Final para trêS ( 3 histórias de Nero Wolfe)



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FINAL PARA TRÊS ( 3 histórias de Nero Wolfe)

Rex Stout

São Paulo — 1980 Título original: Curtain for three

(A Nero Wolfe Threesome) Copyright © 1948, 1949, 1950 Rex Stout Tradução: Suzana Fleury Malheiros Introdução: J. A. Maia Ed. Clube do Livro

SUMARIO

Nero Wolfe & Cia. História 1 - O Revólver Voador História 2 - Morte no Parque História 3 - Disfarce para Matar



NERO WOLFE & CIA.

No rol dos heróis famosos da literatura policial, o mais célebre, sem dúvida, é Sherlock Holmes. Cerebral, frio, dotado de um raciocínio lógico-dedutivo desconcertante, Holmes parece, quase sempre, tirar a solução de seus casos do "bolso do colete" (ou da sua indefectível capa de "tweed" inglês). E deixa, sempre, seu fiel companheiro o Dr. Watson de queixo caído com suas mirabolantes deduções.

Arthur Conan Doyle o pai genial da dupla Holmes-Watson teve inúmeros seguidores nesse gênero de heróis que se destacam pelo raciocínio mais do que pela ação: o belga Hercule Poirot, ao lado de Miss Marple, a velhinha xereta, criações ambas de Agatha Christie, e o Inspetor Maigret, do extraordinário Simenon são, provavelmente, os mais conhecidos hoje em dia.

Rex Stout, autor dos mais famosos na literatura policial de língua inglesa é, ao lado de Agatha Christie, de Georges Simenon, de John Creasey (de quem o Clube do Livro lançou "O Preço da Inocência"), um dos escritores que mais vendem livros policiais em todo o mundo. Apesar de todo seu sucesso, Rex Stout permanece, praticamente, desconhecido no Brasil. Ele também criou uma dupla famosa: Nero Wolfe, o gordo detetive "cerebral" e Archie Goodwin; seu braço direito (e, às vezes, também esquerdo).

Nero Wolfe é, pode-se dizer, o anti-herói da ficção policial: gordo, preguiçoso, glutão, sarcástico, mau-humorado, despreza solenemente policiais, esforço físico, mulheres e, acima de tudo, trabalhar como detetive. Na verdade seu sonho seria cultivar orquídeas, exclusivamente às quais já dedica, religiosamente, quatro horas por dia. De fato, entre as 9 e as 11 horas da manhã e entre as 4 e 6 horas da tarde, não há hipótese ou problema que o faça interromper seu trabalho no orquidário, no terraço de sua casa (uma casa, aliás, bastante estranha, cuja fachada de pedras escuras esconde um jardim, no último andar, dotado de salas refrigeradas ou aquecidas para o cultivo das suas 10.000 orquídeas, das mais variadas e exóticas espécies, dos mais diversos climas. Mas não é só: uma casa cuja porta da rua tem um vidro espelhado pelo qual pode-se ver sem ser visto os imprudentes que vêm perturbar o mestre em seu sagrado retiro).

O método de trabalho de Wolfe, quando deve enfrentar um caso de difícil solução (e qual não o é?), é bastante simples: senta-se à sua mesa de trabalho, tomando cerveja e comendo alguns deliciosos sanduíches preparados por Fritz Brenner misto de mordomo, chofer, cozinheiro e ajudante de botânico e dali, se possível com um mínimo de esforço físico, soluciona os mais intrincados casos policiais que, muito a contragosto (e por absoluta necessidade econômica) aceita.

Archie Goodwin secretário, ajudante de detetive, "braço armado" de Wolfe é o oposto do patrão. Jovem, impetuoso, nervoso, irônico, bem-humorado, eterno apaixonado, detesta flores (especialmente orquídeas) e une a uma fidelidade extrema a Wolfe suas implacáveis autuações, que o fazem a "memória" do mestre. Archie colabora, ativamente com Wolfe na resolução dos casos mais complicados, seja através de investigações que este não gosta de fazer (na verdade Nero Wolfe só abandona sua velha casa na Rua 35 Oeste, em Nova York, e as caprichadíssimas refeições de Fritz e, acima de tudo, sua poltrona e sua mesa de trabalho, em último caso, quando não há, mesmo, outra maneira de agir): seja através das célebres "notas", que vai tomando num caderno barato, à medida que as testemunhas ou o suspeito (este, certamente, sentado numa poltrona de couro vermelho, colocada bem ao lado da mesa de Wolfe) vão falando.

E, como todo bom detetive de romances policiais, Nero Wolfe tem no Inspetor Cramer, da Divisão de Homicídios da Polícia nova-iorquina, seu inimigo cordial em todos os "casos".

* * * * *

Final para três é um "tríptico", reunindo três novelas curtas, gênero ao qual Rex Stout muito se dedicou.

Na primeira (O Revólver Voador), temos um interessantíssimo caso de uma arma mortal que, teimosamente, se recusava a estar onde deveria. E um suicídio que, só por um pequeno pormenor, não poderia ter acontecido...

A segunda (Morte no Parque) conta uma história de um homem que não deveria, nunca, cavalgar no Central Park, às 6 horas da manhã.

A última (Disfarce para Matar), finalmente, é um caso de um ousado assassino que mata sua vítima na própria casa de Nero Wolfe!

Trata-se de um conjunto de três histórias em que Wolfe e Archie se envolvem com cantores de ópera, lãs de orquídeas, gente de negócios e muita emoção.

Divirtam-se!

J. A. Maia

HISTÓRIA 1 - O REVÓLVER VOADOR

CAPÍTULO 1

A jovem tirou o papelucho cor-de-rosa de sua bolsa, levantou-se da poltrona de couro vermelho, colocou-o sobre a mesa de Nero Wolfe e voltou a sentar-se.

Sentindo que era meu dever manter-me informado - além de poupar a Wolfe o supremo esforço de inclinar-se para alcançá-lo - levantei-me e apressei-me em entregar-lhe o papel, não sem dar, antes, uma espiada nele... Era um cheque de cinco mil dólares, datado daquele mesmo dia, quatorze de agosto, a seu favor e assinado por Margaret Mion! Nero deu uma olhada e o deixou na mesa.

"Penso que seja esta a melhor forma de começar uma conversa", falou ela.

Sentado em minha cadeira favorita, diante da escrivaninha onde tomava as anotações - e observando-a melhor - comecei a reformular minha atitude. Quando, naquele domingo à tarde, ela havia telefonado para marcar uma entrevista, lembrara-me, vagamente, de algumas fotografias publicadas nos jornais, a alguns meses atrás, e concluíra não haver o menor interesse em conhecê-la pessoalmente. Mas agora via que estava errado. A impressão que dela se irradiava nada tinha de excepcional - mas o efeito do conjunto era magnífico! Não digo que fossem poses estudadas. Não! Sua boca, por exemplo, não era especialmente atraente - mesmo quando sorria... Mas seu sorriso era encantador!

Seus olhos nada tinham de extraordinário - mas dava prazer vê-los olharem ao redor, de Wolfe para mim e para o homem que viera com ela, sentado à sua esquerda. Imagino que estivesse próxima dos trinta anos.

"Não acha", perguntou-lhe o seu acompanhante "que deveríamos, antes, obter algumas respostas?"

Seu tom era áspero e um tanto forçado e sua face bem demonstrava isso. Estava bastante preocupado e não se incomodava nem um pouco se alguém o notasse. Com seus olhos cinza-escuro e feições bem torneadas, ele poderia, em dias melhores, ter passado por um líder; mas não agora, como estava sentado. Alguma coisa o estava remoendo. Quando a Sra. Mion o apresentou como Sr. Frederick Weppler, reconheci o nome do crítico de música do Gazette, mas não consegui me lembrar onde ele se encaixava nos acontecimentos que foram a causa da publicação da fotografia da Sra. Mion.

Ela sacudiu a cabeça negativamente: "Realmente, isso não iria ajudar, Fred. Temos, só que contar tudo e ver o que ele diz", e sorriu para Wolfe - ou talvez não fosse propriamente um sorriso, mas somente o jeito de mexer seus lábios. "O Sr. Weppler não estava muito certo se deveríamos vir ver o senhor e tive de convencê-lo. Os homens são mais cautelosos que as mulheres, não é mesmo?"

"Sim", concordou Wolfe - e acrescentou: "Graças a Deus!"

Ela assentiu - "suponho que sim" - e prosseguiu: "Trouxe este cheque para provar o que realmente queremos. Estamos em apuros e precisamos que o senhor nos ajude. Queremos nos casar e não podemos. É isto - se pudesse falar só por mim... eu quero me casar com ele". Olhou para Weppler, e desta vez era, sem dúvida, um sorriso. "Quer se casar comigo, Fred?"

"Quero", ele respondeu, meio embaraçado. Então, de repente, ele levantou o rosto e olhou desafiadoramente para Wolfe. "O senhor entende. Tudo isto é muito ridículo! Isto não é de sua conta... mas viemos procurar sua ajuda. Estou com trinta e quatro anos e esta é a primeira vez que estou..." Ele parou. Depois de um momento continuou firmemente: "Amo a Sra. Mion e a coisa que mais quero em minha vida é casar-me com ela". Os olhos dele voltaram-se para ela e murmurou suplicante: "Peggy!"

Wolfe resmungou: "Aceito isto como ponto pacífico. Vocês querem se casar. Então, porque não o fazem?"

"Porque não podemos", respondeu Peggy. "Simplesmente não podemos. Isto porque... o senhor deve se lembrar de ter lido a respeito da morte de meu marido, há quatro meses atrás, em abril. Lembra-se? Alberto Mion; o cantor de ópera?"

"Vagamente. É melhor a senhora avivar minha lembrança".

"Bem, ele morreu... ele se suicidou". Agora não havia sinal de sorriso. "Fred - o Sr. Weppler - e eu o encontramos. Eram sete horas, quase noite, de uma terça-feira de abril, em nosso apartamento na Avenida East End. Exatamente naquela tarde Fred e eu tínhamos descoberto que nos amávamos, e..."

"Peggy!" falou Weppler, rispidamente.

Os olhos da moça moveram-se, rapidamente, na direção dele e voltaram-se para Wolfe. "Talvez eu lhe deva perguntar, Sr. Wolfe. Ele pensa que nós deveríamos lhe contar somente o necessário para que o senhor entenda o problema, mas eu creio que o senhor não o pode entender a menos que lhe contemos tudo. O que o senhor acha?"

"Não posso dizer nada até ouvir tudo. Continue. Se eu tiver dúvidas, a senhora verá".

Ela concordou. "Imagino que o senhor tenha um colosso de perguntas. Alguma vez o senhor já esteve apaixonado, mas precisou escondê-lo, para que ninguém o percebesse?"

"Nunca", disse Wolfe enfaticamente. "Estas coisas sempre trazem complicações".

Eu ouvi sua resposta sem me mover.

"Bem, eu estava apaixonada e admito isto. Mas ninguém sabia, nem mesmo ele. Você sabia, Fred?"

"Não". Weppler também foi enfático.

"Até aquela tarde", disse Peggy a Wolfe. "Ele estava no apartamento para almoçar conosco, e tudo aconteceu logo depois do almoço. Todos tinham saído e, de repente, estávamos olhando um para o outro e então ele disse... ou fui eu... nem sei mais quem foi". Ela olhou suplicante para Weppler: "sei que acha isto constrangedor, Fred mas se ele não souber o que aconteceu, não poderá entender porque você subiu para ver Alberto".

"E ele precisa saber?" perguntou Weppler.

"É claro que precisa". Ela voltou-se para Wolfe. "Parece que eu não posso dizer exatamente como foi. Estávamos completamente... bem, estávamos apaixonados, isto é tudo, e penso que demoramos muito para perceber isto. Assim as coisas se tornaram mais... mais envolventes. Fred queria ver meu marido imediatamente, contar-lhe tudo a respeito e decidir o que poderíamos fazer. Concordei. E então, fomos para cima..."

"Para cima?"

"Sim, é um duplex e em cima fica a sala à prova de som onde meu marido ensaiava. Então fomos..."

"Por favor, Peggy", Weppler a interrompeu. Seus olhos fitaram Wolfe diretamente. "O senhor saberá disto em primeira mão. Subi para dizer a Mion que amava Peggy e ela também me amava e pedir-lhe que tentasse ser compreensivo conosco; mas ele podia ser tudo, menos compreensivo. Não foi violento mas ficou furioso! Depois de algum tempo fiquei com medo de acabar fazendo com ele o que Gif James tinha feito e, então, saí. Não queria me encontrar novamente com Peggy naquele estado de ânimo; assim, deixei o estúdio pela porta do hall de cima e lá tomei o elevador". Weppler parou.

"E então?" Wolfe o estimulou.

"Saí. Andei através do parque e pouco depois, quando já tinha me acalmado, liguei para a Sra. Mion e ela foi me encontrar lá. Contei-lhe qual fora a atitude de Mion e pedi-lhe que o deixasse e ficasse comigo. Ela, porém, não queria fazer isto". Weppler parou um pouco e então continuou. "Há duas dificuldades que a gente tem que enfrentar quando se quer ter tudo".

"Se isso for importante", disse Wolfe.

"Isso é, realmente, importante! Primeiro a Sra. Mion tinha, e tem, recursos próprios. Esta era uma atração a mais para Mion. Para mim não o era. Estou somente lhe informando".

"Obrigado. E a segunda?"

"A segunda era a razão que a Sra. Mion tinha para não deixar o marido imediatamente. Creio que o senhor sabe que ele havia sido o tenor principal do Metropolitan nestes últimos cinco ou seis anos, quando perdeu sua voz por algum tempo: Gifford James, o barítono, bateu com o punho em seu pescoço, ferindo sua laringe, no começo de março e Mion não pôde terminar a temporada. Foi operado, mas não recobrou sua voz e, naturalmente ficou desesperado. Portanto a Sra. Mion não o queria abandonar nestas circunstâncias. Tentei persuadi-la a fazê-lo mas ela não o quis. Eu estava bem naquele dia, a despeito do que me acontecera, pela primeira vez na vida, e do que Mion me havia dito. Então fui razoável; deixei-a no parque e fui para o centro, para um bar, e comecei a beber. Apesar de ter ficado lá durante muito tempo, e bebido bastante, não estava embriagado. Por volta das sete horas achei melhor vê-la novamente e convencê-la de que ela não poderia passar outra noite em sua casa. Aquela resolução me levou de novo à Avenida East End e, lá, ao 12o. andar do edifício onde morava. Então fiquei parado no hall de entrada, durante uns dez minutos, antes de apertar o botão da campainha. Finalmente, quando o fiz, a empregada me introduziu e foi chamar a Sra. Mion. Eu já estava calmo e tudo o que fiz foi sugerir termos, juntos, uma conversa com Mion. Ela concordou. Subimos...

"Pelo elevador?"

"Não, pela escada interna. Entramos no estúdio. Mion estava no chão. Corremos para ele. Havia um grande buraco em sua cabeça. Estava morto! Fiz com que a Sra. Mion saísse e, na escada, muito estreita para duas pessoas descerem ao mesmo tempo, ela caiu e rolou quase até a metade. Carreguei-a até o seu quarto e a coloquei sobre a cama; quando fui para o hall, em busca do telefone, pensei em algo que deveria fazer antes. Saí, peguei o elevador para o andar térreo, encontrei o porteiro e o ascensorista juntos e perguntei-lhes quem tinha estado no apartamento de Mion naquela tarde. Disse-lhes que precisava estar absolutamente seguros, sem esquecerem de ninguém. Eles me deram os nomes e eu os anotei. Então, voltei ao apartamento e telefonei para a polícia. Depois de fazer aquilo ainda me lembrei que um leigo não é a pessoa mais indicada para decidir se um homem está morto; telefonei para o Dr. Lloyd, que mora no mesmo prédio. Ele veio imediatamente e eu o levei ao estúdio. Estávamos lá há três ou quatro minutos quando chegou o primeiro policial e é claro..."

"Por favor", Wolfe aparteou. "Às vezes tudo, é demais. O senhor ainda não tem uma idéia da dificuldade em que se encontra".

"Vou chegar nela..."

"Mais rápido, espero, se puder ajudar. Minha memória está treinada. O médico e a polícia atestaram que ele estava morto. O cano do revólver fora enfiado em sua boca, e a bala tinha estraçalhado uma parte de seu crânio. O revólver encontrado no chão ao lado do corpo, pertencia a ele e era guardado lá no estúdio. Não havia sinal de luta e nenhum outro ferimento em seu corpo. A perda da voz era um excelente motivo para o suicídio. A conclusão, depois de uma investigação rotineira, baseada na impossibilidade de se introduzir o cano de uma arma, carregada na boca de um homem, sem que ele protestasse, foi de suicídio. Não foi assim?"

Ambos concordaram.

"A polícia reabriu o caso? Ou estão comentando a respeito?"

Os dois negaram.

"Então vamos prosseguir. Onde está o problema?"

"Somos nós", falou Peggy.

"Por quê? O que há de errado com vocês?"

"Tudo". Ela sacudiu a cabeça. "Não, eu não quero dizer tudo; somente uma coisa. Depois da morte de meu marido e da investigação rotineira, saí, viajei um pouco. Quando voltei, há dois meses atrás, Fred e eu estivemos juntos durante algum tempo, mais isto não era certo, quero dizer que nós não nos sentíamos bem. Anteontem, sexta-feira, fui passar o fim de semana com uns amigos, em Connecticut e ele estava lá. Nenhum de nós sabia que o outro iria. Conversamos muito nestes dois dias e decidimos vir pedir sua ajuda... Na verdade, eu decidi vir vê-lo, e ele não quis que eu viesse sozinha.

Peggy inclinou-se para frente e foi extremamente enérgica: "O senhor precisa nos ajudar, Sr. Wolfe. Eu amo Fred tanto, tanto! E ele diz que também me ama muito - e eu sei que é verdade! Ontem à tarde decidimos que iríamos nos casar em outubro, mas à noite começamos a conversar... mas não é o que falamos, é o que há em nossos olhos quando olhamos um para o outro. Não podemos nos casar com esta sensação de desconfiança em nosso olhar, lutando para disfarçá-la".

Um ligeiro tremor tomou conta dela. "Durante anos - para sempre? Não podemos! Sabemos que não podemos - seria terrível! O que é? É uma dúvida terrível: quem matou Alberto? Foi ele? Fui eu? Não penso realmente que ele o tenha feito, e o mesmo acontece com ele - assim espero mas permanece uma desconfiança em nossos olhares, e sabemos que ela existe!"

Estendendo ambas as mãos ela falou: "queremos descobrir isto!"

"Absurdo", resmungou Wolfe. Vocês precisam de uns tapas ou de um psicanalista. A polícia pode ter algumas deficiências, mas não é tão incompetente. Se eles estão satisfeitos se..."

"Aí é que está! Eles não estariam satisfeitos se tivéssemos dito a verdade!"

"Ah"! As sobrancelhas de Wolfe se levantaram. "Vocês mentiram a eles?"

"Sim. Ou se não mentimos, de qualquer maneira não lhes dissemos a verdade. Não lhes contamos que quando o vimos, juntos, pela primeira vez, não havia arma lá. Não havia nenhuma arma à vista.

"É verdade? Vocês têm certeza?"

"Absoluta! Nunca vi nada tão claro quanto aquilo... aquela cena. Não havia nenhuma arma".

Wolfe virou-se para Weppler. "O senhor concorda com isto?"

"Sim, ela está certa".

Wolfe suspirou fundo. "Bem", concordou ele, "agora posso ver que estão realmente em dificuldade. Os tapas não iriam ajudá-los muito..."

Mudei de posição em minha cadeira por causa de um formigamento que sentia no fim da espinha.

A antiga casa de pedras de Nero Wolfe na Rua 35 - Oeste, era um lugar interessante para se viver e trabalhar - para Fritz Brenner, o cozinheiro e copeiro e para Theodore Horstmann, que cuidava e cultivava as dez mil orquídeas da estufa, em cima, no telhado, e para mim, Archie Goodwin, cujo principal campo de operações ficava no grande escritório do andar térreo. Naturalmente eu achava que meu trabalho era o mais interessante, visto que o assistente de confiança de um famoso detetive particular está tendo constantemente uma porção de problemas difíceis, de todos os tipos, desde um colar desaparecido até uma nova chantagem. Realmente, muito poucos clientes me aborreciam. Mas somente uma espécie de caso me provocava aquele formigamento na espinha: homicídio. E se este casal de pombinhos estava falando sério, aquilo era verdade!

CAPÍTULO 2

Eu preenchera dois cadernos de apontamentos quando eles se foram, mais de duas horas depois.

Se tivessem pensado nisto antes de terem telefonado para marcar um encontro com Wolfe, provavelmente não teriam ligado. Tudo que pretendiam, como disse Wolfe, era o impossível. Queriam Wolfe, primeiro, para investigar um crime ocorrido há quatro meses atrás; segundo, para provar que nenhum dos dois assassinara Alberto Mion, o que podia ser feito somente se achassem quem o matara; terceiro, no caso de ele descobrir que um deles era o culpado, arquivar o caso e esquecer-se. Não que tivessem colocado a coisa dessa maneira, desde que a história deles induzia que ambos eram, absolutamente, inocentes. Mas aquilo era, em resumo, o que queriam.

Wolfe tornou tudo claro e simples. "Se eu pegar o caso", disse-lhes, "e achar provas para acusar alguém de homicídio, não importa quem, o uso que farei delas dependerá somente do meu critério. Não sou nenhuma Astréia nem sádico, porém não pretendo me amarrar em nenhum compromisso. Por isso, se quiserem sair agora, aqui está o seu cheque, e o Sr. Goodwin destruirá o caderno de notas. Podemos terminar tudo e esquecer que estiveram aqui".

Aquele foi um dos momentos em que eles estiveram a ponto de se levantar e sair, principalmente Fred Weppler, mas não o fizeram. Olharam um para o outro e seus olhares diziam tudo. Naquela altura eu já estava a ponto de gostar deles e até começando a admirá-los; estavam realmente decididos a se livrarem daquela armadilha em que se encontravam! Quando se olharam era como se seus olhos dissessem: "vamos embora juntos, meu amor, vamos esquecer tudo - vamos, vamos". Então eles enunciaram: "Seria tão maravilhoso! Seria, mas... não queremos essa maravilha durante um dia ou uma semana; queremos que seja sempre maravilhoso - e sabemos que..."

Era preciso coragem e senso prático para pensar assim, e por diversas vezes me senti emocionado com aquilo. Além de tudo, é claro, havia o cheque de cinco mil dólares sobre a mesa de Wolfe...

As anotações estavam cheias das questões mais variadas. Havia muitos indícios que podiam ou não se tornar pertinentes, tais como a antipatia mútua entre Peggy Mion e Rupert Grove, o empresário de seu marido, ou a ocasião em que Gifford James agrediu Alberto Mion diante de testemunhas, ou as atitudes de várias pessoas em relação às demandas de Mion por perdas e danos; mas não se podia usar tudo, e mesmo Wolfe nunca precisaria mais do que uma parte daquilo; portanto, eu selecionaria e escolheria as anotações. É claro que o revólver era a prova A. Era novo, e tinha sido comprado por Mion no dia seguinte em que Gifford James o havia agredido e machucado sua laringe - ele afirmara que não era para se vingar de James, mas para se proteger no futuro... Mion o carregava no bolso sempre que saía e em casa o guardava no estúdio, na base de um busto de Caruso. Portanto, até onde sabíamos, aquele revólver nunca tinha dado um tiro, a não ser aquele que o matara.

Quando o Dr. Lloyd chegara e Weppler o conduzira ao estúdio a arma estava no chão, não muito distante do joelho de Mion. O Dr. Lloyd estirara a mão em sua direção, mas a tinha encolhido sem que a tivesse tocado; portanto ela estivera ali até a hora em que a polícia chegou. Peggy fora positiva: a arma não estava lá quando ela e Fred tinham entrado - e ele concordava com ela. Os policiais não encontraram impressões digitais, o que não era de surpreender porque as que são achadas em um revólver quase nunca são boas. Contudo, do começo ao fim das duas horas e meia, Wolfe ficou voltando sempre a falar do revólver inconstante - que voava de um lado para o outro - apesar de que, ao que eu saiba, um revólver não tem asas!

Uma descrição do dia e do que cada um fizera nesse dia tinha sido elaborada. A manhã parecia irrelevante, portanto tudo começava na hora do almoço, com cinco pessoas: Mion, Peggy, Fred Weppler, uma tal Adele Bosley e o Dr. Lloyd. Fora um almoço mais de negócios do que social. Fred fora convidado porque Mion queria lhe vender a idéia de escrever um artigo para o Gazette dizendo que os rumores de que ele não poderia mais cantar eram absurdos e maldosos. Adele Bosley, encarregada de relações públicas do Metropolitan Opera tinha ido para ajudar Fred. O Dr. Lloyd fora consultado, e podia assegurar a Weppler que a operação feita em Mion resultará "num sucesso e podia apostar que por ocasião da abertura da temporada da ópera, em novembro, o grande tenor estaria tão bom como nunca". Nada de especial sucedera, exceto que Fred concordara em escrever o artigo. Adele Bosley e Lloyd tinham saído, Mion subira para o estúdio à prova de som, e Fred e Peggy depois de se entreolharem, de repente, tinham descoberto a coisa mais importante da vida desde o jardim do Paraíso...

Depois de pouco mais de uma hora ocorrera um outro encontro, desta vez, lá em cima, no estúdio; era cerca de três e meia, mas nem Fred nem Peggy estiveram presentes. A esta hora Fred, depois de ter andado sozinho e se acalmado, telefonou para Peggy e ela fora se encontrar com ele no parque; portanto a informação deles sobre o encontro no estúdio era por ouvir contar. Além de Mion e do Dr. Lloyd, havia quatro pessoas: Adele Bosley funcionando como relações públicas; o Sr. Rupert Grove, empresário de Mion; o Sr. Gifford James, o barítono que agredira Mion no pescoço há seis semanas atrás e o Juiz Henry Arnold, advogado de James. Este encontro bem menos social do que o almoço, fora marcado para discutir o pedido formal que Mion fizera a Gifford para o pagamento de um quarto de milhão de dólares pelos danos causados em sua laringe!

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