Entre um f e um g existe uma rosa branca e outra Rosa



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Encontro20.08.2017
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Entre um F e um G existe uma rosa branca e outra Rosa

Gato Preto

Rosa possuía 7 filhas de 7 carnavais de 7 pais diferentes. Anna, Nina, Júlia, Veca, Sara, Rita e Gabi. Cada nome uma história. A última, por exemplo, nasceu no dia 13, às 13 horas, e supersticiosa de vivência, Rosa achava que deveria ter o mesmo nome da senhora que morava na casa 13 de sua rua, caso contrário a menina não passaria dos 13 anos. E foi este, justamente este, o motivo da consulta naquele dia.

Acontece que há uma semana de Gabi completar seus treze anos, Rosa havia recebido a visita de Dona Fabi, senhora que morava na casa 13 de sua rua, há 13 anos. Dona Fabi havia falecido um dia após o nascimento de Gabi, e Rosa não havia tomado conhecimento, achou que teria ido morar no interior.

Foi a vizinha do 377 que falara para Rosa o nome da falecida.

- Neta, como é o nome daquela mulher que mora lá no começo da rua, na casa 13? Uma branca, dos cabelos de cacho de uva, acho que ela trabalha do outro lado da cidade.

- Dona Gabi. Ela é amiga da cunhada da irmã de Rita – Rosa conhecia Rita, mas isso é outra história.

Não teve dúvidas. Foi ao cartório no mesmo dia. Na volta, passou na padaria, comprou um bolo e comeu com Neta. Passaram a tarde elaborando o futuro da menina. Terminou que Gabi seria dona de um salão de beleza. Isto foi o que ela conseguiu pensar de mais ganancioso dentro da vida que travava sempre que a lua nascia. O fato é que este plano não iria realizar-se.

Rosa chega a meu consultório sem marcar consulta. Estava gritando, desesperada. Como era fim do dia, já não existia ninguém para atender e foi possível escutá-la:

- O senhor já sabe de toda história dos sete nomes que escolhi para minhas sete filhas. Sabe o quanto sou cuidadosa e o quanto me esforço para terem o futuro que criei para cada uma. E tudo vem dando certo! Mas ontem recebi a visita de uma senhora branca, dos cabelos de cacho de uva, com um cheiro de jasmim, característico de quem foi sepultado no cemitério velho, aquele depois da ponte. Sabia que era ela. Contou que caminhou durante treze anos pra me contar da festa de aniversário da minha filha, que será na próxima semana. Disse que ficaria em minha casa até próximo dia 13, quando ela levaria minha filha para este aniversário especial, e claro sem a presença de mais ninguém, nem a minha! Achei tudo aquilo uma baboseira e quis confirmar se era mesmo Dona Gabi. Ela olhou furiosa bem dentro do meu olho e disse que se chamava Fabi. Na hora congelei e entendi tudo!

Surpreso, apenas balancei a cabeça.

- Minha filhinha, minha Gabi, minha única chance em toda vida de olhar para o sol às 5 horas da manhã e dar um bom dia, ela vai morrer! Não vai existir mais salão de beleza. Não vai existir mais vinho em minha casa. Não vai mais existir noites de sextas-feiras em festas. Está tudo acabado! Mas eu sei que o senhor pode me ajudar, examine essa menina da cabeça aos pés e descubra o que vai tomá-la de mim na próxima semana, por favor, isto é urgente! Se descobrir, tudo vai dar certo!

Catatonizei, não sabia o que fazer, estava claro tudo o que iria acontecer em uma semana. Ninguém consegue evitar o destino, ele é certeiro, nunca foi traiçoeiro. Só tinha uma certeza àquele convite que Rosa me fazia: teria que ajudá-la, ela não poderia lutar contra o destino, caso isto acontecesse, seu caráter neurótico voltava à cena. Ela não poderia interferir em seu processo de cura. Os “se’s” não mudam as histórias, apenas atrapalham o fluxo da continuidade de vida das pessoas. A família de Rosa é muito próxima à nossa Equipe de Saúde da Família, por conta deste vínculo, ela deposita o possível e o impossível em nossos cuidados. Combinamos uma reunião familiar após o almoço. Claro, sem a presença de Dona Fabi.

Cheguei à casa de Rosa com a enfermeira Simone às 14 horas. Dona Fabi teria ido visitar seu antigo lar, onde havia morrido. Mas seu cheiro de jasmim, característico de quem foi sepultado no cemitério velho, aquele depois da ponte, espalhou-se sobre todos os cômodos, chegando a tornar o ambiente agradável. Estavam em círculo no meio da sala: Anna, Nina, Júlia, Veca, Sara, Rita, a pobre Gabi, e Rosa, desidratada de tanto chorar. Sempre na mesma sequencia de cadeiras, cada uma em uma cor diferente. Durante o almoço, a cadeira rosa que pertencia à Gabi, havia se tornado preta, e isto deixou Rosa mais desesperada. A nossa visita tinha como objetivo esclarecer a família tudo que estava acontecendo e oferecer todo cuidado e suporte essenciais para o momento. Embora com medo, todas as sete filhas sabiam sobre o inevitável. Rosa ameaçou fugir com Gabi, esconder-se em uma cidade distante e só voltar após a menina ter completado seus 13 anos. Gabi, incomodada com tudo que estava acontecendo ofereceu seu abraço à Simone e a mim, em seguida beijou o rosto da sua mãe e foi ao quarto deitar-se.

- Ela não entende, disse Rosa. Não está preparada. Minha menina precisa de mim.

- Não Rosa, ela está entendendo mais do que você. Ela sabe seu destino, ela sente seu corpo e está totalmente mergulhada em seu espírito. Está vivendo o que precisa ser vivido, com seus sonhos e suas fantasias. Você que precisa dela, você que quer viver seus sonhos nela, você que elaborou um destino para ela. Você precisa entender que possui uma semana para compartilhar seu amor e sentir o que precisa ser vivido.

As seis filhas abraçam Rosa e lhe entregam um papel que acharam na rua, onde estava escrito: “A vida não passa de um sonho”. Rosa imediatamente corre ao quarto de Gabi, põe a menina em seus braços e desaparece do nosso mundo. Alguns minutos depois, Dona Fabi chega e fala que ficará cuidando das outras seis filhas, até que Rosa chegue com Gabi.

Após três dias, Rosa chega à cidade. Toda comunidade estava surpresa com seu retorno. Foi logo em meu consultório e me contou o que havia acontecido.

- Fui viver os sonhos de minha filha, como o senhor aconselhou. Passeamos pela vida, colhemos flores, dançamos, comemos doces e subimos serras. Nunca estive tão feliz com ela e trouxe-a para que viva o resto de seus sonhos com suas irmãs.

Até choramos juntos, mas um choro de alegria, de certezas.

Uma noite antes da noite do seu aniversário, Gabi é acordada por Dona Fabi:

- Precisamos ir.

- Mas ainda falta uma noite para meu aniversário.

- Gabi, nem tudo é certeza nesta vida. Precisamos estar preparados para seguir em outras estradas sempre, pois em algumas situações nós não escolhemos nada.

- Esta bem, mas preciso deixar isto com minha mãe.

Ao amanhecer, Rita acorda com um sabor de beijo em seu rosto e um livro em sua cama.



“Querida mãe, precisei ir mais cedo. Aqui estão alguns dos sonhos que não tivemos tempo de viver. Por favor, leve minhas irmãs junto, elas também precisam conhecer os lugares que visitamos durante aqueles inesquecíveis três dias. Toda manhã deixarei uma rosa branca em nosso jardim. Um beijo saudoso, Gabi.”

Quando cheguei ao trabalho, Simone me contou o que havia acontecido. Entrei no consultório e em minha mesa existia uma rosa branca com um bilhete de obrigado.


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