Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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"Não, nunca! Fiquei contente que tenha lhe telefonado novamente porque como ele lhe disse esta manhã, vai precisar da cooperação de todos".

"Ele vai ter a minha", declarou Pohl sombriamente. "Desde que ele não veio, suponho que devo entregar isto ao senhor". Tirou uns papéis do bolso de seu paletó, olhou-os, escolheu um e me entregou. Aproximei-me da mesa para pegá-lo.

Era uma única página encimada com um texto elegantemente impresso: "Memorandum de Sigmund Keyes". Rabiscada à tinta, seguia-se uma lista de cidades:

Dayton, Ohio, 11 e 12 de agosto Boston, 21 de agosto Los Angeles, 27 de agosto a 5 de setembro Meadville, Pa., 15 de setembro Pittsburgh, 16 e 17 de setembro Chicago, 24 a 26 de setembro Philadelphia, 1 de outubro "Muito obrigado", agradeci-lhe, e guardei o papel em meu bolso. "Cobre uma porção de cidades".

Pohl concordou. "Talbott não pára, é um bom vendedor, admito isto. Diga a Wolfe que fiz exatamente como ele disse, e consegui isto de uma anotação que estava aqui na mesa de Keyes, portanto ninguém mais sabe de nada a este respeito. Estas são todas as viagens que Talbott fez desde 1 de agosto. Não tenho idéia para que Wolfe quer isto mas, por Deus! isto mostra que ele está trabalhando, e quem é que pode saber o que um detetive está procurando? Não me importa o quanto,possa ser misterioso desde que possa ajudá-lo a pegar Talbott".

Eu estava de olho nele, tentando descobrir se ele era mesmo tão ingênuo quanto aparentava ser. Isto então me fez entender porque Wolfe tinha tentado manter Pohl afastado do telefone dando-lhe algum trabalho para fazer. Mas ele esclarecera aquilo suficientemente rápido e já estava pronto, para pedir mais coisas. Porém em lugar de Wolfe, ele pediu a mim. E me bombardeou com este: "Vá me comprar uns sanduíches e café. Há um bom lugar na Rua 46, o Perrine".

Eu me sentei. "Isto é gozado, eu estava para lhe sugerir a mesma coisa. Estou cansado e com fome. Então vamos juntos".

"Com os diabos, como é que eu posso fazer isto?" perguntou ele.

"Por que não?"

"Porque eu poderia não ser capaz de entrar aqui novamente. Esta é a sala de Keyes, mas ele está-morto, eu possuo parte deste negócio e tenho o direito de estar aqui! Mas Dorothy está tentando me tirar da jogada - a danada, costumava sentar-se em meu colo! Eu queria uma informação e ela ordenou ao pessoal do escritório que não me desse nenhuma. Ameaçou chamar a polícia para me pôr para fora, mas ela não fará isto. A semana passada já teve o suficiente com a polícia para não querer mais nada com ela". Pohl estava novamente olhando aborrecido para mim. "Prefiro de carne, com café preto sem açúcar".

Sorri à sua zanga, "Então o senhor está invadindo esta sala. Onde está Dorothy?"

"Na entrada do hall, na sala de Talbott".

"Ele está lá?"

"Não, não esteve lá durante o dia todo".

Olhei para meu pulso, e vi que era uma e vinte. Levantei-me. "Centeio com mostarda?"

"Não. Pão branco sem mais nada - nem manteiga".

"Certo. Mas com uma condição! Que me prometa não telefonar para o Sr. Wolfe. Se o fizer pode estar certo que vai lhe dizer que conseguiu o que ele estava procurando e eu quero fazer uma surpresa a ele".

Ele me prometeu e disse que queria dois sanduíches e bastante café; eu saí. Dois homens e uma mulher que estavam de pé no corredor conversando me examinaram da cabeça aos pés enquanto eu passava mas não tentaram me parar. Caminhei até os elevadores, desci e me dirigi diretamente a uma cabina telefônica no hall da entrada.

Orrie Carther atendeu novamente e eu comecei a suspeitar que ele e Saul tinham continuado o jogo de cartas com Wolfe.

"Estou fazendo o que mandou", disse a Wolfe quando este atendeu.

"Vou comprar sanduíches de carne para Pohl e para mim, mas arranjarei um plano.

Ele me prometeu não ligar para o senhor enquanto eu saísse, e enquanto eu não voltar ele ficará sob controle. Está instalado na sala de Keyes - que o senhor deveria ver - apesar dos protestos de Dorothy, e pretende ficar lá durante o dia todo. O que devo fazer? Voltar para casa ou ir a um cinema?"

"O Sr. Pohl tem almoço?"

"Claro que não. É por isto que ele pediu os sanduíches".

"Então você tem que lhe levar". Fiquei calmo porque sabia que ele fazia aquilo por bondade ou pelo menos por seu estômago. Não suportava a idéia de alguém ficar sem uma refeição, mesmo o seu pior inimigo.

"Certo", concordei, "posso ganhar uma gorjeta. De qualquer maneira, aquele truque que o senhor tentou não funcionou. Ele logo achou uma anotação das viagens de Talbott, na mesa de Keyes, e a copiou em uma página do bloco de papéis dele. Eu estou com ela em meu bolso".

"Leia-a para mim".

"Oh, não pode esperar!" Peguei o papel e li a lista de cidades e datas. Duas vezes ele disse que eu estava indo muito depressa, portanto, aparentemente, estava tomando nota. Quando aquela farsa acabou perguntei: "e depois de alimentá-lo, o que vou fazer?'

"Telefone novamente quando tiverem acabado de almoçar".

Bati com o fone no gancho.

CAPÍTULO 10

Os sanduíches estavam muito bons. A carne macia e no ponto, com a quantidade certa de gordura e o pão de boa qualidade. Eu estava com um pouco menos de leite, porque tinha trazido, para mim só um copo, mas tomei-o mais devagar para ter mais tempo. Entre os bocados discutimos o assunto e cometi um erro. Não deveria, é claro, ter dito nada que fosse a Pohl, principalmente porque quanto mais eu o conhecia menos eu gostava dele, porém os sanduíches estavam tão bons que eu me descuidei e deixei escapar que, pelo que eu sabia, nenhuma pressão tinha sido feita nem sobre a telefonista nem sobre o garçom do hotel Churchill. Pohl estava resolvido a telefonar imediatamente a Wolfe para dizer uns desaforos e para evitar isto eu tive que lhe dizer que Wolfe estava com um outro homem no caso e eu não sabia quem ou o que eles estavam protegendo.

Estava quase a ponto de telefonar, eu mesmo, quando a porta se abriu e Dorothy Keyes e Victor Talbott entraram.

Eu me levantei. Pohl continuou sentado.

"Alô", falei alegremente. "Lindo local o que vocês têm aqui".

Nenhum deles, nem mesmo me cumprimentou. Dorothy caiu em uma cadeira em frente à parede, cruzou as pernas e olhou para Pohl fixamente com o queixo erguido.

Talbott marchou sobre nós, parou próximo a mim e disse a Pohl, "sabe muito bem que você não tem o direito de estar aqui, remexendo as coisas e tentando dar ordens aos funcionários. Não tem este direito de modo nenhum. Vou lhe dar um minuto para sair daqui".

"Você vai me dar?" Pohl parecia aborrecido. »De fato estava aborrecido. "Você é pago como empregado - e você é que não vai continuar aqui por mais tempo. Eu sou em parte proprietário e você é que vem me dizer p'ra sair? Eu é que estou tentando dar ordens aos funcionários? Estou dando aos funcionários a chance de dizerem a verdade e eles vão fazer isto! Dois deles passaram uma hora no escritório do advogado, colocando tudo no papel. Foi feita uma queixa contra Broadyke por recebimento de material roubado e agora ele vai ser preso".

"Saia daqui", disse Talbott sem levantar a voz.

Sem se mover, Pohl falou, "E também posso acrescentar que foi feita uma queixa contra você por roubar materiais. Os desenhos que vendia a Broadyke. Vai tentar arranjar um álibi para isto também?"

A mandíbula de Talbott abriu-se e fechou-se durante alguns segundos antes que abrisse seus lábios para falar. Seus dentes permaneceram fechados enquanto ele disse, "agora pode sair".

"Ou posso ficar. E vou ficar". Pohl estava zombando, e aquilo fez com que seu rosto se vincasse ainda mais. "Deve ter notado que não estou sozinho".

Eu não me incomodei com aquilo. "Um momento", falei, "eu vou segurar seus paletós, e é tudo. Não conte comigo Sr. Pohl. Sou simplesmente um espectador, exceto por uma coisa: o senhor ainda não me pagou seus sanduíches e seu café. Um dólar, antes que se vá, se está saindo".

"Não estou saindo. Aqui é diferente do que foi no parque aquela manhã, Vic. Há uma testemunha".

Talbott deu dois passos rápidos, usou um pé para afastar a grande cadeira de ébano da mesa, agarrou a garganta de Pohl, pegou sua gravata e arrancou-o da cadeira. Pohl inclinou-se para frente tentando ao mesmo tempo se levantar, mas Talbott, movendo-se rápido, continuou agarrando-o e arrastando-o pelo canto da mesa.

Eu tive que me afastar para não ficar no caminho.

De repente Talbott caiu para trás, levantando violentamente o braço cuja mão agarrava um pedaço da gravata. Pohl não pôde saltar com muita agilidade, com a sua idade, mas tentava fazer o melhor que podia. Endireitou-se em seus pés e começou a gritar "Socorro! Polícia! Socorro!" o mais alto que podia e agarrou a cadeira, onde eu estivera sentado, e levantou-a bem alto. Sua idéia era atirá-la em seu inimigo enfraquecido. Os músculos de minha perna se prepararam para agir prontamente, mas Talbott levantou-se rapidamente e arrancou a cadeira dele. Pohl correu, fugindo para trás da mesa, com Talbott o perseguindo. Pohl, gritando novamente por socorro, encaminhou-se para a outra ponta da mesa, correu através da sala na direção de uma mesa onde estavam colocados vários objetos, agarrou um ferro elétrico e atirou-o. Errando seu alvo, este espatifou-se contra a mesa de ébano e derrubou o telefone no chão. Talbott parece que ficou louco quando percebeu que tinha sido alvo de um ferro elétrico, porque quando alcançou Pohl, em vez de tentar agarrá-lo por alguma coisa mais forte que uma gravata, esticou-se e prendeu-se em sua mandíbula, apesar do conselho que eu lhe tinha dado na véspera.

"Parem com isto!" gritou uma voz.

Olhando para a direita, vi duas coisas: primeiro, que Dorothy, ainda em sua cadeira, não tinha nem mesmo descruzado suas pernas, e, segundo, que o homem da lei que entrou não era o vigia do andar mas um guarda que eu conhecia de vista. Evidentemente ele devia estar de prontidão em algum lugar por perto, mas era a primeira vez que o estava vendo ali.

Ele separou os gladiadores. "Isso não é modo de se comportarem", esbravejou.

Dorothy, movendo-se rapidamente, já estava ao seu lado. "Este homem", disse ela, indicando Pohl, "forçou sua entrada aqui e foi mandado embora, mas não saiu. Este lugar está sob meus cuidados e ele não tem direito de estar aqui. Quero que ele seja acusado de invasão de propriedade e perturbação da ordem, ou qualquer coisa assim. Tentou também matar o Sr. Talbott com uma cadeira e depois com aquele ferro que atirou sobre ele".

Tendo recolocado o telefone sobre a mesa eu estava por perto e o polícia me deu uma olhada.

"O que estava fazendo Goodwin, lixando as unhas?"

"Não senhor", respondi respeitosamente, "só que eu não queria me intrometer".

Talbott e Pohl estavam ambos falando ao mesmo tempo.

"Eu sei, eu sei", disse o tira zangado. "Normalmente com pessoas como vocês, penso que o melhor seria sentar e discutir o assunto, mas depois do que aconteceu com Keyes as coisas estão diferentes do costume. Então perguntou a Dorothy, "a senhorita diz que está fazendo uma acusação?'

"Certamente que estou":

"Eu também estou", declarou Talbott.

"Então é isto. Venha comigo, Sr. Pohl".

"Vou ficar aqui". Pohl ainda teimava. "Tenho direito de estar aqui e vou ficar aqui".

"Não, não vai. O senhor ouviu o que a moça disse".

"Sim, mas o senhor não ouviu o que eu disse. Eu fui atacado.

Ela faz uma acusação. Eu também. Eu estava sentado calmamente na cadeira, sem me mexer, quando Talbott tentou primeiro me estrangular e depois bater em mim. O senhor não o viu batendo em mim?"

"Foi em defesa própria", declarou Dorothy. "Você atirou um ferro".

"Para salvar minha vida! Ele me atacou..."

"Tudo que fiz..."

"Parado", o tira falou rudemente. Nestas circunstâncias não adianta falar nada comigo. Os senhores querem me acompanhar, ambos? Onde estão os seus casacos e chapéus?"

Eles se foram. Primeiro discutiram e gesticularam, mas acabaram indo, Pohl na frente, só com metade da gravata, seguido por Talbott e o guarda na retaguarda.

Pensando que eu podia arrumar um pouco as coisas, entrei e endireitei a cadeira que Pohl tinha tentado usar, peguei o ferro colocando-o novamente no lugar e então examinei a superfície da mesa para ver o estrago que tinha sido feito nela.

"Acho que você é um covarde", replicou Dorothy.

Ela sentara-se novamente e cruzara as pernas. Elas estavam quietas, eu não precisava temer algum pontapé.

"Isto é discutível", afirmei. "Mas com..." Uma campainha tocou.

"O telefone", disse Dorothy. Eu o atendi.

"A srta. Keyes está aí?"

"Sim", respondi. Ela está muito ocupada - sentada. Algum recado?"

"Diga-lhe que o Sr. Donaldson está aqui para vê-la".

Assim o fiz e pela primeira vez vi uma expressão inquestionavelmente humana no rosto de Dorothy. Ao som deste nome todos os traços de desprezo se desvaneceram. Os músculos se comprimiram e ela empalideceu. Pode ser que fosse ou não que acabara de me chamar, eu não sabia, porque, nunca tinha visto ou ouvido nada a respeito de Donaldson. Mas certamente ela estava muito assustada!

Fiquei cansado de esperar e repeti novamente. "O Sr. Donaldson.está aqui para vê-la".

"Eu..." ela umedeceu os lábios e engoliu em seco. Daí a um momento levantou-se e disse em uma voz nada delicada.

"Diga a ela que o mande para a sala do Sr. Talbott", e saiu.

Repeti a ordem, pedi uma linha externa e quando ouvi o sinal de discar, liguei para casa. Eram três e cinco em meu relógio. Fiquei mudo por um momento quando mais uma vez ouvi a voz de Orrie.

"Archie", falei rapidamente. "Deixe-me falar com Saul".

"Saul? Ele não está aqui. Saiu há muito tempo".

"Ah! pensei que fosse uma festa... Então chame Wolfe".

"Sim, Archie?" atendeu Wolfe.

"Estou sozinho no escritório de Keyes, sentado em sua mesa.

Trouxe o almoço de Pohl e ele está me devendo um dólar. Simplesmente me ocorreu que o Sr. terá que andar rápido para evitar que seus clientes sejam todos presos. Lembra-se do tempo em que enterrou Clara Fox em uma caixa de madeira com tubo de borracha para respirar? Ou do tempo..."

"O que aconteceu?"

"Eles estão agarrando todos os seus clientes, é tudo. Broadyke está sendo acusado por receber materiais roubados - os desenhos que ele comprou de Talbott. Pohl foi levado por perturbar a paz e Talbott por agressão e ofensa física. Para não dizer que a Srta. Keyes acabou de sair daqui apavorada".

"A respeito do que está falando? O que aconteceu?"

Contei-lhe tudo e como sabia que ele não tinha nada para fazer além de ficar sentado e deixar que Orrie atendesse o telefone não omiti nada. Enquanto contava sugeri que poderia ser um bom plano ficar por perto e descobrir o que estava acontecendo com o Sr. Donaldson, que tinha feito a moça tremer e empalidecer só com o som do seu nome.

"Não, penso que não", disse Wolfe, "a menos que seja um alfaiate. Verifique apenas se ele é um alfaiate, mas discretamente. Não deixe que percebam. Se for, consiga seu endereço. Então ache a Sita. Rooney - espere, vou lhe dar seu endereço..."

"Eu sei onde ela mora".

"Ache-a. Consiga sua simpatia. Fique sozinho com ela. Faça com que solte a língua".

"Atrás de que eu vou?...não, eu sei atrás de que eu estou. E o senhor está em busca do que?..."

"Não sei. Qualquer coisa que consiga. Descubra você. Sabe que num caso desta importância, não há nada a fazer senão tentativa e erros..."

Um movimento da porta me chamou a atenção e eu me voltei. Alguém tinha entrado e se aproximava de mim.

"Certo", disse a Wolfe. "Não tenho idéia de onde ela possa estar mas vou encontrá-la nem que demore o dia e a noite inteira". Desliguei e sorri à recém-chegada cumprimentando-a.

"Olá, Srta. Rooney. Procurando por mim?"

CAPÍTULO 11

Annie Audrey estava bem arrumada com um vestido marrom de lã com pespontos vermelhos e pequenos nós. Porém não parecia satisfeita consigo mesma ou com mais ninguém. Nunca se poderia pensar que um rosto com aquela pele tão corada poderia parecer tão triste. Sem me cumprimentar, nem mesmo com um aceno, ela perguntou rudemente, enquanto se aproximava, "como é que se consegue ver um homem que está preso?"

"Isto depende", eu lhe respondi. "Não adianta estrilar comigo desta maneira. Não fui eu quem o prendeu. Quem é que quer ver? Broadyke?"

"Não". Ela caiu sobre uma cadeira como se precisasse se apoiar rapidamente. "Wayne Safford".

"Preso? Por quê?"

"Eu não sei. Eu o vi no estábulo hoje de manhã, e fui para o centro da cidade para ver um trabalho. Há pouco telefonei a Lucy, minha melhor amiga aqui, e ela me disse que estava correndo a notícia a respeito de que foi Vic Talbott quem teria vendido aqueles desenhos a Broadyke. Então eu vim para descobrir o que estava acontecendo e quando soube que Talbott e Pohl tinham sido presos, telefonei a Wayne para contar a ele. E, então, o homem que atendeu disse que um polícia tinha estado lá e o levara".

"Por que motivo?"

"O homem não sabia. O que preciso fazer para vê-lo?"

"Você, provavelmente nada".

"Mas tenho que vê-lo!"

Sacudi a cabeça. "Você acredita que tem que vê-lo, eu também, mas os tiras, não. Isto depende do que diz o convite dele. Se eles só querem consultá-lo a respeito do suor de cavalos, poderá estar em casa dentro de uma hora. Se eles tiverem alguma coisa contra ele, ou pensarem que têm, só Deus sabe! Você não é nem advogada, nem parente".

Ela sentou-se e me olhou mais triste que nunca. Depois de um minuto declarou amargamente. "Ontem você disse que eu podia ser simpática".

"Está achando que eu devia pegar um trator e remover céus e terras?" Sacudi a cabeça novamente. "Mesmo que você fosse tão linda que fizesse minha cabeça rodar, o melhor que eu podia fazer por você, agora, seria segurar sua mão e julgar por sua expressão que não é isto que tem em mente. Se importaria de me contar o que tem em sua cabeça além de curiosidade?"

Ela levantou-se, circundou dois lados da mesa para alcançar o telefone, colocou-o no ouvido e depois de um minuto disse à telefonista, "aqui é Audrey, Helen. Pode me ligar com... não. Esqueça".

Desligou, apoiou-se em um canto da mesa e me olhou novamente com indiferença.

"Sou eu", falou.

"O quê?"


"Este problema. Onde quer que eu vá existem problemas".

"Certo, o mundo está cheio deles. Onde quer que alguém vá há sempre problemas. Você é instável. Ontem estava assustada porque pensava que eles podiam acusá-la de assassínio, e nenhum deles nem mesmo mencionou isto. Talvez esteja enganada novamente".

"Não, não estou", ela parecia inflexível. "Havia aquele negócio de me acusarem de ter roubado aqueles desenhos. Eles não me pegaram por aquilo, mas percebeu que tentaram. Agora, de repente, tudo se esclarece, estou fora disto, e o que acontece? Wayne está preso por homicídio. Próxima coisa..."

"Pensei que não sabia por que ele tinha sido preso".

"Não sei. Mas vai ver. Ele estava comigo, não estava?" Ela empurrou a mesa e levantou-se. "Penso - não, tenho certeza - vou ver Dorothy Keyes".

"Ela está ocupada com uma visita".

"Sei disto, mas talvez ela já se tenha ido".

um homem chamado Donaldson, estou imaginando a respeito dele. Tenho palpite que a Srta. Keyes está começando uma investigaçãozinha por conta própria. Por acaso sabe se ele é detetive?"

"Não, não é. É amigo e advogado do Sr. Keyes. Eu o vi aqui muitas vezes. Você..."

O que a interrompeu foi um homem entrando pela porta e se dirigindo a nós.

Era um homem que eu conhecia há anos. "Estamos ocupados", disse-lhe bruscamente, "volte amanhã".

Eu devia ter juízo suficiente para parar de brincar com o sargento Purley Stebbins, há muitos anos da Seção de Homicídios, porque sempre eu fazia asneiras e me complicava. O que o aborrecia, o que sempre acontecia, não eram as minhas brincadeiras, mas o que ele considerava minha interferência com o cumprimento de seu dever.

"Então você está aqui", ele declarou.

"Certo. Srta. Rooney, este é o sargento..."

"Eu já o conheço". O rosto dela estava tão irritado com ele, quanto tinha estado comigo.

"É verdade, já nos conhecemos", concordou Purley. Seus olhos castanhos e francos a estavam fixando. "Tenho estado à sua procura, Srta. Rooney".

"Oh! Deus! mais perguntas?"

"As mesmas. Estou só conferindo. Lembra-se da declaração que assinou, onde dizia que naquela terça-feira de manhã estava na Academia de Equitação, com Safford, desde um quarto para as seis até depois das sete e meia e vocês dois estiveram lá, todo o tempo? Lembra-se disto?"

"Claro que lembro".

"Quer mudá-lo agora?"

Audrey zangou-se. "Mudar o quê?"

"Sua declaração".

"Claro que não, por que haveria de querer'?"

"Então qual é sua explicação para o fato de ter sido vista a cavalo, no parque, durante aquele período? E Safford, em outro cavalo, estava com a senhora, ele já admitiu isto".

"Conte até dez", eu disse a ela, "antes de responder. Ou mesmo até cem..."

"Cale a boca", resmungou Purley. "Qual é sua explicação para isto, Srta. Rooney? Devia ter imaginado que isto podia acontecer e já ter arranjado uma. Qual é a resposta?"

Audrey tinha se levantado da mesa e estava de pé encarando seu inquisidor. "Talvez", sugeriu ela "alguém não tenha enxergado bem. Quem disse que nos viu?"

"Certo". Purley puxou um papel de seu bolso e desdobrou-o. Olhou-me e disse "somos cuidadosos a respeito destes pormenores quando seu gordo patrão mete seu nariz no meio". Segurou o papel de modo que Audrey pudesse vê-lo também. "É uma ordem de prisão como testemunha material. Seu amigo Safford quis ler cuidadosamente. Também quer?"

Ela ignorou sua generosa oferta. "O que significa isto?" perguntou.

"Isto significa que a senhorita vai rodar comigo para o Centro".

"Isto também quer dizer..." comecei.

"Cale a boca". Purley deu um passo à frente para pegá-la pelo braço, mas não conseguiu porque ela se afastou, deu volta na mesa e escapou. Ele a seguiu de perto enquanto ela saía pela porta. Aparentemente parecia que Audrey tinha encontrado um meio para se encontrar com seu Wayne.

Eu me sentei um pouco enquanto franzia os lábios olhando para o cinzeiro sobre a mesa. Sacudi minha cabeça, para nada em particular, só pelo jeito que as coisas iam indo. Alcancei o telefone, pedi uma linha externa e disquei novamente.

Wolfe atendeu.

"Onde está Orrie?" perguntei. "Tirando uma soneca em minha cama?"

"Onde você está?' inquiriu Wolfe calmamente.

"Ainda no escritório de Keyes. A coisa continua. Foram-se mais dois".

"Mais dois o quê? P'ra onde?"

"Mais dois clientes. P'ro xadrez. Estamos ficando tremendamente por baixo".

"Quem e por quê?"

"Wayne Safford e Audrey Rooney". Contei a ele o que tinha acontecido, sem me preocupar em explicar o que ela tinha dito antes de nossa conversa terminar. No fim eu acrescentei: "portanto, quatro dos cinco foram agarrados, e também Talbott. Estamos em uma bela posição, que nos deixa só com uma cliente, Dorothy Keyes. E eu não ficaria surpreso se ela também, à sua maneira, e a julgar pelo olhar de seu rosto quando soube quem estava... espere um minuto".

O que me interrompeu foi a entrada de um outro visitante na sala. Era Dorothy Keyes. "Eu chamo depois", falei desligando e deixando minha cadeira.

Dorothy encaminhou-se para mim. Ela estava parecendo, mais do que nunca, humana. Sua arrogância tinha desaparecido completamente, a cor de sua pele era acinzentada e seus olhos estavam cheios de preocupação.

"O Sr. Donaldson se foi?" perguntei a ela.

"Sim".

"Hoje o dia não foi nada bom. A Srta. Rooney e Wayne Safford foram presos. Parece que a polícia pensa que eles deixaram de contar alguma coisa a respeito daquela manhã de terça-feira. Eu estava justamente contando ao Sr. Wolfe quando você entrou..."

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