Encontro com a vida robson pinheiro



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Encontro10.09.2017
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E arrumando os cabelos, balançando-se toda, começou a gritar para

dentro da casa de Altina:

— D. Altina, D. Altina... vem logo, tem visita pra senhora!

Voltando-se para os dois visitantes, que a essa altura estavam sem

saber o que fazer com a situação constrangedora, falou,

modificando o tom de voz:

— Aposto como ela está fingindo que não ouve. Tem gente que faz

de tudo pra não pagar o que deve. Mas deixa comigo, eu faço ela vir

loguinho, loguinho. Al... tinn... naaa! Altina, minha filha, é notícia

de sua Joana, vem logo, sua boba...

Paulo e Anastácio resolveram interferir para evitar maiores

escândalos. Com muito jeito, convenceram a mulher a se retirar.

Quando pensaram que haviam conseguido solucionar o problema

da intromissão, a mulher retorna, apressada, e diz para os dois, que

ficaram boquiabertos:

— Ah! Eu já ia me esquecendo de me apresentar. Prazer, meu nome

é Mariquinha. Sou a melhor amiga de D. Altina e de Joana.

Precisando de alguma coisa — falou rebolando — é só pedir.

Saiu a mulher toda saltitante, deixando os dois sem entender nada.

Olhando para Paulo, meio sem graça, Anastácio resolveu dar uma

olhada para dentro da casa, pois a porta da rua parecia entreaberta.

Se em meio a tanto barulho ninguém atendia à porta, Anastácio

julgou que algo não ia bem. Notou uma sombra ou algo parecido,

como se alguém estivesse deitado no chão. Falou para Paulo:

— Acho que devemos nos atrever e entrar. Parece que tem alguém

deitado no chão. Isso não é comum.

— Vamos logo, Anastácio, não nos demoremos. Quando os dois

passaram pelo portão e se viram no

umbral da porta, entenderam o que se passava. Altina estava

estendida, desmaiada. Entraram imediatamente e socorreram a

mulher, transportando-a para um sofá.

Aos poucos Altina Gomides foi retornando à realidade, após os

cuidados prestados pelos visitantes.

— Me desculpem, vocês. Não sei o que aconteceu. Parece que eu vi

o Cássio, e, então, apaguei. Ai, meu Jesus, o que está acontecendo?

Paulo e Anastácio foram informados por Altina do que ocorreu em

sua casa, a respeito da visão que tivera e do medo intenso que a

dominava.

—Não se preocupe, D. Altina — falou Paulo. — O que lhe

aconteceu é algo muito comum, só que, não tendo explicação

imediata para o fato, a senhora se assustou.

—Deus me livre disso; eu acho que a minha vida está dando uma

reviravolta. Desde que Joana saiu do hospital, no ano passado, têm

acontecido coisas estranhas conosco.

—Que é isso, D. Altina? — interferiu Anastácio. — Talvez a senhora

esteja muito cansada de toda essa situação com a Joana e, aí, não

está agüentando a pressão. Mas, olha bem, devemos ficar felizes,

pois a Joana está agora sendo tratada direitinho.

—É isso mesmo, D. Altina — continuou Paulo. — Vim aqui mais o

Anastácio para ver se está tudo bem ou se lhe falta alguma coisa.

Temos muito ainda a fazer em benefício de Joana. A senhora precisa

se fortalecer.

—É, Seu Paulo, mas agora é que estou preocupada mesmo. Depois

disso que aconteceu comigo nem sei como dizer ao pastor lá de

minha igreja que um espírito apareceu para mim. Tenho medo de

que os irmãos da igreja pensem que eu me afastei de Deus.

—Não fique tão apreensiva, D. Altina, tente encarar tudo isso com

mais tranqüilidade. O fato de um espírito ter lhe aparecido não

significa que terá de mudar de religião.

—Eu nem posso pensar nisso, Seu Paulo, eu nem quero pensar

nessa possibilidade. Imagina só, eu, uma serva do Senhor! Fui

lavada e banhada no sangue de Jesus e batizada com o fogo do

Divino Espírito Santo. Ai, meu Jesus! Isso não pode estar

acontecendo comigo. Eu entreguei o meu coração para Jesus...

—É claro, D. Altina, é claro. Eu acho que aqueles que entregam a

sua vida a Jesus são protegidos por Ele, que é o Senhor e Mestre de

todos nós. Quem sabe o espírito de Cássio não voltou apenas para

lhe dizer que tem a permissão de Deus para lhe auxiliar no caso de

Joana? Pense nisso.

—Será mesmo, Seu Paulo? Mas ele era crente em Jesus. Como é que

um crente, alguém que já morreu, pode voltar assim, me

assombrando? Ele é um finado. Defunto, que eu saiba, não retorna

de uma hora para outra para atormentar os vivos.

—Será que a senhora não se lembra da Bíblia, D. Altina? —

perguntou Paulo.

—Que tem isso a ver com a Bíblia7.

—Se a senhora é uma crente em Jesus e acredita na Bíblia, com

certeza vai se lembrar que está escrito no Novo Testamento o

encontro que Jesus teve com os espíritos de Moisés e Elias, não se

lembra?


—Claro que me lembro. Mas Jesus é Jesus. Ele é o Senhor da Glória.

Ele pode tudo.

—Mas o Mestre não falou que se nós acreditássemos nele

poderíamos realizar as mesmas coisas que ele realizou e muito

mais? Ou a senhora não se lembra também desse ensinamento?

—Ora, Seu Paulo, então, sendo o senhor um espírita, também lê a

Bíblia7 Eu pensava que o espiritismo era contra Deus e a Bíblia.

—Claro que não, D. Altina — interferiu Anastácio. — Olha que eu

tenho até lido um livro que o Paulo me deu de presente e que fala

muito mesmo de Jesus. É O Evangelho segundo os espíritos.

—O Evangelho segundo o espiritismo, Anastácio! Isso mesmo, D.

Altina. Temos no espiritismo os ensinamentos de Jesus como sendo

o que de mais importante há para as nossas almas. Acreditamos em

Jesus e também nos entregamos a ele para conduzir os nossos

destinos. Só não acreditamos naquilo que as religiões ensinam a

respeito dele.

—Ora essa, Seu Paulo. Agora eu não entendi nadinha de nada.

Sorrindo, Paulo deu uma boa desculpa e ensaiou se retirar

juntamente com Anastácio.

—Não se preocupe com isso agora, D. Altina. Não é importante que

a senhora compreenda essa questão agora. Temos muito tempo para

conversar. Agora, o que importa é que a senhora...

—Al... tinn... naaa! Altina queridinha, adivinha quem é que está

chegando...

Era a vizinha, que, não agüentando de curiosidade, invadira a casa

para ouvir a conversa.

— Sou eu, Altina. Com licença, vocês. Sou a sua melhor amiga.

Ma-ri-qui-nha! Vim trazer aquela xícara de café que você me

emprestou naquele dia. Você se lembra, não é?

Os três foram interrompidos abruptamente com a chegada da

vizinha, que vinha enriquecer o diálogo com suas profundas

observações filosóficas.

— Vocês sabem, não é? Acho que Altina já falou pra vocês que nós

duas somos como irmãs. Aliás, irmãs gêmeas, não é, Altina? Olha

que eu não sou tão crente assim, como a Altina, mas eu a-do-ro

Jesus. Fala com eles, Altina, fala, mulher...

11

Conversa íntima



Ví-me mais sensível pelo

experiência do sofrimento.

O tempo passou. Os dias em que fiquei internada naquela fazenda,

em tratamento, pareciam uma eternidade para mim. Até que o lugar

era bonito. A clínica funcionava também como um retiro. Mas as

coisas não foram tão fáceis e suaves para mim. Cortar o vício da

cocaína e da heroína parecia o diabo. Nunca sofri tanto assim. Eu

havia perdido a esperança de ser alguém, algum dia. É possível que,

se eu tivesse me esforçado, talvez conseguisse ser alguma coisa na

vida.


Mas eu estava ali; internada e recebendo tratamento desse bando de

gente estranha. Todo dia era remédio e mais remédio. E aquela

psicóloga? Quem ela pensava que era? A revolta me dominara por

completo. Eu precisava sair dali. Mas para onde iria?

Resolvi então colocar em evidência meus próprios métodos de me

livrar dessas situações difíceis. Transformei-me num problema sério

de disciplina lá na clínica. Passei a brigar com os trabalhadores do

local. Fazia pouco caso do tratamento e faltava constantemente às

visitas à psicóloga. Ninguém conseguia entender a razão da minha

rebeldia. Nem mesmo eu.

Com o tempo, porém, fui me cansando de minhas próprias atitudes.

Que povinho estranho! Parecia que os tais médicos não desistiam de

mim. E aquela mania de fazer orações, de rezar e cantar? Isso de

certa forma me lembrava minha mãe e também meu pai.

Engraçado é que de uns tempos para cá comecei a sonhar com

papai. Aquela voz mansa me chamando. Nem sei por que estou

falando nisso. Até então eu era uma pessoa seca. Não me comovia

com nada. Nada ma fazia chorar. Mas em apenas dois meses ali eu

abati meu orgulho. Os sonhos com papai se tornaram cada vez mais

constantes, só que eu não me lembrava direito dos detalhes.

O que mais me chateava naquele lugar eram os tratamentos de

desintoxicação. Nunca bebi tanto líquido em minha vida. Tudo

muito natural, para minha infelicidade.

Outras pessoas estavam também internadas ali. Eu não ligava muito

para elas. Que se danem, eu pensava. Mas com o tempo fui me

sentindo sozinha, e a saudade de mamãe só agora tocava o meu

peito. Foi numa dessas noites de inverno, quando eu estava sentada

na varanda da casa de dormir, que a saudade bateu mais forte. Aí

eu não agüentei e chorei. Não sei quando eu havia chorado antes.

Creio que aquele choro foi uma espécie de válvula que se abriu em

minha alma. Eu não agüentava mais segurar a barra. Na verdade,

eu não me agüentava.

As pessoas que estavam ali comigo se reuniram num canto do

extenso salão para cantar e rezar. Eu me conservava afastada. Mas,

naquela noite, enquanto eu chorava, as pessoas que participavam

do programa de reabilitação junto comigo pareciam se comportar

diferente. Eram tão viciadas quanto eu, mas agora pareciam

diferentes. Cantavam — e mais: queriam sair dali curadas. E quanto

a mim? O que eu queria? Não saberia responder naquele momento.

Desejava apenas chorar. Nada mais. Lágrimas, apenas lágrimas

sentidas e mornas desciam dos meus olhos naquela noite. Eu não

podia acreditar! Eu, a Joana, estava chorando!

Creio que nem eu mesma acreditaria que alguma força superior

tocara meu coração. Minha mãe diria que foi a mão de Deus. Que

seja!

Eu fui por muito tempo fria e insensível. Quem me conhecesse não



compreenderia o significado das minhas lágrimas. Mas eu tinha que

mudar.


Claro que estranhei os meus próprios pensamentos e sentimentos.

Parece-me que depois de longo tempo eu estava pensando em mim

mesma. Era como se antes eu estivesse hipnotizada, e, agora, liberta

de alguma influência estranha que talvez tivesse se apoderado de

mim. Não sei ao certo. Mas agora eu me sentia diferente,

estranhamente bem, depois das lágrimas derramadas.

De repente, é como se eu ouvisse a voz do meu pai ressoando

dentro dos meus pensamentos: "Louvado seja o Senhor!" Ou seria

pura imaginação minha?

Aproximava-se o dia em que eu deveria voltar para casa e encarar

minha mãe novamente. Como seria isso para mim? Como seria para

a mamãe me rever depois de dois meses de separação?

Mas eu precisava, eu desejava me modificar completamente. Por

quê? Eu não sei direito, apenas sentia necessidade de retornar para

casa e rever minha mãe, tentar recuperar o tempo perdido. Será que

era possível?

12

Lágrimas



Por isso o procurei pelo mundo.

Joana recebeu a visita de Paulo na clínica; ele viera para buscá-la e

conduzi-la para casa. Ela queria agradecer-lhe, mas, como não

estava acostumada com gentilezas, tentou ensaiar algo para dizer.

Porém, o orgulho era maior que suas forças. Não conseguiu de

imediato.

—Então, como está a nossa Joana, doutor?

—Graças a Deus, parece que a menina se recuperou muito, Paulo.

—Menina? — perguntou Joana. — Acho que vocês estão querendo

é ganhar a minha confiança. Basta olhar para mim que qualquer um

saberá a minha idade. Não sou mais uma menina.

—Claro que é — respondeu Paulo. — Todos nós somos meninos e

meninas. Tanto para nossos pais, quanto para Deus. É só questão de

ponto de vista, não é, Dr. Adalberto?

—Claro! Joana, tem dias na vida em que a gente se comporta igual a

meninos travessos. Outros dias, outras vezes, nos comportamos

igual a meninos bonzinhos. Todos nós estamos brincando de

adultos, mas, no fundo, no fundo, somos mesmo é crianças

espirituais.

— Bem, mas quero saber mesmo, doutor, é se Joana já está liberada

para retornar para casa. Parece-me que ela está completamente

renovada.

— Ah! Como eu gostaria de voltar — pensou Joana.

— O que você acha, Joana? — perguntou o médico de plantão, Dr.

Adalberto.

—Eu? Acho que já tenho condições de voltar.

—Você acha? — perguntou Paulo.

—É! Eu acho. Na verdade estou muito envergonhada por tanta

coisa que andei aprontando. Nem sei como encarar minha mãe

depois de tudo...

—Não se preocupe, Joana — falou o médico. — Essa coisa de

vergonha não deve ter lugar dentro de nós. Você é muito amada e

esperada. Tenho certeza de que sua mãe estará de braços abertos

esperando por você. Não acha?

—Não sei, doutor. Não sei mesmo. O senhor nem imagina o que já

andei aprontando por aí...

—Ah! mas tenho certeza de que agora você é outra. Isso é o que

importa.

—Mas, então, doutor, ela vai ou não vai para casa? — perguntou

Paulo.


—Claro que sim. Apenas gostaria de dar algumas recomendações,

que, creio, poderão auxiliar muito a nossa Joana. Como você sabe,

Joana, aqui nós só trabalhamos com medicamentos naturais e

homeopáticos. Portanto, o que vamos indicar para você não é nada

diferente daquilo que já experimentou aqui. O mais importante de

tudo não é que você tome os medicamentos, apenas. Qualquer

remédio que o ser humano ingerir precisa encontrar na pessoa em

tratamento uma espécie de ressonância, para que surja o efeito

desejado.

—Não entendo, doutor.

—Por exemplo: você alcançou a sua melhora aqui, na fazenda, em

nossa clínica, não apenas pelo tratamento de desintoxicação ou

pelos medicamentos que você tomou. Com certeza você fez o seu

próprio esforço por melhorar intimamente.

—Se eu fiz, doutor, eu nem notei.

—Mas nós notamos, Joana, nós notamos. Veja como você chegou

aqui, há dois meses. Estava revoltada, com raiva e repelia a nossa

ajuda. Com o tempo, você se integrou com a turma da clínica, com

os outros companheiros em tratamento e foi se modificando pouco a

pouco. Um mês depois, você já participava do culto no lar, fazia

orações e...

—Mas eu não virei espírita por isso. Eu apenas achei bonito o que

as pessoas faziam.

—Eu sei, eu sei, Joana. Mas, ouça bem, você se modificou

intimamente. Isso você não pode negar. Eu até vi você chorando

outro dia...

—Isso foi fraqueza minha, doutor...

—Ou pode ser outra coisa também, não acha?

—Outra coisa? Não entendi!

— Pode ser que você se libertou de algum peso que carregava

consigo. Quem sabe, Joana, suas lágrimas representavam a sua

fortaleza espiritual?

Paulo ficava calado ouvindo toda a conversa.

—Fortaleza espiritual? Qual nada, foi fraqueza minha, mesmo.

—Não acho que seja isso. Depois das lágrimas derramadas, vem o

alívio do coração.

—Isso é verdade, doutor. Até parece que uma represa se rompeu

dentro de mim e que as lágrimas me aliviaram por dentro.

—Então? Veja só quanto você se modificou. O importante daqui

para frente é que você continue se tratando direitinho. Não deixe

que a depressão tome conta de vorê de maneira alguma. É preciso

combater o pessimismo e começar a fase mais difícil de todas, que é

a aquisição de valores nobres, acalentando pensamentos felizes e

otimistas.

—Isso vai ser difícil, doutor. O senhor sabe um pouco da história de

minha vida...

— Claro que não é assim! Você vai conseguir. O pagado não

importa, Joana. Agora só depende de você. Olha, eu acho até que

você é muito feliz. O Paulo já me falou que sua mãe é evangélica, e

aí você já terá elementos de sobra para prosseguir. Com certeza sua

mãe deve orar muito. É importante, neste momento, que você

participe das orações em família. Você também tem o Paulo, que,

com certeza, estará acompanhando de perto o seu caso.

—Então, doutor? — perguntou Paulo. — Ela vai ou não vai

embora?

—Claro, claro! Pode arrumar suas coisas, Joana, estaremos

esperando aqui por você. Eu passarei ao Paulo as instruções quanto

a uma dieta e ao tratamento.

Ficando a sós, enquanto Joana saiu para buscar os seus pertences, os

dois aproveitaram o tempo para maiores entendimentos.

—Então, Dr. Adalberto, o que o senhor acha do caso de Joana?

—Bem, eu nem sei como lhe dizer, Paulo; tenho medo de

aprofundar mais no assunto...

—Fale, doutor, este é o momento em que podemos falar mais à

vontade.

— Claro, Paulo, é claro!

Hesitando um pouco, Adalberto prosseguiu:

— O caso de Joana merece maiores cuidados. Você, por certo, já

sabe que ela é vítima de um longo processo de obsessão, não é?

—Sim, doutor. Inclusive já tive a oportunidade de levar o nome

dela para as nossas reuniões lá, no centro. Parece-me que o caso

vem de séculos de perseguições.

—É até difícil para nós, aqui, na clínica, trabalharmos em processos

como este. Não temos ainda condições de reunir médiuns para a

tarefa de desobsessão. Embora tenhamos uma orientação espiritual,

ainda não possuímos pessoal suficientemente comprometido com

esse tipo de tarefa. Resumimos o nosso atendimento às terapias

alternativas, aos passes e a orientações morais. Para outras coisas

dependemos inteiramente da ajuda de outros companheiros.

—Não se preocupe, doutor, continuarei me interessando pelo caso

de Joana.

—Mas não é só isso que me preocupa, Paulo, não é só isso. Como

você sabe, a Joana abusou muito da sorte, envolvendo-se com gente

da pesada. Mais ainda, ela se expôs demais, usando seringas para

injetar as drogas que consumiu.

—O que o senhor quer dizer, doutor? Vamos, pode falar direto.

—Bom, eu acho que não tem como esconder a minha preocupação,

Paulo. Joana estava internada aqui, conosco; tivemos de realizar

alguns exames. Colhemos a mostra de seu sangue e procedemos à

rotina de sempre. Nada de especial. Só que, observando os

resultados, vimos que as defesas imunológicas de Joana estavam

muito baixas. Aliás, baixas demais, o que nos preocupa bastante.

— Mas isso não é normal no caso dela, doutor?

— Isso não é normal no caso de ninguém, Paulo. No entanto, refiro-

me ao fato de que as células de defesa de Joana baixaram além dos

limites...

— O que isso quer dizer exatamente, doutor?

— Bom, Paulo, considerando que Joana já teve um comportamento

de risco, creio que o melhor mesmo é encaminhá-la para outro

médico e realizar exames mais detalhados.

— Quer dizer, HIV?

— Isso mesmo, Paulo. Infelizmente mantenho a suspeita de que

Joana se infectou com as picadas, nas rodas de droga a que se

entregou no passado.

— Mas isso é só suspeita ou tem algo mais confirmado?

—Por enquanto é só suspeita, mas convém não brincar com o caso.

—Por que vocês não fazem aqui o exame para verificar com mais

certeza?

—Não podemos realizar o teste anti-mv contra a vontade do

paciente. E, no caso de Joana, creio que seria melhor outro médico

fazer o pedido. Já que ela volta hoje para São Paulo, é melhor

conduzi-la urgentemente para novos exames.

—Como devo falar nesse assunto com Joana, doutor? Não sei como

me comportar nesse caso.

—Tenha cuidado, Paulo. Joana está numa fase em que necessita de

muito cuidado, quando abordarmos certas questões delicadas. Use

a intuição. Com certeza, os amigos espirituais o auxiliarão no caso.

Quando Joana voltar, eu mesmo tentarei algo que a auxilie. Quem

sabe não conseguiremos alguma coisa dela? O importante é que ela

deve manter a serenidade e o otimismo, o que, no presente caso, vai

requerer muito de você e da família dela.

Mal o médico acabou de falar, Joana foi entrando na sala,

carregando sua mala para viagem.

—Deixe que eu a ajude — falou Paulo.

—Não precisa, Paulo, tem pouca coisa, mesmo. Eu dou conta de

carregar.

—Creio que agora a gente já pode ir, não é, doutor?

—Um momento, Paulo. Preciso passar algumas coisas para Joana.

—Passar o que, Dr. Adalberto?

—Calma, Joana, é apenas uma prescrição para que você procure um

médico lá, em São Paulo.

—Procurar um médico? Eu pensei que era só seguir os conselhos do

senhor lá, em casa, mesmo...

—É claro que você poderá se ajudar muito, Joana, conforme nós já

conversamos antes. Mas também é preciso que você continue com a

orientação médica. Um bom médico poderá lhe ajudar a se

recuperar rapidamente.

— Já que não tem jeito, doutor...

— Bom, eu quero que você seja muito feliz e que em breve possa vir

nos visitar.

— Eu não sei agradecer direito, doutor...

—Não precisa, Joana, não precisa. Basta tomar conta de você

mesma. E você, Paulo — falou Adalberto com um breve piscar do

olho esquerdo — procure tomar conta direitinho da Joana.

—Tomarei conta dela pessoalmente, doutor, mas acho que ela já

está muito bem, mesmo.

— Cuidem-se, amigos. Cuidem-se!

A conversa terminou ali, enquanto Paulo e Joana partiam rumo à

capital. Iriam de ônibus, o que daria tempo para continuarem a

conversa. Com certeza, na viagem de volta, ambos poderiam

estreitar os laços de amizade. Até aquele momento, Paulo fora o

benfeitor de Joana. A partir de então, eles deveriam se aproximar

ainda mais. Poderiam conversar, trocar experiências.

13


Novo nascimento

Todo erro, toda fuga é também

uma procura.

Minha mãe nunca me havia parecido tão bonita quanto desta vez.

Quando desci do ônibus na Barra Funda, não podia imaginar que

seria capaz de sentir tanta emoção assim.

Os olhos de minha velha mãe pareciam saltar como duas pérolas

iluminadas. Lágrimas caíam de nossos olhos. Eu chorava. Chorava

sem parar, abraçada com minha mãe. Ela apenas dizia, acariciando

meus cabelos: "Louvado seja o nome do Senhor Jesus!" Neste

momento, deixei-me arrastar por uma alegria indizível, que me

invadiu. Eu tinha uma mãe, e ela me amava, apesar de tudo o que

eu aprontei durante a vida toda.

Paulo estava radiante, e nos abraçamos os três. Apenas dois meses

haviam se passado longe de mamãe e eu já me sentia outra. Talvez a

distância física tenha servido para mim como um choque que me

despertou para aquilo que eu nunca antes dera importância.

Enquanto nós duas chorávamos, Paulo parecia sorrir. Ele, na

verdade, se rejubilava diante das emoções que eu conseguia

extravasar pela primeira vez, durante longos e longos anos.

Durante todo o trajeto da viagem de retorno a São Paulo, eu e Paulo

falamos muito. Parece que éramos duas maritacas falando o tempo

todo. Não conseguíamos parar de falar. Mesmo ali, no terminal da

Barra Funda, enquanto toda emoção reprimida em minha vida se

extravasava em lágrimas, nos falávamos um com o outro.

Falávamos sem palavras, só com o olhar e pelas lágrimas. Isso tudo

estava sendo muito bom para mim. Creio que nesse pouco tempo

que passei lá na clínica muita coisa se modificou dentro de mim.

Será que foi só o tratamento? Não sei dizer direito. Sei apenas que

eu nunca me senti assim antes. Nunca senti tanto o afeto de minha

mãe e tanta felicidade em revê-la como agora.

Também com o Paulo as coisas aconteciam de forma diferente.

Encontrei nele um bom amigo. A viagem de volta serviu como

oportunidade para que eu o conhecesse melhor e para que pudesse

me abrir pela primeira vez com alguém, sem medo de ser mal

interpretada. Estranho, tudo aquilo. Mas confesso que eu gostava da

nova maneira como estava encarando a vida.

Até então eu não conhecia minha mãe direito. Parece-me que,

naquele dia, era o início de um período diferente em minha vida.

Certo que eu tinha ainda muita coisa a modificar dentro de mim,

mas pela primeira vez eu desejava fortemente ser outra mulher.

Chegamos em São Paulo um pouco antes do Natal. Faltavam

poucos dias para as comemorações do aniversário de Jesus. Creio

que minha mãe, o Paulo e alguns amigos estavam me preparando

uma boa surpresa.

Era um Natal diferente para mim. Resolvemos comemorar juntos

naquele ano. Foi assim que minha mãe convidou Paulo, Seu

Anastácio com a família e o pastor lá da igreja que minha mãe

freqüentava. Deixei-me embriagar pelo clima de festa e até andei

ensaiando alguns agradecimentos. Quem me conheceu antes, como

o Seu Anastácio e os vizinhos, nem conseguia acreditar. Eu estava

diferente, mais leve. Era como se um peso tivesse saído de meus

ombros.

Naquele Natal as pessoas que me amavam prepararam presentes

especiais para mim.

O pastor resolveu cantar um hino de louvor a Deus, que me fez

chorar. Ao terminar as orações de louvor e agradecimento, vi minha

mãe em êxtase de tanta alegria. Ela, coitada, não podia disfarçar

tanta emoção. Abrimos então os presentes. Eram presentes simples,

mas eu nunca antes ficara tão alegre por ganhar presentes como

naquele Natal. Minha mãe me presenteara com um hinário, em que

eu poderia aprender música de louvor e gratidão a Deus. O pastor

deu-me uma Bíblia Sagrada. Segundo ele, seria a certeza de minha

salvação. E Paulo me deu de presente um livro diferente: O

Evangelho segundo o espiritismo. Vocês nem imaginam como o pastor

olhou a minha mãe naquele instante. Paulo disfarçou com um

sorriso, e Seu Anastácio salvou a situação, pedindo para todos

cantarem uma canção de Natal.

Enquanto todos cantavam, senti-me arrebatada pela melodia e

lembrei-me dos velhos tempos de farras. Onde eu estava no Natal

passado? Talvez pelas ruas, nas rodas de drogados ou, quem sabe,

na prostituição. Na verdade eu deveria estar "adoidada" por aí,

conforme dizia no meu antigo vocabulário.

Como o tempo muda a gente! Naquele Natal, eu estava ali com a

família, toda sensibilizada diante da manifestação de carinho de

tanta gente.

Resolvi me retirar da sala da pequena casa onde eu morava com

minha mãe. Entrei para o meu quarto para pensar um pouco. O

Natal parece exercer sobre a gente um estranho domínio, um

fascínio mesmo. Parece-me que alguém lá em cima, aqui dentro do

nosso peito, seja lá onde esse alguém se encontre, aproveita a

ocasião festiva das festas natalinas e arrebenta a última muralha, a

barreira que por tanto tempo teimamos em manter. O que seria

isso? Ainda não estava tão modificada assim a ponto de ter as

respostas para todos os meus questionamentos. Sei simplesmente

que eu estava sensível, profundamente sensível naquele dia.

Sentei em minha cama, e de repente tudo à minha volta parecia

ganhar um novo significado para mim. Eu sentia como se mãos

invisíveis estivessem por trás dos acontecimentos, trazendo-me de

volta à realidade. Como estava sendo importante para mim aquele

convívio familiar, a casinha pequena, os gritos, os escândalos da

vizinha, os hinos e orações de minha mãe. Como estava sendo

importante para mim o apoio que Paulo estava me dando. Como o

próprio Paulo estava sendo importante... Sentia-me especialmente

próxima dele naqueles dias.

—Joana, ô Joana? Que faz aí sentada, menina?

—Ah! Paulo, eu já disse para você outro dia que não sou nenhuma

menina.


—Eu sei, Joana, mas é o meu jeito de falar. Olha, o pessoal está aí

fora, todo mundo alegre e feliz por você. Não fique aí toda

recolhida, não. Aproveite a festa e venha se alegrar.

—Não estou triste não, Paulo, é que tudo isso está sendo muito

novo para mim. Parece que estou mais sensível estes últimos dias.

—É a magia do Natal. Dizem certos amigos que tenho que nesta

época Deus aproveita esta nostalgia que invade a gente e toca mais

fundo em nosso coração.

—É, esses amigos seus até que não estão errados, não. Diga-me,

Paulo, você fala tanto de amigos que dizem isso, amigos que dizem

aquilo...

—Mas é a primeira vez que lhe falo desses amigos, Joana, é só uma

forma de expressão.

—Não é, mesmo. E também não é a primeira vez que você me fala

assim. Olha que eu também tenho observado você; mas me diga,

Paulo, quem são esses amigos que lhe falam tanta coisa bonita

assim?

—Veja bem, Joana...



—Nada disso comigo, Paulo; fale-me sem rodeios.

—Já que você quer mesmo saber, os meus amigos, a quem sempre

me refiro, são os amigos de Jesus. Só isso — falou Paulo, dando um

largo sorriso.

—Você não me engana, rapaz. Não me engana.

Saímos os dois e nos integramos à turma que estava na sala

contando as alegrias do Natal.

Para muita gente era apenas mais um Natal, mas para mim era o

início de uma vida nova. Era, talvez, o meu novo nascimento.

Também foi naquele dia que tive a coragem de encarar Paulo de

uma maneira diferente. Tive a audácia de olhar bem fundo nos

olhos dele e notei, pela primeira vez em minha vida, que os olhos de

um homem também escondem a beleza do luar.

14


Shalom

Mas por todos esses caminhos não

o encontrei, simplesmente porque...

Veja, Jessé, como Miriam está modificada — falou Adab para o

antigo verdugo de Joana. Veja, filho, Miriam agora não é mais a

mesma. Olhe estampadas em sua fisionomia as marcas do

sofrimento. Observe, Jessé, como ela se modificou com o tempo.

Agora ela se utiliza de um novo corpo, meu filho. Ela nos atende

com o nome de Joana.

Cássio, modificando a sua aparência perispiritual, revestia a forma

da velha Adab, que vivera nas proximidades de Jerusalém, no

primeiro século da era cristã. O instrutor Ernesto também vivera

àquela época, sob a roupagem física de Ozias, o pai de Jessé, o

antigo perseguidor de Joana. Àquela época, a nossa tutelada vivia

na Judéia reencarnada como Miriam, a mulher que infelicitara a sua

vida através de calúnias e intrigas, arrastando por quase dois mil

anos os frutos de sua infelicidade.

Estávamos agora na pequena casa onde se reunia a família de Joana.

Aliás, onde a resumida família encontrava o seu abençoado refúgio.

Era Natal, e a alegria e sensibilidade que a comemoração do

aniversário de Jesus proporcionava mostrou-se para a nossa equipe

espiritual como um momento muito fértil. Conduzimos para aquele

ninho doméstico o espírito de Jessé, numa tentativa de reviver nele

os sentimentos de outrora, quando ele ainda não se deixara macular

pela idéia de vingança.

Ao ver a veneranda figura de Altina, o antigo obsessor identificou

no mesmo momento o seu amigo David, com o qual compartilhara

no passado muitos momentos de grande felicidade.

— David, então é você? Como pode ser?

—É a lei da vida, meu filho. O seu amigo David resolveu renascer e

abraçar Miriam como a sua filha. David assumiu o corpo físico de

Altina Gomides para dar oportunidade de renascimento àquela que

você perseguia.

—Mas, minha mãe, como isso pôde acontecer? Não entendo...

—Temos muitas coisas a entender ainda, Jessé. Temos muito o que

aprender. Veja bem, meu filho, eu mesmo retornei em novo corpo

físico para auxiliar a nossa Miriam.

—Como assim, minha mãe?

—Olha para mim, meu filho, a velha Adab; olhe bem.

Concentrado-se, Adab procedeu ao mesmo fenômeno de

estruturação das células perispirituais, em sentido inverso. A

aparência feminina foi cedendo aos poucos, e uma luz intensa foi

irradiando da forma perispiritual de Cássio, que ressurgia aos

olhares atentos de Jessé.

—Sou eu mesmo, meu filho. A velha Adab que você ama. Pela lei

divina dos renascimentos, eu assumi ao longo dos séculos diversas

outras personalidades. Em minha última existência física, fui Cássio,

o pai de Miriam, reencarnada como Joana.

—Então todos vocês retornaram por amor a Miriam? Só eu

permaneci por tanto tempo preso ao ódio?

—Sim, meu filho, foi o que ocorreu. Mas não nos detenhamos nos

fatos passados. Aproveitemos a festa em que comemoramos o

aniversário de Jesus e nos renovemos também.

—Mas não foi por causa desse Jesus que Miriam entregou a todos

nós no passado?

—Exatamente, meu filho — respondeu Cássio. — Mas também foi

esse Jesus que conseguiu, com seu amor, amolecer os nossos

corações e conquistar para sempre o coração de Miriam.

—E o meu pai, onde ele está agora? Onde está meu pai, Ozias?

Olhando para o instrutor Ernesto, Cássio esboçou um leve sorriso.

Jessé olhou em direção ao nosso instrutor, seus olhos se cruzaram, e,

enquanto ouvíamos os companheiros encarnados cantarem os hinos

de Natal, do nosso lado,

Ernesto e Jessé se abraçavam, pai e filho se reencontrando depois de

quase dois mil anos. Era o ano em que renasciam para Jesus dois

filhos novos, Miriam e Jessé, que reencontraram o caminho do bem.

Eu os via agora, Ernesto, o iluminado instrutor, e Jessé, o antigo

verdugo, abraçados na casa de Altina Gomides e Joana,

transubstanciados em luz, na luz do perdão, na luz das luzes

daquele Natal. Não havia como deter a avalanche de sentimentos e

emoções que extravasavam de todos naquele dia.

Do outro lado da margem do rio da vida, os amigos encarnados

cantavam glória a Deus nas alturas e paz na Terra. Do nosso lado,

almas se reencontravam, prometendo um futuro de paz e

entendimento.

Quando vimos Joana se retirando para o seu quarto, relembrando a

vida de outrora, Cássio convidou-nos a segui-la.

— Veja a nossa Joana, meu filho. Veja como ela se propõe a

modificar-se.

Neste momento, Paulo entrou em cena, conversando com Joana e

chamando-a para a sala. O instrutor Ernesto, aplicando passes no

córtex cerebral de Paulo, sensibilizou-o para que ele percebesse a

nossa presença. Paulo, com a sua discrição de médium de Jesus,

anotou o pensamento de Ernesto e comentou com Joana.

—É a magia do Natal. Dizem certos amigos que tenho — falou

Paulo, referindo-se aos pensamentos que captara do instrutor

espiritual — que nesta época Deus aproveita esta nostalgia que

invade a gente e toca fundo em nosso coração.

A conversa entre Paulo e Joana continuou até eles se reintegrarem

aos outros companheiros, que festejavam em outras dependências

da pequena casa. Aqui, entre nós, a alegria também era

indisfarçável. A família espiritual se reunira sob a bênção divina.

Era Natal. Mais um ano do calendário da Terra em que

comemorávamos o nascimento de Jesus. Quase dois mil anos de

aprendizado. Nascia Jessé, nascia Miriam na pessoa de Joana, a

nova filha de Jesus.

Nossa caravana partia da Crosta entre as alegrias do Natal e as

luzes que avistávamos por toda parte, comemorando o aniversário

do Salvador. Retornamos a nossa comunidade espiritual para nos

reunirmos com os companheiros espirituais numa festa de amor.

O firmamento estrelado refletia as belezas da natureza, e a nossa

colônia espiritual estava toda enfeitada, como eu nunca vira antes.

Todos os espíritos que comungavam os mesmos ideais de elevação

espiritual nos reuníamos para relembrar Jesus.

Trouxemos conosco Jessé, que estava radiante diante da beleza que

via refletida na cidade espiritual.

— É Jerusalém! — ele falava a todo momento. — É Jerusalém

renovada.

— Aqui, Jessé — falou Ernesto — você encontra exatamente aquilo

que precisa. Com o seu coração renovado, você se sintoniza com a

cidade dos nossos amores. Jerusalém representa, para nós, a cidade

de Deus, a cidade de David, o recanto da paz.

— Shalom abere! — exclamava Jessé.

— Shalom, meu filho, shalom! — respondeu Cássio ao filho pródigo

que retornava ao lar.

Na colônia espiritual com a qual nos sintonizávamos,

comemorávamos também o Natal. Festejávamos com todas as

possibilidades que tínhamos à nossa disposição. Mas naquele Natal,

em especial, festejávamos a alegria do reencontro de uma família

espiritual que, depois de quase dois mil anos, se abraçava, entre as

estrelas, para comemorar Jesus que voltava aos corações.

Shalom — como disse Cássio. Shalom aberé. A paz novamente reina

em Jerusalém.

15


Dores e paixões

Veio o amor, o amor por alguém

que caminhava comigo.

A aproximação de Paulo com a família de Altina não se deu por

acaso. Seu envolvimento com Joana denotava algo muito mais

profundo do que um acontecimento fortuito do cotidiano.

Os gregos antigos apresentavam em sua mitologia a figura de um

deus brincando com dados, significando, esses dados, os destinos

dos homens. Mas a realidade da vida em nada se assemelha à lenda

do país da Hélade. Ninguém vive no mundo ao sabor de forças

cegas ou à mercê de um ser superior que brinca de dados com as

vidas humanas. Ao contrário, tudo se encadeia no universo. Tudo e

todos estão ligados por fios invisíveis que se cruzam no tempo e no

espaço, nas experiências vivenciadas no passado. Ou, então, os

encontros e desencontros da vida presente resultam em futuros

compromissos, em futuros vôos da alma em companhia daqueles

com os quais conviveu e interagiu em sua passagem pelo palco do

mundo. Ao encontrar um outro ser, relacionar-se por alguns

momentos ou por anos, ninguém permanece o mesmo. Em tudo no

universo há troca incessante de energias, de experiência. Sempre

adquirimos ou assimilamos algo do próximo, tanto quanto

influenciamos o outro com a nossa presença em sua vida. Nossa

presença nas experiências do outro pode desencadear processos de

dor ou de felicidade. A participação de outra pessoa em nossas

vidas também influencia de uma forma ou de outra aquilo que

somos e, muitas, vezes, desencadeia processos cármicos que

precisamos vivenciar.

Com Paulo e Joana não ocorreu diferente. Os pensamentos do rapaz

estavam povoados com a imagem de Joana. A vida desta passou a

ser preenchida com as imagens de Paulo, com a sua presença, com a

sua ousadia em romper o preconceito, as dificuldades e aproximar-

se, se envolvendo de tal maneira que não mais poderiam viver um

sem o outro.

— Meu filho, noto-lhe os pensamentos e o semblante preocupado,

ultimamente — falou Célia, a mãe de Paulo. — O que está

acontecendo, meu filho? Abra-se com sua mãe...

A casa em que Paulo residia era uma mansão, comparada à

simplicidade da residência de Altina Gomides e Joana. Ele morava

no Bairro Ipiranga, junto com a mãe e mais três irmãos. A conversa

dos dois ocorria no jardim da casa, onde estavam acostumados a se

reunir nas tardes de sábado, num bate-papo muito familiar.

—Ah! mãe, não é nada que mereça incomodar você. Creio que devo

ser mais discreto em meus sentimentos e pensamentos.

—Talvez seja o contrário, filho — falou Célia, aproximando-se de

Paulo e abraçando-o. Quem sabe não é exatamente o oposto e você

esteja guardando sozinho seus pensamentos e sentimentos e agora

deva compartilhar isso com alguém?

—Eu não gostaria de incomodá-la, mamãe. Você sabe, as

dificuldades que você vem enfrentando com a saúde, o papai longe

de casa e os meus irmãos, sempre envolvidos com as badalações

deles...

—Ora, meu filho, o que é isso? Será que você está usando desculpas

para fugir da sua mãe? Ou será que não o conheço?

—Não é isso, D. Célia — respondeu Paulo, sorrindo forçado. — Mas

veja que nós já temos muitos problemas por aqui, e não é hora de

acrescentar mais fogo na fogueira...

—Sabe, Paulo, mesmo que você se recuse a falar sobre o assunto eu

vou insistir um pouco mais. Os problemas sempre existem e

existirão, e um a mais em nossas vidas não pesará muito. Aliás,

Paulo, não é você mesmo que diz que a gente tem de compartilhar

os problemas a fim de vislumbrar os resultados? Sei que é difícil,

muitas vezes, os filhos se abrirem para os pais. Entretanto, estamos

numa situação em que a nossa família se vê diante de duas únicas

saídas: ou somos transparentes ao ponto de confiarmos uns nos

outros ou então a família irá se diluir de tal maneira que perderá o

contato entre os seus membros e se perderá. Temos de nos envolver,

filho, mesmo que eu não concorde com as suas idéias ou você não

aprecie as minhas. Só não posso permitir que você carregue o peso

de suas experiências sozinho. Creio que todas as mães fariam o

mesmo com seus filhos.

—Minha querida mãezinha, ai de mim se não fosse você... Abrace-

me...


—Então? Não se abre com a mamãe? Não se preocupe quanto a

mim. Estou enfrentando com muita coragem os problemas de

saúde. Afinal, você não é o companheiro de minha vida? Não é o

meu garotão querido, que nunca me abandonou? Então? Vai falar

ou não do que incomoda?

—Bem, creio que não há como resistir a sua chantagem... Diga-me,

mamãe, será que todas as mães são chantagistas assim?

—Paulinho...

—Está bem, D. Célia, tudo bem, mas não me diga que você não seja

uma excelente estrategista.

—Bem, meu filho, não posso discordar completamente de você, mas

convenhamos: que funciona, funciona. São as armas de todas as

mães. Usamos do coração para atingir os corações dos filhos. Isso

nunca falha.

—É, creio que não falha mesmo. Sabe, mãe, aquela garota da qual

lhe falei meses atrás, a Joana?

— Sim, sim; diga, filho.

— Como lhe disse, eu estou muito envolvido com a família dela.

Juntos, já fizemos de tudo a fim de auxiliá-la nas dificuldades

criadas pelo seu envolvimento com as drogas.

— E ela está correspondendo aos seus esforços?

— Sim, mamãe, claro. Isso é muito bom. Ela já passou da fase de

perigo, e creio que até mesmo já se libertou do uso das drogas, só

que os efeitos psicológicos são patentes. A Joana está em fase de

readaptação à vida social, porém um fato vem acontecendo e está

me preocupando muito...

—Já sei! Você está apaixonado por ela.

—Mamãe, que mente suja...

—Ora, meu filho, só quem é bobo não percebe...

—Você acha?

— Claro, está expresso em seus olhos. Eles brilham quando você

fala no nome de Joana.

— Mamãe, você não presta.

—Não, mesmo, filho, e acho que, se você não correr logo, perderá

um momento precioso em sua vida.

—Mas, mãe, não tenho certeza direito a respeito de meus

sentimentos. E quanto a Joana? Não sei se ela sente alguma coisa.

Talvez seja apenas produto de minha imaginação. Quem sabe não

seja apenas preocupação com a vida dela?

—Não me venha com essa, meu filho. Não fuja de sua felicidade

assim. Esses momentos em nossas vidas, Paulo, são muito preciosos

para que os dispensemos dessa forma. Não há como adiar a

felicidade sem que haja sérias conseqüências para o coração. Não

resista, meu filho.

—É que tenho muitas apreensões em relação a Joana e não tive

coragem ainda de falar abertamente com ela.

—Então você não está sendo amigo verdadeiro da sua Joana. Os

amigos que se prezam costumam usar de transparência nas

relações.

—Mas eu sou amigo, sim. E muito bom amigo.

—Só que ser amigo muito bom não é o que você deseja, não é?

—Bem...


—Claro que não, meu filho. Eu bem conheço vocês todos e sei do

jeito de cada um dos meus filhos. Você quer se aproximar da Joana

e tê-la como mulher. Só isso.

—Mamãe, deixe de ser...

—Franca! Franca e moderna, pode dizer, Paulo. Para que esconder

sentimentos e desejos? Eles sempre acabam ganhando da gente. Vai

por mim, filho, é a experiência de toda uma vida. Quando a gente

guarda os desejos e sentimentos por tanto tempo, tentando

mascarar aquilo que sentimos, eles acabam por irromper dentro de

nós; rompem as nossas defesas, e aí vem o caos. No seu caso,

conheço-lhe muito bem os impulsos, afinal, eu estudo os meus

filhos o tempo inteiro e não posso enganar-me quanto às suas

tendências e emoções.

—Como assim, estuda-me?

—Olhe, meu filho, não pense que a sua religião seja uma couraça

para conter seus sentimentos e desejos. Creio que o erro de muitos

religiosos seja o fato de usarem a religião para mascarar a vida

íntima e se esconder da vida atrás de um altar ou de muito trabalho,

a fim de despistar os próprios sentimentos.

—Ora, mamãe, mas você sabe que não sou assim. Eu sou espírita, e

o espiritismo...

—Sei que o espiritismo é muito bom, meu filho, e não estou aqui

discutindo a validade da proposta espírita. Não é isso. Mas essa

máscara de santidade, de evolução compulsória me dá medo. Eu

acho que vocês não se permitem ser felizes sem a presença do

medo. Têm medo de se entregar às relações afetivas, medo de que a

felicidade bata à porta e que essa felicidade seja diferente daquela

que vocês idealizaram. Abra-se, filho, deixe a vida conduzir você e

não pretenda disfarçar seus sentimentos de homem com a caridade

despretensiosa dos religiosos. Não perca a oportunidade, Paulo.

—Mas você então me incentiva a procurar a Joana.

—Incentivar? Deixe de bobagem, meu filho. Em breve você

descobrirá que o estou empurrando para os braços da felicidade.

Incentivar é muito suave para o seu caso. Vá, vá, meu filho, não

fique assim amuado feito animal. Levante-se e vá procurar Joana.

Diga-lhe a respeito de seus sentimentos. Não perca tempo.

— Você acha, mamãe? Acha mesmo?

— Levante-se, meu filho. Honre as calças que você veste. Assuma-se

com seus sentimentos e, se você acredita tanto assim em espíritos,

incorpore, faça qualquer coisa, mas permita-se ser feliz.

Paulo não pôde resistir ao empurrão materno e saiu à procura de

seu destino. Com certeza, Deus não joga dados com a vida humana

nem manipula as experiências de seus filhos, por isso ele enviou as

mães, que são mestras na arte de convencer os filhos na busca da

felicidade.

Paulo saiu, enquanto Célia esperava os outros filhos para a conversa

habitual das tardes de sábado. Em breve tempo, eles apareceram, e

a família reuniu-se para o diálogo que deveria unir os corações.

Os acontecimentos transcorriam conforme as leis da vida

determinavam. Paulo deveria reencontrar Joana na presente

existência para que pudessem se beneficiar com as experiências

conjuntas.

Por detrás desses eventos na vida de Paulo e Joana, espíritos amigos

tentavam a todo custo inspirá-la quanto ao melhor caminho através

do qual poderiam se conduzir.

Já havia alguns dias que Joana não via Paulo. Estava ansiosa por lhe

falar. O rapaz não ligava, e ela não tinha coragem de dar-lhe um

telefonema. Tinha de encontrá-lo. Esperou por ele todos esses dias.

Como gostaria de compartilhar um momento tão importante quanto

o que vivia...

Fora fazer uma consulta dias antes. Devido ao seu passado, ao uso

de drogas intravenosas, o médico a aconselhara a fazer o exame de

sangue que detectasse se ela era ou não soropositiva. Afinal, viviam

no século do HIV. Não poderia descuidar-se. Paulo a aconselhara a

fazer o exame Elisa. Ela rejeitara a idéia durante muito tempo, mas,

agora, com os pensamentos que abrigava em sua mente a respeito

dele, ela tinha de fazer os testes. Não poderia sequer pensar em

compartilhar a sua vida com alguém de forma mais intensa, íntima,

sem se certificar de algo tão importante.

Resolveu então procurar um outro médico, porque ficara com medo

de que Paulo desconfiasse. O seu médico, que era amigo de Paulo,

poderia também falar com ele.

Joana pretendia esconder de Paulo os resultados do exame, caso

fossem positivos, e também esconder seus sentimentos. Mas... e se

não fossem positivos? Se ela não fosse portadora do HIV? ISSO

abriria uma oportunidade ímpar em sua vida.

Noites e noites de insónia e mais as preocupações e os medos

fizeram da vida de Joana um inferno.

Não havia como adiar. Ou ela fazia o exame ou então não dormiria

mais de tanta angústia.

Resolveu então procurar um posto de saúde. Entrou no consultório

do médico e relatou a verdade a respeito de suas preocupações.

Desejava realizar o exame.

Nos dias que antecederam a resposta do médico, Joana também não

dormira. Esse período coincidiu com os dias em que não se

encontrara com Paulo. Aumentaram, por isso, sua angústia e

insegurança. Pensou então que não iria procurar o médico para

receber o resultado.

Os pensamentos desencontrados, como um vulcão em erupção,

pareciam querer romper o cérebro, que explodiria. O estresse

estabelecera-se, e, durante esse dia que antecedera os resultados,

Joana teve febre, diarréia e vários outros sintomas próprios de

desequilíbrios e abalos emocionais mais intensos. Em sua mente,

acreditava que já estava doente. A aids se instalara definitivamente.

Nem precisava dos resultados. Se ela fosse ao médico, quem sabe

ele apenas recomendaria sua internação em uma clínica ou hospital

onde pudesse esperar a morte com mais dignidade? "Desistiria",

pensou Joana.

Mas, se por um lado ela pensava em desistir, por outro não poderia

morrer em paz caso não fosse ao médico.

Altina, a sua velha mãe, também ficava aflita com a situação da

filha. Depois de muito conselho, de muito insistir, convenceu-a a

procurar o médico e receber os resultados.

Quando entrou no consultório, o suor caía-lhe da face afogueada

pela febre. O médico assustou-se com o estado de Joana.

—O que é isso, garota? O que está acontecendo?

—Diga, doutor, pode falar a verdade comigo, não esconda nada.

Veja como estou.

—Mas o que está acontecendo? Deite-se aqui — apontou a maca. —

Vamos, diga-me.

—É o HIV, doutor, a aids. Já estou no estado terminal. Eu sei que é

isso. Me diga, não é mesmo?

—HIV? O que é isso, Joana? Veja o que você está aprontando para si

mesma.


—Não é o que dizem os resultados, doutor? — perguntou Joana

ofegante, ao lado da mãe aflita.

Como sofrem as mães de todo o mundo. Como têm de acompanhar

os filhos em suas dores; sofrem mudas, caladas, e o seu sofrimento

reprimido, para não exacerbar as dores dos filhos, parece ser um

sofrimento infinito.

—Por favor, espere lá fora, minha senhora, depois eu a chamo.

—Deixe minha mãe, doutor — falou com voz entrecortada a

moribunda. — Não quero morrer sozinha.

—Prefiro que espere lá fora, minha senhora — falou enfático o

médico.

—Sim, seu doutor, mas muito cuidado com a minha Joana.

Qualquer coisa, me chame, estarei orando para Jesus. Altina saiu do

consultório, mas sob protestos de Joana.

— O que é isso, Joana? Como pode submeter sua mãe a uma

situação dessas?

— Mas, doutor, eu já estou morrendo.

— Mas se você se considera nesse estado, porque se deu o trabalho

de vir aqui? Conte-me.

—Eu vim pegar o resultado do exame de aids.

—HIV, Joana, HIV.

—Sim, doutor — Joana tossia muito. — Eu sei que vou morrer com

aids e eu tinha que vir aqui.

—Mas eu acredito que você deve estar enganada, Joana. Parece que

você veio pedir um atestado prévio de óbito, e não buscar os

resultados dos exames. Veja o estado lamentável em que se

encontra.

—Fale, doutor, fale, por favor, estou com aids, não estou?

A face de Joana gotejava suor, enquanto ela tinha dificuldade em se

expressar.

Dirigindo-se à sua mesa, o médico pegou um envelope, abrindo-o

lentamente. Olhou para Joana e falou com voz calma e pausada:

— Resultado do exame de Joana Gomides: HIV — negativo!

— O quê? Então não estou com aids? Não estou morrendo?

Joana levantou-se imediatamente da maca, tomou os resultados das

mãos do médico e saiu do consultório correndo, sem dar

oportunidade de o médico falar mais nada.

Atônito com as reações da quase-morta, o médico ficou parado, sem

entender o comportamento de Joana.

— Meu Deus, como é desequilibrada. Só faltava abrir uma

sepultura, jogar-se dentro e pedir a alguém para jogar terra por

cima. E nem me deu tempo de falar com ela a respeito dos

resultados...

Do lado de fora do consultório, a mãe aflita mantinha a cabeça

baixa, orando a Jesus pela vida de sua Joana. Ah! meu Deus,

pensava Altina, eu estou perdendo minha filha outra vez.

A pobre mulher chorava baixinho, enquanto orava mentalmente. Os

outros pacientes, que aguardavam o atendimento, ficaram

sensibilizados, ao verem a mulher sofrida e angustiada,

derramando suas lágrimas.

A porta do consultório abriu-se abruptamente, e Joana saiu de

dentro com um envelope nas mãos. Altina arregalou os olhos sem

entender nada, ou então assustada com o resultado imediato de

suas orações. Não deu tempo de raciocinar. Eram apenas lampejos

de pensamentos que passaram em sua mente.

— Vamos, mamãe. Eis aqui os resultados.

—Mas, filha, você não está doente? E a febre?

—Que febre, mamãe? Eu não tenho nadinha de nada. Olhe aqui os

resultados. Veja em minhas mãos a resposta. O médico disse que

deu negativo. Negativo, mamãe.

—Filha, eu não entendo — balbuciou Altina.

—Não precisa entender, mamãe. Vamos embora daqui.

Joana literalmente arrastou Altina pelo corredor, não lhe dando

oportunidade de se esclarecer.

—E a febre, filha? E a diarréia?

—Ah! mamãe, e eu entendo lá dessas coisas? Passou tudo. Eu acho

que foram suas orações...

Altina não compreendeu direito como a filha melhorou de um

momento para outro. Afinal, ela não estava com aids? E os sintomas

que estava sentindo há alguns dias? Será que suas orações eram tão

poderosas assim?

—O sangue de Jesus tem poder! — falou Altina em alto e bom tom.

—Louvado seja Deus — respondeu Joana.

A mente cria. A mente em desequilíbrio passa ao corpo as sensações

alimentadas pela pessoa.

Emoções fortes, quando são alicerçadas numa mente cheia de

pensamentos pessimistas, produzem estados de saúde delicados, e

o corpo, reflexo da mente, expressa o teor das emoções, dos

sentimentos e pensamentos com máxima fidelidade.

Joana voltou para casa, agora ansiosa para reencontrar Paulo e

mostrar-lhe os resultados de seus exames. Não tinha tempo a

perder. Desejava a todo custo rever seu benfeitor. Será que

telefonaria para ele? Não sabia ao certo o que fazer ou como

proceder. Apenas desejava vê-lo. Ansiava por encontrá-lo. Não

poderia passar muito tempo longe de sua presença, de sua atenção,

de seu afeto.

Todo o seu ser ansiava por ele. Paulo, Paulo, Paulo. Só Paulo

importava. Parece que estava em transe de tanto que o chamava

mentalmente. Era o transe do amor, da paixão, da vida que

conspirava pela felicidade.

16

Comunidade gospel



Sei que não o encontraria entre os

santos. Jamais o encontrei entre

os salvos. Também não o vi nos

altares das igrejas. Não o encontrei

entre os eleitos.

Passava das 20 horas quando Paulo chegou à casa de Joana. No

caminho ele resolveu comprar uma lembrança para ela e acabou demorando

mais que o previsto. Naturalmente que fora ajudado pelo

trânsito, que contribuía para que Paulo e outras milhares de pessoas

pudessem aproveitar mais o tempo dentro de automóveis, ônibus e

outros veículos.

Joana estava na cozinha, ajudando a mãe em alguns afazeres

domésticos. Embora conservasse as mãos ocupadas com o trabalho

de casa, a mente e o coração estavam fixos na pessoa de Paulo, em

quem concentrava a sua atenção. A campainha soou três vezes

seguidas.

—Paulo! — gritou Joana, que saiu correndo em direção à porta.

—Meu Deus, por que tanta pressa assim? — falou Altina, olhando

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