Fugindo do opressor



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Encontro25.10.2017
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FUGINDO DO OPRESSOR

Ele não lembrava como conseguiu ir para a casa da avó materna, longe da figura tirânica do pai. Sua chegada foi marcada por sorrisos e manifestações de carinho da tia que tanto o adorava. Desde pequeno era agarrado por Rosinha e sofria inúmeros afagos. Agora passaria alguns dias na casa da avó que era viúva e fingia gostar dele. Depois da calorosa recepção os três foram para a cozinha, onde uma mesa farta de frios, pães, sucos e doces estava posta. Apesar da falta constante de comida no barraco de pau-a-pique em que morava, o garoto crescera, descaracterizando um pouco aquela imagem esquelética, de olhos que pareciam estar recolhidos nos fundos das órbitas. A voz tornou-se mais grave, pelos surgiram-lhe pelo corpo e algo começou a acontecer, algo que o deixava tenso e um pouco confuso. Provou um pouco de cada alimento que estava sobre a mesa. Enquanto comia observava a tia que não parava de contar a avó os últimos acontecimentos ocorridos na vizinhança. Depois da refeição foi conduzido por Rosinha para o quarto que dormiria enquanto estivesse visitando a avó e a tia querida.

Maria das Rosas embora fosse a filha mais jovem de uma linhagem de sete filhos, tinha trinta e quatro anos de idade. Sorridente e extrovertida, permaneceu morando com os pais com a aparente intenção de ajudá-los nas necessidades habituais, mas na verdade ocultava sua aversão ao trabalho. Depois da morte do pai continuou morando com a mãe que contava com mais de sessenta e oito anos de idade, passando a administrar bens e receitas. Continuou solteira, mantendo um informal relacionamento amoroso com um detetive da Polícia Civil.

O garoto foi deixado no quarto, que era separado do quarto da tia pela sala de estar. A bolsa desbotada com as poucas roupas foi largada no chão e ele sentou-se na cama de solteiro. A mão esquálida acariciou a colcha limpa e perfumada. Ficou muito satisfeito com a sensação de maciez do tecido e com as cores que apresentava. Nunca dormira em outra cama que não aquele dublê de colchão sobre um velho estrado que existia no barraco em que morava. Colchão que mais parecia um catre, um genuíno catre. Deitou-se e acomodou as costas doloridas no colchão confortável. Estava cansado pela viagem que exigiu três mudanças de ônibus, tal a lonjura da casa da avó. Cruzou as mãos por trás da cabeça e ficou olhando ao redor. O ambiente era mobiliado sem extravagâncias, mas com relativo conforto. Pela janela, coberta por uma cortina esvoaçante, entrava o vento e a luz do dia. Ele sorriu, pensando como seria bom passar uns tempos longe da miséria, do pai prepotente e dominador, da vida sem graça e sem aventuras gloriosas que vivia. Mais do que isso, como seria bom passar alguns dias junto com a aquela mulher pela qual nutria algo que não sabia explicar, algo proibido.

Ele passava as manhãs brincando na rua com os outros garotos de sua idade e, à tarde, refugiava-se no aconchego da casa da avó. Esta lhe fazia sucos de frutas, batidos no liquidificador, e bolos, que ele adorava. Aos poucos, as guloseimas foram-lhe tirando o apetite. Enquanto bebia e comia, assistia a filmes e desenhos, entretenimentos que lhe traziam muita satisfação, mas pouco permitidos na casa dos tios que moravam em residência próxima a sua, em vista que em sua casa não havia televisão. No período da noite, após o jantar, reunia-se com a avó e Rosinha na sala de estar para assistirem aos telejornais e novelas. Adorava aquele momento, porque pouco lhe importava o que estava sendo transmitido. Interessava-lhe observar, discretamente, a tia em shorts muito curtos e justos, particularmente no volume que se insinuava na região do púbis. Findo os informativos e entretenimentos noturnos, todos se recolhiam. Às vezes, Rosinha saía, alegando que ia visitar uma amiga, mas na verdade encontrava-se com o amante. No quarto que ficava no fundo do corredor, a avó não tardava a adormecer profundamente, despertando somente na manhã seguinte. A tia ia para o quarto e deixava a porta entreaberta, passando a assistir a filmes durante a madrugada. Ele recolhia-se ao quarto e aguardava na penumbra, o passar das horas. Enquanto os ponteiros do relógio de parede giravam lentamente, ficava pensando nos momentos de prazer que passaria. Todas as noites, o garoto deixava a solidão do quarto e, sorrateiramente, caminhava até a porta do quarto da tia. Oculto pela escuridão do corredor permanecia observando-a na intimidade.

No interior do quarto, iluminado por um abajur, num momento inopinado, Rosinha levantava-se da cama. Despojava-se da blusa larga e do soutien, desvelando a ternura dos seios. Naquele instante, o garoto sentia-se estranho por ser dominado por um tremor por todo o corpo e a boca inundar-se em saliva. O short justo era retirado e o sexo, que parecia ser um tamanho maior do que ele imagina, permanecia coberto por uma calcinha. Ele sentia a bermuda velha avolumar-se e uma sensação impelia-o a entrar no quarto. Ficava confuso, atordoado com aquele desejo proibido e tão estranho que o dominava. Os minutos passavam e ele observava atentamente cada movimento da tia. No meio da madrugada, ela levantava-se e ia desligar a televisão. Naquele momento, o garoto deleitava-se com a formosura da mulher que lhe despertava sensações maravilhosas e estranhas. Os seios eram viçosos; a cintura delgada espalhava-se em quadris largos; e a bunda era endurecida e arrebitada. Ele ficava inquieto com aquele instante de luxúria. Retornava depressa para o quarto, para não ser descoberto. Tentava conter-se, apertando o sexo entre as pernas e agarrando-se ao travesseiro que acomodava sua cabeça até a manhã do dia seguinte.

Durante o dia, em conversa com a avó e a tia, entre sorrisos e gargalhadas, Rosinha abraçava-o, encostando seu rosto ao busto. Enquanto lhe afagava a cabeça e dizia palavras de carinho, ele podia sentir o perfume e o calor dos seios com os quais se regozijava à noite.

Na tarde do dia seguinte, a mãe telefonou para o garoto. A avó atendeu e conversou um pouco com ela, para logo passar o fone para ele. A mãe disse estar saudosa e que ele devia voltar para casa, porque seu pai já se demonstrava impaciente com sua ausência. Ele alegou estar bem, feliz, que queria ficar por ali por mais tempo, mas a mãe insistiu que voltasse para casa, o quanto antes. Inconformado, o garoto apresentou motivos que ocultavam seu desejo de estar longe do déspota que vivia a repreendê-lo, a humilhá-lo. A mãe fingiu não entender e desligou. O garoto menosprezou o pedido da mãe.

A noite chegou e o ritual repetiu-se. A avó foi dormir e passou a roncar. A tia recolheu-se e a porta do quarto ficou entreaberta. O garoto deitou-se e ficou aguardando o avançar das horas. A mente em ebulição. A cada giro completo do ponteiro maior do relógio, seu desejo aumentava. Queria vê-la ao natural. Queria deliciar-se com as curvas que inquietavam seu corpo. Deixou o quarto e caminhou para a posição que assumia na escuridão do corredor. Rosinha levantou-se e retirou a blusa e o soutien. Depois se livrou do short, voltando a deitar-se. O garoto foi dominado mais uma vez pelo tremor e pelo desejo irresistível. Abaixou a cabeça, apertando com as mãos aquilo que intumescia, tentando conter-se. Quando ergueu a cabeça, a porta foi aberta. Ele arregalou os olhos e engoliu em seco com a visão da silhueta da tia emoldurada pela iluminação do quarto. Antes que tentasse falar alguma coisa ou fugir, foi bruscamente puxado para dentro. A porta rapidamente foi fechada e trancada.

Assustado e sem conseguir dizer uma palavra, o garoto foi levado pela tia para a cama. Ele balbuciou alguma coisa tentando explicar-se, mas com um gesto a tia ordenou que se calasse. Rosinha deitou-se e puxou sua cabeça contra os seios descobertos. O garoto enfiou o rosto imberbe entre os volumes e sentiu a maciez da pele azeitonada. Ela forçou seu rosto, de modo que sua boca toca-se um dos mamilos. Ele passou a sorvê-los com avidez. Os sons da televisão que permaneceu ligada a baixo volume misturavam-se aos sussurros de Rosinha. O corpo miúdo perdeu as roupas e envolveu-se ao corpo perfumado. Suas mãos inseguras acariciavam, apertavam as curvas que seus olhos tanto desejavam. Tomado por surpresas, entrou em êxtase, quando viu a tia envolver-lhe o sexo e passar a sugá-lo. Tentou gritar, mas a cortesã tampou-lhe a boca no momento que as energias irromperam dentro do corpo esquelético. Exausto, prostrou-se ao lado dela. Carícias e sussurros obscenos despertaram novamente o garoto que recebeu a ordem de possuí-la. Os dois explodiram em prazer e depois ficaram abraçados, calados, introvertidos no vazio que surgiu dos corpos que se uniram. O ato luxurioso repetiu-se até que os dois ficaram exauridos. O garoto apresentava uma expressão de regozijo e a tia de satisfação. Minutos depois, num movimento inesperado, com um sorriso nos lábios, Rosinha puxou-o pelo braço e o expulsou do quarto, fechando a porta. Com as roupas nas mãos, ele voltou rapidamente para o quarto e dormiu pesadamente. O fato passou a repetir-se todas as noites, como uma rotina.

E o garoto adorava a rotina que sua vida tomara. Durante o dia, era um menino que brincava com os garotos da rua. À noite, tornava-se um homem, brincando ocultamente com a tia no gozo de fantásticos prazeres até então desconhecidos para ele.

Numa manhã, depois de brincar muito com os colegas, voltou para casa da avó, para beber um pouco d’água. No instante que abriu o portão, deparou-se com a figura do pai na varanda da casa, conversando com a avó e a tia. Seu rosto contraiu-se e uma dor surgiu-lhe no peito, fazendo sumir a expressão de alegria que passara ter. Cabisbaixo, caminhou devagar para a varanda. Quando lá chegou, encarou o pai. Percebeu que a fisionomia carrancuda do déspota estava pior do que antes. Ele falava e balançava a cabeça em clara discordância. Quando viu o filho, manifestou desagrado. O garoto caminhou até ele e fitou-o nos olhos. Pediu a benção do pai e ele respondeu:

- Arrume suas coisas... Vim buscar você.

O garoto olhou para a Rosinha, que não escondeu sua tristeza.

- Mas pai, eu estou bem, falei com a mamãe por telefone e...

- Vamos para casa... Você já ficou tempo demais por aqui.

- Mas pai, eu estou gostando tanto de ficar aqui na casa da vovó...

- Sim, ele está gostando muito... – retrucou a velha sendo logo interrompida pelo grosseiro genitor.

- Você já ficou por aqui além da conta. Tem que voltar para casa...

- Mas pai...

- Sua mãe está com saudades e eu também... Estou com saudades de brigar com você... Vai arrumar suas coisas... Nós vamos embora, agora!

Os olhos do garoto marejaram. Ele abaixou a cabeça e dirigiu-se para o quarto. Minutos depois, saía com a bolsa velha nas mãos. Despediu-se da avó e, quando abraçou a tia, caiu em prantos. Rosinha consolou-o. Em seguida, ele caminhou em direção ao portão da casa, escoltado pelo pai. Olhou para trás e, com os olhos úmidos, acenou para a tia que nunca mais veria. Dois anos depois, Rosinha foi agredida violentamente pelo detetive com o qual mantinha relacionamento amoroso. Caiu na rua e bateu com a cabeça no meio-fio da calçada. Vítima de um forte traumatismo craniano, não resistiu, falecendo no hospital. Quando o garoto soube de sua morte pela mãe, caiu em prantos, fugindo para a rua.



FIM


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