Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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Sorriu. "Você teria me conhecido?"

"Não, por Deus que não", tanto para diverti-lo, como era verdade...

CAPÍTULO 9

Não gostaria de exagerar minha coragem. Mas também não era o caso de eu ser tão corajoso que o fato de estar ali amarrado, com um estrangulador sorrindo para mim, não me perturbasse; é que simplesmente eu estava atônito. Era um disfarce surpreendente. As duas principais mudanças eram os cílios e as sobrancelhas; estes olhos tinham sobrancelhas cerradas com cílios longos e espessos, o que não se encontrava em nenhum dos convidados da tarde anterior. A grande, mudança realmente, entretanto, era interior. Não tinha visto nenhum convidado sorrindo, durante a exposição, mas mesmo que o tivesse, garanto que não teria sido como este. O cabelo, também, fazia muita diferença, é claro, dividido assim do lado e esticado para baixo.

Ele puxou a outra cadeira e sentou-se. Observei a maneira como se movia. Aquilo em si poderia não revelar nada, porém os movimentos se encaixavam tão perfeitamente! Achando que a luz incidia direto nos seus olhos, ele trocou um pouco a posição de sua cadeira.

"Então ela falou, ao senhor, a meu respeito?" disse ele fazendo daquela frase uma pergunta.

Aquela era a voz que tinha usado no telefone. Era realmente diferente, mais grave, mas além disso o rosto e os movimentos! A grande diferença vinha mesmo de dentro. A voz era tensa e as palmas de suas mãos enluvadas, estavam fortemente apertadas sobre os joelhos.

Respondi que sim, e acrescentei, casualmente, "quando a viu entrando no escritório, porque não a seguiu? Por que esperou?"

"Não foi isto..." começou ele e parou.

Esperei pacientemente.

Prosseguiu então. "Eu o tinha visto descer, então suspeitei que estivesse lá".

"Por que ela não gritou nem lutou?"

"Eu falei com ela! Antes de tudo eu falei um pouco com ela".

Sua cabeça deu uma pequena sacudidela, como se uma mosca o tivesse incomodando e suas mãos estivessem muito ocupadas para espantá-la. "O que ela lhe contou?"

"A respeito daquele dia no apartamento de Dóris Hatten - quando entrou e ela estava saindo. E é claro, sobre o fato dela o haver reconhecido ontem".

"Ela está morta. Não há provas. O senhor não pode provar nada".

Sorri. "Então está perdendo uma porção de tempo, energia e o melhor disfarce que eu já vi. Porque simplesmente não joga meu recado no meu cesto de papel? Deixe-me responder: não ousaria! Tentar arranjar provas, sabendo exatamente o que e quem procurar, faz muita diferença. E sabia que eu sabia!"

"E não disse à polícia?"

"Não".


"Nem a Nero Wolfe?"

"Não".


"Por que não?"

Encolhi o ombro não por indiferença, mas pela minha situação. "Poderia não fazê-lo muito bem", falei. "Esta é a primeira vez que falo com as mãos e os pés amarrados e penso que isto me atrapalha. Este não é o tipo de situação que me acontece muito freqüentemente. Estou farto com o negócio de ser detetive e gostaria de parar com isto. Tenho uma coisa que tem um grande valor para si - digamos que vale cinqüenta mil dólares. Poderíamos combinar pagar o que merece. Eu iria até o fim com o negócio, mas teria que ser acertado logo. Se não concordar só vou ter que pensar um pouco para me explicar porque não me lembrei antes, do que ela me falou. Vinte e quatro horas a partir de agora, é o limite máximo de tempo".

"Eu não poderia arranjar, portanto vou obter o que eu mereço".

"Claro que poderia arranjar. Se não me quiser atrás de si pelo resto de sua vida, acredite-me, eu também não o quero atrás de mim".

"Suponho que não". Ele sorriu, ou pelo menos, aparentemente, pensou que estivesse sorrindo. "Parece que vou ter que pagar".

Ouvi de repente, um barulho em sua garganta como se ele tivesse começado a se asfixiar. Levantou-se. "Está tentando livrar sua mão", falou roucamente aproximando-se de mim.

Eu devia ter adivinhado por sua voz, grave e rouca, que o sangue estava subindo à sua cabeça. Estava claro como o dia, em seus olhos, subitamente fixos e parados, como os olhos de um cego. A intenção de me matar tinha se completado e ele agora pensava em como fazer aquilo. Senti um impulso maluco de rir. Me matar com o quê?

"Fique onde está!" gritei para ele.

Ele parou, resmungando, "você está se soltando" e caminhou novamente, passando ao meu lado e ficando atrás de mim.

Com esforço consegui alcançar o chão com meus pés amarrados, e inclinando violentamente meu corpo e a cadeira para o lado consegui fazer com que ele ficasse novamente à minha frente.

"Assim não vai bem", eu lhe disse. "Eles só desceram um andar.

Eu ouvi. Mas não vai adiantar nada. Tenho outro recado para o senhor - de Nero Wolfe - aqui no meu bolso do paletó. Pegue o senhor mesmo, mas não saia da minha frente. Seus olhos ficaram fixos em mim.

"Não quer saber do que se trata?" perguntei. "Pode pegar!" Ele estava a somente dois passos de mim. Mas precisou dar quatro vagarosos passos para me alcançar. Sua mão enluvada enfiou-se dentro do meu bolso e saiu com uma folha de papel amarelo dobrada - uma folha de um dos próprios blocos de Wolfe. Da maneira que estavam os seus olhos, duvidei que ele pudesse ler, mas conseguiu. Examinei seu rosto enquanto lia a letra uniforme de Wolfe:

Se o Sr. Goodwin não estiver em casa, até a meia noite, a informação dada a ele por Cynthia Brown será comunicada à polícia e eu me encarrego de que eles ajam imediatamente.

Nero Wolfe Ele olhou para mim e vagarosamente seus olhos mudaram. Não estavam mais vidrados e começaram a brilhar novamente. Há pouco estava a ponto de me matar. Agora me odiava.

Fiquei aliviado, "Vê, isto não é bom! Ele fez a coisa desta maneira porque se o senhor tivesse sabido que eu lhe tinha contado não teria ficado aqui. Wolfe calculou que o senhor me manteria amarrado e admito, que o fez muito bem. Ele quer cinqüenta mil dólares até amanhã às seis horas no máximo. O senhor diz que não poderá arranjar, então terá o que merece. Porém achamos que dará um jeito. Acha que não temos provas, mas podemos arranjar - não pense que não. Quanto a mim, previno que não deve tocar nem no meu cabelo. Isto faria com que Wolfe se aborrecesse consigo, e até agora ele está calmo: só quer os cinqüenta mil dólares".

O estranho tinha começado a tremer. Sabia disto e estava tentando se controlar.

"Talvez não possa arranjar tudo tão depressa", falei. "Neste caso pode lhe fazer uma proposta de pagamento. Pode escrever nas costas da nota que ele lhe enviou. Minha caneta está aqui no meu sobretudo. Ele será compreensivo, pode acreditar".

"Não sou assim tão idiota", retrucou asperamente. Tinha parado de tremer.

"Quem disse que era?" Fui rápido e direto, pensei que o havia perdido.

"É tudo uma questão de usar a cabeça. Ou nós o cercamos, ou não! Se não o estamos pressionando, o que é que está fazendo aqui? Se nós o pegamos, uma coisa à toa, como o seu nome assinado numa promessa de pagamento, não vai piorar nada. Não o pressionaríamos demais. Vamos pegue minha caneta bem aqui".

Eu continuava pensando que o tinha perdido. Eram os seus olhos e o modo como estava titubeando. Se minhas mãos estivessem livres, eu poderia pegar a caneta, eu mesmo, abri-la e colocá-la entre seus dedos... e então eu o pegaria. Talvez estivesse a ponto de escrever e assinar, mas não de pegar a caneta em meu bolso. Também é claro, que se minhas mãos estivessem livres eu não estaria preocupado com uma nota e uma caneta.

Então, ele respirou profundamente. Sacudiu a cabeça e seus ombros se endireitaram. O ódio que enchia seus olhos estava também em sua voz. "O senhor disse vinte e quatro horas. Isto me dá até amanhã. Tenho que decidir. Diga a Nero Wolfe que vou decidir".

Caminhou até a porta e a abriu. Saiu, fechando-a. Ouvi seus passos descendo a escada; porém não tinha pegado nem seu chapéu nem seu casaco! Eu quase arrebentei os miolos tentando usar a cabeça. Não tinha chegado a nada quando ouvi, novamente, passos subindo a escada e eles entraram, os três. J-L estava piscando novamente; aparentemente havia uma cama onde eles estiveram esperando. Meu anfitrião ignorando-o falou com o Magriço.

"Que horas são?"

Ele olhou para o relógio: "Nove e trinta e dois".

"Às dez e meia, não antes disto, desamarre sua mão esquerda. Se ele tiver uma faca poderá alcançá-la. Não, não faça isto. Deixe-o aqui como está e saia. Ele levará cinco minutos ou mais para conseguir livrar suas mãos e seus pés. Tem alguma dificuldade?'

"Claro que não. Não temos nada com ele".

"Então vão fazer como mandei?"

"Certo. Dez e meia em ponto".

O estrangulador tirou um punhado de notas de seu bolso, com certa dificuldade por causa de suas luvas, separou duas notas de vinte, foi para a mesa, alisou-as, esfregando-as dos dois lados com seu lenço.

Entregou-as ao Magriço. "Já paguei o combinado, como sabe. Este extra é para que não fiquem impacientes e o deixem sair antes das dez e meia".

"Não peguem isso!" falei asperamente.

O Magriço, com as notas na mão se virou para mim. "Qual é o problema, elas estão contaminadas?"

"Não, mas é muito pouco, seu idiota. Ele vale dez mil dólares para vocês. É isto! Dez mil!"

"Absurdo", disse o estrangulador, desdenhosamente, e se dirigiu à cama para pegar seu chapéu e seu casaco.

"Dá meus vinte", J-L retrucou. O Magriço ficou parado, pensando e me olhando. Parecia interessado, porém meio cético. Percebi que precisava mais que palavras. Quando o estrangulador pegou seu casaco e seu chapéu e virou-se, sacudi meu corpo violentamente para a esquerda e saltei com cadeira e tudo. Não tenho idéia de como consegui chegar até a porta. Não podia simplesmente ter rolado por causa da cadeira e nem mesmo tinha tentado pular. Porém consegui e rápido. E ali estava eu apoiado sobre meu lado direito, a cadeira contra a porta antes que algum deles tivesse podido evitar.

"Você pensa", ameacei o Magriço, "que isto é só um trabalho? Deixe ele sair e vai perceber tudo! Quer saber o seu nome? Sra. Carlisle... Sra. Homer N. Carlisle. Quer o seu endereço?"

O estrangulador que se aproximava de mim, parou assustado. Ele - ou deveria dizer ela - ficou imóvel como uma barra de aço, os olhos com os cílios longos presos em mim.

"Uma dona?" perguntou o Magriço incredulamente. "Você disse senhora?"

"Sim, ela é uma mulher. Eu estou amarrado, mas você pode apanhá-la. Estou preso, pode se certificar. Você então me dá uma parte dos dez mil". O estrangulador fez um movimento. "Olhe ela!"

J-L, que estava se adiantando parou e virou-se para examiná-la.

Eu tinha batido com a cabeça na porta e estava doendo.

O Magriço aproximou-se dela abrindo seu casaco, olhou e deu um passo para trás: "Certo, pode ser que seja uma mulher", falou.

"Diabo, podíamos ter descoberto isto... Mesmo um estúpido como eu podia ter visto isto", falou J-L movendo-se lentamente.

"Vá em frente", gritei. "Isto confirma o que eu disse. Vá em frente!"

Ela emitiu um ruído em sua garganta. J-L alcançou-a com uma de suas mãos. Ela se encolheu toda gritando: "Não me toque!"

"Estou desgraçado", disse J-L espantado.

"Qual é o papo", perguntou o Magriço, "a respeito desses dez mil pacotes?'

"É uma longa estória", falei, mas se quiser saber, você me desamarra e então vai ser canja. Se ela conseguir sair daqui e chegar a salvo em casa, não vamos mais poder fazer nada contra ela. Tudo que temos de fazer é poder pegá-la como está - aqui, agora - disfarçada e compará-la com a Sra. Homer N. Carlisle, que vai ser quando chegar em casa. Se fizermos isto nós a teremos. Como ela está aqui, agora, ela vale muito. Se chegar em casa, vocês não vão conseguir mais nada".

Eu tinha que fazer aquele jogo. Só não tive coragem de dizer: "Chamem a polícia", porque se eles pensassem o que a maioria dos vigaristas pensa a respeito dos tiras, eles podiam me arrancar da porta e deixar que ela se fosse.

"Como é então que vamos fazer?" perguntou o Magriço. "Não trouxe minha câmara".

"Tenho algo melhor. Me solte que eu lhe mostro".

O Magriço não gostou da idéia. Me olhou durante uns segundos e virou-se para olhar para os outros. A Sra. Carlisle estava apoiada contra a cama e J-L continuava observando-a, com as mãos apoiadas nos quadris. O Magriço voltou-se para mim: "Vou fazer isto. Talvez... como é a coisa?"

"Diabos", praguejei, "pelo menos endireite minha cadeira. Estas cordas estão cortando os meus pulsos".

Ele aproximou-se e levantou a cadeira com uma mão e com a outra no meu braço. Apoiei meus pés no chão para me equilibrar. Ele era mais forte do que parecia. Com a cadeira de pé novamente eu continuava, ainda, bloqueando a porta.

"Pegue uma garrafa", falei "no meu bolso direito - não, aqui,-no bolso do meu casaco. Espero em Deus, que não tenha se quebrado".

Ele a pescou. Estava intacta. Aproximou-a da luz para ler o rótulo.

"O que é isto?"

"Nitrato de prata. Provoca manchas pretas indeléveis na maior parte das coisas, inclusive na pele. Levante a perna da calça dela e passe isto".

"E então?"

"Deixe-a ir embora. Nós a pegaremos. Se nós três pudermos explicar como e onde ela arranjou as marcas, ela está perdida".

"Como é que pensou nisto?"

"Estava esperando ter chance de marcá-la eu mesmo".

"Isto vai doer?"

"Não muito. Ponha um pouco em mim - em qualquer lugar onde não apareça..."

"É melhor primeiro me contar toda a estória - porque ela está perdida? Não me importo com o tempo que vai demorar".

"Não até que ela esteja marcada". Fui firme. "Vou contar assim que passar o líquido nela".

Ele examinou o rótulo novamente. Eu observava sua expressão, esperando que ele não me perguntasse se a mancha era permanente, porque não saberia que resposta seria mais conveniente e eu tinha que convencê-lo de qualquer maneira.

"Uma mulher!" resmungou. "Por Deus, uma mulher!"

"Certo", concordei simpaticamente. "Ela tapeou vocês completamente".

Ele girou a cabeça e chamou, "Hei!"

J-L se virou. O Magriço ordenou, "Levante ela, mas não machuque".

J-L tentou alcançá-la. Mas enquanto isto, de repente ela não era mais, nem homem, nem mulher, era um ciclone. No primeiro pulo, escapou da mão dele, indo para o lado e quando ele percebeu ela já tinha alcançado a mesa e agarrado o revólver. Ele aproximou-se dela que puxou o gatilho e, assim, ele caiu a seus pés. Nesta hora o Magriço quase a tinha alcançado quando ela disparou novamente. Ele prosseguiu, e pela força do baque em meu ombro esquerdo devia ter calculado, se estivesse em condições de calcular alguma coisa que a bala passou pelo Magriço vindo me atingir. Ela puxou o gatilho pela terceira vez, mas aí o Magriço já havia agarrado seu pulso e lhe torcia o braço.

"Ela me pegou!" J-L estava gritando indignado. "Ela me pegou na perna!"

O Magriço a tinha forçado a se ajoelhar.

"Corte estas cordas", gritei a ele, "me dê aquele revólver e vá achar um telefone".

Exceto por meus pulsos, tornozelos, ombro e cabeça, eu me sentia maravilhoso.

CAPÍTULO 10

"Espero que esteja satisfeito", disse o inspetor Cramer amargamente. "O senhor e Goodwin têm novamente seus retratos nos jornais. Não recebeu nada, mas teve bastante publicidade grátis. Eu recebi meu puxão de orelha!"

Wolfe resmungou satisfeito.

Eram sete horas da noite do dia seguinte e nós três estávamos no escritório, eu em minha mesa com o braço em uma tipóia, Cramer na poltrona de couro vermelho e Wolfe em seu trono, atrás de sua mesa, com um copo de cerveja na mão e uma segunda garrafa, ainda fechada, sobre a bandeja, à sua frente. As trancas tinham sido removidas pelo sargento Stebbins pouco antes do meio-dia, em meio a outras tarefas. Toda a turma estivera ocupada: visitando J-L no hospital, conversando com o casal Carlisle no Distrito de Polícia, começando a levantar as provas circunstanciais para provar que o Sr. Carlisle tinha fornecido o necessário para o aluguel de Dóris Hatten, que a Sra. Carlisle sabia disto, que tinha contratado o Magriço, além de outras coisas.

Eu tinha ficado satisfeito em testemunhar que o Magriço, cujo nome era Herbert Marvil e que dirigia uma pequena agência no centro da cidade, era uma das centenas de provas. E que assim que eu o convenci de que o seu cliente, aquele cavalheiro bem vestido, era uma mulher e uma criminosa, ele foi absolutamente esplêndido. É claro, que quando voltou ao quarto, depois de ter telefonado, ele e eu tivemos alguns minutos para ordenar nossas idéias antes que os tiras chegassem. Gastei uns segundos para satisfazer minha curiosidade. Na mão direita do casaco da Sra. Carlisle havia um laço corrediço feito com uma corda forte. Portanto era essa a idéia dela quando se dirigiu para minhas costas. Algum dia, quando o julgamento estiver terminado e Cramer tiver se acalmado, vou tentar obtê-lo como lembrança.

Cramer recusara a cerveja que Wolfe lhe oferecera gentilmente. "O que me trouxe aqui principalmente", prosseguiu ele, "foi para que o senhor soubesse que eu percebo que não há mais nada que eu possa fazer. Sei muito bem que Cynthia Brown a descreveu a Goodwin e provavelmente deu também o nome dela e que ele lhe contou. E o senhor queria abocanhar tudo. Suponho que pensou que poderia conseguir algum dinheiro de alguém. Os dois esconderam provas".

Ele mexeu-se na cadeira. "Certo, não posso provar isto. Mas sei disto muito bem e queria que soubessem também que não vou me esquecer à toa".

Wolfe tomou um gole, molhou os lábios e colocou o copo sobre a mesa. "O problema é que" resmungou ele "se o senhor não pode provar nada e está certo, é claro que não pode - eu também não posso provar que está errado".

"Oh, claro que pode. Mas não quer!"

"Eu tentaria alegremente. Como?"

Cramer inclinou-se para a frente. "Assim. Se ela não tivesse descrito a Goodwin, como saberia a quem enviar aquela nota de chantagem?'

Wolfe se encolheu. "Foi questão de cálculo, como já lhe disse. Concluí que o assassino estava entre aqueles que ficaram até que o corpo fosse descoberto. O problema era tentar. Se não houvesse um telefonema respondendo à nota de Goodwin o cálculo estaria errado, e eu teria..."

"Certo, mas por que ela?"

"Só duas mulheres tinham ficado. Obviamente não poderia ser a Sra. Orwin; com o físico dela, seria muito difícil passar por um homem. Além disso, ela era viúva, e eu tinha o pressentimento que Dóris Hatten tinha sido assassinada por uma esposa ciumenta, que..."

"Mas por que uma mulher? Por que não um homem?"

"Ah! Isto?" Wolfe levantou o copo e o esvaziou com mais prazer do que o costume, limpou os lábios cuidadosamente e colocou o copo na mesa. Ele estava vivendo um momento delicioso! "Eu lhe disse na minha sala de jantar" - apontou um dedo - "que algo tinha me ocorrido e que queria considerar o fato. Mais tarde eu teria me alegrado em lhe contar tudo se o senhor não tivesse agido tão irresponsável e maldosamente mandando trancar este escritório. Aquilo me fez duvidar que fosse capaz de agir com propriedade diante de uma sugestão vinda de mim. Portanto decidi agir por mim mesmo. O que me ocorrera foi simplesmente isto: que a Srta. Brown tinha dito ao Sr. Goodwin que ela não "o" teria reconhecido se ele não estivesse usando chapéu. Ela usou o pronome masculino naturalmente, durante toda a conversa, porque tinha sido um homem que estivera no apartamento de Dóris Hatten, naquele dia, em outubro. E ela o tinha guardado na lembrança como um homem. Mas foi no meu orquidário que ela o tinha visto naquela tarde e lá nenhum homem estava usando chapéu. Os homens deixaram seus chapéus aqui embaixo". Wolfe abriu as mãos. "Portanto era uma mulher!"

Cramer o olhava. "Não posso acreditar", falou espantado.

"O senhor tem as notas taquigráficas das informações do Sr. Goodwin. Consulte-as".

"Assim mesmo eu não acreditaria".

"Ainda há outros pequenos itens", Wolfe sacudiu o dedo. "Por exemplo: o estrangulador de Dóris Hatten tinha uma chave da porta. Mas quem a sustentava, e, tão cuidadosamente evitava se revelar, não iria entrar no apartamento numa hora tão inesperada arriscando-se a encontrar estranhos. E quem melhor que uma esposa enciumada para achar uma oportunidade, ou arranjar uma, e para conseguir uma duplicata da chave?"

"Pode falar durante um dia inteiro. Continuo não acreditando".

Bem, pensei comigo mesmo, observando o sorriso malicioso de Wolfe e pela primeira vez aprovando-o completamente: Cramer, o profissional, poderia escolher acreditar ou não - e que fosse para o inferno!



Quanto a mim, não tinha escolha...

Fim
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