Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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Wolfe concordou. "Tanta coisa só por isto", disse ele em tom aliviado. "Estou contente por esta parte estar acabada". Seus olhos se moveram. "Agora, Sr. Grove, fale-me a respeito da reunião no estúdio do Sr. Mion, poucas horas antes dele morrer".

Rupert, o Gordo, estava com a cabeça inclinada para um lado, com seus olhos negros e sagazes encarando os de Wolfe. "Foi com o propósito", disse ele com sua voz de tenor, "de discutir a exigência que o Sr. Mion tinha feito para o pagamento dos prejuízos".

"O senhor estava lá?"

"Naturalmente que estava. Eu era o conselheiro e empresário de Mion. A Sita. Bosley, o Dr. Lloyd, o Sr. James e o juiz Arnold também estavam lá".

"Quem convocou a reunião? O senhor?"

"De certo modo, sim. Arnold a sugeriu, e eu falei com Mion e telefonei ao Dr. Lloyd e a Srta. Bosley".

"O que foi decidido?"

"Nada. É isto. Nada de definitivo. Havia o problema da extensão do prejuízo... de quando Mion poderia cantar novamente".

"Qual era sua opinião?"

Os olhos de Grove se apertaram. "Eu não disse que era o empresário de Mion?"

"Certamente. Quero dizer que posição o senhor tomou em relação ao pagamento dos prejuízos?"

"Pensei que um primeiro pagamento de cinqüenta mil dólares deveria ser feito imediatamente. Mesmo que a voz de Mion ficasse boa logo, ele já tinha perdido mais do que aquilo. Sua tournée pela América do Sul tinha sido cancelada e ele não pudera cumprir uma série de contratos para gravações, bem como propostas de espetáculos".

"Nunca chegaria a cinqüenta mil dólares", afirmou agressivamente o juiz Arnold. "Não havia nada de mal com a sua laringe, mesquinho como ele era! Eu mostrei cálculos..."

"Vá para o inferno com seus cálculos! Qualquer um pode... "

"Por favor!" Wolfe bateu na mesa com o punho. "Qual era a opinião do Sr. Mion?"

"A mesma que a minha, é claro". Grove olhava aborrecido para Arnold enquanto falava com Wolfe. "Já tínhamos discutido isto".

"Naturalmente". Wolfe olhou para a esquerda. "Como se sentia em relação a isto, Sr. James?"

"Eu penso", interrompeu Arnold, "que eu deveria falar por meu cliente. Concorda comigo Gif?"

"Continue", o barítono resmungou.

Arnold prosseguiu, e tomou mais de uma, das três horas que durou a reunião. Eu estava surpreso que Wolfe não o interrompesse e, afinal, permitisse deixá-lo vaguear a esmo, somente para obter uma prova a mais que confirmasse sua antiga opinião sobre os advogados. Se foi isto, ele o conseguiu. Arnold falou sobre tudo. Tinha uma porção de coisas para dizer a respeito de delitos e crimes, começando por vários séculos atrás, e falando com ênfase sobre a mente de um criminoso. Outro item de que ele falou, mas de passagem, era de interesse atual: abordou realmente as causas imediatas do caso, mas estava tudo tão emaranhado que eu perdi a seqüência e me distraí...

De vez em quando ele dizia alguma coisa que fazia sentido. A certa hora ele disse: "a idéia de um pagamento antecipado, como eles o chamavam era claramente inadmissível. Não é razoável esperar que um homem, mesmo que ele tenha estipulado uma obrigação, faça um pagamento antecipado até quase a importância total de dívida, se um método exato de calculá-la já não tenha sido acordado".

Em outro ponto ele disse: "a exigência de uma soma tão grande pode, de fato, ser caracterizada, certamente, como chantagem. Eles sabiam que se a ação fosse proposta e se nós demonstrássemos que a atitude de meu cliente fora conseqüência do conhecimento de que sua filha tinha sido enganada, o júri provavelmente não concederia a indenização. Mas sabiam, também, que seríamos contrários a apresentar esta defesa".

"Não seu conhecimento", objetou Wolfe. "Simplesmente sua crença. Sua filha diz que ela o informou erradamente".

"Nós poderíamos provar que ele tinha conhecimento", Arnold insistiu.

Olhei para Clara com curiosidade. Ela estava sendo contraditada diretamente na ordem cronológica de suas mentiras e suas verdades, porém, ou nem ela nem seu pai perceberam a implicação daquilo, ou não queriam começar tudo novamente.

Em outro ponto Arnold disse: "se a atitude de meu cliente foi danosa e os prejuízos exigíveis, a soma não poderia ser calculada até que a extensão do prejuízo fosse conhecida. Nós oferecemos vinte mil dólares, em um só pagamento, para uma quitação geral. Eles recusaram. Queriam um pagamento imediato mas por conta. A princípio recusamos aquilo. Finalmente concordamos somente em uma coisa: que seria feito um esforço para se chegar ao valor do prejuízo. É claro que o Dr. Lloyd estava lá por causa disto. Pediram-lhe que fizesse um prognóstico e ele afirmou que... mas não tenho necessidade de falar. Ele está aqui e o senhor pode obter isto diretamente dele".

Wolfe concordou: "se o senhor quiser, Doutor?"

Eu pensei - meu Deus! aqui vamos nós outra vez com um especialista...

Mas Lloyd teve pena de nós. Conservou-se em nosso nível e não tomou nem uma hora. Antes de falar tomou outro gole de seu (terceiro) uísque com soda e hortelã, que tinha aliviado algumas das linhas de seu simpático rosto e diminuído um pouco a preocupação de seus olhos.

"Vou tentar me lembrar", falou ele vagarosamente, "exatamente o que eu disse a eles. Primeiro descrevi os danos que o ataque tinha causado. As cartilagens da tiróide e da aritenóide do lado esquerdo tinham sido grandemente prejudicadas, e em menor extensão o cricóide". Ele sorriu - um sorriso superior, mas não arrogante. "Aguardei duas semanas que com o tratamento indicado uma operação pudesse ser evitada, mas não foi possível. Quando a fizemos, confesso, fiquei aliviado; não era tão mal como tinha pensado. Foi uma operação simples e ele a suportou admiravelmente. Eu não teria arriscado muito se naquele dia tivesse afirmado que a voz dele, em dois meses, estaria tão boa como sempre. No máximo três. A laringe, porém, é um órgão extremamente delicado, e um tenor como Mion é um verdadeiro fenômeno; portanto, fui bastante cauteloso quando disse que ficaria surpreso e desapontado se ele não estivesse bom, completamente bom, para a abertura da próxima temporada da ópera, nos próximos sete meses. Eu acrescentei que minhas esperanças, na verdade, eram um pouco mais otimistas". Lloyd apertou os lábios. "Isto foi tudo, penso. Entretanto, recebi com prazer a sugestão de que meu diagnóstico deveria ser reforçado por Rentner. Aparentemente seria um fator a mais na decisão a respeito da quantia a ser paga pelos prejuízos e eu não queria assumir a responsabilidade sozinho".

"Rentner? Quem era ele?" perguntou Wolfe.

"Dr. Abraham Rentner, do Hospital Monte Sinai", replicou Lloyd, em um tom que eu usaria se alguém me perguntasse quem era Sherlock Holmes... "Telefonei a ele e marquei uma consulta para a manhã seguinte".

"Insisti nela", falou presunçosamente Rupert, o Gordo. Mion tinha o direito de receber, não em um futuro distante, mas imediatamente. Eles não pagariam a menos que um total fosse combinado e se nós tivéssemos que dar um total eu queria estar absolutamente certo que ele seria.suficiente. Não se esqueça que naquele dia Mion não conseguia cantar uma nota!"

"Ele não seria capaz, de entoar um pianíssimo pelo menos nos próximos dois meses", confirmou Lloyd. "Dei este prazo, como mínimo".

"Parece", ajuntou o juiz Arnold, "ser uma implicância que nos opuséssemos à sugestão de que fosse ouvida a opinião de um segundo profissional. Devo protestar... "

"O senhor o fez!" gritou Grove.

"Não o fizemos!" grunhiu Gifford James. "Nós simplesmente..."

Os três então começaram a vociferar confusamente. Pareceu-me que eles poderiam ter economizado suas energias para o ponto principal da questão. A Sra. Mion iria receber alguma coisa e, se assim fosse, quanto; mas não com aquela atitude infantil. A maior preocupação deles era evitar o menor risco, comprometer-se com qualquer coisa. Wolfe, pacientemente, deixou-os chegar para onde foram conduzidos - nenhum lugar - e então introduziu uma nova voz na discussão. Virou-se para Adele e disse:

"Srta. Bosley, não ouvimos nada da senhora. De que lado estava?"

CAPÍTULO 4

Adele Bosley estivera sentada, prestando atenção, bebericando ocasionalmente seu rum Collins - agora o seu segundo - e olhando, penso eu, com uma aparência tremendamente inteligente. Embora estivéssemos no fim de agosto, ela era a única dos seis que estava realmente bronzeada. Suas relações públicas com o sol eram excelentes!

Ela sacudiu a cabeça. "Eu não estava de nenhum lado, Sr. Wolfe. Meu único interesse era meu patrão, a Associação do Metropolitan Ópera. Naturalmente queríamos tudo acertado reservada-mente, sem nenhum escândalo. Eu não tinha opinião de quanto e quando deveria ser pago".

"E não disse nada?"

"Não, eu simplesmente lhes pedi que estabelecessem isto o mais rápido possível".

"O suficiente!" Clara James deixou escapar com sarcasmo. "Você poderia ter ajudado um pouco meu pai, desde que foi ele que lhe arranjou seu emprego. Ou você..."

"Fique quieta, Clara!" disse-lhe James com autoridade.

Mas ela o ignorou e terminou "...ou você já o pagou por isto?"

Eu estava chocado! O juiz Arnold parecia aflito. Rupert, o Gordo sorria... O Dr. Lloyd tomou um gole do bourbom com água.

Em vista da atitude indulgente e amistosa que eu estava desenvolvendo em relação a Adele, esperava que ela respondesse alguma coisa à esbelta e glamurosa Srta. James, porém tudo que ela fez foi apelar ao pai dela. "Você não pode conter essa pirralha, Gif?"

Então, sem esperar por uma resposta, ela se voltou para Wolfe. "A Srta. James gosta de usar sua imaginação. O que ela insinuou não está no relatório. Em nenhum relatório".

Wolfe concordou. "Não vai fazer parte deste também". Ele tornou-se sério. "Para voltar aos nossos interesses, a que horas terminou aquela reunião?"

"Por quê?...o Sr. James e o juiz Arnold saíram primeiro, por volta das quatro e meia. O Dr. Lloyd saiu logo depois. Fiquei uns minutos com Mion e o Sr. Grove, e então saí." "Para onde a senhora foi?" "Para meu escritório, na Broadway".

"Durante quanto tempo a senhora ficou em seu escritório?' Ela parecia surpresa. "Não sei - sim eu sei, é claro. Até pouco depois das sete horas. Tinha algumas coisas a fazer e datilografei um relatório confidencial sobre a reunião na casa de Mion".

"A senhora viu Mion outra vez antes dele morrer? Ou telefonou a ele?"

"Vê-lo?" Ela ainda estava mais surpreendida. "Como eu poderia? O senhor não sabe que ele foi encontrado morto às sete horas? Isto foi antes de eu ter saído do escritório".

"A senhora telefonou para ele? Entre quatro e meia e sete horas?"

"Não". Adele estava intrigada e levemente irritada. Fiquei impressionado como Wolfe estava, temerariamente, pisando sobre gelo fino, extremamente perto do perigoso assunto do crime. Adele acrescentou, "Não sei onde o senho; está querendo chegar".

"Nem eu", disse o juiz Arnold enfaticamente. E sorriu sarcástico. "A menos que seja por força do hábito do senhor estar sempre inquirindo gente onde eles estavam na hora da morte ocorrida violentamente. Por que o senhor não pergunta a todos nós?"

"Isto é exatamente o que pretendo fazer," respondeu Wolfe imperturbavelmente. "Gostaria de saber por que Mion decidiu se matar, porque esta é a opinião que eu terei que dar à sua viúva. Acredito no que dois ou três de vocês disseram, que ele estava excitado quando aquela reunião terminou, mas não desesperado ou perturbado. Sei que ele se suicidou; a polícia não pode ter se confundido em uma coisa como esta; mas por quê?"

"Eu duvido", Adele afirmou. "Se o senhor conhecesse um cantor especialmente um grande artista como Mion - imaginaria o que ele sente quando não consegue nem mesmo falar, exceto em voz. baixa, em sussurros. É horrível".

"De qualquer modo, o senhor nunca o conheceu", completou Rupert Grove. "Em um ensaio eu o ouvi cantar uma ária como um anjo e então romper em choro porque pensou que tinha pronunciado inarticuladamente uma parte. Num minuto ele estava lá em cima, no céu, e, em seguida, estava desesperado".

Wolfe resmungou. "De qualquer maneira, nada do que lhe foi dito por alguém nas duas horas antes de seu suicídio é importante para este inquérito, para estabelecer a situação moral da Sra. Mion. Quero saber onde os senhores estavam naquele dia depois da reunião, até as sete horas da noite, e o que fizeram".

"Meu Deus!" - o juiz Arnold levantou as mãos. Daí baixou-as novamente. "Certo, está ficando tarde. Como a Srta. Bosley lhe disse, meu cliente e eu deixamos juntos o estúdio do Sr. Mion. Fomos ao bar do Churchill, bebemos e conversamos. Pouco depois a Srta. James se juntou a nós, ficou o bastante para um drinque, suponho que meia hora, e saiu. O Sr. James e eu ficamos juntos até depois das sete. Durante aquele tempo nenhum de nós se comunicou com Mion, nem combinou para que alguém mais o fizesse. Acho que disse tudo?"

"Obrigado", agradeceu Wolfe educadamente. "Naturalmente o senhor concorda, Sr. James?"

"Sim", respondeu o barítono asperamente. "Isto é uma porção de absurdos violentos".

"Está começando a parecer assim", concordou Wolfe. "Dr. Lloyd? Se não se importa?"

Ele não podia estar melhor, desde que tinha sido abrandado por quatro grandes doses de nosso melhor uísque. "Não há problema", respondeu ele prestativamente. "Visitei cinco clientes, dois na parte superior da 5? Avenida, um no lado Leste e dois no hospital. Fui para casa pouco depois das seis e tinha acabado de me vestir, depois de ter tomado um banho, quando Fred Weppler me telefonou a respeito de Mion. É claro que fui imediatamente".

"O senhor não viu nem telefonou a Mion?"

"Não, desde que deixei a reunião. Talvez eu devesse, mas não tive idéia - não sou psiquiatra, mas era seu médico".

"Ele era instável, não era?"

"Sim, era". Lloyd apertou os lábios. "É claro que essa opinião não é dada como médico".

"Longe disto", concordou Wolfe. Ele fixou seu olhar. "Sr. Grove, não preciso lhe perguntar se telefonou a Mion, desde que consta no relato que fez. Por volta das cinco horas?"

Rupert, o Gordo, tinha sua cabeça inclinada novamente. Aparentemente aquela era a sua posição favorita para conversar. Ele corrigiu Wolfe: "Eram mais de cinco horas. Acho que cinco e um quarto".

"De onde o senhor telefonou?"

"Do Clube Harvard".

Pensei comigo mesmo (que Deus me perdoe) que neste clube aceitam qualquer espécie de pessoas...

"O que foi dito?"

"Não muito". Os lábios de Grove se curvaram. "Não é da sua maldita conta, o senhor bem sabe disso. Mas os outros concordaram em falar e por isso eu vou me esforçar. Eu tinha esquecido de perguntar a ele se iria anunciar um certo produto por um milhão de dólares, e a agência queria uma resposta. Falamos menos de três minutos. Primeiro ele respondeu que não iria, depois então disse que iria. Isto foi tudo".

"Ele se parecia com um homem que está pronto para se matar?'

"Nem de leve. Ele estava mal humorado, mas isso era natural, desde que ele ainda não podia cantar e não esperava poder fazê-lo pelo menos durante os próximos dois meses".

"Depois que telefonou a Mion o que fez o senhor?"

"Fiquei no clube. Jantei lá e mal tinha terminado quando chegou a notícia que Mion tinha se suicidado. Eu estava, ainda, entre o sorvete e o café".

"Isto é muito mau... Quando o senhor telefonou a Mion, tentou novamente persuadi-lo a não apresentar sua queixa contra James?"

A cabeça de Grove levantou-se.

"O que é que eu fiz?" perguntou ele.

"O senhor me ouviu", disse Wolfe secamente. "O que há de surpreendente nisto? Naturalmente a Sra. Mion me informou, desde que eu estou trabalhando para ela. O senhor se opunha primeiramente ao pedido de Mion e tentou demovê-lo disto. O senhor afirmou que a publicidade seria tão prejudicial que não valeria a pena. Ele exigiu que o senhor mantivesse a reinvindicação e ameaçou cancelar seu contrato se assim não o fizesse. Isto não está certo?"

"Não está". Os olhos negros de Grove estavam brilhando. "Não foi nada deste jeito! Eu simplesmente lhe dei minha opinião. Quando ficou decidido prosseguir com a queixa eu concordei". Sua voz se elevou uma nota mais alta, embora eu não pudesse pensar que isto fosse possível. "É claro que eu concordei!"

"Certo". Wolfe não estava inquirindo. "Agora, qual é sua opinião a respeito da reclamação da Sra. Mion?"

"Não acho que ela tenha alguma. Não acredito que ela possa cobrar. Se eu estivesse no lugar de James eu não pagaria um centavo a ela".

Wolfe assentiu: "O senhor não gosta dela, gosta?"

"Francamente, não. Não, nunca. Eu sou obrigado a gostar dela?"

"Na verdade, não. Especialmente desde que ela, também, não goste do senhor". Wolfe virou-se em sua cadeira e inclinou-se para trás. Eu podia dizer, pela linha de seus lábios apertados, que o próximo item da agenda não o agradava, e entendi porque, quando vi que seus olhos se dirigiam para Clara James. Eu podia apostar que se ele pudesse prever que tinha que tratar com aquele tipo de moça, não aceitaria o caso.

Falou, com ela, então, determinadamente. "Srta. James, a senhora ouviu o que foi dito?"

"Eu estive imaginando", queixou-se ela, como se tivesse sofrendo uma injustiça, "se o senhor continuaria me ignorando. Eu também estava por perto".

"Eu sei. Não me esqueci da senhora". No tom dele estava implícito que ele fazia somente o que queria. "Quando a senhora tomou um drinque, no bar do Churchill, com seu pai e o juiz Arnold, por que eles a mandaram ao estúdio de Mion para vê-lo? Para quê?"

Arnold e James protestaram, imediata e simultaneamente, em voz alta. Wolfe não prestando atenção a eles, esperou pela resposta de Clara falando por eles.

"...não tem nada com eles", ela estava dizendo. "Eu fui por minha conta".

"A idéia foi sua?"

"Completamente. Eu pensei nisso sozinha".

"Por que a senhora foi lá?"

"Você não precisa responder, meu bem", disse-lhe Arnold.

Ela o ignorou. "Eles me contaram o que aconteceu durante a reunião e eu fiquei louca. Pensei que era um roubo - mas eu não diria isto a Alberto. Pensei que pudesse convencê-lo a desistir daquilo".

"A senhora ia apelar em nome dos velhos tempos?"

Ela olhou satisfeita. "O senhor tem a maneira mais linda de dizer as coisas! Imagine uma moça da minha idade tendo "velhos tempos!"

"Fico contente em saber que gosta do meu modo de dizer as coisas, Srta. James". Wolfe estava furioso. "De qualquer modo a senhora foi, chegando às seis e um quarto, não foi?"

"Sim, por ai".

"A senhora viu Mion?"

"Não".


"Por que não?"

"Ele não estava lá. Pelo menos..." ela parou. Seus olhos brilhavam demasiadamente. Então prosseguiu: "Isso, então, foi o que pensei. Fui até o décimo terceiro andar e toquei a campainha da porta do estúdio. É uma campainha forte - ele a mandara colocar alta para que pudesse ouvi-la apesar do som de sua voz e do piano, quando estava ensaiando - mas não pude ouvi-la no hall porque a porta também é à prova de som. Depois de eu ter apertado o botão algumas vezes, como não estava certa que a campainha estivesse funcionando, então bati na porta. Gosto de terminar qualquer coisa que eu tenha começado, e eu achava que ele devia estar lá, então toquei mais algumas vezes, tirei meu sapato e bati com o salto na porta. Daí, desci para o décimo segundo andar pela escada e toquei a campainha da porta do apartamento. Aquilo foi realmente uma estupidez, porque sei o quanto a Sra. Mion me odeia, mas de qualquer modo eu o fiz. Ela atendeu à porta e disse que pensava que Alberto estivesse lá em cima no estúdio; eu lhe disse que não estava e ela bateu a porta em minha cara. Fui para casa e fiz um drinque - isto me lembra, preciso admitir-, que este uísque é muito bom embora eu nunca tenha ouvido falar dessa marca".

Ela levantou o seu copo e o mexeu para misturar o gelo. "Alguma pergunta?'

"Não", resmungou Wolfe, olhando para o relógio na parede e depois para o rosto dos presentes, um a um. "Certamente eu comunicarei à Sra. Mion," disse-lhes ele, "que os senhores não têm relação com os fatos".

"E que mais?" perguntou Arnold.

"Não sei. Verei isto depois".

Eles não gostaram daquilo. Eu não podia imaginar que alguém pudesse falar sobre algum assunto sobre o qual aqueles seis personagens estivessem, unanimemente, de acordo, mas Wolfe resolveu o problema com apenas cinco palavras! Eles queriam uma decisão, uma opinião; na falta disto pelo menos um palpite. Adele Bosley estava inflexível; Rupert, o Gordo, tão indignado que guinchava e o juiz Arnold estava próximo de ser malcriado. Wolfe foi paciente até certo ponto, mas finalmente levantou-se e lhes desejou uma boa noite - como se realmente lhes desejasse aquilo! O modo como terminou foi tal, que antes de saírem, nenhum deles pronunciou uma palavra de agradecimento pelas bebidas, nem mesmo Adele, a especialista em relações públicas, ou o Dr. Lloyd que praticamente tinha esvaziado a garrafa de bourbon.

Depois de ter fechado e trancado a porta da rua, voltei para o escritório. Para meu espanto Wolfe ainda estava de pé, próximo da estante, examinando os volumes.

"Inquieto?" perguntei cortesmente.

Ele voltou-se e disse agressivamente: "quero outra garrafa de cerveja".

"Bolas. O senhor já tomou cinco desde o jantar". Eu não me preocupava em ter muito tato, porque a rotina era conhecida. Ele tinha se imposto uma quota de cinco garrafas entre o jantar e a hora de dormir, e normalmente se contentava com aquilo. Porém quando alguma coisa fazia seu humor cair mais para baixo do que de costume ele gostava de descarregar sua responsabilidade e, então, podia desabafar também em mim.

Aquilo era apenas parte do meu trabalho. "Nada feito", falei com firmeza. "Eu as contei. Cinco! Qual é o problema? passou-se uma noite inteira e nada ainda do assassino?"

"Ora..." Ele apertou os lábios. "Não é por isso. Se fosse assim nós podíamos encerrar o caso antes de ir dormir. É aquele desconcertante revólver a voar de um lado para o outro". Ele me olhou com os olhos apertados, como se suspeitasse que eu também tinha asas. "É claro que eu poderia simplesmente ignorar isto... Não! Não, em relação à dificuldade em que estão nossos clientes. Seria irresponsabilidade. Temos que esclarecer isto. Não há outra alternativa". "Isto é bobagem. Posso ajudar em alguma coisa?" "Sim; a primeira coisa a fazer, amanhã de manhã, é telefonar ao Sr. Cramer. Peça-lhe que esteja aqui às onze horas".

Minhas sobrancelhas se levantaram. "Mas ele está somente interessado em homicídios. Devo dizer-lhe que temos um para lhe contar?"

"Não. Diga-lhe que eu lhe garanto que valerá a pena o trabalho". Wolfe deu um passo em minha direção. "Archie".

"Sim senhor".

"Tive uma péssima noite e vou beber outra garrafa".

"Não senhor. Não tem nenhuma chance". Fritz tinha entrado e nós estávamos começando a limpar tudo. "Já é mais de meia-noite e o senhor está no caminho certo. Vá para a cama".

"Uma só não lhe faria mal", murmurou Fritz.

"Você é uma grande ajuda", respondi com azedume. "Estou prevenindo a ambos, tenho um revólver em meu bolso. Que bela responsabilidade você tem!"

CAPÍTULO 5

Durante nove meses por ano o inspetor Cramer, de Homicídios, grande, forte e levemente grisalho, tinha uma bela aparência. No tempo de verão, porém, ficava com o rosto tão corado que chegava a ficar cômico. Ele sabia disto e, como não gostasse desta reação, o resultado é que em agosto era muito mais difícil tratar com ele do que em janeiro. Se me aparecesse uma ocasião de cometer um crime em Manhattan, desejaria que isto acontecesse durante o inverno...

Terça-feira, pelo meio-dia, ele se sentou na cadeira de couro vermelho e olhou para Wolfe sem muita simpatia. Detido por outro compromisso ele não tinha podido chegar às onze horas, hora em que Wolfe interrompia a seção com suas orquídeas nas estufas. Wolfe também não estava exatamente radiante e eu estava na expectativa de um espetáculo de teatro de revista. Eu também estava curioso para saber como é que Wolfe iria fazer para extrair alguma coisa de Cramer, falando em um crime, sem espalhar a notícia de que tinha havido um, no caso de que o inspetor não era, de modo nenhum, um idiota.

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