Francisco, meu pai; Irene, minha esposa e crítica salutar de minhas crônicas



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Dedico a

Francisco, meu pai;

Irene, minha esposa e crítica salutar de minhas crônicas;

Rodrigo, Gustavo. Alexandre, Izabela, Flávia, Viviane, Mariana e Nadia, meus lindos filhos;

Vitória, Cecília, Rafaela e Sofia, minhas princesas;

Aos personagens reais e irreais que povoam minhas crônicas;

E a você, caro leitor.


2.O SAPATO SAGRADO 13

3.O PRIMEIRO LIVRO 17

4.UM CONTO DE AMOR 20

21

5.BARQUINHO DE PAPEL 23

6.MEUS NATAIS 26

27

7.UM VAPOR, UM RIO E UMA SAUDADE 30

8.LEMBRANÇAS DE UM TEMPO 34

9.CAVALGANDO UMA BICICLETA MUITO LOUCA 38

10.JURITI 44

11.MINHA MÃE E O SISTEMA KANBAN 48

INTRODUÇÃO

Sou sem pudor, extravagante, irreverente, e não ponho panos mornos quando escrevo. Que vá a merda quem não gostar, porque comigo é assim, com meus irmãos eu não sei.

Eu sou a ovelha negra. Meus irmãos são quase santos.

Minhas crônicas mostram de tudo, por onde vivi e como vivi, e revelam um pouco de minha revolta quando mijo no balcão da privada ou engraxo de preto um sapato marrom de meu pai. Mostram um pouco de meu jeito afobado e desastrado e incendiário quando quase coloco fogo na casa de minha vó, ou quando coloco fogo no palco na primeira vez que trabalhei no teatro, e também da vez que foi acionado o corpo de bombeiro em Córdoba. Mostram o meu lado inocente querendo o retrovisor do ônibus sob meu controle. Outras tantas crônicas sobre o Rio Iguaçu, São Mateus do Sul e Presidente Venceslau.

As crônicas sempre registram as coisas que já vivi.

Leia-as que em muitas delas você vai se encontrar.

Se você gostou ótimo e se você não gostou ótimo também porque para gostar ou não gostar você se deu ao trabalho de ler.




    1. MIJANDO NO BALCÃO DA PRIVADA

Bem, antes de escrever a minha crônica acho legal dar uma voltinha pelo mundo nojento da latrina para saber como foi sua merdamorfose desde os primórdios.

  A história das privadas é bem mais velha do que se pensa. Com certeza tem a mesma idade do aparecimento do homem no planeta terra, e é por uma razão muito clara, pois o primata, como qualquer vivente deste pontinho do imenso universo, tinha e tem para sobreviver que comer, beber, e por necessidade fisiológica, logo a seguir, tinha e tem que esvaziar o tubo digestivo, e o condutor urinário. Fazia a coisa ali na caverna mesmo.

O mau cheiro, provocado pelo bolo fecal e pela urina, obrigou os primeiros habitantes da terra a ir atrás de algum local adequado, fora e afastado da caverna para depositar esta coisa nojenta e mal cheirosa. Resistiram no começo, mas começaram a praticar a coisa a céu aberto.

Começaram a defecar em terreno seco e plano perto do seu habitat, mas logo perceberam que era além do incomodo, aquela coisa começava a ocupar um espaço muito grande do terreno. Quando iam caçar ou lutar acabavam pisando ou escorregando nos excrementos. Experimentaram fazer a defecção então nas grandes elevações que havia por perto e constataram (talvez aí esteja o início da pesquisa científica) que as fezes rolavam morro abaixo e eram depositadas tranquilamente ao sopé da montanha. Evidenciaram, logo a seguir, que esteticamente não era adequado, além do que, o sacrifício de subir o morro, principalmente para os mais velhos e doentes, era fatigante. Cansativos estudos, e muitos debates na caverna, acabaram por descobrir os atributos do rio, e como a princípio, alguns ensaios deram positivos, resolveram então fazer a coisa nojenta na água corrente. Aproveitavam sempre algum tronco de árvore caído sobre a água. O som do pluft do dejeto mergulhando na água para nossos antepassados era muito engraçado e curioso. Existem relatos destes episódios gravados em muitas cavernas. Tão logo o troço era conduzido pela correnteza aproveitavam para lavar a bunda. Isto ficou usual por longo período da história, (Com certeza desta prática surgiu o bidê, bacia oblonga que hoje serve para lavar as partes inferiores do tronco)

E o mundo foi evoluindo a passos largos, e a merda se avolumando nos rios. Tal qual um formigueiro na terra, o número de habitantes foi crescendo violentamente, mas a prática de defecar no rio continuou, e isto acabou por contaminar seriamente as águas. Então começaram longos, e profundos estudos, a fim de desenvolver formas, e mais formas, de como depositar os excrementos fora dos rios. Começou então o nascimento dos esgotos.

Se formos voltar ao tempo verificamos que já há 4000 anos antes de Cristo na Mesopotâmia se tem início a construção do sistema de irrigação. O sistema de irrigação tanto era para separar a água que conduzia os dejetos como a água que era destinada à população como também para irrigar as plantas.

A história está cheia de relatos da preocupação do povo com a merda. Até que na Alemanha os políticos bundas sujas, não agüentando mais o rio Danúbio fedendo e transportando aquela sujeira toda, pelos idos de 1500, obrigaram o uso de fossas sanitárias.

O aparecimento da água encanada e das peças sanitárias com descarga hídrica fez com que a água passasse a servir com uma nova finalidade: afastar propositadamente dejetos e outras impurezas indesejáveis ao ambiente de vivência. A sistemática de carreamento de refugos e dejetos domésticos com o uso da água, embora fosse conhecida desde o século XVI, quando John Harrington (1561-1612) fez um manual de procedimentos de uso ao instalar a primeira latrina no palácio da Rainha Isabel, - esta latrina não tinha descarga, pois era instalada diretamente em cima de um córrego - sua disseminação só veio a partir de 1778, quando Joseph Bramah (1748-1814) inventou a bacia sanitária com descarga hídrica, inicialmente empregada em hospitais e moradias nobres. A generalização dos sistemas de distribuição de água e as descargas hídricas para evacuar o esgoto, provocaram a saturação do solo, contaminando as ruas e o lençol freático. Como nem todos poderiam ter um córrego debaixo da bunda a coisa foi resolvida com valetas que conduziam as porcariadas pelas ruas. A extravasão para os leitos das ruas criou, também, constrangimentos do ponto de vista estéticos, levando a necessidade de criação de esquemas para limpeza das vias públicas das cidades grandes. Na realidade a invenção das tamancas foi exatamente para que as pessoas ao andar pelas ruas pisando nos troços não sujassem os pés.

No Brasil a coisa aconteceu pelos idos de 1850 no Rio de Janeiro.

Como os vasos e sistemas de esgoto eram todos importados da Inglaterra o povo brasileiro resolveu de uma maneira bem mais simples a coisa. Fazer um buraco e construir em cima uma pequena casinha para evitar olhares curiosos quando o indivíduo estivesse fazendo aquelas caretas todas tentando dar saída ao quibe. No início era apenas um buraco com um pedaço de pau atravessado onde os necessitados se equilibravam de cócoras. Como era freqüente o desequilíbrio e os indivíduos irem se misturar com as fezes no fundo do buraco resolveram construir um assoalhado com uma pequena abertura por onde as fezes eram despachadas. Para maior conforto, tempo mais tarde, pensando num lugar mais reservado levantaram paredes.

Normalmente a casinha era em madeira com uma porta. Seu tamanho não passava de um metro por um metro. Sempre coberta em telha para evitar que, quando alguém estivesse no sufoco, alguma chuva repentina não viesse esfriar os seus intentos.

Como a privada sempre foi um lugar ideal para pequenas leituras e a posição “de cócoras” jamais foi a mais apropriada para tal prática lá se foram horas e mais horas de estudos e pesquisas ergonométricas para se chegar à construção do balcão de assento. O balcão era como se fosse um banco com um orifício de certo tamanho que não permitisse você ser engolido pelas ancas, mas, por outro lado que permitisse perfeitamente que os excrementos fossem transferidos e depositados no buraco.

A privada, ou a casinha como usualmente e carinhosamente era chamada, tinha seu lugar reservado no fundo do quintal – longe da casa e longe do lençol freático.

A casinha de nossa casa era por demais cuidada. Minhas irmãs mantinham-na areada e lavada todos os dias. O assento do balcão era uma belezinha. Era como se fosse a mesa da cozinha de tão limpa e asseada. Tinha uma razão para isto, meu pai quando chegava para o café da tarde gostava de ir até lá para ler algumas notícias enquanto fazia suas necessidades fisiológicas. Com aquela limpeza toda, meu pai se sentia a vontade tal qual um rei no seu trono. Este cerimonial para meu pai era sagrado, acontecia todos os dias.

Minha tarefa caseira era recolher lenha e tirar água do poço. Tinha verdadeiro pavor e ojeriza só em pensar de lavar a privada, e ficava puto da vida quando me locomovia para a casinha e minhas irmãs em coro me diziam:

- não vá mijar no balcão; Se mijar vai limpar.

Todo dia era a mesma ladainha quando para lá eu me dirigia:

- não vá mijar no balcão; não vá mijar no balcão.

Certo dia, logo após o almoço quando as manas terminaram a famosa limpeza da privada lá vou eu para fazer minhas necessidades e ainda ouço as duas gralhando no meu ouvido:

- Não vá mijar no balcão; não vá mijar no balcão.

Entrei, fechei e taramelei a porta; Lá dentro desabotoei a calça e saquei o bruto e mirei no buraco do assento do balcão e escutei, puteado como um eco:

- não vá mijar no balcão, não vá mijar no balcão – por momentos isto foi atormentando minha cabeça; fui ficando alucinado e não tive dúvida, deixei que a urina corresse solta de um lado para outro balançando freneticamente o meu órgão mijador; Quase tive um orgasmo, mas saí satisfeito de dentro da privada, vendo o assento do balcão todo urinado; Aquilo foi a minha vingança.

Sai satisfeito, mas fiquei logo em seguida deveras preocupado quando vi meu pai chegando para o café da tarde. Rezei para todos os santos do céu e para Deus para que meu pai naquela hora, num lampejo de amnésia esquecesse a leitura do jornal e não tivesse vontade de ir até a privada. Os malditos santos estavam ausentes e Deus, para me sacanear, por certo, se pôs do lado de minhas irmãs.

Fiquei atrás do galinheiro espiando apreensivo o meu pai que a passos largos, de jornal na mão encaminhava-se ao destino privado. Eu queria que alguma coisa acontecesse neste percurso. Alguém que chamasse; Um tropicão e meu pai caindo; Que a vontade dele ler, e ir ao banheiro passasse, enfim que alguma coisa ocorresse, e impedisse de chegar naquele momento a casinha. Fui olhando seus passos e apavorado vi que a distância entre ele e a latrina foi rapidamente diminuindo. A cada passo que meu pai dava meu coração acelerava mais e mais. Ah! Se uma onda de calor violenta viesse nessa hora secar a urina que depositei em cima do assento do balcão. Quando já estava levando a mão para abrir a porta, quis gritar por socorro para que ele viesse me acudir, mas meu grito ficou sufocado na boca. Fiz o sinal da cruz quando meu pai abriu a porta, entrou e imediatamente saiu gritando:

- Quem fez esta sujeira toda no balcão da privada? Seu grito foi ouvido do outro lado da cidade e o povo em pavoroso saiu pelas ruas. As gotas de urina que restaram na minha bexiga acabaram se acomodando na minha calça. Não sei se meu pai ficou zangado por não ter podido ler o jornal sentado prazerosamente naquele assento da privada sempre limpo, ou por não ter sido ele o primeiro a urinar em todo o balcão; Só sei que me deu uns safanões, e me fez como escravo lavar a maldita privada, e ainda por cima ouvindo minhas manas às gargalhadas em coro gralhando:



- Eu disse, não mije no balcão!


  1. O SAPATO SAGRADO


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