Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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Encontro09.01.2018
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Fred e Peggy souberam que a reunião resultara quente em certos momentos, com a temperatura elevada desde o princípio pela atitude de Mion pegando o revólver do busto de Caruso e o colocando sobre a mesa, junto a seu braço. Quanto aos pormenores eles foram superficiais, desde que não tinham estado lá, mas de qualquer modo sabiam que a arma não fora usada. Havia também provas de que Mion estava vivo e bem - exceto por sua laringe - quando a reunião acabou.

Ele fez dois telefonemas depois da reunião ter terminado, um ao seu barbeiro e outro a uma abastada benfeitora da ópera; seu empresário, Rupert Grove, lhe telefonara pouco depois e por volta das cinco e meia ele tinha telefonado para baixo para que a empregada lhe trouxesse uma garrafa de vermute e um pouco de gelo. Quando ela levou a bandeja para o estúdio ele estava de pé e em plena forma.

Eu fui cuidadoso em tomar nota corretamente de todos os nomes, desde que parecia provável que o trabalho seria descobrir se um deles estava ligado ao crime; e fui especialmente cuidadoso com o último que anotei: Clara James, a filha de Gifford. Havia três razões para isto. Primeiro, a principal causa da agressão de James contra Mion fora o conhecimento, ou a suspeita - Fred e Peggy não tinham certeza a este respeito - de que Mion tinha ultrapassado a linha de conveniência com a filha de James. Segundo, seu nome era o último da lista obtida por Fred, com o porteiro e o ascensorista, das pessoas que estiveram lá, naquela tarde. Eles afirmaram que ela chegara por volta das seis e um quarto, descido do elevador no décimo terceiro andar, onde ficava o estúdio, chamando-o, novamente, desta vez no décimo segundo andar, pouco depois, talvez uns dez minutos, e, então, deixara o prédio. A terceira razão foi dada por Peggy que ficara no parque até um pouco depois de Fred ter ido embora, quando voltou para casa, chegando lá cerca das cinco horas. Ela não tinha ido ao estúdio, nem visto seu marido. Pouco depois das seis horas, lá pelas seis e meia, atendera a campainha da porta porque a empregada estava ocupada com o jantar. Era Clara James. Estava pálida e tensa como sempre. Perguntou por Alberto e Peggy lhe respondeu que pensava que ele estava em cima, no estúdio. Clara lhe disse que não, que ele não estava lá, mas que não tinha importância. Quando Clara se encaminhou para o elevador, Peggy fechou a porta, não querendo mais visitas, particularmente a de Clara James.

Pouco depois de meia hora Fred voltou e eles foram, juntos, ao estúdio, encontrando Alberto - não mais de pé, nem em forma...

Aquele quadro deixou lugar para uma noite inteira de perguntas, mas Wolfe concentrou-se no que ele considerava como questões essenciais. Ainda assim, entramos na terceira hora e no terceiro caderno de notas. Ele ignorou completamente alguns pontos que eu pensava que deviam ser completados: por exemplo Alberto tinha o hábito de conquistar as filhas ou esposas de outros homens e, se assim fosse, quem eram? Pelas coisas que eles tinham dito eu concluí que Alberto fora ousado com as esposas de outros homens, porém, aparentemente, Wolfe não estava interessado naquilo. De tempos em tempos, até o fim, ele estava de volta à arma, e quando eles não tinham nada de novo a acrescentar ele se aborrecia e se tornava sarcástico. Quando ficavam indecisos ele os interpelava, "Qual dos dois está mentindo?"

Eles pareciam cansados, "Isto não o vai levar a nada", Fred Weppler disse amargamente, "nem a nós tampouco".

"Seria uma bobagem", protestou Peggy Mion, "vir aqui, dar-lhe este cheque e mentir ao senhor."

"Então vocês são bobos", respondeu Wolfe friamente. Apontou um dedo em direção a ela e falou "Olhe aqui. Tudo isto poderia ser resolvido, nada disto seria absurdo, exceto por uma coisa: quem pôs o revólver no chão ao lado do corpo? Quando vocês entraram no estúdio ele não estava lá; os dois juram isto, e eu acredito. Vocês saíram e começaram a descer a escada; a senhora caiu e ele a carregou para seu quarto. A senhora não estava inconsciente, estava?"

"Não". Peggy o encarava. "Eu poderia ter caminhado, mas ele quis me carregar".

"Não tem problema. Ele a carregou. A senhora ficou em seu quarto. Ele desceu até o andar térreo para conseguir a lista dos possíveis suspeitos - mostrando com isto uma admirável prudência - subiu novamente, chamou a polícia e depois o médico, que chegou sem demora, desde que morava no mesmo prédio. Não se passaram mais de quinze minutos de intervalo entre o momento em que a senhora e o Sr. Weppler deixaram o estúdio e o momento em que ele e o doutor entraram novamente. A porta do estúdio que dá para o hall de entrada do décimo terceiro andar tem uma fechadura automática e estava fechada. Provavelmente ninguém poderia ter entrado durante aqueles quinze minutos. A senhora diz que deixou sua cama e foi para a sala de estar e que ninguém poderia ter passado por lá sem ter sido visto pela senhora. A empregada e a cozinheira estavam na cozinha, sem saber o que estava acontecendo. Portanto ninguém entrou no estúdio e colocou a arma no chão".

"Alguém o fez", disse Fred obstinadamente.

"Não sabemos se alguém tem uma chave", insistiu Peggy.

"Já disse isso antes". Wolfe agora estava contra eles. "Mesmo que todo mundo tivesse uma chave, não acredito nisto e ninguém mais acreditaria".

Seu olhar voltou-se para mim: "Archie, você acreditaria?"

"Teria que ver muito mais para isto", admiti.

"Estão vendo?" perguntou-lhes ele. "O Sr. Goodwin não tem preconceitos contra vocês - muito pelo contrário. Ele está pronto a defendê-los; vejam como ele se apoia em suas anotações pelo prazer de ver vocês se entreolharem. Porém ele concorda comigo que estão mentindo. Desde que ninguém mais poderia ter posto a arma no chão, um de vocês o fez. Preciso saber a este respeito. Talvez certas circunstâncias tenham obrigado vocês a fazê-lo, ou poderiam achar que isso fosse necessário".

Wolfe olhou para Fred. "Suponha que o senhor abriu a gaveta da penteadeira da Sra. Mion para pegar um remédio, e o revolver estava lá, com o cheiro característico de que tinha sido disparado recentemente... guardado lá, o senhor imediatamente suspeitaria dela. E, naturalmente, o que faria? Exatamente o que deveria fazer: levá-lo para cima e colocá-lo ao lado do corpo sem que ela soubesse disto. Ou..."

"Absurdo", disse Fred asperamente "Absolutamente absurdo".

Wolfe olhou para Peggy.

"Ou suponha que fosse a senhora que tivesse achado a arma em seu quarto depois dele ter descido. Naturalmente a senhora teria..."

"Isto é uma loucura", respondeu Peggy com vivacidade. "Como poderia a arma ter estado em meu quarto a menos que eu a tivesse colocado lá? Às cinco e meia meu marido estava vivo, eu voltei para casa antes disto e estava ali mesmo, na sala de visitas e em meu quarto, até Fred chegar às sete horas. Portanto a menos que o senhor admita..."

"Muito bem", concordou Wolfe, "Não no quarto, mas em algum outro lugar. Não posso prosseguir até conseguir isto de um de vocês. Pensem nisto, a arma não podia voar! Aceito uma porção de mentiras de outros, pelo menos de muitos deles, mas de vocês eu quero a verdade".

"E o senhor a teve", falou Fred.

"Não, não tive".

"Então estamos num beco sem saída." Fred levantou-se. "Bem, Peggy?"

Eles se entreolharam e seus olhos caíram sobre as notas novamente. Quando chegaram ao lugar em que dizia "precisa ser maravilhoso para sempre", Fred sentou-se.

Mas Wolfe, não tendo participação nas anotações, intrometeu-se: "Um beco sem saída", disse secamente, "que, eu acredito, acaba com o jogo".

Para mim já estava acabado. Se Wolfe claramente encerra com o jogo de dados nada pode demovê-lo. Levantei-me, apanhei o lindo cheque cor-de-rosa de sua mesa, coloquei-o sobre a minha, pus um peso de papel sobre ele, sentei-me e sorri ironicamente para ele...

"Concordo que o senhor está absolutamente certo", observei, "pois isto é o que se pode chamar de irrefutável; qualquer dia deveríamos fazer uma lista de clientes que se sentaram aqui e mentiram para nós. Houve Mike Walsh, Calida Frost e aquele sujeito do café, Pratt - ora, dúzias. Mas seu dinheiro era bom e eu não tinha ido tão longe com minhas anotações. Tudo isso por nada?"

"A respeito destas anotações", falou Fred Weppler firmemente, "Quero que isto fique bem claro..." Wolfe olhou-o firmemente.

"Viemos aqui", prosseguiu, "contar-lhe um problema, confidencialmente, e pedir-lhe que o investigasse. Sua acusação de que estamos mentindo, me faz pensar se devemos continuar, porém se a Sra. Mion quiser, eu também quero. Mas quero deixar claro que se o senhor contar à polícia ou a alguém mais que falamos que não havia nenhuma arma lá quando entramos, negaremos tudo, a despeito de suas malditas notas! Negaremos tudo!" Olhou para Peggy. "Temos que fazer isto Peggy! Certo?"

"Ele não contaria à polícia", declarou Peggy com convicção.

"Talvez não. Mas se o fizer você nega comigo, não nega?"

"Certamente que sim", prometeu ela, como se ele tivesse lhe pedido para ajudá-lo a matar uma cascavel.

Wolfe os observava com os lábios cerrados. Obviamente, com o cheque em minha mesa, a caminho do banco, ele decidira somá-los à lista dos Clientes que contavam mentiras e continuar dali. Abriu os olhos largamente para descansá-los, semicerrou-os novamente e falou: "Temos que estabelecer outras coisas antes de continuarmos. Vocês percebem, é claro, que estou aceitando sua inocência, mas tenho feito milhares de suposições erradas, portanto isto não significa muito. Algum de vocês tem idéia de quem matou o Sr. Mion?"

Ambos responderam que não...

"Eu tenho", resmungou ele.

Eles arregalaram os olhos em sua direção.

Wolfe concordou. "É somente uma suposição, mas gosto dela. Vai dar trabalho para se tornar válida. Para começar preciso ver as pessoas que vocês mencionaram, todos os seis - e seria preferível não forçá-los. Desde que vocês não querem que eles saibam que estou investigando um crime, precisamos criar uma estratégia. Seu marido deixou testamento, Sra. Mion?"

Ela concordou com a cabeça.

"A senhora é a herdeira?"

"Sim, eu...", ela movimentou-se na cadeira. "Eu não preciso dele e não quero".

"Mas ele é seu. Este testamento faz bem. Um item da herança é o pagamento dos danos devidos pelo Sr. James por sua agressão ao Sr. Mion. A senhora pode perfeitamente reclamar este item. As seis pessoas que quero ver estavam todas, de um modo ou de outro, ligadas a este caso. Vou lhes escrever imediatamente, enviando as cartas esta noite pela Entrega Especial, dizendo-lhes que eu a represento no caso e que gostaria de vê-los em meu escritório amanhã a noite".

"Isto é impossível!" gritou Peggy chocada. "Eu não poderia! Eu não sonharia em pedir a Gif para pagar os danos... "

Wolfe bateu com o punho em sua mesa. "Com os diabos!" rugiu ele... "Saiam daqui! Vão! Pensam que assassinos são descobertos recortando bonecos de papel? Primeiro mentem para mim e agora a senhora se recusa a aborrecer as pessoas, inclusive o assassino! Archie, ponha-os para fora!"

"Ótimo", murmurei. Eu também estava ficando aborrecido. Olhei para os ex-futuros clientes. "Tentem o Exército da Salvação", sugeri. "Eles têm experiência em ajudar gente com problemas. Podem levar os cadernos para continuar... pelo preço de custo; seis centavos. Não cobro nada pelo conteúdo".

Eles estavam se entreolhando.

"Penso que de algum modo ele tem que vê-los", concordou Fred.. "Ele deve ter uma razão e devo admitir que é uma boa razão. Você não deve nada a eles - a nenhum deles".

Peggy convenceu-se.

Depois de acertar alguns pormenores, sendo que o mais importante deles era ter os endereços, eles se foram. A maneira como saíram e a pressa com que os despachamos foi tão longe de ser cordial que dava para pensar em lugar deles serem os clientes eram os suspeitos. Mas o cheque estava sobre a minha mesa! Quando, depois de despedi-los voltei ao escritório, Wolfe estava inclinado para trás com os olhos fechados e uma expressão de desagrado.

Eu me espreguicei e bocejei. "Isto deveria ser divertido", falei encorajadoramente. "Fazer isto somente para conseguir recuperar os danos. Se o assassino estiver entre os convidados, imagina quanto tempo vai demorar para apanhá-lo? Aposto que ele vai ser agarrado antes que o inquérito chegue a uma decisão".

"Cale a boca", resmungou ele. "Cabeças duras..."

"Oh! tenha coração", protestei. "Pessoas apaixonadas não pensam, por isto é que eles têm que contratar pensadores profissionais. O senhor deveria estar alegre e orgulhoso deles o terem escolhido. O que são algumas mentiras quando se está amando? Quando vi..."

"Fique quieto", repetiu ele. Seus olhos se abriram. "Suas notas... Estas cartas precisam seguir já".

CAPÍTULO 3

A reunião de segunda-feira à noite durou três horas e o crime não foi mencionado nenhuma vez. Mesmo assim não esteve nem um pouco animada. As cartas tinham sido enviadas de maneira a parecer que Wolfe, como procurador da Sra. Mion, queria verificar se uma soma razoável poderia ser conseguida de Gifford James sem recorrer aos advogados e aos tribunais, e que quantia seria "razoável". De maneira que cada um deles, naturalmente, estava curioso: Gifford James, sua filha Clara, o advogado dele, o juiz Henri Arnold, Adele Bosley, a relações públicas, o Dr. Nicholas Lloyd, como conhecedor do problema e Rupert Grove, que tinha sido o empresário de Mion. Assim eram seis, o que dava para ficar perfeitamente confortável em nosso espaçoso escritório. Fred e Peggy não tinham sido convidados.

O trio James chegou junto - e foram tão pontuais que chegaram exatamente quando o relógio marcava nove horas e Wolfe e eu ainda não tínhamos terminado o café, depois do jantar. Eu estava tão curioso para dar uma olhada, que fui abrir a porta ao invés de deixar que Fritz o fizesse. Fritz era o cozinheiro e o supervisor da casa, e como eu, ajudava a fazer mais alegres os dias e os anos de Wolfe. A primeira coisa que me impressionou foi que o barítono tomou a dianteira ao cruzar a porta deixando sua filha e seu advogado para trás. Desde quando eu tinha me sentado, ocasionalmente, ao lado do Lili Rowan, que cantava com James, sua altura e corpulência não me eram desconhecidas, porém fiquei surpreso de que parecesse tão jovem, apesar dele dever estar próximo dos cinqüenta anos. Entregou-me seu chapéu, como se cuidar dele na noite de segunda-feira, 15 de agosto, fosse a única coisa para qual eu tivesse nascido. Infelizmente eu o deixei cair...

Clara apanhou-o olhando-me. Aquilo mostrava que ela era extremamente observadora, desde que, normalmente, as pessoas não prestam atenção às falhas alheias. Mas ela me viu derrubar o chapéu de seu pai e deu-me um olhar que se prolongou até que praticamente dissesse, "o que você está disfarçando? Mais tarde eu o verei". Aquilo me fez sentir amistoso, mas com alguma reserva. Ela não era somente pálida e tensa, como Peggy o tinha dito, mas seus olhos azuis brilhavam como não deveriam brilhar em uma, moça de sua idade. Todavia eu lhe sorri para mostrar que eu tinha gostado daquele olhar prolongado.

Enquanto isto o advogado, o Juiz Henry Arnold, tinha pendurado o seu chapéu. Durante o dia eu tinha, é claro, feito perguntas sobre todos eles, e soubera que ele usava o "juiz", só porque, tempos atrás, havia sido juiz do tribunal. Era por isto que todos o chamavam de juiz, apesar da sua aparência ser um desapontamento. Era franzino, com uma careca tão grande e plana que dava para colocar uma bandeja em cima, e seu nariz era achatado. Ele devia ser melhor por dentro do que por fora, desde que possuía em sua lista de clientes alguns dos mais importantes nomes da Broadway.

Levando-os ao escritório e apresentando-os a Wolfe, eu lhes indiquei algumas das cadeiras amarelas, mas assim que o barítono avistou a cadeira de couro vermelho se apossou dela. Eu estava ajudando Fritz a preparar as bebidas quando a campainha soou e fui para a frente. Era o Dr. Nicholas Lloyd. Ele não tinha chapéu, e eu achei que o olhar curioso que ele me dirigiu era meramente profissional e automático, para ver se eu estava anêmico, diabético ou qualquer outra coisa. Seu rosto era simpático, com todo comportamento de um médico, ou mesmo de um cirurgião, exatamente à altura da classe que eu tinha descoberto em minhas pesquisas. Quando o encaminhei ao escritório, seus olhos se iluminaram com a visão da mesa cheia de bebidas, e ele foi o melhor freguês - uísque com água e hortelã durante toda a noite.

Os dois últimos chegaram juntos - pelo menos estavam juntos na varanda quando abri a porta. Provavelmente eu teria dado a cadeira vermelha a Adele Bosley se James não a tivesse ocupado. Ela apertou minha mão e disse que há anos estava esperando conhecer Archie Goodwin, mas aquilo, eu sabia, era somente relações públicas que entravam por um ouvido e saíam por outro...

O importante é que da minha mesa eu enxergava a maior parte dos perfis ou parte do rosto de todos os presentes; mas a que devia estar na cadeira vermelha, eu via totalmente, e gostava da visão. Adele Bosley era interessante: já devia estar no quinto ou sexto ano primário quando Clara James nasceu, mas sua pele macia e morena, sua boca bem feita sem muito batom e seus belos olhos castanhos formavam um bonito cenário.

Rupert Grove não apertou minha mão, o que não me desagradou. Ele podia ter sido um ótimo empresário para Alberto Mion, porém não por seu físico. Um homem pode ser gordo e conservar sua integridade, como por exemplo Falstaff ou, mesmo, Nero Wolfe... Mas aquele sujeito tinha perdido o senso da proporção. Suas pernas curtas, eram um terço de seu corpo. Se a gente quisesse ser gentil e olhar o seu rosto tinha que se esforçar. Eu assim o fiz, desde que precisava examiná-lo de alto a baixo, e não vi nada que valesse a pena ser lembrado a não ser um par de sagazes e astutos olhos negros.

Quando os dois últimos se sentaram e se muniram de bebidas, Wolfe começou a disparar as suas armas. Ele disse que sentia muito ter sido necessário pedir-lhes que se sacrificassem em uma noite quente como aquela, mas que a questão em debate só poderia ser respondida justa e eqüitativamente se todos os interessados tivessem a mesma opinião. Os murmúrios de reação foram desde aquiescência à extrema irritação. O juiz Arnold disse, beligerantemente, que não havia questão judicial em debate porque Alberto Mion estava morto.

"Bobagem", disse Wolfe asperamente. "Se isso fosse verdade o senhor, um advogado, não teria se incomodado em vir. De qualquer maneira, o propósito deste encontro é exatamente evitar que isto se torne uma questão judicial. Quatro dos senhores telefonaram hoje à Sra. Mion para perguntar-lhe se estou trabalhando para ela, e lhes foi respondido que sim. Para o interesse dela quero coletar os fatos. Posso também lhes dizer, sem que isto a prejudique, que ela vai aceitar meus conselhos. Se eu decidir que uma determinada importância lhe for devida, é claro que os senhores podem discordar; mas se eu for de opinião que ela não tem direito a reclamar nada, ela concordará com isto. Com esta responsabilidade preciso de todos os fatos. Antes de mais nada..."

"Não estamos em um tribunal", interrompeu Arnold.

"Não, senhor, não estamos. Mas se preferir discutir isto em um tribunal poderemos fazê-lo".

Os olhos de Wolfe se moveram pela sala: "Srta. Bosley, seus patrões receberiam bem esta espécie de publicidade? Dr. Lloyd, gostaria de aparecer no banco das testemunhas ou prefere falar sobre isto, aqui? Sr. Grove como reagiria seu cliente a esse respeito se ele estivesse vivo? Sr. James, o que acha o senhor? O senhor não apreciaria esta publicidade também, apreciaria? Particularmente porque o nome de sua filha iria aparecer..."

"Por que o nome dela iria aparecer?" perguntou James com sua voz treinada de barítono.

Wolfe levantou uma mão. "Seria evidente. Ficou estabelecido que exatamente antes de o senhor atacar o Sr. Mion o senhor lhe disse: "Deixe minha filha em paz, seu bastardo".

Pus a mão em meu bolso. Eu tinha uma regra, justificada pela experiência: sempre que um assassino esteja entre os presentes, ou possa estar, um revólver deve estar à mão. Sem considerar a terceira gaveta de minha mesa, onde eles são guardados, suficientemente à mão, o costume é guardar um em meu bolso, antes de os convidados se reunirem. Aquele foi o bolso onde enfiei minha mão, sabendo o quanto James era esquentado. No entanto ele não saiu de sua cadeira. "Isto é mentira!" deixou escapar simplesmente.

Wolfe replicou. "Dez pessoas ouviram o senhor dizer isto. Seria realmente extraordinária publicidade se o senhor negasse isto, sob juramento, e todos os dez se propusessem a testemunhar, contradizendo-o... Honestamente, penso que seria melhor discutir, aqui, comigo".

"O que quer saber?" perguntou o juiz Arnold.

"Os fatos. Primeiro, sobre a primeira discussão. Quando falo, gosto de saber o que digo. Sr. Grove, o senhor estava presente quando aconteceu aquela famosa cena. Citei as palavras do Sr. James corretamente?"

"Sim". A voz de Grove era de tenor alto, o que me agradava.

"O senhor o ouviu dizer aquilo?"

"Sim".


"Srta. Bosley, a senhora também?"

Ela parecia constrangida. "Não seria melhor..."

"Por favor a senhora não está sob juramento; eu estou simplesmente coletando fatos, e foi dito aqui que eu tinha mentido. A senhora o ouviu dizer aquilo?"

"Sim, ouvi". Os olhos de Adele se dirigiram para James: "sinto muito Gif..."

"Mas isto não é verdade!" gritou Clara James.

"Então nós todos estamos mentindo?" perguntou-lhe Wolfe, rispidamente.

Eu devia tê-la prevenido, quando ela me deu aquele olhar no hall, que tomasse cuidado com ele. Ela não era apenas uma jovem sofisticada e atraente, mas sua esbelteza era do tipo que se consegue não comendo o suficiente, e Wolfe absolutamente não suportava pessoas que não comiam o necessário só para manter a linha... Eu sabia desde o começo, que ele não iria gostar dela...

Clara voltou-se para ele: "Eu não quis dizer isto", respondeu com desprezo. "Não seja tão sensível! Quero dizer que eu tinha mentido a meu pai. O que ele pensava a respeito de Alberto e eu, não era verdade. Eu só estava blefando com ele porque... não importa por que. De qualquer maneira o que eu disse a ele não era verdade, e eu então lhe contei tudo naquela noite!"

"Que noite?"

"Quando voltamos para casa, depois da festa que fizeram no palco, após a apresentação do Rigoletto. Foi lá, o senhor sabe, que meu pai agrediu Alberto, exatamente lá no palco. Quando chegamos em casa eu lhe contei que o que eu lhe havia dito, antes, a respeito de Alberto e eu, não era verdade".

"Quando é que estava mentindo? da primeira ou da segunda vez?"

"Não responda isto, querida", interrompeu o juiz Arnold, profissionalmente, olhando friamente para Wolfe. "Tudo isto é irrelevante. O senhor precisa de fatos, porém de fatos importantes. O que a Srta. James disse a seu pai é secundário".

Wolfe sacudiu a cabeça. "Oh não". Seus olhos foram da direita para a esquerda e retornaram novamente. "Aparentemente não tornei tudo bem claro. A Sra. Mion quer que eu decida por ela se ela tem direito à indenização, não apenas legalmente, como moralmente. Se se tornar claro que a agressão do Sr. James ao Sr. Mion foi moralmente justificável isto será um fator importante em minha decisão". Ele encarou Clara. "Se minha pergunta é relevante ou não, Srta. James, eu admito que ela foi embaraçosa e antes de tudo convida a falsear a verdade. Eu retiro e proponho outra: a Srta. antes da festa, no palco deu a entender a seu pai que o Sr. Mion a tinha seduzido?"

"Bem..." Clara riu. Era um riso de soprano, quase atraente. "Que maneira mais linda e antiga de dizer isto! Sim, eu falei. Mas não era verdade!"

"O senhor acreditava nisto, Sr. James?"

Gifford James estava tendo dificuldade em conter-se, e eu concordo que aquelas perguntas indiretas a respeito da honra de sua filha, feitas por um estranho, deviam ser difíceis de agüentar. Porém depois de todo aquele tempo não se havia chegado a nada de novo e, de qualquer modo, aquilo era importante. Então ele se esforçou para falar com dignidade e calma: "Sim, eu acreditei no que minha filha me disse".

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