Festa da Sagrada Família / 2015 Igreja da Santíssima Trindade Covilhã



Baixar 13,06 Kb.
Encontro08.02.2017
Tamanho13,06 Kb.
Festa da Sagrada Família / 2015

Igreja da Santíssima Trindade – Covilhã

Casa de Santa Zita Covilhã

Homilia

Celebramos hoje a Festa da Sagrada Família de Nazaré.

Como lembrou o Papa Paulo VI, agora beatificado, na igreja da Anunciação de Nazaré, a família é a grande escola onde se aprendem os valores que dão sentido à vida.

Escola com método e ambiente próprios onde as pessoas aprendem pelo diálogo e a atenção mútua, a descobrir as suas capacidades e a colocá-las ao serviço quer da realização pessoal, quer do bem comum. E das muitas que aprendemos nessa primeira escola da vida, o Papa destaca três lições, pela sua importância na vida do individuo e da sociedade.

A primeira é a oração do silêncio; a segunda é a da vida familiar e a terceira é a lição do trabalho.

A Palavra de Deus que hoje escutámos ajuda-nos a perceber o que é esta escola, os seus fundamentos e o papel que ela é chamada a desempenhar no plano de Deus e na vida da sociedade.

Assim, a leitura do livro do Ben Sirá, um dos livros sapienciais da Bíblia, destaca a importância dos valores da autoridade e da obediência, mas sobretudo o respeito e a veneração que os pais merecem aos seus filhos. A clareza das recomendações feitas aos filhos sobre o tratamento que devem dar aos seus pais, longe de ter perdido atualidade, é hoje mais urgente do que nunca, quando o autor sapiencial diz: “Filho ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a vida. Se a sua mente enfraquece sê indulgente para com ele, tu que estás no vigor da vida”. Esta é a primeira aprendizagem que temos o direito de esperar de todas e de cada uma das famílias; de todas e de cada uma das escolas e também de quem nos governa. Antes de chegarmos ao extremo de terem de ser feitas leis que penalizam os filhos quando abandonam os pais, façam-se leis que ajudem as famílias a cumprir esta sua missão fundamental e leis que estimulem as escolas e os seus professores a cumprirem a mesma obrigação.

Como lembra a Carta aos Colossenses, nas famílias, enquanto escolas de vida, hão-de ser cultivados e experimentados sentimentos fundamentais que, uma vez entranhados nas pessoas, as tornem capazes de construir relações sociais fortes e para bem de todos. Os sentimentos recomendados continuam hoje a ser os necessários para que a vida em sociedade seja sustentável. É o caso dos sentimentos de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência. Postos em prática, estes sentimentos que enraízam na autêntica caridade, a que o apóstolo também se refere, resolverão noventa por cento dos problemas que surgem no seio das famílias, ou mesmo lhes são impostos do exterior e que não raro levam a situações de rotura familiar.

Ora, a nossa fé no Senhor Jesus é aquele ambiente que dá às famílias a coesão necessária para cumprimento desta sua nobre missão. Daí a recomendação feita pelo Apóstolo: “Habite em vós a Palavra de Cristo para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros, com toda a sabedoria”. Recomenda-se assim o discernimento pessoal em família para identificar tanto os caminhos que deve percorrer a própria família como aqueles que devem percorrer os seus membros, cada um segundo a vocação que Deus lhe deu. E as recomendações práticas que o Apóstolo faz às esposas, aos maridos, aos filhos hão-de ser hoje o resultado da aprendizagem que todos fazem na escola da família.

O Evangelho, com o episódio da perda e do encontro de Jesus no Templo, sublinha aquela autonomia que a autoridade e o cuidado dos pais hão-de saber promover nos seus filhos. Os filhos nunca são propriedade dos pais. Por isso, em boa verdade, um homem ou uma mulher ou um casal nunca podem dizer que têm direito a ter um filho. O filho nunca é um direito dos pais; é sempre um dom que eles hão-de receber agradecidos e cuidar o melhor possível para que ele cresça, se desenvolva e crie a sua própria autonomia, no cumprimento da vocação que Deus lhe deu.

Hoje, Festa da Sagrada Família, desejamos, nesta nossa celebração, fazer memória de um grande Apóstolo da Família – Mons. Joaquim Alves Brás, quando decorre o cinquentenário da sua morte; ele que é um filho deste concelho da Covilhã, onde nasceu, na freguesia e Paróquia de Casegas.

Atribui-se-lhe a frase seguinte: “A família é a nascente de onde brota a humanidade”.

Limitações de saúde obrigaram-no a passar mais tempo na sua própria família do que seria normal – até aos 18 anos. Mas esse foi tempo que ele aproveitou para aprender os autênticos valores que deram sentido à sua vida, os valores humanos e cristãos, familiares e sociais. Já sacerdote e nomeado Director Espiritual do Seminário Maior da Guarda, apesar das suas limitações físicas que o aconselhavam a resguardar-se o mais possível, o Pe Brás saía diária e constantemente para o hospital da cidade, para o confessionário da catedral e para a pregação, principalmente na Igreja de S. Vicente. E a verdade é que, com a sua esmerada atenção às mais variadas situações e o seu olhar penetrante, foi descobrindo, nas franjas da marginalidade, tantos e tantas que vagueavam pela cidade sem rumo. E ardia no desejo de encontrar caminhos que abrissem novos horizontes de esperança, a quem parecia tê-la perdido para sempre.

Certamente por inspiração do alto, fundou na cidade Guarda em 1931 a Obra de Santa Zita para ajudar jovens raparigas que, vindas de muitas procedências, se dedicavam ao serviço das famílias. Eram então designadas por criadas de servir.

No Pentecostes de 1933 fundou o Instituto Secular das Cooperadoras da Família, inspirado no exemplo da Sagrada Família de Nazaré, para santificação das famílias e dos sacerdotes.

Em 1960 fundou os Centros de Cooperação Familiar, em zonas urbanas e rurais, para ajudar ao cumprimento dos objectivos deste Instituto Secular. Por graça de Deus, temos um desses Centros de Cooperação Familiar em Casegas, sua terra natal. No mesmo ano, fundou o Jornal da Família, com a missão de ajudar as famílias a serem verdadeiramente comunidades de vida e de amor. Dois anos depois fundou o Movimento por um Lar Cristão.

Morreu de acidente em 13 de março de 1966, podendo nós dizer que a sua vida foi encurtada no início por doença prolongada e no final pela surpresa do acidente. Mas, como o que conta na vida não é o número de anos, mas a qualidade do bem praticado, o Pe Brás cumpriu bem a sua missão. A sua profunda fé na Eucaristia e a prática regular da piedade eucarística ligadas à devoção a Nossa Senhora podemos considerá-las pilares de toda a sua obra, que ele próprio definiu com esta frase lapidar: “Mãos no Trabalho coração em Deus”.

Acompanhemos as iniciativas deste ano Jubilar comemorativo do cinquentenário da morte de Mons. Brás, que começou em Lisboa, no dia 18 de outubro passado e terminará com a peregrinação internacional da Família Blasiana a Fátima, em junho próximo. Pelo meio ficam iniciativas como esta, que acontece no ano dedicado à Vida Consagrada, em que o Papa Francisco recomenda que se dêem a conhecer os carismas e as virtudes dos fundadores das diferentes ordens religiosas e outros institutos de vida consagrada, como é o caso deste venerável servo de Deus, Mons. Alves Brás.

De Mons. Brás desejamos colher principalmente o exemplo das suas virtudes heróicas, reconhecidas oficialmente pela Igreja, desde o ano de 2008.

Covilhã, 27.12.2015



+ Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda



©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal