Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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O nome espalhou-se no meio da sala como formigas num Piquenique.

"Meu Deus!" exclamou Wayne Safford.

"Por que diabos?..." começou Frank Broadyke e parou.

"Então você contou a ele!" Pohl falou com violência a Dorothy Keys, ela simplesmente ergueu as sobrancelhas...

Eu estava ficando cansado daquele gesto e queria que ela tentasse alguma outra coisa para variar...

A boca de Audrey Rooney ainda estava aberta!

"Faça-o entrar", Wolfe ordenou a Fritz.

CAPÍTULO 5

Como milhares de outras pessoas, eu formara um conceito de Victor Talbott por suas fotografias publicadas nos jornais e dez segundos depois dele se ter juntado a nós, no escritório, eu já concluíra que a idéia que formara estava certa. Ele era o camarada que, em um coquetel, ou antes de um jantar, agarra a bandeja de aperitivos e a passa entre os convidados olhando-os nos olhos e fazendo piadas.

Com exceção de mim, evidentemente ele era, fácil, o homem mais simpático da sala...

Entrando deu um rápido olhar e um sorriso a Dorothy, ignorando os outros, foi diretamente à mesa de Wolfe e disse agradavelmente: "O senhor, naturalmente, é Nero Wolfe. Eu sou Vic Talbott. Suponho que o senhor não vai apertar minha mão nestas circunstâncias - isto é, se está aceitando o trabalho que esta gente veio lhe oferecer".

"Como vai o senhor?" Wolfe respondeu apertando-lhe a mão. "Já apertei a mão de quantos assassinos, Archie?"

"Uns... quarenta", calculei.

"Pelo menos. Este é o Sr. Goodwin, Sr. Talbott".

Evidentemente Vic imaginou que eu podia ser meio esquisito porque me acenou a cabeça mas não me estendeu a mão. Então voltou-se para olhar os convidados. "Como vão vocês, companheiros? Contrataram o grande detetive?"

"Idiota", Wayne Safford falou com desprezo. "Veio aqui fazer farol?"

Ferdinand Pohl tinha se levantado da cadeira e vinha avançando sobre o penetra. Eu já estava de pé, pronto para agir. Havia muita agitação naquela sala e eu não queria nenhum de nossos clientes machucados. Porém tudo que Pohl fez foi dar uma palmada no peito de Talbott e falar-lhe: "Escute, rapaz, você não vai atrapalhar nada aqui. Já criou problemas demais". E virando-se para Wolfe perguntou "Por que deixou que ele entrasse?"

"Permita-me dizer-me", Broadyke colocou, "isto me parece um excesso de hospitalidade".

"A propósito, Vic" - era a voz macia de Dorothy que falava - "Ferdy diz que eu fui sua cúmplice".

As considerações dos outros não causaram visível impressão nele, mas com Dorothy foi diferente. Ele voltou-se para ela e o olhar He seu rosto era suficiente para todo um capítulo de sua biografia. Ele era todo dela (a menos que eu precisasse de um oculista). Ela podia levantar suas adoráveis sobrancelhas um milhão de vezes por dia, sem que isto o aborrecesse. Ele deixou que seus olhos falassem com ela e então usou sua língua para falar com Pohl: "Sabe o que eu penso de você Ferdy? Imagino que saiba!"

"Querem fazer o favor", disse Wolfe asperamente. "Não precisam de meu escritório para trocar de opiniões que têm uns dos outros; podem fazer isto em qualquer outro lugar. Temos um trabalho a fazer. Sr. Talbott, o senhor perguntou se eu tinha aceitado a tarefa que me foi oferecida. Aceitei. Assumi o compromisso de investigar a morte de Sigmund Keys. Mas como ainda ninguém me fez nenhuma confidencia, posso decliná-lo. Tem coisa melhor a oferecer? Por que o senhor veio aqui?"

Talbott sorriu para ele. "Este é o jeito certo de se falar", disse admirado. "Não, não tenho nada para dizer em relação ao trabalho, mais sinto que devo participar dele. Calculo que seja desta maneira: eles o estão contratando para que me prenda por homicídio; então é muito natural que o senhor queira me conhecer e me fazer perguntas - e aqui estou eu".

"Alegando não ser o culpado, é claro... Archie: uma cadeira para o Sr. Talbott".

"Naturalmente", concordou ele, agradecendo, com um sorriso, a cadeira que eu lhe trouxera, e sentando-se nela. "De outro modo o senhor não terá trabalho... muito bem, mande fogo...". De repente ele corou. "Nestas circunstâncias, penso que não deveria falar em mandar fogo..."

"Deveria ter dito mande bala", acrescentou Wayne Safford, lá do fundo.

"Fique quieto, Wayne", repreendeu Audrey.

"Permita-me", começou Broadyke, mas Wolfe o interrompeu.

"Não, o Sr. Talbott se prontificou a responder perguntas." Encarando Talbott perguntou: "Estas outras pessoas pensam que a polícia está conduzindo o caso estúpida e ineficientemente. O senhor concorda com isto, Sr. Talbott?"

Vic pensou durante um momento e, então aquiesceu. "De modo geral, sim".

"Por quê?'

"Bem - o senhor vê, eles estão parados com o caso. Estão acostumados a trabalhar com pistas e conquanto achem uma porção delas para mostrar o que aconteceu, como por exemplo marcas no caminho que levam aos arbustos etc, eles não têm nada que os ajude a identificar o assassino. Absolutamente nada, ainda. Então eles têm que recorrer a um motivo - e acharam exatamente um homem com o melhor motivo do mundo".

Talbott bateu em seu próprio peito. "Eu. Então descobriram que este homem - eu - possivelmente não podia ter feito aquilo porque estava em outro lugar. Acharam que eu tinha um álibi, eu estava..."

"Impostor!" reagiu Wayne Safford.

"Elaborado", falou Broadyke.

"Cabeças duras!" exclamou Pohl. "Se eles tivessem inteligência bastante para dar àquela telefonista..."

"Por favor!" Wolfe os calou. "Continue, Sr. Talbott. Seu álibi... mas primeiro o motivo. Qual é o melhor motivo do mundo?"

Vic parecia surpreso. "Saiu nos jornais uma porção de vezes!"

"Eu sei. Mas não quero conjeturas de jornalistas quando tenho o senhor - a menos, que não queira falar sobre isto".

O sorriso de Talbott tinha um quê de amargura. "Se eu não quisesse", declarou "a semana passada certamente me curaria. Penso que dez milhões de pessoas leram que estou profundamente apaixonado por Dorothy Keys, ou alguma outra forma de dizer a mesma coisa. Certo, estou! Querem um juramento - querem uma fotografia minha afirmando isto?" Ele virou o rosto para encarar sua noiva. "Eu a amo Dorothy, mais que tudo no mundo, profunda e loucamente, de todo o meu coração". Virou-se para Wolfe. "Aqui está o seu motivo".

"Vic querido," disse-lhe Dorothy, "você é um perfeito idiota e é tremendamente fascinante. Estou realmente feliz por você ter um bom álibi".

"Demonstra amor", disse Wolfe secamente, "matando o único parente de sua amada... É isto?"

"Sim," declarou Talbott. "Sob certas condições. Esta é a situação: Sigmund Keys era o mais célebre e bem sucedido desenhista industrial da América e..."

"Bobagem!" explodiu Broadyke, sem pedir permissão para fazê-lo.

Talbott sorriu. "Algumas vezes", disse ele, como se sugerisse aquilo para ser considerado, "um homem ciumento é pior do que qualquer mulher ciumenta. Os senhores sabem, é claro, que o Sr. Broadyke é também um desenhista industrial - de fato ele, praticamente, criou a profissão. Poucos fabricantes podiam sonhar em produzir novos modelos - barco a vapor, estrada de ferro, trem, avião, refrigerador, lavadeira elétrica, relógio despertador, não importa o que - sem consultar Broadyke, até que eu chegasse a tomar conta das vendas da firma de Sigmund Keys. Conseqüentemente é por isto que duvido que Broadyke tenha assassinado Keys. Se ele tivesse ficado desesperado por causa disto ele não teria matado Keys, ele teria matado a mim!"

"O senhor estava falando", Wolfe o lembrou, "de amor como motivo para matar sob certas circunstâncias".

"Sim, e Broadyke me afastou". Talbott balançou sua cabeça. "Deixe ver ah! sim, e eu estava fazendo as vendas para Keys. Ele não podia suportar o comentário geral de que eu era o maior responsável pelo sucesso que ele estava tendo, mas ao mesmo tempo tinha medo de se livrar de mim. Eu amava sua filha - e sempre vou amá-la - e queria que ela se casasse comigo, porém ele exercia grande influência sobre ela, o que nunca consegui entender - de qualquer maneira, se ela me amasse como eu a amo, isto não teria importância, mas ela não...

"Meu Deus, Vic", protestou Dorothy, "já não lhe disse uma dúzia de vezes que eu me casaria com você sem pensar... se não fosse por papai? Realmente sou louca por você!"

"Certo", Talbott disse a Wolfe, "está aqui o seu motivo. Certamente está fora de moda, não tem um desenho industrial moderno, mas é absolutamente verdadeiro. Naturalmente foi isto que a polícia pensou até que eles toparam com o fato de que eu estava em outro lugar. Isto os tornou confusos e os atrapalhou e eles não puderam recuperar suas testemunhas; portanto, penso que meus bons amigos aqui estão certos quando dizem que eles estão sendo estúpidos e ineficientes. Não que eles tenham acabado comigo completamente. Penso que eles têm um exército de detetives e espiões caçando o pistoleiro que eu empreguei para fazer o trabalho. O senhor ouviu a Srta. Keys me chamar de idiota, mas não sou tão idiota assim para contratar um criminoso para assassinar alguém por mim".

"Espero que não", Wolfe suspirou. "Não há nada melhor que um bom motivo? E a respeito do álibi? A polícia aceitou?"

"Sim,. os idiotas do inferno", Pohl explodiu. "Aquela telefonista..."

"Perguntei ao senhor Talbott", interrompeu Wolfe.

"Não sei", admitiu Talbott. "Mas suponho que sim. Ainda estou assustado com a sorte que tive de ter ido tarde para a cama naquela segunda-feira, na semana passada, na noite anterior à morte de Keys. Se eu estivesse cavalgando com ele, agora estaria preso. Foi uma questão de tempo".

Talbott comprimiu e depois entreabriu os lábios. "Oh! rapaz!... 0 polícia montado viu Keys cavalgando no parque perto da Rua 66 as sete e dez. Keys foi morto próximo da Rua 96. Mesmo que ele tivesse galopado durante todo caminho ele não poderia ter chegado lá, com as curvas do caminho, antes das sete e vinte. E ele não galopou, porque se o tivesse feito o cavalo teria demonstrado isto e não o fez". Talbott olhou ao redor. "Você é autoridade nisso, Wayne. Casanova não estava suado, estava?"

"É você que está dizendo isto", foi tudo que consegui de Wayne.

"Bem, ele não estava", Talbott disse a Wolfe. "Wayne sabe disto. Portanto Keys não poderia ter chegado ao local onde foi morto, antes das sete e vinte e cinco. É o tempo que deveria levar".

"E o senhor?" inquiriu Wolfe.

"Eu? Eu tive sorte, tive muita sorte. Freqüentemente eu cavalgava no parque com Keys, a esta hora maluca - duas ou três vezes por semana. Ele queria que eu o acompanhasse todos os dias, mas a maior parte das vezes eu tirava o corpo fora. Não havia nada de social ou amigável naquilo. Cavalgávamos lado a lado falando sobre negócios, exceto quando ele queria trotar. Moro no Hotel Churchill. Segunda-feira à noite cheguei tarde ao hotel, porém, mesmo assim, deixei ordem para me acordarem às seis horas, porque fazia muitos dias que eu não o acompanhava e não queria que ele se aborrecesse comigo. Mas quando a moça tocou meu telefone de manhã, eu estava com tanto sono que lhe pedi para telefonar para a Academia de Equitação e dizer que eu não iria lá, e me chamar de novo às sete e meia. Ela assim o fez e, apesar de eu ainda estar com muito sono, tive que levantar porque tinha um encontro para o café com um cliente do interior.

Então eu pedi a ela que mandasse os cafés para o quarto. Poucos minutos depois um garçom os levou. Aí está a minha sorte! Keys foi morto na parte alta da cidade às sete e vinte e cinco da manhã, talvez um pouco mais tarde. A esta hora eu estava em meu quarto no Hotel Churchill, a quase quinze quilômetros de distância. O senhor pode imaginar o quanto eu fiquei contente de ter tido aquele chamado às sete e meia!"

Wolfe concordou: "O senhor deveria dar um desconto ao cliente do interior. Com esta defesa, porque se deu ao trabalho de vir aqui, a este encontro?"

"Uma telefonista e um garçom, pelo amor de Deus!" Pohl bufou sarcasticamente.

"Pessoas boas e honestas, Ferdy", Talbott retrucou e respondeu a Wolfe: "Não sei".

"Não? Mas o senhor não está aqui?"

"Claro que estou aqui, mas não para me juntar a nenhum encontro. Vim para ficar com Dorothy. Não considero isto como uma obrigação, como para com o resto deles, com exceção de Broadyke talvez...

A campainha da porta tocou novamente e desde que algum penetra poderia ser ou não desejável, levantei-me rapidamente, atravessei o hall e interceptei Fritz exatamente na hora, fui para a porta da frente e dei uma olhada. A porta da casa de Nero Wolfe era provida desses vidros espelhados que deixam a gente ver quem está lá enquanto a pessoa pensa que está na frente de um espelho.

Vendo quem estava lá fora na entrada, destranquei a porta e a entreabri, conservando a corrente, e falei através da fresta: Não quero pegar um resfriado".

"Nem eu" falou uma voz áspera. "Abra esta maldita porta de uma vez".

"O Sr. Wolfe está ocupado", respondi educadamente. "Posso ajudá-lo?"

"Não. Você nunca o fez, nem nunca o fará."

"Então espere um minuto".

Fechei a porta, fui para o escritório e falei com Wolfe, "O homem a respeito da cadeira". Wolfe sabia que se tratava do Inspetor Cramer, de homicídios.

Wolfe resmungou e sacudiu a cabeça. "Vou estar ocupado por horas e não posso ser interrompido".

Voltei para o hall entreabri a porta novamente e falei pesarosamente, "Desculpe mas ele está fazendo suas lições de casa".

"Claro," disse Cramer sarcasticamente, "é claro que sim. Agora que Talbott está aí também, vocês vão ter a casa cheia. Seis deles. Abra a porta!"

Ora, a quem está tentando impressionar? Vocês desconfiam de um ou de mais de um - possivelmente de todos - e espero que não se esqueçam de Talbott só porque gostamos dele. De qualquer modo a telefonista e o garçom do Hotel Churchill... qual é mesmo o nome deles?"

"Eu vou entrar, Goodwin".

"Tente, esta porta nunca foi forçada assim antes; quero ver até onde vai agüentar".

"Em nome da lei, abra esta porta!"

Eu estava tão espantado que quase abri a porta para poder vê-lo melhor. Através da fresta eu só podia usar um olho. "Bem, ouça aqui, é a mim que vem dizer isto? Sabe muito bem que é a lei que me garante fazer você ficar aí fora. Se está preparado para fazer uma prisão é só me dizer o nome, que eu vou ver se ele ou ela não vão querer escapar. Além de tudo você não tem monopólio. Já os teve durante toda a semana, dia e noite, enquanto Wolfe só está com eles há mais ou menos uma hora, e você não pode suportar isto! Conseqüentemente não são eles que estão se recusando a vê-lo, nem sabem que está aqui, portanto não os acuse por isto. É o senhor Wolfe que não quer ser perturbado. Vou lhe dar mais uma informação: ele ainda não descobriu nada e isto pode demorar muitas horas. Vai economizar tempo se me der os nomes..."

"Cale a boca", Cramer estrilou. "Vim aqui amigavelmente. Não há nenhuma lei contra Wolfe ter gente em seu escritório. E também não há nada contra eu estar lá com eles".

"Certamente que não", concordei calorosamente, "se estivesse lá dentro, mas e esta porta? É uma porta perfeitamente dentro da lei, com um homem que não tem ordem de abri-la de um lado e do outro alguém que não quer, de acordo com os estatutos..."

"Archie!" Escutei uma gritaria no escritório, o grito de Wolfe mal dava para se ouvir, havia também barulho de outros sons. "Archie", novamente.

"Desculpe", falei batendo a porta. Atravessei o hall correndo, girei a maçaneta da porta e entrei rapidamente.

Não havia nada de gravemente alarmante. Wolfe estava sentado em sua cadeira atrás da mesa. A cadeira que Talbott tinha ocupado estava derrubada. Dorothy estava de pé, de costas para Wolfe, com as sobrancelhas exageradamente erguidas. Audrey Rooney estava parada no canto, perto do grande globo com os punhos cerrados contra o rosto olhando espantada. Pohl e Broadyke também estavam fora de suas cadeiras olhando para o centro da sala. Pela atitude dos espectadores, a gente poderia esperar ver alguma coisa realmente assustadora, porém eram só dois camaradas trocando socos.Quando entrei Talbott acertou um direto no lado do pescoço de Safford e quando fechei a porta que dava para o hall, atrás de mim, Safford replicou com um forte murro no lado esquerdo do rim. O único barulho, além dos punhos e dos pés, era um tenso murmurar de Audrey em seu canto. "Bata nele, Wayne, bata nele".

"Quanto eu perdi?" perguntei.

"Separe-os!" Wolfe me ordenou.

A direita de Talbott resvalou pelo rosto de Safford enquanto este socava novamente o rim de Vic. Eles até que estavam lutando razoavelmente bem e de maneira apropriada... mas Wolfe era o patrão e odiava violências em seu escritório; então tive que intervir. Agarrei Talbott pela gola e puxei-o com tanta força que ele caiu sobre uma cadeira, enquanto eu olhava para Safford para controlá-lo. Por um segundo pensei que Safford ia me bater com a mão que estava levantada, mas ele a abaixou. "Como é que isto começou tão de repente?" quis saber.

Audrey estava lá, puxando minha manga, protestando ferozmente, "você não devia tê-lo segurado. Wayne o teria derrubado! Ele já fez isto antes!" Ela parecia mais sanguinária que ninguém ali.

"Ele fez um comentário a respeito da Srta. Rooney", Broadyke se permitiu falar.

"Tire-o daqui!" ordenou Wolfe.

"Qual deles?' perguntei olhando para ambos.

"O Sr. Talbott!"

"Você foi muito bem, Vic", Dorothy estava dizendo. "Fica fantasticamente simpático com o brilho da raiva em seus olhos". Ela pôs suas mãos sobre as faces de Talbott, inclinou sua cabeça para baixo e esticou o pescoço para beijá-lo nos lábios - um beijo rápido. "Pronto!"

"Vic agora tem que sair", eu disse a ela. "Vamos Talbott, eu o acompanho".

Antes de sair ele enlaçou Dorothy em seus braços. Olhei para Safford, esperando que, como desforra, abraçasse Audrey, mas ele estava parado com os punhos ainda fechados.

Então tangi Talbott para fora da sala. No hall enquanto ele pegava seu casaco e seu chapéu, dei uma olhada pelo falso espelho e vi que a varanda estava vazia; então abri a porta. Enquanto cruzava a soleira eu lhe disse, "Você é muito impulsivo. Qualquer dia vai quebrar a cabeça".

De volta ao escritório, alguém havia endireitado a cadeira e estavam todos sentados novamente. Aparentemente, embora seu cavaleiro tivesse sido convidado a sair, Dorothy estava muito calma. Quando atravessei a sala para alcançar minha mesa, Wolfe estava dizendo: "fomos interrompidos, Srta. Rooney. Como falei, a Sita. parece ser a mais vulnerável, desde que estava no local. Por favor pode chegar mais perto - aquela cadeira ali? Archie, seu caderno de notas".

CAPÍTULO 6

As dez e cinqüenta e cinco da manhã seguinte eu estava sentado no escritório - não ainda, mas novamente - esperando que Wolfe descesse das estufas no telhado, onde ele guarda suas dez mil orquídeas e uma coleção de outras espécies de plantas. Estava jogando cartas com Saul Panzer e Orrie Carther, que tinham sido convidados para fazer um trabalho. Saul usava sempre um velho boné marrom; era um tipo miúdo e calmo. Com seu grande nariz, era o melhor homem de campo do mundo para qualquer coisa que pudesse ser feita sem um smoking. Orrie estava melhorando dia a dia, porém não era, de nenhum modo igual a Saul; mas, mesmo assim, era um bom espião.

Àquela hora eu já tinha perdido três dólares.

Em uma gaveta de minha mesa havia dois cadernos cheios de anotações. Wolfe não tinha prendido os clientes durante toda a noite - mas não faltou muito para isto. Mas quando ele os deixou sair, sabíamos muito mais a respeito de todos, do que qualquer jornal tinha publicado.

Sob alguns aspectos eles eram muito parecidos. Por exemplo, nenhum deles tinha assassinado Sigmund Keys; nenhum estava sentindo sua morte, nem mesmo sua filha; ninguém nunca possuíra um revólver ou entendia muito de atirar em alguém; ninguém poderia apresentar nenhuma prova que pudesse condenar Talbott ou mesmo levá-lo à prisão; ninguém tinha um álibi incontestável; e cada um tinha um motivo próprio, que podia não ser o melhor do mundo, como o de Talbott, mas não era para se desprezar.

Então eles falaram.

Ferdinand Pohl ficara indignado. Não podia entender porque se deveria perder tempo com eles, desde que o único objetivo era destruir o álibi de Talbott e apanhá-lo. Mas contou muitos fatos. Há dez anos passados ele tinha fornecido os cem mil dólares que Sigmund Keyes precisava para se iniciar convenientemente, no estilo apropriado a um importante desenhista industrial. Nos últimos dois anos os lucros de Keyes tinham aumentado vertiginosamente e Pohl tinha querido uma parte deles mas não a tinha obtido. Keyes lhe concedera a desprezível quantia de cinco por cento anuais sobre o empréstimo. Cinco por cento ao ano embora a metade dos lucros tivesse sido dez vezes maior! E Pohl não podia propor-lhe a clássica alternativa, compre a minha parte ou me venda a sua, porque tinha feito maus negócios em outras áreas e estava profundamente endividado. A lei não podia ajudar desde que o contrato de empréstimo garantia a Pohl somente os cinco por cento e Keyes tinha ajeitado para retirar seus lucros como se fossem honorários, alegando que era sua habilidade como desenhista que tinha dado tão bons resultados.. Aquele tinha sido, disse Pohl, um caso típico de falta de caráter. Agora que Keyes estava morto, a História ia ser diferente, com os contratos na mão e a garantia do recebimento de royalties por um período de mais de vinte anos. Se Pohl e Dorothy, que tinham herdado tudo, não chegassem a um entendimento, caberia a um juiz estipular os dividendos e Pohl conseguiria, pensava ele, pelo menos duzentos mil e talvez, provavelmente, muito mais. Negou que tivesse tido motivo para matar Keyes - não por ele, mas de qualquer maneira seria tolice discutir aquilo mesmo porque naquela terça-feira de manhã, às sete e vinte e oito, embarcara no trem para Larchmont para velejar em seu barco. Ele tinha apanhado o trem na Grand Central ou na Rua 125? Na Grand Central, disse ele. Estava sozinho? Sim. Tinha deixado seu apartamento na Rua 84-Leste às sete horas e tomado o metrô. Ele sempre tomava o metrô? Sim, freqüentemente, quando não era hora de grande movimento. E assim por diante, por quatorze páginas de um caderno. Eu dei a ele um menos, mesmo concedendo que poderia provar que chegou a Larchmont naquele trem, desde que tivesse parado na Rua 125, às sete e trinta e oito, dez minutos depois de ter deixado a Grand Central.

Com Dorothy Keyes a grande questão foi: quanto dos lucros de Keyes ela ia receber? Durante algum tempo ela parecia ter idéia de que seu pai tinha sido liberal e justo em matéria de dinheiro, mas de repente ela mudou de idéia, com um comentário que indicava que ele fora tão egoísta quanto uma criança segurando um brinquedo para outra não poder pegar. Foi meio difícil, porque ela não tinha cabeça para números. A conclusão que eu cheguei foi que a parte dela poderia variar de uns quinhentos a vinte mil dólares por ano - o que representava uma diferença meio grande... O ponto era: de que modo seria melhor para ela; com seu pai vivo fazendo, mas economizando, muito dinheiro, ou com ele morto e tudo para ela, depois que Pohl fosse atendido? Ela entendeu a questão muito bem, e preciso dizer que isto tudo não parecia chocá-la muito, mesmo porque ela nem mesmo se preocupou em levantar as sobrancelhas!

Se aquilo tudo foi interpretação, foi muito boa. Em lugar de ficar no grande princípio moral de que "filhas não matam pais", sua principal fundamentação era a absurda hora do crime - sete e meia da manhã! Ela não podia nem mesmo ter matado uma mosca, quanto mais seu pai... Nunca saía da cama antes das onze horas, exceto em uma emergência, como por exemplo na terça-feira de manhã, sob protesto, quando recebeu a notícia entre nove e dez horas, de que ele estava morto. Aquilo a tinha feito levantar-se. Ela vivia com ele em um apartamento do lado Sul do Central Park. Empregadas? Duas. Wolfe então perguntou a ela: seria possível para ela, antes da sete horas da manhã, sair do apartamento e do edifício e depois entrar novamente sem ser vista? Não, respondeu ela, a menos que alguém tivesse lhe dado um banho para acordá-la; feito aquilo, o resto possivelmente podia ser conseguido, mas ela realmente não poderia dizer porque nunca tinha tentado...

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