Faculdade castro alves curso de psicologia



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3 OS IMPACTOS PSICOSSOCIAIS QUE SÃO ACOMETIDAS AS MÃES E AS POSSÍVEIS ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO


No momento do diagnóstico os pais já são acometidos por algumas preocupações. Costa (2012) em seu estudo buscou avaliar o impacto do diagnóstico de autismo nos pais. Participaram dessa pesquisa sessenta e nove pais com filhos autistas, apesar dos resultados indicarem que os impactos são moderados. Pode se notar que os pais ainda não conseguiram superar o choque inicial, mostrando-se apreensivos quanto ao futuro do filho.

É pertinente salientar que as famílias que se sentem ameaçadas quanto ao futuro, na sua maioria são aquelas que os filhos autistas apresentam sintomas mais severos e consequentemente mais dependentes de cuidados, e as famílias com menos recursos financeiros e acesso a serviços (FÁVERO, 2005).

É válido apontar que o autismo, quando se manifesta, promove alteração em toda a dinâmica familiar, principalmente na relação mãe e filho e em muitos casos implica até mesmo no rompimento de vínculos afetivos. Diante da situação de vulnerabilidade e de dependência do filho autista, as mães passam a dedicar-se integralmente aos mesmos, acarretando muitas responsabilidades, como os cuidados com o lar, com a família e ainda com o filho autista, o que desencadeia grande sobrecarga emocional e física (NUNES; SANTOS, 2010).

Zanatta et al. (2012) apontam que, com a descoberta do diagnóstico, a família também passa por um processo doloroso de perda, seguido por um processo de aceitação de uma síndrome crônica que não tem cura. A família nesse momento perde o sonho de ter um filho saudável, independente e realizado. Se deparando com o fato de ter que reestruturar a família para que possam promover um auxilio a esse filho, no que diz respeito ao desenvolvimento de algumas habilidades. Juntamente a isso, podem surgir acontecimentos que modifiquem a qualidade do meio familiar.


O nascimento de uma criança com deficiência é um acontecimento inesperado e dramático, que pode afetar fortemente a organização estrutural de um sistema familiar. Se a família não for capaz de responder positivamente a este acontecimento, adaptando os padrões de relação e a sua própria estrutura, de forma a encontrar novas formas de equilíbrio, pode entrar em ruptura e tornar-se numa família disfuncional (Febra, 2009, p.22).

Qualquer família que se defronte com as limitações de um filho, está diante de um encontro com o desconhecido. Encarar essa realidade imprevisível causa angústia, desordem, frustrações e receio. Portanto, desempenhar o papel de ser mãe e de ser pai, torna-se uma experiência complexa, pois é sobre os mesmos que recaem as maiores responsabilidades relacionada aos seus filhos (BUSCAGLIA, 2006).

As dificuldades que permeiam esse contexto de se ter um filho com autismo, se inicia desde a infância, pois os mesmos, enquanto pessoas que vivenciam uma condição crônica enfrentam dificuldades desde a realização de tarefas cotidianas, pois esse transtorno afeta tanto as condições físicas, quanto mentais do indivíduo, aumentando a demanda por cuidados e, com isso o nível de dependência de pais e/ou cuidadores. Vale ressaltar que a mãe é a principal cuidadora dos filhos com autismo, desse modo, está mais suscetível ao desenvolvimento de altos níveis de estresse, o que resulta em sobrecarga (SCHMIDT; DELL’AGLIO; BOSA, 2007).

Zanatta et al. (2012) em sua pesquisa com seis mães de autista puderam identificar que conviver com o autismo é para família uma missão exaustiva e que acarreta sofrimentos. E as mães evidenciaram que a rotina de cuidados é árdua e cansativa, pois demanda esforço físico e causa um desgaste emocional, pois não concebem avanços na criança. Revelou, também, que as mesmas passam por um sofrimento não só devido aos cuidados que o filho com autismo exige, mas percebe-se o quanto o olhar preconceituoso do outro lançado ao seu filho, as incomoda. Optam pelo isolamento social, por ficar em casa, em uma tentativa de poupar os filhos dos olhares discriminatórios por partes de pessoas que não entenderão os comportamentos dos seus filhos. Nesse mesmo estudo, aponta-se a necessidade de fortalecer as redes sociais de apoio aos familiares e às crianças com autismo, visando oferecer-lhes suporte técnico e emocional para lidar com os desafios decorrentes do autismo. O apoio social que as mães recebem, é um dos fatores que parece amenizar o estresse materno e evita que o mesmo progrida para fases mais agudas (SCHMIDT; BOSA, 2007).

Conforme Borges e Boeckel (2010) as mães se restringem ao lar muitas vezes como forma de proteger seu filho do preconceito. Goffman (1982) aponta que a família sente-se pressionada socialmente quando tem um elemento que não corresponde às expectativas sociais. Contudo, cabe ressaltar que a superproteção da família interfere no desenvolvimento do filho que tem essa especificidade, é fundamental que a mesma possibilite o contato e socialização com outras pessoas (BUSCAGLIA, 2006). “As dificuldades de socialização podem atrapalhar a pessoa durante toda a vida, mas se tornam mais evidentes a partir do início da adolescência, pois nessa fase surge a necessidade de aceitação por um grupo”(SILVA; GAIATO; REVELES, 2012, p.30). A família enquanto primeiro ambiente socializador da criança, deve influenciar o individuo quanto as suas relações em outros subsistemas sociais, que perpassam a esfera familiar (SILVA; DESSEN, 2004).

É pertinente salientar que desde quando o autismo começou a ser estudado, com todas as incertezas do ponto de vista diagnóstico, a figura dos genitores sofrem impactos. Esses familiares, em geral as principais figuras de apoio á criança, receberam erroneamente a responsabilidade pelo que aparentemente ocorria com seus filhos. Houve uma vertente teórica que atribui o quadro autista em crianças a incapacidade dos pais em dar afetos aos filhos. A essa corrente nomeou-se “mãe geladeira” estigmatizando e atribuindo culpa, principalmente a mãe, acarretando sobrecarga emocional para as mesmas Essa hipótese posteriormente foi comprovada como falsa (FILHO; CUNHA, 2010). Mesmo essa hipótese sendo descartada, Silva, Gaiato e Reveles (2012) indicam que a mãe ainda é criticada pela sociedade. Tendendo a se culpar muitas vezes, achando que falhou no processo educacional, esse processo de culpabilização por parte das mães continua, existindo ainda profissionais desinformados que atribuem a causa do autismo às mães.

A adaptação às diversas modificações que ocorrem desde o momento do diagnóstico depende de mecanismos que variam de acordo com cada pessoa. Fatores como a personalidade e disponibilidade de recursos, sejam eles pessoais ou sociais, incluindo informações e orientações, contribuem para o uso de estratégias que facilitam na busca de uma melhor adaptação a nova condição (FÁVERO, 2005).

O conjunto das estratégias utilizadas pelas pessoas para adaptarem-se a circunstâncias adversas ou estressantes é geralmente definido como Coping4 (ANTONIAZZI; DELL’AGLIO; BANDEIRA, 1998). Sendo caracterizado como todos os empenhos na busca de controle, não ponderando as consequências, ou seja, é uma resposta ao estresse, seja ela cognitiva ou comportamental com o intuito de reduzir as suas condições aversivas (SAVÓIA, 1999).

O estresse pode ser compreendido como uma reação do organismo que ocorre quando ele precisa lidar com situações que demandem um grande esforço emocional para serem superadas (LIPP; ROCHA, 1994). As pessoas reagem de modo peculiar frente às circunstancias estressoras da vida. O coping é uma dessas formas de reação particular que as pessoas desenvolvem para lidar com as adversidades, no contexto de sua cultura, sociedade e época, aliviando os aspectos negativos das situações de estresse (FÁVERO; SANTOS, 2005).

Os estressores podem ser encontrados no local de trabalho, ou estar relacionados com assuntos da esfera pessoal e ambiental. No trabalho, pode está ligado ao envolvimento de conflitos intrapessoais, pressões do tempo, aspectos físicos do local do trabalho. No fator pessoal, destacam-se as preocupações financeiras, os conflitos com os filhos, as dificuldades conjugais, as preocupações de saúde; em relação ao meio ambiente; o local onde a pessoa reside pode ser um gerador de estresse (SAVÓIA, 1999).

Antoniazzi, Dell’Aglio e Bandeira (1998) ainda apontam que a estratégia de coping não pode ser analisada como boa ou má, adaptativa ou mal adaptativa, contudo precisa ser ponderada a partir do contexto em que ocorreu o episódio de estresse, das características do próprio evento e dos indivíduos em questão. O coping deve ser considerado independente do seu resultado positivo ou negativo. E novas formas de coping podem surgir a cada nova demanda, pois uma estratégia não pode ser avaliada como eficaz para todos os tipos de estresse, podendo mudar com o tempo. Os autores citado acima ressaltam que a mesma estratégia de coping que alivia o estresse pode ser a causa de dificuldades futuras.

A literatura descreve duas estratégias de coping. Este pode estar centrado no problema ou na emoção. No primeiro caso, a estratégia visa alterar as relações entre as pessoas e o ambiente. Já no segundo caso a finalidade do sujeito é adaptar a resposta emocional ao problema. Ambos influenciam-se mutuamente em todas as situações estressantes e podem ser utilizadas pelas pessoas, o que define a forma usada de coping está determinada, em parte, por seus recursos pessoais que envolvem saúde, energia, crenças existenciais, habilidades de solução de problemas, habilidades sociais, suporte social e recursos materiais (SAVÓIA, 1999).

Os níveis de saúde e energia são recursos importantes em situações de estresse, dado que, quanto mais frágil e débil for a saúde da pessoa, menos probabilidades tem de enfrentar com êxito a situação. Os pais com filhos deficientes sofrem de ansiedade e depressão, fazendo com que as capacidades para enfrentar as atividades diárias e a resolução de problemas diminuam (FEBRA, 2009, p.33).

Schmidt (2004) em seu estudo de estratégias de coping utilizadas pelas mães, tanto no que se refere às dificuldades apresentados por seus filhos, quanto para lidar com a emoção decorrente destas situações, identificaram e descreveram nove categorias como forma de enfrentamento a um evento estressor, sendo elas: ação agressiva, evitação, distração, busca de apoio social/religioso, ação direta, inação, aceitação, expressão emocional e a reavaliação/planejamento cognitivo.

A ação agressiva pode ser compreendida como as respostas físicas, motoras ou verbais que podem ocasionar prejuízos ou violentar psicologicamente o filho. A evitação corresponde à estratégia que abrange tentativas cognitivas ou comportamentais que levam o indivíduo a se distanciar da situação de estresse, evita saber da existência do estressor. Abrange situações como ir dormir, se distanciar das pessoas envolvidas e da situação, evitando pensar sobre o problema. Na distração incluem comportamentos ou pensamentos que postergam a necessidade de lidar com o estressor, nesta estratégia o individuo opta por fazer outra coisa, uma atividade diferente como: jogar, assistir TV, ler, entre outras.

A busca de apoio social/Religioso se refere a comportamentos que envolvem a busca de apoio de uma pessoa mais próxima ou apoio religioso, esse pode ser uma oração como auxílio no enfrentamento da situação estressora. A ação direta diz respeito a comportamento que age diretamente sobre o estressor ou modifica suas características, fazendo o enfrentamento da situação, buscando resolver o conflito. Inação: compreende o comportamento de ficar parado diante da situação, sem ter iniciativa alguma até que o estresse passe.

A estratégia da aceitação abrange condições em que a pessoa aceita passivamente a situação, submetendo-se às exigências do estressor, um dos exemplos citado pelos autores nesse quesito, é que as mães cedem à vontade dos filhos a qualquer custo. Expressão Emocional é entendida como resposta ao estressor revelando o estado emocional ligado ao evento, como por exemplo: chorar, demonstrar tristeza, irritação. Reavaliação/Planejamento Cognitivo: diz respeito a esforços cognitivos para criar novos sentidos sobre o problema enfrentado, refletir sobre novas formas de como resolvê-lo e/ou compreendê-lo de acordo com novas perspectivas, redefinindo o próprio estressor, os autores exemplificam que nessa estratégia muitas mães começam a pensar em situações piores do que as que vivenciam, como forma de dar novos significados para as circunstancias estressoras vividas.

Sprovieri e Assumpção Jr. (2001) avaliaram quarenta e cinco famílias, sendo quinze de autistas, quinze famílias de crianças com Síndrome de Down e quinze famílias com crianças saudáveis, buscando investigar a dinâmica familiar das mesmas. E identificou-se que nas famílias com pessoas autistas que a comunicação é pouco clara e também menos investida de carga emocional adequada. É válido salientar que tanto nas famílias com pessoas autistas, quanto à de pessoas com Síndrome de Down, dificultam a promoção de saúde nos membros do grupo. Se manifestando através das dificuldades de comunicação, liderança, interação familiar e conjugal. Concluíram que essas famílias se organizam em torno de algum padrão de cronicidade e que a deficiência funciona como elemento organizador dos padrões relacionais. Indicando que a dificuldade de favorecer a saúde emocional se apresenta na medida em que estes sistemas familiares não dispõem de recursos internos e externos que auxiliem frentes as tensões.



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