Encontro com a vida robson pinheiro



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Encontro10.09.2017
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de formigas, que lhe subiam pelo corpo espiritual.

Pensei que poderia falar com ela, entrevistá-la, quem sabe... Ela,

porém, não registrava a minha presença. Tentei, em vão, chamar-lhe

a atenção, até que Ernesto me convidou mais enfático:

— Não perca o seu tempo, Ângelo. Temos coisa mais importante a

realizar. Você ficaria surpreso com tantas coisas que veria acontecer

num cemitério. Essas almas que aqui permanecem ligadas aos

despojos físicos não têm ainda condições de serem auxiliadas.

Necessitam de tempo para que se libertem dessa situação difícil.

Trabalhemos; outros campos de serviço nos aguardam.

Não foi fácil para Joana libertar-se das drogas. Anastácio acabou se

envolvendo tanto com o problema de Joana que se aliou à mãe da

menina na tentativa de auxiliá-la.

Altina orava todos os dias sem cessar, mas não sabia como poderia

internar sua Joana numa clínica especializada. Não tinha recursos

financeiros para isso. Dependia inteiramente do amigo Anastácio e

dos companheiros de igreja.

Certo dia Anastácio conversava com um cliente de sua padaria,

quando ficou sabendo que ele era espírita. Um tanto quanto curioso,

tentou extrair informações a respeito da religião espírita.

—Fale-me a respeito, Seu Paulo — pediu Anastácio. — Diga-me

que espécie de trabalhos vocês fazem lá, para ajudar as pessoas.

Não me interprete mal, não, mas é que dizem tanta coisa a respeito

do espiritismo, que só de lembrar nos dá arrepios...

—Não é nada disso não, Seu Anastácio — falou Paulo, solícito. — É

pura ignorância do povo, quando falam que fazemos trabalhos para

os outros. O espiritismo não realiza nenhuma mandinga para

ninguém; espiritismo é ciência que estuda as leis de Deus e da vida,

respondendo nossos questionamentos de forma esclarecedora.

Também conforta-nos sobremaneira, pois, através de suas lições

morais, nos aproxima cada vez mais de Deus e nos faz ver que Ele,

que é pai, está aqui mesmo, dentro de nós. Só isso.

—Mas então vocês falam de Deus também?

—Mas é claro, Seu Anastácio. Sem que Deus queira, nada podemos

realizar... Faça o seguinte: eu lhe darei este livro aqui — tirou O

Evangelho segundo o espiritismo da bolsa e deu-o ao padeiro — e

quando o senhor tiver algum tempo, leia-o, assim terá uma idéia a

respeito do espiritismo. Não adianta eu tentar lhe dizer muita coisa

agora. Leve o livro, e em outra oportunidade falaremos.

Conversando, Anastácio soube que Paulo trabalhava como

voluntário numa espécie de clínica de recuperação de usuários de

drogas. Paulo lhe disse que era uma clínica de seus amigos espíritas

e que ele, a cada duas semanas, auxiliava quanto podia.

— Mas não me diga... parece que o senhor caiu do céu, Seu Paulo —

falou Anastácio. — É que tenho uma amiga que está vivendo um

caso muito sério com este negócio de drogas. A filha precisa

urgentemente de um tratamento. Quem sabe o senhor não poderia

auxiliar?

— Claro, Anastácio, faremos o que for possível...

Assim, após esse contato, as coisas começaram a se encaminhar para

Joana. Ela foi conduzida ao tratamento integral na fazenda-clínica,

auxiliada de perto por Paulo e por Anastácio. Do outro lado da

vida, consciências sublimadas auxiliavam para que o caso de Joana

fosse devidamente acompanhado.

7

Pesadelo



Revoltei-me nessa procura e,

revoltondo-me, neguei que Ele existia.

Joana reconhecia a necessidade de reeducar-se; entretanto, não tinha

força de vontade suficiente para libertar-se do vício. Fora internada

com o auxílio de companheiros espíritas, amigos de Paulo, que

tentavam ajudar quanto podiam.

Mas o caso de Joana não era tão simples assim. Junto com os

traumas, vícios e demais dificuldades orgânicas a moça vivia um

difícil estado de obsessão. Entidades trevosas, atraídas pelo seu

vício, vinham ao seu encontro diariamente. O espírito de Adriane,

que desencarnara de overdose, atuava como ponte entre Joana e tais

entidades. Todas as noites vinham os pesadelos, e o desespero tomava

conta da moça.

Na clínica, os doentes eram tratados com passes e fluidoterapia,

além dos medicamentos habituais. Mas para que tudo corresse bem

era necessário que o paciente contribuísse para a própria melhora.

Sem cooperação, não era possível alcançar resultados positivos.

Numa determinada noite, quando Joana dormia, seu espírito

desprendido encontrou Adriane. Iniciava-se um intenso pesadelo.

Joana recusava-se a recorrer à oração; então, no momento em que

mais precisava, não tinha como valer-se da ajuda espiritual.

Adriane apresentava-se à visão espiritual de Joana muito bonita e

com um charme especial, convidando-a a dar uma volta por aí.

Nessa ocasião, Ernesto e eu nos aproximamos de Joana espírito,

tentando de alguma forma auxiliá-la, tirando-a da companhia de

Adriane. Mas não encontrávamos ressonância alguma nas

disposições de Joana, que saiu de mãos dadas com Adriane,

passeando por regiões tenebrosas do mundo espiritual. Tentamos

de tudo, mas parecia que Joana não queria ser ajudada. Só nos

restava esperar e observar.

A paisagem na qual se desenvolvia o pesadelo de Joana era um

misto de criação mental de entidades perversas e da mente enferma

de Adriane, que servia de marionete para outros espíritos mais

perigosos.

Desdobrada pelo sono físico, Joana seguia o espírito dementado de

Adriane para regiões cada vez mais densas e obscuras do mundo

oculto. Seguíamos as duas, Ernesto e eu, esperando um momento

adequado para interferirmos.

Adriane seguia com a companheira em direção a uma estranha

construção em meio à paisagem fluídica do plano extrafísico. Ao

longe, erguia-se um estranho castelo, para onde as duas se dirigiam.

Do lado de fora, à semelhança de antigo castelo medieval, um fosso

contornava a estranha edificação. Mas parecia que Joana estava

hipnotizada, não conseguindo libertar-se do domínio de Adriane,

que a essa altura já não conseguia manter a aparente tranqüilidade

ou a forma externa com a qual se apresentava para Joana durante o

sono físico. Intenso desespero parecia dominar o semblante de

Adriane, e ela, imantada ao espírito desdobrado de Joana, entrou no

castelo sombrio, que funcionava como um laboratório de

inteligências perversas.

—Este caso, Ângelo — falou-me Ernesto — merece estudos mais

aprofundados e ação emergencial. Como você sabe, Adriane,

quando encarnada, exercia uma certa influência sobre Joana. Agora,

quando se acha sob influência de espíritos perversos, busca

novamente a sintonia com a companheira de viciação, tentando

dominá-la e trazê-la definitivamente para o desequilíbrio.

—Temos que fazer algo, Ernesto; não podemos deixar Joana à

mercê de entidades tão infelizes.

—Aguardemos, companheiro. O momento é muito delicado, e

temos de saber esperar com acerto. Façamos o seguinte: enquanto

você acompanha as duas ao interior da construção, retornarei à

procura de auxílio. Para realizarmos algo com proveito é preciso

nos utilizarmos de fluidos humanos, animalizados. Devo retornar e

procurar ajuda.

—Que farei de minha parte?

— Continue com as duas, Ângelo, mas não tente nada sozinho.

Ainda não é o momento. Espere-me, e localizarei você onde estiver.

Ernesto voltou procurando recursos para libertarmos Joana do

pesadelo em que se via envolvida. Prossegui junto das duas,

adentrando o pátio interno daquela construção fluídica.

Poucos espíritos pareciam ocupar o pátio do castelo medieval

localizado nas regiões sombrias do plano astral. Duas entidades

vestidas de forma espalhafatosa, numa mistura de cores vivas e

roupas extravagantes, vieram ao encontro das duas. Adriane, não

agüentando mais a representação, deixou-se cair ao lado de Joana

desdobrada. As duas entidades aproximaram-se, e vi quando um

forte grito partiu da boca de Joana, que neste momento perdeu

completamente as forças, deixando-se vencer pelo magnetismo das

entidades diabólicas. Tudo isso se passava diante de mim sem que

pudesse fazer alguma coisa, pois aguardava o retorno de Ernesto. A

minha presença não era notada pelos espíritos, devido à diferença

de nossas vibrações. Vibrávamos em dimensões diferentes.

Joana foi conduzida para dentro do prédio juntamente com

Adriane, que aos poucos se transformava diante dos olhos

excessivamente abertos de sua companheira. Acompanhei-as para

dentro do novo ambiente. O que vi desafiava minha própria

imaginação.

Um salão circular abrigava vários aparelhos, compondo o cenário

de um moderno laboratório, contrastando com a arquitetura

medieval. Para ali foram conduzidos os espíritos desdobrados de

Joana e Adriane, que a essa altura parecia totalmente demente,

abatida e desfigurada. Perto de uma maca estavam de pé quatro

espíritos, vestidos de túnicas que arrastavam penosamente sobre o

chão daquele laboratório estranho. Não conhecia nenhuma daquelas

aparelhagens, mas sabia que não eram utilizadas para o bem. O

ambiente era iluminado por uma luz amarelada, que formava

estranhos contrastes com as sombras dos objetos projetadas no salão

circular. As entidades perversas movimentavam-se lentamente,

penosamente, carregando nas mãos algo que se assemelhava a

instrumentos médicos.

Estava montado todo o cenário do pesadelo de Joana, que neste

momento era conduzida para uma das macas, onde seria submetida

a uma cirurgia em seu corpo espiritual. Eu esperava o momento em

que Joana, mesmo desdobrada, orasse em busca de socorro

superior, o que favoreceria alguma ação de minha parte. Ocorre que

Joana, na vida cotidiana, não havia desenvolvido o hábito de orar.

Agora, vivendo o seu pesadelo, desdobrada em outra dimensão da

vida, não orava, apenas se debatia entre o medo e o desespero,

naturalmente transmitindo para o corpo físico, que repousava na

clínica, as impressões descontroladas do seu espírito.

Uma das entidades aproximou-se de Joana e falou, com expressões

grotescas:

—Agora é a hora do ajuste de contas com a megera. Adriane serviu

como isca a fim de que a trouxéssemos para o nosso reduto.

—Sim — falou outro espírito. — É hora de substituirmos o implante

no perispírito de Joana. Creio que o estágio dela nessa tal clínica

diminuiu a nossa ação sobre o seu espírito. Com o novo aparelho

que implantaremos em seu corpo espiritual, aumentaremos o seu

desejo e a dependência pelas drogas.

—Não tem como fugir de nossa organização — falou novamente a

infeliz entidade. — No passado, ela se comprometeu conosco e

tentou fugir várias vezes de nossa falange. Não adianta se refugiar

num corpo físico. Configuramos o aparelho parasita de tal forma

que despertará em sua mente imagens desesperadoras. Com

certeza, após causar muitos estragos na vida de outras pessoas, ela

será levada ao suicídio.

— Sim; aí ela será definitivamente nossa.

As entidades infelizes esboçaram uma caricatura de riso, mas não

conseguiram ir além de uma careta. Tentariam realizar um implante

em Joana e, para isso, já estavam tirando o implante anterior, que

deveria ser substituído pelo novo aparelho parasita.

Eu não sabia o que fazer para deter o processo. Orei intensamente,

pedindo ajuda e tentando me comunicar com Ernesto. Nesse

momento, intenso tremor pareceu abalar a estrutura do castelo do

terror, exatamente quando um dos espíritos retirava o estranho

aparelho do psicossoma de Joana e já se preparava para colocar o

outro. O tremor parecia aumentar cada vez mais, abalando os

aparelhos e demais instrumentos do sinistro laboratório. As

entidades, apavoradas, tentavam a todo custo salvar aquele lugar,

quando Ernesto foi entrando no ambiente, trazendo ao seu lado o

pastor da comunidade evangélica da qual fazia parte Altina, a mãe

de Joana. O pastor, desdobrado, atuava como médium de Ernesto,

que, retirando o ectoplasma do evangélico, interferia diretamente na

ação do mal. Em meio ao tumulto, causado pelos diversos tremores

que sacudiam o local, o instrutor Ernesto parou por um momento,

concentrando-se, e se fez visível por instantes, para aquelas

entidades desesperadas. Irradiando intensa luz do seu plexo solar e

do seu coração, Ernesto parecia estar ligado por fios dourados ao

espírito desdobrado do pastor, que, levantando as mãos sobre

Joana, ministrou-lhe um passe magnético.

Por toda a estranha edificação se ouvia um coro. Era um hino que

estava sendo cantado na igreja, que neste momento realizava um

culto, uma vigília, para libertar Joana das drogas e das garras do

inimigo ou do demônio, como acreditavam.

Castelo forte é o nosso Deus

Espada e bom escudo

E se vacila um filho seu

Envia a sua ajuda.

Destrói o perspicaz

Ardil de Satanás

Com artimanhas tais

E astúcias tão cruéis

Que igual não há na Terra.

Se a nós quiserem devorar

Um tal poder com seu ardil

Jamais nos podem assombrar

O tal cruel demônio vil.

Satã, o tentador e vil acusador

Jamais nos vencerá

Pois foi vencido já,

Ali na cruz do Salvador.

Ouvíamos todos o hino cantado a plenos pulmões pelos evangélicos

que se reuniam em oração, tentando a libertação de Joana dos vícios

que a dominavam. Na verdade, os companheiros evangélicos nem

suspeitavam o que ocorria naquelas regiões do plano extrafísico. Porém,

o magnetismo de suas vibrações foi tão intenso que o mentor

Ernesto o aproveitou para interferir diretamente na situação,

libertando o espírito desdobrado de Joana da ação das entidades

das trevas.

—Ela é protegida, ela é protegida! — gritava desesperada uma

entidade, ao avistar a presença luminosa de Ernesto.

—Fujamos, são os filhos do Cordeiro, não podemos fazer nada

mais...

Os espíritos do mal saíram correndo, enquanto eu me dirigia à maca

e retirava Joana da prisão extrafísica.

O pastor, embora desdobrado, parecia guardar lucidez do que

ocorria em nosso plano. Aproximou-se de Joana e, vendo-me ao seu

lado, naturalmente interpretou a presença de Ernesto e a minha

como sendo a interferência de anjos de Deus, enviados para

espantar a força maligna. Mais tarde declararia na igreja, para a

admiração dos crentes, que fora arrebatado pelo Espírito Santo e

vira coisas maravilhosas, operadas pelas mãos do Senhor e pelos

seus anjos, para a libertação da filha da irmã Altina.

Não importa, para nós, como seja a interpretação da nossa ação. O

importante é que a pequena comunidade evangélica auxiliou com

seu magnetismo espiritual, e Ernesto, aproveitando a oportunidade,

conseguiu libertar Joana.

Enquanto eu conduzia o espírito desdobrado de Joana para o corpo

físico, Ernesto, tomando Adriane em seus braços, já desfalecida, a

conduzia para uma reunião espírita que ocorria naquele momento.

Ela necessitava de um choque anímico, a fim de que despertasse da

hipnose e fosse auxiliada.

Quando reconduzi o espírito de Joana para o corpo, ela abriu os

olhos gritando por socorro e se debatendo, acordando do pesadelo

em que se encontrava. Lembrando os clamores de sua mãe, gritava

com toda a força de sua alma:

— O sangue de Jesus tem poder! O sangue de Jesus tem poder! Vade

retro, Satanás... afasta de mim...

Os companheiros da clínica corriam para ver o que causara

tamanho escândalo. Mas, apesar de tanta trovoada, a tempestade já

havia passado.

8

Terapia espiritual



Eu procurava Deus em

qualquer parte, em toda porte.

Naquela noite, após conduzir Joana espírito para o corpo físico,

reintegrando o espírito desdobrado ao corpo que repousava, fomos

em direção a um agrupamento de companheiros espíritas rogar

auxílio para o caso. Adentramos o ambiente de uma singela casa na

Vila Belém, onde se reuniam oito companheiros encarnados,

estudando O Evangelho segundo o espiritismo. O ambiente familiar

demonstrava a serenidade de regiões mais elevadas. Em nossa

dimensão, seis entidades participavam do culto no lar, além dos

mentores responsáveis por cada um dos presentes.

Imediatamente Ernesto e eu fomos identificados pela vidência de

uma companheira, a dona da casa, senhora sexagenária que

coordenava os estudos da noite. Sentimo-nos em casa.

Quando terminaram os comentários a respeito das lições da noite,

os amigos encarnados prepararam-se para a prece final. De nossa

parte, procuramos o mentor da reunião e transmitimos a ele a nossa

preocupação quanto ao caso de Joana. Este, prestimoso, nos auxiliou

junto ao grupo familiar do Evangelho.

Eis que ficou marcado o dia e a hora em que o grupo se reuniria

novamente para atender o caso em questão.

—Temos que aproveitar o nosso tempo e agir com urgência, Cássio.

Há pouco, as entidades vingativas que atormentam Joana saíram

em disparada, ao nos perceberem a presença. Libertamo-la da ação

desses infelizes companheiros, mas creio sinceramente que devemos

agir com urgência.

—Creio que sim, Ernesto. Sei que você e Ângelo fizeram o melhor

por minha filha, mas agora já posso auxiliar mais diretamente.

Procuremos agir sem demora.

Dirigimo-nos para o local onde Joana, desdobrada, havia sido

aprisionada pelas entidades perversas. Adentramos o antigo castelo,

que, agora, parecia desabitado, pois não víamos ali nenhum espírito

vândalo. Estranhei o fato de não ver nenhuma das entidades que

víramos antes. Cássio, então, quebrando o silêncio, falou:

— Foram-se todos daqui. A presença de vocês espantou os

espíritos do mal, e eles retiraram-se para outros sítios. Não

podemos deixar essa construção do jeito que está. Corremos o risco

de voltarem com mais entidades malévolas e assumirem novamente

o lugar, transformando-o num reduto das trevas.

—Teremos que destruir a construção? — perguntei.

—Talvez, talvez — falou Ernesto. — Mas bem que poderíamos

aproveitar a construção fluídica de alguma forma. O que acha,

Cássio?

—Boa idéia, Ernesto. Sabemos que não é tão fácil erguer e estruturar

uma construção assim, no plano extrafísico. É preciso muita energia

mental. Entretanto, podemos, quem sabe, aproveitar a construção

existente e transformá-la num posto de socorro, que sirva a

propósitos do infinito bem.

—Mas isto aqui não era um posto dos espíritos das trevas? Como

poderíamos aproveitar tudo isto para o bem?

—A tentativa não é de todo impossível, Ângelo. Também na Crosta

ocorrem fatos semelhantes com muita constância — retrucou

Cássio. — Veja você que muitas igrejas evangélicas alugam ou

compram prédios onde antes funcionavam cinemas especializados

em filmes pornográficos, ou outros ambientes onde, antes, havia

grave comprometimento moral. Transformam esses ambientes em

igrejas e, conforme ensinam em suas religiões, fazem o melhor que

podem para a transformação do mundo.

—Cada um faz a sua parte — falou Ernesto. — Cada um faz o que

sabe e o que pode. No fim, conforme nos diz o apóstolo Paulo, tudo

contribui para o bem daqueles que amam a Deus.

—Mas, no presente caso, como se dará a transformação da

construção fluídica, que neste momento aparece à nossa visão

espiritual como um castelo sombrio incrustado nesta região

sombria? — perguntei, curioso.

Na verdade, desde que voltei ao mundo espiritual sempre vi

soberbas construções nos planos superiores ou construções

diferentes, estruturadas também em matéria sutil. Mas nunca vira

como essas construções eram feitas. Nunca presenciara nenhum

espírito agindo diretamente sobre os fluidos dispersos no ambiente

extrafísico, moldando-os de tal maneira a formar essas construções

que vemos do lado de cá da vida. Minha curiosidade novamente

voltava a dominar minhas forças. O assunto era palpitante.

—Neste caso, Ângelo — retornou Ernesto — temos de pedir ajuda

ao Alto. Como na Terra, quando se projeta um hospital, um edifício

qualquer, é preciso que um arquiteto faça as medições e transforme

as idéias num desenho sobre o papel. Aqui também não fugimos a

essa necessidade. Existem espíritos experimentados nos projetos de

construção fluídica. Os engenheiros e construtores espirituais são

espíritos já experimentados no domínio da mente. Através da

ideoplastia, trabalham na intimidade daquilo que chamamos

moléculas fluídicas, transformando a matéria do nosso plano de

maneira a favorecer o nosso trabalho do lado de cá da vida.

—Então, vocês não poderão modificar o ambiente por conta

própria, é isso?

— Não, Ângelo. Não podemos. Pelo menos, Cássio e eu ainda não

possuímos recursos para realizar tal proeza. Também, com as

atividades que nos esperam, não teríamos tempo para esse tipo de

realizações. Nossa tarefa é outra. Ernesto sorriu para mim,

indicando-me, de leve, a direção em que se encontrava Cássio, que

neste momento parecia concentrado.

— Ele já está passando a sugestão para os espíritos de nossa

comunidade — falou Ernesto. — Em breve isto aqui se transformará

numa espécie de canteiro de obras do mundo espiritual. Voltaremos

mais tarde, Ângelo, e você, com certeza, terá oportunidade de fazer

suas anotações e satisfazer sua curiosidade de repórter e escritor.

Ernesto parecia adivinhar os meus pensamentos. Será que eu não

conseguiria esconder destes dois companheiros o que pensava?

Fiquei sem resposta dessa vez, pois Cássio veio até nós,

convidando-nos a partir imediatamente atrás das entidades

infelizes. Antes, porém, Ernesto localizou uma espécie de rastro

magnético das entidades. Segundo ele me explicou, é aquilo que na

Terra os cientistas chamariam de "radiação de fundo". Todo espírito

imprime no ambiente em que se encontra a carga magnética de que

é portador. Os fluidos são facilmente impressionáveis e se moldam

com extrema plasticidade ao teor energético de cada ser pensante.

Neste caso particularmente, as entidades sombrias haviam deixado

atrás de si um rastro de energia, de magnetismo, como se suas auras

tivessem impregnado o ambiente ao redor.

Seguimos os três pela região inóspita e sombria do plano extrafísico,

atravessando pântanos e, às vezes, desertos que se erguiam naquela

paisagem árida desta outra dimensão da vida. Estávamos na região

que nossos irmãos espíritas chamam de umbral. Para nós,

entretanto, não importam os nomes que os encarnados possam dar

a esses lugares ou situações que muitas vezes defrontamos do lado

de cá da vida. Nossa tarefa é trabalhar e servir, independentemente

do vocabulário desta ou daquela religião ou das definições de

espíritos e de homens.

Transpusemos o imenso deserto, quando avistamos ao longe uma

elevação, para onde nos conduzia o rastro magnético dos espíritos

que perseguiam Joana. Ernesto alertou quanto à necessidade de

mantermos o pensamento elevado em oração, rogando o auxílio do

Alto. Não sabíamos o que iríamos encontrar. Aproximamo-nos da

elevação, e pude notar que naquele lugar a paisagem não era a

mesma de antes. Árvores ressequidas se erguiam aqui e acolá, em

meio a montes de pedras que se espalhavam pelo local, formando

um ambiente desolado e triste. Havia muitos espíritos reunidos,

como se estivessem recebendo ordens de seu chefe espiritual.

Aproximamo-nos lentamente, e pude ver como, um a um, os

espíritos foram se retirando, até que apenas um ficou, embora

assustado e sem entender nada. Os outros o haviam abandonado na

paisagem lúgubre. Estava só, mas sabia que algo diferente estava

acontecendo. Ameaçou sair correndo, mas Cássio interferiu,

estendendo a mão direita em sua direção. Uma espécie de barreira

magnética impediu que a entidade pudesse se retirar. Cássio então

falou:


— Este companheiro é o responsável pela perseguição à nossa

Joana. Os outros espíritos são apenas serviçais que obedecem às

ordens dele. Vejamos o que podemos realizar.

O espírito não podia nos ver, mas sabia que algo diferente estava

por acontecer. Sentia com todas as forças de sua alma. Cássio foi se

aproximando devagar, com as mãos estendidas em direção ao

espírito.

—Quem está aí? São os filhos do Cordeiro? Miseráveis! Não adianta

interferir, ela não escapará de minhas mãos. Ela é minha, minha.

Não importa se usam a força de vocês, ela sempre me pertencerá.

—Calma, companheiro, calma! — falava Cássio, mesmo sabendo

que a infeliz entidade não poderia ouvi-lo.

O ódio que a dominava colocara-a em dimensão diferente da nossa.

Embora estivéssemos todos na condição de desencarnados, nossa

situação era diferente. Ele, o espírito perseguidor, por seus atos e

pensamentos estava vibratoriamente distante de nós. Cássio poderia

ter influência sobre ele. Sua condição moral dava-lhe certa

ascendência sobre o espírito infeliz. Mas só aos poucos a entidade

poderia ser influenciada e, quem sabe, voltaria à razão,

reconhecendo o erro em que se encontrava. Ernesto e eu, atentos,

auxiliávamos através da oração. A paisagem extrafísica na qual nos

encontrávamos parecia transformar-se lentamente. O espírito

perseguidor revivia seus sentimentos com intensidade, não

conseguindo disfarçar seu rancor e seu ódio contra Joana. Curioso,

fiquei imaginando o que estaria por trás de toda essa perseguição.

Eu não conseguia entender a razão de tanto ódio, da perseguição e

desse processo obsessivo tão intenso.

— As causas se encontram no passado, Ângelo — falou Ernesto. —

Somente nas experiências do passado espiritual, arquivadas na

memória do espírito, encontraremos a história viva de tantos

desafetos e desamores. Observemos o que acontece.

Com a aproximação de Cássio, o espírito, que antes parecia tão

imponente, orgulhoso e desejando vingança, ameaçava ruir sobre si

mesmo. Abatia-se lentamente. Eu presenciava a transformação lenta

da entidade e via que, do coração de Cássio, intensa luz dourada e

azulínea irradiava-se ao encontro da entidade. O espírito tentava

libertar-se da influência superior, mas era impotente para isso. Aos

poucos foi assumindo uma posição diferente. Parecia uma criança

medrosa, encolhida perto de uma árvore raquítica. Sua mente

parecia delirar ante a influência amiga de Cássio.

— Ele revê seu passado. Observemos — falou novamente o

instrutor Ernesto.

Aproximei-me de Cássio e da entidade. Eu nunca vira algo assim,

como estava acontecendo com aquele espírito. A simples presença

de Cássio parecia haver afetado a memória espiritual do espírito

sofredor. O que se passava por dentro dele naquele momento? O

que estaria pensando, ou melhor, quais as imagens e qual história se

passava na intimidade daquele ser? Como eu gostaria de saber...

Quem sabe assim não poderia entender melhor essa estranha

perseguição espiritual, o envolvimento de Joana com as drogas

durante tantos anos?

9

Recordações do passado



Mas mesmo no negação eu

o buscava. Eu procurava pelo Pai.

Miseráveis, malditos filhos do Cordeiro. Eu me vingarei, juro que

me vingarei!

Minha mente vagava pela escuridão. Era estranho. Enquanto aquele

homem estendia a mão sobre mim, luz intensa vinha em minha

direção. Eu jamais vira algo assim. Ou será que apenas não me

lembrava? Não sei dizer direito. Mas era estranho tudo isso.

Enquanto a luz de seu peito se refletia sobre mim, eu mesmo, em

meu interior, me sentia na escuridão. Trevas, somente trevas, nada

mais! Aos poucos uma lenta percepção de algo que se definia

vagamente foi se esboçando em minha mente. Essa percepção de

coisas e lugares, de vidas e experiências, sensações e emoções,

parecia emergir da escuridão de minha alma.

Percebo movimentos. Movimentos incessantes. Tudo em mim

parece explodir de dentro para fora. Reconheço vozes, cantos,

encantos... Sinto as mãos suadas e a roupa poeirenta. Ouço algo,

como se fosse uma roda de carroça rangendo; algo balançando, sem

cessar. As vozes se definem, o balanço torna-se real, o tempo se

curva sobre si mesmo e me vejo. Como sou bonito! Vejo aquela

gente toda, as carroças, as crianças, os velhos e os jovens. Todos eles

eu os vejo. Tudo se movimenta, e não sonho mais, eu vivo; eu revejo

cada um daqueles rostos e os reconheço. A poeira sobe alto,

envolvendo as carroças e os cavalos, que, com tanta sede, parece

que a qualquer momento irão desmaiar.

— Jessé! Jessé! Pare a carruagem, pare imediatamente!

Eu já sabia. Meu nome era Jessé. Assim me chamavam, assim eu

respondia. A voz que me chamava era de outro rapaz. O nome

dele? Ah! Agora sim. Agora tudo clareava para mim.

—O que houve, David? Vamos, fale logo, homem! Por Deus, não

podemos parar aqui, no meio deste deserto ingrato... Os cavalos têm

sede, as mulheres e as crianças clamam por água, e os nossos

homens, todos eles já estão cansados e desanimados. Temos de

encontrar um lugar seguro...

—Pare, Jessé, pare todas as carroças e animais. Precisamos nos

reunir em círculo imediatamente.

—O que está acontecendo, rapaz? Parece que estamos sob ataque?

David era um rapaz alto e magro. Meu primo. Assim veio a

lembrança em minha mente. Ah! Como eu amava

David. Para mim ele era mais do que meu primo. Era o irmão que

eu não tivera. Juntos, convencemos a família a sair daquele local de

intrigas, de guerras, de traições. Sim, isso mesmo. Jerusalém se

transformara num monte de intrigas. As cidades de Judá já não nos

interessavam mais.

Reunimos toda a família. Débora e sua família vinham conosco. Eu

era solteiro. Era judeu nascido na Macedónia. Aos 12 anos viera com

a família para Jerusalém. Mas os tempos eram difíceis. Havia

intrigas por toda parte. Os sacerdotes tentavam de tudo para se

manterem no poder e, para conservá-lo em suas mãos, não

pensavam duas vezes. Matavam, saqueavam e roubavam. Famílias

inteiras eram vítimas de suas mentiras.

Foi nesse clima que meu pai, o velho Ozias, nos trouxe de volta a

Jerusalém. Mas a desgraça logo se abateu sobre nossa família. Nossa

casa, localizada na parte alta da cidade, era causa de inveja a muitos

judeus e aos sacerdotes levitas. Desejavam despojar meu pai de seus

bens, mas não encontravam ocasião propícia. Foi há pouco tempo

que Tito, o general romano, havia invadido a cidade e destruído o

sagrado templo. Tudo era tumulto. Mas, mesmo assim, meu pai

queria voltar a Jerusalém e morar na cidade sagrada. Agora, porém,

nem tão sagrada assim. Degradada seria a palavra correta. Tito

passara e despedaçara tudo. Mas justamente aí é que os sacerdotes

tentavam se aproveitar da situação para se firmar no poder.

Há algum tempo, diziam, um homem estranho viera da Galileia.

Diziam que ele era profeta e havia profetizado o fim do templo e

também havia falado do final dos tempos. Mas ninguém parecia se

preocupar com ele; afinal, da Galileia não vinha nada de bom. Era

uma região desprestigiada. Pobres, miseráveis, mendigos, corruptos

e ladrões. Era terra sem valor. Só que os sacerdotes não contaram

com o fato de que o Galileu tivesse tanto poder assim sobre o povo,

sobre a multidão. Estranho poder, o dele. Se dizia o filho de Deus, o

rei dos judeus. Ele morreu, diziam. Mas diziam também, os seus

seguidores, que ele ressuscitara dos mortos. E o pior de tudo é que

por toda parte se viam grupos de seus seguidores. Essa foi a nossa

ruína; foi a ruína de nossa família. Dizem que, na época da

destruição do templo, os seguidores do Galileu conspiraram,

tirando muita gente da cidade santa. Partiram aos montes, em caravanas.

Mas depois voltaram. Estavam por aí falando de lendas,

milagres e encantos. Parece que toda a Jerusalém estava se

rendendo às histórias dos pescadores, dos seguidores do Galileu.

Minha mãe foi uma das que se renderam à estranha influência dos

seguidores do Galileu. O velho Ozias revoltou-se. Eu me revoltei.

Não foi somente porque minha mãe se convertera, não. Era bem

mais profunda a minha dor, a minha raiva. Eu não sabia a quem

odiar mais. Se aquela gentinha cheia de histórias de milagreiros ou a

Miriam. Fora ela o instrumento da nossa desgraça, principalmente

da minha, da minha desgraça.

Eu conheci Miriam logo que chegamos a Jerusalém. Ela era bela,

orgulhosa, uma menina-mulher. Eu, apenas um garoto, mal

entrando na mocidade, mas literalmente encantado pelos trejeitos

de Miriam. Com o passar dos anos, o encanto de adolescente se

transformou no desejo do jovem, do homem. E Miriam mantinha-se

distante, provocando-me. Eu estava rendido pelos encantos e pelas

curvas do seu corpo de mulher. As mulheres sempre me

fascinaram. Mas Miriam guardava algo especial e tocava-me de

forma também especial.

Mas ela era como uma gazela arisca. Orgulhosa como ela só e

desejosa de fazer fortuna, de fama.

—Ora, Jessé, você não poderá me oferecer aquilo que eu mais desejo

neste mundo.

—Fale-me, Miriam, fale-me o que deseja e lhe darei o mundo.

Qualquer coisa que desejar.

—Seu bobo, você não consegue imaginar o que se passa na cabeça

de uma mulher como eu. Jerusalém está acabada, saqueada,

destruída. Não desejo mais nada daqui. Desejo Roma. Isso mesmo,

meu destino é a corte de César...

—Mas, Miriam, por que não nos casamos e nos tornamos felizes ao

lado um do outro, conforme as tradições do nosso povo?

—Idiota! Eu não nasci para isso. Quero o mundo, não a tradição.

Desejo o ouro, e não a Torá. Vejo-me em Roma, e não nos pátios

destruídos do templo. Sou nascida para mandar nos homens, e não

para me submeter a eles.

Miriam estava louca pelo poder, pelo dinheiro, pelo ouro. E eu,

pobre coitado, poderia ter aos meus pés qualquer mulher, qualquer

uma, menos Miriam. Eu era alto, belo, com os cabelos acobreados.

Herdara de meus avós, nascidos na Iduméia, os olhos azuis que

fascinavam as mulheres de todo lugar. Mas eu mesmo, miserável de

mim... estava fascinado pelos encantos de Miriam. Mas ela era dada

às intrigas dos sacerdotes; queria tirar partido de tudo.

Minha velha mãe, conhecida como Adab, era nascida em Filipos.

Embora judia, não esperava muita coisa do povo judeu. Era uma

visionária. Coitada da velha Adab. Esperava um mundo novo, um

novo sistema de coisas, e foi exatamente esse tipo de pensamento

que a perdeu. Desejava um mundo diferente; conforme ela dizia, os

judeus e suas crenças já não a satisfaziam. Queria algo novo,

diferente. Foi assim que minha mãe, a velha Adab, preparou-se

intimamente para aceitar as crenças dos seguidores do Galileu.

Certo dia, quando ela se dirigia ao mercado da cidade, ouviu um

daqueles convertidos falar de suas crenças. A velha Adab, minha

mãe, curiosa como todas as mulheres, se deixou arrastar pela

multidão e foi-se entre os novos conversos. Junto com ela se foram

os nossos dias de sossego. A velha Adab deixara-se conquistar por

aquelas idéias loucas, absurdas, histórias de pescadores e

pecadores.

Uma perseguição sem igual se abateu sobre os seguidores do

Galileu. Não sei que poder tinha aquele homem que, mesmo depois

de morto, a multidão seguia; aliás, seguia sua idéia, seus sonhos e

suas promessas. A perseguição aumentou, e os sacerdotes e os

príncipes do povo prometiam ouro e prata, somas principescas,

para quem entregasse os cristãos, os convertidos do Caminho.

Assim eles se chamavam.

Ozias, o meu pai, tentou todos os recursos para tirar a velha Adab

daquela loucura, mas foi em vão. Nossa família passou a viver um

pesadelo. O medo dos sacerdotes e dos romanos agora rondava a

nossa família, e tudo, tudo o que construímos ameaçava ruir devido

à nossa velha mãe e às suas crenças absurdas.

Foi aí que Miriam entrou, sendo o pivô de toda a intriga que

destruiu nossos sonhos. Tentamos esconder minha mãe até mesmo

de Miriam, mas ela era faceira, conhecia nossos mínimos

pensamentos. Diziam por aí que Miriam se envolvera com uma

bruxa, uma feiticeira da Ásia, que lhe ensinara a fazer beberagens.

Creio que foi uma dessas suas fórmulas diabólicas que ela me deu.

Eu estava louco, apaixonado por Miriam. E ela sabia disso. Sabia e

tirava o máximo proveito da situação. Assim, ela foi se insinuando

em nossa família; tentava a todo custo obter alguma informação que

lhe rendesse crédito junto aos sacerdotes e aos espiões de Roma. Foi

a minha perdição.

A nossa perdição.

Embriagado pela visão da mulher de meus sonhos, troquei o

segredo de nossa família, a conversão da velha Adab, minha mãe,

por alguns momentos de amor, entre as sedas e os perfumes de

Miriam. Ela viu aí a oportunidade que tanto desejara. Não pensou

muito e entregou a velha Adab para o Sumo Sacerdote e os

dignitários romanos. Foi a desgraça. Adab foi capturada, nossos

bens confiscados, e, após uma semana de torturas intensas, a velha

Adab fechou os olhos para sempre. Vimos nossos castelos de sonhos

desmoronar. Ozias, o meu pai, parecia enlouquecer. Tanto ele como

meus tios foram presos pela guarda dos sacerdotes.

Fugi feito louco, mas não queria acreditar que Miriam fosse a causa

de nossa miséria. Ela me encontrou junto com David, o meu primo,

e mais uma vez me rendi aos seus encantos. Prometendo ajuda, ela

me fez revelar o paradeiro do resto da família, que se escondera

numa das aldeias da Samaria. Tarde eu acordei para a desgraça. Miriam

entregou a todos, e fui obrigado a fugir com David para terras

distantes. Foi somente graças à reputação de meu pai e a algumas

amizades que fizera que ele escapou de ser morto. Com muito jeito

ele conseguiu fugir, e nos juntamos, toda a família, numa caravana

que partia rumo a outras terras.

Dentro de mim ficou a marca registrada de meu encontro com

Miriam. A traição, a revolta, a paixão, a dor e o ódio, misturados

num sentimento inominável. Este sou eu, o filho da miséria e da

dor...

À medida que o elevado mentor estendia suas mãos sobre a cabeça



da entidade revoltada e aflita, a memória espiritual parecia trazer à

tona o extrato de suas experiências pretéritas. O fenômeno era

natural, e, ao que me parecia, a presença de Cássio ao lado de Jessé,

o perseguidor de Joana, ajudava a despertar as mais recônditas

lembranças do espírito obsessor.

Eu a vi novamente, por diversas vezes nos encontramos em outras

ocasiões. Muitas e muitas vezes cruzamos nossos passos nas

estradas da vida. Miriam retornou, e eu também.

Ela foi a cigana maldita que me conquistou o coração e destruiu

logo após a minha vida. Sim! Isso foi depois, muito depois, lá na

Boêmia. Mais tarde ela retornou à Terra na pessoa de Elácides, na

antiga Bretanha, e eu novamente me vi seduzido pelos seus

encantos e deixei-me arrastar pelos olhos cor de mel daquela que

tantas vezes foi a minha ruína.

E mesmo aí, com tantas dores e sofrimentos, vi-me rodeado pelo

carinho de Adab, que também me acompanhava nesta jornada

secular. Ora minha mãe, ora amiga e companheira de tormentos,

Adab era a única esperança para meu infortunado coração sofredor.

Mas há muito tempo que eu não via Adab. Aliás, desde que o ódio

se instalou definitivamente dentro de mim. Desde que eu reconheci

Miriam, Elácides, Palmira e Lucrécia, escondidas todas elas na

roupa desgraçada de Joana. Ela pensava que iria se esconder de

mim. Não mesmo!

Não adianta ela se disfarçar de Joana, pois agora serei eu o autor da

desgraça dela.

Contratei outros espíritos para se aliarem a mim, em meu desejo de

vingança. Prometi a eles a própria Joana. Eu mesmo a entregarei em

suas mãos, para extraírem dela a última gota de seus fluidos; para

que suguem as últimas reservas de energia que lhe restem. Eu

apenas assistirei, rindo gostosamente de sua miséria, e ela verá, ela

sentirá na pele a própria infelicidade da qual me viu lamentar por

tanto tempo...

Cássio aproximava-se cada vez mais do companheiro cego de

vingança. Em determinado momento se deteve, retirou suas mãos

de sobre a cabeça do espírito vingador, como se interrompendo as

lembranças do passado que eclodiam na mente da entidade

perseguidora, e orou.

Neste momento presenciei algo que era um misto de divino e

maravilhoso. Cássio transubstanciava-se ante nossa presença. E

mais: enquanto acontecia o fenômeno, quando

Cássio orava, o espírito perseguidor de Joana caía ao solo, afetado

pela visão que se fazia presente ao seu lado.

Cássio parecia diluir-se em névoas luminosas e evaporar-se em

meio às cintilações de estrelas que provinham de sua alma já

experimentada.

As feições de Cássio foram aos poucos se modificando ante a nossa

visão espiritual. Assumia agora a forma feminina; uma mulher que

aparentava mais ou menos 50 anos de idade, igualmente envolvida

em intensa luz. As vestes lembravam as vestimentas simples dos

tempos recuados da Judeia. Sobre a cabeça, um manto cobria-lhe

agora os cabelos esbranquiçados, e os olhos refletiam talvez a tranqüilidade

das águas do Jordão. Era Adab, a velha Adab das

recordações do companheiro infeliz.

— Meu filho, por que tanto ódio e sentimento de vingança em teu

coração? — começou a falar Cássio, sob a aparência da velha judia.

— Não posso acreditar, meu filho, que dentro de ti possa ter se

instalado tanto ódio, quando já vivemos juntos tantos momentos de

amor...


Enquanto Adab falava, achegando-se ao perseguidor de Joana, o

espírito revoltado perdia as forças, vencido pela manifestação de

amor. Parecia-me que o obsessor deixara-se cair nos braços de

Adab, que agora o aconchegava ao colo, como uma mãe prestimosa.

Lágrimas desciam do rosto de Adab, que segurava o espírito entre

seus braços, com imensa demonstração de carinho.

Era a vitória do amor sobre o ódio, da luz sobre as trevas.

Adab prosseguiu:

— Filho amado, venho acompanhando teus passos e abrigando-te

em meu coração por longo tempo. Sei que não podes me ver, meu

filho, mas com certeza poderás sentir minha presença acariciando-te

como a brisa que um dia soprou sobre nós nas terras abençoadas de

nosso povo.

"Não compensa o ódio, meu filho. Quando fazes alguém sofrer,

igualmente sofres e projetas a dor sobre outras pessoas que são

queridas por ti.

"Vês a Joana? A nossa Joana? Eu a abriguei em meus braços como

filha querida, nesta última existência em que ela sofre a tua

perseguição. Mudei apenas de corpo, meu filho, mas continuo por

dentro a mesma alma feminina que um dia aprendeste a amar como

a tua velha mãe Adab. Vês a mãe de Joana, que sofre junto à filha

perseguida pelo teu ódio? Na certa não podes ainda identificar em

Altina o teu amigo David, reencarnado com a missão de mãe, que

tenta recuperar a nossa Joana. Detém-te, meu filho. Não prossigas

forjando mais dor para o teu destino. Na Terra e fora dela somos

todos inocentes perante a lei divina, e nenhum sentimento de culpa

nos é imputado pela divina bondade de Deus.

"Somos nós mesmos os nossos verdugos. Deus não nos condena,

meu filho. Tanto Joana como nós somos ainda crianças espirituais,

que, errando, tentamos acertar os passos nos caminhos que nos

levam ao Pai."

Adab prosseguia falando ao coração do espírito, tocan-do-lhe com

profundidade a alma doente. Ao nosso redor, o ambiente espiritual

parecia refletir o sentimento elevado do momento. Presenciei um

fato extraordinário naquele local. À medida que Adab ia falando ao

coração de seu filho, os fluidos da paisagem espiritual na qual nos

encontrávamos iam se modificando e transformando-se lentamente

num ambiente mais agradável. Flores perfumosas surgiam aqui e ali

como fruto dos sentimentos de Adab, que se irradiavam por toda

parte.


Ernesto, observando a minha curiosidade, esclareceu-me:

— Cada espírito forja em torno de si o próprio inferno ou cria o seu

céu de conformidade com seus sentimentos e com a vibração de sua

alma. Como o perseguidor de Joana se demorava em pensamentos

de vingança, alimentados por sentimentos e emoções

descontroladas, os fluidos à sua volta plasmaram o ambiente

desolado que vimos anteriormente. Cássio, ou melhor, Adab,

revivendo os pensamentos de amor em relação ao filho querido,

anulou a força mental inferior que modelou o ambiente astralino, e,

através da ideoplastia, do magnetismo superior de seu espírito,

presenciamos a transformação lenta da paisagem espiritual à nossa

volta.


— Então, o companheiro Cássio é na verdade a mesma Adab da

antiga Judéia, que reencarnou como o pai de Joana?

— Sim, perfeitamente. E não estranhe, Ângelo, pelo fato de um

espírito que antes se revestiu de um corpo físico de determinado

sexo apresentar-se em próxima encarnação em outro corpo, com

sexo diferente. A questão da escolha do sexo relaciona-se às

necessidades evolutivas do espírito. Havendo necessidade, o

espírito troca de sexo em reencarnações futuras, de acordo com as

experiências pelas quais tenha de passar. Como vê neste caso,

David, o companheiro do perseguidor de Joana, da época recuada

da Judéia, renasce agora como Altina Gomides, e a velha Adab, que

no passado foi a mãe do infeliz companheiro e vítima das intrigas e

falsidades de Miriam, retorna ao palco das experiências físicas como

Cássio. Juntos abrigam no coração o espírito endividado de Miriam,

que também foi, em outra encarnação, Efigênia, a filha de

Henriqueta, e ambos faziam parte de minha família.

"Como pode observar, David, conforme as recordações do

perseguidor desencarnado, não assumiu o corpo feminino apenas

uma vez. Antes que ele fosse Altina Gomides, vivemos juntos no

passado, quando ele assumiu a forma de Henriqueta. Miriam, por

sua vez, foi a minha irmã querida nessa existência a que me referi,

assumindo o nome de Efigênia."

—E você, então, nesta história toda...

—Eu sou a reencarnação do antigo marido de Adab, o velho Ozias;

no passado distante, tive a felicidade de ser o pai de Jessé, o atual

perseguidor de Joana. A história se fechou. Encontramo-nos juntos

novamente após tantos séculos de lutas e sofrimentos. Entre nós,

Cássio foi o que mais soube aproveitar as oportunidades que a vida

nos concedeu, e hoje é o que reúne mais condições de auxiliar Joana.

Fiquei perplexo diante de tudo o que ouvia. Imaginei como a

história de nossas vidas se interligava por fios invisíveis que, ao

longo do tempo, iriam se definindo nas experiências que

deveríamos vivenciar.

O instrutor Ernesto convidou-me a silenciar e contribuir para que o

momento que vivíamos pudesse ser aproveitado ao máximo.

Adab, ou Cássio, continuou falando baixinho, enquanto Jessé, o

perseguidor de Joana, jazia abatido sobre os braços da veneranda

entidade. Não havia como resistir à força do amor. O ódio de Jessé

contra Miriam. Joana não resistia tanto assim que pudesse se opor

ao magnetismo amoroso de Adab.

Embora o espírito perseguidor não pudesse registrar a nossa

presença, e principalmente a presença de Adab, ele registrava os

sentimentos, enquanto os pensamentos de Adab eram recebidos em

forma de intuição.

— Mãe, minha mãe... Socorre-me, pelo amor de Deus...

Jessé, o perseguidor de Joana, não mais podia resistir. A força do

amor vencera suas últimas resistências.

— Socorre-me, pelo amor de Deus...

Os gritos e soluços do companheiro infeliz sensibilizaram a nossa

alma ao máximo. Lágrimas desciam de nossos olhos quando vi

Ernesto se aproximar de Adab, auxiliando-a mais intensamente na

tarefa de resgate daquela alma equivocada.

Com passes magnéticos, Ernesto fez com que o espírito

adormecesse nos braços de Adab. As lágrimas desciam dos olhos de

ambos. Para mim, que observava o desfecho daquela história, as

lágrimas daqueles espíritos assemelhavam-se a orvalhos de luz que

suavizavam as dores daquela alma rebelde.

Não tive como conter as emoções de minha alma. A paisagem

espiritual diluía-se em luz enquanto Adab retomava a forma

espiritual de Cássio, dando por encerrada aquela etapa da história

daquelas vidas.

10


A visita de Paulo

Comecei o entender que,

em todo aquele tempo

aparentemente perdido,

apenas procurava pelas pegadas de Jesus.

Os dias passaram velozes sobre esses acontecimentos. Encontramos

novamente a pupila de Ernesto, a mãe de Joana, entretida entre os

cânticos de louvor e os afazeres domésticos.

Altina Gomides dedicava-se às tarefas do lar, mas conservava a

imagem da filha impressa na memória. Como mãe, não podia

ignorar a situação de urgência em que se encontrava a sua Joana.

Sofria calada, mas esperançosa. Afinal, na igreja que freqüentava, o

pastor convocara uma equipe de fiéis que se reuniam

constantemente em oração. Faziam uma vigília, uma noite toda de

leituras da Bíblia, cânticos de hinos e salmos, dedicada à recuperação

de Joana.

Entretanto, Altina permanecia com algumas preocupações próprias

de mãe, acrescidas de algumas dúvidas a respeito dos recursos

oferecidos por amigos para a recuperação da filha.

— Ah! Meu Pai amado, não sei se fiz bem em aceitar a ajuda do Seu

Paulo e do Seu Anastácio. São tantas coisas na cabeça da gente que,

confesso — pensava Altina Gomides —, não sei se fiz certo

aceitando auxílio de alguém que não é evangélico. Mas também eu

não tinha nenhuma saída.

Altina justificava-se intimamente pelo fato de recorrer ao auxílio de

Anastácio e também por saber da religião de Paulo, o benfeitor de

sua filha.

— Ele é espírita! — pensava a respeito de Paulo. — Valha-me, Deus!

O sangue de Jesus tem poder! Nem sei o que é pior para mim, se é

ver minha filha sofrer ou saber que ela corre algum risco sendo

tratada numa clínica espírita. Tomara que o pastor não me pergunte

nada a respeito.

Com os pensamentos conturbados, a pobre mãe continuou seus

afazeres domésticos, cantando hinos de louvor e gratidão a Deus.

Ela não pensava assim por ser inimiga dos espíritas. Ocorre que não

tinha idéia formada a respeito do espiritismo, a não ser as

informações que lhe eram transmitidas pelos pastores e

missionários de sua pequena comunidade religiosa. Para eles, o

espiritismo era obra do demônio, e os espíritos, o próprio diabo

disfarçado.

Altina tentou ficar livre desses pensamentos e distrair-se nos

trabalhos que tinha a realizar.

Subitamente, sentiu que não estava sozinha em casa. Algo ou

alguém a espreitava. A princípio julgou que era apenas imaginação

sua, já que antes estava pensando a respeito de certas coisas

estranhas, como seja o espiritismo...

Dirigiu-se então para o pequeno quarto de dormir, quando sentiu

que alguma coisa a tocou no ombro direito. Seus cabelos se

eriçaram.

— O sangue de Jesus tem poder!

Começou a entoar hinos cada vez mais alto, tentando disfarçar o

nervosismo. Nesse clima de mistério que a envolvia, resolveu parar

com os cânticos e ler um comentário bíblico, uma passagem do

Livro Sagrado.

Fechou os olhos como que em oração e, abrindo o livro ao acaso,

deparou com o livro dos Atos dos apóstolos, no capítulo 2, quando

Pedro e os demais apóstolos recebem os dons do espírito.

Se Altina pudesse dilatar a sua visão naquele momento e penetrar a

outra realidade da vida, veria que, ao seu lado, um espírito amigo a

induzia na escolha do texto sagrado. Não era o acaso que a levara a

abrir a Bíblia exatamente naquele livro e capítulo.

Terminada a leitura do texto, Altina pronunciou sentida prece,

rogando a Deus a bênção para o seu lar.

Eis que, novamente, sentiu uma mão tocar-lhe a face suavemente,

desta vez mais lentamente. O coração da mulher disparou, a

pulsação alcançou um ritmo acelerado, e ela parecia desfalecer,

sentindo as forças a abandonarem. Continuou a orar a Deus, entre o

medo do invisível e a vontade louca de sair correndo. Conteve a

custo o grito que já se esboçava em sua boca.

A situação se suavizou um pouco, e ela alcançou maior equilíbrio.

Levantou-se e dirigiu-se à porta que levava para a rua. Ensaiou sair

de casa e, então, ouviu um sussurro atrás de si.

— Tina, minha Tina! Sou eu, o Cássio.

Altina pára como que petrificada.

Não pode ser. Cássio já morreu. O seu Cássio, o pai de Joana e

companheiro dileto do seu coração, agora repousava no paraíso,

esperando a ressurreição no dia final, quando Jesus voltasse nas

nuvens do céu.

Ela não conseguia movimentar-se direito. Suas pernas recusavam-se

a lhe obedecer. Sentiu o sangue congelar em suas veias.

Como gostaria de ver o seu Cássio. Como seria bom abraçar

novamente aquele que fora um exemplo de cristão, de marido e pai.

—Mas, assim, não! Deus me livre. Jesus me salve!

—Tina, minha Tina, não tenha medo. Sou eu...

A voz teimava em lhe falar. Agora ela tinha certeza. Só o seu Cássio

a chamava assim, de "minha Tina". Mas ele estava morto, no

paraíso...

Altina tentou virar-se lentamente, e o que viu fez com que ela

sentisse a vida abandonar o seu corpo cansado. Jamais imaginaria

que algum dia veria um espírito. E jamais pensaria que, se isso

ocorresse, seria justamente o espírito do seu querido Cássio.

Suspensa a uns 30 centímetros do chão, pairava a forma de um

homem de mais ou menos 50 anos de idade. Vestindo um terno

impecavelmente branco, trazia nas mãos um buquê de flores

pequeninas e, aberto, um livro do qual irradiava intensa luz.

—Sou o Cássio, minha Tina, estou aqui para ampará-la e inspirá-la,

em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo — falou o espírito. E, em

nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Altina desmaiou ali mesmo,

entre a manifestação de seu antigo companheiro e as últimas

palavras que conseguiu balbuciar:

—Oh! glórias, glórias, aleluia...

Havia algum tempo que Anastácio e Paulo batiam palmas,

chamando à porta da pequena casa onde morava Altina Gomides.

Chamavam em voz alta, despertando a atenção de uma vizinha, que

se mostrava curiosa quanto a tudo o que acontecia na vizinhança.

— Moço, moço! — chamava a berros a vizinha. — Se mal pergunto,

por acaso vocês querem saber da D. Altina?

E sem esperar a resposta dos visitantes, a mulher foi logo

acrescentando:

— Ela está aí, sim. Agora mesmo eu a vi cantando tão alto que

parece que queria converter o mundo inteiro. Vocês sabem, não é?

Esse povinho crente chateia a gente com essa cantoria o dia todo.

Ah! Vocês sabem da última? Dizem que Joana, aquela, a filha da

Altina... está doida! Doidinha varrida. E também que está internada

no pinel. Coitada, a mãe nem de longe liga pra ela...

— Minha senhora, por favor! — interferiu Anastácio. — Nós só

queremos falar com D. Altina, só isso.

— Ah! Eu tô reconhecendo o senhor. Tô sim.

A mulher saiu correndo de casa, segurando uma vassoura na mão

direita, e dirigiu-se a Anastácio, falando sem parar:

— O senhor é o moço lá da padaria, não é? Aposto que veio aqui

cobrar da crente o dinheiro que ela deve ao senhor.

E, virando-se para Paulo, o amigo e benfeitor da família, disse, sem

se preocupar muito com o que falava:

— Meu Deus do céu, que moço bonito é o senhor. Aposto que é um

irmão lá da igreja de D. Altina. Acertei, não é mesmo?

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