Fatores determinantes na mudança de auditor: o caso português



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Fatores determinantes na mudança de auditor: O caso português

Paula Alexandra Heliodoro, paula.heliodoro@esce.ips.pt, ESCE/Instituto Politécnico de Setúbal

Francisco Alegria Carreira, francisco.carreira@esce.ips.pt, ESCE/Instituto Politécnico de Setúbal

Resumo

A literatura que relaciona a mudança de auditor com a opinião emitida pelo auditor tem sido um tema objeto de estudo por parte de investigadores. O relatório de auditoria financeira representa a materialização do produto final de uma auditoria externa e independente e, é expresso no relatório de auditoria financeira.

O presente artigo visa determinar quais as variáveis que determinam a empresa auditada a mudar de auditor, suportada nas reservas apresentadas pelos auditores, sendo que quanto maior o número de reservas, maior é a tendência para mudar de auditor.

Este estudo recorreu a uma amostra de empresas cotadas em mercado contínuo no período de sete anos e utilizou o modelo de regressão logística para testar se a receção de um relatório de auditoria modificado indiciava a mudança de auditor.

Os resultados apontam para a existência de uma relação significativamente positiva entre o relatório de auditoria financeira modificado e a mudança de auditor, sendo que os fatores mais determinantes na mudança de auditor foram as Reservas sobre o Ativo, existência de outras Reservas, a dimensão da empresa auditada, o crescimento da empresa e o tipo de modelo de governo.

Palavras-chave: relatório de auditoria; mudança de auditor, fatores de mudança, modelo de regressão logística, stakeholders.

Abstract

Literature that relates the change of auditor with the opinion issued by the auditor has been an object of study by researchers. The financial audit report represents the materialization of the final product of an external and independent audit and is expressed in the financial audit report.

This article aims to determine which variables determines the audited company to change auditors, supported by the qualifications presented by the auditors, and the greater the number of qualifications, the greater the tendency to change auditor.

This study uses a sample of companies listed on the continuous market on the seven-year period and used the logistic regression model to test whether the reception of a modified audit report indicated the change of auditor.

The results point to the existence of a significant positive relationship between the qualified audit report and the change of auditor, and the most motivating factors in the change of auditor were qualifications about asset, the existence of other qualifications, the size of the audited company, the company’s growth and the type of governance model.

Keywords: report audit, change of auditor, change factors, logistic regression model, stakeholders.

Introdução

O objetivo principal de uma auditoria financeira consiste num exame independente aos documentos de prestação de contas, através de uma opinião que contribui para dar credibilidade aos referidos documentos. Porém, os vários escândalos têm conduzido a inúmeras críticas que têm colocado em causa os auditores.

O relatório de auditoria financeira representa a materialização do produto final de uma auditoria externa e independente, sendo perfeitamente expectável, que a opinião do auditor nem sempre seja a prevista ou a mais conveniente para a empresa. Diferentes fatores têm sido indicados como causadores dessa mudança, nomeadamente, a emissão de relatórios de auditoria financeira modificados.

A estrutura do presente estudo divide-se em duas partes: a primeira, de cariz teórico, relaciona a mudança do auditor com o relatório de auditoria, em termos de duas correntes antagónicas e de alguns estudos empíricos e, a segunda, um estudo empírico sobre uma amostra de empresas cotadas no mercado contínuo, em Portugal, ao longo de sete anos.

Formularam-se várias hipóteses de modo a identificar os fatores que mais contribuem para a mudança de auditor, das quais foram validadas como indutoras à mudança, a existência de reservas sobre os capital alheio, ou sobre o ativo, ou ainda outras reservas, a estrutura de capitais, a dimensão da empresa e o crescimento da empresa.


  1. Revisão de literatura

    1. O relatório de auditoria financeira e o auditor

O auditor emite uma opinião sobre se a informação financeira da empresa está em conformidade com o normativo contabilístico que lhe é aplicável, bem como as normas de auditoria em vigor.

Assim, o auditor é responsável por chamar à atenção da administração para quaisquer fraquezas, incertezas ou irregularidades detetadas, dado que são matérias que, em regra, são materialmente relevantes e por isso, devem ser mencionadas no relatório de auditoria financeira, o que origina um relatório de auditoria financeira modificado.

A administração da empresa poderá ser tentada a afastar a possibilidade do auditor emitir relatórios de auditoria modificados, uma vez que, esses relatórios podem vir a ter um impacto negativo na perceção dos stakeholders e dos shareholders.

Os vários estudos relacionam os relatórios de auditoria financeira modificados com a mudança do auditor, sendo que as variáveis determinantes dessa mudança de auditor são: os problemas financeiros (Haskins & Williams, 1990; Carpenter & Strawser, 1971) e a dimensão da empresa (Warren, 1980; Shank & Murdock, 1979; Chow & Rice, 1982).



    1. Estudos realizados sobre a mudança de auditor.

Os motivos que conduzem a que as empresas mudem de auditores têm sido analisados por uma extensa literatura durante anos e os estudos realizados comprovam uma falta de consenso sobre o impacto do relatório de auditoria financeira modificado e a mudança de auditor.

Quer Mutcheler (1986), quer Mckeown, Mutchler e Hopwood (1991) defendem que os auditores estão predispostos a emitir relatórios de auditoria modificados para empresas cuja dimensão é reduzida.

Hope e Langli (2010) concluíram que a inclusão do Ativo nos modelos que estudam o tipo de opinião emitida nos pareceres de auditoria é realizada para controlar o efeito que a dimensão da empresa pode provocar na tendência dos auditores de emitirem relatórios de auditoria modificados. Em contrapartida, as empresas de maior dimensão estão menos sujeitas a pareceres e relatórios de auditoria modificados Monroe e Teh, 1993).

Segundo Reynolds e Francis (2001) e DeFond, Raghunandan e Subramanyan (2002) poderá existir uma relação negativa entre a dimensão da empresa auditada e a receção de um relatório de auditoria modificado. Para estes autores as empresas com maiores dimensões tendem a pagar os honorários mais elevados, pelo que, a probabilidade de o auditor emitir um relatório de auditoria modificado é menor, uma vez que, poderá perder um cliente importante.

A mudança de auditor pode ter conotações negativas, dado que pode estar relacionada com oportunismo do conselho de administração, uma vez que, existe um interesse económico por parte dos gestores na continuidade do auditor em resultados dos custos elevados no início de uma relação cliente-auditor (DeAngelo, 1981).

Também Davidson, Wallace, Jirporn e Dadalt (2004) argumentam que os motivos da mudança do auditor, assentam nas situações em que os gestores procuram uma auditoria de menor qualidade traduzindo-se em custos de agência, ou seja sinaliza a existência de problemas na qualidade da auditoria financeira.



    1. A mudança do auditor e a qualidade da auditoria

O Comité Metcalf, em 1996, constata que tem ocorrido debates internacionais com argumentos, a favor e contra, a implementação da mudança obrigatória dos auditores.

Organismos de contabilidade e auditoria, tais como AICPA (1992), ICAEW (2002) e FEE (2004), têm defendido que a implementação de medidas de rotação obrigatória é prejudicial para a qualidade da auditoria, uma vez que quanto mais tempo o auditor permanecer na empresa, maior tende a ser o conhecimento e informação sobre a atividade da empresa e do setor de atividade, logo uma auditoria de melhor qualidade (Barbadillo, Aguilar & Pena, 2006).

De igual forma, Arruñada e Pay-Ares (1997) sustentam que a mudança de auditor obrigatória dos auditores tem como efeito imediato a destruição do conhecimento criado em torno do cliente o que vai gerar uma auditoria de menor qualidade.

Ao invés, alguns os organismos reguladores (U.S. Senate, 1976; SEC, 1994; 2000) e autores como Petty e Gugaresan (1996) que reivindicam a necessidade de impor medidas de mudança obrigatória aos auditores, baseando-se no facto que a longevidade dos contratos reduz os incentivos para que os auditores mantenham uma atitude independente em relação aos clientes.

Assim, aumenta a concordância e reduz-se o requerido ceticismo profissional sendo possível a criação de uma clara identificação com os interesses dos clientes, conforme o tempo decorre.

O auditor pode começar a identificar-se mais com os interesses da administração do que com os dos stakeholders, e desta forma é reduzida a sua capacidade de auditar as demonstrações financeiras da empresa de uma forma imparcial.

Em síntese, as teorias relativas à mudança de auditores são duas: Uma, defende que se devem impor limites à permanência do auditor por um longo período de tempo a fim de melhorar a qualidade da auditoria e, outra, preconiza a permanência do auditor na empresa cliente, uma vez que melhora a tomada de decisão por parte dos auditores, dado que detêm mais informação sobre a sociedade, nomeadamente, ao nível dos negócios dos seus clientes.


  1. Estudo empírico

2.1. Âmbito e descrição da investigação

O objetivo da investigação consiste em analisar a relação existente entre o tipo de opinião emitida pelo auditor no seu relatório e as mudanças de auditor verificadas, no sentido de verificar se um relatório modificado proporciona um enfraquecimento com a administração da empresa.

A fim de validar a existência de relatório de auditoria modificado e situações menos conseguidas quanto a resultados nas empresas auditadas levarem à mudança do auditor, recolheram-se dados sobre empresas cotadas no mercado contínuo, em Portugal, nos anos de 2007 a 2013.

Foram então coletados dados correspondentes a 389 observações tendo ocorrido 67 mudanças de auditor no período em análise. Cabe verificar, com recurso ao software estatístico SPSS (Statistical Package for the Social Sciences)1, se é possível ter um modelo preditivo capaz de informar sobre a mudança futura do auditor.



2.2. Amostra

A amostra é composta por um conjunto de empresas cujos documentos financeiros estavam disponíveis aos stakeholders, nomeadamente as cotadas em mercado contínuo entre 2007 e 2013 e disponibilizadas na página web da CMVM2.

Esta amostra possui um volume importante de informação para os diversos anos e é composta por empresas que são representativas e que são obrigadas a submeter as suas contas ao controlo de um auditor independente com a emissão posterior da sua opinião no relatório de auditoria financeira.

Assim, obteve-se um conjunto de 389 observações no espaço temporal em análise, cuja caracterização segundo o volume de negócios e o ativo é a seguinte (Quadro 1):



Quadro 1 – Dimensão das empresas da amostra

Dimensão da empresa

Volume de Negócios

Ativo

Frequência

Percentagem

Frequência

Percentagem

Pequena

122

31,36%

133

34,19%

Média

137

35,22%

127

32,65%

Grande

130

33,42%

129

33,16%

Total

389

100%

389

100%

Verifica-se um equilíbrio nas empresas que compõem a amostra, em termos de dimensão, – pequenas, médias e grandes. O Quadro 2 evidencia o número de mudanças de auditor no período e estudo, ou seja, entre 2007 e 2013.

Quadro 2 – Total de observações sobre a mudança de auditor




Frequência

Percentagem

Houve mudança de auditor

322

82,8%

Não houve mudança de auditor

67

17,2%

Total

389

100%

Pela análise dos resultados é possível observar uma clara tendência para a não mudança de auditor por parte das empresas constantes da amostra, sendo que, apenas, 17,23% das empresas da amostra mudaram de auditor.

2.3. Descrição do Modelo

Procurou-se um modelo que pudesse antecipar a mudança do auditor, que está suportado nas regressões categoriais, onde a variável dependente – mudança de auditor – é qualitativa, e as variáveis independentes (ou preditoras) podem ser qualitativas (existência de reservas) ou quantitativas (rácios económicos e financeiros). Mas como a variável dependente nominal é dicotómica, entramos num caso mais específico, designado por regressão logística: modelo logit.



Assim, estabelecemos o seguinte modelo de base para analisar o nosso problema de investigação:

A variável dependente é a mudança de auditor, a qual assume o valor 1 (um) quando se detete a existência de uma mudança do auditor e 0 (zero) na situação contrária. As variáveis independentes consideradas justificam as hipóteses em estudo.



O modelo aplicado tem a seguinte apresentação:

Onde cada variável corresponde a cada uma das hipóteses consideradas, o à constante e o os eventuais erros de medição.



2.4. Hipóteses de investigação

Foram consideradas as seguintes hipóteses como variáveis independentes a integrar no modelo:



H1 – O relatório de auditoria com Reservas sobre o Capital Próprio é indutor à mudança de auditor.

H2 – O relatório de auditoria com Reservas sobre o Ativo é indutor à mudança de auditor.

H3 – O relatório de auditoria com Reservas sobre o Capital Alheio é indutor à mudança de auditor.

H4 – O relatório de auditoria com outras Reservas não consideradas nas hipóteses anteriores é indutor à mudança de auditor.

H5 – A mudança de auditor é influenciada pela Rendibilidade da empresa.

H6 – A mudança de auditor é influenciada pela estrutura de Capitais.

H7 – A mudança de auditor é influenciada pela dimensão da empresa.

H8 – A mudança do auditor é influenciada pelo modelo de governo da empresa.

As primeiras quatro hipóteses implicam a existência de variáveis binárias (0; 1) e assumem o valor 1 (um), se a empresa tiver obtido reservas em algum dos três últimos exercícios, e o valor 0 (zero), caso contrário.



A hipótese 5 - Rendibilidade da empresa – é medida com base em duas variáveis: rendibilidade do capital próprio e rendibilidade do ativo. Em relação à rendibilidade do capital próprio, Segura (2001), Brigham e Houston (2011), Neves (2006), Harris (1998) e Brealey, Myers e Marcus (2011) obtiveram evidência empírica entre este rácio e as Reservas no relatório de auditoria.

De modo análogo, o rácio da rendibilidade do ativo é relevante na avaliação da aplicação dos recursos da empresa, uma vez que reflete melhor os aspetos económicos dos quais os gestores são responsáveis (Villaroya, 2003).

Assim, é de esperar que a probabilidade de uma empresa receber uma opinião modificada aumente em função do crescimento da rendibilidade dos capitais próprios.

A hipótese 6 - estrutura de capitais – expressa pelos seguintes rácios: autonomia financeira, debt to equity e endividamento. Autores como (Haskins & Williams, 1990; Citron & Taffler, 1992) nas suas investigações verificaram existir uma relação positiva entre as dificuldades financeiras das empresas e a emissão de pareceres de auditoria modificados.

Neste sentido, é expectável que as empresas com dificuldades financeiras tenham maior tendência para receber uma opinião qualificada (Hudaib & Cooke, 2005).



A hipótese 7 - dimensão da empresa - justifica a utilização das duas grandezas mais utilizadas neste tipo de informação, volume de negócios e ativo. Para evitar situações extraordinárias em algum exercício económico calculou-se a média simples dos últimos três anos.

Agruparam-se as empresas em classificações comuns de acordo com determinadas características – pequenas, médias e grandes – com atribuição de valores numéricos às mesmas. Defond, Raghunandan e Subramanyam (2002), Ireland (2003), Spathis, Daimpois e Zopouridis (2003), Gaganis e Pasiounas (2007), Lee, Mande e Son (2009), Reichelt e Wang (2010), Defond e Lennox (2011), Krishnan e Sengupta (2011) testaram nos seus estudos associação entre as opiniões emitidas nos relatórios de auditoria e a dimensão das empresas auditadas.

São unânimes em afirmar que estas variáveis assumem uma importância vital na decisão do auditor perante o tipo de parecer de auditoria da empresa auditada.

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