Gilberto Freyre e a presença negra na constituição da sociedade brasileira



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Gilberto Freyre e a presença negra
na constituição da sociedade brasileira.

Gilberto Freyre embora seja um culturalista seguindo Franz Boas, aprende a diferenciar o conceito de raça e cultura, mas não consegue se desvencilhar das questões biologicistas de concepção de raças, e através do meio físico, ou seja, de questão geográfica, é que Freyre consegue fazer esta junção entre cultura e raça, e tenta romper com o racismo da literatura da época, consagrando-se por tentar recuperar positivamente a contribuição da cultura negra para a sociedade brasileira.

A questão do “problema racial”, demonstrado por Ricardo Benzaquen de Araújo, em Corpo e Alma do Brasil, com os marinheiros brasileiros no Brooklin vistos por Gilberto Freyre demonstra claramente a visão racista do próprio Freyre e dos intelectuais da época, enfatizada sobre a mistura das etnias e da miscigenação do país.

Existiam autores que achavam que a miscigenação levaria a esterilidade, senão biológica, mas certamente cultural, impossibilitando a sociedade de ascender à civilização. Outra hipótese sobre a miscigenação é a de que serviria positivamente como um mecanismo capaz de garantir a extinção da questão racial e o consequente ingresso na trilha do progresso, envolvida em um processo de “branqueamento”, onde Skidmore entendendo como solução, assegurava que haveria um predomínio dos caracteres brancos sobre os negros, levando a imaginar a extinção da herança negra no Brasil.

Em uma terceira posição, Freyre distingue raça de cultura e valoriza com igualdade as contribuições do negro, do português e em menor escala do índio para a formação da sociedade brasileira. Para Freyre, a miscigenação entre negros, índios e portugueses na sociedade brasileira é visto de uma forma positiva, ou seja, parecia lançar bases definitivas a uma verdadeira identidade coletiva. No entanto enquanto o autor fala de uma contribuição positiva da miscigenação, se afasta do racismo e admite a relevância de outras culturas, é criticado por demonstrar que a mistura deu-se em harmonia, não relatando a exploração, os conflitos, e as discriminações que ocorreram. Ao invés, denomina “democracia racial”, ou seja, a miscigenação dando-se de uma forma harmônica no qual senhores e escravos se confraternizariam embalados num clima de pura intimidade e mútua cooperação.

Um dos fatores apontados pelo autor para explicar a miscigenação é o Estado buscando uma democracia política racial, ou seja, os colonizadores viam na miscigenação uma forma de acelerar o processo populacional, também pelo fato do português ter uma pré-disposição ao hibridismo, além de uma mobilidade hereditária, comprovando a habilidade dos portugueses de se adaptarem nos trópicos.

A questão da mobilidade que levou ao além mar e a miscigenação configurou-se com o nascimento dos mestiços, onde estes filhos de portugueses com as índias e negras, com lealdade fortaleceram a colonização controlando os escravos e os nativos.

No seu trabalho, Freyre, deixa evidenciado que a noção de raça se distribui e dividindo o seu prestígio com o conceito de cultura, alcançou portugueses, mouros, judeus, negros e índios. A idéia de raça não tem força para cancelar o realce que o de cultura vai obter. Para explicar a questão de raça o autor utiliza os termos monogenismo e poligenismo para dar conta das diversas experiências de vida social que se podia constatar.

O monogenismo afirmava a existência de uma única origem para todo o gênero humano, ou seja, mantendo o dogma cristão, mas aqui intervém o argumento étnico de que cada raça teve o seu desenvolvimento diferenciado, uns mais lentos, outros mais rápidos, e não é certo que todas as raças sendo originárias da mesma raiz fossem atingir o patamar dos arianos.

Já o poligenismo defendia a idéia de múltiplos e independentes centros de criação da raça humana, muito inclusive antecedendo o aparecimento de Adão, idéias como de Agassiz condenavam o fracasso do Brasil em virtude de uma ampla acolhida que aqui teve a mestiçagem, as raças possuíam origens diferentes, o seu intercâmbio levaria a esterilidade e a ruína na visão poligenista, a miscigenação é desaconselhável e perigosa. E o monogenismo capaz de postular a disseminação da herança ocidental, tornando intelectualmente possível a fórmula do branqueamento. Nessa hibridização harmônica entre brancos e negros, constitui-se para Freyre em uma nova sociedade e cultura.

A maior dificuldade de Gilberto Freyre é empregar noções tão contraditórias as de raça e cultura, e esta imprecisão tende a aumentar com o aparecimento de outro fator, o clima, que vem a ser compreendido como uma espécie de intermediário entre os conceitos de raça e cultura, relativizando-os tornardo-os compatíveis entre si.

E isto só é possível porque o autor trabalha com a noção neolamarckiana de raça, ou seja, a ilimitada aptidão dos seres humanos para se adaptar às mais diferentes condições ambientais, e a sua capacidade de incorporar, herdar e transmitir as características adquiridas na sua variada, discreta e localizada interação com o meio físico. Essa idéia conseguia garantir consistência, estabilidade e perenidade à cultura, mas essa garantia consistia em um fundo biológico, destoante do pensamento de Franz Boas, a quem Freyre tentou se filiar.

Gilberto Freyre vai estar preocupado em explicar a culturalização colonial no Brasil, quer discutir como a sociedade se constituiu num escravizo patriarcal, enquanto os Estados Unidos teria por definição capitalista tons mais violentos e sombrios.

O autor comenta que foi aqui no Brasil que os portugueses demonstraram a sua aptidão para a agricultura, junto com as condições favoráveis, a estabilidade patriarcal da família, a regularidade do trabalho por meio da escravidão e a união do português com a mulher índia. Formando-se uma sociedade agrária, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio e mais tarde de negros, com a religião católica fazendo parte dessa sociedade, mas não superior aos senhores.

A base da sociedade brasileira da época baseava-se na agricultura exportadora (monocultura), família patriarcal, escravidão com a miscigenação, os batismos nas senzalas. O catolicismo e o cristianismo eram como cimento desta sociedade colonial, onde o critério principal de inclusão social não era a raça e sim a religião.

A mulher negra escolhida para servir sexualmente ao senhor era a que tinha feições mais delicadas e era mais dócil, o autor traz a condição da escrava negra como a destruidora da família senhoril e que foram as mulheres minas e fulas que foram as preferidas para caseiras e mancebas dos brancos. Freyre narra questões de mal tratos, e pervercidades não se dando somente da casa grande para a senzala, mas dentro da própria casa do senhor. Não só de senhores x escravo(a)s, mas de senhoras contra as escravas devido ao ciúmes e dando-se desde cedo, nas questões de raça e estamento.

O autor fala que os filhos mestiços eram incorporados na casa grande transformando-se numa grande família, onde o patriarca subordinava todos, indo os meninos para lá por interesse do padrinho. No entanto especialmente no segundo capítulo, o autor deixa claro o quanto à socialização do sinhozinho era estimulado a se fazer senhor perverso do moleque mestiço, o autor vai explicitar as brincadeiras dos dois, onde o sinhozinho num enfoque de superioridade abusa do mestiço.

Gilberto chama de sadismo de mando, não só de ordem sexual, a escravidão se dá em todo o sistema no sinhozinho por querer deflorar o maior número de mulheres, e se o menino não tivesse sinais de sífilis, era ridicularizado.

O autor fala das doenças sexuais e vai colocar os aventureiros sifilizando as senzalas, a perversão sexual indo da casa grande para a senzala, dos senhores às mulheres africanas, explica que as propagações se davam devido as iniciações precoces dos meninos, que ao sadismo do homem branco decorre o masoquismo da índia e da negra.

Na sua obra, Freyre traz várias contribuições dos negros para a sociedade brasileira, uma delas são as mulheres africanas como amas dos meninos brancos, contando os mitos, histórias de engenho onde será repassado todo o imaginário de seres espirituais. Também coloca que foram os negros que ensinaram aos portugueses a técnica da mineração, a domesticação do gado, e outras contribuições positivas e efetivas do negro na constituição do Brasil.

Freyre guiado pela Escola Cultura e Personalidade, reflete o modo como umas culturas se impõem sobre outras, e isso se dando tanto na ordem social, étnica, econômica, etc., sempre a questão sexual colocando em máximo a questão do poder.

Bibliografia:

Araújo, Ricardo Benzaquen de. Corpo e alma do Brasil / O cúmplice secreto. In: Guerra e Paz: casa-grande & senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. São Paulo: Ed. 34, 1994.

Freyre, Gilberto. Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida. In: Casa Grande & Senzala. São Paulo: Global Editora, 2006.



Freyre, Gilberto. O escravo na vida sexual e da família do brasileiro. In: Casa Grande & Senzala. São Paulo: Global Editora, 2006.


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