Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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Não lhe dei nota nenhuma, porque naquela hora eu estava de espírito prevenido e não podia confiar em meu julgamento.

Frank Broadyke foi uma atração. Tinha adotado entusiasticamente a sugestão de Talbott de que se ele, Broadyke, tivesse intenção de matar alguém, esse alguém seria Talbott e não Keyes, desde que isto implicava que a prosperidade de Keyes e sua profissão tinha sido devida mais ao sucesso de Talbott, como chefe, de vendas do que à habilidade de Keyes como desenhista. Broadyke tinha gostado muito daquela teoria e ficava sempre retornando a ela. Ele admitiu que a piora crescente de seu próprio volume de negócios tinha coincidido com a melhoria dos de Keyes, e admitiu, ainda, quando a questão foi mencionada por Dorothy, que somente três dias antes de sua morte, Keyes, tinha proposto uma ação na justiça contra ele, por prejuízos, exigindo uma indenização de cem mil dólares, queixando-se de que Broadyke tinha roubado projetos do seu escritório que lhe valeram contratos para uma misturadora de concreto e uma máquina de lavar elétrica. Mas por que diabos Keyes manteria o homem de que ele naturalmente não precisava se era Vic Talbott, quem tinha expandido o negócio com seus métodos especializados de venda - e sua personalidade. Pergunte a qualquer desenhista industrial de reputação, continuou ele; pergunte a todos eles. Keyes tinha sido um medíocre e insignificante desenhista industrial, sem nenhuma compreensão da complexa e íntima relação entre função e desenho. Posso ver pelas minhas anotações que ele repetiu isto quatro vezes.

Tinha feito o melhor possível para tentar recuperar o terreno perdido. Participou, disse ele, da essência da trama; o amanhecer o animava e inspirava; aquela era a sua hora do dia. Todos os seus mais brilhantes sucessos tinham sido concebidos antes do amanhecer, enquanto ainda havia orvalho nos lugares sombreados. Durante a tarde e à noite ele era um verdadeiro cabeça-oca. Mas ultimamente tinha se tornado preguiçoso e descuidado, deitando e acordando muito tarde e foi então que sua estrela começou a se ofuscar. Recentemente, muito recentemente, ele se dispusera a acender a chama novamente, e somente no último mês tinha começado a ir para seu escritório antes das sete horas da manhã, três horas antes da chegada dos funcionários. Para sua alegria e satisfação aquilo estava começando a dar resultado. Os momentos de inspiração estavam voltando. Naquela manhã de terça-feira mesmo, manhã em que Keyes foi assassinado, tinha cumprimentado seus funcionários quando chegaram mostrando-lhes um revolucionário e irresistível desenho para uma batedeira elétrica de ovos.

Alguém o visitara, Wolfe quis saber, em seu escritório durante a criação, isto é entre seis e meia e oito horas? Não. Ninguém.

Se dependesse de um álibi, Broadyke, entre aquelas três pessoas, estava perto de ser acusado.

Desde que eu gostava de Audrey Rooney e teria me casado com ela a qualquer momento - não fosse por não querer que minha mulher fosse comentada publicamente, e havia uma fotografia dela no calendário pendurado na parede do Sam's Diner - era meio desagradável saber que os pais dela, em Vermont, a tinham realmente registrado como Annie e ela mesma havia mudado seu nome. Claro que isto não tinha nenhum problema se ela não apreciasse o Annie com Rooney, mas meu Deus! por que Audrey? Aquilo demonstrava uma grande falha dela!...

É claro que isso não a tornava mais culpada, porém sua história, sim, colaborava muito para aquilo. Ela havia trabalhado no escritório de Keyes, como secretária de Victor Talbott. Mas há um mês Keyes a despedira porque suspeitava que ela estava desviando desenhos e os vendendo a Broadyke. Quando ela exigiu provas daquilo e Keyes não pôde obtê-las ela provocara um escândalo, no que eu podia acreditar facilmente. Ela começou então a invadir seu escritório particular com tanta freqüência que ele fora o brigado a contratar uma pessoa para conservá-la lá fora. Ela tentara convencer o resto dos funcionários, quarenta deles, a se insurgirem contra ele até que lhe fosse feito justiça - e quase obteve sucesso. Tentou pegá-lo em casa mas não conseguiu. Oito dias antes de sua morte, na segunda-feira pela manhã, ele a encontrara esperando quando chegou à Academia de Equitação para pegar seu cavalo. Com a ajuda do cavalariço, Wayne Safford, Keyes montou e saiu ruidosamente em direção ao parque.

Na manhã seguinte, porém, Annie Audrey estava lá, outra vez, e na seguinte também. O que a aborrecia mais, como ela explicou a Wolfe no princípio, é que Keyes tinha se recusado a ouvi-la, nunca escutou sua explicação; tendo sido mais mesquinho e inflexível do que nunca. Ela pensava que ele deveria tê-la ouvido. Mas não disse, tão claramente, que a outra razão para que ela continuasse aparecendo na Academia fora de que o cavalariço parecia não se importar, mas isto poderia ser acrescentado na conversa. Na quarta manhã, quinta-feira, Vic Talbott também tinha chegado para acompanhar Keyes em seu passeio. Keyes, importunado por Audrey, a empurrara com seu chicote; então Wayne Safford tinha sacudido Keyes com força suficiente a ponto de fazê-lo perder o equilíbrio e cair; Talbott interveio e deu um empurrão em Wayne; Wayne revidara com um soco que derrubou Talbott no chão da cocheira. Ah!, ia me esquecendo... a cocheira ainda não tinha sido limpa...

Evidentemente, pensei eu, Wayne teve a desforra quando estava lutando em um escritório belamente mobiliado sobre um tapete Kerman; também pensei que se eu fosse Keyes teria tentado desenhar um cavalo elétrico para meu uso pessoal... No dia seguinte, porém, ele ouviu mais censuras de Audrey. E aquilo foi ainda mais longe; três dias depois, segunda-feira, foi a mesma coisa. Talbott não estivera lá nos dois dias seguintes.

Terça-feira de manhã Audrey chegou lá às quinze para as seis; a vantagem de sua chegada tão cedo era que ela podia tomar café enquanto Wayne limpava os cavalos. Eles comeram rosca de canela com café (Wolfe torceu 0 nariz com aquilo porque detestava aquelas roscas). Pouco depois das seis um telefonema do hotel Churchill dizia para não selarem o cavalo de Talbott e para dizerem a Keyes que ele, Talbott, não iria lá. As seis e meia em ponto Keyes chegou, como de costume, respondeu com um sombrio apertar de lábios à provocação de Audrey e saiu cavalgando. Audrey ficou na Academia por mais uma hora e ainda estava lá, às sete e trinta e cinco, quando o cavalo de Keyes retornou com a sela vazia.

Wayne Safford permanecera também lá o tempo todo? Sim, eles estiveram juntos o tempo todo.

Audrey e Wayne, portanto, estavam bem ajustados. Quando chegou a vez de Wayne ele não a contradisse em nenhum ponto, o que eu pensei que era um comportamento muito civilizado para um simples cavalariço. Ele também cometeu o erro de mencionar as roscas de canela, porém, de qualquer maneira tinha sido uma reconstituição perfeitamente igual.

Quando eles se foram, depois das duas horas da manhã, eu bocejando e espreguiçando disse a Wolfe "cinco possíveis bons clientes, heim?"

Ele resmungou aborrecido e pôs sua mão na beirada da mesa para empurrar sua cadeira para trás.

"Eu poderia pensar nisto com melhores resultados", declarei "se você sugerisse alguma coisa. Não Talbott, este não precisa. Sou melhor juiz em olhares amorosos do que você e eu o vi olhando para Dorothy e neste ponto, ele não vai lá muito bem. Mas os clientes? E Pohl?"

"Ele precisa de dinheiro, talvez desesperadamente, e agora vai consegui-lo".

"E Broadyke?"

"Sua vaidade foi mortalmente ferida, seus negócios estavam indo por água abaixo e ele estava sendo processado por uma grande soma de dinheiro".

"Dorothy?"

"Uma filha. Uma mulher. Isso a deve ter levado de volta à infância e hoje, poderia levá-la a pensar em um brinquedo proibido".

"Safford?"

"Um idiota romântico que, três dias depois de conhecer uma moça, o tonto estava comendo roscas de canela com ela, às seis horas da manhã".

Concordei.

"E ele viu Keyes bater na moça com o chicote".

"Não bater, empurrar".

"Pior ainda, mais humilhante. Além disso ela o convenceu de que o Sr. Keyes estava cometendo uma grande injustiça contra ela".

"Certo, disso eu sei. E a respeito dela?"

"Uma mulher sendo enganada ou tendo sido apanhada enganando alguém. Em ambos os casos, perturbada".

"Também ele a empurrou com seu chicote!"

"Não", discordou Wolfe. "Exceto em casos de desforra imediata e premente, nenhuma' mulher recorre à violência física contra alguém. Isto nunca seria feminino. Ela planeja engenhosamente". Ele se levantou. "Estou com sono", disse e encaminhou-se para a porta.

Seguindo-o, falei, "só sei de uma coisa: por mim eu já escolheria alguém. Não posso entender por que Cramer queria vê-los outra vez, inclusive Talbott, depois de passar uma semana toda com eles! Por que ele não os joga fora e escolhe cinco cartas novas? Ele está sofrendo que nem uma criança... Devo telefonar-lhe?"

"Não". Estávamos no hall. Wolfe dirigindo-se para o elevador para subir ao seu quarto, no segundo andar, voltou-se. "O que ele queria?"

"Ele não disse, mas posso adivinhar. Ele está completamente parado no escuro, no meio de seis becos sem saída, e veio para verse o senhor tinha o mapa da mina".

Subi pela escada, já que o elevador dava somente para quatro pessoas e só Wolfe dentro dele já ficava meio apertado...

CAPÍTULO 7

"Xeque-mate" disse Orrie Carther às dez e cinqüenta e cinco, na quarta-feira de manhã.

Eu tinha lhes dito que o caso Keyes bateu em nossa porta, que tínhamos cinco suspeitos como clientes e isto era tudo. Wolfe não parecia inclinado a me dizer qual seria a tarefa deles e então eu os estava entretendo com cartas em lugar de resumir-lhes minhas anotações. As onze horas em ponto, terminamos o jogo, e Orrie e eu puxamos a carteira para Saul, como de costume. Poucos minutos depois a porta da sala se abriu e Wolfe entrou. Cumprimentou os dois, instalou-se atrás de sua mesa, pediu cerveja e me perguntou, "você explicou as coisas a Saul e Orrie?"

"Certamente que não. Tudo que eu sabia era confidencial".

Ele grunhiu e me mandou chamar o inspetor Cramer. Disquei o número e tive mais dificuldade do que o normal, em conseguir falar com ele. Finalmente Cramer atendeu e eu fiz sinal a Wolfe e como ele não me mandou deixar a sala, fiquei. Aquilo não foi bem uma conversa.

"Sr. Cramer? Nero Wolfe".

"Certo, o que o senhor quer?"

"Sinto muito mas estava ocupado ontem à noite. Sempre é um prazer vê-lo. Estou comprometido com o problema da morte de Keyes e creio que será do nosso interesse o senhor me dar algumas pequenas informações de rotina".

"Como o quê?"

"Para começar, o nome e o número do polícia montada que viu o Sr. Keyes no parque às sete e dez daquela manhã. Quero mandar Archie..."

"Vá para o inferno!" a ligação foi cortada.

Wolfe desligou, alcançou a bandeja de cerveja que Fritz tinha trazido e me disse, "chame o Sr. Skinner no escritório da Procuradoria do Distrito".

Assim o fiz e ele pegou novamente o telefone. Em tempos passados Skinner tinha tido sua parte nos momentos de irritação de Wolfe, mas agora ele não tivera uma porta batida em sua cara na noite anterior e além disso não estava aborrecido. Quando soube que Wolfe estava com o caso Keyes quis saber de tudo, mas Wolfe. o despistou, sem ser muito rude e logo conseguiu o que estava querendo saber. Com a promessa de que o manteria informado dos acontecimentos até o fim, o que ambos sabiam que era uma deslavada mentira, o procurador-assistente, chegou até a se oferecer para conseguir do quartel que eu me avistasse com o guarda. E assim foi. Menos de dez minutos depois de terem terminado, um telefonema do Center Street informava que o oficial Hefferam me encontraria às onze e quarenta e cinco na esquina da Rua 66, na parte oeste do Central Park.

Durante menos de dez minutos, Wolfe tinha bebido sua cerveja, perguntado ao Saul sobre sua família e me dito o que eu devia descobrir por meio do guarda. Aquilo me aborreceu, porém, mais que isto, me deixou curioso. Quando estávamos com algum caso, às vezes acontecia que Wolfe temia que eu me deixasse envolver por algum acontecimento ou algum participante e aquilo fazia com que ele achasse necessário me colocar temporariamente de lado. Eu já concluíra que era uma perda de tempo ficar nervoso e sentido com aquilo. Mas daquela vez o que estaria acontecendo? Eu não tinha me influenciado pela versão de ninguém e estava absolutamente imparcial. Por que então, ele me mandava sair. para fazer uma coisa tão sem importância e ficava com Saul e Orrie para funções mais importantes? Aquilo era demais para mim! Estava olhando para ele a ponto de estourar quando o telefone tocou novamente.

Era Ferdinand Pohl perguntando por Wolfe. Eu já estava saindo para me conservar fora daquilo, desde que a principal tarefa já fora encomendada, mas Wolfe fez menção para que eu ficasse.

"Estou no escritório de Keyes", disse ele, na Rua 47 com a Madison. Pode vir aqui, agora?"

"Claro que não", Wolfe respondeu em um tom ofendido. Ele sempre se irritava se qualquer pessoa do mundo não soubesse que ele nunca saía de casa a serviço, e muito raramente para qualquer outra coisa. "Trabalho somente em casa. Qual é o problema?"

"Há alguém aqui de quem quero falar com senhor. Dois funcionários. Com o testemunho deles posso provar que Talbott pegou aqueles desenhos e os vendeu a Broadyke. Este é o argumento conclusivo que foi Talbott que matou Keyes. De nós cinco, os únicos que possivelmente poderiam ser suspeitos eram a Srta. Rooney e aquele cavalariço com aquele álibi combinado que tinham e isto a inocenta, é claro, e a ele também".

"Bobagem. Isto não tem nada a ver com a coisa. Só prova que ela foi acusada injustamente de roubo e uma acusação injusta machuca mais do que uma justa. Agora, finalmente, o senhor pode ter o Sr. Talbott acusado de apropriação indébita. Estou extremamente ocupado. Agradeço-lhe muito por ter telefonado. Vou precisar da colaboração de todos".

Pohl queria prolongar a conversa, mas Wolfe se livrou dele, bebeu mais cerveja e virou-se para mim. "Você é esperado em vinte minutos, Archie, e considerando sua tendência, a ser multado por alta velocidade..."

Eu sofrerá uma única multa, por correr muito, em oito anos! Dirigi-me para a porta, mas voltei para dizer-lhe aborrecido, "se pensa que está me mandando sair só para brincar, tente novamente. Quem foi o último a ver Keyes vivo? O guarda. E a quem eu devo falar sobre o que ele disser? Ao senhor? Não! Ao inspetor Cramer!"

CAPÍTULO 8

Estava ensolarado e quente para outubro e guiar pela parte baixa da cidade teria sido agradável se eu não estivesse aborrecido com sensação de que estava sendo enganado.Estacionando na Rua 66, dei a volta na esquina e no quarteirão e cruzei a parte Oeste do Central Park até onde um homem fardado estava brincando com as rédeas de seu cavalo. Eu já tinha visto uma porção de guardas em minha volta, mas este, de rosto forte e másculo, com um nariz adunco e grandes olhos brilhantes era novo para mim. Apresentei-me, mostrei-lhe minhas credenciais, e disse-lhe que era muito simpático de sua parte, ocupado como devia ser, dar-me um pouco de seu tempo. É claro que aquilo foi uma estupidez mas tenho que admitir que eu estava mal-humorado.

"Ah!" disse ele, "um dos nossos mais notáveis garotos, hein?"

"Quanto a ser notável", revidei a ironia, "posso parecer uma ova de peixe em uma tigela de caviar".

"Ah! você come caviar?"

"Vá p'ro inferno", resmunguei, "vamos começar tudo de novo". Caminhei alguns passos, até um poste, dei uma volta nele e aproximei-me do guarda novamente e falei: "meu nome é Goodwin e trabalho para Nero Wolfe. O quartel-general, me disse que eu poderia lhe fazer algumas perguntas e eu lhe ficaria muito grato por isto".

"Amm...Um amigo meu do décimo quinto esquadrão tinha me falado a seu respeito. Você esteve a ponto de mandá-lo para o brejo..."

"Então você também já veio prevenido. Eu também, mas não contra você, nem mesmo contra o seu cavalo. Por falar em cavalo, naquela manhã você viu Keyes em seu cavalo, não muito antes da hora em que foi morto; a que horas foi isto?"

"Sete e dez".

"Exatamente?"

"Exatamente. Dez minutos depois das sete. Eu estava então na primeira ronda e devia inspecionar novamente às oito. Mas, como diz, sou tão ocupado que não tenho tempo, então eu estava andando ao redor esperando ver Keyes passar, como de costume. Gostava de ver seu cavalo - um lindo alazão com um belo salto".

"E como lhe pareceu o cavalo naquela manhã - como de costume? Feliz e saudável?" Vendo o espanto em seu rosto, acrescentei rudemente: "tinha prometido não fazer mais piadas. Desculpe. Quero saber realmente é se era mesmo o seu cavalo?"

"Claro que era, talvez você não conheça bem cavalos, mas eu sim!"

"Certo, eu conhecia também quando era um garoto em uma fazenda em Ohio. Mas não nos correspondemos mais. E a respeito de Keyes naquela manhã, ele parecia estar como? bem, doente, aborrecido, alegre, ou o quê?"

"Parecia como de costume, nada de especial".

"Vocês se falaram?"

"Não".

"Ele estava barbeado?"



"Claro que estava". O oficial Hefferam estava se controlando. "Ele tinha usado duas lâminas, uma no lado direito e outra no lado esquerdo, queria saber qual das duas funcionava melhor, então me mandou esfregar seu rosto para lhe dizer o que eu pensava."

"Você me disse que não se falaram".

"Bolas!"

"Concordo. Vamos deixar de hostilidade. Eu não deveria ter-lhe perguntado isto, devia ter ido direto ao assunto e perguntado a que distância estava ele?"

"Uns noventa ou cem metros".

"Você mediu?"

"Medi com passos. Quando começou o problema".

"Importar-se-ia de me mostrar o local? Onde vocês estavam?" "Sim, eu me importo, mas recebi ordens!"

O mais delicado seria ele ter caminhado comigo, puxando seu cavalo, mas não foi assim que o fez. Montou seu grande cavalo baio e cavalgou pelo parque, comigo seguindo-o atrás; e não foi só isto, ele deve ter dado disfarçadamente ao animal algum sinal para que não demorassem. Nunca vi um cavalo andar tão depressa. Ele teria adorado que eu o perdesse e certamente me culparia disto, ou pelo menos ter-me-ia feito correr, mas eu fiz o maior esforço possível, curvando meus cotovelos e enchendo meus pulmões e não fiquei mais que trinta passos atrás quando, finalmente, ele parou no topo de uma pequena colina. Havia uma porção de árvores, pequenas e grandes, no lado direito do declive e moitas de arbustos à esquerda, porém dali havia uma boa vista de toda a extensão do caminho para cavalgar. Estava quase num ângulo reto na nossa linha de visão e parecia ter cerca de cem metros de distância.

Ele não desceu do cavalo. Não há meio mais fácil no mundo de se sentir superior a um homem do que falar com ele de cima de um cavalo!

Falando, fiz esforço para não parecer cansado. "Você estava aqui?"

"Exatamente aqui".

"E ele ia indo para o norte?"

"Certo", mostrou, "naquela direção".

"Você o viu, ele viu você?"

"Sim, ele levantou seu chicote para mim e eu acenei para ele. Sempre fazíamos isto".

"Mas ele não parou, ou olhou direto para você?"

"Ele nunca olhava direto ou fazia piadas. Estava cavalgando. Escute irmão". O tom do guarda indicava que ele estava decidido a me gozar e a tirar vantagem de mim. "Já falei sobre tudo isto com os caras da seção de homicídios. Se está perguntando se era Keyes, era. Era seu cavalo, eram suas ancas brilhantes e claras, as únicas daquela cor por estas redondezas. E era também sua jaqueta azul e seu chapéu preto. Era o jeito dele se sentar com seus ombros curvados e seus estribos muito baixos. Era Keyes".

"Bem. Posso agradecer a seu cavalo?"

"Não".


"Então não agradecerei. Seria agradável se algum dia eu pudesse agradecer a você. Quando eu estiver jantando com o inspetor, esta noite, direi a ele umas palavras sobre você - não sei bem que palavras..."

Caminhei raivosamente até a saída do parque e ao longo da Rua 66 até a Broadway. Achei uma cabina telefônica, sentei-me no banquinho e disquei meu número favorito. Foi Orrie Carther quem atendeu. Então - pensei comigo mesmo - ele ainda está lá... Provavelmente sentado na minha mesa; as instruções de Wolfe, para ele, deviam ser tremendamente complicadas. Perguntei por Wolfe e este atendeu.

"Sim, Archie?"

"Estou telefonando como mandou. O oficial Hefferam é um convencido terrível, mas eu engoli meu orgulho. Como testemunha ele juraria, de pés juntos,que viu Keyes no lugar e na hora ditos, e acredito mesmo que o tenha visto, mas um bom advogado poderia arrasar com seus ses e mas".

"Por quê? Hefferam é um chutador?"

"De modo nenhum. Ele conhece bem o caso. Mas a cena não foi vista muito de perto".

"É melhor você me contar tudo palavra por palavra".

Foi assim que eu fiz. Com anos de prática tinha alcançado o ponto de que podia me lembrar de uma conversa de duas horas, sem ter tomado notas, praticamente palavra por palavra e a curta discussão que eu tivera não iria me dar trabalho nenhum. Quando terminei Wolfe comentou, "certo".

Silêncio.

Esperei durante mais de dois minutos e então falei educadamente, "Por favor peça à Orrie que não ponha os pés sobre minha mesa".

Depois de mais de um minuto Wolfe falou. "O Sr. Pohl telefonou mais de uma vez do escritório de Keyes. Ele é um imbecil. Vá lá vê-lo. O endereço..."

"Sei o endereço. Ao que devo dar mais atenção?" "Diga-lhe para parar de me telefonar. Quero que ele pare com isto".

"Certo. Vou cortar os cabos. E depois, o que devo fazer?' "Me telefone novamente e então veremos".

Desligou. Levantei-me, saí da cabina e fiquei resmungando comigo mesmo até que percebi que uma porção de meninas sentadas na beirada da fonte, especialmente uma delas, de covinhas e olhos azuis, me olhavam fixamente. Então eu disse a ela, "me encontre as duas horas no balcão de anéis da Tiffany", e saí rápido. Como eu não tinha conseguido estacionar a menos de mil e quinhentos metros da Rua 47 com a Rua Madison, resolvi deixar meu carro onde estava e caçar um táxi.

CAPÍTULO 9

Um rápido olhar no escritório de Keyes, no décimo segundo andar, foi suficiente para perceber onde uma boa parte dos lucros tinha sido empregada, a menos que o investimento de Pohl tivesse sido aplicado, ali. Revestimento de quatro espécies diferentes de madeira clara, tanto nas paredes como no teto e nos móveis. Os assentos das cadeiras da sala de espera, eram estofados em azul e preto, e a gente tinha que se cuidar para não tropeçar e torcer o tornozelo nos grossos tapetes. Por todos os lados, em caixas de vidro presas à parede, em suportes espalhados pela sala e sobre as mesas, estavam modelos de quase tudo o que se podia imaginar, desde canetas-tinteiro até aviões.

Quando uma mulher com brincos cor-de-rosa soube que eu procurava o Sr. Pohl deu-me um olhar curioso e ao mesmo tempo acusador, porém foi eficiente. Depois de uma pequena espera, fui encaminhado através de uma porta e me encontrei no fim de um largo corredor. Não havia ninguém à vista e não tinham me dado instruções, então parecia o caso de brincar de esconde-esconde. A melhor saída parecia ser atravessar o corredor. Comecei espiando dentro das portas dos dois lados onde eu passava. A mesma seqüência de decoração parecia prevalecer em tudo, com algumas variações de cor e estilo. Na quarta porta à direita eu o vi e ele me chamou no mesmo instante.

"Entre, Goodwin!"

Entrei. Era uma grande sala com três grandes janelas e com um rápido olhar me pareceu ser o lugar onde eles tinham realmente decidido se expandir. Os tapetes eram brancos e as paredes negras; uma mesa de ébano enorme, tomava toda uma parede. A cadeira atrás dela, na qual Pohl estava sentado, era do mesmo estilo.

"Onde está Wolfe?'

"Onde ele sempre está", repliquei me controlando. "Em casa, sentado".

Ele olhava zangado para mim. "Pensei que ele estivesse com o senhor. Quando eu lhe telefonei, agora há pouco, ele me deu a entender que podia vir. Ele não está vindo?"

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