Encontro com a vida robson pinheiro



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Encontro10.09.2017
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em direção à filha, que saía em disparada.

Abrindo a porta rapidamente, Joana não se conteve de alegria ao

rever o rapaz e atirou-se em seus braços, sem raciocinar a respeito

de sua atitude.

— Joana... — balbuciou Paulo com o coração disparado — que bom

vê-la novamente.

Os dois permaneceram abraçados por um pequeno espaço de

tempo, o suficiente para que pudessem ler nos olhos um do outro as

palavras não escritas da alma, as páginas do coração.

Foi Paulo que primeiro acordou daquela espécie de transe que

envolve os apaixonados e, desvencilhando-se dos braços de Joana,

foi entrando porta adentro, perguntando por Altina.

— A mamãe está na cozinha — respondeu Joana já sem graça,

porque se revelara por inteiro, através dos gestos e de sua atitude.

"Como está linda" — pensou Paulo... "Ah! Meu Deus, bons espíritos,

será que não estou indo longe demais?"

Seus olhos se cruzaram novamente, e um clima especial se

estabeleceu entre ambos.

Em outra dimensão da vida esses acontecimentos não passaram

despercebidos.

Cássio, o pai de Joana, a tudo assistia, de maneira a interferir nas

vidas envolvidas, pois fazia parte do planejamento do Alto que os

dois se unissem.

Dirigindo-se a Paulo, sem que este percebesse, através da intuição, o

espírito de Cássio estendeu as mãos sobre o plexo solar do rapaz,

magnetizando-o. Depois de alguns minutos dirigiu sua atenção para

a glândula pineal, que rapidamente se iluminou, diante da ação

magnética do bondoso espírito.

Como resultado, o rapaz sentiu imediatamente as emoções

irromperem de seu interior e lançou-se num ímpeto em direção a

Joana, tomando-a nos braços, sem saber como dominar as emoções

e os pensamentos que lhe vinham à mente.

—Não posso mais viver sem você, Joana — falou Paulo, segurando

Joana em seus braços.

—Paulo, meu Paulo... — mal terminou a frase, e o rapaz continuou.

—Eu te amo, Joana, como nunca amei uma mulher antes. Não sei se

você saberá interpretar o meu gesto, mas não consigo mais esconder

o que sinto...

Joana deixou-se inebriar pelas palavras de Paulo, que a beijou

suavemente nos lábios, iniciando uma nova etapa na vida dos dois.

Com tantas emoções contidas, Paulo e Joana deixaram-se dominar

pelo carinho. As palavras brotavam de suas bocas com a facilidade

com que desabrocha uma flor na primavera.

Não perceberam que estavam sendo observados por Altina, que

assistia à cena, ao mesmo tempo em que tentava se esconder para

não ser flagrada.

Os dois continuariam ali por muito tempo, não fosse a interferência

superior de uma alma boa e pura como a vizinha, amiga de todas as

horas.

— Al-tin-nnaaaa... sou eu, minha amiga. Sua vizinha que-ri-di-nha.



Está com visitas, amiga?

A vizinha foi logo entrando, naturalmente sem ser convidada, pois,

para os amigos dessa natureza, são dispensados os convites,

considerados muito formais.

— Meu Deus, veja só como adivinhei que tinha visitas. Eu nem vi o

seu carro aí em frente, Seu Paulo — falou a vizinha, intrometendo-

se na vida da família. — Veja, Altina, como sou discreta, nem vou

atrapalhar o casal de pombinhos, que devem estar interessados em

conversar...

Paulo e Joana foram surpreendidos abraçados em meio às juras de

amor.

Do lado de cá da vida, Cássio, o benfeitor espiritual, desistiu de



tentar interferir. Resolveu deixar que os acontecimentos agora

transcorressem rumo às correntezas das águas da vida.

Encontrei Cássio levitando sobre a casa de Altina e Joana. Com um

sorriso, ele me recebeu de braços abertos, dizendo:

— Bem, meu amigo, graças a Deus que os dois se ajustaram.

E, olhando para baixo, em direção à vizinha de Altina, que parecia

estar com o chacra laríngeo hiperdesenvolvido e estimulado, de

tanto que falava, continuou Cássio:

— Mas nem tudo é perfeito. Tenho de me acostumar com isso!

Vim ao encontro de Cássio a seu convite, a fim de visitarmos uma

comunidade de espíritos cujas experiências se deram, na Terra, em

sintonia com o pensamento e a filosofia da Reforma Protestante.

Eram espíritos que fundaram uma colônia no espaço próximo à

Terra e que ali se reuniam, conservando a característica de suas

antigas crenças. Nunca imaginei que conheceria algum dia uma

comunidade de espíritos evangélicos. Afinal, sempre pensei que, do

lado de cá da vida, só existiam espíritos espíritas, ou que todos,

senão a maior parte daqueles que desencarnaram no mundo, se

transformariam em espíritos espíritas assim que chegassem aqui.

Cássio me surpreendeu em meus pensamentos, enquanto nos

dirigíamos para a metrópole espiritual.

—O que você pensa a respeito da expressão "espírito espírita"?

—Bem — comecei, assustado com o fato de Cássio haver penetrado

em meus pensamentos — não é que eu pense que do lado de cá da

vida os espíritos deveriam adotar somente a visão espírita. Uso

apenas esse termo para significar que talvez os espíritos que

conservem as suas crenças como na velha Terra fossem convencidos

aqui a respeito da realidade da reencarnação e de outros

ensinamentos próprios da doutrina espírita.

— Ah! Ângelo, não creio que você seja tão ingênuo assim...

— É, devo admitir que me perdi na forma de me expressar —

confessei.

Aproximamo-nos rapidamente da cidade espiritual. Na verdade,

era uma metrópole localizada na região espiritual de uma cidade

bem conhecida do sul do Brasil.

A metrópole brilhava como uma pérola de luz coagulada. Parecia

ser estruturada em matéria astralina de regiões superiores do

planeta.

A medida que nos aproximávamos, pude perceber que a arquitetura

local lembrava certas cidades européias, mais precisamente algumas

cidades alemãs que eu visitara quando encarnado. Cássio socorreu

minha curiosidade:

— Essa comunidade espiritual foi fundada no ano de 1878, por

espíritos de missionários alemães e franceses que foram atraídos

pela psicosfera do Brasil. Para aqui se dirigiram, com o objetivo de

implantar, nas terras brasileiras, a mensagem evangélica. Desde

então, a comunidade tem crescido imensamente. Hoje, abriga uma

população de mais de um milhão e meio de espíritos que se

afinizam com o pensamento das diversas correntes evangélicas.

Entramos na metrópole espiritual, e pude perceber a beleza de sua

arquitetura e a paisagem harmoniosa a nossa volta.

Cássio me conduziu para um breve passeio na colónia. Pude

observar que mesmo aqui, do lado de cá da vida, continuavam as

preferências por esta ou aquela interpretação evangélica das

Escrituras.

— No princípio da atividade da colônia, quando começaram a

chegar aqui diversos espíritos provenientes de escolas religiosas

diferentes, esboçou-se o caos nas relações sociais de nossa

comunidade. É que os espíritos vindos da Terra não deixaram na

sepultura suas manias, suas concepções a respeito da vida ou suas

características de culto ou crença. Cada comunidade evangélica aqui

representada queria advogar suas idéias e exigia audiência com o

Todo-Poderoso, acreditando que esta colónia espiritual fosse o

próprio paraíso e que Jesus estaria em algum lugar por aqui,

administrando os destinos do planeta.

"Os orientadores da colónia espiritual utilizaram recursos mentais

superiores, a fim de tentar apaziguar as diversas facções das

comunidades evangélicas representadas pelos espíritos que

chegavam da Terra.

"Muitos pastores desencarnados faziam plebiscitos com seus

simpatizantes desencarnados, tentando dominar a colónia e

prosseguir, do lado de cá da vida, com as mesmas posturas que os

caracterizavam na Terra. Muitos ainda não se reconheciam

desencarnados, e outros vinham para cá e continuavam dormindo,

aguardando o juízo final.

"A situação ficou tão difícil que os administradores da colônia,

como espíritos mais esclarecidos que eram, pediram a interferência

das entidades mais elevadas.

"Só a partir do ano de 1967, portanto há pouco tempo, a situação

entre os diversos agrupamentos evangélicos desencarnados pôde

ser apaziguada.

"Um mensageiro de uma comunidade superior à nossa veio nos

visitar. Todos os espíritos da metrópole foram avisados do

acontecimento, e, para que acalmassem os ânimos, foi-lhes dito

apenas que receberíamos um mensageiro do Senhor, que deveria

pôr fim às disputas intermináveis em nossa colônia espiritual.

"A notícia soou como uma bomba em nossa colônia. Logo, logo os

responsáveis pelos agrupamentos evangélicos de desencarnados

organizaram-se para receber o "anjo do Senhor", que viria trazer o

decreto divino para a comunidade de desencarnados.

"A colônia espiritual conheceu um tempo de tranqüilidade.

Representantes de diversas comunidades religiosas organizaram

vigília e grupos de oração, esperando o dia de receberem o

representante do Senhor. Esse tempo de calmaria propiciou a

oportunidade para que os dirigentes de nossa comunidade se

reunissem com os espíritos que estavam à frente de suas ovelhas

desencarnadas.

"Quando o mensageiro do Plano Superior nos visitou, era tal a

expectativa da multidão de espíritos afinizados com a fé evangélica

e protestante que a presença do emissário foi vista por tais espíritos

como se fosse uma segunda vinda de Jesus à Terra. Suas mentes,

acostumadas com as imagens fortes evocadas da Bíblia, acabaram

produzindo um efeito benéfico. Porém, estruturaram a imagem de

Jesus na fisionomia do mensageiro espiritual. Puro fenômeno de

ideoplastia, que se realizava à vista de todos.

"A partir de então, os espíritos passaram a se comportar de uma

forma especialmente tranqüila, embora vez ou outra recebêssemos

pedido de audiência com Jesus ou com os apóstolos, para discutir

interesses da comunidade de espíritos ou de pastores

desencarnados que se sentiam humilhados por não estarem

sentados em tronos reinando ao lado de Deus."

— Puxa vida! — pensei. — Como deve ser difícil conciliar todas

essas facções de espíritos...

— É, Ângelo, é muito difícil mesmo.

Aproveitando a oportunidade que se fazia presente, resolvi abusar

da bondade do benfeitor espiritual e apresentar minhas dúvidas.

—Diga-me, Cássio, como entender tantas religiões na Terra,

oriundas do tronco central do cristianismo?

—É perfeitamente possível imaginar a Terra como uma grande

escola, um educandário. Sob essa ótica, as diversas religiões

funcionam como classes adequadas ao amadurecimento dos

diversos alunos. Naturalmente que esses alunos rebeldes hão de se

julgar cada um superior ao outro, como se tivessem direitos a

privilégios, advogando cada classe a atenção plena do diretor.

Entretanto, mesmo que as diversas classes ostentem a sua cultura, a

sua visão científica ou religiosa a respeito das diversas disciplinas

ensinadas no educandário, todas elas são gerenciadas pela mesma

lei e pelo mesmo diretor. Algum dia os alunos descobrirão que são

todos irmãos de aprendizado e que as variações existentes no

educandário chamado Terra são necessárias para o crescimento de

todos. Nenhuma classe tem privilégios.

—Creio que não poderia ilustrar melhor a situação. E quanto

àquelas religiões criadas a partir das ramificações da Reforma

Protestante? Como entender o fato de que há tantas disputas entre

elas e ao mesmo tempo parecem se unir combatendo o espiritismo?

Para elas a mediunidade parece uma praga que merece ser

exterminada.

—Todas as religiões cristãs nasceram do desejo de agradar a Deus, e

seus fundadores foram médiuns que, num momento ou em outro,

se sintonizaram com entidades do nosso plano. É claro que nem

sempre os espíritos que os intuíram eram espíritos esclarecidos,

imperando aqui e ali elementos das crenças pessoais ou interesses

egoístas. Mas, com raras exceções, essas religiões nasceram do

contato mediúnico com outras dimensões da vida.

—Mas como entender a mediunidade no meio de gente que não

acredita em espíritos?

—Veja bem, Ângelo, citarei alguns casos apenas como exemplo para

suas observações, conservando um profundo sentimento de respeito

pelos nossos irmãos evangélicos. Como sabemos, o século xix foi

um marco na história do pensamento espiritualista. Desde o início

do século entidades espirituais elevadas reencarnaram no planeta

para auxiliar as falanges do Consolador na tarefa de libertação das

consciências. O mundo experimentou momentos de grande euforia

quando chegou a época do advento do espiritismo. Foram

observados vários fenômenos em toda parte do planeta, chamando

a atenção para o mundo dos espíritos. Nesse contexto nasceram

algumas religiões da Terra.

—Não entendo onde você quer chegar com essas observações.

—Por volta de 1843, religiosos da América do Norte, liderados por

um homem chamado Guilherme Miller, ao estudar a Bíblia

chegaram à conclusão de que algo diferente estava para acontecer

no panorama espiritual do mundo. Porém, deram uma

interpretação muito pessoal aos seus estudos e observações.

Naturalmente, era uma época muito fértil no terreno mediúnico,

pois vários médiuns despontavam aqui e ali, estimulados pelas

falanges do Consolador. Surgiu nesse grupo uma médium, Eilen

White, que reunia várias faculdades, como a psicografia, a vidência

e a clariaudiência. Entretanto, devido à sua educação evangélica,

todos interpretaram tais faculdades como sendo dons do Espírito

Santo. Ela foi instrumento nas mãos dos espíritos para evitar uma

catástrofe de grandes proporções. Muitos esperavam a volta de

Jesus à Terra por desconhecerem certos elementos que favoreciam a

interpretação de algumas profecias bíblicas.

—Essa médium era auxiliada por espíritos mais esclarecidos?

—Certamente, Ângelo. Porém, encontraram alguns obstáculos junto

a ela, devido a sua educação protestante, como eu disse antes. É

muito comum observarmos, nos escritos que ela deixou, a maioria

psicografados, referências aos espíritos. Ela descrevia seu mentor

espiritual como sendo "o meu mensageiro" ou "o mensageiro do

Senhor". Entretanto, depois de muita insistência junto a essa

médium, não obtendo respostas satisfatórias quanto à interpretação

de suas palavras, seus mentores resolveram deixá-la entregue às

próprias crenças. Naturalmente, a esse tempo foram considerados

pela comunidade evangélica como demônios, espíritos do mal.

Nasceu em meio às manifestações da mediunidade uma nova

religião, embora combatendo as verdades eternas do espiritismo,

como a imortalidade da alma, a mediunidade.

—Então eles se contradiziam?

—Isso ocorria mais por uma questão de ponto de vista equivocado.

Mediunidade para eles era do demônio, mas o mesmo fenômeno

mediúnico, observado entre os seguidores da nova religião, era

denominado de dons espirituais ou espírito da profecia.

—Então, pelo que posso observar, várias religiões que hoje

combatem as manifestações espirituais tiveram seu começo com o

trabalho de médiuns, que, mais tarde, foram chamados de profetas?

—Isso mesmo. Tanto quanto a dos adventistas, também a doutrina

dos mórmons teve origem em manifestações de espíritos, mais ou

menos à mesma época. Foi o caso de Joseph Smith, que recebeu

valiosas informações de seu mentor espiritual. Dando a essas

revelações uma interpretação de cunho pessoal, acabaram

desvirtuando o conteúdo das comunicações. Fundaram poderosas

organizações religiosas, que, até hoje, combatem o espiritismo, sem

entenderem direito que, na gênese de suas próprias religiões, havia

fenômenos mediúnicos muito intensos.

—Mas isso também ocorreu no início do movimento da Reforma,

inaugurado por Lutero no século xvi?

—Claro, meu amigo. Quem conhece a história das religiões

naturalmente sabe dos processos ocorridos com seus fundadores, os

quais foram considerados manifestações do Espírito Santo. O

próprio Lutero, ao subir as escadarias da igreja onde afixaria as suas

95 teses, na Alemanha, teve sua audição ampliada e ouvia vozes dos

espíritos. Consta de sua biografia que uma voz lhe falava que "o

justo viverá pela fé". Era um dos apóstolos de Jesus que inspirava o

reformador quanto aos passos que daria para a libertação das

consciências.

Entre uma conversa e outra, eu ia aprendendo com Cássio a respeito

de coisas que na Terra me passaram despercebidas. Encontrava

naquela comunidade de espíritos diversas motivações para estudos.

Havia muito o que aprender.

Fiquei atônito com as revelações de Cássio. Eu nunca poderia

imaginar que ocorriam tantas coisas no plano espiritual.

Aproximamo-nos de imenso pavilhão, que se parecia com um

hospital. A arquitetura era muito simples, porém a construção

espiritual parecia ter quilômetros de comprimento e vários andares.

Entrei no ambiente acompanhado de Cássio, que me apresentou ao

espírito que organizava os trabalhos no pavilhão.

— Seja bem-vindo, companheiro — falou-me o espírito. — Meu

nome é Matias, e sou responsável por essa seção do Pavilhão dos

Silenciosos.

Ao olhar dentro do pavilhão notei que havia muitos leitos, a perder

de vista, com espíritos que pareciam dormir. Acima deles, parece

que havia imagens mentais se confundindo, se misturando, se

formando e se diluindo imediatamente, uma após outra.

Achei estranho o nome de Pavilhão dos Silenciosos. Na verdade,

achei tudo muito estranho. Nunca vira tantos espíritos dormindo

desde que cheguei ao plano espiritual.

Cássio auxiliou-me na curiosidade:

—Estes são espíritos que, na Terra, durante anos alimentaram a

idéia de que a morte é o fim de tudo. Conforme ensinavam em suas

igrejas, dormiriam por muito tempo, até a segunda vinda de Jesus à

Terra, quando Ele os acordaria. Geralmente são espíritos afinizados

com o pensamento das igrejas adventistas e testemunhas de Jeová,

além de poucas outras que não admitem a imortalidade da alma.

—Mas essas igrejas não são espiritualistas? Não ensinam aos seus

seguidores que existe uma vida além?

—Nem todas ensinam assim. Nossos irmãos adventistas e

testemunhas de Jeová ensinam que a alma é mortal e que somente

nos fins dos tempos Deus vai recriá-las, através da ressurreição. Até

lá, os eleitos (naturalmente, de suas religiões) ficarão dormindo

num estado de não-existência. Algo que nem mesmo eles

conseguem explicar, mas em que acreditam sinceramente. Eis por

que vemos muitos espíritos dormindo do lado de cá da vida.

Estruturaram de tal forma seus pensamentos e crenças quando

estavam encarnados que muitos reencarnam por diversas vezes sem

saber ou acordar para a realidade da vida imortal. Precisam de

tempo até para despertar.

Apontando para os leitos e mais precisamente para as formas

dinâmicas observadas acima dos espíritos que dormiam, o

companheiro Matias falou:

—As criações mentais que você observa se formando e se diluindo

são o resultado dos pensamentos desses espíritos. Tais pensamentos

continuam sendo emitidos em forma de sonhos ou pesadelos.

Recusam-se a acordar para enfrentar a realidade da vida imortal,

mas, como a atividade da vida do espírito é constante, não deixam

de emitir ondas mentais.

—E os outros espíritos da colônia, que estão mais conscientes e

participam da vida social desta comunidade?

—Para eles é diferente. Ocorre que a maioria das religiões

evangélicas ensinam seus fiéis que após a morte existe uma vida

imortal. Porém, localizam essa vida num pretenso paraíso ou no

inferno, dependendo de qual religião a pessoa professar quando

encarnada.

— Entendi! — falei, pensativo.

Fiquei abismado, verdadeiramente chocado com o que via. Jamais

imaginei presenciar cenas e ouvir explicações como essas. Depois de

visitar o pavilhão num rápido passeio orientado por Cássio e

Matias, fomos conhecer a universidade da colônia. Era o lugar onde

os espíritos que administravam a metrópole espiritual transmitiam

ensinamentos da Vida Maior para aquelas almas acostumadas a

interpretações dos diversos segmentos da Reforma Protestante.

— Aqui — falou Cássio — conhecimentos sobre a reencarnação, as

leis espirituais e os vários ramos do espiritualismo são ministrados,

de acordo com o grau de entendimento dos espíritos de nossa

comunidade.

—Como vocês fazem para explicar a reencarnação de algum

espírito, quando chega o momento próprio e ele tem de se afastar da

comunidade? Como os demais espíritos vêem a ausência de um

companheiro que tem de reencarnar?

—Somos transparentes com todos. Falamos abertamente da

necessidade de "nascer de novo" no ventre materno. Entretanto,

nem todos compreendem o novo nascimento como sendo a

reencarnação. Quando chega o momento de reencarnar e

determinado espírito se ausenta da metrópole para o processo

reencarnatório, muitos espíritos interpretam de acordo com a sua

crença. Alguns dizem que o espírito reencarnante foi arrebatado

pelos anjos; outros interpretam como sendo Jesus que convocou tal

espírito para uma missão qualquer em algum recanto do universo.

Mesmo que falemos claramente a respeito da reencarnação, cada

espírito interpreta o conhecimento de acordo com seu próprio ponto

de vista. Respeitamos todos. Assim, conseguimos viver em paz.

Continuamos nosso passeio pela colónia espiritual, enquanto Cássio

ia nos orientando quanto aos trabalhos realizados pela comunidade

de espíritos.

A visita àquela metrópole do mundo espiritual havia me inspirado

profundas observações e pensamentos. Fiquei emocionado ao

descobrir que ninguém está desamparado pela bondade divina.

Nossos irmãos evangélicos são também orientados pelo Alto e,

mesmo que não pensem e nem creiam como os espíritas, são filhos

de Deus; suas igrejas, seus ensinamentos fazem parte da grande

escola da vida; trabalham em contato com outra realidade e com

outras necessidades evolutivas dos filhos de Deus. Eis a verdade

espiritual. Mesmo dentro das igrejas evangélicas, os espíritos do

bem trabalham para auxiliar a quantos necessitem. Seus profetas e

pastores são os médiuns através dos quais os espíritos trabalham

em benefício dos que sofrem.

Por certo existem abusos em muitos lugares; porém, apesar dos

desacertos próprios da alma humana, não podemos negar que

muita gente é auxiliada, que os espíritos ignorantes são socorridos e

que Deus aproveita a boa vontade e o conhecimento de suas

criaturas para amparar seus outros filhos mais necessitados. Todos

contribuem para a obra de renovação da humanidade.

Deixamos a metrópole espiritual ouvindo os cânticos e hinos de

louvor de um grupo de espíritos daquela comunidade. Era a música

gospel do plano espiritual. Reencontramos o instrutor Ernesto e

demandamos novamente a Crosta. Eu, agora com novos elementos

para estudos e observações, perdia-me em meio aos pensamentos,

com tanta coisa a organizar, em vista dos acontecimentos dos quais

participava.

17

A teoria da incerteza



A pedra se transformou em vegetal.

A união de Paulo e Joana não demorou muito. Os preparativos

eram realizados por Célia, a mãe do rapaz, que tudo fazia para a

felicidade do casal.

Paulo alegrava-se com os eventos relacionados ao seu casamento e

ria gostosamente ao ouvir de Altina o relato da visita de Joana ao

médico, quando recebera o resultado dos exames.

—Mas você nem esperou o médico falar direito para deixar o

consultório, Joana? E os sintomas que sentia? A febre e a diarréia?

—Ah! Nem sei o que deu em mim. Tudo sumiu como por encanto.

Acho que foram as orações da mamãe.

—É isso mesmo, Paulo — falou Altina. — Orei tanto que Jesus

ouviu as minhas rogativas. Por falar nisso, em orações, em Jesus, eu

gostaria de fazer um pedido a vocês.

—Diga, D. Altina — falou Paulo, abraçado com Joana.

— É que eu gostaria de ver a Joana casando na igreja, na casa do

Senhor.

O casal de noivos trocou olhares, enquanto Altina prosseguia:

— Sei que na religião sua, Paulo, não tem casamento religioso, que,

segundo você me explicou, é desnecessário quando existe amor.

Mas como eu gostaria de ver a minha filha vestida de noiva,

entrando na igreja e sendo abençoada por Deus...

Altina falava, e os seus olhos enchiam-se de lágrimas.

Ante as emoções da velha mãe, o jovem casal resolveu ceder e

aceitar o apelo de Altina.

Radiante, a mãe de Joana saiu logo à procura do pastor, para

preparar a igreja. A cerimônia religiosa se realizaria conforme o seu

desejo.


Paulo ficou só com sua noiva, aproveitando o momento para se

entenderem quanto aos projetos para o futuro.

—Então, minha Joana, como se sente?

—Estou feliz, Paulo, muito feliz. Parece que minha vida deu uma

reviravolta quando nos conhecemos. Se existe destino, creio que

alguém lá em cima andou mexendo com as nossas vidas. Tudo está

muito bom.

—Temos muitas coisas para realizar juntos em nossas vidas. Eu

também, Joana, eu também me sinto agradecido à vida, a Deus e às

forças superiores, que nos guiaram um em direção ao outro. Mas

me conta, minha querida, e a saúde? Como vai? D. Altina me disse

que você não estava se sentindo bem...

—Acho que é a emoção, meu amor. Com tudo que venho

enfrentando durante a minha vida, creio que fiquei mais sensível e

não estou resistindo muito à intensidade desses momentos.

—O que exatamente você está sentindo, Joana? Diga-me.

—Ah! Paulo, não é nada de mais. Acho que é diabete. Tenho tido

tonteiras. A mamãe também é diabética e já sentiu isso antes. Creio

que, quando a gente está emocionada, ficamos mais sensíveis, só

isso.


—Por que não procuramos um médico? Talvez você possa se tratar.

Esses dias atrás, D. Altina me disse que você teve uma espécie de

desmaio.

—Pois é, acho que sou diabética mesmo. Eu me senti meio tonta, e

depois veio uma fraqueza muito grande. Mas já passou.

—Procuremos um médico, Joana.

—Prometo-lhe que me cuidarei, Paulo. Deixe passar esses

preparativos, e, assim que nos casarmos, procuro um

endocrinologista e cuidarei mais da saúde.

—Promete?

—Claro que prometo! Não confia em mim?

—Então, beije-me e confiarei mais...

A conversa dos dois se encerrou por ali mesmo, ante os apelos do

coração. Paulo não desconfiava de que suas lutas não haviam

terminado.

Os dias se passaram velozes, e chegou finalmente o momento de

concretizarem os sonhos.

Paulo alugara um apartamento próximo à casa de Altina, e Joana

dedicara-se à decoração dele. Célia, a mãe do rapaz, esmerava-se

para agradar a nora.

Levanta-se o véu que separa os dois lados da vida.

Cássio e eu conversávamos com o instrutor Ernesto. Preocupado,

Ernesto questionava Cássio:

— Será mesmo necessário que eles passem por esta prova? Não

podemos adiar as coisas? Quem sabe obtemos auxílio do Alto?

— Não creio que seja possível, Ernesto. Tanto Paulo quanto Joana

necessitam passar por momentos difíceis, que estão reservados para

eles. Entretanto, Paulo nos oferece recursos psíquicos mais amplos,

a fim de que interfiramos em seu benefício. Quanto a Joana, bem, a

minha filha deve retemperar-se, fortalecer-se para futuros

compromissos. Antes, porém, temos de encaminhar Jessé, seu

antigo perseguidor, para as lutas próprias do mundo físico. Ele deve

reencarnar através de Joana e Paulo.

— Mas... — Ernesto segurava em suas mãos uma espécie de papel,

como se fosse algum relatório, que olhava constantemente enquanto

falava com Cássio.

Minha curiosidade aumentava a cada minuto, porém só mais tarde

eu compreenderia o sentido daquela conversa.

—Não se preocupe, Ernesto, nem Paulo e nem Jessé, que renascerá

como seu filho, correrão perigo. A técnica sideral dispõe de meios

para auxiliá-los. Embora a ciência da Terra se encontre acuada

diante de problemas insolúveis no momento, o nosso plano dispõe

de recursos além das possibilidades dos companheiros encarnados.

Consideremos isso e confiemos em Deus. Ninguém passa por nada

na vida sem que mereça, ou melhor, colhe-se a medida exata que se

plantou.

—Isso é o que eu temo por Jessé e por Paulo, já que no caso de

Joana não podemos interferir mais.

—Aí é que está a beleza da vida. Espere, meu amigo. Espere e verá

a atuação da divina misericórdia.

A festa do casamento de Joana e Paulo transcorreu num clima de

cânticos e hinos de louvor. Espíritos amigos participaram do lado

de cá, vindo compartilhar daqueles momentos de alegria das duas

famílias que se uniam. Altina estava toda feliz, e a surpreendemos

várias vezes falando sozinha:

— Oh! Glórias, glórias, glórias! Aleluia, meu Pai. Louvado seja o

nome do Senhor!

18


Preliminares

O vegetal se humanizou e vim a saber que era ser e sentir -se

mãe.

Estávamos reunidos numa espécie de laboratório do mundo



espiritual. Ernesto, Cássio, Jessé, o antigo verdugo de Joana, e eu.

Ali se reuniam os espíritos responsáveis pela programação das

reencarnações. Espíritos experientes de cientistas, médicos e

geneticistas em sintonia com o Plano Superior realizavam, junto

com o espírito reencarnante, o programa de vida, que era traçado

em linhas gerais. Tal programação das experiências transitórias na

carne envolvia também algum tratamento em relação ao corpo

espiritual ou psicossoma do reencarnante.

Fiquei fascinado com as possibilidades dos dirigentes de nossa

comunidade e particularmente interessado em estudar o que se

referia ao projeto reencarnatório de diversos espíritos em trânsito na

colônia espiritual onde nos encontrávamos. Gráficos, estudos

preliminares a respeito de células, átomos, genes, DNA e tantos

outros assuntos referentes ao processo da reencarnação eram vistos

ali, no Departamento Vida Nova.

Jessé deveria retornar ao corpo físico em abençoada experiência. Por

isso, a nossa presença, que, de certa forma, deveria infundir

coragem ao então renovado espírito. Cássio, o bondoso amigo de

todas as horas, nos falou:

—É preciso atender às necessidades do nosso querido Jessé. Assim

que ele iniciar a descida vibratória em direção ao útero materno,

para renascer pela nossa Joana, decerto encontrará dificuldades.

Precisamos amenizar a situação, preparando seu corpo perispiritual

de maneira que suas vibrações correspondam ao que está

programado para sua próxima experiência física.

—Sim — falou Ernesto, dirigindo-se a Jessé. — Como você mesmo

já sabe, é preciso que retorne outra vez à Terra para as provas que

estão reservadas ao seu espírito. Na noite passada, seus futuros pais

foram trazidos ao nosso plano a fim de entrarem em contato com

você.


—Claro, me lembro, embora ainda não possa compreender direito

esse retorno à vida na matéria. É que em minhas antigas crenças não

fui informado quanto à reencarnação da forma como vocês falam.

—Teremos tempo para entrar em detalhes — falou Ernesto. Por ora,

meu amigo, é importante que trabalhemos com seu corpo

perispiritual. É preciso que se proceda a uma intervenção em suas

linhas de força.

— Está tudo pronto, meus amigos — falou um dos espíritos que

trabalhavam no departamento de reencarnação, ao qual

denominávamos Departamento Vida Nova.

Apontou em direção a uma maca, onde Jessé deveria deitar-se. A

primeira vista parecia que o espírito reencarnante iria se submeter a

um exame daqueles que se realizam na Terra. Vários aparelhos

foram posicionados acima do corpo espiritual de Jessé. Algumas

telas suspensas mostravam uma confusão de linhas coloridas e

focos de luz que eu não soube interpretar.

— São as células do corpo espiritual — adiantou Cássio. — Elas são

exibidas ampliadas, a fim de nos facilitar o trabalho de magnetismo

do perispírito. Para que Jessé, ao reencarnar, possa ser poupado de

possíveis contaminações de vírus ou bactérias, é preciso acelerar as

vibrações das células do seu psicossoma ou corpo espiritual. Temos

de proceder com a máxima precisão. Não pode haver margem de

erro, senão o processo reencarnatório poderá ser prejudicado.

Observando meu olhar de espanto quanto àquelas providências,

Ernesto me socorreu explicando:

— Você não ignora, Ângelo, que Joana teve um comportamento de

risco, expondo-se ao uso de drogas injetáveis e outros abusos. Do

projeto reencarnatório de Jessé, não faz parte nenhum fator que

comprometa seu renascimento. Eis por que estamos trabalhando

com muito cuidado diretamente sobre aquilo que denominamos

linhas de força do corpo espiritual.

— Então é possível que do nosso plano possamos interferir de tal

maneira no processo reencarnatório que seja fácil impedir

determinados problemas no futuro corpo físico do reencarnante?

— Claro, meu amigo — adiantou Cássio. — E como você explica

muitos casos que a medicina ou a ciência da Terra ainda não

conseguiram solucionar? Porventura não conhece os casos de

crianças que nascem de pais contaminados com determinados vírus,

como, por exemplo, o HIV? São correntes os relatos de crianças de

pais soropositivos que nascem sem se contaminarem. Existem casos

em que, mesmo a criança nascendo soropositiva, acaba negativando

com o passar do tempo, tendo uma vida promissora e com

qualidade.

— Na verdade, não costumo acompanhar esses casos — falei. —

Entretanto, considero interessantes as observações de vocês.

— É o que você pode ver que estamos realizando com o corpo

perispiritual de Jessé. Através de intenso campo magnético

estimulamos a região do corpo espiritual que corresponde ao timo.

Essa glândula, conforme observações da própria ciência da Terra, é

responsável pela maturação de linfócitos T.

— Então — continuou o companheiro Ernesto — ao criarmos um

corpo magnético de alta resistência em torno da região

correspondente ao timo, estaremos favorecendo o sistema

imunológico do futuro corpo de Jessé.

—Creio que compreendi — falei. — O sistema imunológico é o

responsável pelas defesas do organismo físico...

—Não é bem isso, companheiro — interferiu Cássio. — Na verdade,

o sistema imunológico funciona como elemento de equilíbrio, e não

de defesa. Mas este assunto é muito técnico; outro dia voltaremos a

ele.


—Como esse tratamento todo poderá influenciar o futuro corpo de

Jessé, se estamos operando fora da matéria, antes mesmo da união

sexual de seus futuros pais?

—Após a união do casal na Terra, ao se consumar o ato sexual,

temos um tempo aproximado de 72 horas para realizar a ligação

magnética entre o espírito reencarnante e a célula-ovo. Toda a nossa

ação do lado de cá será transmitida automaticamente às células em

formação no útero materno. Além disso, podemos considerar que o

mesmo processo foi realizado no espírito de Paulo, o futuro pai.

— Não entendi...

— É que Paulo, ao se unir a Joana, não ficará isento de possíveis

comprometimentos na área física. Devido à interferência de

abnegados mentores da Vida Maior, Paulo foi favorecido com uma

interferência espiritual e magnética semelhante à que estamos

realizando em Jessé. Ele não precisa comprometer sua saúde no

contato mais íntimo com Joana.

—Então Joana está contaminada...

—Creio que você já sabe por que tantos cuidados com o futuro pai

de Jessé e com o próprio Jessé. Ambos não têm necessidade de

passar por certas provações.

—E Joana, como ficará?

—É bom esperar para ver, Ângelo — retornou Ernesto. — Devemos

nos ocupar com Jessé, que neste momento está sob a influência

magnética dos companheiros do departamento.

Observei Jessé e vi que seu corpo espiritual se reduzia cada vez

mais. Três espíritos se posicionavam ao lado da maca, que se

mantinha suspensa nos fluidos do nosso plano. O perispírito do

reencarnante assumia a forma de criança, reduzindo seu tamanho

de maneira acentuada. Quanto mais os espíritos magnetizadores

trabalhavam com os fluidos no corpo espiritual de Jessé, mais e

mais o fenômeno de redução se processava diante de nossos olhos.

Por um momento, pareceu-me que Jessé era apenas um embrião. Ele

assumiu essa forma, e aí o fenômeno foi interrompido, para que

fossem trabalhados os campos de força que definiriam qual dos 200

milhões de espermatozóides iria se destacar para romper o óvulo e

iniciar o processo da multiplicação das células.

Fiquei maravilhado diante do que via. A medida que os

magnetizadores atuavam na forma espiritual de Jessé, vários

campos de força iam se formando em torno de seu perispírito. Senti-

me emocionado diante do que presenciava, pois nunca tinha visto

algo parecido.

Nas telas suspensas sobre o leito onde Jessé se encontrava, agora na

forma fetal, só se observavam linhas de força luminosas, que eu

entendi serem a representação das células espirituais que

compunham o perispírito. Era algo com que se maravilhar.

Aos poucos a forma espiritual de Jessé foi se reduzindo ainda mais,

até assumir a forma de ovo, mais precisamente uma forma ovóide

luminosa, que foi confiada a Cássio. O bondoso mentor aconchegou

a forma espiritual de Jessé como algo de imenso valor.

— Ele agora dorme — disse-nos Cássio. — Jessé está mergulhado na

recordação de seu passado.

— O que estará pensando neste momento? — perguntei.

—Este é um momento sagrado para todo espírito. Assim como a

morte do corpo físico, no fenômeno da desencarnação, provoca

reflexões profundas no recém-desencarnado, ocorre o mesmo

próximo ao retorno do espírito à Terra.

—Quanto ao aprendizado de Jessé na próxima experiência no corpo

físico, como conciliar as antigas crenças do sistema judaico, ao qual

Jessé se afeiçoara, com a nova realidade?

—É natural que o espírito reencarnante não faça essa transição de

uma maneira tão brusca assim. Jessé será abencoado com uma

orientação espírita em sua infância. Eis por que ele será filho de

Paulo. Entretanto, suas tendências ou convicções íntimas não se

modificarão de maneira tão rápida. Ao atingir a adolescência no

novo corpo físico, ele com certeza experimentará dúvidas e

momentos de indecisão. Nesse estado íntimo eclodirá seu passado

espiritual. É possível, então, que ele se afeiçoe a outra religião que

tenha uma doutrina mais de acordo com a sua necessidade

evolutiva e sua capacidade de assimilação.

—E quanto ao aspecto físico, como entender direito a atuação de

Jessé e de todo o tratamento recebido do lado de cá nas células

espirituais do futuro corpo?

—Creio que mesmo explicando tudo direitinho e com maiores

detalhes, Ângelo, você ainda ficará sem compreender direito. Falta-

lhe experiência na área médica ou no campo das ciências. Isso por si

já é um obstáculo para que compreenda certos mecanismos da

reencarnação. Mas, se se dedicar às observações, poderá com

certeza aprender muita coisa a respeito dos campos magnéticos do

perispírito e sua atuação nas células do corpo físico.

Para mim, o companheiro espiritual parecia estar falando grego ou

aramaico. Eu não compreendia muita coisa de ciência espiritual.

Minha atuação na última existência física fora como jornalista e

escritor. Mas, por ora, dei-me por satisfeito com as observações.

Aguardaria outra oportunidade de esclarecimento.

Dias antes, Paulo fora desdobrado através do sono físico. Com ele

também foi realizado um tratamento parecido, que se diferenciava

apenas na questão da redução do perispírito.

Paulo já estava reencarnado e precisava ser auxiliado

magneticamente a fim de fortalecer, de estimular a produção de

linfócitos T em seu organismo. A região do baço e do pâncreas no

corpo físico fora especialmente visada no tratamento. Tudo

concorria para o sucesso do plano reencarnatório de Jessé e da

manutenção da saúde de Paulo.

Joana, a pupila de Cássio, também era amparada. Nossa equipe de

trabalhadores espirituais fazia de tudo para que o retorno de Jessé

às provas na Terra transcorresse num clima de mais tranqüilidade.

Aproveitaríamos o casamento de Joana e Paulo e conduziríamos a

alegria reinante naquele momento especial para auxiliar os espíritos

envolvidos.

19


Reencarnação e vida

flí, sentindo uma vido pulsar dentro de mim...

Paulo e Joana já haviam consolidado o casamento conforme as leis

do país. Dirigiram-se para uma região turística do sul do Brasil,

onde passariam a lua-de-mel. Fomos encontrar o casal já hospedado

num hotel-fazenda, onde teriam uma semana de lazer, comemorando

a nova etapa de suas vidas. Aproximamo-nos do

apartamento, Cássio, Ernesto e eu, juntamente com o espírito de

Jessé, que entrava numa espécie de transe, ao se aproximar cada vez

mais do momento em que seria ligado ao futuro corpo. Enquanto o

casal desfrutava de sua noite de núpcias, esperávamos do lado de

fora, para não sermos indiscretos e nem interferirmos em sua privacidade.

Pude observar que em volta do apartamento onde se

encontravam havia sentinelas, que mantinham guarda do lado de

fora.

Estranhei a presença daqueles espíritos, entretanto mantive-me



calado. Ondas de magnetismo pareciam irradiar do local. Era como

se poderosa usina de força entrasse em ação de um momento para o

outro. Notei que essas ondas de energia magnética pareciam pulsar

em tonalidades de cores variadas. Também observei que descargas

elétricas pareciam abalar de vez em quando a estrutura desse

campo de energia que se formava em torno do local onde o casal

estava. Enquanto observava atentamente esse estranho campo

eletromagnético, Ernesto e Cássio cuidavam de Jessé, cuja forma

espiritual se encontrava reduzida. Notei que o espírito reencarnante

parecia pulsar de acordo com as ondas de magnetismo que eu

observava. Foi Ernesto quem me adiantou explicações:

— Não passa despercebida sua curiosidade, Ângelo. Creio que para

você a situação poderá até se afigurar inédita, mas, definitivamente,

não é uma ocorrência isolada e nem mesmo estranha. Quando o

casal se une dentro da proposta do amor e com o devido respeito, é

natural que entre em sintonia com as esferas superiores da vida.

Portanto, não estranhe que haja sentinelas por aqui. A presença desses

espíritos guardiães se explica devido à necessidade de preservar

o leito conjugal de espíritos vândalos ou da ação de obsessores. O

momento da união sexual é muito mais do que o simples extravasar

do erotismo ou da sensualidade. Na verdade, esses dois fatores são

veículos importantíssimos para que o casal libere certa cota de

magnetismo. Durante a relação amorosa, as pessoas imantam-se

umas as outras de tal maneira que há uma transfusão de energias.

Um alimenta-se do outro, não num processo mórbido de

vampirismo, porém na transmutação e troca de forças eletromagnéticas,

que se traduzem fisicamente pelo orgasmo. Esse é o

momento culminante da transfusão sublime de energia. Cada

parceiro recebe a cota de magnetismo que o completa. Sente-se,

dessa maneira, refeito.

"Quando o casal vibra em verdadeiro amor, como é o caso de Paulo

e Joana, o extravasar das emoções e a exsudação do magnetismo são

tão intensos que formam ondas de energia em torno dos parceiros.

É o caso dessas irradiações que você percebe. Ao mesmo tempo em

que esse fenômeno divino que alicerça e nutre o casal serve como

combustível das emoções superiores, também realiza a função de

atrair e estimular o espírito reencarnante para a sua aproximação

dos futuros pais."

—Então Jessé sente essas ondas magnéticas com essa intensidade

toda?


—Tudo no universo obedece à lei da sintonia, meu amigo. Com

Jessé, Paulo e Joana, as coisas não ocorrem diferentes. Nosso

querido Jessé teme enfrentar as novas experiências que a

reencarnação lhe proporcionará. Nossa presença aqui e a natural

influência magnética dos seus futuros pais servem-lhe como

estímulo para a nova reencarnação. Mas ele só percebe essa

influência na medida exata de sua necessidade e capacidade de

assimilação.

Passado algum tempo, adentramos o apartamento onde o casal

estava repousando. Os dois dormiam abraçados, sentindo-se

completos e plenos de amor.

Com passes longitudinais, Cássio, o iluminado amigo, desdobrou

Paulo e Joana, que conservavam a lucidez em nossa presença. Os

dois, em espírito, pairavam acima do leito e nos receberam de

braços abertos.

Emocionada, Joana avistou Jessé, cuja forma espiritual estava

reduzida, e o abraçou, tomando-o do instrutor espiritual. Lágrimas

desciam da face da moça, que era amparada por Paulo. Pude

observar como o fenômeno do magnetismo da mãe auxilia o filho

reencarnante no processo de adaptação fluídica. Uma corrente

energética envolvia Paulo e Joana, que, desdobrados, recebiam Jessé

como filho. Era como se a forma perispiritual do antigo verdugo de

Joana fosse tragada pelo espírito da mãe. Houve uma justaposição

de ambos no momento em que Joana espírito aconchegava seu

futuro filho nos braços. Sinto-me pobre em meus recursos para

encontrar palavras que descrevam a beleza e as emoções daquele

encontro.

Sem dizer uma única palavra, Ernesto e Cássio aplicaram passes

magnéticos no casal, que estava projetado em nosso plano. Ambos

foram conduzidos aos seus corpos. Permaneceram dormindo e com

a sensação de sonho.

A uma indicação de Ernesto fixei minha atenção no corpo de Joana,

que repousava no leito. Observei que na região do útero o óvulo já

se encontrava fecundado, envolto por uma estranha luminosidade.

O espírito de Jessé, reduzido em sua forma espiritual, adaptara-se

às mesmas dimensões da célula-ovo e pulsava no ritmo dela. Começava

ali o processo de materialização de Jessé no mundo das formas.

O útero de Joana fazia o papel de uma câmara de materialização,

através do qual o mundo receberia mais um filho de Deus.

Enquanto Ernesto cuidava de Joana e Jessé, que já se encontrava

adaptado ao ventre materno, Cássio dirigia a Paulo suas atenções.

— Tenho de levá-lo urgentemente comigo para continuar seu

tratamento de proteção magnética.

— Mas ele já retornou ao corpo físico e agora repousa...

— Não temos tempo a perder, Ângelo. Lembra-se de Jacó, o

companheiro que nos serviu de médium, doando seus fluidos para

Paulo?

Lembrei-me imediatamente da operação de transfusão fluídica



realizada com Paulo desdobrado. Creio que, na época, não

compreendi direito o porquê de todas aquelas providências.

—Vá buscar Jacó, Ângelo. Neste momento ele está se preparando

para dormir. Ministre um passe longitudinal e desdobre-o.

Precisamos dele imediatamente.

Saí atrás de Jacó para trazê-lo ao nosso plano, sem entender muito o

que ocorria. Fui levitando nos fluidos da atmosfera, enquanto pude

ver de relance uma equipe espiritual de nossa colônia aproximando-

se rapidamente do apartamento onde repousava o casal.

Ao retornar, já com o espírito de Jacó desdobrado, vi que havia

muita movimentação dentro do quarto. Cássio havia desdobrado

Paulo, que neste momento estava semi-consciente do nosso lado.

Através do sono físico todos os seres humanos se desdobram ou se

projetam espiritualmente em outras dimensões além do mundo

material. Médiuns esclarecidos conseguem maior expansão de suas

consciências e auxiliam os espíritos em diversas tarefas do lado de

cá da vida. Aqueles que se desdobram podem conservar ou não a

consciência em outras dimensões. No caso de Paulo, por efeito do

magnetismo de Cássio, ele conservava-se semiconsciente do nosso

lado, enquanto Jacó, abandonando seu corpo temporariamente no

leito, trazia a mente lúcida, auxiliando-nos quanto podia.

Cássio, aproximando-se, falou:

—Temos pouco tempo para agir.

Paulo conservava-se ainda sob o efeito do tratamento magnético

que realizáramos antes. Ele não desconfiava que Joana estava

contaminada com o vírus HIV. Entretanto, teve méritos suficientes

para obter auxílio superior e nos foi permitido auxiliá-lo

diretamente.

— Paulo deve continuar no corpo físico por muito mais tempo,

tendo em vista suas tarefas espirituais. No contato mais íntimo com

Joana, nosso amigo contraiu o vírus, que está inibido em sua ação

devido à nossa influência. Mas isso não é o suficiente. Precisamos

dos fluidos de Jacó a fim de movimentarmos a aparelhagem que

isolará completamente o vírus no organismo do nosso tutelado.

— Estou à disposição — falou Jacó desdobrado. — O que devo

fazer?


Dentro do quarto foram montados diversos aparelhos e dois leitos,

que pareciam leitos de hospital, porém se mantinham suspensos no

ar.

Apontando para um dos leitos, Cássio pediu que Jacó se deitasse,



enquanto a equipe médica espiritual ligaria o plexo solar do

médium aos diversos aparelhos. Dois tubos feitos de matéria

translúcida também seriam ligados a Jacó. Paulo foi conduzido para

o outro leito e, como num transe, deixou-se guiar pelos espíritos que

orientavam seu destino. Cássio conduzia tudo, mantendo-se ligado

mentalmente com Ernesto.

Vi que determinado aparelho parecia rastrear o corpo de Paulo,

conduzido por um espírito do nosso plano, enquanto Paulo espírito

era submetido a intensa ação magnética.

— Conseguimos isolar alguns vírus no corpo de Paulo — falou

Cássio —, mas agora é preciso uma ação mais intensa. Em nosso

plano os espíritos afinizados com o campo científico ainda não

descobriram a cura para o HIV e a aids. Contudo, temos notícia de

planos mais avançados onde espíritos sublimes já dominam

completamente a ação do vírus destruidor. Observe, Ângelo.

Dirigi meu olhar para o corpo de Paulo, estendido na cama ao lado

de Joana. Seu espírito desdobrado conservava-se ligado ao corpo

físico por um fio prateado. Agucei minhas percepções e pude ver,

próximo à região da coluna e do baço, uma espécie de colônia de

vírus; mantinham a aparência de pequenas bolhas de luz de

tonalidade cinza, porém brilhante, contidos em uma proteção

magnética.

— Por enquanto não podem causar danos às células sangüíneas,

devido a todo o preparo que fizemos no perispírito de Paulo antes

do seu casamento. Mas agora agiremos de maneira a isolar

completamente o vírus.

Falando assim, Cássio auxiliou os técnicos do nosso lado com um

pequeno aparelho, que media aproximadamente a metade de uma

mão humana.

Ao aproximar o aparelho do perispírito de Paulo, que se conservava

desdobrado, uma corrente de fluidos parecia percorrer o cordão

fluídico que o ligava ao corpo físico.

Do corpo espiritual de Jacó também partiam correntes magnéticas

de grande intensidade. Eram fluidos, magnetismo ou energia vital

utilizados pelo pequeno aparelho, em benefício da saúde do nosso

protegido.

— Este aparelho — falou agora Ernesto — emite uma radiação

semelhante à das bombas de cobalto da Terra. Naturalmente que do

lado de cá da vida nós utilizamos essa tecnologia de acordo com

orientações superiores. Só em caso de auxiliar alguém. Essas

radiações são conduzidas de forma a impedir a ação do vírus. Têm

uma ação antiviral mais permanente.

—Então Paulo não sentirá nada após o tratamento? — perguntei.

—Mesmo que ele faça exames necessários para detectar o HIV e seja

observada a presença do vírus, ele nada sentirá. O vírus

permanecerá em seu organismo, porém não poderá causar-lhe mal,

não destruirá as células de defesa nem poderá se multiplicar.

—E quanto a Joana?

—Devemos conduzir a situação de acordo com as necessidades dos

nossos amigos encarnados. Joana precisa de outro tipo de

tratamento. De acordo com seu programa reencarnatório, precisa

retornar em breve para o nosso lado, a fim de refazer-se e preparar-

se para novas oportunidades de crescimento. Façamos a nossa parte

e confiemos os resultados às mãos de Deus.

Aos poucos foi cessando a movimentação do nosso lado. Jacó foi

reconduzido ao corpo físico por Ernesto, que procurou diluir as

lembranças daquelas experiências em sua memória.

Paulo retornou para o corpo físico sem se lembrar de nada, e um a

um os espíritos de nossa equipe foram se afastando para novas

tarefas.

Fiquei por último. Pude presenciar o momento em que Joana

acordava. Abraçada a Paulo, emocionada até as lágrimas, falou bem

baixinho:

—Tive um sonho, meu amor. Sonhei que estava entre um tanto de

amigos e recebia um presente muito especial.

—Talvez sejam os espíritos que queriam nos dizer algo —

respondeu Paulo.

—Será que eles não nos deixam sozinhos nem em nossa lua-de-mel?

Sorrindo para a mulher, Paulo respondeu:

—Em momento algum, meu amor. Em momento algum. Em geral

são eles, os espíritos, que nos dirigem...

Abraçados, adormeceram os dois.

20

O passado ressurge



Eu o havia procurado...

Aquele verão fora especialmente difícil para mim. Desde que me

casei com Paulo, uma doce vibração de harmonia parecia dominar o

meu espírito. Seria talvez pelo fato de haver me casado? Ou seria

outra coisa que estava acontecendo comigo e que naquela época não

sabia definir? Sentia-me numa espécie de torpor. Não poderia de

maneira alguma reclamar do meu casamento. Entretanto, a saúde

parecia oscilar a cada dia. Estava grávida. Creio que esse foi o maior

de todos os acontecimentos de minha vida. Estar grávida agora

representava para mim um estado de espírito de intensa satisfação

comigo mesma.

Não saberia descrever o que acontecia dentro de mim. Uma força

diferente se apoderara de meu ser. Sentia-me a cada dia modificar

em minhas entranhas. Algo ou alguma presença trabalhava não

somente meu corpo em sua intimidade, mas também minha alma.

Deleitava-me a cada mudança que observava em meu corpo.

Acordava à noite muitas vezes suada, como se tivesse visões. O

tempo parecia se dilatar ao meu redor. Mas não queria falar disso

com Paulo. Não! Ele não precisava se preocupar com essas coisas.

Incomodavam-me sobremodo as imagens que via nessas visões da

noite; seriam fantasmas de outros tempos? Será que Paulo tinha

razão quando falava em reencarnação?

Eu via uma cidade estranha, cheia de gente que eu não conhecia.

Era um outro país. O clima quente fazia meu corpo produzir intenso

suor. Uma música desconhecida para mim parecia estar presente

todo o tempo nessas minhas visões. Eram sons de uma outra época.

Alguém se aproximava e me chamava. Mas eu não me reconhecia

na figura daquela mulher vestida com trajes diferentes. Meu nome é

Joana. Joana Gomides. E aquela mulher que eu sentia ser eu mesma,

embora num sonho, chamava-se Miriam. Ah! Mas era apenas um

sonho, ou melhor, foram vários sonhos, muitas e muitas noites de

sonho durante o período de minha gravidez.

Mas o tempo passava veloz sobre os acontecimentos de minha

própria vida. Paulo, o meu Paulo, sempre alegre e satisfeito, não

desconfiava de que eu vivia um estado de espírito indefinível,

talvez com uma certa angústia, que eu tentava disfarçar com

sorrisos amarelos ou com as visitas sempre constantes a minha mãe

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