Fazendo arte na moda e a moda como arte



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Figura 4 - Desenhos feitos por Leonardo da Vinci

Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/568/leonardo-da-vinci-o-desbravador-do-corpo-humano

O corpo passa a ser um objeto de arte. O sociólogo francês Jeudy (2002, pag.111), sobre o corpo como arte, analisa: “o corpo é tomado, a priori, por um ‘objeto de arte vivo’”. O autor destaca que a exibição estética do corpo — maneiras de se vestir, de se maquiar, de se olhar no espelho e de ver os demais — rompe com a demarcação entre a arte e a vida quotidiana; citando como exemplo um punk, que, presente numa exposição de arte contemporânea ou em uma performance de body art, poderia ser considerado um objeto de arte vivo.

Assim, podemos concluir que a roupa quando vestida em um corpo humano, não é uma obra morta ou uma peça de museu, mas uma arte que expressa a vida, atendendo ao desejo do estilista/artista.

A peça de roupa criada a cada dia será recriada pelo seu usuário, mudando a base original, passando a ser recomposta e complementada por acessórios. A maneira de andar vai criar novas formas, volumes e a comunicação com o mundo. No museu a peça de roupa fica estática, isto é, sem movimento, sobre o manequim.



3 – OBRAS DE ARTE OBJETOS DE MODA: FAZENDO ARTE NA MODA

SVENDSEN (2010) afirma que a separação entre as artes e os ofícios ocorrida no século XVIII inseriu a costura decididamente na categoria de arte. As roupas foram situadas num campo extra-artístico em que, na maioria dos casos, permaneceram marcando uma década ou um período da história. Desde que a confecção de roupas na alta costura foi introduzida, por volta de 1860, a moda almejou a ser reconhecida como uma arte de pleno direito.

Sobre a arte na moda o autor confirma que:

Esse foi claramente o caso de Charles Frederick Worth e Paul Poiret. A carreira de Worth promoveu a “emancipação” do estilista, que deixaria de ser um simples artesão, inteiramente subordinado aos desejos do cliente, para ser um “criador livre” que, em conformidade com a visão romântica da arte, criava obras com base em sua própria subjetividade. Worth, que abriu sua Maison em Paris em 1857, foi o primeiro verdadeiro “rei da moda”. Foi com ele que os estilistas começaram a “assinar” suas produções, à maneira dos artistas, inserindo nelas uma etiqueta.(SVENDSEN,2010, p.103)

Worth foi quem iniciou a luta para que o estilista fosse reconhecido como artista em dessemelhança com os demais. Em 1913, Paul Poiret declarou: “Sou um artista, não um costureiro.” Então, começa a dar nomes as sua coleções com “Magiar” e “Bizantino”.

Os laços entre o domínio da arte e da moda são muito maiores do que deixam supor os discursos e a crítica. A interpretação entre esses dois domínios revela aspectos diversos que variam segundo o contexto histórico. Não é apenas uma perspectiva recente quecomeça a se interrogar sobre a proximidade existente entre arte e moda, embora seja preciso ressaltar que, num primeiro momento, os laços estabelecidos eram entre arte e ′arte′ da vestimenta, uma vez que é somente a partir de meados do século XIX que a moda se instala enquanto tal [...]. (CIDREIRA, 2005, p. 78)

O autor deixa claro que os estilistas não conseguiram ganhar pleno reconhecimento como artista, mas até os dias de hoje continuam tentando, ao expressar cada vez mais a sua veia artística através das suas obras. Na história da moda fica visível o uso de estratégias dos profissionais da moda comumente mais associadas às artes contemporâneas do que ao mundo da moda; com a criação de roupas mais apropriadas para exposições em galerias de arte e museus do que para serem realmente vestidas e usadas no dia-a-dia. Desde os tempos de Paul Poiret, a arte foi usada para aumentar o capital cultural do estilista (SVENDSEN, 2010).

Sobre o capital cultural, SVENDSEN exemplifica com um comentário sobre Coco Chanel, que passava muito tempo cultivando contatos com artistas famosos, apoiava apresentações de dança e organizava magníficos jantares com os convidados “certos” para aumentar o seu capital cultural.

Criado pelo escritor francês André Breton, o surrealismo foi um exercício artístico de deslocamento que subvertia a normalidade, inserindo-a em um contexto novo e muitas vezes perturbador. A conjunção entre moda de vanguarda e absurdo surrealista no fim da década de 1920 proporcionou um necessário antídoto para o funcionalismo utilitário do movimento modernista. Seu principal expoente foi a estilista italiana Elsa Schiaparelli, que ganhou fama com o uso do trompe-l’oeil - a arte da ilusão de óptica - em vistosas peças de malha. O estilismo, como ela chamava, não era para ela uma profissão, mas apenas uma forma diferente de expressão artística; ela não sabia costurar e mal desenhava (FOGG,2013).

PEZZOLO (2013, p.158) afirma que “enquanto Chanel se mantinha fiel ao estilo funcional direcionado à mulher moderna, Schiaparelli vagava pelo surrealismo, o que resultou em ideias surgidas da fusão entre arte e moda”.



Quando os dadaístas sucederam aos surrealistas (FOG, 2013), Schiaparelli colaborou com seu mais célebre expoente, Salvador Dalí, pintor de meticulosas cenas oníricas, de imagens hipnóticas e relógios derretidos em paisagens desérticas. Entre suas peças havia um vestido branco com uma estampa de lagosta pintada na saia por Salvador Dalí e um terninho de saia com bolsos que imitavam uma cômoda. Bem relacionada para explorar seus vínculos com o mundo da arte, a estilista tinha entre seus amigos Marcel Duchamp, Francis Picabia, Alfred Stieglitz e Man Ray – situação que a tornava única entre os estilistas da época.



Figura 5 - Vestido Lagosta e terninho gaveta

http://www.revistacliche.com.br/2012/01/a-moda-de-elsa-schiaparelli/

Elsa Schiaparelli realizou seu primeiro desfile com inspiração no surrealismo em 1936, com a colaboração de Jean Cocteau e Dalí. A estilista foi quem iniciou a apresentação de desfiles temáticos, que acabaram se tornando constantes nas passarelas até hoje (PEZZOLO,2013).

É facilmente observável a referência a obras de arte em inúmeros objetos de moda, principalmente nas coleções de grandes criadores como Yves Saint-Laurent, Christian Dior e Jean-Paul Gautier, Alexander MacQueen, Jum Nakao, entre outros. Fica comprovado o fato de que a moda busca inspiração na arte para suas criações, ora na estamparia de tecidos que recriam imagens retiradas das telas de obras de grandes artistas, como Mondrian e Kandinsky, ora traduzindo a essência de movimentos artísticos.

Yves Saint-Laurent (PEZZOLO, 2013) em meados da década de 1960, foi buscar inspiração nas obras de arte de Mondrian, criando um vestido da linha saco - com modelagem solta e sem corte na linha da cintura. Assim, o estilista francês transformou em moda a obra de arte de Mondrian. O vestido foi lançado em 1965, e é considerado o exemplo mais claro da influência da arte nas criações de Yves Saint-Laurent. O vestido, confeccionado em jérsei de lã nas cores primárias, foi uma homenagem ao criador do neoplasticismo da década de 1920 Pieter Cornelis Mondrian (1872-1944).




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