Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



Baixar 0,55 Mb.
Página5/16
Encontro09.01.2018
Tamanho0,55 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16

Quando, depois de acompanhá-los até a saída, eu voltei ao escritório, Wolfe estava tamborilando o mata-borrão com a faca de papel, carrancudo, embora eu já lhe tivesse dito uma centena de vezes que aquilo estragava o mata-borrão. Guardei o talão de cheques no cofre, sem que tivesse escrito no canhoto nada mais além da data; portanto não houvera prejuízo...

"Vinte minutos até o almoço", anunciei, girando minha cadeira e sentando. "Será que este tempo é suficiente para discutir o segundo pormenor?"

Nenhuma resposta.

Fiz de conta que não tinha entendido. "Se não se importa", perguntei delicadamente, "qual é o segundo pormenor?"

Nenhuma resposta novamente, mas depois de um momento ele deixou cair a faca de papel que tinha na mão, inclinou-se para trás e respirou profundamente.

"Aquele maldito revólver", resmungou ele. "Como é que foi parar do chão no busto? Quem o colocou lá?"

Olhei para ele. "Meu Deus", queixei-me, "o senhor é difícil de se contentar. Já teve dois clientes presos e trabalhou que nem um cão para descobrir como é que o revólver foi parar do busto no chão. Agora quer que ele vá do chão ao busto outra vez? Que inferno!"

"Não outra vez. Antes disso".

"Antes do quê?"

"Antes de o corpo ser descoberto". Seus olhos me fixaram. "O que você pensa disto? Um homem - ou uma mulher, não importa quem - entrou no estúdio e matou Mion de um modo que levasse à forte suposição de que tinha sido suicídio. Isto foi deliberadamente planejado desta maneira; e não seria nada difícil que a polícia aceitasse o fato. Então ele colocou a arma na base do busto, vinte passos distante do corpo e fugiu. Que pensa disto?"

"Eu não penso; eu sei. Isto não aconteceu daquele jeito, a menos que ele de repente ficasse doido depois que tivesse puxado o gatilho, o que parece muito estranho".

"Precisamente. Tendo planejado para parecer suicídio, ele colocou a arma no chão, perto do corpo. Isto não se discute. Porém o Sr. Weppler a achou na base do busto. Quem a pegou do chão e a colocou lá, quando e por quê?

"Certo". Esfreguei o nariz. "Isto é terrível. Admito que a questão é importante e objetiva, mas por que diabos o senhor se preocupa com ela? Por que não a deixa de lado? Deixe que ele, ou ela, atormente-se, acuse-se ou aflija-se. Os tiras vão testemunhar que a arma estava lá no chão e isto vai servir para o inquérito desde que foi considerado suicídio. O veredicto, só poderia ser outro se o senhor arranjasse as coisas como motivos e oportunidades". Sacudi a mão. "Simples. Por que então levantar isto tudo a respeito da arma andar de um lado para o outro?"

Wolfe resmungou. "Os clientes. Tenho que merecer meu salário. Eles querem esclarecer suas mentes e sabem que a arma não estava no chão na hora em que descobriram o corpo. Não posso dizer para o juiz que a arma estava no busto e para os clientes, que estava no chão onde o assassino a colocou. Tendo ela, devido ao Sr. Weppler, ido do busto parar no chão, agora preciso voltar e descobrir como foi parar do chão no busto. Entende isto?"

"Claramente. Vou assobiar para pedir ajuda. Estou ficando louco. Como está o senhor?"

"Estou só no começo". Ele endireitou-se. "Mas preciso aliviar minha cabeça para o almoço. Por favor dê-me o catálogo de orquídeas do Sr. Shanks".

Aquilo era tudo por hora, porque durante as refeições Wolfe excluía negócios não só da conversa como também do ambiente. Depois do almoço ele voltou ao escritório e sentou-se confortavelmente em sua cadeira. Por um tempo ele ficou só sentado, então depois começou a apertar os lábios para dentro e para fora, e eu sabia que ele assim estava trabalhando duro. Não tendo idéia de como ele se propunha a mover a arma do chão para o busto, eu imaginava quanto tempo ia demorar e se ele ia querer que Cramer detivesse mais alguém, e, caso quisesse, quem seria. Já tinha visto sentar-se daquele jeito, trabalhando, durante horas a fio, mas desta vez durou só vinte minutos. Ainda não eram três horas quando ele pronunciou meu nome asperamente e abriu os olhos.

"Archie".

"Sim senhor".

"Não posso fazer isto. Você vai ter que fazer".

"Quer dizer: resolver o caso? Sinto muito, estou ocupado..."

"Quero dizer executar". Ele fez uma cara! Não vou encarregar-me de controlar aquela mocinha. Seria uma provação e eu poderia estragar tudo. É exatamente a coisa própria para você. Seu caderno de notas. Vou ditar um documento e depois vamos discuti-lo".

"Sim, senhor. Mas eu não chamaria a Srta. Bosley de "mocinha".

"Não é a Srta. Bosley. É a Srta. James".

"Ah!..." peguei o caderno de notas.

CAPÍTULO 7

Às quatro e quinze, Wolfe estava no orquidário para sua sessão da tarde Com suas orquídeas. Eu me sentei em minha mesa, olhando o telefone e imaginando a reação que um bom boxeador tinha quando levava um golpe duro que o derrubasse. Eu havia telefonado para Clara James para convidá-la para dar uma volta no meu conversível e levara um contra.

Aquilo me fazia pensar que eu não tinha sido razoável. Sei muito bem, porém, que tive sucesso com uma centena de moças - só porque não convido nenhuma delas a não ser que as circunstâncias indiquem com certeza que vou ser aceito. Portanto isto me acostumou a ouvir sempre sim e desta forma foi um rude choque ouvir aquele injustificável não. Além disto eu tivera o trabalho de mudar de roupa e me vestir com todo o esmero...

Eu havia arquitetado três planos mas os tinha rejeitado; tramei um quarto e o executei: Peguei o telefone e disquei o número novamente. Clara mesmo o atendeu como já o tinha feito antes. Logo que percebeu que era eu, ficou impaciente.

"Já lhe disse que tenho um compromisso para um coquetel! Por favor não..."

"Espere aí", falei rapidamente. "Cometi um erro. Eu estava querendo ser bonzinho. Quero encontrar-me com você em um lugar aberto e bonito antes de lhe dar as más notícias. Eu..."

"Que más notícias?"

"Uma mulher acabou de dizer a mim e ao Sr. Wolfe que há, além dela, mais cinco pessoas ou talvez mais, que sabem que você tinha uma chave do estúdio de Mion".

Silêncio. Há vezes em que o silêncio me irrita, mas aquele não me irritou. Finalmente ela falou, mas sua voz era totalmente diferente.

"É uma mentira idiota. Quem lhe disse isto?"

"Esqueci. E não vou discutir isto pelo telefone. Duas coisas, e somente duas. Primeira, se isto correr por aí, o que você- fazia batendo na porta durante dez minutos tentando entrar, enquanto ele estava lá, morto? Quando você tinha a chave? Isto faria até um tira pensar. Segundo, me encontre no bardo Churchill às cinco em ponto e então vamos falar sobre isto. Sim ou não?"

"Mas isto é tão... você é tão..."

"Pare. Isto não é bom. Sim ou não?"

Outro silêncio, porém mais curto; então, "certo", e ela desligou.

Nunca deixei uma mulher esperando e não via razão para fazer uma exceção desta vez. Então cheguei ao bar oito minutos antes da hora. Era espaçoso, com ar condicionado, confortável sob todos os aspectos mesmo em pleno agosto, e era agradável também em relação aos freqüentadores. Eu o atravessei olhando ao redor, não esperando que ela estivesse lá e fiquei muito surpreso quando ouvi me chamarem e a vi em um reservado.

É claro que não tinha chegado há muito, mas mesmo assim ela não perdera tempo. Já pedira um drinque, que já estava quase terminado. Sentei-me e imediatamente um garçom se aproximou.

"Que está bebendo?" perguntei-lhe.

"Scotch com gelo".

Pedi ao garçom que trouxesse dois, e ele se foi.

Ela inclinou-se para mim e começou em um fôlego. "Ouça, isto é absolutamente idiota! Me diga somente quem lhe disse aquilo e porque, é totalmente absurdo..."

"Um momento". Eu fiz com que ela parasse mais com meu olhar do que com minhas palavras. Os olhos dela brilhavam muito. "Este não é o modo de começar, por que assim não vamos chegar a nada". Tirei um papel do meu bolso e o desdobrei. Era uma cópia datilografada do documento que Wolfe tinha ditado.

"O modo mais fácil e rápido será você primeiro ler isto e então vai ficar sabendo o que é".

Entreguei-lhe o papel. Estava datado daquele dia:

Eu, Clara James por meio deste declaro que no dia 19 de abril, quinta feira, entrei no edifício da Avenida East End, em Nova York, por volta das seis e quinze da tarde e tomei o elevador para o décimo terceiro andar. Toquei a campainha da porta do estúdio de Alberto Mion. Ninguém atendeu à porta e não havia ruído nenhum lá dentro. A porta estava fechada, mas não estava trancada, por dentro. Abria porta e entrei.

O corpo de Alberto Mion estava estirado no chão próximo do piano. Estava morto. Havia um buraco em sua cabeça. Não tinha dúvida de que estava morto. Senti uma tontura e tive que me sentar no chão e abaixar minha cabeça para evitar um desmaio. Não toquei no corpo. Havia um revólver no chão, não muito longe do corpo e eu peguei. Penso que fiquei sentada durante cinco minutos, mas pode ter sido por um pouco mais de tempo. Quando me levantei e me dirigi para a porta, percebi que o revólver ainda estava em minha mão. Eu o coloquei no busto de Caruso. Mais tarde percebi que não devia ter feito aquilo, mas naquela hora estava muito chocada e assustada para saber o que estava fazendo.

Deixei o estúdio, fechando a porta atrás de mim, desci a escada até o décimo segundo andar e toquei a campainha da porta do apartamento de Mion. Pretendia contar à Sra. Mion o que tinha visto, mas quando ela apareceu na porta, isto me foi impossível. Não podia dizer a ela que seu marido estava lá no estúdio, morto. Depois lamentei isto, mas agora não vejo razão para me lamentar ou me desculpar; eu simplesmente não consegui pronunciar aquelas palavras. Eu lhe disse que queria ver seu marido, tinha tocado a campainha do estúdio e ninguém tinha me respondido. Então chamei o elevador, saí do edifício e fui para casa.

Não tendo sido capaz de contar à Sra. Mion, não contei a mais ninguém. Deveria ter dito a meu pai, mas ele não estava em casa. Decidi esperar até que ele chegasse para então lhe contar, mas antes disto um amigo me telefonou e me disse que Mion tinha se suicidado, então resolvi não contar a mais ninguém, nem mesmo a meu pai, que eu estivera no estúdio, mas dizer que eu tinha tocado a campainha, balido na porta e não obtido resposta. Pensei que não faria diferença, mas agora me foi explicado que faz e por isto estou declarando exatamente como aconteceu.

Quando ela chegou ao fim o garçom veio com as bebidas e ela segurou o documento contra o peito como se estivesse jogando pôquer. Segurando-o com a mão esquerda, ela apanhou o copo com a direita e tomou um grande gole de uísque. Tomei um pouco do meu para ser educado.

"Isto é um punhado de mentiras", disse ela indignada.

"É claro que é", concordei. "Tenho bons ouvidos, por isto fale baixo. O Sr. Wolfe sabe perfeitamente que está lhe dando uma chance, e de qualquer maneira seria muito difícil conseguir que você assinasse este documento se ele contivesse a verdade. Sabemos perfeitamente que a porta do estúdio estava trancada e você a abriu com sua chave. Sabemos também que... não escute um minuto... também que você pegou a arma propositadamente e a colocou no busto porque pensou que a Sra. Mion o tivesse matado e tivesse deixado a arma lá para que parecesse um suicídio, e você queria complicar as coisas para ela. Você não poderia..."

"Onde você estava?" perguntou ela sarcasticamente. "Escondido atrás do sofá?"

"Bolas. Se você não tivesse uma chave, por que faltaria a um compromisso para se encontrar comigo só pelo que eu lhe disse pelo telefone? Quanto ao revólver, não poderia ter sido tão estúpida mesmo que você tivesse trabalhado ano inteiro nisso. Quem iria acreditar que alguém tinha atirado nele de modo que parecesse suicídio e então ser idiota bastante para colocar o revólver no busto? Estúpido demais para acreditar, porém você fez isto".

Ela estava tão preocupada, que não dava para se ofender de ser chamada de estúpida. Sua sobrancelha estava franzida em sua testa pálida e seu olhar sem brilho. "De qualquer maneira", protestou ela, "o que isto diz não somente é mentira, como é impossível! Eles acharam o revólver no chão perto do corpo! Então isto não pode ser verdade!"

"Certo". Sorri para ela. "Deve ter sido um choque para você ler aquilo nos jornais. Desde que você tinha pessoalmente posto o revólver no busto, como eles o tinham achado no chão? Obviamente alguém o tinha posto de novo no chão. Suponho que tenha imaginado que a Sra. Mion tenha feito também isto. Deve ter sido duro ficar de boca fechada, mas era preciso. Agora é um pouco diferente. O Sr. Wolfe sabe quem colocou a arma no chão e pode prová-lo. Além disso sabe que Mion foi assassinado e pode provar isto também. O que o detém é a questão de explicar como o revólver foi parar do chão no busto". Peguei minha caneta. "Assine seu nome, eu testemunho isto e tudo fica acertado".

"Você quer que eu assine isto?" ela falou com desprezo. "Eu não sou estúpida a este ponto".

Chamei o garçom e pedi duas novas doses e então, para segurar sua companhia, esvaziei meu copo.

Encontrei seu olhar com a testa franzida. "Escute, olhos azuis", eu lhe disse. "Não estou pretendendo fazer-lhe uma tortura chinesa. Não estou dizendo que podemos provar que você entrou no estúdio - se com sua chave ou porque a porta do estúdio não estava trancada, não importa - e mexeu na arma. Sabemos que o fez, desde que ninguém mais podia ter feito e você estava lá na hora exata, más admito que não podemos provar isto. Entretanto estamos lhe oferecendo uma ótima troca".

Apontei a caneta para ela. "Agora ouça. Todos nós queremos isto acertado e guardado em segredo no caso de que a pessoa que pôs o revólver de volta no chão seja suficientemente idiota para falar sobre isto, o que não é muito provável. Ele seria somente..."

"Você disse ele?" perguntou ela.

"Não faz diferença se é ele ou ela. Como diz o Sr. Wolfe a gramática poderia usar um outro pronome. Ele só estaria criando problemas para si mesmo. Se ele não espalhar isto, e creio que não vai fazê-lo, sua declaração não vai ser utilizada, mas temos que tê-la preparada caso ele o faça. Outra coisa; se tivermos esta declaração não somos obrigados a contar aos tiras que você tinha uma chave da porta do estúdio. Não estamos interessados em chaves. Ainda mais, você vai evitar a seu pai uma grande despesa. Se assinar esta declaração podemos esclarecer o problema da morte de Mion e se o fizermos garanto que a Sra. Mion vai ficar em tal estado de ânimo que não mais exigirá nenhuma indenização de seu pai. Ela vai estar muito ocupada com um certo problema".

Ofereci-lhe a caneta. "Vá em frente, assine isto".

Ela sacudiu a cabeça, porém sem muita energia porque seu cérebro estava trabalhando novamente. Reconhecendo o fato de que seu pensamento não estava acostumado àquele tipo de situação, fui paciente. Então as bebidas vieram e houve um recesso, desde que eu não podia esperar que ela pudesse pensar e beber ao mesmo tempo. Mas finalmente ela chegou ao ponto que eu tinha mirado.

"Então vocês sabem", declarou ela com satisfação.

"Sabemos o bastante", falei obscuramente.

"Vocês sabem que ela o matou. Sabem que ela pôs a arma de volta no chão. Eu também sabia disto, sabia que tinha sido ela. E agora podem provar isto? Se eu assinar vocês podem prová-lo?"

Certamente eu podia ter desconversado, mas pensei que não valia a pena. "Certamente que podemos", assegurei a ela. "Com esta declaração estamos prontos para fazê-lo. Este é o elo perdido. Aqui está a caneta".

Ela levantou o copo e o esvaziou, colocando-o sobre a mesa, sacudiu a cabeça novamente, desta vez com energia. "Não", falou secamente, "não vou fazer isto". Ela me estendeu a mão com o documento. "Admito que tudo é verdade e quando a levarem ao tribunal, se ela disser que pôs o revólver de volta no chão eu vou e juro que eu o pus no busto, mas não vou assinar nada porque uma vez assinei uma coisa a respeito de um acidente e meu pai me fez prometer que eu nunca mais assinaria mais nada sem mostrar a ele primeiro. Eu poderia pegar isto para mostrar a ele e então assinar e você iria buscá-lo esta noite ou amanhã". Ela franziu a testa. "O problema é que ele não sabe que eu tinha uma chave, mas posso lhe explicar isto".

Entretanto ela já não estava mais com o documento. Eu o tinha pegado de volta. Alguém poderia pensar que eu deveria ter continuado a insistir e brigar, mas quem pensar assim não estava lá vendo-a e ouvindo-a, e eu estava. Desisti. Tirei do bolso o meu caderno de anotações, rasguei uma página e comecei a escrever nela.

"Quero tomar outro drinque" declarou ela.

"Em um minuto", resmunguei e continuei escrevendo o que se segue:

A Nero Wolfe Por meio desta declaro que Ar chie Goodwin tentou, da melhor maneira, me persuadir a assinar o documento que o senhor escreveu, me explicou o propósito deste e eu lhe disse por que me recusei a assiná-lo.

"Aqui está", eu lhe disse. "Isto não é assinar alguma coisa, é apenas declarar que se recusou a assinar alguma coisa. A razão de eu lhe pedir isto é que o Sr. Wolfe sabe como as garotas bonitas me atraem, especialmente garotas sofisticadas como você, e se eu lhe devolver aquele documento sem assinar ele vai pensar que eu nem mesmo tentei. Ele pode até me despedir. Escreva só o seu nome aqui embaixo".

Ela o leu novamente e pegou minha caneta. Sorriu para mim, resplandecente. "Não está brincando comigo", falou amistosamente. "Sei quando estou atraindo um homem. Você pensa que eu sou fria e calculista".

"Certo?" falei um pouco magoado, porém não muito. "De qualquer modo o problema não é se você me atrai ou não, mas sim o que o Sr. Wolfe vai pensar. Vai ajudar muito se eu tiver isto. Muito obrigado". Peguei o papel de sua mão, dobrei e o guardei.

"Eu sei quando atraio um homem", declarou ela.

Não havia ali outra coisa que eu quisesse, mas como eu tinha lhe prometido outro drinque eu o pedi.

Já eram mais de seis horas quando voltei para a Rua 35-Oeste. Wolfe então, já encerrara sua visita ao orquidário e estava embaixo, no escritório. Entrei e coloquei o documento sem assinatura em sua frente sobre a mesa.

Ele resmungou. "Bem?"

Eu sentei e lhe contei exatamente o que tinha acontecido até o ponto em que ela se oferecera para levar o documento para a casa e mostrá-lo a seu pai.

"Sinto muito", eu lhe disse, "mas muito da sua teimosia não foi notada naquela reunião da outra noite. Não digo isto como desculpa mas simplesmente como um fato. Sua capacidade de pensar podia carregada dentro de um grão de ervilha. Sabendo o que o senhor pensa de afirmações feitas e querendo convencê-lo da verdade desta, eu lhe trouxe uma prova. Aqui está um papel que ela assinou".

Entreguei-lhe a página que tinha rasgado do meu caderno. Ele deu uma olhada nela e então me olhou.

"Ela assinou isto?"

"Sim, senhor, na minha frente".

"Verdade? Bom. Satisfatório".

Eu recebi o elogio com simplicidade. Não feria meus sentimentos aquele "satisfatório".

"Um golpe bem dado", disse ele. "Ela usou sua caneta?"

"Sim senhor".

"posso vê-la, por favor?"

Eu me levantei e a entreguei a ele, com uma cópia das páginas datilografadas e fiquei olhando interessado enquanto ele escrevia "Clara James" muitas e muitas vezes, comparando cada tentativa com o original que eu segurava. Enquanto isto, de tempos em tempos, ele falava.

"É pouco provável que alguém venha a ver isto - exceto nossos clientes... Esta está melhor... Ainda há tempo para telefonara todos eles antes do jantar... primeiro a Sra. Mion e o Sr. Weppler... depois os outros... Diga-lhes que minha conclusão está pronta a respeito da indenização da Sra. Mion contra o Sr. James... Se eles puderem vir às nove horas esta noite. Se isto for impossível amanhã às onze horas da manhã eu farei... Então chame o Sr. Cramer... Diga-lhe que ele pode trazer um de seus homens com ele..."

Ele estendeu a declaração datilografada sob o mata-borrão de sua mesa, falsificou a assinatura de Clara James embaixo e a comparou com a que eu tinha conseguido.

"Falho para um profissional", murmurou ele, "mas nenhum profissional nunca vai vê-lo. Para nossos clientes, mesmo que eles a vejam, vai funcionar muito bem.

CAPÍTULO 8

Demorei bem uma hora no telefone para combinar a reunião Para aquela noite, mas finalmente o consegui. Só faltou encontrar Gifford James, mas sua filha se encarregou de contratá-lo e falar com ele. Com os outros eu mesmo falei.

Os únicos que criaram dificuldades foram nossos clientes, especialmente Peggy Mion. Ela se recusava a ter um encontro com James com o único propósito de cobrar-lhe a indenização e eu tive que apelar para Wolfe. Fred e Peggy foram convidados a chegarem antes dos outros para terem uma reunião particular e, então decidirem se ficariam ou não. Aquilo ela aceitou.

Chegaram a tempo de nos acompanharem no café, após o jantar. Peggy com certeza, além de ter escovado os dentes, tinha também descansado, tomado um banho e mudado de roupa; apesar disto não parecia muito entusiasmada. Estava ressabiada, aborrecida, distante e cética. Ela não disse, com palavras, que desejava nunca ter chegado perto de Nero Wolfe, porém era o que deixava perceber. Eu tinha a impressão de que Fred Weppler sentia o mesmo, mas ele estava sendo corajoso e persistente. Tinha sido Peggy que tinha insistido para procurar Wolfe e Fred não queria que ela pensasse que ele achava que ela tinha piorado ainda mais as coisas em lugar de melhorá-las.

Eles não se animaram nem mesmo quando Wolfe lhes mostrou a declaração assinada por Clara James. Eles a leram juntos, ela sentada na poltrona vermelha.

Ambos olharam para Wolfe.

"E então?" perguntou Fred.

"Meu caro senhor", Wolfe empurrou sua xícara, "minha cara senhora. Por que os senhores me procuraram? Porque o fato de o revólver não estar no chão quando entraram no estúdio, os convenceu de que Mion não tinha se suicidado mas que tinha sido morto. Se as circunstâncias lhes tivessem permitido acreditar que tinha sido assim, agora já estariam casados e nunca teriam precisado de mim. Muito bem. Agora são estas, precisamente as circunstâncias. O que querem mais? Suas mentes esclarecidas? Eu as esclareci".

Fred apertou firmemente os lábios.

"Não acredito nisto", disse Peggy sombriamente.

"Não acredita nesta declaração?' Wolfe alcançou o documento e o colocou na gaveta da mesa - o que me soou como uma sábia precaução, desde que já eram quase nove horas - "A senhora pensa que a Srta. James assinaria uma coisa como esta se não fosse verdade? Por que faria..."

"Não é isto que eu quero dizer", falou Peggy. "Quero dizer que não acredito que meu marido tenha se suicidado, não importa onde estivesse o revólver. Eu o conhecia muito bem. Ele nunca se mataria - nunca!" Ela girou a cabeça para olhar para Fred. "Ele faria isto, Fred?"

"É difícil acreditar", admitiu Fred sem muita convicção.

"Certo", Wolfe foi cáustico. "Então o trabalho para o qual vocês me contrataram não foi como vocês me descreveram. Pelo menos têm Que concordar que os satisfiz a respeito do revólver; vocês não podem mais divagar a este respeito. Portanto, o trabalho está feito, mas agora querem mais. Querem um crime solucionado, o que aplica a necessidade de prender um criminoso. Querem..."

"Só quero dizer", insistiu Peggy desesperadamente, "que não acredito que ele tenha se suicidado e nada me fará acreditar nisto. Vejo agora o que realmente..."

A campainha da porta tocou e eu saí para atendê-la.

CAPÍTULO 9

Assim, nossos clientes ficaram para a festa...

Havia dez convidados ao todo: os seis que compareceram na segunda-feira à noite, os dois clientes, o inspetor Cramer e meu velho amigo e rival, o sargento Purley Stebbins. O que tornava a festinha diferente é que a mais silenciosa de todos, Clara James, era a única que tinha uma idéia do que ia acontecer, a menos que ela tivesse contado a seu pai, o que eu duvidava. Tinha a vantagem da sugestão que eu lhe dera no bar. Adele Bosley, o Dr. Lloyd, Rupert Grove, o juiz Arnold e Gifford James não tinham razão para supor que houvesse alguma coisa a mais, em pauta, além do pedido de indenização contra James, até que chegaram e foram apresentados ao inspetor Cramer e ao sargento Stebbins. Só Deus sabe o que eles pensaram então; um rápido olhar em suas expressões era suficiente para saber que eles nem sequer imaginavam. Quanto a Cramer e Stebbins, tinham suficiente experiência em relação a Nero Wolfe para saberem que certamente muita coisa ia ser revelada, mas sobre quem, como e quando? Peggy e Fred, mesmo depois da chegada da autoridade, provavelmente pensaram que Wolfe iria desfazer a idéia de suicídio de Mion motivada pela declaração de Clara e revelando 0 que Fred nos contara a respeito de ter tirado a arma do busto e colocado no chão, a se julgar pela expressão assustada, quase desesperada de seus rostos. Agora, porém, estavam mais confiantes.

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal