Fritzmac artur Azevedo e Aluísio Azevedo



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FRITZMAC Artur Azevedo e Aluísio Azevedo

Revista fluminense de 1888, em prosa e verso, em um prólogo, três atos e dezessete quadros

A Luís Braga Júnior O.D.C.

PERSONAGENS

MADEMOISELLE FRITZMAC AMOROSA A AVAREZA A PACIÊNCIA UMA SENHORA DONA INÊS DE CASTRO O AMOR A LUXÚRIA A LIBERDADE O CONGRESSO DOS FENIANOS A SOBERBA A DILIGÊNCIA OUTRA SENHORA A GRÃ-VIA A INVEJA A TEMPERANÇA UMA CRIADA UM ASPIRANTE DA MARINHA A ÉPOCA O HIGH-LIFE UMA MULATA PEKY A IRA A CARIDADE UMA PRETA A SEMANA A PREGUIÇA A CASTIDADE A HUMILDADE O BARÃO DO MACUCO FRITZMAC, alquimista UM CREDOR O CLUBE DOS FENIANOS O ENTRUDO O PADRE-SOLDADO TIRO-E-QUEDA, capoeira UM CONVIDADO UM JORNALISTA A GULA UM SOLDADO DE POLÍCIA O CHEFE DOS COELHOS UM LICURGO SEU ZÉ DO BECO FONSECA-TCHING ANTÔNIO JOSÉ (personagem invisível) OUTRO JORNALISTA O CLUBE DOS DEMOCRÁTICOS O CARNAVAL O PROJETO E A LEI O VISCONDE, que dá o baile UM ARTISTA UM DILETANTE ANTUNES O COMENDADOR VILA ISABEL OUTRO CONVIDADO UM ENGENHEIRO O CLUBE DOS PROGRESSISTAS DA CIDADE NOVA TRIPAS AO SOL, desordeiro OUTRO CONVIDADO TSING-TSING-SODRÉ O GALO UM VENDEDOR DE CANIVETES OUTRO CONVIDADO OUTRO JORNALISTA UM CAIXEIRO O TIGRE OUTRO VENDEDOR DE CANIVETES OUTRO CONVIDADO OUTRO JORNALISTA UM EX-ATOR UM PADRE O JACARÉ UM HOMEM OUTRO VENDEDOR DE CANIVETES UM PRETO UM CRIADO UM MEDROSO O LEÃO OUTRO HOMEM OUTRO PRETO O DOUTOR GAZÉTA OUTRO ENGENHEIRO A ONÇA O CONSELHEIRO JACÓ SERAPIÃO OUTRO CONVIDADO UM ESGRIMISTA OUTRO JORNALISTA OUTRO LICURGO UM ITALIANO UM EMPRESÁRIO LÍRICO UM DIPLOMATA

Pessoas do povo, peixes, coelhos, flores, mendigos, vagabundos, convidados, jornalistas, artistas líricos, soldados, etc.

Nesta Edição não se fizeram as alterações exigidas pelo Conservatório Dramático, pela Polícia e pelas inconveniências de cena.

PRÓLOGO


Quadros 1, 2 e 3

Laboratório sombrio e diabólico. Ao levantar o pano, o velho Fritzmac está ocupado nalgum trabalho de alquimia. Ao ver o público, ergue-se, aplica bem a vista, deixa o que está fazendo e vem ao proscênio. Música em surdina na orquestra desde o levantar do pano até a entrada de Pero Botelho.

CENA I

FRITZMAC, depois PERO BOTELHO



[FRITZMAC] -

Meus senhores, eu sou Fritzmac, o alquimista: A falta de outro artista, O prólogo farei da pândega revista. Desgostoso da terra, Onde sofri dos homens dura guerra, Ao serviço me pus Do bom Pero Botelho, Diabo assaz conhecido, Bon vivant, divertido, Que bons cobres me dá, me trata por meu velho, No conceito me tem do rei dos nigromantes, E em breve - ele é que o diz - vai dar-me uma grã-cruz, De ouro de lei, rodeada de brilhantes! Um presente de truz!

(Pequena pausa.)

Do Botelho citado, Um capricho engraçado Vai ser, senhores meus, o ponto de partida Da frívola comédia a que ides assistir. Quando a revista, por desenxabida, Vos obrigue a dormir...

(Acelera-se o movimento da música.)

Mas que ouço!! A concluir sou forçado de chofre! Vem barulho do chão... sinto cheiro de enxofre!

(Endireitando aqui e ali algum objeto.)

É o patrão! Atenção! Vai abrir-se o alçapão! Verão!

(Música forte. Pero Botelho surge do alçapão, acompanhado de labaredas. Cessa a música.)

PERO BOTELHO - Não te enganes, Fritzmac, sou eu. (Consultando o relógio.) Meia-noite: é a minha hora, meu velho. Não sou desses demônios de hoje, que se enfaram de modernismo, e desdenham os costumes dos nossos avós. É justamente por isso que te procuro, amigo.

FRITZMAC - Amigo, diz Vossa Alteza muito bem, porque nós, os homens da ciência, nada mais somos do que espíritos rebeldes, que se voltavam, como vós outros, contra as imposições de Deus. (Pero Botelho pula e estremece.) Desculpe... sempre me esqueço de que não devo pronunciar o nome deste sujeito em presença de Vossa Alteza. (Vai buscar um banco e oferece-o a Pero Botelho.) Deixe lá falar o velho Doutor Fausto, sábio carola e freguês de missas: a ciência é e sempre foi inimiga da Bíblia. Sente-se Vossa Alteza.

PERO BOTELHO (Sentando-se.) - A prova ai está em Galileu, que pregou uma boa peça a Josué, e em Franklin, que desmoralizou o raio... Mas tratemos do objeto que aqui me trouxe.

FRITZMAC - Sou todo ouvidos.

PERO BOTELHO - Há bastante tempo vivo preocupado com a capital de um vasto império americano, que tem sabido resistir à minha influência.

FRITZMAC - Vossa Alteza graceja.

PERO BOTELHO - Não, meu velho. A capital de que te falo é o meu desespero. Conheces perfeitamente o nosso esplêndido sucesso sobre o antigo mundo pagão. Babilônia excedeu à nossa expectativa. Sodoma e Gomorra foram duas tetéias. Nínive, aquilo que tu sabes. O Egito foi nosso de uma ponta a outra! Depois Roma... Ah! Roma! Roma!... Tão cedo não apanhamos outro Nero, nem outro Calígula... Aquilo é que era ouro de lei! Estendemos depois o nosso domínio por toda a Europa... Paris, Londres, Berlim, Viena, São Petersburgo, Madri, todas as capitais, enfim, de certa ordem, foram a pouco e pouco cedendo à nossa influência. Conseguimos plantar o nosso reinado em todas elas! Mas, meu velho, a América... (Abana a cabeça.)

FRITZMAC - A América não se tem explicado.

PERO BOTELHO - É o termo. Ainda lá para o Norte não temos ido de todo mal. New York promete, isso promete. Mas o Brasil...

FRITZMAC - O Brasil? Conheço. Um vasto território ocupado pelos portugueses.

PERO BOTELHO - Isso é história antiga. O Brasil tornou-se independente há sessenta e tantos anos. E o Rio de Janeiro, a capital desse vasto império, é o meu cavalo negro.

FRITZMAC - Deveras?

PERO BOTELHO - Imagina que não tem mordido nem a pontinha da isca que lhe atiro com tanta insistência!

FRITZMAC - É incrível!

PERO BOTELHO - Despejei no Rio de Janeiro todos os elementos corrosivos que pude apanhar na Europa. Debalde! A tal cidadezinha resiste, e tem se conservado...

FRITZMAC - Pura? Pois é possível que haja ainda no mundo uma cidade pura?

PERO BOTELHO - Pura, pura, não digo que o seja. Não exageremos. Mas está tão longe da perfeição européia, como da China. Um ou outro pândego paga-me sobejamente o seu dízimo: mas não calculas que ingenuidade! que sancta simplicitas! Amam ainda e choram legítimas lágrimas. Há dedicação, há o que a moral chama bons exemplos; filhos modelos, mães extremosíssimas, quase santas, amigos desinteressados, e, parece incrível! há brio, há caráter, há honra!... Há lá quem dê a alma ao céu por uma questão de pundonor!... Para encurtar razões: já houve quem dissesse que a caridade se naturalizou fluminense!

FRITZMAC - É com efeito uma capital sui generis.

PERO BOTELHO (Erguendo-se, com resolução.) - Pois bem, estou resolvido a ocupar-me seriamente com aquilo, a nivelar o mundo. Não tolero semelhante exceção... E como estou convencido de que só com o auxilio da ciência poderei realizar o meu plano de combate, venho ter contigo, meu velho, que és o meu sábio. Serve-me, e ainda mais depressa apanharás aquilo que te prometi.

FRITZMAC - Já sei: a tetéia. Estou às ordens de Vossa Alteza.

BEBO BOTELHO - Quero que reduzas a um indivíduo só, os sete pecados mortais. Compreendes que é muito mais prático e mais cômodo enviar uma só criatura ao mundo, em vez de mandar para lá sete tipos que se prejudicariam uns aos outros, e acabariam por neutralizar mutuamente o que fizessem.

FRITZMAC (Que tem estado a pensar, coçando a cabeça.) - É... o plano não é mau...

PERO BOTELHO - E é exeqüível?

FRITZMAC - Homem, Alteza, para falar francamente, não posso afiançar a exeqüibilidade do plano. Até hoje tenho feito apenas algumas transmissões da alma de um corpo para outro, eletrizado diversos cadáveres e dado vida a meia dúzia de seres inanimados. Mas isto de reunir num só corpo nada menos de sete espíritos, e que espíritos!

PERO BOTELHO - Recuas?

FRITZMAC - É muito fácil com dois indivíduos fazer sete... Para isso nem é necessário a ciência... Mas de sete fazer um... Enfim, nada se perde por tentar.

BEBO BOTELHO - Bravo! E quando tencionas dar começo ao teu trabalho?

FRITZMAC - Imediatamente.

BEBO BOTELHO - Nesse caso, mãos à obra! Vou invocar os sete pecados mortais!

Canto

Eu ordeno com modo arrogante, E para isso não prego editais, Que apareçam aqui neste instante Os meus sete pecados mortais!



(Abre-se o fundo, deixando ver uma pequena gruta de fogo. Os sete pecados mortais estão alinhados e em linha descem ao proscênio. Fecha-se o fundo.)

CENA II


FRITZMAC, PERO BOTELHO, os SETE PECADOS MORTAIS

CORO DOS PECADOS MORTAIS

- Pero Botelho, ó grande Alteza, Cá estamos nós! Obedecemos com presteza À tua voz, Rival de Belzebu, Que queres tu!

(Continua a música em surdina na orquestra.)

PERO BOTELHO - Aí tens os sete pecados mortais, Fritzmac. São sete raparigas de se lhes tirar o chapéu.

FRITZMAC - Estão bem dispostas, estão... principalmente aquela... (Aponta para a Gula.)

PERO BOTELHO - Já as conhecias?

FRITZMAC - Apenas de tradição.

PERO BOTELHO - Meninas, apresentem-se ao Doutor Fritzmac. (À Avareza.) Rompa você a marcha. (Os Pecados executam um pequeno movimento, e vão passando pela frente de Fritzmac sucessivamente, á medida que se apresentam.)

A AVAREZA -

- Sou a Avareza sórdida, Que a força deletéria Do pranto e da miséria Desenvolvendo vai; Para os males do próximo Apática não olho, Porque tudo aferrolho Que nestas unhas cai.

FRITZMAC - Faz muito bem. Quem para adiante não olha atrás fica.

A LUXÚRIA -

- Eis a luxúria, eis o pecado Que mais desgraças tem causado, E eternamente as causará! Enquanto, ao pé do masculino, No mundo houver o feminino, O meu domínio durará.

FRITZMAC - Também não sei por que fizeram disto um pecado...

A INVEJA -

- Eu sou a vesga inveja; invejo a toda a gente; Eu mordo-me, a chocar esta paixão ruim; Quando, por invejar, eu me sinto contente, Invejo a própria Inveja, invejando-me a mim.

FRITZMAC - Bom; esta tem muito em que se ocupar...

A GULA -

- A Gula sou; sou, e não vejo Em que um pecado possa .....

FRITZMAC - Nem eu.

A GULA -


- Não alimento outro desejo Senão comer, comer, comer...

FRITZMAC - Este diabo abriu-me o apetite!

A IRA (Que faz fugir Fritzmac.) -

- Sumam-se! raspem-se, Que eu sou a Ira! Tudo me inspira Raiva e furor! Morro de cólera Se não espanco, Se não desanco Seja quem for!

FRITZMAC - Vá desancar o boi! (A Soberba passa sem dizer nada.) Então a menina não solta a sua piada? Quem é?

A SOBERBA - Não tenho que lhe dar satisfações! (Passa.)

FRITZMAC - Safa! é malcriada, é.

PERO BOTELHO - Pudera! é a Soberba...

FRITZMAC - Ah! (Vendo passar a Preguiça.) E esta, que mal se arrasta?

A PREGUIÇA (Com voz muito descansada.)

- Eu sou a Preguiça; não há neste mundo Coisinha melhor do que o dolce far niente. Eu vivo deitada de papo pra cima, E tenho preguiça de tudo e por tudo.

FRITZMAC - Perdão, mas esses versos...

PERO BOTELHO - Não rimam: ela teve preguiça de rimá-los. Bem, meninas, entretenham-se a ver esses bibelôs da nigromancia. (Os Pecados formam grupos ao fundo, examinando uma coisa ou outra. Pero Botelho vai ter com Fritzmac.) Anda, trata de me reduzir sete raparigas a um rapaz bem sacudido e esperto.

FRITZMAC - Um rapaz? Aí é que Vossa Alteza está na tinta.

PERO BOTELHO - Como assim?

FRITZMAC - Pois eu posso lá fazer um homem de sete mulheres!

PERO BOTELHO - Por quê?

FRITZMAC - Falta muita coisa. Não posso dispor de certos elementos dos quais nenhuma destas senhoras dispõe... a barba, por exemplo.

PERO BOTELHO - Pois arranja uma mulher, com um milhão de raios! Pode ser até que lucremos com a troca! Uma mulher vale por vinte homens, e o que ela não alcançar, nem eu mesmo conseguirei! Que seria de mim se não fosse a mulher?

FRITZMAC - Bom, comecemos o serviço. Vou metê-las todas naquela caldeira, que foi um presente de Vossa Alteza, e que tem sempre fogo.

PERO BOTELHO - Ah, sim! a caldeira de Pero Botelho; mas provavelmente resistem.

FRITZMAC - Resistem? Boas! E o hipnotismo?! (Pero Botelho mostra pela cara que não sabe o que é.) Uma ciência moderna. (Vai buscar uma escada de mão, que encosta a uma cadeira, ligada a uma retorta. Depois vai aos Pecados, faz alguns passes magnéticos e as raparigas ficam imóveis.) Vê Vossa Alteza? Estão prontas a obedecer à minha vontade!

Canto

[FRITZMAC] -



- Vamos lá, senhoras minhas. Sem fazer oposição; Entrem todas direitinhas Para aquele caldeirão!

PERO BOTELHO -

- A fazer um simples gesto, Tudo alcança um sabichão! As pequenas, sem protesto, Vão entrar no caldeirão!

OS PECADOS -

- Que diabólica artimanha! Que esquisita sensação! Sinto que uma força estranha Vai me pôr no caldeirão!

Juntos


FRITZMAC - Vamos lá! senhoras minhas! etc.

PERO BOTELHO - A fazer um simples gesto, etc.

Os PECADOS - Que diabólica artimanha! etc.

(Continua a música na orquestra. Fritzmac, sempre a fazer passes magnéticos, obriga os Pecados a entrarem para a caldeira. Eles o fazem a contra gosto. A Preguiça é a última.)

PERO BOTELHO - Agora me lembra. Essa não é lá precisa. No Rio de Janeiro o que não falta é preguiça.

FRITZMAC - Deixe-a ir... agora é maçada desipnotizá-la. Quoci abundat non nocet. (Empurrando a Preguiça.) Vamos! vamos! mova-se! ... (Estão todos os Pecados no caldeirão.)

CENA III

FRITZMAC, PERO BOTELHO

PERO BOTELHO - És um homem extraordinário!...

FRITZMAC - Ponha de quarentena os seus elogios, Alteza: quem sabe se, com tudo isto, nada mais consigo do que fazer um enorme ensopado?

PERO BOTELHO - Não me digas.

FRITZMAC (Trepa na escada, debruça-se sobre a caldeira, e começa a mexê-la com uma enorme colher de pau.) - Oh! oh! como a gorducha esperneia! Só o caldo que aquilo dá! A Ira como esbraveja! A Preguiça ainda está viva... tem preguiça até de morrer!

PERO BOTELHO - Que vais fazer dessa sopa?

FRITZMAC - Esta sopa, quando estiver completamente líquida, passará por essa retorta, e irá depositar-se naquele reservatório. Dali é que há de sair a mulherzinha.

PERO BOTELHO - E quanto tempo isso dura?

FRITZMAC - Uns cinco meses talvez.

PERO BOTELHO - Julguei que a coisa fosse mais rápida. Tenho lá paciência para esperar tanto tempo!

FRITZMAC - Oh! Alteza! o fogo, por mais forte que seja, não terá mais de três mil graus de calor especifico.

PERO BOTELHO - No mundo, sim, mas no Inferno tenho fogo superior a trinta mil graus!

FRITZMAC - Ah! com esse fogo tudo se arranjava em alguns minutos.

PERO BOTELHO - Pois espera, vou, aplicar o fogo do inferno ao fundo da caldeira. (Solta um assovio e formam-se grandes chamas vivas debaixo da caldeira.)

FRITZMAC (Subindo á escada.) - Xi! Fogo viste lingüiça! Nem sinal de osso existe já! Foi mais rápido que um raio! A sopa escorreu toda!

PERO BOTELHO - Quando teremos a nova criatura?

FRITZMAC - Não se demora muito. Só o tempo necessário para que o caldo passe pelos canais competentes, distribua as respectivas moléculas e esfrie de todo.

PERO BOTELHO - Bom!

FRITZMAC (Que tem ido examinar o aparelho.) - Vai muito bem; não temos que esperar mais do que alguns minutos. (Apalpa o reservatório.) Está quase frio. Não tarda aí!

PERO BOTELHO - Deve ser completa essa mulher! Um ente feito da infusão de todos os meus pecados! (Ameaçando.) Ah, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro! agora juro que não zombarás do poder do Diabo! Hás de pertencer-me!

FRITZMAC (Destapado o reservatório.) - Pronto! (Forte na orquestra. Sai uma mulher. Pero Botelho e Fritzmac dão-lhe a mão para descer.)

CENA IV

FRITZMAC, PERO BOTELHO, a MULHER



PERO BOTELHO (A Fritzmac.) - Como é linda e como estou contente! Amanhã terás a grã-cruz, meu velho!

FRITZMAC - Que perfeição de mulher!

Canto

A MULHER -



- Quem sou? Em que lugar estou? (Como se lembrando.) Ah! Tudo me lembra já!

Tango


Sinto todos os pecados Dentro de mim; Inda não houve no mundo Mulher assim! Sou avarenta, Sou preguiçosa, Sou rabugenta, Sou invejosa, Irosa, Gulosa, Vaidosa. Uma mulher completa enfim!

FRITZMAC -

- Ai, meu amor, como és bonita! Estão meus olhos cativados!

PERO BOTELHO -

- O peito meu de amor palpita! És realmente os meus pecados!

OS TRÊS -

- Sou avarenta, etc. É avarenta.

PERO BOTELHO - Bom, acompanha-me. Vou confiar-te uma missão delicada. Mas agora me lembro: é preciso batizar esta pequena. Ela não há de ter sete nomes.

FRITZMAC - Fui eu que a fiz. Nada mais justo que ter o nome do pai.

PERO BOTELHO - Apoiado: chamar-te-ás Fritzmac. Madame ou Mademoiselle Fritzmac, à vontade. Vamos! Adeus! (Mesura de Fritzmac.)

A MULHER - Vamos! (Sai, levada por Pero Botelho.)

FRITZMAC (Indo. gritar ao bastidor.) - Não vá Vossa Alteza esquecer-se da tetéia!

CENA V

FRITZMAC, só



[FRITZMAC] - Uma grã-cruz! uma grã-cruz! Isto era caso para um viscondado, pelo menos! Mas não é que o tal serviçozinho prostrou-me? (Boceja.) Tenho sono... vou me deitar... e com a consciência de não haver perdido o meu dia. (Sai.)

CENA VI


O AMOR [só]

Depois que Fritzmac se retira, a cena fica só, por alguns momentos. Há um forte na orquestra, um armário transforma-se numa gruta florida, e sai de dentro desta o Amor. Continua a música.

[O AMOR] -

- Ao ver surgir esta figura, Que há tantos séc'los a pintura Vulgarizou, O espectador menos esperto De si pra si logo decerto Disse quem sou. Mas, pelo todo, me parece Que esta figura não conhece Ali o senhor...

(Aponta para um espectador qualquer.)

Se bem que o caso seja raro, Eu, pelas dúvidas, declaro Que sou o Amor. Já percorri bem mau caminho, Já fui feroz, já fui daninho, Já fui fatal; Mas hoje em dia só patetas Podem temer que as minhas setas Lhes façam mal. Não é, por Vênus! a vontade De atormentar a humanidade Que aqui me traz: Venho, contente e petulante, Desempenhar uma importante Missão de paz. (Dirigindo-se para o fundo.) Vinde, olá! virtudes magas! Preciso do auxílio vosso!

(Ao público.)

Ides ver que eu também posso Invocar nas horas vagas...

(Música. Abre-se o fundo, e aparece um templo de ouro e luz. As sete virtudes opostas aos sete pecados mortais aparecem abraçadas, e abraçadas descem ao proscênio, onde se desentrelaçam.)

CENA VII


O AMOR, as SETE VIRTUDES, depois AMOROSA

CORO DAS VIRTUDES -

- Aqui estão, muito bem postas, Aqui estão, sem mais nem mais, As virtudes opostas Aos pecados mortais.

PRIMEIRA VIRTUDE - Eu sou a Caridade.

SEGUNDA VIRTUDE - Eu sou a Castidade.

TERCEIRA VIRTUDE - Eu sou a Humanidade.

QUARTA VIRTUDE - A Liberalidade.

QUINTA VIRTUDE - A Temperança.

SEXTA VIRTUDE - A Paciência.

SÉTIMA VIRTUDE -

- E a Diligência, Que não descansa! Se me encarrego De uma incumbência, Aquilo é zás! Trás! Nó cego!

TODAS


- Zás! Trás! Nó cego!

A DILIGENCIA - Vamos! vamos, Amor! que desejas? para que nos invocaste? Dize! dize depressa, que não há tempo a perder!

A PACIÊNCIA - Para que tanta pressa? Temos multo tempo. Quem corre cansa.

A LIBERALIDADE - Cala-te, Paciência, já começas! Dize o que desejas, Amor.

O AMOR - Serei breve. Trabalha neste laboratório um mágico, doutor ou coisa que o valha chamado Fritzmac, que se acha ao serviço de Pero Botelho.

TODAS (Benzendo-se.) - Credo!

O AMOR - Pero Botelho quis enviar ao Rio de Janeiro os sete pecados mortais; não é preciso que eu vos diga com que intenções. Receando que sete criaturas não dessem boa conta do recado, porque se estorvariam mutuamente, incumbiu Fritzmac de reduzir as sete a uma só, por meio de misteriosos processos de alquimia. Pois bem: eu, o Amor, desejo opor um poder a esse poder... desejo extrair das virtudes opostas aos sete pecados mortais uma criatura que faça guerra à outra e lhe inutilize os planos. Para isso, valho-me do próprio laboratório do diabo, e não empregarei, como ele, o fogo do céu, mas o do amor, pois, como sabeis, o amor tem fogo.

A CASTIDADE - Oh! (Tapa a cara.)

O AMOR - Perdoa, Castidade. (Beija-lhe a mão.)

A LIBERALIDADE - Se for preciso fazer alguma despesa, cá estou eu.

O AMOR - Não, formosa Liberalidade: o Amor tudo arranja de graça. Muito obrigado. (Beija a mão á Liberalidade.)

A CARIDADE - Estamos prontas para quanto quiseres.

A PACIÊNCIA - E pelo tempo que entenderes.

O AMOR - Ah, ah! Fritzmac, vais ver que o Amor é mais feiticeiro que tu!

Canto

Mas agora reparo: trazeis flores... Muito bem! O vosso contingente, meus amores, A propósito vem.



Rondó

Doce Humildade, na caldeira lança Essas gentis violetas belas Dá-me essas rosas, Temperança; Perdoa se te obrigo a desfazer-te delas. Lá dentro atira, Liberalidade, Os teus esplêndidos lilases, E tu, desfaz-te, ó Caridade, Do amor perfeito, a flor que no teu seio trazes, Essa camélia, ó cândida Paciência, Lá da caldeira põe no fundo; Dê-me o seu cravo a Diligência, E dê-me a Castidade um lírio pudibundo.

(As Virtudes obedecem á proporção que canta o Amor Todas as flores têm passado para a caldeira.)

A DILIGENCIA - Vais água-flórida fazer?

O AMOR - Vão ver! vão ver! ...

(Bate com a seta na caldeira, e esta desaparece, deixando ver Amorosa.)

TODAS - Oh!

O AMOR - Filha do Amor e das Virtudes; chamar-te-ás Amorosa. Vem comigo... vou dar-te as minhas instruções. Urge sair deste lugar maldito. Minhas filhas, vamos!

TODAS - Vamos!...

CORO GERAL -

- Oh, que linda e bela fada Engendrou este fedelho! Ai, que peça bem pregada Ao Senhor Pero Botelho! (Saem correndo.)

[(Cai o pano.)]

ATO PRIMEIRO

Quadro 4


O Largo da Lapa. Juntos a uma casa, um cabide na parede, uma esteira no chão, um baú, uma vela espetada no gargalo de uma garrafa; sobre uma cama de ferro, o Credor fuma tranqüilamente e lê um jornal. Muitas pessoas do povo o rodeiam com curiosidade.

CENA I


O CREDOR, PRIMEIRO e SEGUNDO CURIOSOS, PESSOAS

DO POVO, depois um POLÍCIA

CORO -

- Oh, que coisa esquisita! Estaremos no mundo da lua?! O riso nos excita Ver um tipo morando na rua! Ah! ah! ah! ah! ah! ah! Esta agora não é má!



O CREDOR -

- Paguei na Rua do Lavradio Por mês de casa trinta mil réis; Mas hoje o belo do senhorio Não me incomoda por aluguéis, Porém Eu não lhe exijo reparações, Pois tem Tudo na vida compensações.

CORO - Oh, que coisa esquisita! etc.

O CREDOR - Riam-se! Estou perfeitamente aqui! A casa não pode ser mais ventilada.

PRIMEIRO CURIOSO - Mas diga-nos, por que está o senhor aí deitado?

O CREDOR - É muito simples: tenho um devedor que mora aí defronte, e não há meio de apanhar-lhe vintém. Como o tenho procurado um ror de vezes, sem nunca o encontrar em casa, resolvi estabelecer aqui o meu domicílio. Desafio-o a que me escape!

PRIMEIRO CURIOSO - E se o homem pagar?

O CREDOR - Se pagar, mudarei de residência. Morarei defronte de outro devedor. Irei para a Rua do Carmo. É um meio de cobrar dívidas e morar de graça.

SEGUNDO CURIOSO - Que caradura!

O CREDOR - Eh! lá! não insulte um homem que está em sua casa. Trouxe a minha cama, o meu cabide, o meu baú de roupa e uma vela, para ler um pouco antes de dormir. Com este gás, não há meio de enxergar as letras.

PRIMEIRO CURIOSO - E se chover?

O CREDOR - Já encomendei um toldo. O tempo está seguro. Espero que não chova antes que ele fique pronto.

SEGUNDO CURIOSO - Mas isto é proibido!

O CREDOR - Proibido? Mostre-me a lei que proíbe ao cidadão viver e dormir na praça pública. Na praça pública o que não se pode é fazer discursos políticos, isso sim. Mas dormir? Ora viva, meu amigo!

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