Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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Fritz trouxera bandejas para Wolfe e para mim, e estávamos fazendo progressos com elas. No silêncio que se seguiu à partida dos Orwins, Wolfe podia perfeitamente ser ouvido mastigando um bocado de salada mista.

Cramer sentou-se olhando aborrecido para nós. Falou comigo e não com Wolfe. "Este presunto é importado?".

Sacudi minha cabeça e engoli antes de responder. "Não, é da Geórgia. Porcos alimentados com amendoins e frutos de carvalho; processo sob as especificações do Sr. Wolfe. Cheira bem e tem gosto ainda melhor. Vou copiar a receita para o senhor - não, mas que inferno! - não posso porque a máquina de escrever está no escritório. Sinto muito". Coloquei o sanduíche no prato e peguei outro. "Gosto de alternar - primeiro uma mordida no de presunto, depois uma no de esturjão, então um de presunto e um de esturjão..."

Eu podia vê-lo se controlando. Virou a cabeça. "Levy! Mande entrar o coronel Brown".

"Sim senhor. Aquele homem que o senhor queria - Vedder - está aqui".

"Então vou falar com ele primeiro".

CAPÍTULO 6

Lá em cima, nas estufas, Malcolm Vedder tinha chamado minha atenção pelo modo com que levantava e segurava o vaso de flores. Quando ele pegou uma cadeira e sentou-se à mesa, entre eu e Cramer, eu ainda pensava que valia a pena ele ser examinado novamente. Porém depois de sua resposta à terceira pergunta de Cramer, relaxei e concentrei minha atenção em meus sanduíches. Ele era um artista e participara de três peças da Broadway. Claro que aquilo explicava tudo. Nenhum ator pegaria um vaso de flores normalmente, como você ou eu. De algum modo ele teria que dramatizar aquilo, e Vedder escolhera um modo que parecia a mim como dedos envolvendo e apertando uma garganta.

Agora, lá estava ele dramatizando isto, fingindo estar indignado porque os tiras o tinham arrastado à investigação de um crime sensacional. Ele permaneceu, o tempo todo, passando os longos dedos, de suas elegantes mãos, entre seus cabelos, de um modo que me parecia conhecido, então me lembrei que o tinha visto no ano passado como o astro em Os Primitivos.

"Típico!"disse ele a Cramer, com os olhos flamejantes e a voz carregada de sentimento. "Típico da falta de tato da polícia! Envolvendo-me nisto! É claro que os repórteres lá em frente me reconheceram, e os diabos dos fotógrafos também! Oh! Meu Deus!"

"Certo", falou Cramer complacentemente. "Deve ser duro para um artista ter sua fotografia nos jornais. Mas precisamos de ajuda, nós da polícia sem tato, e o senhor estava entre os presentes. Faz parte do Clube de Flores?"

"Não", disse Vedder. Tinha vindo com uma amiga, a Sra. Beauchamp, e quando ela saiu, para atender a um compromisso, ele ficara para olhar melhor as orquídeas. Se pelo menos tivesse ido embora com ela teria evitado esta terrível publicidade. Chegaram lá pelas três e meia e ele permanecera no orquidário o tempo todo até quando saiu comigo atrás de seus calcanhares. Não tinha visto ninguém a quem conhecesse ou tivesse visto antes, exceto a Sra. Beauchamp. Não sabia nada a respeito de Cynthia Brown ou do Coronel Percy Brown. Cramer passou por todas as perguntas comuns e recebeu todas as esperadas respostas negativas, até que de repente perguntou, "Conhecia Dóris Hatten?"

Vedder franziu a testa: "Quem?..."

"Dóris Hatten. Ela também..."

"Ah!" Vedder gritou. "Ela também foi estrangulada! Eu me lembro!"

"Certo".

Vedder fechou os punhos, descansou-os sobre a mesa e se inclinou para a frente. Seus olhos brilharam e depois se apagaram novamente, "O senhor sabe", falou nervosamente, "isto é o pior de tudo, estrangulada - especialmente uma mulher". Seus punhos se abriram, os dedos se separaram e ele olhou para eles. "Imagine, estrangulada! uma mulher bonita!"

"Conhecia Dóris Hatten?"

"Otelo", falou Vedder em um tom profundo e ressonante. Seus olhos se levantaram para Cramer e sua voz se elevou também. "Não, eu não a conhecia; só li a respeito dela". Ele se encolheu todo e então subitamente ergueu-se da cadeira e ficou de pé. "Para o inferno com tudo isto", protestou estridentemente, "só vim aqui para ver as orquídeas! Deus!"

Correu os dedos por seus cabelos, virou-se e dirigiu-se para a porta. Levy olhou para Cramer com as sombrancelhas levantadas e este sacudiu sua cabeça com impaciência.

"Talvez ele tenha inventado isto tudo?" resmunguei a Wolfe.

Porém ele não estava interessado.

O próximo foi Bill McNab, editor de jardinagem do Gazette. Eu o conhecia um pouco, mas não muito bem. A maioria dos meus amigos, repórteres, não estavam em jardinagem. Ele parecia mais infeliz que todos eles - mais infeliz até do que a Sra. Orwin __ enquanto se encaminhava em direção do fim da mesa onde Wolfe estava sentado.

"Não posso lhe dizer o quanto lamento isto, Sr. Wolfe", falou tristemente.

"Nem tente", resmungou Wolfe.

"Eu queria poder fazer alguma coisa. Que coisa realmente terrível! Nunca poderia ter sonhado que uma coisa assim pudesse acontecer - o Clube de Flores de Manhattan! É certo que ela não pertencia ao nosso Clube, mas isto só torna as coisas piores". Virou-se para Cramer, dizendo "sou responsável por isto".

"O senhor?"

"Sim, a idéia foi minha. Eu convenci o Sr. Wolfe a programar isto. Ele me deixou fazer os convites. E eu estava me congratulando pelo grande sucesso! O Clube só tem cento e oitenta e nove membros, e havia mais de duzentas pessoas aqui. E então isto! O que posso fazer?" Ele se virou. "Quero que saiba disto, Sr. Wolfe. Recebi um recado de meu jornal; eles querem que eu escreva uma estória para o noticiário e eu me recusei absolutamente. Mesmo que eu fosse despedido - acho que não o faria".

"Sente-se um minuto", Cramer o convidou.

Pelo menos McNab tinha alterado a monotonia em um detalhe. Admitiu que tinha saído da estufa três vezes durante a tarde; uma vez, desceu até o hall para acompanhar um convidado que estava de saída e outras duas vezes desceu sozinho para controlar quem tinha e quem não tinha vindo. Nunca ouvira falar a respeito de Cynthia Brown. Agora estava começando a parecer não somente inútil mas estúpido desperdiçar tempo com sete ou oito deles, simplesmente porque aconteceu de eles serem os últimos a saírem e portanto estarem à mão. Aquilo também, era algo novo para mim, do ponto de vista técnico. Eu nunca ouvira uma desculpa como aquela. Qualquer detetive do distrito sabe que toda a pergunta que se faz a alguém é apontada para um dos três objetivos a serem atingidos: motivo, meios e oportunidade. Neste caso não havia questões a serem feitas porque todas elas já tinham sido respondidas. Motivo: o camarada que a tinha seguido até embaixo, sabendo que ela o reconhecera, vira-a entrar no escritório de Wolfe e pensou que ela estava fazendo exatamente o que fez, tentando falar com Wolfe, e decidira evitar aquilo da maneira mais rápida e melhor que ele podia. Meios: qualquer pedaço de pano; mesmo seu lenço serviria. Oportunidade: ele estava lá - todos da lista de Saul estavam.

Portanto, se se quisesse saber quem estrangulou Cynthia Brown, primeiro tinha que se descobrir quem estrangulou Dóris Hatten - e os tiras já haviam trabalhado naquilo durante cinco meses.

Assim que Bill McNab saiu, o coronel Percy Brown foi introduzido na sala.

Brown não estava propriamente tranqüilo, porém se controlava bem. Ele nunca poderia ser tomado por uma pessoa de confiança por ninguém - muito menos por mim. Sua boca e seu queixo eram fortes e atraentes e quando se sentou dirigiu seus perspicazes olhos cinzas a Cramer e permaneceu assim. Não estava interessado nem em Wolfe nem em mim. Disse que seu nome era Coronel Percy Brown e Cramer lhe perguntou a que arma pertencia.

"Penso", falou ele em um tom até meio apático, "que até vou economizar tempo se eu declarar minha posição. Vou responder completa e abertamente todas as perguntas relacionadas com o que eu vi, ouvi ou fiz desde que cheguei aqui esta tarde. Neste sentido eu o ajudarei em tudo o que puder. Para responder a qualquer outra pergunta vou ter que esperar até consultar meu advogado".

Cramer concordou. "Esperava por isto. O problema é que estou absolutamente certo que não dou a menor importância para o que viu ou ouviu esta tarde. Vamos voltar a isto. Quero adiantar alguma coisa para o senhor. Como vê, não estou nem querendo saber por que o senhor tentou fugir antes de chegarmos aqui".

"Eu simplesmente queria telefonar..."

"Esqueça isto". Cramer colocou os restos de seu segundo charuto, nada mais que um pedaço enrugado e amassado, no cinzeiro. "Com as informações que recebi, penso que a verdade é esta: a mulher, que se chamava a si mesma de Cynthia Brown, a assassinada aqui, hoje, não era sua irmã. O senhor a encontrou na Flórida, seis ou oito semanas atrás. Ela entrou com o senhor em uma operação da qual a Sra. Orwin seria a vítima e o senhor a apresentou a ela como sua irmã. Vocês dois chegaram a Nova York, com a Sra. Orwin, na semana passada, com a operação muito bem encaminhada. Até onde eu saiba, este é o único motivo. Por outro lado não estou interessado nisto. Meu trabalho é homicídio, e é nisto que estou trabalhando agora".

Brown estava ouvindo educadamente.

"Por mim", prosseguiu Cramer, "o caso é que por algum tempo o senhor manteve estreitas ligações com a Srta. Brown, associando-se com ela em uma operação confidencial. O senhor a apresentava como sua irmã, quando não era verdade, e agora ela foi assassinada. Podíamos lhe arranjar um verdadeiro inferno só por este motivo".

Brown ficou mudo. Seu rosto imóvel.

"Nunca será muito tarde para lhe arranjar um inferno", lhe assegurou Cramer, "mas primeiro eu queria lhe dar uma chance. Durante dois meses o senhor esteve intimamente ligado com Cynthia Brown. Certamente ela deve ter mencionado uma experiência que teve em outubro passado. Uma amiga dela, chamada Dóris Hatten, foi morta - estrangulada. Cynthia Brown tinha informações sobre o assassino, que ela guardou para si mesma; se ela tivesse contado, provavelmente, agora estaria viva. Ela deve ter lhe falado sobre isto; não me diga que não. Deve ter-lhe contado tudo sobre o caso. Agora pode me dizer. Se o fizer, podemos agarrar o homem pelo que ele fez hoje aqui, e isto poderia tornar as coisas um pouco mais fáceis para o senhor. Bem?"

Brown tinha franzido os lábios. Agora ele os tinha endireitado novamente e sua mão se levantou para esfregar o queixo.

"Sinto muito", falou.

"Sente muito, o quê?"

"Por não poder ajudar".

"Espera que eu acredite que durante todas estas semanas ela nunca lhe tenha mencionado a morte de sua amiga Dóris Hatten?"

"Sinto muito mas não posso ajudar".

Cramer pegou outro charuto e o rolou entre suas mãos, o que era uma perda de energia, desde que ele não pretendia fumá-lo, realmente. Já o tendo visto fazer aquilo antes, sabia o que significava. Ele ainda pensava que podia obter algo deste "freguês" e então estava arranjando tempo para se controlar.

"Eu também sinto muito", falou, tentando dizer aquilo sem que parecesse um grunhido. "Mas ela deve ter lhe dito algo sobre sua carreira anterior, não disse?"

"Sinto muito". O tom de Brown era firme e determinado.

"Certo. Vamos voltar então a esta tarde. Sobre ela, o senhor disse que responderia tudo e com sinceridade. Lembra-se de um momento quando algo a respeito da aparência de Cynthia - algum movimento ou alguma expressão de seu rosto - fez com que a Sra. Orwin lhe perguntasse qual era o problema com ela?"

Um vinco estava aparecendo na testa de Brown. "Não acredito que tenha percebido", declarou.

"Estou lhe pedindo que tente. Tente fortemente".

Silêncio. Brown franziu os lábios e a ruga em sua testa se aprofundou. Finalmente falou, "Pode ser que eu não estivesse lá naquele momento. Naquelas passagens - com uma multidão como aquela - estávamos nos comprimindo continuamente".

"O senhor se lembra quando ela se desculpou porque não estava se sentindo bem?"

"Sim, é claro."

"Bem, este momento a que estou me referindo passou-se pouco antes disto. Ela encontrou o olhar de um homem que estava próximo e foi sua reação que fez com que a Sra. Orwin lhe perguntasse qual era o problema. O que eu estou interessado é nesta troca de olhares. Se o senhor viu isto e pode se lembrar, pode descrever o homem que ela avistou. Eu não daria um níquel nem me importaria se o senhor limpasse a Sra. Orwin e mais dez iguais a ela".

"Não vi isto".

"Não viu?"

"Não".

"Não diga que sente muito".



"É claro que sinto, se pudesse ajudar..."

"Vá para o inferno!" Cramer bateu seu punho sobre a mesa, tão fortemente, que as bandejas dançaram. "Levy, leve-o para fora e diga a Stebbins para que o leve para baixo e o tranque. Testemunha material. Ponha mais homens sobre ele. Ele deve saber alguma coisa! Descubra o quê!"

"Quero telefonar para meu advogado", falou Brown, calma, porém, enfaticamente.

"Há um telefone lá em baixo, para onde você está indo..." disse-lhe Levy. "Se não estiver com defeito. Por aqui coronel".

Quando a porta se fechou atrás dele, Cramer olhou-me como se estivesse com medo que eu lhe dissesse que eu também sentia muito... Deixando transparecer em meu rosto o quanto eu também estava amolado comentei casualmente, "Se eu pudesse entrar no escritório lhe mostraria um excelente livro sobre disfarces. Esqueci o nome. O recorde mundial é de dezesseis anos - um camarada na Itália enganou um irmão e dois primos que o conheciam muito bem. Portanto talvez o senhor devesse..."

Cramer desviou-se de mim rudemente e ordenou, "Junte tudo, Murphy. Estamos de saída". Empurrou sua cadeira para trás, levantou-se e sacudiu os tornozelos para fazer com que as pernas de sua calça se abaixassem. Levy retornou e Cramer se dirigiu a ele. "Estamos de saída. Todo mundo fora. Para meu escritório. Diga a Stebbins que um homem só, lá fora, é o suficiente - não, eu vou dizer a ele".

"Ainda há mais um, senhor".

"Mais um o quê?"

"Na sala da frente. Um homem!"

"Quem?"


"O nome dele é Nicholson Morley. É um psiquiatra".

"Deixe-o ir. Isto é uma piada infernal".

"Sim senhor".

Levy saiu. O taquígrafo tinha juntado os livros e outros papéis e os estava colocando dentro de uma velha maleta. Cramer olhou para Wolfe e este lhe retribuiu o olhar.

"Um pouco antes", falou Cramer com voz irritada, "O senhor disse que alguma coisa lhe havia ocorrido".

"Eu lhe disse?" perguntou Wolfe friamente.

Seus olhos continuaram se desafiando até que Cramer quebrou a hostilidade virando-se para sair. Eu contive o impulso de bater suas cabeças uma contra a outra. Ambos estavam sendo infantis. Se Wolfe realmente tinha alguma coisa, sabia perfeitamente bem que Cramer negociaria muito alegremente a interdição do escritório por uma pista. E Cramer também sabia muito bem que ele poderia fazer a proposta sem que tivesse nada a perder. Mas os dois eram muito irritáveis e cabeçudos para que pudessem mostrar algum bom senso.

Cramer tinha dado a volta ao fim da mesa, em seu caminho para sair, quando Levy entrou novamente para informar, que "aquele homem, o Sr. Morley, insiste em ver o senhor. Ele diz que é vital".

Cramer parou, indignado. "O que ele é, doido?"

"Não sei, não senhor. Talvez seja".

"Está certo, faça-o entrar". Cramer circundou a mesa e tomou seu lugar novamente.

CAPÍTULO 7

Aquela era primeira vez que eu observava bem aquele senhor com o topete de cabelos escuros. Seus olhos rápidos e penetrantes eram tão pretos quanto seus cabelos e a aparência de seu queixo e de seu rosto tornava evidente que sua barba seria igual se ele desse oportunidade para crescer. Sentou-se e começou dizendo a Cramer quem e o quê era.

Cramer assentiu impacientemente. "Eu sei. O senhor tem alguma coisa para dizer, Dr. Morley?"

"Tenho. Algo muito importante".

"Então vamos ouvir".

Morley ajeitou-se em sua cadeira. "Eu suponho que ninguém foi preso. Estou certo?"

"Sim... pelo menos ninguém foi preso por acusação de homicídio".

"O senhor tem alguma acusação de suspeita definida, com ou sem prova evidente?"

"Se quer dizer que estou pronto a dizer o nome do assassino, não. O senhor está?"

"Talvez esteja".

O queixo de Cramer se levantou. "Bem, estou encarregado disto".

O Dr. Morley sorriu. "Não tão rápido. A sugestão que tenho para oferecer dependeria fundamentalmente de certas suposições". Ele colocou a ponta de seu indicador direito sobre a ponta do seu dedo mínimo esquerdo. "Primeiro: que o senhor não tem idéia de quem cometeu este crime, e aparentemente o senhor não tem". Ele passou para o dedo seguinte. "Segundo: que este não é um crime comum com um motivo comum". Passou para o dedo do meio. "Terceiro: que não se sabe nada que desacredite a hipótese de que esta moça - que pelo que eu soube pela Sra. Orwin, se chamava Cynthya Brown - fosse estrangulada pelo mesmo homem que estrangulou Dóris Hatten no dia dezessete de outubro do ano passado. Posso fazer estas suposições?"

"Pode tentar. Por que quer fazer isto?"

Morley sacudiu a cabeça. "Não que eu queira. O caso é que se me permitirem tenho uma sugestão. Quero que fique bem claro que tenho grande respeito pela capacidade da polícia, dentro dos seus próprios limites. Se o homem que matou Dóris Hatten fosse vulnerável às técnicas e pesquisas da polícia, provavelmente eleja teria sido preso. Porém ele não o era. O senhor fracassou completamente. Por quê?"

"O senhor mesmo está me dizendo".

"Por que ele estava fora de seus limites. Porque sua investigação do motivo está restringida por seus preconceitos". Os olhos escuros de Morley brilharam. "O senhor é um homem da lei, portanto eu não vou usar termos técnicos. Os motivos mais poderosos sobre a terra são os da personalidade, que não podem ser expostos por nenhuma investigação puramente objetiva. Se a personalidade for torcida, corrompida, como o é num caso de um psicótico, então os motivos também são distorcidos. Como psiquiatra, eu estava profundamente interessado nas reportagens publicadas sobre a morte de Dóris Hatten - especialmente quanto ao pormenor de que ela foi estrangulada com sua própria écharpe. Quando seus esforços para achar o culpado - sem dúvida cuidadosos e até mesmo brilhantes - terminaram em um completo fracasso, eu teria ficado satisfeito em lhe dar uma sugestão, mas eu estava tão sem apoio quanto o senhor".

"Vamos direto com isto", resmungou Cramer.

"Sim". Morley apoiou seus cotovelos sobre a mesa e juntou todas as pontas de seus dedos. "Agora, hoje. Com base nas suposições com que comecei, uma teoria convincente, que vale a pena ser examinada, é a de que foi o mesmo homem. Se foi assim, ele cometeu um erro. Aparentemente ninguém entrou aqui, hoje, sem ter seu nome conferido; o homem que ficou na porta era muito eficiente. Portanto não é mais uma questão de descobri-lo entre centenas ou milhares: são simplesmente cem, ou pouco mais, e me ofereço para contribuir com meus conhecimentos. Não penso que existam mais que três ou quatro homens em Nova York qualificados para este trabalho, e eu sou um deles. O senhor pode verificar isto".

Os olhos negros faiscaram. "Admito que para um psiquiatra esta é uma rara oportunidade. Nada poderia ser mais dramático do que uma psicose explodindo em um crime. Não quero fingir que meu interesse é puramente idealista. Todos teriam que ir ao meu consultório - um de cada vez, é claro. Com alguns, dez minutos seriam suficientes, mas com outros poderia levar horas. Quando eu tiver..."

"Um momento", falou Cramer. "Está sugerindo que entreguemos todos os que estiveram hoje aqui em seu escritório para que o senhor os examine?"

"Não, não todo mundo, só os homens. Quando eu tiver terminado, posso não ter nada que possa ser usado como prova, mas há uma excelente chance de eu poder lhe dizer quem é o estrangulador e quando o senhor souber isto..."

"Perdão", disse Cramer. Ele estava de pé. "Sinto muito ter que interrompê-lo Doutor, mas preciso ir para o centro da cidade". Isto era bem próprio dele. "Receio que sua sugestão não funcione. Farei com que saiba..."

Saiu seguido por Levy e Murphy.

O Dr. Morley girou sua cabeça para vê-los sair, conservou-a assim por um momento e então voltou-se para nós. Parecia desapontado mas não derrotado. Os olhos negros, depois de me olharem rapidamente voltaram-se para Wolfe.

"O senhor", falou ele, "é inteligente e preparado. Eu deveria ter pensado primeiro no senhor. Posso contar consigo para explicar àquele policial porque minha sugestão é a única esperança para ele?"

"Não", respondeu Wolfe abruptamente.

"Ele teve um dia difícil", falei a Morley. "Eu também. O senhor se importaria de fechar a porta quando sair?"

Parecia que ele agora tinha intenção de recorrer a mim como último recurso, por isto, levantei-me, circundei a mesa em direção à porta, que tinha sido deixada aberta e lhe disse: "por aqui, por favor".

Ele levantou-se e saiu sem dizer uma palavra. Fechei a porta, espreguicei-me com força, bocejei, atravessei a sala, abri a janela, estiquei minha cabeça para fora para respirar um pouco de ar fresco, fechei-a novamente e olhei para meu relógio.

"Vinte para as dez", comentei.

Wolfe resmungou, "Vá olhar a porta do escritório".

"Acabei de fazê-lo, quando acompanhei Morley. Está trancada. Espírito mesquinho".

"Veja se eles se foram e trancaram a porta. Mande Saul para casa e diga-lhe para voltar às nove da manhã. Diga a Fritz que me traga uma cerveja".

Obedeci. O hall e a sala da frente estavam vazios. Saul, a quem eu encontrei na cozinha com Fritz me disse que tinha feito uma revista completa lá em cima e que tudo estava em ordem. Fiquei conversando um pouco com ele enquanto Fritz levou uma bandeja para a sala de jantar. Quando eu o deixei e voltei, Wolfe, abrindo uma garrafa de cerveja com o abridor que Fritz tinha trazido na bandeja, estava fazendo uma cara que eu entendia perfeitamente. O abridor que ele sempre usava, um de ouro, que um cliente e admirador lhe havia dado há muitos anos atrás, estava no escritório. Sentei-me e o observei enquanto despejava a cerveja.

Esta sala não é de todo má para se ficar", comentei alegremente.

"Bah! Quero lhe perguntar algo".

"Fale".


"Quero sua opinião sobre isto. Suponha que aceitemos, sem reservas, a história que a Srta. Brown lhe contou. Antes de mais nada, você acreditou nela?"

"Em vista do que aconteceu, sim".

"Então aceite. Aceite também que o homem, que ela havia reconhecido, sabendo que ela o reconhecera, a seguiu aqui para baixo e a viu entrar no escritório; então concluiu que ela pretendia me consultar; suponha que ele tenha adiado encontrar-se com ela no escritório ou porque ele sabia que você estava lá com ela ou por qualquer outra razão; que ele o viu sair e subir as escadas; aproveitou a oportunidade para entrar sem ser visto, pegou-a desprevenida e a matou e depois voltou para cima. Todas estas suposições parecem possíveis, a menos que nos descartemos de tudo isto e procuremos uma outra saída".

"Concordo plenamente".

"Muito bem. Então temos indicações significativas do caráter dele. Considere isto. Ela a matou e voltou para cima, sabendo que ela tinha estado no escritório conversando com você, durante algum tempo. Ele gostaria de saber o que ela lhe revelara. Especificamente, ele gostaria de saber se ela lhe falara sobre ele, e se assim o fez, o quanto lhe contou. Se ela teria ou não dito o seu nome e se o teria descrito em sua atual aparência. Com aquela dúvida, sem resposta, poderia um homem, com o caráter dele, deixar a casa? Ou preferiria o desafio e o risco de permanecer até que o corpo fosse descoberto para ver o que você faria -- e eu também, é claro, depois de você ter falado comigo e com a polícia?"

"Certo". Apertei meus lábios. Houve um grande silêncio. "Então é nisto que está pensando. Eu também poderia fazer uma suposição?"

"Prefiro uma sugestão do que uma suposição. Para isso é preciso ter uma base e já temos muitas suposições. Conhecemos a situação, como nós a aceitamos, e sabemos alguma coisa sobre o caráter dele".

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