Existiu um regime demográfico restrito à cafeicultura no oeste paulista?



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Existiu um regime demográfico restrito à cafeicultura no oeste paulista?*

Maria Silvia C.B. Bassanezi**

RESUMO

No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, a expansão cafeeira no estado de São Paulo e a entrada massiva de imigrantes estrangeiros - atraídos por uma política imigratória visando mão de obra para o café - proporcionaram grandes transformações na ocupação do espaço, na distribuição da população do estado e na dinâmica demográfica das regiões onde o café e os imigrantes se implantaram. Neste cenário, é possível afirmar a existência de um regime demográfico restrito às essas regiões, naquele período?



Esta comunicação, a partir de dados censitários e de estatísticas vitais, apresenta os primeiros resultados da investigação empreendida na busca de resposta a esta pergunta, no que tange à evolução da população, à nupcialidade, à natalidade e à mortalidade em municípios paulistas, localizados em diferentes áreas do estado. Municípios que vivenciaram a cafeicultura e a imigração nos primeiros tempos, os que despontaram em anos posteriores - à medida que a expansão da lavoura cafeeira avançava em direção às fronteiras oeste e norte do estado - e aqueles menos atingidos pela cafeicultura, receptores ou não de imigrantes.

Palavras chave

Dinâmica demográfica – Cafeicultura –Estado de São Paulo

Existiu um regime demográfico restrito à cafeicultura no oeste paulista?*

Maria Silvia C.B. Bassanezi**

A pergunta que dá título a esta comunicação tem raízes em estudos realizados no Brasil, em meados dos anos 1980, por diversos autores que, com preocupações distintas e com maior ou menor ênfase, viam o colonato1, como um sistema que estimularia a fecundidade, com um efeito positivo no tamanho da família (Paiva, 1985; Stolcke, 1986). Ou viam-no como aquele que podia acomodar, com sucesso, famílias grandes cujos determinantes se encontravam alhures (Oliveira, 1985; Bassanezi, 1986). Ela também tem raízes nos estudos que focalizaram a imigração como um dos eixos explicativos na compreensão das diferentes formas e etapas da ocupação territorial e da composição da população paulista (Baeninger e Bassanezi, 2010 e Bassanezi, 2012). Por outro lado, a pergunta foi estimulada pelas reflexões sobre regimes demográficos no passado colonial brasileiro (Marcílio, 1984; Costa, s.d.; Nadalin, 2003) e pelo interesse do Grupo de Pesquisa Demografia e História/CNPq em buscar referências empíricas que possam embasar estudos sobre regimes demográficos restritos no passado colonial.

A partir daquelas referências e do desafio de caminhar para além do período colonial, foi pensada a realização de um esforço de pesquisa, de caráter empírico primeiramente, a fim de verificar as relações existentes entre os componentes da dinâmica demográfica e as relações desta dinâmica com o ambiente, com processos socioeconômicos vigentes nas chamadas regiões cafeeiras paulistas no final do século XIX e primeiras décadas do século XX - relações estas que poderiam caracterizar, ou não, um regime demográfico específico nessas regiões. Cabe lembrar que nesse período a expansão da cafeicultura rumo ao oeste do estado de São Paulo (Brasil) e a entrada massiva de imigrantes estrangeiros (uma grande parcela deles imigrando em unidades familiares, atraída por uma política imigratória visando mão de obra para o café) proporcionaram grandes transformações na ocupação do espaço, na distribuição da população e na dinâmica demográfica do estado de São Paulo.

Os primeiros passos dessa pesquisa compõem esta comunicação, que trata das fontes e da metodologia de trabalho privilegiadas, das pedras encontradas no meio do caminho e apresenta resultados de um olhar preliminar sobre as fontes. Passos que ainda estão longe de uma resposta mais elaborada e conclusiva à questão proposta, mas que agregam ingredientes ao debate sobre regimes demográficos.

As fontes trabalhadas até o momento foram os censos e os anuários demógrafo-sanitários e estatísticos publicados pela Repartição de Estatística e Archivo do Estado de São Paulo que sintetizam os nascimentos, casamentos e óbitos ocorridos e lançados no Registro Civil2.

Nessas fontes foram levantados números relativos a municípios paulistas localizados em áreas que vivenciaram o auge da cafeicultura em momentos diferentes, para dessa forma observar se ocorreram transformações na dinâmica demográfica de uma mesma região durante a marcha do café e da população rumo a oeste e norte do estado. Como contraponto, também foram coletados números relativos a municípios, de cafeicultura decadente e de municípios não cafeicultores, onde a presença imigrante não foi expressiva no período.

No levantamento e no manuseio dos dados, muitas pedras surgiram no meio do caminho. No que tange às fontes, os recenseamentos nacionais publicados de 1890 e 1900 trazem muito pouca informação e nem sempre confiáveis; os anos de 1910 e 1930 não contam com recenseamento. Além do recenseamento de 1920, mais completo que os anteriores, a pesquisa pode contar com o levantamento populacional do estado de São Paulo, levado a cabo em 1934, que traz apenas a população total dos municípios segundo domicílio rural/urbano e nacionalidade, diga-se de passagem, o primeiro que desagrega a população em rural e urbana até então3. Quanto às estatísticas vitais, elas muitas vezes estão incompletas, têm lacunas, erros de agregação e/ou transcrição, portanto, precisam ser olhadas com muita cautela. Contudo, delas se faz uso porque são as existentes e, mesmo com tal nebulosidade, deixam entrever as tendências gerais das trajetórias demográficas dos municípios paulistas, permitem confrontar experiências dessas trajetórias vividas por diferentes localidades e em diferentes momentos. Outro fator a considerar, quando se trabalha com estas fontes, diz respeito aos desdobramentos territoriais que ocorreram nos períodos intercensitários, que podem gerar alguma confusão e análises distorcidas – daí, de pronto, se esclarece que os dados aqui trabalhados dizem respeito apenas ao território ocupado pelo município no momento em que foram registradas as informações na fonte. Não foram agregados os dados relativos aos municípios surgidos dos desmembramentos.



Municípios paulistas: espaços da pesquisa

Os municípios selecionados nesse primeiro momento da pesquisa foram: Lorena e Taubaté municípios do Vale do Paraíba, antiga região cafeeira escravista, que enfrentou a decadência da cafeicultura por volta de 1870; Amparo (mais antigo) e Ribeirão Preto, localizados na chamada região da Mogiana, grande produtora de café e de recepção de imigrantes; Limeira (mais antigo), São Carlos e Araraquara pertencentes a outra importante região cafeeira e de atração de imigrantes, a Paulista; Sorocaba e Itapetinga, em terras do centro/sul do estado, onde predominaram a cultura do algodão e a pecuária - Sorocaba, ao contrário de Itapetininga, chegou a atrair um volume razoável de imigrantes; Bauru localizado na zona Noroeste e São José do Rio Preto na Araraquarense, surgiram mais tarde que os demais, em meados dos anos 1890, com a expansão do café nas regiões mais a oeste do estado de São Paulo.



Vários desses municípios sofreram desmembramentos no decorrer do período analisado. Lorena, Amparo e Taubaté deram origem ainda nos anos 1890 a pequenos municípios, sem expressividade. O rápido e importante sucesso da cafeicultura em Araraquara e Ribeirão Preto provocou ainda nos anos 1890 desmembramentos de seus territórios. Bauru deu origem a outros municípios na segunda década do século XX e São José do Rio Preto na terceira década desse século. À medida que a cafeicultura expandia as fronteiras do estado ela carregava consigo grande contingente homens e mulheres nascido no exterior e em território brasileiro. Os números dos Quadros 1 e 2 dão a dimensão dos desdobramentos territoriais, do crescimento da população dos municípios no momento do recenseamento, do volume de estrangeiros e, para orientar o leitor, incluem também a população dos novos municípios que surgiram dos escolhidos para análise4. De pronto, os números desses quadros deixam entrever que a trajetória demográfica entre eles, não se caracterizou pela homogeneidade.

Quadro 1

População total . 1890-1934


Região

Município

1890

1900

1920

1934

 

 

 

 

*

 

*

 

*

Vale do Paraíba

Lorena

13.532

12.845

16.872

15.645

20.488

15.826

21.276

 

Taubaté

20.773

36.723

40.911

45.445

53.940

36.564

42.880

Mogiana

Amparo

22.915

34.192

38.436

47.713

53.185

39.962

44.266

 

Ribeirão Preto

12.033

59.195

100.185

68.836

125.911

81.565

132.384

Paulista

Limeira

21.605

23.098

 

32.550

 

40.723

 

 

São Carlos

12.651

55.729




54.825




51.620

 

 

Araraquara

8.151

28.900

62.877

48.119

169.004

66.916

261.027

Centro-Sul

Sorocaba

17.068

18.562




43.323




66.918

 

 

Itapetinga

11.278

13.278

 

25.987

 

29.041

 

Noroeste

Bauru

6.368

7.815

 

15.841

116.592

45.932

504.302

Araraquarense

São José do Rio Preto

6.568

3.221

 

126.796

142.805

62.090

311.937

Fonte: Recenseamentos nacionais de 1890,1900 e 1920. Levantamento da população paulista de 1934

*Inclui a população dos municípios desmembrados durante o período intercensitário.


Quadro 2

População estrangeira 1890-1934


Região

município

1920

1934

1920

1934

 













 

% na população total

 

 

 

*

 

*

 

*

 

*

Vale do Paraíba

Lorena

488

575

319

361

3,1

2,8

2,0

1,7

 

Taubaté

1.776

2.066

1.448

1.840

3,9

3,8

4,0

4,3

Mogiana

Amparo

7.268

8.383

3.168

3.601

15,2

15,8

7,9

8,1

 

Ribeirão Preto

21.748

37.068

14.570

24.323

31,6

29,4

17,9

18,4

Paulista

Limeira

4.353

 

3.025

 

13,4

 

7,4

 

 

São Carlos

13.287




6.892

 

24,2




13,4

 

 

Araraquara

12.469

37.071

10.562

36.027

25,9

21,9

15,8

13,8

Central

Sorocaba

6.306




8.647

 

14,6

 

12,9

 

 

Itapetinga

912

 

861

 

3,5

 

3,0

 

Noroeste

Bauru

4.537

30.419

8.086

114.645

28,6

26,1

17,6

22,7

Araraquarense

São José do Rio Preto

22.404

27.614

7.442

39.548

17,7

19,3

12,0

12,7

Fonte: Recenseamentos nacionais de 1890,1900 e 1920. Levantamento da população paulista de 1934

*Inclui a população dos municípios desmembrados durante o período intercensitário.



Crescimento populacional: tendências

A partir dos dados censitários de 1890 a 1934 para cada município foi criado um modelo matemático de acordo com seu ritmo de crescimento populacional5. O objetivo de tal procedimento foi obter a projeção da população para os períodos intercensitários e, dessa forma, traçar o perfil da tendência do crescimento populacional para cada município no período analisado (Gráficos de 1a11) e também para o cálculo das taxas brutas anuais de nupcialidade, natalidade, mortalidade (Quadros 3 a 5).

Um olhar sobre as curvas representadas nos Gráficos Nº 1 a 11 mostram que o ritmo e a tendência do crescimento populacional não foram uniformes entre os municípios paulistas da época. Também não foi homogêneo entre os municípios cafeeiros, como se poderia esperar, principalmente entre aqueles que vivenciaram o auge da cafeicultura no mesmo momento e receberam um importante contingente de imigrantes. Os mais antigos como Amparo e Limeira, diferiam entre si e dos municípios de produção mais dinâmica no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, como São Carlos, Araraquara e Ribeirão Preto. Os gráficos relativos a São Carlos e Ribeirão Preto, chegam a mostrar uma tendência semelhante entre eles no início do período e que depois toma direções distintas – Ribeirão Preto, apesar dos desdobramentos territoriais, teve sua população ampliada em ritmo mais lento, enquanto São Carlos, cujo território permaneceu o mesmo, observou um lento declínio de sua população no período analisado. São José do Rio Preto, de origem mais recente, vivenciou um crescimento populacional muito rápido e intenso na década de 1910 e depois uma sensível queda na década de 1920 em função, principalmente dos inúmeros desdobramentos territoriais que sofreu. O perfil da curva do gráfico relativo a Bauru por sua vez se assemelha muito mais ao de Limeira e também ao de Sorocaba, que não se caracterizou como cafeeiro.

Na explicação desses comportamentos tão distintos certamente estavam a interferir não só como a cafeicultura se desenvolveu em cada um dos municípios, seus determinantes e implicações, assim como uma série de outras variáveis, que diziam respeito ao contexto local e a fatores externos a ele que necessitam ser aprofundados.



Fonte de dados brutos: Recenseamentos nacionais de 1890,1900 e 1920. Levantamento da população paulista de 1934.



Fonte de dados brutos: Recenseamentos nacionais de 1890,1900 e 1920. Levantamento da população paulista de 1934.


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