Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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"Estou no meu caminho para o centro", resmungou ele, "e não tenho muito tempo".

Aquela com certeza era uma mentira lavada. Ele simplesmente não queria admitir que um inspetor do Distrito Policial de New York aceitaria o convite de um detetive particular, mesmo que este fosse Nero Wolfe, e eu lhe tivesse dito que tínhamos alguma coisa "quente".

"O que é", grunhiu ele, "o negócio do Dickinson? Quem lhe falou sobre isto?"

Wolfe sacudiu a cabeça. "Ninguém", graças a Deus. É sobre o assassínio de Alberto Mion".

Eu arregalei os olhos para ele. Aquilo ia além do que eu podia ter imaginado. Ele conseguira deixar aquele presunçoso perdido.

"Mion?" Cramer não estava interessado. "Não tenho nada com isso".

"Logo terá". Alberto Mion, o famoso cantor de ópera. Quatro meses atrás, em dezenove de abril. No seu estúdio na Avenida East End, baleado.

"Oh!", concordou Cramer. "Certo, eu me lembro. Mas você está exagerando um pouco. Foi suicídio".

"Não! Foi crime e com uma agravante: premeditado".

Cramer observou-o atentamente durante uns segundos. Então sem pressa, tirou um charuto do bolso, examinou-o e colocou-o na boca. No mesmo instante porém o tirou novamente.

"Nunca soube que você tivesse estado tão por fora", comentou ele, "que se deixasse levar por uma dor de cabeça. Quem disse que foi crime?"

"Eu cheguei a esta conclusão".

"Ah! Então está certo..." O sarcasmo de Cramer geralmente era um pouco violento. "E você possui alguma evidência?"

"Nenhuma".

"Ótimo! Evidências somente confundem um crime". Cramer colocou o charuto na boca e explodiu: "desde quando você começou a guardar as suas malditas opiniões? Então, vá em frente e fale de uma vez!"

"Bem", concordou Wolfe, "é um pouco difícil. Provavelmente você está pouco familiarizado com os detalhes, desde que ocorreu há tanto tempo atrás e foi considerado como suicídio".

"Eu me lembro dele muito bem. Como você diz, ele era famoso. Vá em frente".

Wolfe inclinou-se para trás e cerrou os olhos. "Interrompa-me se precisar. A noite passada eu tinha aqui seis pessoas conversando". Citou seus nomes e as identificou. Cinco delas estavam presentes na reunião, no estúdio de Mion, que terminou duas horas antes dele ter sido encontrado morto. A sexta, a Srta. James, bateu na porta do estúdio às seis e um quarto e não obteve resposta, presumivelmente por que àquela hora ele já estivesse morto. Minha conclusão de que Mion foi assassinado é baseada em coisas que ouvi dizer. Não vou repeti-las a você, porque isto demoraria muito tempo, além de ser urna questão de ênfase e interpretação, e porque você já deve tê-las ouvido".

"Eu não estava aqui ontem a noite", disse Cramer secamente.

"Certo, não estava. Quando falei em "você", eu deveria ter dito o Departamento de Polícia. Tudo deve estar nos arquivos. Eles foram interrogados quando aconteceu, e contaram suas estórias como agora contaram a mim. Pode obtê-las lá. Você alguma vez soube que eu tive que engolir minhas palavras?"

"Tenho tido vezes em que gostaria de enfiá-las por sua garganta abaixo".

"Porém você nunca o fez... Pois aqui estão mais três que eu não engolirei: Mion foi assassinado. Não vou lhe dizer, agora, como cheguei a esta conclusão; estude em seus arquivos".

Cramer estava tentando se controlar. "Não tenho que estudá-los", replicou ele, "por um único detalhe - o modo como ele foi morto. Você está dizendo que ele disparou a arma, ele mesmo, mas foi levado a isto?"

"Não. O assassino disparou a arma".

"Deve ter sido um assassino brilhante. É extraordinário pedir a um sujeito para abrira boca, enfiar uma arma nela sem nem mesmo levar uma mordida. Você se importaria de me dizer o nome dele?"

Wolfe sacudiu a cabeça. "Ainda não fui tão longe. Mas não é este problema que está me preocupando; este pode ser resolvido. É alguma coisa mais". Ele inclinou-se para a frente e falou honestamente. "Olhe aqui, Cramer. Não me seria impossível descobrir tudo sozinho, entregar o assassino e as evidências à Polícia, bater minhas asas e voar. Porém, primeiro, não tenho intenção de expô-lo ao ridículo, como um palhaço, desde que não o é; e segundo, preciso de sua ajuda. Eu ainda não estou preparado para provar a você que Mion foi assassinado; só posso lhe assegurar que ele o foi e repito que não vou ter que engolir isto - e nem tam pouco você. Isto não é o suficiente pelo menos para despertar o interesse?"

Cramer parou de mastigar o charuto. Ele nunca os acendia. "Claro", disse ele sobriamente. "Com os infernos, eu estou interessado. Outra dor de cabeça de primeira classe. Estou lisonjeado que queira que eu o ajude. Mas como?"

"Quero que você prenda duas pessoas como testemunhas materiais, as interrogue e as deixe em liberdade sob fiança".

"Duas? E por que não as seis?" Posso assegurar-lhes que o sarcasmo de Cramer era dos grandes...

"Mas" - Wolfe ignorou aquilo - "sob condições claramente definidas. Eles não podem saber que sou eu o responsável; não devem nem mesmo saber que eu falei com você. As prisões precisam ser feitas ainda no fim da tarde ou logo amanhã cedo; então serão mantidos sob custódia durante toda a noite até que eles consigam a fiança pela manhã. Esta fiança não precisa ser alta; isto não é importante. O interrogatório deverá ser minucioso, prolongado e severo, não simplesmente uma rotina e se eles dormirem pouco, ou mesmo não dormirem, melhor. É claro que este tipo de coisa é rotineira para vocês".

"Sim, fazemos isto constantemente". O tom de Cramer era monótono. "Porém quando for pedir uma ordem de prisão gostaria de ter uma boa razão. Não queria colocar embaixo que era para fazer um favor especial a Nero Wolfe. Não posso ser contraditório".

"Há boas razões para estas ordens. Eles são testemunhas materiais. Realmente o são".

"Você não me disse seus nomes. Quem são eles?"

"O homem e a mulher-que acharam o corpo: o Sr. Frederick Weppler, o crítico de música e a Sra. Mion, a viúva".

Desta vez não arregalei os olhos, mas tive de me refazer rápido. Sempre havia desse tipo de coisas em minha situação. Muitas vezes tinha visto Wolfe ir bem longe, em algumas ocasiões, longe até demais; por exemplo, evitar que um cliente fosse detido. Ele considerava isto como situação muito penosa. E aqui estava ele, praticamente implorando à Polícia para deter Fred e Peggy, quando eu tinha depositado o cheque dela, de cinco mil dólares, exatamente no dia anterior!"

"Oh", disse Cramer. "Eles?"

"Sim senhor", Wolfe assegurou-lhe compreensivamente. "Como você sabe, ou pode saber pelos arquivos, há uma porção de coisas para serem perguntadas a eles. O Sr. Weppler almoçou em casa de Mion naquele dia, juntamente com várias outras pessoas. Depois que os outros foram embora, ele permaneceu lá, com a Sra. Mion. O que conversaram? O que fizeram naquela tarde; onde eles estiveram? Por que o Sr. Weppler voltou ao apartamento de Mion às sete horas? Por que ele e a Sra. Mion subiram juntos ao estúdio? Depois de achar o corpo, por que o Sr. Weppler desceu as escadas antes de comunicar-se com a polícia, para obter uma lista de nomes com o porteiro e com o ascensorista? Uma atuação incomum. Era hábito de Mion tirar um cochilo durante a tarde? Ele costumava dormir com a boca aberta?"

"Muito agradecido", falou Cramer ironicamente. "Você é maravilhoso, pensar até nas perguntas a serem feitas. Mas mesmo que Mion tirasse sonecas com a boca aberta, duvido que ele o fizesse em pé. E depois da bala sair de sua cabeça, alojou-se no teto, se bem me recordo. Agora", e Cramer colocou as mãos sobre os braços da cadeira, com o charuto preso entre os dentes, mais ou menos no ângulo em que o revólver provavelmente teria ficado na boca de Mion, "quem é o seu cliente?"

"Não", respondeu Wolfe com certo constrangimento. "Não estou pronto para revelar isto".

"Eu sabia disto. De fato não há o diabo de uma única coisa que você tenha revelado. Não tem provas, ou se tem alguma, a está guardando muito bem guardada. Você chegou a uma conclusão que lhe agrada, que vai ajudar a um cliente que não revela, e quer que eu a teste para si prendendo dois respeitáveis cidadãos e dando-lhes muito trabalho. Tenho visto esquisitices de sua parte, mas esta, é o máximo, pelo amor de Deus!"

"Eu lhe disse que não ia engolir isto, e nem você. Se..."

"Você vai engolir é uma de suas orquídeas se tiver que pagar uma indenização!"

Aquilo iniciou o tiroteio. Eu já me sentei muitas vezes para assistir aqueles dois numa luta cerrada - e tenho me divertido em cada minuto dela. Mas aquela tornou-se tão violenta que já não estava muito certo de estar me divertindo.

Às 12:40 Cramer estava de pé, preparando-se para sair. As 12:45 estava de volta à cadeira vermelha, sacudindo os punhos e vociferando. Às 12:48 Wolfe estava inclinado para trás em sua cadeira, com os olhos fechados, fingindo-se de surdo. Às 12:52 ele estava esmurrando sua mesa e urrando. À uma e dez tudo estava terminado: Cramer tinha concordado e partido. Ele tinha imposto uma condição: que houvesse primeiro um exame dos relatórios e uma conversa com o seu pessoal. Mas aquilo não tinha importância desde que as prisões fossem adiadas para depois que os juízes tivessem encerrado o expediente. Ele aceitou a condição de que as vítimas não ficassem sabendo que Wolfe interferira no caso. Poderia ter dito que ele estava simplesmente usando o bom senso. Não importava o quanto ele não levasse em conta as três palavras que não eram para ser engolidas - apesar de saber, por experiência, como era arriscado não levar Wolfe em conta, exatamente pelo inferno que isso poderia dar - elas faziam a coisa provavelmente possível, e não havia mal nenhum dar uma outra olhada na morte de Mion;e naquele caso uma sessão com o casal que tinha achado o corpo era um começo tão bom corno qualquer outro. Realmente, a única coisa que aborrecia Cramer era a recusa de Wolfe em dizer quem era o seu cliente.

Enquanto eu seguia Wolfe até a sala de jantar, para o almoço, comentei sobre seu estouro anterior: "já existem oitocentas e nove pessoas na área metropolitana que gostariam de envenená-lo. Isto vai fazer com que se tornem oitocentas e onze. Não pense que mais cedo ou mais tarde eles não vão encontrar um meio".

"É claro que vão", respondeu ele, puxando sua cadeira para trás. "Porém, tarde demais".

Até onde soubemos durante o resto do dia e da noite não aconteceu mais nada.

CAPÍTULO 6

Eu estava em minha mesa, no escritório, às 10:40 da manhã seguinte, quando o telefone tocou. Atendi dizendo "Escritório de Nero Wolfe, Archie Goodwin falando".

"Quero falar com o Sr. Wolfe".

"Ele não estará disponível até às onze horas. Posso ajudá-lo?"

"Isto é urgente. Aqui é Weppler, Frederick Weppler. Estou numa cabine telefônica em uma drogaria na 9ª Avenida próximo da Rua 20. A Sra. Mion está comigo. Nós fomos detidos".

"Deus do céu!" Eu fingi que estava apavorado."Por quê?"

"Para nos interrogarem sobre a morte de Mion. Eles tinham ordem de prisão. Detiveram-nos toda a noite e acabamos de sermos soltos sob fiança. Eu arranjei um advogado para a fiança, mas não quero que ele saiba a respeito... do que tratamos com Wolfe. Ele não está conosco. Queremos ver Wolfe".

"Certamente", concordei. "É o cúmulo da ousadia. Venham para cá imediatamente. Ele descerá das suas estufas a tempo de vocês chegarem. Tomem um táxi".

"Não podemos. Por isto estou ligando. Estamos sendo seguidos por dois detetives e não queremos que eles saibam que vamos ver Wolfe. Como podemos nos livrar deles?"

Muito tempo e energia seriam economizados se eu lhe dissesse que não se importasse com aqueles dois, porém achei que seria melhor continuar com a encenação.

"Pelo amor de Deus", enunciei, muito aborrecido. "Tiras me dão frio no pescoço. Ouça... Está me ouvindo?"

"Sim, estou".

"Vá até a Feder Paper Company, na Rua 17 - Oeste, trinta e cinco. Pergunte no escritório pelo Sr. Sol Feder. Diga-lhe que seu nome é Montgomery. Ele o conduzirá a uma passagem que sai na Rua 18. Exatamente lá, haverá, estacionado junto à guia, ou no estacionamento duplo, um táxi com um lenço no trinco da porta. Eu estarei nele. Não se demorem para tomá-lo. Entendeu tudo?"

"Penso que sim. É melhor o senhor repetir o endereço".

Eu o fiz, e mandei que ele esperasse dez minutos antes de começar, para me dar tempo de chegar lá. Então, depois de desligar, telefonei a Sol Feder para instruí-lo, falei com Wolfe no orquidário para informá-lo e saí.

Eu deveria ter-lhes dito para que esperassem quinze ou vinte minutos em lugar de dez, porque mal pude chegar a tempo. Meu táxi tinha acabado de parar e eu estava saindo para amarrar meu lenço no trinco da porta, quando eles vieram pela calçada como dois fugitivos do inferno. Abri a porta e Fred praticamente atirou Peggy para dentro e mergulhou atrás dela.

"Okay", eu disse positivamente ao motorista, "o senhor sabe para onde", e partimos.

Enquanto corríamos na 10ª Avenida, perguntei-lhes se tinham tomado café ao que responderam afirmativamente, porém sem muito entusiasmo. O fato é que pareciam inteiramente desanimados. O casaco verde que Peggy usava, sobre um vestido marrom de algodão, estava amarrotado, não muito limpo e seu rosto descuidado. O cabelo de Fred parecia não ter sido penteado há um mês e seu terno tropical marrom tinha algo de sujo. Eles se sentaram de mãos dadas e um minuto depois Fred se virou para olhar através do vidro traseiro.

"Está tudo bem", eu lhe assegurei. "Tenho Sol Feder reservado exatamente para uma emergência como esta".

Foi uma corrida de apenas cinco minutos. Quando eu os conduzi para o escritório, Wolfe estava lá em sua grande poltrona, atrás de sua mesa. Levantou-se para cumprimentá-los, convidou-os a sentar, perguntou-lhes se tinham tomado café e disse-lhes que a notícia de sua prisão tinha sido um choque muito desagradável.

"Uma coisa", Fred deixou escapar ainda de pé. "Viemos vê-lo e consultá-lo confidencialmente, e menos de quarenta e oito horas depois fomos detidos. Isto foi pura coincidência?"

Wolfe ajeitou-se em sua cadeira. "Isto não vai nos ajudar em nada Weppler", respondeu sem ressentimento. "Se o senhor está exaltado, é melhor que se acalme. O Sr. e a Sra. Mion são meus clientes. Uma insinuação de que eu sou capaz de agir contra o interesse de um cliente é muito pueril para ser discutida. O que a polícia lhes perguntou?"

Mas Fred ainda não estava satisfeito. "O senhor não é um delator", falou ele, "Eu sei disto, mas a respeito de Goodwin? Ele também pode não ser um delator mas pode não ter tido cuidado ao falar com alguém".

Os olhos de Wolfe se moveram. "Archie. Por favor, responda".

"O senhor me conhece, sabe que não faria isto. Mas ele pode deixar para me pedir desculpas mais tarde. Tiveram uma noite dura". Olhei para Fred. "Sente-se e relaxe. Se eu tivesse uma língua comprida assim, não ficaria com este emprego nem uma semana".

"É muito estranho", insistiu Fred, sentando-se. " A Sra. Mion concorda comigo. Não concorda Peggy?"

Peggy sentada na cadeira vermelha deu-lhe um olhar e voltou a olhar para Wolfe. "Acho que sim", confessou. "Pensei nisto. Mas agora que estou aqui, olhando para o senhor..." Ela se mexeu na cadeira. "Oh, esqueça isto! Não há mais ninguém para nos ajudar. Conhecemos muitos advogados, é claro, mas não queremos contar a um advogado o que sabemos a respeito do revólver. Já tínhamos falado com o senhor. Agora, porém, a polícia suspeita de alguma coisa; estamos soltos sob fiança e o senhor tem que fazer qualquer coisa!"

"O que o senhor descobriu segunda-feira à noite?" perguntou Fred. "O senhor falou evasivamente quando lhe telefonei ontem. O que eles lhe disseram?"

"Repetiram fatos", replicou Wolfe. "Como lhe falei pelo telefone, fiz algum progresso. Agora... não tenho nada a acrescentar. Mas quero saber, preciso saber, que atitude tomou a polícia com vocês. Eles sabiam o que tinham me contado a respeito da arma?"

Ambos responderam que não. Wolfe resmungou. "Então eu teria o direito de pedir-lhe que retirassem a insinuação de que eu ou o Sr. Goodwin os traímos. A respeito do que eles os interrogaram?"

As respostas a isto levaram uma boa meia hora. Os tiras não tinham se esquecido de nada que estava incluído nos registros policiais e com as instruções de Cramer não tinham deixado escapar nada. Além do que se referia ao dia da morte de Mion, tinham sido particularmente curiosos a respeito dos sentimentos entre Peggy e Fred e seu comportamento durante os meses antecedentes e subseqüentes àquele dia. Diversas vezes precisei morder a língua para evitar perguntar a nossos clientes por que eles não haviam mandado os tiras pentear macacos, mas no fundo eu sabia a razão: eles estavam assustados, e um homem assustado não sabe bem o que deve fazer. Na hora em que acabaram de falar eu estava sentindo uma grande simpatia por eles e ao mesmo tempo um pouco culpado pelo que Wolfe estava fazendo, quando de repente ele me assustou. Ele estava sentado, enquanto tamborilava com os dedos o braço de sua cadeira, quando então olhou-me e disse abruptamente, "Archie, preencha um cheque de cinco mil dólares em nome da Sra. Mion".

Eles olharam estupefatos. Eu levantei e me aproximei dele. Enquanto eles queriam saber o que significava aquilo, fiquei perto do cofre.

"Estou me demitindo", disse Wolfe secamente. "Não agüento vocês. No domingo eu lhes disse que um de vocês, ou ambos estavam mentindo; vocês negaram obstinadamente. Aceitei trabalhar apesar de sua mentira e fiz o melhor que pude. Mas agora que a polícia está curiosa a respeito da morte de Mion e especificamente com vocês, eu me recuso a continuar arriscando.Estou querendo bancar o Dom Quixote, mas não um estúpido. Desligando-me de vocês, devo dizer-lhes que vou informar imediatamente ao inspetor Cramer tudo o que me disseram e preveni-los, também, de que ele me conhece muito bem e por isto vai acreditar em mim. Se, quando a polícia começara próxima etapa, vocês forem suficientemente tolos para tentar me contradizer, Deus sabe o que vai acontecer. A melhor coisa será contar-lhes a verdade e deixar que eles prossigam a investigação para a qual vocês tinham me contratado; mas também devo lhes prevenir que eles não são idiotas e também vão saber que estão mentindo - pelo menos um de vocês. Archie o que está aí esperando? Pegue o talão de cheques".

Abri o cofre.

Nenhum deles tinha dado um pio. Pensei que estavam cansados demais para reagirem normalmente. Quando voltei à minha mesa eles estavam sentados somente olhando um para o outro. Quando comecei a preencher o canhoto do cheque, a voz de Fred saiu.

"Não pode fazer isto. Não é ético".

"Bah!" replicou Wolfe com um ronco. "Vocês me contrataram para os tirar de uma encrenca, mentem a mim a este respeito e vêem falar em ética! Por acaso fiz algum sucesso na segunda-feira à noite. Esclareci tudo a respeito de dois casos, mas o diabo é que um deles depende de vocês. Tenho que saber quem pôs aquela arma no chão ao lado do cadáver. Estou convencido de que foi um de vocês dois, mas não querem admitir isto. Portanto não tenho remédio, e isto é uma pena, por que também estou convencido que nenhum de vocês está envolvido na morte de Mion. Se houvesse..."

"Que quer dizer?", perguntou Fred. Agora sua reação era perfeitamente normal. "O senhor está convencido de que nenhum de nós está envolvido?"

"Estou".

Fred tinha se levantado de sua cadeira. Caminhou para a mesa de Wolfe, colocou as mãos sobre ela e inclinando-se para frente disse asperamente: "O senhor quer dizer isto mesmo? Abra os olhos e olhe para mim! É exatamente isto que quer dizer'?"

"Sim", disse-lhe Wolfe. "E exatamente isto que quero dizer".

Fred encarou-o por mais um momento e então endireitou-se. "Está bem..." falou. Sua rudeza tinha desaparecido. "Eu coloquei o revólver sobre o chão".

Um gemido de dor veio de Peggy. Ela saltou de sua cadeira em sua direção e segurou seus braços com as mãos. "Fred! Não! Fred!" suplicou ela. Eu não imaginava que ela fosse capaz de suplicar, mas acho que estava muito cansada para evitar isto. Ele colocou uma das mãos ao seu redor, mas penso que achou que não seria conveniente tomá-la nos braços. Por um minuto ele a segurou. Finalmente virou-se para Wolfe e falou.

"Posso me arrepender disto, mas se o fizer o senhor Também se arrependerá, por Deus!" Ele falava com segurança. "Está certo, eu menti. Eu, pus a arma no chão. Agora dependo do senhor". Ele segurava Peggy fortemente. "Eu o fiz, Peggy. Não me diga que deveria ter-lhe dito talvez eu o devesse - mas não pude. Teria sido melhor, querida, realmente teria...".

"Sentem-se", interrompeu Wolfe. Depois de um minuto ele ordenou.

"Parem com isto e sentem-se!"

Peggy afastou-se e Fred deixou que ela voltasse à sua cadeira e caísse sobre ela, enquanto ele sentava-se no braço desta, colocando a mão sobre os ombros de Peggy. Seus olhares desconfiados, assustados, desafiadores mas, ao mesmo tempo, esperançosos estavam em Wolfe. Este então prosseguiu: "Presumo que o senhor entenda como é. O senhor não me impressionou. Eu já sabia que um de vocês tinha posto o revólver lá. Como é que alguém mais poderia ter entrado no estúdio naqueles poucos minutos? O que o senhor me contou vai ser melhor e mais útil, a menos que não continue dizendo a verdade, lente outra mentira e não sei o que vai acontecer; eu poderei não ser capaz de salvá-lo. Onde o encontrou?"

"Não se preocupe", falou Fred calmamente. "O senhor me arrancou isto e vai ter o resto exatamente como foi. Quando entramos e achamos o corpo, vi que a arma estava onde Mion sempre a guardava, na base do busto de Caruso. A Sra. Mion, não a viu, nem olhou naquela direção. Quando eu a deixei em seu quarto, voltei lá para cima. Apanhei o revólver pelo gatilho e o cheirei; ele tinha sido disparado. Coloquei-o no chão, perto do corpo, retornei ao apartamento, saí e tomei o elevador para o andar térreo. O resto foi exatamente como lhe contei no domingo".

"Vocês podiam estar apaixonados", resmungou Wolfe, "porém você não pensou muito na inteligência dela. Você presumiu que depois de matá-lo ela não teria a sagacidade de deixar a arma onde Mion deveria tê-la deixado cair..."

"Não fiz isto, vá para o inferno!"

"Tolice. É claro que fez. Quem mais você poderia ter querido proteger? Além do mais aquilo o tinha colocado em apuros. Quando tivesse que concordar com ela que a arma não estava lá, quando vocês entraram, estaria em dificuldades. Você não ousaria contar a ela o que tinha feito, pela implicação que isto teria em dizer que suspeitava dela, principalmente quando parecia que ela estava suspeitando de você. Não podia estar certo se realmente ela desconfiava de você, ou se somente...".

"Eu nunca suspeitei dele", disse Peggy com firmeza. Foi difícil ela fazer que sua voz soasse firme, mas o conseguiu. "E ele nunca suspeitou de mim, não realmente. Nós só não estávamos certos... certos do caminho a tomar... e quando se está amando e se quer que coisas durem tem que se estar certo".

"Foi isto", concordou Fred. Estavam se olhando. "Foi isto exatamente".

"Certo, vou aceitar". Wolfe falou rapidamente. "Penso que o senhor disse a verdade".

"O senhor sabe muito bem disso".

Wolfe concordou. "Suas palavras soam como verdadeiras, e eu tenho bom ouvido para perceber este tipo de coisa. Agora leve a Sra. Mion para casa. Tenho que trabalhar mas primeiro preciso pensar um pouco. Como eu disse, havia dois pormenores e o senhor esclareceu só um; não pode me ajudar com o outro. Vão para casa e comam alguma coisa".

"Quem quer comer?" perguntou Fred ferozmente. "Queremos saber o que senhor vai fazer!"

"Tenho que escovar os dentes", declarou Peggy. Lancei-lhe um olhar de admiração e simpatia. As mulheres às vezes dizem coisas como estas, em horas como estas, e esta é uma das razões pelas quais eu gosto de sua companhia. Nenhum homem, naquelas circunstâncias, pensaria em ter que escovar os dentes e diria isto!

Além de tudo, aquilo tornou mais fácil ficar livre deles sem ter que ser rude. Fred tentou insistir em que eles tinham o direito de saber qual era o programa, e ajudar a julgar as perspectivas, mas finalmente foi obrigado a aceitar a ordem de Wolfe de que quando alguém contrata um especialista a única autoridade que se tem sobre ele é o direito de demiti-lo. Isto, somado com o desejo de Peggy. de escovar os dentes, e a promessa de Wolfe de que os manteria informados, fez com que eles saíssem sem mais tumultos.

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