilberto, Iaiá, Gileno, Petina, Gentil, Gildo, Maria Zulmira (Mimi), Genoline (falecida antes dos 7 anos), Giuseppe (Pepino), Genolino, Gildásio, Gilson, Gennyson, Genne e Gilete.

2 Gilson Amado havia trabalhado na TV Tupi no Curso de Preparação para Exames de Madureza pela TV.

3 O projeto era organizada de duas formas: nos chamados Telepostos (os telespectadores assistiam o Curso no próprio Teleposto e recebiam orientação de monitores) e semipresencial, com a recepção das aulas em domicílio e assistência aos alunos-telespectadores em núcleos de atendimento, denominados Centros Controladores. Havia ainda a recepção em domicílio sem qualquer vínculo com os Telepostos ou Centros Controladores. (MACIEL, s/d, p. 4)

REFERÊNCIAS


AMADO, Genolino. Um menino sergipano. Memórias. Rio de Janeiro: civilização brasileira; Brasília: INEP, 1977.

AMADO, Gilberto. História da minha infância. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1954.

ALEX. Carta aberta a Gilson Amado. Jornal do Comércio. 13 de fev de 1964.

DICIONÁRIO DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS, Tomo I, Vol. I, Ano: 1999.

FAMILIA AMADO, genealogia. Disponível em: http://famlia-amado-genealogia.blogspot.com/2009/01/gilson-amado.html . Acesso em:20 dez. 2010.

FAVERO, Maria de Lourdes Albuquerque. BRITTO, Jader Medeiros (ORG). Dicionário de educadores no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/MEC- Inep, 1999.

XAVIER, Ricardo. Almanaque da TV - 50 anos de memória e Informação. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2000.

MACIEL. Leandro Silvio Katzer Rezende. Projeto “João da Silva” – pioneirismo em teleducação matemática. Disponível em: http://limc.ufrj.br/htem4/papers/6.pdf. Acesso em: 20 jan. 2011.

MACIEL, Leandro Silvio Katzer Rezende. “A conquista”: uma História da educação à distância pela televisão e o movimento da matemática moderna no Brasil. 2009. 179 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em educação Matemática) – Programa de Pós-Graduação em educação Matemática, Universidade Bandeirantes, São Paulo, 2009.

MAGALHAES, Justino Pereira. Tecendo nexos: historia das instituições educativas. Bragança Paulista/Editora Universitária São Francisco, 2004.

MILANEZ, Liana.TVE: cenas de uma história. Rio de Janeiro: ACERP, 2007.

SARAIVA, Terezinha. Educação a distância no Brasil: lições de história. Em Aberto, Brasília, ano 16, n.70, abr./jun. 1996.

SIRINELLI, Jean Francois. Os intelectuais. In: REMONO, Rene. (Org.). Por uma história política. Tradução Dora Rocha. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Fundação

Getulio Vargas, 1996.

_______. Elites culturais. In: RIOUX, Jean Pierre. (Org.). Por uma história cultural.



Lisboa: Editora Estampa, 1997.



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