Genealogia das psicoses Aula 8



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Genealogia das psicoses

Aula 8

Na aula de hoje, gostaria de discutir com vocês o desenvolvimento do conceito lacaniano de psicose a fim de chegarmos a sua releitura do caso Schreber. Para tanto, gostaria de dar um passo atrás e partir de sua tese de doutorado, publicada em 1931, Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. Orientada pelo psiquiatra Henri Claude, chefe de clínica do Hospital parisiense de Saint-Anne, a tese terá uma acolhida, no mínimo, peculiar, já que será praticamente desconsiderada pelo meio médico. Os maiores elogios virão da revista O surrealismo a serviço da revolução através de resenhas escritas pelo poeta René Crevel e por Salvador Dali (que havia publicado um artigo sobre paranoia e produção estética). Isto sem contar uma nota elogiosa do escritor Paul Nizan no jornal comunista L´humanité.



Esta acolhida tinha uma razão clara: com sua tese, Lacan procurava constituir uma teoria onde clínica, reflexão social e tematização da produção estética se articulam de maneira orgânica. Desde o início, esta teoria é um programa interdisciplinar cuidadosamente montado que, através da reconstrução dos modos de determinação do normal e do patológico, fornece os subsídios para uma crítica da razão que não deixa de encontrar-se com as expectativas disruptivas da vanguarda estética.

A tese de Lacan chegava a tais consequências partindo da defesa de uma perspectiva à época chamada de “psicogênica” e que consistia em afirmar que:


na ausência de qualquer déficit detectável pelas provas de capacidade (de memória, de motricidade, de percepção, de orientação e de discurso), e na ausência de qualquer lesão orgânica apenas provável, existem distúrbios mentais que relacionados, segundo as doutrinas, à ‘afetividade’, ao ‘juízo’, à ‘conduta’, são todos eles distúrbios específicos da síntese psíquica1.
Ou seja, tratava-se de uma perspectiva que insistia na irredutibilidade de um certo quadro de distúrbios mentais a toda e qualquer explicação causal de natureza orgânica ou mesmo funcional. Quadro no qual encontraríamos, de maneira privilegiada, o que a psicanálise ainda hoje compreende por psicose paranoica.

No edifício clínico psicanalítico lacaniano, a paranoia é concebida como uma das três categorias nosográficas próprias à estrutura psicótica (as outras duas são a esquizofrenia e a melancolia ou psicose maníaco-depressiva). Estruturas estas cujo sintoma definidor é, principalmente, a produção sistemática de delírios e alucinações. Como dissera anteriormente, em manuais diagnósticos de transtornos mentais até o DSM-IV, a paranoia aparecia como um subtipo da esquizofrenia. Fala-se então em esquizofrenia do tipo paranoide. No entanto, seja em tais manuais seja na literatura psicanalítica, temos um quadro de identificação relativamente simétrico que vê, na paranoia, um comportamento psicótico marcado pela produção sistemática de interpretações delirantes (ligadas normalmente a temáticas de perseguição, ciúme, grandeza e/ou erotomania) e por uma certa ausência de deterioração intelectual (o que explica o uso relativamente ordenado da linguagem e a consistência da conduta).

Lacan baseava sua análise da paranoia em uma noção relativamente comum à época que atribuía a gênese da doença a um problema evolutivo da personalidade, tal como vimos também em Freud. Mas no seu caso, isto lhe permitia insistir que apenas a compreensão do processo de formação da personalidade poderia fornecer a inteligibilidade da psicose paranoica. Daí porque, Lacan dirá:
É psicogênico um sintoma –físico ou mental – cujas causas se exprimem em função dos mecanismos complexos da personalidade, cuja manifestação os reflete e cujo tratamento pode dela depender2.
A esta personalidade, Lacan reconhece a capacidade de síntese de “nossa experiência interior”, da intencionalidade e da responsabilidade: “a personalidade é pois a garantia que assegura, para além das variações afetivas, as constantes sentimentais, para além das modificações de situação, a realização das promessas. Ela é o fundamento de nossa responsabilidade3.

Falar em formação da personalidade significa falar sobre dinâmicas de socialização visando a individuação. Forma-se a personalidade através da socialização do indivíduo no interior de núcleos de interação como a família, as instituições sociais, o estado. Tal processo de socialização implica uma certa gênese social da personalidade que, segundo Lacan, deve servir de horizonte para a compreensão de patologias que se manifestam no comportamento. O que não significa negar as bases orgânicas da doença, mas insistir em um domínio de causalidade vinculado àquilo que Lacan chama à época de “história vivida do sujeito” ou ainda “história psíquica”. Maneira clara de vincular a reflexão sobre as patologias mentais a uma certa antropologia que não deixa de nos remeter a uma das operações fundamentais de constituição da psicanálise freudiana, com seu hibridismo entre textos sociológicos (Totem e tabu, O mal-estar na civilização, O futuro de uma ilusão etc.) e textos clínicos. Um pouco como se o verdadeiro paralelismo a ser procurado pela clínica não fosse exatamente entre o mental e o orgânico, mas entre o mental e o social. Eis o que Lacan tem em vista ao insistir nas relações entre psicose paranoica e desenvolvimento da personalidade; isto a ponto de defender que a verdadeira psiquiatria só poderia ser uma “ciência da personalidade”. O que demonstra como, contra o materialismo organicista, Lacan não temia em sugerir algo como um materialismo histórico aplicado às clínicas dos fatos mentais. Por isto, Lacam dirá: “Esta gênese social da personalidade explica o caráter de alta tensão que, no desenvolvimento pessoal, tomam as relações humanas e as situações vitais que a elas se vinculam”4. Assim, toda personalidade implicará: um desenvolvimento biográfico, uma concepção de si mesmo e uma certa tensão nas relações sociais. Da mesma forma, toda doença mental será caracterizada por um “ciclo de comportamento” no qual todos os episódios se ordenam a partir de tal ciclo. Por sua vez, esse ciclo de comportamento se organizará a partir dos desdobramentos da história concreta do desejo. De um desejo cuja história será eminentemente social. O que faz da categoria do desejo e de sua alienação a chave compreensiva do sofrimento psíquico.

Veremos na próxima aula o que isto pode significar. Neste momento, é importante abordar outra questão, a saber, como Lacan compreende esta gênese social da personalidade resultante das dinâmicas de socialização? De fato, Lacan já opera aqui com a tendência psicanalítica em compreender socialização e individuação a partir de processos de identificação.

Identificar-se é, grosso modo, “fazer como”, atuar a partir de tipos ideais que servem de modelo e de pólo de orientação para os modos de desejar, julgar e agir. O que nos leva a uma contradição aparente. Pois afirmar que a identificação é o motor das dinâmicas de socialização significa dizer que o processo social que permite a constituição de subjetividades é movido pela internalização de modelos ideais de conduta socialmente reconhecidos e encarnados em certos indivíduos. Modelos que podem aparecer nas figuras familiares do irmão, dos pais, ou em qualquer outra figura de autoridade.

No entanto, esta internalização não deixa de ser profundamente conflitual. Internalizar um tipo ideal encarnado na figura de um outro significa conformar-se a partir de um outro que serve de referência para o desenvolvimento do Eu. Se quisermos ser mais exatos, diremos que se trata de alienar-se, já que significa ter sua essência fora de si, ter seu modo de desejar e de pensar moldado por um outro. Daí porque uma das temáticas clássicas da teoria freudiana consiste em lembrar como toda socialização é alienação, como este processo é fundamentalmente repressivo por exigir a conformação a padrões gerais de conduta. Para Freud, há algo anterior aos processos de socialização, algo que não é ainda um Eu, mas é um corpo libidinal polimorfo e inconsistente. Isto nos explica porque os processos de socialização tendem a se impor através da repressão do corpo libidinal, da culpabilização de toda exigência de satisfação irrestrita perpetuando, com isto, relações de agressividade profunda contra aquilo que serve de ideal. Há um preço alto a pagar para ser um Eu.

A sua maneira, Lacan se serve deste esquema de compreensão da gênese social da personalidade e do problema da culpabilidade a fim encaminhar sua interpretação daquele que será seu único “caso clínico” em quase cinquenta anos de atividade profissional: o caso Aimée5.


O caso Aimée
Marguerite Anzieu (o verdadeiro nome da paciente) fora internada após tentar esfaquear Huguette Duflos, uma famosa atriz de teatro da época, por crer que a mesma a perseguia e participava de um complô que visava assassinar seu filho. Ela já demonstrara um quadro constante de delírios de perseguição, de grandeza e de erotomania e chegara a passar por uma primeira internação. Após sair da primeira internação, Marguerite conseguirá transferir seu emprego para Paris onde tentará, sem sucesso, ser reconhecida como “mulher de letras e de ciência”. Suas temáticas delirantes continuarão até o crime perpetrado contra a atriz de teatro, em 1931. Dias depois de internada, a produção delirante para momentaneamente. No entanto, ela ficará internada com recaídas constantes até 1943.

Durante seu longo relato clínico, Lacan demonstra como esta filha de camponeses da “França profunda” era atravessada, desde cedo, pelo sentimento de deslocamento em relação a seu meio, em relação aos “papéis femininos” e, sobretudo, por veleidades intelectuais. Lacan dedicará várias páginas ao relato de seus escritos. Tal atividade literária será fundamental para ele descrever os tipos ideais que determinaram o desenvolvimento da personalidade de Marguerite, os mesmos tipos contra os quais ela se volta em seus delírios de perseguição:


Mulheres de letras, atrizes, mulheres do mundo, elas representam a imagem que Aimée concebe da mulher que, em algum grau, goza da liberdade e do poder social (...) A mesma imagem que representa seu ideal é também o objeto do seu ódio6.
Há assim uma profunda relação de identificação entre Marguerite e suas perseguidoras, relação que se inverte em rivalidade e agressividade. Pois se o outro se encontra no lugar que desejo ocupar, nunca cessarei de tentar desalojá-lo para ser eu mesmo. Daí porque Lacan poderá afirmar: “A noção de agressividade responde ao dilaceramento do sujeito contra si mesmo”7. A inabilidade narcisica na distinção entre eu e outro é evidente. O ‘objeto’ desejado é o duplo do sujeito8. O que o paranoico ama é a imagem de si em um duplo ou, usando uma terminologia mais apropriada, seu ego-ideal. As reações agressivas justificam-se já que, ao mesmo tempo em que o sujeito ama a imagem de si no outro, ela a odeia justamente por ser outro. É esta rivalidade que Lacan chamou de ‘tensão social’ ao determinar os fatores componentes da personalidade. É ela que demonstra, por outro lado, que o delírio é uma forma de participação social. A celebridade de teatro e das letras aparece, para esta “camponesa desenraizada” que é Aimée como a figura possível de um lugar que poderia lhe inscrever no interior de uma ordem social que não existe mais em seu meio.

No entanto, explicações desta natureza são genéricas e nunca serviriam para descrever a particularidade de uma reação paranoica. Lacan precisa encontrar uma causa que permita explicar como as reversibilidades de um processo de identificação que concerne todo e qualquer sujeito são vivenciadas de maneira tão traumática pelo paranoico.

Neste contexto, Lacan traz a noção de fixação do desenvolvimento da personalidade. No interior da socialização, há um momento de internalização de um processo que permite ao sujeito tomar certa distância destas identificações marcadas pela reversibilidade transitiva entre o Eu e o outro. Posteriormente, Lacan mostrará como tal processo está vinculado a uma outra identificação, esta que se dá com a lei social ordenadora representada, no interior da família, pela função paterna. O argumento de Lacan consistirá em dizer que, na paranoia, esta segunda identificação estabilizadora com a ordem paterna não ocorre, há uma fixação que impede o sujeito de atravessar as relações de rivalidade e alienação com o que lhe aparece como ideal. Ele vive assim em uma confusão narcísica que faz com que toda alteridade apareça próxima demais, invasiva demais, saída que já vimos com a leitura freudiana de Schreber (e que no caso Aimée será representado pela relação de rivalidade entre a paciente e a irmã, que ocupará o lugar da mãe, que também era psicótica). Pois esta era a maneira lacaniana de interpretar a noção freudiana segundo a qual a paranoia seria uma reação de defesa contra a homossexualidade. Tudo se passa como se Lacan transformasse tal homossexualidade em paixão pelo mesmo, paixão conflitual pela imagem de si mesmo vinda de um outro. Como se a paranoia fosse, no fundo, uma doença do narcisismo. Daí a impossibilidade de reconhecer a dependência à alteridade sem produzir explosões de rivalidade que acabam, por exemplo, sendo projetadas para fora de si sob a forma de delírios de perseguição.

Levando em conta este jogo de identificações, Lacan poderá fornecer o sentido da ação criminosa de Marguerite. Na verdade, ao atacar a atriz de teatro, ela procurou atingir a si mesma. Ela atinge a si mesma não exatamente para livrar-se de um ideal que a persegue, mas para ser punida, para ser culpada perante uma lei social da qual ela sempre se sentiu deslocada. Pois ser culpada e punida é, neste contexto, uma forma peculiar de ter diante de si a presença da potência asseguradora da lei. Sentir-se culpada é uma forma de inscrever-se no interior da lei social, como se o crime fosse, na verdade, um modo de demanda de reconhecimento social que só pode realizar-se se Marguerite sentir que a lei também “é para ela”. Daí porque, após o crime, Lacan dirá que ela se “cura” de uma “paranoia de auto-punição” e pode tomar uma certa distância da sua produção delirante.

Tais mecanismos de autopunição estão internalizados no supereu: instância psíquica estruturada pela reincorporação, ao Eu, de uma parte do mundo exterior através de uma identificação secundária. Esta parte do mundo exterior é constituída pelos objetos que resumem em si mesmos todas as coerções que a sociedade exerce sobre o sujeito, sejam os pais ou seus substitutos. O supereu será composto de representações de Ideais do eu introjetados. O sentimento de culpa, sentimento provocado pela ação dos mecanismos de autopunição, será a expressão do confronto entre as exigências do supereu e os desempenhos concretos do Eu.

Notemos então como esta cura não deixa de ter um acento peculiar. Ao sentir-se culpada, Marguerite se encontra com uma ordem social punitiva e “legítima”, cuja ausência teria permitido o advento da psicose. Como bem assinalou Borch-Jacobsen, a respeito dos casos criminais lacanianos: “eles são criminosos devido a um obscuro desejo de glorificar a lei que eles violam”9. Lembremos de Freud afirmando: “Em muitos criminosos, especialmente nos principiantes, é possível detectar um sentimento de culpa muito poderoso, que existia antes do crime, e, portanto, não é o seu resultado, mas sim o seu motivo. É como se fosse um alívio poder ligar esse sentimento inconsciente de culpa a algo de real e imediato”10. Por isto, a ação criminosa de Aimée será compreendida por Lacan como uma “catarse” que produz a liberação do sujeito em relação a uma concepção de si mesmo e do mundo devido a um choque com a realidade.

Não é por outra razão que Lacan recomendará, como estratégia profilática contra a psicose, a recondução destes pacientes a instituições sociais rígidas ou a grande ideais reformadores que exigem abnegação. “A fórmula de atividade a mais desejável para esses sujeitos é seu enquadre em uma comunidade de trabalho, à qual eles estão vinculados por um dever abstrato”11. Por sinal, esta será sua estratégia quando tiver em análise Dora Maar (artista e amante de Picasso) nos anos quarenta. Sentido a fragilidade de sua estrutura psicótica, Lacan verá como saída clínica o reforço de seu encaminhamento em direção à fé religiosa. Pois: “na falta dessa solução ideal, toda comunidade tendendo a satisfazer mais ou menos completamente as mesmas condições: exército, comunidades políticas e sociais militantes, sociedades filantrópicas, de emulação moral ou sociedades de pensamento, beneficiariam da mesma indicação”12.

Segundo, não é difícil notar que Lacan está mais interessado em “uma psicanálise do eu do que em uma psicanálise do inconsciente”13 ligada à análise dos mecanismos de resistência do sujeito. Como vimos, a causalidade da psicose paranoica foi descrita através de uma teoria das identificações e da gênese social da personalidade que em momento algum precisou fazer apelo direto à noção psicanalítica de inconsciente. Na verdade, durante décadas Lacan considerará o conceito de inconsciente como supérfluo. Foi só a partir de seu encontro com o inconsciente estrutural de Lévi-Strauss, isto no início dos anos 50, que Lacan “retornará” ao inconsciente freudiano.




1 LACAN,Jacques; Da psicose paranóica em sua relação com a personalidade, (Rio de Janeiro: Forense, 1988); pag. 1. Décadas mais tarde, Lacan se afastará de sua postura psicogênica de juventude. Mas, neste caso, não se tratava de criticar a noção de uma causalidade não redutível a processos fisiológicos. Tratava-se, na verdade, de tomar distância da noção de relação de compreensão, tal como desenvolvida pelo psiquiatra e filósofo Karl Jasper. Noção fundamental para a constituição da perspectiva psicogênica à época.

2 LACAN, Da la psychose paranoiaque, p. 45

3 LACAN, De la psychose paranoiaque, p. 33

4 Idem, p. 42

5 Para uma análise completa do caso Aimée, ver Jean Allouch, Paranóia: Marguerite ou a Aimée de Lacan (Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005)

6 Jacques Lacan; idem, pag. 254

7 Jacques Lacan, Escritos (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996), p. 347

8 É interessante notar como, já na tese de 1932, o outro é o objeto do desejo do sujeito. Ele é o suporte das identificações imaginárias do eu e, por esta razão, será o que responde pela identidade do eu. Como veremos, devido a esse caráter especular do objeto, Aimée só poderá realizar seu desejo, imbricado de amor e ódio, através da autopunição.

9 BORCH-JACOBSEN, Mikkel; Lacan: the absolute master, pag. 25

10 FREUD, Sigmund; O Ego e o Id, pag. 69

11 LACAN, De la psychose paranoiaque, p. 277

12 Idem, p. 278

13 LACAN, Da psicose paranóica, p. 280


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