Fazendo arte na moda e a moda como arte



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FAZENDO ARTE NA MODA E A MODA COMO ARTE

CARLOS ROBERTO OLIVEIRA DE ARAÚJO

Croamodelagem45@gmail.com

Rio de Janeiro - 2017

“Nada existe de permanente, a não ser a mudança”

Heráclito de Éfeso [540 – 480 A.C]

RESUMO

A proposta deste artigo é realizar reflexões sobre a possível relação entre moda e arte na visão dos estilistas contemporâneos que trabalham sua moda como arte.

O artista plástico trabalha a sua obra a sós; o estilista precisa da cadeia produtiva para ter a sua obra realizada. As criações dos estilistas são de tal forma alheias à nossa concepção de moda clássica e convencional, das roupas feitas para apenas vestir, que seria preciso inventar uma nova linguagem para falar de suas peças com grande precisão. As formas das roupas são simples -como as telas utilizadas pelos pintores -, as cores e as estampas são reproduções das obras de grandes artistas da história da arte; seus clientes são considerados colecionadores de arte e suas lojas galerias de arte. Esses estilistas fazem arte na moda, o que mostra que a moda pode ter tratamento de arte e nos leva a refletir sobre o binômio “arte e moda”.

PALAVRAS-CHAVE: Arte - Moda - Roupa - telas - Galeria - Colecionador



Making Art in Fashion; Making Art as Fashion

ABSTRACT

The purpose of this article is to reflect on the possible relationship between fashion and art in the view of contemporary designers who work their fashion as art. The artist engenders his work alone, while the stylist needs the whole production chain in order to see his work accomplished. The creations of some stylists are so alien to our conventional, classical sense of what is fashion, of what are plainly wearable clothes, that a new language would be needed to describe their pieces accurately. The shapes of their clothes are very simple – as the canvas used by painters –; colors and printings may be reproductions of the masterpieces of great artists in history. Their clients are considered as art collectors and their shops as galleries of art. These stylists make art in fashion – and this proves that fashion may be treated as art and makes us think about the possible relations between art & fashion.

Keywords: Art – Fashion – Clothes – Canvas – Gallery – Collector

1 - INTRODUÇÃO

Moda é um assunto de interesse global, assim como a arte. O consumo de produtos de moda se tornou um fenômeno cultural, social e econômico que hoje é digno de estudo pela antropologia, assim como são as belas artes, a literatura e o teatro pelos historiadores. Em todos os lugares por que passamos e até mesmo onde vivemos, podemos observar que estamos rodeados de objetos que podem ser considerados verdadeiras obras de arte. Os estilistas estão sempre indo “beber” na fonte das artes visuais; seja na música, pintura, dança, escultura, literatura, cinema – na composição de formas, cores e obras de artistas consagrados.

Fazer moda ou arte é uma questão de mistura de materiais de uma maneira nova, e de despertar desejos e sentimentos diferentes; levar beleza e mostrar o belo da arte construída. Os elementos nas peças dos artistas são: a silhueta, as linhas, a textura e as formas. Os princípios da moda podem ser vistos também em uma obra de arte, que são: repetição, ritmo, gradação, radiação, contraste, harmonia, equilíbrio e proporção. Uma obra de arte, ao ser vista a distância, assim como uma peça de roupa, causa um impacto antes que os detalhes possam ser distinguidos.

A metodologia utilizada na elaboração desta análise constitui-se em um estudo descritivo-analítico, desenvolvido através de pesquisa de campo, bibliográfica e fílmica.



2 - CONCEITUANDO MODA E ARTE

Proença (1997) explica que “as obras de arte não devem ser encaradas como algo extraordinário dentro da cultura humana.” Através da arte expressamos os mais diversos sentimentos: religioso, social, valores pictóricos e beleza. O autor afirma que a arte não é como a vemos habitualmente, algo isolado das demais atividades humanas, e que está presente no nosso dia-a-dia.

JONES (2005) analisa que moda é uma forma especializada de ornamentar o corpo. Exploradores e viajantes do período das Descobertas foram os primeiros a documentar os ornamentos corporais e os estilos de vestir dentro das mais variadas culturas ao redor do mundo. Alguns voltaram de suas expedições com desenhos e exemplos de vestimentas, acendendo o desejo não só pelos artefatos em si, mas pela compreensão de como eram construídos. O autor conclui que posteriormente o estudo da vestimenta foi reconhecido como parte do estudo da antropologia.

Klimt vestia as mulheres em seus quadros com vestidos oníricos que não encontravam referências no mundo real. Suas “criações” foram encontrar ecos somente na década de 1960, no movimento da wearable art.

Sobre arte e moda SOUZA analisa que:

[...] o costureiro, ao criar um modelo, resolve problemas de equilíbrio de volumes, de linhas, de cores, de ritmos. Como o escultor ou pintor ele procura, portanto, uma Forma que é a medida do espaço [...] Como qualquer artista o criador de modas inscreve-se dentro do mundo das Formas. E, portanto, dentro da Arte. (SOUZA, 1987, p.33)



2.1 - Arte Vestível

A Arte Vestível ou wearable art foi um movimento que se iniciou nos anos 1960, nos Estados Unidos, época de grandes mudanças culturais, tendo como proposta a criação de roupas e/ou acessórios como obra de arte para ser contemplada e usada. Os artistas da época criaram uma proposta irreverente e ousada junto à confecção artesanal de roupas, utilizando as técnicas da pintura, crochê, recortes e colagem, tricô, bordados, entre outras. As peças poderiam ser produzidas com fibras naturais ou sintéticas, resultando na criação de uma obra atemporal, constituindo um mix de arte, de artesanato e das mais variadas técnicas. A grande característica desse conceito é permitir uma criação livre, com o objetivo de ter o corpo como base para imaginar uma arte vestível. No Brasil o conceito foi trazido por Liana Bloisi por volta de 1988, e aqui batizado de “rouparte”.



2.2 - O movimento na moda e na arte

Souza, comparando o movimento na moda e na arte, explica que:

Existem, porém certas artes menores a que a moda se submete intimamente, com elas formando um todo único: são as artes rítmicas. Na verdade é o movimento, a conquista do espaço, que distingue a moda das outras artes e a torna uma forma estética específica. Quando falamos da beleza de um quadro, de uma estátua ou de um edifício, fazemos por assim dizer um julgamento estático. Se bem que todos vivam em relação com o ambiente – os largos painéis das igrejas comunicando-se entre si pelo ritmo dos panejamentos e a harmonia ou oposição das cores; as figuras de pedra ou mármore encaixando-se umas nas outras; as lisas superfícies arquitetônicas completando-se com os jardins ásperos e tropicais, se bem que tais obras vivam e só devem ser julgadas nessa harmonia com o exterior, também podem ser encaradas em si, sem perder nada de sua essência, no equilíbrio interno das linhas, das cores, dos volumes. Tal não se dá, porém com a moda. Arte por excelência de compromisso, o traje não existe independente do movimento, pois está sujeito ao gesto, e a cada volta do corpo ou ondular dos membros é a figura total que se recompõe, afetando novas formas e tentando novos equilíbrios. Enquanto o quadro só pode ser visto de frente e a estátua nos oferece sempre sua face parada, a vestimenta vive na plenitude não só do colorido, mas do movimento.(198, pag.40 )

O autor explica (SOUZA,1987, pag. 41) que [...] “para que a vestimenta exista como arte é necessário que entre ela e a pessoa humana se estabeleça aquele elo de identidade e concordância que é a essência da elegância.” A proposta do desfile de modas é mostrar a roupa em movimento, em que, com todos os elementos citados pela autor, se vai mexer com o desejo do ser humano e a vontade de adquirir a peça do vestuário. Acentua que “recompondo-se a cada momento, jogando com o imprevisto, dependendo do gesto, é a moda a mais viva, a mais humana das artes”.



A estilista carioca Alessandra Migani (da marca Alessa), ao final de cada desfile de sua marca, entra na passarela fazendo uma bela evolução, que para uns parece um surto, e, para outros, uma verdadeira forma de mostrar a arte em movimento (figuras 1, 2 e 3).


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