Encontro com a vida robson pinheiro



Baixar 0,82 Mb.
Página6/6
Encontro10.09.2017
Tamanho0,82 Mb.
1   2   3   4   5   6

ou à casa de minha sogra, que se demonstrara uma segunda mãe

para mim.

Algo estava acontecendo dentro de mim. Mas o que exatamente?

Não saberia dizer. Vez ou outra me sentia confusa e distante das

pessoas. Seria a gravidez? Todas as mães se sentiam assim num ou

noutro momento? Sentia-me fraca e abatida, e parecia que as

minhas forças iriam me abandonar de um momento para o outro.

Paulo se preocupava comigo.

—Ora, Joana, você sabe que sua saúde é delicada. Você não

cumpriu o nosso trato de antes do casamento.

—Que trato, Paulo? Não me lembro de haver prometido nada a

você...

—Claro que prometeu. E a consulta que você disse que faria a

respeito de sua diabete? Lembra-se de nossa conversa?

_ Ah!...

— Agora está se lembrando. Pois bem. Sua gravidez é uma gravidez

de risco, como nos falou o médico, e você se recusa a realizar

exames...

Eu sabia que algo estava para acontecer, porém não conseguia

definir o objeto de minhas preocupações. Paulo tudo fazia para que

eu procurasse um médico e me tratasse. Ele usava de todos os

recursos para me estimular. Eu não arredava o pé. Só faria os

exames relativos à gravidez. O chamado pré-natal. Nada mais.

Tinha pavor de médicos. A experiência na clínica até que fora

gratificante, mas lembro-me bem dos momentos que passei quando

fizera o exame anti-Hiv. Passei por um inferno. Na verdade não fora

o médico o culpado pela situação difícil que eu passara, mas a

minha neurose quanto às doenças. Sim! Foi isso mesmo que Paulo

disse a respeito de minhas reações com os exames. Só de ir ao

médico já criava um certo inferno particular e somatizava todos os

medos de minha alma. Fui até num psicólogo. Ele me disse que eu

tinha um sentimento arraigado dentro de mim. Era uma culpa

muito grande. Assim, eu me punia inconscientemente, somatizando

os medos que eu não tinha coragem de enfrentar. Seria mesmo isso?

Eu não entendia direito essas coisas de psicologia, mas confesso que

também não queria entender.

Cada dia mais me sentia diferente. Com minha recusa em ir ao

médico, meu estado de saúde foi se agravando a cada dia, e os meus

medos também...

—Temos de correr para o hospital com Joana, D. Altina; ela não está

nada bem...

—Ah! Meu Deus! Essa menina ainda me dando trabalho. Agora é

pior, pois está para dar à luz, e são dois que correm perigo. O

sangue de Jesus tem poder! Faça alguma coisa, Paulo. Eu vou ajudar

Joana nos preparativos.

—Vou telefonar para o médico, D. Altina. Prepare Joana.

Coitada de minha mãe. Ela sempre às voltas com meus problemas.

A essa altura, viera morar conosco, a fim de me auxiliar no período

difícil da gravidez. Foi insistência de

Paulo. E D. Célia, minha sogra, também ficava de plantão. Eu nem

imaginava que aquele seria o início do meu calvário. Completavam-

se sete meses de gravidez. Foram sete meses difíceis para mim e

para minha família.

—O que está acontecendo, doutor? Por favor, me fale.

—Calma, rapaz! É muito difícil falar acertadamente de uma só vez.

Mas posso lhe dizer que sua mulher não poderá voltar para casa

hoje. Ela necessita ficar internada, para o bem dela e da criança. Isso

eu não posso mudar. Afinal, como você sabe, é uma gravidez de

alto risco, e, devido à saúde de Joana, que é mais delicada, creio que

talvez tenhamos de retirar a criança antes da hora.

—Retirar a criança? Como assim? Então...

—Não se preocupe dessa forma. Esse é um procedimento comum.

Não falo de aborto, mas de uma cesariana e da possibilidade de a

criança nascer antes dos nove meses.

—Mas isso não é de grande risco?

—Certamente não é a forma mais desejável, Paulo; entretanto, é um

procedimento muito comum hoje em dia. Se a criança tiver de

nascer com sete meses, com certeza será tratada com muito cuidado.

Ficará em lugar apropriado até que complete o tempo necessário

para poder ir para casa. Não se preocupe quanto à criança.

—Mas e quanto à saúde de Joana? Devo me preocupar?

—Bem... não posso lhe enganar quanto a isso. Joana não apresenta

um quadro tão animador assim, mas temos recursos também para

reverter a situação e dar-lhe a assistência necessária.

Minha mãe rezava constantemente, a fim de que Jesus enviasse seus

anjos para me proteger. Nenhum de nós imaginava como era grave

o meu caso. Creio que nem o médico imaginava isso. Fiquei

internada durante um bom tempo. Acho que foi um tempo

suficiente para eu realizar uma análise bem detalhada de minha

vida. Como eu havia mudado...

—Sabe, Paulo, sonhei esses dias com Cássio, o meu marido. Parecia

que ele queria me dizer alguma coisa e eu não conseguia entender

direito...

—Não se preocupe, D. Altina, talvez seja apenas fruto de suas

preocupações, já que a nossa Joana não está nada bem.

—Talvez, Paulo, talvez. Sinto que alguma coisa ruim está para

acontecer.

—Que é isso, minha sogra? Ainda mais a senhora, que tem tanta fé

em Deus, fica pensando bobeira assim?

Paulo ficou ensimesmado, pois sabia muito bem que os sonhos de

minha mãe não eram simples sonhos. Ela parecia ter algumas

revelações. Desde uns anos para cá, minha mãe, apesar de ser

crente, não era assim tão ortodoxa...

— Sabe, Paulo, você entende muito mais a respeito desse negócio de

espírito, não é, meu filho?

— Claro, D. Altina. Tenho estudado um pouco o espiritismo. Mas o

que a senhora quer dizer?

—Você sabe, meu filho, que eu sou crente no Senhor Jesus, e Deus

me livre das obras do diabo. Mas quero confessar uma coisa para

você...

—Fale, D. Altina, assim a senhora me deixa preocupado...

—É que eu tenho conversado com os espíritos...

—Com o quê?

—Com os espíritos, Paulo. Isso mesmo.

—Mas... eu não entendo...

—É que por muitos anos fui ensinada na igreja que o Espírito Santo

batiza os crentes. Depois de muitas orações e noites e noites de

vigília junto com os irmãos lá da igreja, fui visitada por um anjo do

Senhor.


— Anjo do Senhor...

—Sim, Paulo. Pelo menos eu julgava que era um anjo do Senhor. E

lá na igreja nós temos muitos irmãos que são profetas, que vêem os

mensageiros de Deus e profetizam as mensagens deles para a igreja

e para os fiéis. Só que, de uns tempos para cá, tenho observado

melhor esse anjo do Senhor. E descobri uma coisa muito

interessante.

—O que é tão interessante assim, D. Altina? Por acaso a senhora

está se convertendo ao espiritismo?

—Não brinque com isso, meu genro. Até parece que você não

conhece dessas coisas. É que, durante nossas orações, aparecem

muitos mensageiros, que o nosso pastor nos ensinou a interpretar

como sendo os anjos de Deus. Mas tanto eu como uma irmã

profetisa lá da igreja temos observado melhor esses anjos. E não é

que um deles tem a cara do meu Cássio?

—Mas vocês não dizem que é o Espírito Santo que fala através de

vocês?

—É claro que é, Paulo. E Deus me livre do pastor descobrir isso que



eu estou lhe dizendo. Mas eu juro que os anjos que nós vemos são

as almas do outro mundo.

Paulo deu uma gostosa gargalhada. Há muito que ele não ria tão

gostosamente.

—Eu não falei nenhuma piada, Paulo. Sou uma mulher séria, uma

serva do Senhor.

—Me desculpe, D. Altina, me desculpe. Mas é que eu tenho

observado a senhora há muito tempo. Mesmo que tenha aceitado a

fé protestante e freqüente uma igreja evangélica, não posso duvidar

de que é uma médium...

—Médium não, pelo amor de Deus. Sou batizada no sangue de

Jesus e no fogo do Divino Espírito Santo. Eu sou profeta. Uma

profetisa do Senhor.

—Que seja, D. Altina. É apenas uma questão de nomes.

—Eu vejo os anjos do Senhor da mesma forma que o pastor e os

irmãos que são batizados...

— Mas a senhora acaba de me dizer que os anjos são almas do outro

mundo...

—É apenas uma questão de nomes, como você diz. Mas o pastor

não precisa ficar sabendo...

—E Jesus, será que ele pode ficar sabendo que o Espírito Santo dele

é apenas o espírito de alguém que já morreu?

—Ah! Paulo, enquanto Jesus estiver calado e não falar nada

contrário é sinal de que ele concorda com tudo, não é? Afinal, se

uma alma aparece na igreja, é porque é uma enviada de Deus. É

melhor a gente deixar tudo do jeito que está. Eu prefiro não

perguntar nada a Jesus em minhas orações...

—Por quê, D. Altina?

—Eu tenho medo da resposta...

Os dois se abraçaram e entenderam que, apesar das diferenças entre

as religiões de ambos, todos eram filhos de Deus e que os anjos, os

mensageiros ou os espíritos, tanto faz como se apresentem, são

emissários do Pai para amparar seus filhos na busca da felicidade.

21


Entre o aqui e o Além

... Ele estovo o tempo todo escondido bem dentro de mim.

Temos de intensificar nossa ação junto a Joana, Ernesto. Creio que

agora poderemos interferir mais diretamente.

— Claro, Cássio. Aproveitemos que ela está internada. A criança

precisa ser amparada de maneira mais direta.

—Até tentei transmitir algo para Altina, porém creio que ela está

muito preocupada com o estado da filha.

—Não é fácil romper as barreiras que nos separam do outro lado.

As preocupações dos nossos amigos encarnados afetam as intuições

que tentamos enviar a eles.

—Pelo menos agora Altina já sabe que sou eu mesmo que ela vê em

suas preces. Isso já é um grande progresso. É muito difícil também

romper as dificuldades causadas pelas crenças enraizadas. Os

evangélicos têm estruturado seus pensamentos de tal maneira que

dificultam nossa aproximação de uma forma mais ostensiva.

Entretanto, se nos aproximarmos deles como se fôssemos uma

manifestação do Espírito Santo ou dos anjos do Senhor, aí

encontramos ressonância em suas crenças, em seus corações.

—Creio que temos de nos adaptar aos instrumentos que temos a

nossa disposição...

—Bem, Ernesto, espero que você e Ângelo possam me acompanhar

junto a nossa Joana.

Eu ouvia tudo, anotando cada detalhe da conversa. Pretendia

acompanhar o caso à maneira do jornalista, que pretende fazer suas

anotações e depois transmiti-las ao público. Afinal, eu pertencia

àquela equipe de espíritos liderados pelo amor. Acompanhei o caso

de Joana e Paulo em cada detalhe. Naquela tarde, após a conversa

de Cássio e Ernesto, dirigimo-nos ao hospital onde Joana se encontrava

internada. Aproveitamos o momento em que não havia

visitas.

Ernesto aproximou-se do leito onde Joana se encontrava e observou

mais de perto a criança que se formava em seu ventre.

—O nosso Jessé passa bem. Creio que, quanto a ele, não teremos de

nos preocupar.

—Sim, Ernesto — falou Cássio — mas, por via das dúvidas, temos

de reforçar o tratamento. Como você sabe, Paulo, o pai da criança —

o nosso Jessé, que está em processo de reencarnação — também é

objeto de nossas atenções.

—Claro, Cássio, como posso ignorar?

—Sei que você também acompanha o caso de nossos pupilos com

muito interesse, afinal estamos todos ligados por laços indissolúveis

de amor.

—Temos interesse na felicidade dos nossos companheiros. Embora

para eles, que estão encarnados, talvez a felicidade signifique algo

diferente daquilo que significa para nós, espíritos.

—É que aqui temos uma visão mais dilatada da realidade.

—Temos de trabalhar muito, Cássio, a fim de que um dia nossos

irmãos encarnados possam também dilatar sua visão. Talvez, então,

compreendam melhor certas questões delicadas da vida.

Fiquei curioso com a conversa dos dois mentores. Cássio, muito

bondoso, socorreu-me em minha curiosidade.

— Veja bem, Ângelo, observemos o caso de Joana. Quem

acompanha a situação dela do plano físico e com visão puramente

material poderá ver em Joana a mulher que foi muito feliz ao se

casar com Paulo. Para esses observadores encarnados, a questão da

felicidade se resume apenas nisso, e qualquer contratempo que

ocorrer com sua saúde talvez signifique algo profundamente

incômodo, pois conhecem apenas o lado material da história.

Para nós, porém, a situação é diversa. Joana, Paulo, Altina ou Jessé,

que está reencarnando através de Joana, são espíritos eternos. Nada

mais justo que adaptarmos a nossa visão aos conceitos da

eternidade. Sob essa ótica, as doenças ou enfermidades, os

chamados transtornos da vida, assumem outros aspectos, relevantes

para a verdadeira felicidade. São instrumentos para o

despertamento do espírito.

— Creio que entendi — pensei.

— Veja bem o que ocorrerá com a nossa Joana. Ela já não poderá

demorar mais no corpo físico. Nosso Jessé não poderá demorar a

nascer. Se ele ficar muito tempo no ventre de Joana, poderá ser

comprometida sua reencarnação.

— Não entendi...

— Lembra-se do tratamento que realizamos nos corpos espirituais

de Paulo e Jessé antes de iniciar seu processo reencarnatório?

— Sim, claro! Acompanhei o caso com muito interesse.

—Pois bem, Ângelo; nosso Paulo só nos ofereceu recursos para o

tratamento magnético porque em sua estrutura orgânica ele tem

algo que, pela medicina, é considerado uma anomalia. Ou seja, ele

tem uma formação celular anormal. Falo das células de defesa do

corpo físico mais conhecidas como CD4. Devido a essa má-formação

de suas células de defesa é que conseguimos interferir dessa

maneira, acentuando ainda mais essa situação.

—Eu não entendo nada de células, medicina ou algo parecido.

— Nossa Joana está contaminada com o vírus HIV,

Ângelo. Dessa forma ela poderia transmitir o vírus a Paulo e à

criança, não fosse a nossa atuação em suas células de defesa.

—Então, com o tratamento efetuado no perispírito de Paulo foi

possível evitar a contaminação?

—Não é bem assim. Mas, considerando que o vírus penetra nas

células de defesa do sistema imunológico e aí se reproduz, ele não

poderá realizar sua ação destruidora caso essa mesma célula tenha

uma formação diferente ou, utilizando-nos da linguagem popular,

se a célula estiver com defeito. O que fizemos foi apenas aumentar

essa deformação. Assim o vírus não poderá se multiplicar. Isso,

naturalmente, foi também providenciado quanto ao nosso Jessé, já

que ele deveria reencarnar através de Joana e Paulo.

—Ou seja — falei — com Jessé ocorreu o mesmo que com Paulo...

—Sim, meu amigo. Providenciamos para que a chamada

deformação celular do CD4 fosse transmitida geneticamente para o

futuro corpo do reencarnante. Com nossa ação magnética dirigida

ao corpo espiritual de Jessé, assim que ele entrasse em contato com

a célula-ovo em formação no útero de Joana, a ação magnética se

intensificaria. Entretanto, não podemos correr o risco de submeter a

criança, o nosso pupilo Jessé, a algum problema em seu futuro

corpo. Ele precisa nascer urgentemente.

—Antes dos nove meses?

—Imediatamente, Ângelo. Mesmo com a nossa ação magnética, não

podemos fazer milagres. Isso é o máximo que conseguimos realizar

dentro de nossas limitações.

—E quanto a Joana?

—Temos de nos preparar para recebê-la entre nós.

Falando assim, Cássio se aproximou do leito e impôs suas mãos

sobre Joana, iniciando uma operação magnética.

_ Atenção, Dr. Maurício Durant! Atenção, Dr. Maurício Durant —

era a voz que falava através da caixa acústica no hospital. — Favor

dirigir-se ao bloco cirúrgico imediatamente.

—Vamos depressa — falou a enfermeira Leontina para a

companheira de trabalho. Não podemos demorar. O estado dela

piorou de um momento para o outro. Chame o Dr. Maurício Durant

e depois telefone para a família. É urgente.

Joana foi conduzida pela enfermeira para a ala de emergência do

hospital. Não poderiam demorar mais com os recursos médicos.

Sua situação era emergencial. A criança e a própria Joana corriam

perigo de vida.

— Precisamos realizar exames com urgência — falou o médico de

plantão. — Ela tem dificuldade de respirar. Vamos recolher seu

sangue antes do Dr. Maurício chegar.

Peça urgência na resposta.

Mal a enfermeira recolhera a amostra de sangue, o Dr. Maurício

Durant, médico de Joana, entrava no CTI junto ao bloco cirúrgico,

onde a moça estava estendida numa maca com vários aparelhos

ligados.

Paulo, Altina e Célia, a mãe de Paulo, dirigiram-se para o hospital

apressadamente.

Do nosso lado, muitos espíritos se movimentavam em torno de

Joana, a fim de interferir no momento preciso.

Passado algum tempo, a família chegou ao hospital, e Paulo e

Altina, a mãe de Joana, foram conduzidos à presença do médico.

—Eu sinceramente não entendo, Paulo, como Joana não está

respondendo ao tratamento. Estamos fazendo tudo que está ao

nosso alcance.

—Ela sempre teve a saúde delicada, doutor. Ainda mais que já usou

drogas...

— Drogas? Mas você não me falou nada disso antes...

—Bem, eu pensei que Joana tivesse falado com o senhor; afinal, ela

veio tantas vezes com D. Altina fazer suas consultas...

—É, Paulo — falou Altina. — Só que Joana sempre teve vergonha

do passado dela... Eu insisti para que falasse com o médico...

— Isso é grave, Paulo, é muito grave. Joana não poderia ter me

escondido nada. Bem que desconfiei quando realizei os últimos

exames. Ela apresentava uma resistência muito baixa. Perguntei se

havia tido algum comportamento de risco...

— Ela teve, doutor, mas não se preocupe — falou Paulo,

interrompendo o médico. — Ela fez o exame para ver se detectava o

vírus HIV, e foi negativo.

— Ela não me disse nada... — respondeu o médico.

—Por acaso ela repetiu o exame?

—Eu acho que não, doutor; pelo menos ela não me disse nada. Mas,

afinal, o exame realizado deu negativo. Precisava repetir?

—Claro que sim, Paulo; é claro. E o médico que a consultou não

pediu outros exames?

— Joana não deu tempo nem do médico explicar, doutor

—falou Altina. Mal o médico falou o resultado, que era negativo, e

Joana tomou o papel do exame de suas mãos e saiu correndo feito

doida de tanta alegria...

— Foi um erro dela...

—Mas existe necessidade de realizar outro exame, doutor?

—Claro, Paulo. Considerando que Joana teve um comportamento

de risco no passado, conforme você me diz, no mínimo seis meses

depois os exames deveriam ser repetidos.

—Mas ela não teve nenhum comportamento de risco após os

primeiros exames...

— Não é isso, Paulo. Não me entenda mal, por favor. É que o vírus

HIV às vezes pode não ser detectado apenas com um exame. Ele

mantém-se de certa forma escondido no organismo da pessoa por

muito tempo. Existem exames mais precisos que detectam o vírus.

Talvez o médico dela até sugerisse outros exames caso ela desse

tempo para isso.

Paulo modificou-se totalmente a partir da conversa com o médico.

Estava prestes a entrar num estado depressivo. E agora, o que seria

de sua Joana? E a criança, seu filho tão querido e amado? Ainda não

pensara no risco que ele próprio corria.

O médico pediu licença e saiu imediatamente. Deveria providenciar

recursos emergenciais para a saúde de Joana e da criança. Antes,

porém, pediu a Paulo a autorização para realizar exames anti-Hiv

em Joana. Ele não poderia fazer os tais exames sem o consentimento

do paciente e, como Joana não tinha condições de falar, pediu a

Paulo que desse a autorização. Acompanhamos Paulo e Altina com

grande interesse. Cássio ficara junto de Joana, enquanto Ernesto e

eu procurávamos auxiliar Paulo diretamente.

Procurando transmitir algum recurso terapêutico ao marido de

Joana tanto quanto a sua mãe, Ernesto observou que na sala onde se

encontravam havia uma garrafa com água cristalina. Dirigiu-se à

mesa onde estava a vasilha de água e impôs as mãos sobre o

recipiente. Por alguns instantes elevou o seu pensamento em atitude

de oração, e de suas mãos desprenderam-se bolhas de luz coloridas,

que caíam abundantemente sobre a água. Era o magnetismo divino

que deveria impregnar o líquido precioso de recursos da terapêutica

espiritual.

Ernesto olhou para mim após alguns momentos, e entendi logo o

que deveria fazer.

Eu não tinha nenhuma vocação para mentor e nem de longe me

parecia com um anjo do Senhor, mas mesmo assim me aproximei de

Altina Gomides e impus minhas mãos sobre sua cabeça, pensando

intensamente. Imediatamente ela captou o meu pensamento e

dirigiu-se ao recipiente com água.

—Estou com sede, Paulo; você não gostaria de tomar um pouco de

água também?

—É. Creio que sim — falou Paulo abatido. — Traga-me um pouco,

por favor...

Altina ofereceu a Paulo o líquido abençoado. Ao sorver a água

magnetizada, Paulo sentiu-se mais revigorado. Os pensamentos

sombrios foram diluídos, e uma sensação de bem-estar invadiu-lhe

a alma.


— Vamos fazer uma prece, D. Altina. Venha, vou chamar a mamãe

também para participar.

Os nossos amigos se reuniram para pedir o socorro do Alto. Não

desconfiavam, porém, que justamente o mal que queriam evitar era

em si mesmo o socorro que estava a caminho. Era apenas uma

questão de interpretação.

22

Nasce uma estrela



... vi que eu ero mois do

que uma sombra de mulher.

Eu também era Deus.

Ele me acompanhou nos últimos momentos. Tocou-me de leve e

sorriu aquele sorriso sofrido e amarelo. Paulo acompanhou-me pela

última vez, até o local onde ele poderia assistir ao parto. A criança

nasceria com sete meses apenas. E eu, apreensiva, mal conseguia,

com meu olhar, me comunicar com o amor da minha vida. Paulo

era tudo para mim. Nele me apoiei nas horas mais difíceis de minha

existência.

Ah! Como a vida assume um novo valor para nós, quando estamos

na iminência de perdê-la. Mas eu não sabia que a vida estava se

esvaindo do meu corpo. E a vida estava também renascendo de

minhas entranhas. Nascia a vida de minha própria vida.

Cruzei o olhar com o de Paulo enquanto me levavam na maca. Era

uma sensação estranha aquela que senti. Mal conseguia forças para

conservar a consciência lúcida, mas, nos poucos momentos em que

conseguia lucidez, via a imagem de Paulo tentando sorrir, ao lado

da maca.

Assistia a todos os preparativos à minha volta. Eu não saberia dizer

se o parto seria normal ou cesariana. Não importava. Algo diferente

estava acontecendo comigo. Vi quando o médico pediu a Paulo que

se retirasse, e ele, olhando-me intensamente, depositou um beijo em

minha face. Não sabíamos que seria nosso último beijo.

Estremeci ao ouvir de Paulo a frase:

— Eu te amo, Joana. Tudo vai dar certo.

Minha alma parecia se diluir em dor e pranto. E a minha mãe, onde

estaria? Eu não a via. Como nos faz falta a presença da mãe nesses

momentos angustiosos. É nessa hora que os sentidos parecem se

aguçar, e, em apenas alguns minutos, conseguimos avaliar toda

uma vida. Foi nesse momento de aflição que pude perceber de

maneira mais intensa o valor de uma mãe. Eu agora seria uma mãe

também. Eu era o próprio útero. Estava me dilatando a fim de dar à

luz a própria vida. Vi como a mamãe foi e é importante para mim.

Eu não conseguia dizer nenhuma palavra, entretanto esforcei-me

para me comunicar com o olhar. E creio que Paulo sentiu a força do

meu olhar. Aos poucos eu via sua figura se transformando em uma

silhueta. E Paulo se transformou em uma doce e terna lembrança,

sempre cara e presente em meu espírito.

Meus sentidos se aguçaram ainda mais, e, num momento, pude

perceber um pensamento. Foi apenas por um momento. Será que a

criança, o meu filho, tentava me dizer algo? Uma avalanche de

emoções irrompeu de dentro de mim. Parecia que eu ia explodir ou

que pedaços de minha vida se transformariam em mil fagulhas. Não

conseguiria descrever essas emoções e esses momentos especiais.

Sentia o meu filho se mover dentro de mim. Ele tentava se

comunicar de alguma maneira, com uma linguagem que só há bem

pouco tempo eu aprendera a decifrar. Era puro amor. Senti que

nada no mundo importava mais do que viver esse momento

especial, precioso. Esforcei-me o máximo que pude, mas os médicos

e os enfermeiros corriam de um lado para outro, preocupados

apenas com algumas coisinhas. Tentavam preservar minha vida a

todo custo.

Esforcei-me ainda mais, e o que consegui foi entrar numa espécie de

transe, em que meu espírito ultrapassou os limites do corpo,

daquele quarto de hospital, do próprio mundo. Realmente me

comunicava com meu filho. Senti que ele me compreendia e eu o

compreendi. Falamos através de uma linguagem toda especial. Sem

palavras, sem articulação da voz nos entendíamos.

O corpo não me importava mais. Agora meu filho era tudo.

Concentrei nele minha atenção e canalizei para aquele momento

toda a força de minha alma. Deixei-me inebriar pelo som de uma

melodia que repercutia no íntimo de mim mesma. Nada no mundo

importava mais do que a vida que nascia, do que o amor do meu

filho.

Ouvia uma música que parecia impregnar o ar. Algo tentava



distrair minha atenção. E toda aquela gente preocupada comigo, no

hospital. Mas o hospital estava distante. Meu corpo era apenas um

ninho onde eu poderia aconchegar mais um filho da vida. Ah! Mas

aquela música... Seria uma cítara? Aquele som mavioso fazia minha

alma estremecer, e pude me ver então com o meu filho nos braços.

Eu o aconchegava. Seria um sonho? Eu delirava no momento da

morte? Mas sonharia mil vezes, mil vidas viveria para sentir a

intensidade daquele momento. Eu o abraçava em meu sonho, em

meus delírios, em meu transe. Eu o abraçava ao som da cítara e das

harpas, debaixo dos salgueiros ou em meio àquela paisagem

bucólica que emergia de minhas lembranças. Era o êxtase que me

dominava. Seria então o momento em que me diluía e me contorcia,

a fim de receber meu filho que nascia para a vida.

— Veja, Joana, veja que bela criança veio ao mundo. Conseguimos!

— falou o médico. — Conseguimos!

Eu o vi. E como me regozijei por viver aquele momento. Meu

primeiro momento ao lado de meu filho e meu último momento no

mundo.


Esbocei um sorriso ao ver a criança sendo mostrada a mim. Fechei

os olhos para tentar ouvir a música da vida e não mais os abri.

— Joana, Joana! Levem a criança e façam tudo por ela! Temos que

trazer Joana de volta — falou alguma voz desesperada.

Fechei os olhos. Mas não os abri novamente. Não consegui.

Entretanto, eu via, percebia tudo a minha volta. Eu via e ouvia sem

o corpo e fora do corpo.

Olhei para mim mesma e notei que pairava entre focos de luz. Eram

luzes. Apenas luzes coloridas, brilhantes, diáfanas. Eram estrelas.

Eu agora era também uma estrela.

23

Um Final diferente



Anida assim eu o procurava.

Não tivemos como salvar a vida de Joana, Paulo — falou o médico.

Conseguimos salvar a criança, mas Joana não resistiu ao parto. Você

sabe, o estado dela... Já se haviam passado alguns meses desde os

acontecimentos. Paulo resolveu trazer Altina Gomides

definitivamente para sua companhia. Ambos criariam o pequeno

Túlio. Esse era o nome do filho de Paulo e Joana. Saudoso,

preocupado quanto ao seu futuro e o de seu filho, Paulo procurou o

médico a fim de obter maiores esclarecimentos quanto à situação.

—Mas não se preocupe, meu amigo, quanto a você e ao menino; não

precisam se preocupar no momento. De acordo com os resultados

dos exames, ambos estão bem. Não encontramos nada que

justifique maiores preocupações.

—Mas Joana não estava com o HIV, doutor? Como o nosso Túlio

pôde nascer sem nada? E quanto a mim?

—São os mistérios que a ciência não conseguiu ainda explicar,

Paulo. Mas vocês não são os únicos casos. Existem por aí muitos

filhos de pais soropositivos que não apresentam nenhum sintoma

ou em que sequer foi detectada a presença do vírus. Mas, se por um

lado não conseguimos detectar nada em vocês, não se esqueça de

que terão de voltar para novos exames.

— Então não temos 100% de certeza?

— Temos de continuar fazendo os exames periodicamente. Isso é

tudo que posso dizer no momento.

— Então...

— Então aproveite a vida, rapaz. Gaste um pouco de energia por aí

e viva. Viva com a máxima qualidade que você conseguir. Isso é o

que importa. Não se deixe aprisionar por fantasmas.

Paulo deixou o consultório médico cheio de esperanças, mas

também deixou para trás um médico profundamente abalado em

suas convicções. É que ele não tinha explicações para o caso de

Paulo. A mulher morrera com o HIV, entretanto não conseguira

detectar nenhum vírus na criança nem no pai. Pelo menos por

enquanto. Era algo a se pensar. Paulo e o filho deveriam ser

pesquisados. Quem sabe não poderiam se transformar em cobaias

para as pesquisas de laboratório?

Nosso pupilo prosseguia sua caminhada em direção ao futuro. Do

lado de cá da vida, além dos limites da matéria, uma festa se

realizava em comemoração à vida. Cássio, o instrutor Ernesto e eu

juntamo-nos à comitiva para recepcionar Joana Gomides. Mas não

era a mesma Joana de antes. Estava renovada, radiante, viva. O

espírito de Joana apresentava-se a nossa visão vestida à semelhança

das mulheres romanas do primeiro século. Uma túnica vermelha

radiante, diáfana, cobria-lhe o corpo espiritual. O círculo se fechara.

Dois mil anos de história se resolveram afinal. Dois milênios de

sofrimento se findaram ante as portas do novo milênio que se

iniciava. Era uma nova era, uma nova vida.

Na Terra, nossos personagens prosseguem ainda hoje suas lutas,

suas tarefas, sua busca da felicidade. Do lado de cá prosseguimos

nós, para outros campos, outras atividades.

Joana prossegue sua caminhada auxiliando agora como benfeitora

de sua família, aprendendo as lições de fraternidade e amor em

outros campos, em outras dimensões da vida.

Na Terra, Paulo dá prosseguimento à sua vida junto com o filho

Túlio, e Altina, sempre maravilhada com as intuições que recebe do

Alto, não abandona a igreja. Quando percebe o espírito de Joana se

aproximar, entra em êxtase e, na plenitude do Espírito Santo,

conforme ela diz, sai gritando em ritmo gospel:

— Oh! Glória! Glória! Glória, Senhor. Minha filha é uma "anja" do

Senhor. Oh! Glória, aleluia.

Mas, antes que ela entre em transe mediúnico de tanto gritar

hosanas, a Divina Providência, que jamais desampara seus filhos,

provê recursos, embora não muito ortodoxos, para chamar Altina à

realidade.

— Altinn-naaa...! Altina queridinha, sou eu, sua amiga, a

Mariquinha, querida.

Afinal, Deus, como diz o ditado popular, sempre escreve certo, mas,

às vezes, por linhas tortas.

É que a vizinha tagarela e faceira permaneceria ali, junto a Altina,

para lembrar-lhe de que ela estava na Terra e tinha muito a

caminhar, muita paciência a exercitar.

Epílogo


Retrato do uma vida

por Joana Gomides

Fui pedra, fui areia, talvez até fui uma pedra bruta que tentava ser

gente.


A vida me ensinou a ser mais sensível. Vivi, errei e amei. Morri e

renasci. Descobri que, durante todo o tempo em que errava, em

que caminhava prisioneira de minha máscara, apenas procurava

por Deus.

Eu o procurava. Mas não o encontrando a minha volta, mais e mais

eu errava, por ruas, caminhos e atalhos. Ainda assim eu o

procurava. Droguei-me, abusei do sexo na ânsia de encontrar a

plenitude. Em vão. Não encontrei o Deus que eu procurava.

Fui também à igreja, mas, com uma pedra no lugar do coração, não

me sensibilizei com as orações, os cânticos, as pregações. Eu

procurava Deus em qualquer parte, em toda parte.

Revoltei-me nessa procura e, revoltando-me, neguei que Ele existia.

Mas mesmo na negação eu o buscava. Eu procurava pelo Pai.

Veio o amor, o amor por alguém que caminhava comigo. Comecei a

entender que, em todo aquele tempo aparentemente perdido,

apenas procurava pelas pegadas de Jesus.

Sei que não o encontraria entre os santos. Jamais o encontrei entre

os salvos. Também não o vi nos altares das igrejas. Não o encontrei

entre os eleitos. Por isso o procurei pelo mundo.

Todo erro, toda fuga é também uma procura.

A pedra se transformou em vegetal. Vi-me mais sensível pela

experiência do sofrimento.

O vegetal se humanizou, e vim a saber o que era ser e sentir-se mãe.

Aí, sentindo uma vida pulsar dentro de mim, vi que eu era mais do

que uma sombra de mulher. Eu também era Deus.

Eu o havia procurado, eu o havia esquecido, eu havia blasfemado

contra Ele.

Mas por todos esses caminhos não o encontrei, simplesmente

porque Ele estava o tempo todo escondido bem dentro de mim.

Visite nossos blogs:

http://www.manuloureiro.blogspot.com/

http://www.livros-loureiro.blogspot.com/

http://www.romancesdeepoca-loureiro.blogspot.com/

http://www.romancessobrenaturais-loureiro.blogspot.com/



http://www.loureiromania.blogspot.com/
1   2   3   4   5   6


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal