Enzo Traverso



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1 Por isso, o século XIX é, ao mesmo tempo, o século da primeira grande industrialização, e, também, até certo ponto, o século da história. O século do progresso e o século do Romantismo.

2 A produção de valor, com a modernidade, leva a uma expansão enorme desse mesmo conceito: criação de mais-valias através da exploração da força de trabalho, extração de energia da natureza (transformada em objecto, em fonte inesgotável de recursos – e esta palavra não é inócua) através da tecnologia, valorização também de tudo o resto (o não diretamente produtivo), ou seja, tudo quanto possa ser utilizado para fruição de tempos livres, tornados eles próprios produtivos na medida em que são regeneradores da energia humana, tanto do homem-máquina (proletário, o que vende a sua força de trabalho) como do seu empregador (o que a compra, o burguês em busca de uma nobilitação exterior ao puro lucro imediato). É aqui que entra o património, a valorização do aparentemente/imediatamente “inútil”, quer dizer, a noção de que toda a realidade é, em última análise, mercantilizável, seja para os valores económicos produtivos diretos, seja para os valores económicos indiretos, ou valores do “espírito” (v. BAUDRILLARD, 1975, por exemplo). A ideia de “reciclagem” insere-se também aqui: um sistema homeostático, sem perdas.

3 Num efeito de boomerang bem conhecido. Ou seja, uma forma de cultura objetivada pelas elites como popular, passa com o tempo a ser assumida pelos próprios sujeitos assim objetivados.

4 Aquela disciplina, e um controlo, não se exercem já sobre o corpo, como no mundo anterior (o do suplício público por exemplo, como também Foucault nos ensinou - 1975), mas sobre as consciências, quer dizer, sobre o próprio desejo dos indivíduos, devidamente normalizado, enquadrado, nas suas infindas diferenças, entendidas como combinatórias de elementos programáveis. Trata-se portanto de uma mudança epistemológica fundamental, de uma nova concepção do ser humano e da comunidade, em que a pessoa, cada pessoa deve sentir-se (ter a ilusão de ser) “democraticamente livre” para fazer a escolha que o sistema espera dela, num leque que tem vindo a aumentar até à sociedade de consumo. Nesta, cada indivíduo, supostamente autónomo, consumidor consciente, é levado a tratar de si mesmo como um valor: da sua educação, da sua saúde, da sua higiene, enfim, do seu capital, devidamente enquadrado nas estruturas públicas criadas para o efeito. É esta a maneira de estar nas sociedades modernas e sobretudo pós-modernas: a subjetivação dá-se, desde cedo, no sentido de fazer cada pessoa sentir-se senhora do seu destino, responsável por si própria, adentro dos condicionalismos e constrangimentos que a sua condição social e os imponderáveis da vida lhe impõem. Ou seja, a tradição fixa, se é que alguma vez existiu, perde o seu valor, havendo que inventar e reinventar constantemente novas tradições adentro de uma ideologia de inovação e empreendedorismo. Empreendedorismo que se torna imperioso como ideologia (cada cidadão, cada empresário) à medida que a indústria pesada se transforma numa indústria mais leve e sofisticada, que o emprego é substituído pelas máquinas, e que a população dita ativa se torna, como fonte de força de trabalho, cada vez mais desvalorizada, mesmo excedentária, pondo em causa as tradicionais convenções do Estado-nação como estado social, a cuja agonia assistimos hoje.

5 Assim, as comunicações (por estrada e não só) eram, ainda por essa altura, muito deficientes, seccionando em províncias/regiões um território pouco extenso (nomeadamente dividido entre o Norte e o Sul, o Litoral e o Interior), e afastando-nos do resto da Europa, aonde tinham acesso apenas as elites de estrangeirados (com exceção do movimento de emigrantes, em sucessivas vagas).

6 Seriam aliás estas últimas um embrião, entre outros, de um Portugal em mudança, no sentido do liberalismo, que agitou toda a fase oitocentista e viria a desembocar na queda da monarquia. Mas essa mudança de ideias e projetos não afetou a ruralidade ancestral de um país dividido em regiões e com péssimas vias de comunicação que o Estado Novo herdou e até incrementou. Realmente, como vários historiadores têm salientado, a estratégia de Salazar consistia em proceder como se o tempo não existisse, ou seja, ele próprio contribuiu para uma situação em que Portugal era uma espécie de “museu de si mesmo”.

7 Acessoriamente, a nossa fragilidade estrutural como país tornou-se então evidente, ou seja, a incapacidade evidente em que nos encontrámos de fazer face a uma invasão terrestre (tendo inclusivamente a Espanha contra nós em parte do processo), bem como uma certa subserviência em relação ao tradicional aliado britânico que, longe de nos vir ajudar, veio sim ao nosso território defender os seus interesses, como seria de esperar.

8 Se as fortificações e a sua utilização como defesas nunca poderiam ter existido, obviamente, nos inícios do século XIX, sem a participação obrigada das populações, muitas delas retiradas à força das suas tarefas produtivas rurais, hoje elas também obviamente não poderiam ser transformadas em polos de visita sem a adesão voluntária, interessada, das populações atuais, numa época em que a divisão entre “urbano” e “rural” perdeu sentido, e em que cada vez mais as pessoas procuram a “rentabilização” barata de tempos livres, em época de graves restrições financeiras.

9 Diga-se de passagem que em geral este assunto tem interessado mais os investigadores militares que os universitários, havendo, no campo e nos arquivos, uma documentação imensa a estudar. Por outro lado, é rara a conjugação de esforços de tantas autarquias para a realização de um objectivo patrimonial da escala das Linhas de Torres. Estou pois consciente de que, na sua modesta escala, este meu trabalho pode ser útil como mais uma contribuição para desenvolver um tema riquíssimo e polifacetado.

10 Obviamente, tudo o que constar de tal balanço reflexivo envolve apenas a pessoa que subescreve esta dissertação, e não a instituição em que trabalha.

11 Na verdade, a distinção entre, por um lado, natureza e cultura e, por outro, entre património material e património imaterial não tem qualquer sentido conceptual; apenas prático, porque são dicotomias profundamente incrustadas no nosso modo de pensar. Por outro lado, foi-se percebendo cada vez mais como o interesse pelo património é um factor dito de cidadania numa sociedade dita democrática, ou seja, um factor de integração (inclusão) nas formas de funcionamento deste modelo de sociedade e de governo, a que chamamos democracia (GUILLAUME, 2003). Contudo, não só as entidades que regulam o ambiente nem sempre estão, sobretudo a nível nacional, devidamente articuladas com as que regulam o património cultural – o que se nota na estrutura dos governos mas também, obviamente, na legislação – e que não pode deixar de ter reflexos ao nível local, como também, cada vez mais, se tem assistido a um desequilíbrio da democracia no sentido de criar um aparelho gestionário muitas vezes distanciado da maioria das populações, dos seus interesses, das suas capacidades de participação (para além do formalismo do voto e da retórica dos discursos). A problemática é bem conhecida.

12 Na época da fluidez (a modernidade líquida de Bauman) (BAUMAN, 2000) e de sentidos em permanente processo de deriva (como acentuou Derrida em toda a sua obra – v. por exemplo DOOLEY e KAVANAGH, 2007) o museu pareceria vocacionado para a fixação de sentidos, ou seja, para o fornecimento de narrativas-âncora através da contemplação de realidades passadas. Mas a verdade é que, na ânsia de cativar públicos, e portanto no desejo pós-moderno do consumo insaciável, o museu se tem vindo cada vez mais a ampliar o seu âmbito temático e os seus métodos comunicacionais, e a tornar-se uma máquina hedonística com recurso às tecnologias de ponta e à propagação de discursos e imagens que visam menos o entendimento, o conhecimento, do que a distração e o divertimento – numa atitude tipicamente pós-moderna. O museu une assim (pelo menos como projeto e ideologia) a sua tradição de aparato sério, nobilitador (veja-se como uma obra de arte só o é por ser musealizável/musealizada) a instrumento lúdico de entertainment de massas, inserido na sociedade de consumo dos media e da imagem. Trata-se da outra face do centro comercial, como é bem sabido; e a visita do local musealizado (qualquer que ele seja) visa corresponder a um desejo de novidade e, ao mesmo tempo, de distração, que é aquilo que o sujeito consumidor procura.

13Mais a longo prazo, numa perspectiva democrática não apenas institucional e gestionária (aliás neste momento em larga medida comandada por instâncias internacionais), mas sobretudo interna, qualitativa, ou seja, avaliadora da melhoria de condições de bem-estar das populações reais, interessa-me saber quais os impactes da nossa investigação e ação nessas populações, e que caminhos devem prosseguir. Nesse sentido, estou consciente de como a nossa tarefa (a de toda uma equipa envolvida) neste projeto se integra num objetivo muito mais amplo e abrangente, que é o da modernidade e mesmo da pós-modernidade, como atrás referi – o de uma pretendida democratização, pelo menos ao nível dos discursos (acentuo, ao nível da retórica dos discursos) - da chamada cultura como factor de equilíbrio psicológico e portanto de bem-estar, de integração social e de autonomização (subjetivação) positiva das pessoas. Que será essa subjetivação positiva? Creio que se pode considerar como a aquisição, por parte de cada indivíduo, de um equilíbrio emocional e profissional satisfatório que, nas condições atuais, é de facto um desiderato muito difícil: como obter uma singularidade sem com isso por em causa a fundamental situação de cada pessoa como elemento na e para a comunidade. Uma comunidade, aliás, em “crise” de tipo inédito, nos dias que correm.

14 Apenas para se ter uma ideia das perspectivas que Ingold abre, veja-se o que escreve ele (em termos inclusivamente auto-críticos), nas págs. 126 e 127 daquela obra (capítulo 10 – “Landscape or Weather-World?”) (justifica-se aqui uma citação longa, dada a importância do que é dito, sendo interessantíssimo todo o texto):“As teorias de como as pessoas percepcionam o mundo em torno delas – incluindo as teorias que eu próprio pus em evidência (INGOLD, 2000) – geralmente partem do pressuposto de que este mundo é terrestre. É um mundo no qual podemos esperar encontrar aspectos do terreno tais como colinas e vales, montanhas e planícies, interceptadas por localidades habitadas tais como como aldeias ou cidades e atravessadas por caminhos, estradas e correntes de água. Para descrever um mundo assim, é habitual usar a palavra “paisagem” [“landscape”]. A palavra tem uma história complicada. De proveniência alto-medieval, referia-se originariamente a uma área de terreno ligada às práticas diárias e usos habituais de uma comunidade agrária. Contudo, a sua subsequente incorporação na linguagem da representação pictórica – sobretudo através da tradição da arte holandesa que se desenvolveu no século XVII – levou gerações de estudiosos a equivocarem-se acerca do sufixo “– scape” [o autor refere-se obviamente a “landscape”] pensando ser um particular “regime escópico” de observação detalhada e desinteressada. Parece que foram enganados por uma semelhança superficial entre “scape” e “scope”, a qual é, de facto, inteiramente fortuita e não tem qualquer fundamento na etimologia. “Scope” vem do grego clássico “skopos” – literalmente “o alvo do arqueiro” (...) – do qual deriva o verbo “skopein”, “olhar”. “Scape”, pelo contrário, deriva do inglês antigo “sceppan” ou “skyppan”, significando “dar forma” (...).

“Os medievais que deram forma à terra não eram pintores mas agricultores (...). A forma, para eles, era tão intrínseca à constituição da terra como a tecelagem para a constituição do vestuário. (...). Este [trabalho da terra] era trabalho feito em atitude de proximidade, num envolvimento imediato, muscular e visceral com a madeira, as ervas e o solo – o completo oposto da óptica distanciada, contemplativa e panorâmica que a palavra “paisagem” [“landscape”] imediatamente traz como imagem a muitas mentes de hoje. Contudo, a equação da forma da paisagem com a sua aparência [“look”] – do “scaped” com o “scopic” – instalou-se firmemente no vocabulário da história da arte modernista.” (INGOLD, 2000, pp. 126 e 127). E, a acentuar essa ideia, num outro trabalho o mesmo autor escreve: “Gostaria de concluir com a sugestão de que, para compreender bem as realidades da vida quotidiana, faríamos bem em voltar a uma forma de entender a paisagem mais antiga – uma forma mais próxima do chão, mais háptica do que óptica.” (INGOLD, 2012, p. 17 do manuscrito).



15 Curiosamente, as modernas formas de visita e de turismo, nomeadamente aquelas que, como no caso em estudo, apelam para a ideia de rota e até de caminhada ou passeio pedestre (v. INGOLD e VERGUNST, 2008) baseiam-se talvez, entre outros aspectos, numa atitude nostálgica pós-moderna que parece querer recuperar (idealmente, claro) a experiência “originária” de envolvimento do corpo (performance, podíamos dizer, apesar da polissemia da palavra) e de todo o ser humano no seu trabalho artesanal (antes da sofisticação das máquinas como intermediárias ou dos instrumentos de observação/registo como os binóculos ou as câmaras fotográficas), manifestando o sentimento de perda e o desejo de sutura que toda a atitude patrimonial implica (cf. por exemplo o capital livro de Marc Guillaume, “A Política do Património”, publicado em Paris em 1980 e em Portugal em 2003) (GUILLAUME, 2003).

16 O olhar militar, “racional e objectivo”, está aliás profundamente ligado à geografia como “ciência das paisagens”, lembrando o célebre livro de Yves Lacoste “A Geografia – Isso Serve, Em Primeiro Lugar, Para Fazer a Guerra” (LACOSTE, 1989).

17 Nomeadamente, este autor refere que à “combinação de elementos setentrionais e meridionais” se juntam, na Estremadura, região complexa: “(...) a variedade de composição geológica dos terrenos, a que a vegetação e as culturas são sensíveis. Nos arredores de Lisboa, por exemplo, os barros basálticos dão campos limpos e abertos destinados à cultura de cereal; os calcários secundários, charnecas abandonadas ao mato e pasto; os calcários terciários cobrem-se de olivedo; as baixas argilosas, de hortas regadas; o pinhal reveste as colinas de arenito improdutivo.” (RIBEIRO, 1967, p.151)

18 Acrescentam ainda aqueles últimos autores (op. cit., p. 460): “ O povoamento rural estremenho é pouco organizado, ou mesmo deslaçado. As aldeias vão crescendo um pouco ao acaso: cada filho de morador constrói a sua casa onde lhe apetece, sem respeitar arruamentos nem planos prévios. Por entre as aldeias surgem casas isoladas. A dispersão anárquica das habitações traduz uma sociedade rural individualista, praticamente sem usos comunitários.” Na verdade, criaram-se ao longo do tempo, na Estremadura moderna, novas centralidades e suas periferias, e também se deu a proliferação bem conhecida (e frequentemente caótica) na área metropolitana de Lisboa de uma série de novas concentrações habitacionais, que começaram por ser bairros dormitórios e depois se foram transformando em “cidades periféricas”, com grande abundância de centros comerciais, mesclados com pequenas zonas industriais, hortas, campos de pastoreio, etc. – numa paisagem em “patchwork”. Mas, prova dessa mesma diversidade, são entre outros os observatórios de paisagem incorporados na Rota Histórica, como por exemplo o chamado Monumento a Hércules, em Alhandra, no extremo SE da Serra de S. Lourenço (Vila Franca de Xira), donde se pode observar toda a planura da zona ribatejana, a foz do Tejo, assim como sucessivas elevações a distância. Está implantado de tal forma que de lá se avista uma paisagem fortemente rural e, ao mesmo tempo, permite uma compreensão clara da ligação entre o vale do Tejo e as Linhas de Torres, tornando-se local de interessante visita. Outro exemplo, entre muitos (todas as fortificações da RHLT são obviamente observatórios de paisagem) é o alto da Serra do Socorro (Mafra), onde esteve implantado um poste der sinais do sistema de comunicação usado à época. Daí a paisagem que se vê é de novo predominantemente rural, com pequenas parcelas agrícolas separadas por muros ou sebes vivas, características da zona, ponteada por casas ou antigas quintas e vendo-se ao longe o Atlântico.

19 E afirma: ““(...) o jogo de palavras que propõe Jean-François Lyotard não deixa de seduzir pela sua força heurística: a paisagem, “landscape” (...) é também “scapeland”, terra [traduzo assim a palavra francesa “pays”] da fuga, terra que escapa, lugar inalcançável que se esquiva e onde o observador e o comentador podem também esconder-se. É sob o signo da ambiguidade que se situa qualquer tentativa de definição e de discurso sobre a paisagem.“Uma das primeiras dificuldades tem a ver com o facto da paisagem se definir tanto por aquilo que vemos nela que por aquilo que nela não vemos. O que os geógrafos chamam as “extensões mascaradas” ou os “espaços em desfile” participa na definição desta captura parcial pelo olhar: para a geografia, a paisagem é uma vista de uma porção do espaço terrestre em que a proporção e a disposição das extensões mascaradas dependem, por um lado, das formas do relevo, da vegetação e, por outro lado, da localização (em particular da altitude) do ponto de observação (...). Um mesmo espaço pode ter paisagens diferentes de acordo com os pontos donde é observado.” (GENDRAT-CLAUDEL, 2007, p. 48)


20 De tudo isto não se pode arredar o tempo, porque espaço e tempo estão sempre implicados mutuamente; espacializamos o tempo como temporalizamos o espaço: o ser humano, na sua vivência, é avesso à uniformidade contínua destes princípios, ao carácter amorfo, unitário, fluido, do tempo e do espaço. O tempo na nossa percepção imediata é algo abstrato, que escorre, e então é dividido, medido em unidades, que pontuam tarefas e permitem a sua ligação a unidades do espaço, o qual deixa de ser homogéneo para ganhar em heterogeneidade qualitativa, povoando-se de lugares e caminhos entre lugares, e portanto de emoções e recordações. De notar ainda que a concepção europeia do tempo, herdada do Cristianismo, é a de um tempo cronológico, homogéneo, sucessão de pontos (instantes), com um princípio e um fim. Essa concepção tradicional está hoje posta em causa por diversos autores, que vão de Walter Benjamin a Giorgio Agamben (v., deste último, “Enfance et Histoire”, AGAMBEN, 2002). Ora, a subversão deste conceito teleológico de tempo terá, sem dúvida, consequências importantíssimas numa visão alternativa do espaço, e também numa possível revisão da ideia moderna de paisagem.

21 Embora, em rigor, num palimpsesto haja fragmentos de textos, ou seja, de sentidos, sucessivos, e, como é óbvio, só metaforicamente se pode ver a paisagem como um “texto”. (WIDGREN, 2004)

22 Isto é, como afirmava Lévi-Strauss poucos anos antes de falecer, numa entrevista que refiro de memória, já não há “natureza” (que aliás é um conceito moderno, a outra face da “cultura”).

23 É também o que acontece com a expressão “cultura material”, tão difundida nos países anglo-saxónicos. Tim Ingold, da Universidade de Aberdeen, entre diversos outros autores (v. por exemplo T. Ingold, in Jorge e Thomas, 2006/2007), criticou bem esta noção, ao chamar a atenção de que a expressão sugere uma velha dicotomia: a de um mundo material constituindo uma “camada de base” ao dispor do ser humano, sobre o qual este estenderia outra camada, o “lençol” da cultura...como se esta dicotomia não fosse típica apenas da metafísica ocidental, e portanto exótica, não generalizável. No campo da arqueologia, Julian Thomas e Vítor Oliveira Jorge igualmente questionaram este conceito (JORGE e THOMAS, 2006/2007).

24 Sahlins aliás caracterizou as modernas sociedades de consumo - por oposição às chamadas sociedades primitivas, que seriam de abundância, ao contrário do que o nosso senso comum indica - como sociedades de escassez (SAHLINS, 1983).

25 Mas o Estado-nação ainda não acabou para certos sectores (como o da cobrança de taxas, e em geral o aperto da vigilância, na mira de tudo abarcar), antes se reforçou como aparelho de controlo e policiamento, ao mesmo tempo que encoraja os seus cidadãos a emigrarem ou lhes pede esforços impossíveis no sentido de contribuírem com o rendimento do seu trabalho para cobrir as especulações do sistema financeiro globalizado. É importante perceber como este funciona para compreender o papel da cultura e do próprio lazer das pessoas como formas de aumento de valor (v. HARVEY, 2005, cap. VIII – A arte da renda: a globalização e a transformação da cultura em commodities). Quer dizer, entrou-se numa época de descrédito (para usar uma palavra cara a Bernard Stiegler – v. STIEGLER, 2009) absoluto dos poderes ditos democráticos, o que põe em causa de forma radical o acesso da maioria das pessoas a consumos culturais que, ainda há alguns anos, seriam considerados direito inalienável dos cidadãos/consumidores. Isso repercute-se em tudo, não se podendo neste momento prever qual o cenário ou cenários que esta mudança histórica acarretará.

26 Trata-se da comercialização da experiência e da aventura (e tendencialmente, da vida toda; a mercantilização estende-se sobretudo aos “territórios do espírito”, quer dizer, e como já disse, do desejo, colonizando-o no seu âmago e envolvendo o chamado trabalho gratuito, como por exemplo quando usamos o facebook, alimentando assim um negócio mundial de escala inacreditável) – eis o que é em particular o turismo, basicamente, como sintoma por excelência do mundo contemporâneo. Turista (o que faz o “tour”, a viagem) é aquele que circula mais ou menos permanentemente ou ritmadamente entre lugares de consumo/fruição, com o objetivo de encontrar novas experiências de todo o tipo. O capitalismo é uma máquina incessante de extração e acumulação, e hoje dirige-se cada vez mais ao chamado “imaterial”, ao desejo e à intimidade.

27 Três termos hoje em dia correntes e que caracterizam normalmente formas de comportamento de indivíduos predominantemente jovens, sendo o geek atraído por novidades e tecnologia de computadores, tal como o hacker, e sendo o nerd um estudioso compulsivo que muitas vezes tem fascínio pela tecnologia.

28 Ver em anexo um excerto de Orientações Técnicas para Aplicação da Convenção do Património Mundial (atualização de 2012). Nesse documento (pp. 70-71) acrescenta-se: “7. Devem ser escolhidas com base no seu Valor Universal Excecional e na sua representatividade em termos de região geocultural claramente definida e da sua capacidade de ilustrar os elementos essenciais e distintivos de tais regiões.

8. A expressão «paisagem cultural» abarca uma grande variedade de manifestações interativas entre o homem e o seu ambiente natural.

9. As paisagens culturais frequentemente refletem técnicas específicas de utilização sustentável das terras, tomando em consideração as características e os limites do ambiente natural em que são estabelecidas, bem como uma relação espiritual específica com a natureza. A proteção das paisagens culturais pode contribuir para técnicas modernas de utilização sustentável das terras e para a manutenção dos valores naturais da paisagem. A existência continuada de formas tradicionais de utilização das terras mantém a diversidade biológica em muitas regiões do mundo. Daí que a proteção das paisagens culturais tradicionais seja útil para a manutenção da diversidade biológica.”


29 Trata-se de um tema para um interessante colóquio interdisciplinar, cuja sugestão aqui fica, e que poderia ter o seguinte título, por exemplo: “RHLT – paisagem cultural, conjunto de paisagens culturais, ou Conjunto no sentido da UNESCO?”. Lembro qual a definição de Conjunto(s) de acordo com a Convenção do Património Mundial de 1972, artigo 1º: “grupos de construções isolados ou reunidos que, em virtude da sua arquitetura, unidade ou integração na paisagem, têm valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência.” (op. cit. na nota anterior, p.22).

30 A partir do momento em que, com a modernidade, se perderam as relações inquestionáveis com a transcendência como suportes da ordem do mundo e razão de ser do estatuto dos súbditos do rei (representante na Terra desse antigo poder divino), a questão da identidade (individual e de grupo) levantou-se como premente. Era preciso encontrar um novo fundamento da ordem (uma nova “archè”). E assim se inventou a ideia de povo e de tradição, e se procurou nas supostas raízes longínquas de ambos a base imanente onde assentar novos suportes e fundamentos da(s) identidade(s).

Musealizar é procurar estancar o tempo, fechar alguma coisa (ou algum território...) numa redoma, por forma a mantê-la tanto quanto possível conservada na sua identidade, intacta: parando o processo de obsolescência/desgaste que todo o tempo em geral implica, e devolvendo a coisa a um novo uso, o do inútil; quer dizer, transfigurando a coisa num objecto polissémico e idealizado. Numa palavra, sacralizado (no sentido que lhe dá por exemplo AGAMBEN, Profanações, 2006), dado que a característica do sagrado é a de ser algo apartado da vida comum das pessoas, longínquo, de algum modo inacessível, e portanto situado num plano semiologicamente superior. Se este olhar – porque de objetos de visão antes de tudo, aqui, se trata – começou por se concentrar em realidades de pequena escala, os artefactos ou peças raras de antiquários, com o tempo esse olhar, como acentua J. Thomas (1993, p. 19), deslocou-se para contextos cada vez mais amplos, até chegar à noção abrangente de paisagem.



31 Claro que nem sujeito nem objecto são aqui realidades estáticas, como já disse atrás; muito ao contrário. O sujeito observador desloca-se na paisagem, está (quase) sempre de passagem; e vê-a como um conjunto de “fotografias”, ou de postais ilustrados, sempre em movimento. Essas várias experiências, que são sinergéticas, na medida em que envolvem o corpo em deslocação, e outros sentidos que não apenas o da vista, proporcionam uma vivência global que solicita continuamente o trabalho de memória na sua dupla faceta de rememoração e de esquecimento.O museu (pós)moderno, como a paisagem, deixam progressivamente de ser realidades externas ao sujeito, ao visitante, para cada vez mais o abarcarem, o incluírem, permitindo uma experiência mais global do que a simples contemplação, uma experiência fenomenológica envolvente, que implica o corpo e os sentidos, e deixa assim impressões, marcas, mnemónicas sobre as quais a memória trabalha.

O sujeito (pós)moderno não quer sentir-se um mero agente passivo de visionamento de um espetáculo que se projeta diante dos seus olhos: ele “entra no filme”, por assim dizer, deseja ser envolvido e obter uma experiência emocionante que o transporte para fora da sua subjetividade corrente. Não quer re-presentação, quer apresentação. Não deseja a narração do evento “a posteriori”, quer fazer parte do evento, entrar no âmago da coisa, e não apenas contemplá-la. Aspira a ser capturado integralmente, implicado nessa experiência, mergulhar na realidade (mesmo que seja uma hiper-realidade). De certo modo, busca uma certa mística do presente e do vivido, uma intensidade da experiência que tem o seu limite ou paradigma no orgásmico.



32 Produto de consumo, pois, e portanto forma de mercadoria das chamadas indústrias culturais, destinadas a servir os interesses do lazer, a paisagem, ainda por cima sobrecarregada, canonizada, com o epíteto nobilitante de “cultural”, musealizada para tentar fixar um sentido e garantir a sua manutenção (pelo menos num conjunto de características identitárias resistentes ao tempo), é um objecto de desejo compreensível, no contexto contemporâneo. Unindo o natural, o cultural, e o lúdico, e impressa com o selo de garantia das instâncias competentes, é o produto ideal da sociedade hedonista pós-moderna. Esta sociedade valoriza enormemente o local, mas um local que é já o contraponto do, e a resposta ao global, e portanto todo o esforço de originalidade assenta à partida numa resposta à uniformização do mundo. Uniformização, bem entendido, que se dá - que integra - (n)um quadro de especificidades: o que qualifica uma paisagem cultural é a sua unicidade, o seu carácter único e irrepetível, mas o que importa é esse carácter irrepetível ser emoldurado por uma moldura de regras de qualificação universal (as regras que presidem à classificação como paisagem cultural, obviamente), e portanto por uma marca de qualidade que a certifica como de interesse geral.

33 Portanto, nem mesmo o epíteto de património, de vernacular, por exemplo, ou mesmo de material ou de imaterial, estancam qualquer realidade estável, porque se assume a mudança, a multidimensionalidade, a diversidade de aspectos/propostas que uma paisagem de fruição deve ter, e também que a sua leitura/vivência por parte de pessoas diferentes necessariamente implica. Por isso este é um culto, não de objetos estáticos, como o dos antigos templos ou museus, mas de realidades tanto quanto possível dinâmicas, interativas, percepcionadas como vivas. Uma experiência em que sujeito e objecto acabam por se confundir, como numa fita de Moebius. O que se pede ao museu, ao valor que está morto, hoje, é que ressuscite (que entre de novo em circulação rápida, como o capital), pela interação do passado com o presente, do passado feito presente (onde as chamadas novas tecnologias têm sempre que possível uma grande importância, está claro).

34 Por isso também muitos serviços culturais se estão a transmutar, certamente para justificar a sua existência em autênticos produtores de eventos “ad hoc”, improvisados, com parcos recursos. Multiplicam-se espetáculos, passeios mais ou menos culturais, etc.,. As reconstituições históricas, por exemplo, têm um grande impacte junto do público; perante um futuro imprevisível, a mercadoria “passado” tem sempre compradores.

35 Relembro uma vez mais que a Unesco organizou em 1972 a Convenção do Património Mundial, a partir da qual foi possível um processo de classificações de tal património, com base na ideia do “valor excepcional” de cada um dos bens nele incluídos. Refletia-se porém nessa resolução e na definição de um bem a dicotomia natural-cultural, tão típica da nossa cultura, o que veio a criar algumas ambiguidades. Assim, vinte anos depois, em 1992, foi consagrado por aquela organização o conceito de paisagem cultural. Como escreve J. Santilli (http://uc.socioambiental.org/áreas-de-patrimonio-cultural/paisagens-culturais):“(...)Foi apenas em 1992, no mesmo ano em que se realizou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, que a Unesco adotou a categoria “paisagem cultural”, valorizando todas as inter-relações entre homem e meio ambiente, entre o natural e o cultural. As paisagens culturais, para serem incluídas na lista do património mundial, devem ser selecionadas pelo seu valor universal, pela sua representatividade em termos de uma região geocultural claramente definida e pela sua capacidade de ilustrar elementos culturais distintos dessa região. O conceito de paisagem cultural abarca também as ideias de pertencimento [pertença], significado, valor e singularidade do lugar.”A Unesco tem vindo ao longo do tempo a especificar um conjunto de critérios-guia operacionais para esclarecer as condições de candidatura e correlativamente de classificação dos bens integráveis na Lista do Património Mundial.

36 Sintra, juntamente com a Arrábida, constitui, perto de Lisboa, um verdadeiro “pulmão” compensador da poluição citadina, e uma mais-valia paisagística, representativa, em traços largos, de um ambiente “atlântico”, por oposição e em complemento feliz à mediterrânica Arrábida, como Orlando Ribeiro não se cansou de referir na sua obra. É um destino turístico muito antigo e prestigiado. Em 1995, o ICOMOS, adentro das suas competências (como organismo criado por proposta da Unesco), redigiu um relatório sobre Sintra – serra e cidade – e suas potencialidades enquanto paisagem rica em atributos naturais e históricos. Próxima de Lisboa, com características urbanas (em população e equipamentos), mas também integrada no Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC), zona tradicional, nobilitada, de lazer e turismo, a área tinha obviamente todos os elementos a aconselhar a sua classificação. E assim aconteceu a 6 de Dezembro de 1995. Sintra foi incluída na Lista do Património Mundial, na categoria de Paisagem Cultural (Duarte, 2010, p. 24), a qual abrange as freguesias de Santa Maria, São Miguel, São Martinho, São Pedro de Penaferrim e de Colares. Para além dos seus valores naturais, Sintra é reconhecida pelo ICOMOS como uma zona que, pelos seus jardins e parques, pode ser integrada nas paisagens concebidas e intencionalmente criadas pelo homem; pela forma como articula a manutenção do antigo (nomeadamente de cariz romântico) com o atual, é uma paisagem que evoluiu organicamente; e ainda, tem valores diversos associados que lhe conferem especial significado. Assim, pela sua diversidade, em perfeita simbiose, encontram-se em Sintra (cidade e serra) características de vários tipos de paisagens culturais considerados pela Unesco. Esta valoriza, precisamente, a sobreposição (diversidade) desses “tipos” na mesma realidade a classificar. E o relatório do ICOMOS, de 1995, acentua: “É difícil encontrar na Europa, ou mesmo no mundo, um paralelo exato [para Sintra] devido à sua complexidade e à característica simbiose entre o património natural e o construído.” (cf. Duarte, op. cit. supra, p. 35).

37 O Alto Douro Vinhateiro foi classificado pela Unesco em 2001 como paisagem cultural evolutiva viva (cf. por ex. LOURENÇO-GOMES, REBELO, 2012, p. 3). Trata-se de uma vasta área, pertencente à Região Demarcada do Douro (RDD), com 24.629 hectares, cujo eixo é evidentemente o rio Douro (com parte dos seus afluentes Varosa, Corgo, Távora, Torto e Pinhão) e abrange territórios de 13 concelhos, de Mesão Frio a ocidente até Vila Nova de Foz Côa/Torre de Moncorvo a oriente. Praticamente transcrevo nos parágrafos a seguir (de modo algo livre, e seguidos de breves comentários) os três critérios que presidiram à classificação pela Unesco.

A região do Alto Douro é produtora de vinho há cerca de 2000 anos, e a sua paisagem foi moldada pelas atividades humanas. Realmente, existe também o cultivo da oliveira, hortas e laranjais, o amendoal, além de matos mediterrânicos e matas e povoamentos florestais, mas a paisagem - independentemente de outros aspectos (encostas frequentemente alcantiladas do Douro, muito diversificadas nas suas formas, e de grande impacte estético, por exemplo) – é sobretudo marcada pelo cultivo secular da vinha. Trata-se de um autêntico mosaico paisagístico, como acentuam diversos autores (v. op. cit. supra). As componentes da paisagem do Alto Douro são representativas de toda a série de atividades associadas à produção de vinho: terraços (socalcos), quintas (complexos agrícolas produtores de vinho), aldeias, capelas e estradas. A paisagem cultural do Alto Douro é um exemplo relevante de uma região tradicional europeia de produção de vinho, refletindo a evolução desta atividade ao longo do tempo. Apesar da tipologia dos vinhedos ter mudado ao longo do tempo, até hoje, a “referência fundamental” da paisagem cultural do ADV são os muros de xisto, como referem os autores citados (LOURENÇO-GOMES, et al, 2012, p. 7). Assim, e ainda como tópicos resumidos por estes mesmos autores (idem, ibidem, p. 6), três aspectos são enfatizados na classificação do Alto Douro pela Unesco: “(...) Obra humana; Paisagem cultural evolutiva viva; Elementos culturais na paisagem.” No Alto Douro português estamos perante uma das paisagens mais humanizadas do mundo e, ao mesmo tempo, uma das mais impressionantes do nosso país (talvez mesmo, juntamente com a zona de Sagres e costa vicentina, um dos ambientes mais inesquecíveis, a nível internacional, de toda a realidade portuguesa). Paradoxalmente, antes do desenvolvimento da vinha em larga escala, da construção do caminho de ferro (1887) e das barragens, o rio Douro e áreas terminais dos seus afluentes (inclusive com a sua riqueza em termos arqueológicos) deveria ter sido algo de ainda muito mais marcante; mas isso (salvo no Côa) fica sobretudo na nossa imaginação e nostalgia.



38 O conjunto monumental de Aranjuez situa-se nos arredores (47 km) de Madrid, Espanha, na confluência dos rios Tejo e Jarama, e numa área de veiga com clima muito mais ameno, no estio, do que o da capital, constituindo por isso um excelente local para residência temporária da corte. É constituído pelo Palácio Real, o chamado Jardín de la Isla (a norte do Palácio, e confinando com o Tejo), a estrutura urbana antiga, de planta geométrica, o Jardín del Príncipe (bastante amplo, com 150 hectares, que vão também até ao rio Tejo) e toda uma extensa zona abarcada pelas hortas históricas, por caminhos ladeados de árvores, por paisagens agrícolas e pela denominada Reserva del Regajal ou Mar de Ontígola. A Unesco classificou-o como paisagem cultural integrada no Património da Humanidade a 14 de Dezembro de 2001. É, no seu conjunto, um exemplo muito importante de arquitetura da paisagem, materializando concepções diversas de ordenamento de território, ligado à Coroa. Data da época de Filipe II (século XVI) a primeira grande fase do projeto, com influências estrangeiras trazidas pelo rei, a partir das suas viagens na Europa. Mais tarde, é com Carlos III (1759-1788) e o seu absolutismo iluminado que continuam as grandes obras e o desenvolvimento arquitectónico deste gigantesco espaço construído, área pioneira de implementação de ideias racionalistas de ordenação de um microcosmos “perfeito”. Mas, evidentemente, este grande complexo, que conheceu momentos de esplendor como também de menor atividade, está ainda ligado a outros monarcas e, obviamente, a um enorme conjunto de arquitetos, artistas, engenheiros, etc., que ao longo do tempo para eles trabalharam. Como se escreve (e eu traduzo) em http://www.aranjuez.es/index.php/patrimonio, página da Câmara Municipal local, “(...) a paisagem cultural de Aranjuez é uma entidade muito singular e definida que se configurou a partir de relações complexas e históricas que nela se desenvolveram, entre a natureza e a obra do homem, entre os leitos sinuosos dos rios e o desenho geométrico implementado no território, entre a vida urbana e a rural, entre a natureza silvestre do bosque e as refinadas obras arquitectónicas.” Paisagem de água (engenharia hidráulica), paisagem agropecuária, jardins como lugar de deleite e harmonia, paisagem geometricamente ordenada, paisagem construída a partir do Palácio Real, da cidade urbana e da parte rústica: são todas essas valências que se concentram em Aranjuez, e que aquela mesma fonte acentua. Não admira pois que a Unesco tenha classificado este Património Mundial integrando-o nos seus critérios II e IV, a saber (e volto a transcrever a fonte supracitada, revertendo-a para português): “Segundo o Critério II, Aranjuez é testemunho do intercâmbio e influência de valores, manifestações e correntes culturais diversas, cuja assimilação intelectual e recriação dá lugar a uma Paisagem Cultural, a qual, por sua vez, constitui um marco de referência, influente na conformação de criações posteriores deste tipo.“Segundo o Critério IV, o desenho complexo da Paisagem Cultural de Aranjuez resulta da materialização e combinação de obras paisagísticas, arquitectónicas e artísticas representativas de períodos-chave da história da humanidade e prototípicas de manifestações posteriores em que se unem as relações do homem e da natureza. Este processo transcende o âmbito do mundo ocidental no qual se cria para alcançar aspectos universais da estética, ciência, técnica, arquitetura e arte.” A visita a Aranjuez é uma experiência única, como o é a de outros tantos sítios carismáticos da história da Europa (Versalhes é outro exemplo, fabuloso, que vem à memória, e que só não foi classificado como paisagem cultural por este conceito ter sido institucionalizado recentemente), onde o poder real ensaiou uma concepção demiúrgica de “recriação do mundo” segundo um modelo cósmico de perfeição absoluta, orientado astronomicamente, e convocando todos os saberes do seu tempo para a construção de uma “paisagem total”.


39 Sobre esta temática existe uma vasta bibliografia, recente, inclusivamente a publicada sob a égide das comemorações do Bicentenário das Guerras Peninsulares.

40 Parte dos ideais igualitários da Revolução Francesa - evento que, como é bem sabido, convencionalmente marca a queda do Antigo Regime e o surgimento da Época Moderna e de novas formas de poder político e de organização do Estado - são secundarizados pelo projeto expansionista e imperialista de Napoleão, com o objectivo claro de assegurar que a França se afirmaria, de modo incondicional, como potência europeia e mundial. Cito: “A Revolução Francesa provocou a transposição para as relações internacionais de motivações de cariz ideológico que alteraram profundamente o precário equilíbrio europeu e modificaram o quadro tradicional das alianças entre as diversas monarquias” (COUTO, 2007, p. 9) Avançando pela Europa, a França procurava não só expandir o seu território, mas também assegurar a posse das frotas navais dos territórios ocupados, aspecto em que estava claramente em desvantagem por oposição à Inglaterra. Os planos iniciais para invadir a Inglaterra foram sofrendo alterações e revezes, nomeadamente a partir da fatídica batalha naval de Trafalgar (21 de Outubro de 1805), que aniquilou a armada franco-espanhola e obrigou Napoleão a rever a sua estratégia de condução da guerra.

41 Cito: “Portugal foi confrontado com ultimatos de adesão ao Bloqueio Continental, apresentados simultaneamente pelos representantes diplomáticos da França e da Espanha. No entanto, a relevância estratégica da aliança com a potência marítima dominante, a complementaridade existente ente as economias portuguesa e britânica, bem como a imperiosa necessidade de garantir a soberania e a segurança das ilhas atlânticas e das possessões africanas, americanas e asiáticas - que correriam sérios riscos em caso de conflito com a Grã-Bretanha - levaram o governo de Lisboa a rejeitar as imposições do Bloco Continental.” (COUTO, 2007, p.12)

42 Neste, pelo menos nas declarações e intenções, assumem-se progressivamente os chamados direitos universais do “homem” (conceito obviamente ambíguo e de início muito restritivo), considerado como nascendo igual perante o seu semelhante, como indivíduo que pode e deve fazer a escolha dos seus representantes, dando-se uma crescente laicização da sociedade (essencial para o desenvolvimento do comércio e da ideologia do lucro).

43 Não é pois de estranhar que à medida que a França foi perdendo terreno ao longo do conflito, tenham surgido então novas nacionalidades europeias, e também um movimento crescente de independência das colónias ultramarinas, as quais, mais cedo ou mais tarde, também se procuraram libertar da subalternidade, assumindo novas nacionalidades.

44 Seguindo as instruções do próprio Napoleão, recebidas em Salamanca, Junot entrou pelo vale do Tejo, opção que permitia um avanço mais rápido a fim de capturar a família real, uma vez que este eixo de progressão oferecia menor resistência e obstáculos à passagem da força militar. Também havia a informação, entre os franceses, da existência de uma suposta estrada real que permitiria a deslocação de tão elevado contingente militar, suposição incorreta, uma vez que parte desta estrada não existia. Pelo contrário, as vias de comunicação eram péssimas, as condições atmosféricas foram adversas ao invasor, e, embora a população não oferecesse de um modo geral resistência, os exércitos napoleónicos não conseguiram as fontes de abastecimento necessárias, tornando-se a sua marcha lenta e penosa. Mas na realidade a força militar de Junot conseguiu, apesar de todos os contratempos, e como já disse, chegar a Lisboa, embora em deploráveis condições, sendo recebida por uma delegação portuguesa junto à ponte do rio de Sacavém, a 30 de Novembro.

45 Com a família real partiu a corte, e todos aqueles que puderam organizar a sua saída (ficando um Conselho de Regência e a indicação de não oferecer resistência ao invasor), numa numerosa armada, protegida pela marinha inglesa. Aliás, poucos meses depois, no dia 1 de Fevereiro de 1908, aquele Conselho acabaria por ser extinto por Junot, sendo substituído por um Conselho Militar presidido pelo próprio. Como atesta este excerto, que reproduzo: “ (…) Ofício aos Governadores do reino, em 4 de Dezembro: “Em observância das ordens que me forão derijidas, se tem fornecido de vinho, lenhas, arroz, e sal as Tropas. O cuidado deste fornecimento ser mais próprio da Junta da Administração Geral dos Provimentos de boca para o Exercito, pelos conhecimentos práticos que tem da compra destes fornecimentos: ainda porem, quando V.as Ex.as, que esta administração está em hua absoluta confusão, e desordem. Acho feito por outras Repartições embargos de lenha, e de arroz: das entregas que se fazem ás Tropas Francezas se não passão vales: os encarregados da prestação dos fornecimentos pertendem subtrahir-se a hua deligencia de que não podem dar conta: os proprietários olhão como actos de absoluta violência a entrega dos géneros, de que nenhum titulo lhes segura o pagamento (…)” (FERRÃO, 1923, pp. 10-11).

46 Junot deu ordem de prisão a todos os súbditos britânicos que ainda residiam em Portugal, confiscando-lhes os bens. A mesma medida de confiscação de bens foi tomada em relação a todos aqueles que tinham acompanhado a família real para o Brasil. Tomou também o controlo das finanças portuguesas, nomeando uma pessoa da sua confiança para comissário geral junto da Regência, e começando as requisições de mantimentos, roupas e toda a espécie de bens necessários à reorganização e manutenção do exército ocupante. Os oficiais franceses alojaram-se em casas particulares, havendo registos de queixas relativas aos abusos e as exigências destes; os soldados ficaram aquartelados no Castelo de São Jorge e em alguns conventos, como o de São Francisco. Por todo o lado o abastecimento das tropas tinha de ser assegurado, nem sempre de modo pacífico.Outra medida relevante foi o desmantelamento e dispersão do que restava do exército português, diminuindo deste modo a possibilidade de uma revolta com auxílio da população. Tomaram-se medidas para reformar muitos oficiais idosos, parte das unidades de linha foram despedidas, e, além disso, Junot formou uma força que ficou conhecida como Legião Portuguesa, constituída com cerca de 9.000 homens, comandada pelo Marquês de Alorna, força essa que foi enviada para o exterior, de modo a integrar o exército de Napoleão. Junot dissolveu também as milícias portuguesas, cujas armas foram confiscadas e na maior parte destruídas. As forças militares existentes no reino passaram a ser praticamente só francesas e espanholas, reduzindo assim igualmente as possibilidades de resistência.

47 Napoleão ordenou um tributo de 100 milhões de francos; verificou-se porém a impossibilidade de cumprir o exigido, num país devastado pela guerra, pilhagem, e quase paralisação na sua economia. Tudo o que era passível de se converter em dinheiro foi angariado, entregue na Casa da Moeda todo o ouro e prata das igrejas e confrarias da cidade de Lisboa e dos seus arredores (até os paramentos da igrejas debruados a ouro e prata foram derretidos), como se pode comprovar num dos exemplos escolhidos, entre muitos, dos ofícios da Intendência Geral da Polícia. Cito: “(…) Ofício aos Governadores, em 5 de Dezembro: “Levo á presença de V. Ex.ª a Conta que me dirige o Juiz de Fora da Villa de Palmella por occazião da remessa da prata que na quella Villa se achava depositada, e que efectivamente fez entrar na respectiva Caza da Moeda (…)” (FERRÃO, 1923, p. 13). A situação nacional agravou-se com a falta de bens essenciais, além da quase paralisação do comércio; a agricultura sofreu um grave revés, não só decorrente da depredação resultante da passagem do invasor, mas também pelos tributos que foram exigidos, às populações exauridas e sem recursos, para a manutenção dos exércitos. A falta de gado para a lavoura, bem como de sementes para garantir as próximas colheitas, está manifestada em muita documentação da época. Como é exemplo o próximo excerto: “ (…) Ofício aos Governadores, em 16 de Dezembro: “A Villa de Mafra está exausta de tudo quanto hé necessário para oprivionamento da tropa estrangeira que ahi esta alojada, e para subsistência dos habitantes da mesma Villa. Os boys da lavoura terão de ser mortos, por sehaverem acabado os dos Marchantes: e a falta d’agricultura será o maior de todos os malles para hua Nação, que tem interrompido o Comercio marítimo, que lhe subministrava tantos artigos necessários á vida. (…)” (FERRÃO, 1923, p. 45).

48 Mas, a par de uma realidade cada vez mais gravosa para o país, os oficiais franceses viviam bem instalados em palácios, frequentavam festas faustosas e banquetes, e as óperas do Teatro de São Carlos eram o centro da vida social da nobreza que colaborava com os ocupantes. A hostilidade contra o ocupante foi crescendo.

49 Todavia, e paradoxalmente, apesar das provações da marcha e dos momentos de conflito, essa própria marcha era encarada como uma viagem, inserida no espírito romântico da época, em que viajar era procurar o pitoresco (Ventura, António, 2010). Começava aqui o embrião da atual ideologia da mobilidade e de tudo o que lhe está associado, tão típica do capitalismo moderno. Assim, a par das complicações de quem participa numa guerra, existiam pausas quando estavam os corpos militares aboletados em qualquer lugar, o que permitia a alguns escrever diários ou relatos da sua experiência, e nomeadamente daquilo que encontravam de diferente; as paisagens, as pessoas, o modo como se processava a arte da guerra (TERENAS, 2007, pp. 43-58). Para nós contemporâneos, por assim dizer, a ideia de associar guerra e esta espécie, como diríamos hoje, de “turismo”, surge como estranha, e mostra a mudança de mentalidades que entretanto se operou.É vária a iconografia deste período (pinturas, desenhos, estampas e gravuras) que mostra paisagens idealizadas, campos de batalha, ou populações em fuga (a idealização de paisagens é um tema abordado por CAUQUELIN, 2008). É muito rica a informação contida nas fontes escritas por franceses e ingleses, assim como também existem interessantes relatos de portugueses. Aliás a importância que a iconografia deste tempo, nomeadamente a de registo de viagens, começa a ter (incluindo as imagens de paisagens mais ou menos idealizadas ao modo romântico) antecede a “fúria fotográfica” do século posterior. Adentro deste tema da imagética em tempos de guerra, refira-se por exemplo a obra publicada por John Booth, em 1809, na cidade de Londres, intitulada “Sketches of the Country, Character and Costume in Portugal and Spain”, que ilustra bem esta nova visão e apropriação de outras realidades pela imagem.

Aliás, o espírito do relato de viagem, mesmo em tempo de guerra, ultrapassava os intervenientes diretos no conflito. Apesar do confronto, a Península continua a ser, nos inícios do século XIX, um destino do novo Grand Tour. Todo este tipo de literatura de viagens poderá ser incluído no espírito da época; de facto, o Grand Tour do século XIX é distinto do da centúria anterior, quer nos cânones da viagem, quer no seu relato, os quais obedecem agora a novos paradigmas. A antiga nobreza viajante é secundada pela burguesia ascendente, antes de se generalizar o turismo de massas e outras formas mais sofisticadas de consumo de paisagens. De facto, se numa primeira fase o Grand Tour estava vocacionado para uma elite aristocrática, que o via como uma forma imprescindível de formação intelectual e de aperfeiçoamento espiritual do individuo que se pretendia polido e cosmopolita, com as alterações políticas e sociais, com a ascensão da burguesia, o desenvolvimento dos transportes e consequentemente uma maior mobilidade, o viajante do século XIX é um viajante inserido no espírito romântico do seu tempo, que procura o exótico, o pitoresco, a ruína, a diferença do outro (no sentido mais geral desta palavra). Os seus pontos de interesse deixam de estar circunscritos à Itália e à França, mas passam a incluir destinos mais diversificados, buscam conhecer a diferença extravagante daquele que se visita, as suas atividades produtivas, a sua economia, os seus costumes e tradições, e ao mesmo tempo fruir do clima ameno do Sul e do percurso e contemplação de paisagens idealizadas; daí um crescente interesse pelas culturas europeias meridionais.



A composição dos relatos de viagens abandona uma descrição detalhada dos monumentos, num registo algo impessoal dos costumes e de informações de interesse geral, para enveredar por uma narrativa em que o autor assume uma posição mais emocional, exprimindo juízos de valor sobre as suas experiências, sobre os locais e as gentes que observa. O que se verifica é que nem mesmo durante as campanhas napoleónicas o Grand Tour entrou em declínio e, por outro lado, aqueles relatos, muito apreciados e divulgados na época, difundiram narrativas e imagens de Portugal deste período, por toda a Europa.

50 A estratégia do clero foi mudando ao longo do tempo; se num primeiro momento procurava minimizar eventuais agressões por parte do invasor mostrando uma atitude de certa receptividade, em consonância com as instruções da coroa e do Conselho de Regência, depressa mudou para um atitude defensiva e mesmo hostil.

51 Entretanto, o general Junot, que assumiu em 1808 o governo de Portugal em nome de Napoleão, recebeu também nesse ano o título de duque de Abrantes. Inicialmente, considerou que conseguia controlar a situação, enviando reforços para a vizinha Espanha. No entanto, rapidamente tomou consciência da fragilidade da sua posição, pois também ele necessitava de reforços. Ora, era por Espanha que recebia informações do que estava a acontecer, e os indispensáveis abastecimentos (uma vez que a esquadra inglesa não permitia o fornecimento de viveres e outros bens ao porto de Lisboa), através de um comboio militar, que agora se encontrava ameaçado de possível interrupção em território espanhol, onde se verificava um tumulto crescente, a denominada Guerra da Independência Espanhola. Assim, como seria do conhecimento de um estratega militar experiente com as características de Junot, era cada vez mais óbvio que se estavam a criar as condições oportunas, aguardadas por Inglaterra, para esta apoiar as sublevações portuguesas, centralizadas na Junta do Porto sob o comando do bispo D. Almeida de Castro, o qual passara a estar ao lado dos resistentes.

52 Acordo assinado pelo Quartel-Mestre-General George Murray, da parte do exército britânico, e pelo General Kellermann, da parte do exército francês, e posteriormente ratificado por Junot. O acordo conseguido entre os dois beligerantes garantia benefícios mútuos: os ingleses conseguiam o controle da capital do reino de Portugal e do seu porto, sem necessidade de mais confrontos; os franceses podiam retirar as suas tropas em segurança, levando consigo não só o seu armamento e bagagens, mas - note-se este aspecto tão danoso para o nosso país - todos os bens saqueados em Portugal, sempre o elemento mais fraco e mais prejudicado neste conflito.

53 Podem ser consultados na obra coordenada por Sousa (SOUSA, 2007, pp. 61-65).

54 Essas quatro vias eram as seguintes: - a estrada Real junto ao Tejo, eixo de penetração escolhido pelos franceses aquando da primeira invasão;

- a estrada que vinha do Sobral de Monte Agraço, Arruda dos Vinhos, na direção de Bucelas, cruzando a serra de Serves pelo vale encaixado do rio Trancão e atingindo assim a várzea de Loures, ou inflectindo junto ao vale encaixado do Calhandriz encaminhando-se para Alverca e seguindo pela estrada Real já mencionada;

- a estrada que vinha de Torres Vedras e que entroncava com a estrada vinda de Mafra, confluindo ambas para a Malveira e passando pelo desfiladeiro de Montachique, vencendo assim a serra de Ribas e os Altos de Montachique, e atingindo igualmente a várzea de Loures e, desta, facilmente, Lisboa;

- havia ainda uma outra possibilidade que seria usar a estrada que saía de Torres Vedras, entroncando com outra via que vinha da Póvoa da Galega e com outra que vinha do Sobral de Monte Agraço também na direção do desfiladeiro de Montachique.



55 Esta nova estratégia foi aliás desenvolvida e aplicada não só por outros países ainda durante os conflitos napoleónicos – os quais continuaram após 1810 por toda a Europa - mas também mais tarde. De facto, essa concepção está claramente presente na 1ª Guerra Mundial, com a Linha Maginot, sistema defensivo edificado pela França após a Primeira Guerra Mundial, entre 1930 e 1936, ao longo das suas fronteiras com a Alemanha e a Itália.

56 Por exemplo, a zona de Santarém, e particularmente um dos obstáculos colocados ali ao exército francês pelo adversário, é descrito, por um capitão daquele exército, do seguinte modo: “(…) inúmeros cortes de árvores, que formavam a circunvalação da cidade, foram feitos com oliveiras centenárias de todas as redondezas. Não era [sic] uma dessas árvores que não proporcionasse entre 70 e 80 francos de renda ao seu proprietário. Que se faça uma ideia do prejuízo e da ruína dos seus habitantes!” (VENTURA, 2010, p.72)

57 No relato da autoria de um capitão francês, nas suas recordações militares, a inexpugnabilidade do sistema que tinham de enfrentar era evidente. E aquele capitão, consciente das dificuldades, escreve que “(…) cada um dos redutos teria necessitado de quase um cerco, pelo que contentámo-nos com um bloqueio cerrado ao longo de toda a nossa linha; estabeleceu-se uma apertada vigilância, instalando postos avançados, cujas patrulhas móveis preveniam contra qualquer surpresa; os Ingleses mantiveram-se nas suas posições e o exército francês ficou aquartelado.“O senhor marechal [Masséna], ao colocar-se deste modo, oferecia, por assim dizer, a batalha a Lorde Wellington, que não teve qualquer intenção de a aceitar, e com razão, porque aí ele ainda podia esperar-nos como no Buçaco, dispondo além disso de montanhas tornadas inacessíveis, de 500 peças de artilharia para nos fulminar (…).” (VENTURA, 2010, p.63)

58 Ver apêndice 2 sobre os vários aspetos de arquitetura militar envolvida no sistema de fortificações das Linhas de Torres.

59 Ver no anexo 5 excerto do texto que reproduz o Memorando de Wellington para o Tenente Coronel Fletcher, emitido em Lisboa no dia 20 de Outubro de 1809 (MONTEIRO, 2011, pp. 209-212).

60 O oficial inglês John Jones, nas suas memórias sobre a construção das Linhas de Torres, é explícito quanto ao modo de organização dos trabalhos: “Em alguns distritos, um oficial subalterno de engenheiros, com a participação apenas deste pequeno número de soldados britânicos, não tendo nenhum conhecimento da língua do país, dirigia e controlava o trabalho de mil trabalhadores, a maioria deles camponeses, obrigados a trabalhar, na sua maior parte a quarenta quilómetros de suas casas, enquanto que as suas próprias terras permaneciam sem cultivo, e as equipas de trabalho portuguesas nunca eram comandadas por um vigilante com categoria superior à de um cabo, que se poderia assimilar pelo grau a um sargento.” (JONES, 1832, p.119).

61 Mais uma vez o referido oficial inglês escreve o seguinte: “Utilizaram-se na construção das linhas os habitantes locais e dois regimentos de milícia. Os primeiros eram obtidos por meio de requisições, e eram rendidos todas as semanas. Pagavam aos camponeses seis vinténs (75 cêntimos) por dia, como cavadores de enxada, e doze como trabalhadores; a milícia ganhava um terço desses preços. Mais tarde, como o crescimento e a duração dos trabalhos os tornaram quase permanentes, o preço da jornada foi aumentado para dez vinténs para cavadores de enxada e para dezasseis para os supervisores: a milícia continuou a ser paga de acordo com a taxa original.” (JONES, 1832, p.116).

62 Uma vez que estes, em geral, consideravam isso indigno da sua condição social.

63 De várias fontes que atestam as dificuldades económicas e sociais da população que vivia em Lisboa e seus arredores e daquela que aqui procurou refúgio transcrevo um relato de um soldado inglês: “Os milhares de desgraçados habitantes das províncias das quais o nosso exército recentemente retirou, tinham abandonado as suas casas, e esforçavam-se por viver entre Lisboa e as Linhas. Havia, portanto, uma imensa população sitiada num pequeno espaço de terreno, centenas deles sem uma casa para os abrigar, ou comida para comer, excepto o que era disponibilizado pela generosidade dos ricos de Lisboa, e pelos peditórios liberais feitos para eles em Inglaterra.“No decurso do Inverno, o número de portugueses que de facto acabou por morrer devido à penúria foi terrível. Não era invulgar ver hordas desses pobres infelizes, novos e velhos, homens e mulheres, em trapos, verdadeiras imagens da morte, sentados em desespero no chão molhado, à volta de uma miserável fogueira sobre a qual era colocado um recipiente de barro cheio de ervas que era possível apanhar nos campos e nas sebes. As suas faces, cadavéricas e emagrecidas, eram suficientes para tocar o coração dos mais duros e insensíveis.” (SOUSA, 2007, pp. 230-231)

64 Um oficial francês descreve um episódio passado em Leiria, onde encontrou numa casa onde pernoitou, um homem velho e doente, abandonado na cama, o que muito o impressionou: “Esta casa deserta, como todas as outra, nesta cidade abandonada, não podia conter um ser vivo (…) mas o que vejo? Em vez de uma carcaça, é um corpo, seco, descarnado, o corpo de um verdadeiro ancião, que pronuncia então palavras na sua língua portuguesa…Era um ser ainda vivo que, doente, intransportável, tinha sido abandonado…” (VENTURA, 2010, pp. 60-61).

65 Mas, como é do conhecimento geral, a propaganda feroz contra os franceses também se baseava no fato da 1ª Invasão Francesa ter sido uma experiência devastadora. Não é portanto de admirar que o receio de novas investidas e a insistência do exército anglo-luso tenham conseguido desalojar tantas comunidades, que destruíram ou esconderam tudo aquilo que não puderam trazer na sua fuga.

66 Como escreveu um capitão francês quando o seu corpo militar atingiu a região de Vila Franca de Xira: “ O 2º Corpo ocupou Vila Franca, Cachoeiras, Castanheira, aldeias sobre a linha que estão em frente das posições de Torres Vedras, onde o exército inglês se tinha refugiado. As linhas de Alenquer, ditas de Torres Vedras, estendiam-se entre Vila Franca e Torres Vedras, ficando com o mar pelas costas; esta cadeia de montanhas formava a base de um triângulo isósceles, de que Lisboa era o ponto mais alto.“O exército inglês tinha o Tejo à sua direita e Torres Vedras à esquerda – esta posição, que dispunha de 500 peças de artilharia, era defendida por um sistema de redutos muito bem concebido: todos se flanqueavam reciprocamente e tanto ravinas como pequenos vales estavam cobertos por fogos cruzados, que tornavam as aproximações e o assalto, se não impossíveis pelo menos extremamente perigosos.

“Foi com razão que o marechal Massena considerou essas posições de acesso difícil, por isso não quis abordá-las (…).” (VENTURA, 2010, p. 62)

É interessante confrontar esta descrição com uma visão oriunda do campo contendor oposto, desta vez escrita por um oficial inglês: “Neste dia passámos o fim das linhas fixadas por Lord Wellington; elas estendiam-se por várias milhas até Sintra, sobre as praias marítimas, de modo a cercar Lisboa. Vimo-las prolongarem-se ao longo dos cumes de uma série de montes; eram certamente os mais fortes trabalhos de campo que eu jamais tinha observado. Não era somente um fosso profundo, mas em muitos sítios eram dois ou três, de acordo com a força da aproximação: o entrincheiramento interior era defendido, a intervalos, por fortes baterias, e uma fila de abertura nas muralhas corria ao longo de toda a linha. Isto respondia à necessidade de mudar a artilharia quando as circunstâncias a isso obrigavam; e quando as aberturas não eram necessárias para usar os canhões, a infantaria utilizava-as como pontos de observação. Estas aproximações estavam bem marcadas por estacas aguçadas apontadas para fora e as esplanadas [termo militar] para a distância de tiro dos mosquetes estavam perfeitamente niveladas, de modo que nenhuns montes permitiam comandar tiro de fora. Assim eram as linhas de Sintra [Linhas de Torres Vedras].

“(…) A partir do rio, os canhões dos nossos barcos flagelavam muito a ala esquerda dos franceses, enquanto Lord Wellington se defendia por detrás da suas protecções. Nós éramos sempre, é claro, senhores do rio e isto produzia danos materiais aos franceses e testava a defesa do flanco da nossa linha.” (SOUSA, 2007, pp. 192-193).



67 Recorda um oficial francês no seu relato: “ (…) Até antão, nem um único habitante se tinha oferecido aos nossos olhos; todos, forçado pelas ordens do general inglês, tinham fugido à direita e à esquerda, ou tinham-se refugiado em Lisboa, destruindo ao partir todos os meios de existência, escondendo, enterrando mesmo, os grãos intransportáveis. O inimigo, por seu turno, rebentando os moinhos de vento e a água, envenenando as fontes e os poços, fazia do país um vasto deserto, pelo que a miséria e a fome deviam levar-nos a retirar.” (VENTURA, 2010, p. 56)

68 Veja-se como um bom exemplo de construção Vauban, entre outros, o das fortificações de Elvas, com as suas praças militares em forma de estrela, protegidas com construções de menor dimensão, que oferecem resistência ao inimigo, posicionando-se estrategicamente à frente da praça principal.

69 “Aquelas populações não conheciam aquela temática, houve um acréscimo de conhecimento (…) e também um despertar para um património (…) posso contar um exemplo, nós fizemos recriações históricas em Mafra, e as recriações foram centradas desde 2004 a 2010, e a temática era a Corte de D. João em Mafra, na altura das Invasões Francesas, e de pois também da Rota Histórica das Linhas de Torres (…) os participantes dessas recriações históricas que eram habitantes de Mafra e muitos das aldeias dali, posso dizer que muito deles encararam essa participação e esse contacto com a história e o património, como uma oportunidade para mudar a vida(…) Muitos deles fizeram o Programa Novas Oportunidades(…)” in entrevista com Ana Catarina Sousa.

70 O respetivo despacho de abertura apresenta uma justificação, que transcrevo: “ (…) 2- As decisões de arquivamento e abertura fundamentaram-se no parecer da SPAA do CNC, segundo o qual os procedimentos iniciais apenas se detinham sobre parte (44) das estruturas criadas no quadro da implementação das designadas Linhas de Torres, quando o que as tornou mundialmente conhecidas resulta da tessitura de inúmeras e diferenciadas estruturas militares, dos fortes aos redutos, das baterias às estradas militares e aos escarpamentos, muitas das quais se conservam, ou podem ser conservadas com ações adequadas de recuperação, como as já efetuadas pelos Municípios, em cooperação com diferentes entidades, nacionais e internacionais, o que mais justifica o carácter sistémico do conjunto, impossível de reconhecer na metodologia do procedimento cujo arquivamento se preconiza.

3- A presente proposta de classificação cumpre os seguintes critérios de classificação previstos no artigo 17º da Lei n.º 107/81, de 8 de Setembro: b) O génio do respetivo criador; d) O interesse do bem como testemunho notável de vivências ou factos históricos; f) A conceção arquitectónica, urbanística e paisagística; g) A extensão do bem e o que nela se reflete do ponto de vista da memória coletiva; h) A importância do bem do ponto de vista da investigação histórica ou científica; i) As circunstâncias suscetíveis de acarretarem diminuição ou perda da perenidade ou da integridade do bem.




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