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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA – MESTRADO

Fabio Pereira Costa



O HOMEM DA PENA DE AÇO: Monteiro Lobato e a articulação da raça na educação republicana

FEIRA DE SANTANA – BA

2016

Fabio Pereira Costa



O HOMEM DA PENA DE AÇO: Monteiro Lobato e a articulação da raça na educação republicana

Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Programa de Pós-Graduação em História – Mestrado, da Universidade Estadual de Feira de Santana, como exigência para obtenção do título de Mestre em História.

Orientadora: Profª Drª Elciene Rizzato Azevedo

Feira de Santana - BA

2016

Ficha Catalográfica – Biblioteca Central Julieta Carteado


Costa, Fabio Pereira

C872h O homem da pena de aço: Monteiro Lobato e a articulação da raça na educação republicana / Fabio Pereira Costa. – Feira de Santana, 2016.

228f.:il.


Orientadora: Prof. Drª Elciene Rizzato Azevedo.

Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Feira de Santana, Programa de Pós-Graduação em História, 2016.

1. História Social - Historiografia. 2. Cultura - Historiografia. 3. Monteiro Lobato, 1882-1948 - Educação . 4. Educação – Aspectos sociais. I. Azevedo, Elciene Rizzato, orient. II. Universidade Estadual de Feira de Santana. III. Título.

CDU: 930



Fabio Pereira Costa



O HOMEM DA PENA DE AÇO: o editor Monteiro Lobato e os provocadores intelectuais da educação (1918-1930)

A banca examinadora considera esta dissertação adequada como requisito para o processo de conclusão do Curso de Mestrado em História na Universidade Estadual de Feira de Santana.

Feira de Santana, 30 de agosto de 2016.

_____________________________________________________

Profª. Drª. Elciene Rizzato Azevedo (Orientadora)

[ Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS ]

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Profº Drº Leonardo Affonso de Miranda Pereira (membro)

[ Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio ]

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Profª. Drª. Ione Celeste Jesus de Sousa (membro)

[ Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS ]
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Profª. Drª. Gabriela dos Reis Sampaio (suplente)

[ Universidade Federal da Bahia – UFBA ]

AGRADECIMENTOS

Difícil terminar algo que sempre me pareceu estar começando, um sentimento constante que me causava a pesquisa. Mais que entregar de fato um trabalho o estudioso é obrigado a admitir a necessidade de reflexão sobre todo um processo vivenciado durante a pesquisa. É sem dúvidas o momento de fechamento de um ciclo compartilhado com “pares e ímpares” (com o perdão do trocadilho).

Muitas vezes entre as linhas, capítulos e conclusões do trabalho são enevoadas o investimento de tempo (dias, noites, anos), a problemática revisitada várias vezes, as fontes que insistiam em levar-nos a outros lugares, a preocupação teórica e a espera de que essa de forma perfeita se fundisse em sua proposta de trabalho e vice-versa, os prazos de entrega, relatórios, artigos, disciplinas, puxões de orelhas e afagos da orientadora. O fazer-se de um trabalho historiográfico é sobretudo um desafio, uma responsabilidade, um investimento objetivo e subjetivo, para o meu caso, uma renúncia trabalhosa, mas sem dúvida gratificante e modificadora. Não diferente, se ao final a fadiga bate à porta, para quem acompanha o processo de feitura de uma dissertação a ansiedade e o cansaço são evidentes, a esses que acompanharam meus solitários momentos de estudo devo de algum modo meus agradecimentos.

Por se dispor a pesquisar um letrado paulista essa pesquisa foi desenvolvida parte na Bahia e em São Paulo, em consequência disso, obtive uma experiência incrível proporcionada pelo (re)conhecimento de pessoas e lugares especiais que sempre levarei comigo. Em cada, “ah, olha, é o pesquisador baiano do Lobatão!”, constituíram-se relações de respeito, afeto e ambientes acolhedores. Tais locais me prestaram tempo, fontes e indicações fundamentais para o meu resultado final. Dos acervos e bibliotecas visitados, agradeço a Arlene Garcia do Instituto de Estudos Educacionais Sud Mennucci, pertencente ao Centro de Professorado Paulista da Vila Mariana, que me auxiliou na coleta de fontes da Revista da Sociedade de Educação e, pelos préstimos posteriores em momentos de distância e dúvidas. A Biblioteca e Arquivo Monteiro Lobato sem dúvidas é um dos locais mais especiais pela sua subjetividade, local frequentado pelo próprio Monteiro Lobato, dediquei vários momentos de visitação e conversas calorosas com os amigos curadores do acervo. A maior parte de minhas fontes são provenientes desse arquivo e por isso tenho enormes dívidas com Oiram Antonini e Nelson Somma Junior, sempre solícitos me foram essenciais no rastreio de fontes, nas várias indicações de textos, nas indicações de sebos paulistanos legais, nas buscas na Biblioteca Mário de Andrade, nas insistências pelas idas a Sé para conhecer a centenária Santa Teresa e sua coxinhas (risos) e, não menos importante, com as estimulantes conversas sobre Lobato pelas ruas da Vila Buarque.

Na UNICAMP, agradeço aos funcionários da Biblioteca do IFCH e ao Centro de Documentação Alexandre Eulálio (CEDAE) nas figuras de Cleonice Aparecida Moreira e Cristiano Diniz, meu primeiro arquivo de fato e onde fui prestimosamente acolhido na Unicamp. Dos agradecimentos da USP fica registrada a baita saudade dos lugares e das pessoas que pude conhecer. Agradeço aos funcionários do IEB e da biblioteca da FFLCH. Na faculdade de Educação da USP encontrei um dos seres mais gentis e divertidos, Rose Cruz, nossas buscas no gigante acervo escolar eram tardes de conversas alegres sobre como a vida de pesquisador pode ser divertida e interessante. Recorri à USP algumas vezes, mas na última ganhei um amigo que trocou suas férias de verão por tardes nada tropicais de leituras comigo na biblioteca da FFLCH. Mauricio Tassoni foi meu guia de passeios na FAU, de tardes de café na ECA e no “quebra-galhaço” dos empréstimos de livros nas bibliotecas. Obrigado pelo cuidado, paciência e amizade!

No Rio de Janeiro, sou grato a Joice e Renan do CPDOC-FGV com a ajuda nos documentos dos escolanovistas. Na Bahia, registro aqui meu agradecimento aos funcionários da Biblioteca Central Julieta Carteado (UEFS), as permutas sem dúvida são “a alma do negócio!” (risos). Outra grande figura que foi a informação, o socorro e a atenção em pessoa durante todo o processo foi Julival Cruz, secretário do PPGH-UEFS, sujeito paciente e engraçado, obrigado por tudo! Aos meus amigos historiadores serei eternamente grato pelas ajudas, conselhos, leituras e afeto. Aos da seleção, projeto e caminhos, agradeço a Diego Carvalho, Carolina Costa, Jacson Lopes e Fernanda Dias, esta última ledora de todos meus resumos, psicóloga das horas de ansiedade quanto a fontes, prazos e expectativas de pesquisa e vida. Aos artistas da vida Fabrício e Pablo, agradeço a esses meus amigos o abraço apertado e as conversas amigas que amenizaram o trabalhoso e longo processo. Dos colegas de linha do mestrado fica-me a lembrança da solidariedade e do compartilhamento de momentos especiais como as aulas, os almoços e jantares, as viagens de ANPUH, as discussões de textos que extrapolavam a própria aula e terminavam em um local qualquer pelo campus ou em uma mesa de bar. À Lina, Juliano e Claudia é dada uma parte especial na minha memória acadêmica.

Agradeço aos membros da minha banca de qualificação o Prof. Dr. Leonardo Affonso de Miranda Pereira e a Profª. Drª. Ione Celeste Jesus de Sousa pela leitura criteriosa, generosa e carinhosa. Suas sugestões e indicações foram essenciais à versão final do texto e à medida que pude incorporei-as. A Profª. Drª. Elciene Rizzato Azevedo, minha orientadora, agradeço as várias leituras das versões desse trabalho, ao seu comprometimento com meu projeto e o cuidado na orientação. Acompanhando-me desde a graduação, sempre se revelou paciente, ouvinte de primeira e muito flexível. A cada dia suas atitudes só confirmavam o apreço e admiração que lhe tenho como profissional, muito obrigado por tudo! Igualmente agradeço a FAPESB que financiou a pesquisa desde o início. Sem a concessão da bolsa o trabalho acadêmico não poderia ter sido realizado de modo tão satisfatório. Outra instituição, mas essa nunca falha, não tem burocracias e não atrasa, é a família. Sempre leal aos anseios e dispêndios foi verdadeiramente meu esteio na empreitada mestrado.

A Mia, que já não é só amiga, mas também família, é um dos agradecimentos mais difíceis e importantes porque se esse trabalho existe é graças ao seu incentivo e por ter segurado as barras da vida. Durante todo o período desse estudo contei com sua companhia, paciência e cuidado. Tal desvelo se materializava na comida quente, na conversa amiga, na leitura de originais, na paciência em me ouvir falar de assuntos muitas vezes não tão interessantes a uma economista, no cuidado e aturo em momentos difíceis, em todos eles sempre estive contando com seu suporte para que eu pudesse me dedicar exclusivamente às minhas tarefas acadêmicas. Um trabalho acadêmico, por suas demandas, pode muitas vezes com sua força deixar muitas pessoas pelo caminho, mas uma amizade verdadeira como a nossa será sempre mais forte que as tempestades da vida. Obrigado pelo companheirismo e por acreditar em meus sonhos!

A minha mãe Sandira e meu padrastro Uelison agradeço pelo apoio financeiro, afetivo e a confiança depositada na minha capacidade de estudo, muito obrigado! Agradeço aos meus tios Reginaldo Carlos e Ana pelo acolhimento durante o último ano de mestrado. Sem dúvida sem a ajuda de vocês durante esse 1 ano de muita paciência, doação e carinho, as coisas seriam bem difíceis. Obrigado por tudo! Não posso esquecer a turma do “acaba quando esse mestrado? Já entregou tudo? Ainda está corrigindo isso? E você vai fazer o que agora?” que mesmo sem entender minhas escolhas e silêncios sempre acreditaram em mim, os meus irmãos Milka e Gustavo, as tias historiadoras Salete e Kedma, os primos Camila, Ricardo e Carla e, o meu pai que por diversas vezes me recebeu nas temporadas em São Paulo. Por fim, agradeço a Deus pela luz, pela dádiva e sustento.

Existe uma citação de Walter Benjamin que diz: “Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram?”. Se como é proposto apenas algumas dessas pessoas às quais eu aqui agradeci puderem reconhecer e se reconhecer de algum modo na escrita da história, ou seja, se perceber e questionar a história das muitas histórias a partir desta leitura, todo esforço empreendido até aqui terá valido a pena. Afinal, que sentido faria ter tanta história para contar e recontar sem bons e curiosos ouvidos?



Bahia, inverno de 2016.

“Não há bussola para o escritor que não se vende nem se aluga”.

Monteiro Lobato

RESUMO

Nos últimos decênios do século XIX e início do século XX uma gama de intelectuais acreditavam que saberes técnicos como a medicina, a engenharia e a educação apontavam saídas para os problemas raciais do Brasil. Um nome relevante nesse cenário é o do letrado José (Bento) Monteiro Lobato (1882-1948) que durante as primeiras décadas do século XX articulou intelectuais interessados em viabilizar os temas da infância e da educação, permeados pelo debate racial, na Revista do Brasil (1918-1925), na Revista da Sociedade de Educação (1923-1924) e, de maneira peculiar, em sua própria literatura. Então, com o sentido de conceder esclarecimentos a essa faceta da trajetória de Monteiro Lobato pontua-se a problemática histórica: qual o papel do escritor e editor Monteiro Lobato no processo de viabilização dos textos e intelectuais que propalaram um projeto de educação republicana que estava assentada na discussão racial? O intuito deste trabalho foi, por meio da tônica da História Social da Cultura, discutir no contexto do processo histórico republicano brasileiro as interlocuções sociais, a discussão sobre a cultura e o povo, tomando a experiência dos letrados e das identidades sociais construídas e performadas. O estudo revelou uma participação preponderante de Lobato na organização dos articulistas da educação nos periódicos em que esteve sob seu comando e na maneira em que tal discussão esteve presente em sua literatura.


Palavras-Chave: Monteiro Lobato. Cultura. Raça. Educação. Sociedade.

ABSTRACT

In the last decades of the nineteenth century and in the beginning of the twentieth century, a range of intellectuals believed that technical knowledge such as medicine, engineering and education pointed outputs for the racial problems in Brazil. A relevant name in this scenario is the scholar José (Bento) Monteiro Lobato (1882-1948) who during the first decades of the twentieth century joined intellectuals interested in enabling the issues from childhood and education, permeated by racial debates, on Revista do Brasil (1918-1925), on Revista da Sociedade de Educação (1923-1924) and, in a peculiar way, in his own literature. Then, in order to clarify this facet of Lobato’s trajectory, it is pointed out the historical issue: what is the role of the writer and editor Monteiro Lobato towards the process of providing texts and intellectuals who disseminated a republican educational project, which was based on the racial discussions? The aim of this paper was, through Culture of Social History, to reassemble on the context of the Brazilian republican historical process the social interlocutions, the debate about culture and people, using the experiences from the scholars and the social identities built and performed. The study revealed a preponderant participation of Lobato on the educational writers’ organization on the periodicals, which were under his command, and in the way such discussion was present in his literature.


Keywords: Monteiro Lobato. Culture. Race. Education. Society.

LISTA DE FOTOGRAFIAS

Fotografia 1 - Colégio Paulista de Taubaté, Monteiro ............................................................ 31

Fotografia 2 - Os companheiros de Minarete .......................................................................... 42

Fotografia 3 - Monteiro Lobato visita escola em Buenos Aires ........................................... 213

Fotografia 4 – Monteiro Lobato e as autoridades escolares .................................................. 213

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

LNSP Liga Nacionalista de São Paulo

RB Revista do Brasil

RSE Revista da Sociedade de Educação

EERB Empresa Editora Revista do Brasil

OESP Jornal O Estado de São Paulo



SUMÁRIO

INTRODUÇÃO …................................................................................................................. 13

Capítulo 1: Espingarda sim, mas... e a pólvora? O letrado, o ensino e o edifício da nação .................................................................................................................................................. 26

1.1: Dos garatujos às surpresas da juventude ............................................................................ 29

1.2: Dissolvente como o sabão ................................................................................................. 41

1.3: Do anátema a requalificação do caboclo ........................................................................... 57

1.4: Quem nasce pra dez réis não chega a vintém: a pucela educação republicana ................. 67

1.5: Forte como um carvalho robusto e frondoso ..................................................................... 70

1.6: O cata-vento da educação: o soprar dos intelectuais reformistas ...................................... 75

Capítulo 2: Os periódicos da nação - Monteiro Lobato e os articulistas da educação .................................................................................................................................................. 87

2.1: A cultura cívica: dois periódicos e a subscrição lobatiana ................................................ 88

2.2: A Revista do Brasil e os defeitos raciais e do ensino popular ........................................... 96

2.3: Lobato à frente dos articulistas da educação científica pela regeneração nacional .......... 111

2.4: A medicalização da infância pela escola: a higiene primária ........................................... 122

2.5: O dispositivo corporal e o florescimento dos bem-nascidos ............................................ 129

2.6: Bibliografo da educação: algumas notas didáticas .......................................................... 138

2.7: A boa casa de livros: da Empresa Editora Revista do Brasil a Monteiro Lobato & Cia ................................................................................................................................................ 143



Capítulo 3: De articulador a pedagogo - a ciência de Lobato e os caminhos da escola ativa ................................................................................................................................................ 149

3.1: Miss Jane ou Lobato? As chaves para as lições de eugenia ............................................. 150

3.2: As explicativas de Mr. Slang e seu Brasil pitoresco ........................................................ 171

3.3: Uma educação de Lindbergh: Lobato e a “legitimação” da escolarização ativa .............. 176

3.4: Lobato e a causa dos manifestantes ................................................................................. 183

3.5: A doméstica Biblioteca Pedagógica e seus novos e modernos ares internacionais ......... 188

3.6: Das lutas e dos dias de glória: o perpétuo educador brasileiro ......................................... 209

CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 216

REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 218

INTRODUÇÃO

Dona Benta a enxugar os olhos chorosos e o Visconde de Sabugosa refletindo o que deveria fazer um filósofo diante da morte. Pedrinho e Narizinho a soluçar pelos cantos. Tia Nastácia, ao mesmo tempo que usava a ponta do avental para secar suas lágrimas, tentava acalentar a Emília que se encontrava em estado de aflição. Estava o Sítio do Picapau Amarelo de luto com a partida de Monteiro Lobato em julho de 1948. Fictício cenário de consternação é criação do acadêmico Francisco Pati, representante da Academia Paulista de Letras, em ocasião da cerimônia fúnebre do escritor Monteiro Lobato, que teve seu ataúde conduzido a pé da Biblioteca Municipal até o Cemitério da Consolação por uma multidão de pessoas.1

Completando o retrato choroso do Sítio, o acadêmico fez um discurso definindo grandiosamente o autor ao mesmo tempo em que ressaltava sua importância para a infância brasileira:
O “Sítio” de dona Benta não é só um pedaço de terra; é, principalmente, um pedaço de vida. Dentro dele está a nossa infância. Ele é a nossa infância. Tiveste a felicidade criar, com a imaginação um grande pequeno mundo, - o mundo da curiosidade infantil.2
Francisco Pati também caracterizara Lobato como um homem de coragem cívica e de observações políticas que, para ele, eram “epitáfios de bronze”. Atribuiu ao falecido escritor o poder reivindicador das tradições brasileiras, da geografia e da história e do “direito de encher a imaginação das crianças no momento em que elas se libertavam dos instintos já que ainda não tinham recebido a visita da inteligência”.3 O mais interessante é que por mais que a fala possa soar como um dos muitos falatórios fúnebres, esse mesmo posicionamento é assumido pelo escritor Afonso Schmidt, jornalista e escritor que veiculava e comentava o discurso da morte de Lobato na Revista da Academia Paulista de Letras, portanto, uma dedicatória e elegia oficial a fim de imprimir memória aos feitos do criador do Jeca Tatu.4

Aquilo que Afonso Schmidt destacava do legado de Lobato era justamente a relevância da lealdade cívica do autor, que teria se valido de seu expediente literário para atuar em favor das crianças do Brasil. Schmidt, naquela ocasião em 1948, inclusive fez questão de mencionar a relação entre infância e educação na herança literária lobatiana.


A última geração, essa que anda pela rua 15 de Novembro, com a pasta debaixo do braço, intimando de prática e eficiência, foi educada por Dona Benta, brincou com “Narizinho Arrebitado”, nas maravilhosas ilustrações do Voltolino. Pode-se dizer, sem exagero, que Monteiro Lobato, a par de seus contos e romances, criou a nossa literatura infantil. A nossa não. A literatura infantil da América Latina.
Assim, somadas as falas de Pati e Schmidt vemos um Lobato que adentrou o “mundo da curiosidade infantil”, “reivindicador das tradições brasileiras, da geografia e a história” e “do direito de encher a imaginação das crianças no momento em que elas se libertavam dos instintos já que ainda não tinham recebido a visita da inteligência”, mais que isso, os escritos de Lobato eram tomados literalmente como sinônimo da “nossa infância”.

Mas quem de fato fora Monteiro Lobato e porque essa preocupação com a infância que o fez enveredar, como veremos, pelos áridos debates e teorias sobre a educação no Brasil? Ao estudar sua trajetória percebemos que suas intenções iam um pouco mais além que a produção de livros para o divertimento e deleite da imaginação infantil. Como veremos nas páginas a seguir, o paulista José (Bento) Monteiro Lobato (1882-1948) foi um importante letrado5 que procurou pensar a identidade nacional, viabilizando projetos políticos e sociais por meio da articulação de intelectuais e textos interessados em fomentar no país modelos sociais de civilidade. A interlocução com os intelectuais comprometidos com a educação aconteceu em momentos de afinação em relação aos princípios da ciência e do progresso que tomavam modelos estrangeiros como ponto de partida das análises sobre os problemas que acreditavam acometer e impedir o progresso da nação brasileira, como o atraso cultural e a mestiçagem de seu povo. Em face dessa situação, Monteiro Lobato a frente de periódicos de relevância como a Revista do Brasil e a Revista da Sociedade de Educação, durante a Primeira República cuidou em organizar o debate e intelectuais interessados em dispor o problema da composição racial e o progresso e desenvolvimento cultural e social do Brasil, apresentando a instrução como uma possível solução. Assim, foi próxima a relação de Lobato com figuras do debate educacional como Antônio Sampaio Dória, Oscar Thompson, Carlos da Silveira, João Kopke, Afonso Arinos, Mário Pinto Serva e outros, que acreditavam na importação de padrões de civilidade estrangeiros e no potencial da educação como um método de intervenção social em prol de tais modelos importados e adaptados a la brasileira.

Ainda na ação articuladora engendrada por Lobato, que nos interessa muito, vemos que essa foi uma atividade muito importante que o próprio autor procurou em cartas pessoais legitimar. O posto de seletor e articulador era algo que o escritor demandou energias e intentou assenhorear-se. Em carta redigida pelo letrado de 1904, remetida ao seu colega de república universitária, Lino Moreira, o autor demonstra ainda em vésperas de sua formatura em Direito, uma defesa em causa própria tentando demonstrar como ele era diferente dos colegas que estavam se bacharelando. Lobato afirmava que, enquanto os outros formandos valorizavam a retórica e, quando se propunham a serem diferentes, se entremeavam no mundo filosófico não se fazendo entender por seus interlocutores, ele estava em mundo oposto. Para o escritor existiam dois tipos de homem, um que podia ser caracterizado como um “corcel fogoso da Insatisfação”, a exemplo de seus colegas de formatura, que fazia uso de caracteres “turbilhonantemente caóticos, sacudidos de espasmos” da linguagem filosófica, e o outro, que mais se assemelhava a ele, um cavalo domado que fazia uso de “letras mansazinhas, calmas, em rebanho disciplinado, obediente às ordens da pauta”.6
O filosofo é o falador sem talento; o orador é o talento falador; um só tem aridez; o outro um pedante; num, o fogo de vista; noutro, um Saara com pretensões a Canaã. O meu homem, Lino, nem é um, nem outro; é, como já te disse, o que não fala, o mudo, o que inventa papel e a pena de aço e o gás e a tinta roxa, e o correio; é a esses, e não aos que amontoam words.7
Dessa forma, por meio da carta, além de se auto conferir um talento pleiteava o reconhecimento deste. Entende-se pela leitura da carta que para ele pouco adiantava deter talentos se não se fizesse entendível ao público ou se não possuísse o traquejo político da divulgação. Os meios, a divulgação, a distribuição, eram o verdadeiro caminho para a aclamação. Então, diz o escritor, que assim como o papel que servia para a escrita, como o gás que iluminava, a tinta que servia de material, o correio que fazia a logística dos escritos e a pena de aço, que é usada em ocasiões especiais para advertir, enunciar e outorgar, se imprima o articulador Lobato. Implicitamente, mas de modo consciente, essa ideia de vanguarda é um eco presente através do discurso da criação, promoção e inventividade, colocada nas falas de Afonso Schmidt e Francisco Pati, inclusive algo a ser ponderado a medida que o próprio autor se posiciona diante do ofício em suas cartas, que se constituem verdadeira memória da sua trajetória intelectual.

Igualmente, duvidar de qualquer senda da trajetória de Monteiro Lobato leva-nos a uma grande seara de estudos que abordaram o autor em seus mais diversos aspectos. Uma parcela significativa de trabalhos que consideram Lobato como objeto de estudo ou sua literatura é proveniente do campo das Letras e da História Literária. Essas pesquisas recortam Lobato como objeto e utilizam as mais variadas técnicas de análise do discurso e o domínio da História da Literatura, preocupando-se em evidenciar os sentidos das obras do autor ressaltadas na crítica literária e na História do Livro e da Leitura no Brasil.

O Instituo de Estudos da Linguagem – IEL (Unicamp) é responsável por viabilizar grande parte dessa produção acadêmica que privilegia a História da literatura e do livro no Brasil. Tais trabalhos são positivos para pensar a leitura no Brasil, sobretudo a obra infantil de Monteiro Lobato, dando conta da idealização, produção e circulação dos exemplares literários e didáticos infantis produzidos pelo autor. Tais pesquisas são encabeçadas por Marisa Lajolo, que vem fomentando debates na área da teoria e crítica literária possibilitando o alargamento das pesquisas em torno de todo o arcabouço literário de Monteiro Lobato.8 Ainda, articulada ao Programa de Pós-Graduação em Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem – IEL (Unicamp), linha de Literatura Comparada, Lajolo orientou dissertações e teses de doutoramento no grupo de estudos “Monteiro Lobato [1882-1948] e outros modernismos brasileiros”. Dentre estes se destacam os trabalhos realizados por Tâmara Maria Costa e Silva Nogueira de Abreu,9 Carla Cilza Bignotto10 e Emerson Tin.11 A linha de pesquisa do programa de pós-graduação do IEL ainda viabilizou a construção de outros dois importantes trabalhos. Elenca-se a tese “São Paulo - Buenos Aires: a trajetória de Monteiro Lobato na Argentina”, de Thaís de Mattos Albieri,12 também orientada por Marisa Lajolo, e a tese “Entre livros e leituras: um estudo de cartas de leitores” de Raquel Afonso da Silva.13 O grupo de estudos do IEL (Unicamp), associado à outras inciativas de análises acadêmicas sobre Lobato, feitas por estudiosos coordenados por João Luís Ceccantini,14 professor da Universidade Júlio de Mesquita Filho – UNESP (Assis), resultou em duas coletâneas de artigos chamadas “Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil” e outra de título quase que homônimo só que voltada à produção adulta do autor,15 ambas tratam sobre as formas de apropriação, renovação da linguagem, materialidade do texto e dialética entre realidade e ficção nas obras de Monteiro Lobato. Os capítulos trazem breves discussões sobre linguagens, imagens, ilustrações e práticas editorias de Monteiro Lobato, apresentando o percurso de cada obra infantil editada, desde seu projeto inicial às suas edições finais. Segundo os organizadores (Lajolo e Ceccantini) os estudos visam contribuir, mais uma vez, com a História da Leitura no Brasil de Monteiro Lobato. As análises se pautam nas fontes depositadas no Centro de Documentação Alexandre Eulálio – CEDAE (Unicamp), na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato (SP) e no Instituto de Estudos Brasileiros – IEB (USP).

Fora do circuito Unicamp – Unesp há três expressivos trabalhos. O primeiro deles se baseia na análise da semiótica das obras infantis de Lobato, de autoria de Lutiane Marques Silva,16 em que o letrólogo explora a relação entre o pensamento de Lobato e a influência dialógica de suas obras com o público infantil. Igualmente, a pedagoga Luciana Nunes no artigo “A literatura infantil de Monteiro Lobato e o ideário escolanovista”,17 realiza uma análise dos personagens na obra de Monteiro Lobato, baseada no livro “Educação Progressiva” (1934) de Anísio Teixeira e da correspondência trocada entre esses autores. A autora mostra as interfaces entre a literatura infantil lobatiana e a expressão filosófica da educação do movimento escolanovista. Ainda no campo da linguagem encontramos o trabalho “Monteiro Lobato: o leitor”,18 da autora Camila Spanoli, que traça um panorama das possíveis leituras feitas por Lobato por meio das referências nas epístolas contidas no livro “A Barca de Gleyre” (1943). Com seu estudo, a filósofa evidencia os autores que Lobato se interessou, de que forma ele discutia a literatura com Godofredo Rangel, quais eram as suas referências literárias (presentes nas suas cartas), e quais os diálogos entre leitura e a escrita do autor.

No âmbito das produções historiográficas que investigam Monteiro Lobato, sua trajetória e contexto social, elencam-se nomes como Vanessa Xavier, André Luís Viera de Campos, Paula Habib e Márcia Regina Capelari Naxara. Em “Os brasis de Monteiro Lobato: de Jeca Tatu ao desencantamento”,19 Vanessa Xavier explora como a questão do progresso foi assumindo diferentes formas a partir de três fases do personagem Jeca Tatu, discutindo a questão sanitária, racial, de identidade nacional até ao descontentamento do literato com o progresso e a modernidade. Xavier utiliza como fonte os artigos da Revista do Brasil e obras literárias do autor. Já o livro do historiador André Luís Vieira de Campos, “A República do Picapau Amarelo: uma leitura de Monteiro Lobato”,20 procura recuperar o pensamento político do autor, com base na sua crítica ao atraso do país e nas suas propostas para alavancar o progresso da sociedade. A releitura da obra de Lobato feita pelo autor evidencia um projeto lobatiano de natureza hegemônica burguesa e que não se concretizou, sendo vencido por um corporativismo autoritário que o Estado Novo concebeu e implantou.

Mais dois trabalhos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp devem ser lembrados, o primeiro é a dissertação de Paula Habib ““Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”: raça, eugenia e nação”,21 que discute a vida e obra de Monteiro Lobato percebendo os diálogos do autor com as teorias raciais e a Eugenia. Segundo Habib, o autor participou e divulgou um projeto de intervenção social, que para ela, em um sentido amplo, vinculava-se à regeneração nacional. Habib coloca a raça e a Eugenia como cerne da questão e a partir disso traça a atuação de Lobato frente às campanhas higienistas e sanitárias, ao fazer isso, desdobra a relação do literato com os cientistas, médicos, ligas e instituições científicas da época. Em “Estrangeiro em sua própria terra: representações do brasileiro – 1870/1920”,22 Márcia Naxara evidencia as representações que se formularam a respeito da população brasileira entre o final do século XIX e o início do século XX, estas realizadas a partir de necessidades imediatas de construções culturais. Naquele período uma elite proprietária frente aos seus interesses econômicos fomentou o surgimento de uma sensibilidade para pensar a sociedade e a cultura brasileira em sintonia como a ciência e o progresso. Para os elitizados o país era despossuído de povo, sem uma identidade definida. Com essa premissa a autora passa pelos principais nomes intelectuais brasileiros que se propuseram a pensar esse “povo”, averiguando o discurso de representação de Silvio Romero, Euclides da Cunha e os regionalistas como, Cornélio Pires, Valdomiro Silveira e Monteiro Lobato.

Longe de desautorizar tais trabalhos citados, mas sim, com o intuito de dialogar com os mesmos, para aprofundar aspectos concernentes a vida do autor em questão, percebe-se uma lacuna importante no que se refere a análise historiográfica ante ao tema da educação que está entremeada na vida intelectual de Monteiro Lobato. Os trabalhos desenvolvidos pelo IEL, por exemplo, possuem uma contribuição inequívoca no que se refere a análise e crítica do escopo literário do autor, entretanto, algumas análises deixam truncados sujeitos e igualam os processos históricos, no sentido de que tais trabalhos acabam por não trazer Lobato e sua obra dentro de uma ampla rede de interlocução social, se preocupando apenas em focar nos livros. Mesmo os trabalhos que utilizam Robert Darnton como uma baliza teórica para pensar as questões da emissão das ideias acabam por derrapar no processo de reconstituição das interlocuções sociais que são perpassadas pela ideia de movimento e tensão. Aos estudos historiográficos a dívida que permanece é justamente no aspecto educacional que foi deixado de lado, inclusive no processo estruturado de divulgação das questões raciais por vias da educação. Comumente, em tais investigações da história, muito se argumenta sobre nação, raça, Eugenia e identidade nacional, ou cai-se na exaustão das análises da literatura lobatiana, dos recursos de construções de personagens, de ideários presentes nas obras, ou se fala de educação escolanovista como influência para Lobato, porém, os estudos ficam na superfície da discussão quando a questão é a ampla rede de interlocução estabelecida por Lobato com intelectuais que, durante toda a Primeira República estavam, como ele, participando ativamente dos debates sobre a importância da educação e da infância e formulando projetos a partir dessa constatação capazes de intervir na construção da nação republicana.

Ou seja, se trata de expor o literato no seu contexto, revelando que ele fez parte de um tecido social que pensava a cultura e a sociedade de sua época e que ao mesmo tempo atuava na formação de uma opinião pública e na elaboração de políticas de instrução. Além disso, é preciso situar a ação de Lobato e intelectuais da educação no seu devido tempo, pois, diferente do que muitos trabalhos pontuam, a discussão a respeito de como se deveria forjar os instrumentos de instrução do povo na nova república já era realizada desde o final do século XIX e muito debatida nas duas primeiras décadas do século XX, em oposição ao rótulo de que a Escola Nova foi a grande propagadora do debate sobre o assunto entre os intelectuais.

Outro ponto de crítica que se coloca aos trabalhos históricos citados é que estes levam em consideração a formulação de projetos nacionais, mas é ausente a ação do fazer-se desses projetos na dimensão justamente dos debates da educação. É como se os conceitos, Eugenia, raça, ou nação, pairassem sobre todas as coisas e não estivessem de fato pautando as ações desses intelectuais nesse processo. Explana-se as propostas e soluções para o progresso do país a partir da crítica nacional elaborada pelos intelectuais, o que é algo importantíssimo, mas acabam não mostrando com acontece de fato a organização destes intelectuais e a difusão das ideias em torno da questão da educação formal como instrumento de intervenção social. Concorda-se com os historiadores que os paradigmas científicos permearam o despertar, a discussão e o refletir sobre as identidades construtivas da então nascente República brasileira. Todavia, por mais que a ciência ditasse novos padrões e modelos sociais tais postulados intelectuais e institucionais só atingiam a população por meio da intermediação educativa. Novamente nos perguntamos como isso ocorria? Durante o levantamento bibliográfico elaborado, preocupação parcialmente semelhante apenas foi constatada na tese da letróloga Tâmara Abreu, que ao abordar os consensos e discordâncias dos intelectuais que pensavam a educação e que estavam em torno da Revista do Brasil, no período em que ela estava sob a direção de Monteiro Lobato, afirma:
Naturalmente esses homens não tinham a mesma compreensão acerca das questões educacionais, nem os mesmos objetivos quando travavam suas disputas pelas tomadas de decisão sobre os rumos da educação brasileira. Embora o assunto mereça atenção e seja abordado em nosso estudo, as divergências e embates no campo educacional são um capítulo extenso desta história e constituem objeto de tese de outros pesquisadores.23
Posterior a essa passagem em nenhum outro trecho do trabalho de Abreu ela diz quais são esses trabalhos, nem os indica em sua bibliografia comentada e nem se detêm em uma análise acurada desses embates. Percebam que um pontuamento sobre a questão foi levantado. Mas o que dizem os historiadores e a historiografia?

Visando se debruçar sobre como Monteiro Lobato interveio no debate a respeito dos caminhos que a educação deveria seguir no Brasil republicano, questão marginalizada pela historiografia, pontuamos algumas questões ao longo da investigação: o que pensava Lobato sobre educação e como se envolveu nesse debate? Nesse sentido, o trabalho se esforça em responder como as teorias científicas em torno do “problema da raça”, vigentes à época, foram compartilhadas por Lobato e outros intelectuais de seu círculo livresco, incorporadas e acionadas no projeto de educação que defendiam. Adverte-se que o intuito deste trabalho é pensar a cultura e o povo brasileiro sob os interstícios da raça e dos projetos e políticas de educação. A pesquisa propõe, por meio da tônica da História Social da Cultura, remontar no contexto do processo histórico republicano brasileiro as interlocuções sociais, a discussão sobre a cultura e povo brasileiro, por meio da experiência e trajetória dos intelectuais e das identidades construídas e performadas.

Partindo da percepção do envolvimento de Lobato com os principais articulistas da educação do início do século XX, pretendeu-se aprofundar o diálogo em torno da articulação dos ideais raciais viabilizados na educação a partir do próprio escritor. Igualmente, a partir de Micael Herschmann, sabemos que na transição do século XIX para o século XX um projeto/ paradigma moderno se configurou e veio a se definir nos anos 1920 e 1930. Nesse contexto, tal modernidade foi entendida como um conjunto de procedimentos, hábitos institucionalizados de questões problemas - não necessariamente conscientes pelos indivíduos – capazes de orientar e mobilizar uma época ou uma geração. A abolição da escravidão e a proclamação da República possibilitaram novas articulações para locais e discursos que buscaram em um conjunto de ideias respostas às demandas de uma sociedade urbano-industrial que se delineara naquele período.24

O novo conjunto de ideias propôs um discurso modernizante que desprendesse o país de um passado rural-colonial, a ordem era “civilizar”, ficando em paralelo com moldes sociais europeus no tocante a seu cotidiano, instituições, economia e ideias liberais. E o que seria civilizar? Civilização ou civilidade é notoriamente associado a uma ampla multiplicidade de fatos que podem abarcar desde nível técnico ao hábito corriqueiro, sendo difícil, portanto, tentar classificar de forma cartesiana tal conceito. Para Norbert Elias, civilização pode se referir


(...) ao nível da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às ideias religiosas e aos costumes. Pode se referir ao tipo de habitações ou à maneira como homens e mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo judiciário ou ao modo como são preparados os alimentos. Rigorosamente falando, nada há que não possa ser feito de forma “civilizada” ou “incivilizada”.25
Entendendo essa civilidade é comum vê-la, como foi citado inicialmente, imbuída em um quadro de reordenamento social. Logicamente, seria tolice afirmar que não houve uma pretensão ao se fundar a República de se construir um país moderno em amplos sentidos. Contudo, como apreende Rinaldo Leite, as propensões do civilizar entre os últimos decênios do século XIX e início do século XX em locais como São Paulo e Rio de Janeiro era algo mais pontuado nas aspirações das elites do que propriamente uma ideia de modernizar enquanto um espírito integrador.26 Ou seja, havia uma pretensa defesa de um ideário civilizador, ao invés de uma ação propriamente e maciçamente modernizante, muito mais pontual no transcorrer dos anos 1920 e oficialmente na década de 1930. Mesmo com a intenção do Estado e dos grupos dominantes (industrial e agroexportador) em viabilizar uma doutrina orientadora de progresso para o país, esta provinha da necessidade de entrar em sintonia com o “mundo civilizado”.27 Assim, entre o quadro desenhado pela instauração do regime republicano entre bacharéis/ magistrados, os militares, a Igreja (preocupados com o progresso) e os literatos, que buscaram na ciência a garantia de uma gestão eficiente, a questão da “identidade nacional para as elites era a imitação da cultura europeia nas terras pátrias”.28

Nesse contexto, por meio de saberes técnicos como a medicina, a engenharia e a educação, estes grupos profissionais formularam visões e modelos explicativos para o país, apontando soluções para a viabilização de um projeto nacional. Então, inúmeros intelectuais, pensando nas ações para erguerem um novo Brasil, lançaram mão do uso de saberes técnicos como a engenharia, a medicina e a educação como mecanismos que possibilitariam alavancar o progresso.29 Assim, a discussão da educação popular se estrutura na Primeira República repensando o próprio local da educação, que se reveste dos estudos científicos, a fim de elevar seu grau de importância. De acordo com Marcos Freitas, a união entre a ciência e a educação acabou por amparar a legitimação da pedagogia científica que, por sua vez, apresentou uma direção a ser tomada pela sociedade. Seria necessário fazer da ciência e da sua instrumentação mecanismos para uma nova realidade prenhe de modernização urbana, produtora de civilidade e carregada de disciplina e aspectos sadios. Regeneração era a palavra e essa credenciava intelectuais, médicos e psiquiatras que se envolviam com a educação a transformar a realidade social.30 É dessa maneira, no envolvimento com tais propositores de uma educação perpassada pela ciência, que se estabelece a aproximação de Lobato com a questão educacional.

Tal pedagogia científica revestiu-se da condição de instrumento a fim de verificar os “danos da mestiçagem” e pela saúde pública, leia-se o higienismo, buscou converter um país arcaico e doente num país moderno e saudável. A atenção à criança, foi uma das considerações dessas análises que se tornaram uma constante desde a chegada da República, perdurando até a era Vargas. Como expõe Freitas, Oscar Clark em 1937, na obra “O século da criança” definiu o significado da propagação da ideia de escola ativa: “escola ativa é escola baseada na fisiologia”. Dessa forma, as Escolas Normais e seus laboratórios de psicometria colaboraram na construção da ponte entre as primeiras iniciativas em prol da educação republicana, nas quais a psicologia do comportamento encontrou seu espaço no ciclo de reformas da década de 1920 e depois nas chamadas “escolanovistas”.31 Portanto, pensar essas intervenções acaba por revelar os posicionamentos desses sujeitos propositores e, na interlocução com eles, encontramos Lobato a viabilizar essa nova concepção de educação e, portanto, compartilhar um projeto de regeneração social.

A partir dessas questões, a dissertação se estrutura em 3 capítulos. O objetivo do “Capítulo 1: Espingarda sim, mas... E a pólvora? O letrado, o ensino e o edifício da nação” é apresentar por meio da cultura e da experiência o contexto social no qual Monteiro Lobato se moldou. Rastrear o intenso envolvimento de Lobato com os intelectuais da educação. Evidenciar seus diálogos e partilhas de uma noção de país e cultura que não era apenas do escritor, mas uma leitura de parte do segmento intelectual republicano dos primeiros anos do século XX. Pretendemos colocá-lo em seu tempo, entendendo sua sociedade com todas suas características, principalmente as mais paternalistas, desnudando as relações de Lobato com os grupos ligados a discussão da educação e suas reformas.

No “Capítulo 2: Os periódicos da nação - Monteiro Lobato e os articulistas da educação” é proposto perceber como o letrado conduziu, a partir da lógica da intersecção entre as teorias científicas sobre a raça e os projetos de educação, a questão educacional proposta pelos interlocutores da Revista do Brasil e da Revista da Sociedade de Educação. Nesse capítulo será apresentado como os periódicos se inscreveram no movimento de ideias da renovação da escola no século XX, à proporção em que eles traziam escritos que circulavam na comunidade pedagógica e leiga para discutir tais questões. Lobato, em 1918, ao assumir a direção da Revista do Brasil e se tornar proprietário do impresso possibilitou a continuidade e a edição de todas as figuras que pensavam a educação cívica. Sua ação frente a viabilização de tais ideias e intelectuais não se restringiu apenas a Revista do Brasil, em 1923 também atuou como editor da Revista da Sociedade de Educação, periódico paulista que visou pensar a estruturação da educação no estado de São Paulo e que acabou por desembocar posteriormente nas origens da organização do movimento da Escola Nova no Brasil durante a década de 1920, 1930 e 1940.

No “Capítulo 3: De articulador a pedagogo - a ciência de Lobato e os caminhos da escola ativa” objetiva-se entender como a natureza científica e eugênica presente nas obras literárias de Lobato dialogaram com o projeto reformador educacional científico com vistas ao progresso social. Assim, a partir dos indícios que apresentam as obras infantis e adultas do autor, construídas no mesmo período de circulação das ideias educativas renovadoras, procuraremos questionar a associação dessa literatura com noções raciais e educativas.

Portanto, esta dissertação conta a história Monteiro Lobato e sua relação com um grupo de intelectuais reformistas da educação brasileira. Visamos reconstruir a trajetória de Monteiro Lobato e sua articulação com os intelectuais da educação para entender as estratégias de seleção e instituição da cultura na República brasileira. Não tratamos das instituições, mas sim, dos sujeitos, pois entendemos que são esses que lançam mão de estratégias e articulam ações que dão sentido e legitimam as intervenções sociais. O que se espera é expor a importância de Lobato para a viabilização de um projeto de educação permeado pela questão racial presente em um projeto de ordem nacionalista.

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