Espacialidades e práticas do maracatu naçÃo porto rico – recife/brasil



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ESPACIALIDADES E PRÁTICAS DO MARACATU NAÇÃO PORTO RICO – RECIFE/BRASIL
Maria Augusta M. Vargas1

Edivaldo Alves de Oliveira2


Resumo

O texto expõe sobre as espacialidades e as práticas do grupo Maracatu Nação Porto Rico, manifestação popular tradicional. Buscamos conjecturar sobre o que vem contribuindo para as moldagens e remoldagens de suas territorialidades e identidades. Identificou-se, assim, o reconhecimento de sua origem no século XIX, na zona rural do estado de Pernambuco, bem como seu resurgimento nos primórdios do século XX na capital, Recife. Seguimos o comando de sucessivos babalorixás até recentemente, em fevereiro de 2016, quando foi possível vivenciar o cotidiano do MNPR: desde os preparativos das Damas do Passo e suas Calungas até a participação nos momentos de homenagens e cortejos nas ruas. Dos limiares de sua existência aos dias atuais, pode-se verificar a sucessão de ressignificações de suas práticas perpassadas pelas relações de pertencimento que justificam a longevidade dos ritos e das brincadeiras, além da constatação de que “atravessam” o tempo enraizados em suas tradições.

Palavras-chaves: Espacialidades; Territorialidades; Identidades; Maracatu.

Abstract

The text exposes on the spatialities and the practices of the Maracatu Nação Porto Rico group, people's traditional  manifestation.  We sought  to conjecture  about  what has contributed to the molding and remolding of their territorialities and identities. It was identified the recognition of its origin in the XIX century in the countryside of Pernambuco state, as well as its resurgence in the beginning of the XX century in the capital, Recife. We followed the command of successive babalorixás up to the present, in February 2016, when it was possible to experience the daily life  of the MNPR: from the preparations of the Damas do Passo and their Calungas to the participation in moments of homage and courtship in the streets. From the thresholds of its existence to the present day, one can verify the succession of resignifications of their practices perpassed by the belonging relations that justify the longevity of rites and jokes and the observation that they 'cross' the time rooted in their traditions.


Keywords: Spatialities; Territorialities; Identities; Maracatu.

I - INTRODUÇÃO

A manifestação popular brasileira que apresentamos nesse texto, o chamado Maracatu Nação Porto Rico (MNPR), existente na cidade do Recife/Brasil, conduziu-nos a uma reflexão no contexto da Geografia Cultural, no que diz respeito às suas espacialidades e práticas territoriais em que pese sua existência, perenidade e manutenção aos dias atuais. Enquanto fenômeno sociocultural, importa saber, desde seu limiar, em quais engrenagens e conjunturas trilharam suas moldagens e remoldagens que marcaram os sentidos para seus brincantes e a participação contundente do grupo nos setores político, econômico e social recifense que, em última instância, possibilitaram apreender a formatação, a construção e a concretização dos seus territórios.

O maracatu tem origem na importância das ‘brincadeiras’ na vida laboral e social dos negros traficados e no significativo sincretismo construído pelos descendentes colonizados, ou seja, para os desterritorializados da pátria África e para os afrodescendentes brasileiros. As danças de senzalas e pátios, bem como rituais religiosos, alcançam os arredores das igrejas católicas e traduzem, dentre muitos folguedos, tal manifestação popular como uma brincadeira de caráter polissêmico, tanto para os estudiosos quanto para seus praticantes. É nessa engrenagem de moldagens e remoldagens que surgem e se renovam as identidades dos praticantes para com o maracatu, uma vez que os grupos e os indivíduos, independentemente de sexo e cor, comungam o espírito de coletividade, de ideias e de projetos de vida.

O maracatu enquanto folguedo popular é descrito por Cascudo (1965), Real (1967); Pereira da Costa (1974); Guerra-Peixe (1980) e Benjamim (2011) como uma verdadeira reminiscência esparsa da vida e dos costumes gerais africanos, por apresentar, até os dias atuais a corte dos reis africanos e elementos totêmicos em forma de animais. No caso do Maracatu Nação Porto Rico, objeto desse estudo, faz-se uma exceção, já que o símbolo totêmico estampado em seu estandarte é a caravela Santa Maria, uma das embarcações da frota de Cristóvão Colombo que atravessou o oceano Atlântico até alcançar as Antilhas em 1492.

Vale ressaltar que a motivação para estudar o MNPR ocorreu após leituras de obras literárias de folcloristas brasileiros, dos clássicos aos contemporâneos, acrescida de trabalhos acadêmicos produzidos sobre a origem, as dinâmicas e as distribuição de grupos folclóricos, sobretudo aqueles existentes no Nordeste do país. No entanto, foi a concretização de uma breve imersão, porém fecunda, no cotidiano dos maracatus da cidade do Recife, especificamente no Nação Porto Rico, antes e durante o carnaval do ano de 2016, que surgiu a interesse em refletir sobre suas práticas e suas espacialidades.

No carnaval de 2016, a prefeitura do Recife rendeu homenagens ao Maracatu Nação Porto Rico pelo seu centenário de fundação. As ruas, avenidas e espaços carnavalescos foram ornados com desenhos e figuras alusivas às raízes primitivas dos maracatus e, na estreia dos festejos carnavalescos, o MNPR foi especialmente homenageado. A abertura oficial ocorreu durante o Baile da Cidade realizado no clube Class Hall, momento em que, ratificando o caminho metodológico percorrido na condição de pesquisador participante, tivemos a oportunidade de participar do cortejo como vassalo da rainha e de seu rei.

Outro momento de tributos deu-se durante a abertura da Festança das Ruas, iniciada no palanque do monumento Marco Zero. Autoridades e músicos renderam homenagens à orquestra de batuqueiros, à rainha e seu rei, que representaram a corte do Porto Rico com alegria e altivez.

Assim sendo, trazemos uma leitura reflexiva acerca da trajetória da ‘brincadeira séria’, utilizando o caminho metodológico da pesquisa participante que exige do pesquisador não somente a observação atenta, a percepção aguçada, mas também, a habilidade para aquisição de confiabilidade durante o convívio perante os responsáveis pelo MNPR. Como coloca Brandão (2006, p. 52), a pesquisa participante é “um corajoso salto além da observação participante [...], pois cria um contexto de trabalho ao ser partilhado em pleno sentido, como processo de construção do saber e como produto de saber conhecido e posto em prática”.

Isso posto, desenvolvemos o texto em três partes além introdução. Primeiramente, o MNPR é situado geograficamente com destaque para os aspectos pertinentes ao percurso de sua criação na zona rural de Pernambuco até sua concretização na cidade do Recife. Em seguida, abordamos elementos da construção identitária, desde os tradicionais aos contemporâneos, inserindo-se nesse processo as construções e ressignificações surgidas como elementos de base na trajetória de construção dos territórios do MNPR. Na terceira parte, são tecidas algumas considerações sobre as relações mantenedoras dos maracatus com destaque para o grupo foco deste estudo.

2 – O LIMIAR DAS PRÁTICAS DO MARACATU NAÇÃO PORTO RICO

Tanto o folclórico como os primitivos são resíduos do passado dentro do presente, seres curiosamente arcaicos que emergem como anomalias temporais dentro do contemporâneo” (EAGLETON, 2011, p. 44).


Parametrar dia, mês e ano para o início de uma manifestação popular é enquadrá-la nos princípios de homogeneidade e inflexibilidade que geralmente se inserem nas exigências burocráticas das normas e procedimentos estabelecidos pelo Estado. Na realidade, os princípios das manifestações populares residem em procedimentos cotidianos heterogêneos e flexíveis, que se moldam e se ressignificam coletivamente a cada relação social em determinados tempos e espaços.

Essa observação é importante para se relativizar a data oficial de instituição do MNPR, estampada em seu estandarte como sendo 07 de setembro de 1916 (Figura 1), provavelmente para atender as exigências burocráticas do Governo com o intuito de ‘oficializar a brincadeira’ e evitar a marginalização de seus praticantes.



Com efeito, Santos (2009, p. 45) traz a retrospectiva do MNPR considerando a necessária flexibilidade para a sua história e assinalando três importantes momentos. O primeiro, em data imprecisa do século XIX, quando, pela oralidade, registra-se a ocorrência do Maracatu em um sítio denominado Palmeirinhas, situado no município de Palmares, distante 128 quilômetros da capital do estado de Pernambuco, “sob a liderança de João Francisco do Itá”. Este senhor se dizia remanescente do quilombo dos Palmares e, de acordo com Santos op. cit., após longa existência neste sítio, o Maracatu interrompe suas atividades e reaparece “algum tempo depois”, mais precisamente, no bairro Água Fria da capital, Recife, desta feita, liderado por Zé da Ferida, correspondendo assim ao segundo momento.



Figura 1: Estandarte do Maracatu Nação Porto Rico.

Foto: Oliveira, E.A. Trabalho de campo, 2016.


Ainda de acordo com esse autor, o Maracatu manteve-se ativo nos desfiles carnavalescos até a década de 1950, quando morreu seu líder. Esse relato faz crer que tenha sido Zé da Ferida o responsável pelo registro do grupo em 1916. Mas, com sua morte, deu-se outro período de suspensão das atividades do Maracatu e, o ressurgimento em 1967, corresponde ao terceiro momento tratado por Santos sucedeu graças ao trabalho de “restauro” feito por “Eudes Chagas, com o apoio de Luiz França, de Veludinho do Leão Coroado e da antropóloga Katarina Real, com o nome de Porto Rico do Oriente” (PEREIRA & SANTOS, 2009, p. 45).

Santos (2009) destacam a data de coroação do babalorixá Eudes Chagas, juntamente com sua rainha Merolina Pimentel, D. Mera, em 10 de dezembro de 1967, bem como sua liderança espiritual no terreiro de Candomblé até seu falecimento, em 1978.

A evolução do MNPR é também tratada por LIMA (2012, p. 208) ao se referir à fundação do Maracatu no bairro Água Fria. Ele também narra a passagem de Eudes Chagas que por sua vez, após sua morte, “foi rearticulado por Armando Arruda”, de forma que assim chegasse aos integrantes atuais sob a liderança de Elda Viana, desde 1980.

D. Elda Viana era a rainha de Eudes Chagas e, por essa condição, permanece rainha,. Diferentemente da história pregressa do Grupo, essa mulher, ialorixá, assume o comando das atividades práticas e espirituais do MNPR, como será exposto mais adiante. Atualmente, a sede está na comunidade do Bode situada no bairro do Pina, zona Sul da cidade do Recife; o rei é o babalorixá Raminho de Oxóssi e o Mestre dos batuqueiros é o filho de D. Elda, Jailson Chacon Viana.

Estudiosos apontam um movimento de reação às dificuldades enfrentadas pelos maracatus na década de 1970, com a intervenção de folcloristas e acadêmicos, como Roberto Benjamim e Katarina Real, em favor de incentivos institucionais aos mestres, reis, rainhas, enfim, aos grupos manifestantes da cultura popular.

É nesse contexto que o MNPR se mantém, assim como tantos outros que conseguem se soerguer e ocupar seus espaços nos desfiles carnavalescos, porém dois aspectos são merecedores de relevo nessa trajetória.

O primeiro concerne à origem do fundador João Francisco do Itá como remanescente do quilombo dos Palmares, situado na Serra da Barriga no atual estado de Alagoas, mas que no passado colonial pertencia à Capitania de Pernambuco. Assim sendo, pode-se afirmar que o quilombo foi, e ainda é, símbolo da insurgência dos africanos contra a condição de escravos. O segundo diz respeito ao papel das brincadeiras e dos cantos na vida laboral dos povos africanos e seus descendentes, tal como descreve TINHORÃO (1972, p.96), ao relatar as observações de um negociante de algodão francês, em 1816, na cidade do Recife: “o movimento contínuo de negros que vão e vêm carregando fardos e se animando mutuamente por meio de um canto simples e monótono”.

De fato, importa reconhecer a grandeza da contribuição do povo africano para as festas populares com seus estridentes sons percussivos, com coreografias ricas e criativas, trajes e adereços coloridos, como também a forma que os maracatus se presentificam nas ruas, se destacando durante os cortejos carnavalescos. Os figurantes brincantes exibem ginga e molejo de corpo que expressam sentimentos de pertencimento das raízes primitivas reinventadas em território brasileiro. Ao que tudo indica, as práticas iniciadas no sítio Palmeirinha permeiam o MNPR que se expressa nos dias atuais, pelo zelo do grupo em manter tradições africanas.



3 – ELEMENTOS IDENTITÁRIOS E RESSIGNIFICAÇÕES

Verifica-se que, na atualidade, existe a preocupação dos membros e defensores do MNPR em manter em seu grupo traços de tradicionalidade que remontam seus primeiros passos de vida, sempre ligados as raízes de descendência africana. Como afirma LIMA (2012, p. 208), “para os atuais articuladores do Porto Rico, é fundamental garantir uma versão que lhes permitam se afirmarem como um maracatu antigo, com data de fundação recuada no tempo (1916)”.

As tradições persistem como importantes elementos identitários, mesmo que ressignificados pelos grupos de maracatuzeiros recifenses, tal como aqui apresentados. Para HALL (1992, p. 41), “a moldagem e a remoldagem de relações espaço-tempo no interior de diferentes sistemas de representação têm efeitos profundos sobre a forma como as identidades são localizadas e representadas”. Em outras palavras, voltando-se para o objeto de estudo, as relações espaço-tempo apresentam-se para os maracatus como suporte que se transforma em trunfo, como um recurso apropriado que possibilita a construção e a concretização dos elementos identitários que vão se ressignificando sem que os grupos percam suas representações enquanto manifestação popular.

As novas construções identitárias no MNPR têm como marco a morte de Eudes Chagas, em 1978, quando a Nação Porto Rico passa para o comando da mãe ialorixá Elda Viana. Com maestria e destreza, Dona Elda posiciona-se em ascensão e notoriedade perante os grupos de Maracatus na região metropolitana do Recife. Na atualidade, ela se apresenta diante da sociedade, como a única rainha coroada na Igreja do Rosário dos Homens Pretos, ainda na década de 1980. Sua capilaridade ante as autoridades institucionais e seu poder de prestígio junto às comunidades religiosas de culto africano recifenses, a exemplo da nomeação de Raminho de Oxóssi, pai de santo como seu rei, justificam o empoderamento sociocultural da rainha Elda e do seu Maracatu Nação Porto Rico diante dos demais grupos e sociedade em geral. Ela promoveu mudanças tanto na estrutura quanto na forma do cortejo ao absorver elementos das escolas de samba do Rio de Janeiro, sobretudo, com relação ao brilho das roupas e ao quantitativo de brincantes.

Ademais, ao assumir o comando da Nação Porto Rico, Dona Elda implementa reformas que alteram a concepção do espaço e das territorialidades do seu grupo, culminando com novas formações territoriais que, em sua dinâmica cotidiana, o levou a formatar seu território em rede. Os elementos identitários tradicionais que configuravam o caráter orgânico preponderante do MNPR são ‘quebrados’ na forma, na estrutura, na composição e na percussão.

O formato do cortejo se avoluma em termos dimensionais quando se introduz as saias de armação que propiciam impacto nos personagens e no próprio desfile. O espaço é ocupado e apropriado com maior visibilidade, o que confere sentimento de orgulho e poder. A nova linguagem adotada, no contexto de ressignificações, verbaliza-se diante da valorização das cores, do luxo dos tecidos de lamê e dos bordados de paetê introduzidos, além do brilho e do glamour de cada brincante e de todo o conjunto.

Ressalta-se que essas mudanças agregaram visibilidade não só ao MNPR, mas também aos demais grupos de Maracatus do Recife, uma vez que estes também promoveram mudanças em seus elementos identitários tradicionais. Desse modo, entende-se que as representações se inserem nas práticas socialmente construídas em que o saber fazer se associa às práticas simbólicas, possibilitando, assim, o sentimento de pertencimento não só dos seus membros, como de toda a comunidade do entorno de onde o grupo tem sede e origem que, de forma direta ou indireta, sentem-se partícipes da manifestação (LIMA, 2012).

Os instrumentos também se inseriram no processo de mudanças e ressignificações. Na condição de elemento identitário, apresentam-se de acordo com o tipo do maracatu, ou seja, naqueles conhecidos como ‘nação ou maracatu de baque virado’ há a predominância de instrumentos de percussão e, nos chamados ‘baque solto ou maracatu de orquestra’, os instrumentos de sopro oferecem-lhe o diferencial. RESENDE (2009, p. 34) esclarece que “além das diferenças na formação instrumental, o baque também muda de uma nação para outra”.

O bombo ou tambor, ou ainda alfaia é o instrumento mais importante na percussão dos maracatus, indispensável para a existência e movimentação dos cortejos. Do ponto de vista material e simbólico, o tambor é o instrumento responsável pela marcação do ritmo e dos passos dos brincantes, possibilitando, assim, a evolução do cortejo. Há uma comunicação entre os sons dos diversos instrumentos cujos diálogos são marcados pelos tambores que, ritmados, produzem sons que são entendidos em sua linguagem como as ‘palavras’: maracatu, maracatu, maracatu!

No MNPR, o Mestre Jailson Chacon, filho de D. Elda, comanda o grupo de percussão, observando-se o significativo aumento da quantidade de percussionistas, a introdução de mulheres instrumentistas, a implantação de oficinas pedagógicas para crianças e adultos na comunidade e em vários estados do país e do exterior e, ainda, a introdução de abês e atabaques. As mulheres executam todos os instrumentos, mas são a maioria como instrumentistas dos abês ou Agabês.

A movimentação do Mestre na ministração de oficinas se estende para a exposição do maracatu em palestras e, correspondem às atividades responsáveis pelo alargamento das fronteiras do MNPR, consolidando e ampliando, cada vez mais, uma rede de ‘batuqueiros’ nas escalas nacional e internacional. RESENDE (op. cit. p. 34), ao ressaltar a importância dos tambores para a essência de cada grupo, afirma que: “O Maracatu Porto Rico vira o baque com perguntas e respostas entre os instrumentos. O Maracatu Encanto da Alegria vira cada tambor individualmente, numa estrutura mais à vontade”. Observa-se, todavia, quer seja no quantitativo ou na formação dos batuqueiros do grupo, o Mestre Chacon preserva as origens por sua ligação religiosa com o candomblé.

Com efeito, a produção e emissão das palavras através dos sons pelos tambores são carregadas de poderosa capacidade de energizar a mente e o corpo tanto dos brincantes quanto dos que assistem ao espetáculo, transportando-as mentalmente para espaços simbólicos diversos. O poder do tambor em inebriar, energizar e fazer receber entidades espirituais eleva o respeito perante o instrumento, bem como fortalece o sentido do ser e pertencer à ‘nação’ quando esta se exibe em cortejo pelas ruas.

No que diz respeito ao sentido da palavra ‘nação’, na ótica relacional de pertencimento e tradição, há que se remontar à identidade inicialmente atribuída pelos africanos a partir de seus cativeiros, “como ponto de referência tanto para o reforço de antigas fronteiras étnicas e territoriais, como para o estabelecimento de novas configurações identitárias, sejam elas étnicas ou não” (SOARES, 2004, p. 308). Dessa forma, permanecem os sentidos das raízes que LIMA (2012, p. 56) atribui ao referir-se tanto para a identificação dos diferentes maracatus quanto para os “praticantes das religiões de divindades e entidades [...] como é o caso da nação nagô, no xangô pernambucano, ou keto no candomblé baiano”.

No entanto, esse autor chama a atenção para a incorporação do termo ‘nação’ na construção identitária atual “com novos significados agregados, sobretudo o aspecto religioso, que nos dias de hoje é imprescindível e definidor de um maracatu que se queira ‘legítimo’ e ‘autentico’ entre seus congêneres” (grifo do autor, p. 57). Sob esse aspecto, Mestre Chacon define o MNPR como uma ‘brincadeira séria’, justificando mais adiante o aspecto religioso atado e associado no sentido de suas práticas, bem como se observou o uso comum e com orgulho do termo ‘nação’ por seus integrantes, tanto nas dependências do barracão como em outros ambientes. Incorporam-se ao sentido de nação os toques dos tambores nos momentos religiosos que evocam e fazem baixar entidades, afirmando a aproximação do MNPR com os terreiros das ‘nações’ nagô.

As calungas merecem destaque tanto quanto os tambores, pois correspondem aos elementos identitários do plano sagrado os quais oferecem obrigações para os santos com pedidos de proteção para o momento do desfile nas ruas. As calungas são portadas pela Dama do Passo que, para merecê-la, exige-se que seja do gênero feminino, que pratique a religião nagô, que seja filha de santo e que experiencie ritual de recolhimento uma semana antes do carnaval e um dia antes do desfile.

No corredor de acesso ao terreiro central da sede do MNPR estão expostas três Calungas: Dona Inês, Dona Elizabete e Dona Bela, as quais representam os eguns, protetores dos membros da comunidade (Figura 2). Mas, durante a preparação para os festejos, o tambor bate toques e cantos específicos para a Dama do Passo e sua Calunga, conformando um “ethos” sincrético com a formação do território religioso do Maracatu. Provavelmente, o posicionamento estratégico das Calungas Eguns na entrada do barracão é justificado diante de tamanha invocação espiritual que representam. Assim, elas constituem elementos identitários sagrados presentes nos Maracatus Nação.