Encontro com a vida robson pinheiro



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Encontro10.09.2017
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oportunidade imperdível. Minha curiosidade era imensa, e meu

espírito de jornalista despertava. Eram mil e uma idéias a serem

estruturadas. Não tinha mais tempo a perder.

2

A caravana



€u o procurava. Mos não o encontrando

a minha volto, mais o mais eu errava, por

ruas, cominhos e atalhos.

Nossos preparativos terminaram. Exercícios de mentalização e

alguns estudos em relação à tarefa que teríamos pela frente eram,

na verdade, o que precisávamos. Uma preparação íntima. Não

poderíamos de forma alguma deixar que nossos posicionamentos

interferissem no trabalho. Eu, particularmente, era apenas um

estudante, e não seria permitido que minhas observações, se fossem

impróprias, interferissem. Deveria estar preparado intimamente.

Era intensa a movimentação de nosso lado. Muitos espíritos

queriam participar da caravana, mas outras atividades que

desempenhavam os impediam no momento. Entre as cintilações das

estrelas, partimos para o plano dos encarnados, vencendo, aos

poucos, os limites vibratórios.

Muitos companheiros julgam que, pelo fato de sermos espíritos, é

fácil ir e vir entre os dois planos da vida. Enganam-se. Enfrentamos

dificuldades que eles estão longe de imaginar. As criações mentais

dos encarnados e dos desencarnados que ainda se encontram

intimamente apegados às questões grosseiras interferem de tal

maneira em nossas atividades que muitas vezes temos que realizar

esforços imensos para anular os resultados de seus pensamentos,

antes de realizarmos alguma ação espiritual. Muitos esperam que

seus mortos venham ao seu encontro imediatamente após o

desenlace físico, ignorando as dificuldades enfrentadas por eles.

Não se preparam mentalmente, e, às vezes, suas criações mentais,

seus sentimentos e emoções descontroladas causam barreiras

difíceis de serem vencidas, pois, em nosso plano de vida, a mente é

a base de toda criação, e o sentimento dá vida e movimento às

formas fluídicas que porventura venham a ser criadas.

A mente invigilante imprime nos fluidos uma espécie de aura

pesada, com intensificação de determinada carga tóxica, causando

dificuldades para os desencarnados em suas atividades. Nesses

casos, faz-se necessária a limpeza fiuídica do ambiente extrafísico, o

que nem sempre é fácil para nós.

A imensa maioria da humanidade, desapercebida das questões

espirituais e não se importando com o controle das fontes do

pensamento, plasma constantemente formas mentais negativas. A

atmosfera psíquica da Terra é ainda muito pesada e pode dificultar

muitas de nossas atividades. Como lidamos com os fluidos, a

matéria mental e a energia, vocês podem imaginar como às vezes é

difícil vencermos as barreiras vibratórias que separam os dois

planos da vida. É preciso, de acordo com a tarefa a ser

desempenhada, realizar uma espécie de varredura, com a projeção

de fluidos em alta intensidade. Para vencermos o peso vibratório da

matéria mental criada em torno do ambiente terreno, é necessário às

vezes recorrermos a outras equipes de espíritos. Nem sempre se

consegue vencer totalmente as dificuldades.

Nossa caravana foi aos poucos se aproximando da Crosta, acima da

capital paulista. Baixamos nossa vibração perispi-ritual, vencendo

momentaneamente a barreira dimensional e tornando nossa

aparência mais opaca, a fim de podermos trabalhar nos fluidos

pesados da atmosfera terrena.

Sob o influxo do pensamento de Ernesto, volitamos em direção ao

centro da capital. A impressão que tínhamos é a de estar caindo,

embora mais lentamente, rumo ao solo do planeta. Pairávamos

como uma pluma, mas sentindo a força da gravidade influenciar,

até certo ponto, em nossa volitação. Os fluidos da atmosfera

pareciam carregados de uma fuligem, de tal maneira que pareciam

pesar em nossos corpos espirituais. Quando percebi o que acontecia,

o instrutor Ernesto convidou-me:

— Observe mais detidamente, Ângelo; veja o espaço abaixo de nós.

Agucei as minhas percepções espirituais e, quando fixei mais

detidamente o olhar, vi algo que dificilmente conseguirei descrever

com perfeição de detalhes, devido mesmo ao vocabulário pobre de

que disponho.

Abaixo de nós, sobre a cidade, além das luzes que avistávamos,

parecia que uma teia, semelhante às de aranha, se espalhava por

regiões imensas, nos bairros e em determinados pontos no centro da

capital. Era como uma malha finíssima de uma negritude

aterradora, que se entrelaçava sobre diversos lugares onde se

aglomeravam os homens.

— Observe mais — falou o amigo espiritual.

Notei que, em alguns lugares, essa coisa semelhante a malha estava

mais intensamente envolvendo certos prédios, ou até mesmo

bairros inteiros da metrópole. Em outros lugares, parecia

desprender cargas elétricas em variada intensidade. Outras vezes

desprendia algo parecendo algum gás, que era absorvido por

desencarnados e mesmo pelos encarnados.

Relâmpagos ou cintilações de energia se faziam perceber,

transmitindo-se através dos fios tenuíssimos da rede fluídica. Em

alguns lugares, parecia que a malha se entrelaçava em construções

também fluídicas, naturalmente imperceptíveis para os encarnados.

Essas construções fluídicas se justapunham às construções do plano

físico.

Boquiaberto, ouvi a explicação do nosso mentor:

— Essa rede de fluidos ou de energia é o resultado da criação

mental de entidades trevosas, que a alimentam com as criações

infelizes de encarnados e desencarnados em desequilíbrio. Forma-se

uma espécie de cúpula energética sobre as construções dos nossos

irmãos encarnados, a qual envolve, como vê, bairros inteiros.

Conhecemos casos em que toda a cidade se encontra envolvida com

tais criações.

"Homens invigilantes muitas vezes contribuem com as mentes

desequilibradas de entidades das trevas, que se utilizam dos fluidos

densos criados pelos encarnados. A malha fluídica, invisível aos

olhos físicos, funciona como uma espécie de campo psíquico.

Sugando as reservas de energias das pessoas, essa rede faz com que

sejam envolvidas nas próprias criações mentais, como se vivessem

numa estufa, em que os clichês criados pelos pensamentos

desequilibrados ganham vida própria. Sua localização corresponde

às regiões onde os espíritos comprometidos com o mal se reúnem

com mais freqüência; onde o vício e a violência dominam; onde seus

habitantes se sintonizam mais intensamente com propósitos menos

elevados."

—Mas os desencarnados mais esclarecidos não podem retirar a tal

rede de energia mental, livrando os homens de sua influência

destrutiva? — aventurei-me a perguntar.

—Como podemos interferir no livre-arbítrio dos homens? —

respondeu Ernesto. — Depende da postura mental de cada um a

espécie de ajuda que obterão. Com certeza detemos possibilidades

de retirar essa energia pesada, mas de nada adiantará, pois ela será

novamente criada e mantida pelas mentes invigilantes e infelizes.

Quase todas as metrópoles da Terra são envolvidas em malhas

como esta, pois muitas falanges de espíritos do mal, obsessores,

cientistas ou magos das trevas se utilizam de recursos semelhantes.

Aproveitam o alimento mental dos homens para nutrirem suas

criações diabólicas, tentando impedir o progresso ou mesmo

executando seus planos de vingança. Somente uma ação mais

drástica ou intensa das forças soberanas da vida poderá libertar o

homem da carga tóxica e negativa que o envolve. Naturalmente que

esses recursos são atraídos pelo próprio homem, pois os habitantes

da Terra se recusam, em sua maioria, a ouvir os apelos santificantes

do Alto. Fazem jus a processos mais intensos de aprendizado. Até

que despertem de sua letargia espiritual, continuarão vítimas de

suas próprias criações mentais inferiores.

Silenciei qualquer comentário a respeito, uma vez que precisava

meditar mais sobre o assunto.

Dirigimo-nos para determinado bairro da capital, em direção a uma

igreja protestante. Nosso objetivo era auxiliar uma companheira a

que Ernesto havia se afeiçoado em sua última existência física.

Agora, reencarnada, rogava por socorro. Participava de uma igreja

evangélica e, em suas orações sinceras, buscava o auxílio de Deus

para suas dificuldades. O companheiro espiritual que a orientava

encaminhou suas rogativas até nossa colónia, pedindo resposta

imediata. O instrutor Ernesto procurou imediatamente servir e

organizou uma caravana de auxílio. É claro que a oportunidade que

se apresentava oferecia campo para observações e estudos. Eis a

razão de minha participação nesta tarefa.

Em nossa jornada avistamos espíritos que ainda se encontravam

apegados às vibrações físicas. Permaneciam como quando

encarnados. Acreditavam que ainda pertenciam ao mundo dos

chamados vivos. Eram bandos de entidades que irradiavam, em

suas auras, cores escuras; na aparência, em tudo se assemelhavam

aos nossos irmãos encarnados. Entravam nos veículos e promoviam

uma verdadeira confusão no trânsito. Motoristas ficavam nervosos

por qualquer coisa; irritavam-se à menor contrariedade. Eram

incitados por tais espíritos, que se apegavam a eles, muitas vezes

influenciando-os mentalmente, sem saberem ao certo da sua própria

condição de desencarnados. Outras vezes, encontramos um bando

de entidades que não se preocupavam com sua situação de

ociosidade. Iam e vinham, de um lado para outro, aproximando-se

de alguns homens, sugando-lhes as energias ou absorvendo-lhes a

fumaça dos cigarros, como também os fluidos das bebidas. Eram

espíritos que se aproveitavam das circunstâncias para saciarem seus

vícios; talvez até conscientes, permaneciam apegados aos habitantes

da esfera física.

Quem observasse como nós veria duas populações: uma de homens

e outra de espíritos. Conviviam no mesmo espaço, embora em

dimensões diferentes. Era realmente estranho observar como os

encarnados não percebiam que eram literalmente atravessados ou

que atravessavam os desencarnados. Duas faces de uma mesma

vida.

Curioso, eu observava o fenômeno, quando nosso instrutor me



chamou a atenção, pois estávamos nos aproximando do templo

para o qual nos dirigíamos.

— Preste atenção, Ângelo; você não pode perder esta oportunidade

de observação. Veja o que se passa em sua volta e anote suas

impressões.

Estávamos nos aproximando da igreja evangélica. Vi que uma

quantidade imensa de espíritos ia e vinha em direção ao templo.

Fixei bem a visão e pude notar que, da construção física, partiam

fios prateados em direção à atmosfera. Em determinado momento

esses fios se cruzavam, formando um maravilhoso espetáculo de

luzes e cores, e irradiações cristalinas desprendiam-se da cúpula do

templo, caindo sobre os espíritos que se dirigiam para aquele local

de culto.

— Essas irradiações — falou Ernesto — são o reflexo das orações

dos fiéis, que sobem até certo ponto. Quando se entrelaçam com as

cintilações coloridas, é o momento em que os mentores ou

responsáveis por nossos irmãos que freqüentam o culto irradiam

seus pensamentos elevados, aumentando a sintonia e elevando o

padrão vibratório das preces. É um espetáculo de rara beleza.

—Mas como os espíritos atuam nesses agrupamentos evangélicos,

se estes consideram o espiritismo obra do demônio? Naturalmente,

para eles, os espíritos são o próprio diabo. Como trabalhar no meio

deles, sem despertar sentimentos contrários?

—Cada um tem o direito de pensar o que quiser — falou o instrutor.

— Mas convém observar que espiritismo é uma coisa e os espíritos

são outra. O primeiro é uma doutrina, nós somos individualidades.

Caso os companheiros protestantes nos tenham na conta de

demônios, isso é apenas por desconhecerem a nossa realidade. Não

o fazem por mal. Têm as suas convicções religiosas, que merecem

respeito de nossa parte; mas isso não nos impede de trabalhar pela

causa do Mestre, embora em ambiente diverso. Mas isso tudo é

apenas uma expressão da realidade com a qual convivem os

evangélicos. Entre eles, existem muitos médiuns; porém, os nomes

são outros. Denominam-se profetas e, ao fenômeno mediúnico,

chamam de dons do espírito, pois, dizem, estão batizados com o

Espírito Santo. Quando se encontram mais sensíveis e podem

vislumbrar o plano extrafísico, dizem que têm visões. Observam a

ação de algum desencarnado em vibração elevada e acreditam ver

anjos, que na verdade são mensageiros da vida. Quando presenciam

a ação nefasta de algum companheiro menos esclarecido do nosso

plano, imediatamente identificam nele o demônio. É apenas uma

questão de nome, de vocabulário. Para nós, o que importa é a tarefa

a desempenhar em nome do eterno bem. Como nos chamam ou o

que pensam a nosso respeito não nos interessa, devido ao trabalho

que temos de realizar. São irmãos nossos que, apesar de não

pensarem como nós, estão a caminho do Alto, em fase de

aprendizado que merece respeito de nossa parte.

3

A morte e o morrer



Vivi, errei e amei. Morri e renasci.

Quem está gritando?

— É a Joana, Dr. Roberto. A moça que veio do interior e parece ter

entrado em estado terminal.

Os gritos aumentaram, parecendo associados a outros gritos que

vinham lá de fora.

A enfermeira olhou para o médico e acrescentou:

—Desta vez é a mãe da Joana. Não se conforma que a filha esteja no

fim. Afinal, ela tem apenas 28 anos de idade. Tinha uma vida toda

pela frente.

—Não me parece que tivesse um futuro promissor — respondeu o

médico.


—Neste estado em que se encontra não podemos imaginar muita

coisa boa, mas ela nem sempre foi assim, não concorda? Posso falar

com a mãe dela?

—Bem, você se sinta à vontade. De minha parte, eu apenas cuido da

paciente.

A mulher estava aflita, tresloucada. A vida da filha parecia fugir a

todo vapor, e ela não sabia o que fazer. Arlinda, a enfermeira,

dirigiu-se à porta à sua frente e saiu numa ante-sala, onde a pobre

mulher estava ao lado da filha semimorta. Sobre uma maca estava o

que restava do corpo da moça, coberto com um lençol azul-claro.

A mãe, desesperada, postara-se ao lado do corpo raquítico, alisando

os cabelos da filha, que, ao que parecia, estava nos últimos

momentos de sua vida. Mesmo com o socorro de Arlinda, a pobre

mulher continuava chorando, quando o Dr. Roberto apareceu no

umbral da porta.

—Não adianta chorar, minha senhora. Daqui a pouco a senhora

estará passando mal, e, aí, serão duas pessoas a reclamarem

cuidados.

—Por favor, doutor! — falou a mãe desesperada. — É a minha única

filha, ajude-a! Não tenho ninguém mais por mim neste mundo!

Ajude-a, por favor!

—O caso dela é difícil, minha senhora. Veja o seu estado. Está com

dificuldades de respirar. Na verdade, ela só respira devido ao

aparelho. É questão de horas, o seu fim. E melhor a senhora se

acalmar.

O estado da moça era caótico. Parecia estar no estágio final. A pobre

mãe orava desesperadamente, pedindo forças ao Alto. Conforme

sua crença, rogava pelo poder do "sangue de Jesus".

— Espere — falou o médico. — Ela parece estar lutando para sair

deste estado. Vou chamar outros médicos para ajudar.

Dr. Roberto parecia animado, de repente, por uma força estranha,

desconhecida. A mãe parou imediatamente sua oração improvisada

e, ajoelhando-se a um canto do apartamento, pôs-se a orar com mais

calma, pedindo ajuda aos céus. Parecia que estranha força se

derramava sobre o ambiente. Caso pudessem ver, perceberiam

entidades luminosas que acorriam em favor da moça. Mãos

invisíveis traziam o bálsamo celeste, em resposta às rogativas da

mãe aflita.

Médicos e enfermeiros corriam de um lado para outro, tentando, a

todo custo, dar socorro à paciente. Algo acontecera com a moça, que

animava as expectativas dos médicos.

— Fique tranqüila, minha senhora — falou um dos médicos. — Nos

esforçaremos para devolver-lhe sua filha. Se acredita em Deus,

peça-lhe para usar nossas mãos. Tentaremos o que for possível.

A cena que se passava no ambiente era um verdadeiro espetáculo

de fraternidade e cooperação espiritual. As mãos invisíveis dos

mensageiros celestes se justapunham às mãos dos médicos terrenos.

Outros espíritos utilizavam-se de recursos fiuídicos, inspirando

enfermeiros e médicos a indicarem medicamentos eficazes para o

socorro imediato de Joana. A mãe, mais esperançosa, orava sem

cessar. Os anjos, como acreditava, trariam o socorro celestial e salvariam

sua filhinha das garras da morte e do inferno.

Quando foi socorrida no hospital e sua vida fora salva, já se haviam

passado 12 horas desde o momento em que ela havia injetado uma

dose mais intensa de droga. Joana havia chegado ao fundo do poço

e não podia culpar ninguém por isso, a não ser a si mesma. Não

poderia lançar a culpa em outra pessoa. Mesmo que houvesse

dividido suas experiências com a turma da pesada, não poderia

dizer que a culpa não fosse dela.

Antônio, que considerava seu companheiro, lhe iniciara nas drogas,

quando era mais jovem. Certa vez ele até tentara recuperar Joana,

mas, não encontrando forças, sucumbiu ele próprio. Outra

companheira de drogas, Verônica, estava ao lado de Joana quando

ela tomou a droga. Mas parece que fugira, escondendo-se em algum

lugar distante. Era difícil para ela, e para qualquer um, ser

encontrada perto de uma pessoa que morrera de overdose. Como

explicar para a polícia? Naturalmente, Verônica achou que Joana

havia morrido e então abandonara o seu corpo naquele lugar

nojento e imundo.

Joana teve algumas sensações enquanto esteve no hospital. Sonhos,

visões e vozes pareciam atormentar-lhe o tempo todo. Parecia que

ela mergulhara num pesadelo de algum louco e se debatia em meio

a sombras grotescas. Só não sabia que a louca era ela própria.

Parecia estar presa em um mundo totalmente diferente. Tentara

várias vezes abrir os olhos; não conseguia. Mas ela via; via os

médicos, enfermeiros, sua mãe.

Ah! A pobre mãe! Como sofria por Joana. Mas o seu raciocínio

perdia-se em meio às imagens e aos sons estranhos, vítima que era

de sua própria insanidade.

Em determinado momento o pesadelo passava, e, em lugar dele,

mergulhava num sonho diferente. Via lugares, cenas e paisagens

que passavam diante dela. Ou será que estavam dentro dela? O

certo é que Joana percebia que algo diferente acontecia. Via uma

luz, a princípio pequena e fraca; depois mais intensa. Resolveu, em

seu sonho, seguir aquela luz, e isso parecia ser a sua única

esperança, sua âncora de salvação. Esforçou-se por seguir o

estranho foco de luminosidade. Novas forças pareciam animar seu

ser. Firmou aos poucos sua vontade e seguiu a luz. Encontrou sua

mãe.

Abriu os olhos e a viu. Estava ajoelhada num canto, parecia rezar.



Joana tentou erguer-se do leito, mas estava muito fraca, não

conseguia. Via apenas, com muito esforço, a figura de sua mãe;

parecia chorar baixinho e orar, ao mesmo tempo. A luz que vira

irradiava-se dela.

Fechou os olhos novamente, naquele momento, pois lhe faltavam

forças para mantê-los abertos. Quando os abriu novamente, viu as

luzes no teto; virando-se aos poucos, percebeu em que ambiente se

encontrava.

Ao lado da cama, ou da maca, um pedestal mantinha uma espécie

de tubo que se ligava ao seu braço direito. Na ponta do tubo Joana

viu o recipiente cristalino, com um líquido dentro. Ela estava num

hospital e estava sendo medicada. Era o soro que agora entrava

pelas suas veias, tentando a recuperação de suas forças.

Sabia que algo grave havia acontecido com ela. Estava internada.

— Que coisa ridícula! — falou com voz rouca e fraca.

Esforçou-se para recordar os últimos acontecimentos de sua vida.

Estava difícil. Parecia que a droga tinha um efeito prolongado sobre

a sua mente. Era difícil até raciocinar.

Joana sentiu falta da droga. Parecia que algo a corroía por dentro

lentamente. Desejava drogar-se.

Pensou que com a última experiência morreria. Na verdade,

desejara morrer. Mas estava viva. Não sabia como, mas estava viva.

Tentou se libertar do leito, mas não conseguiu. Não tinha muita

força para tentar. Desejava ardentemente uma dose de droga. Todo

o seu corpo necessitava dela. Mas não era a hora, e nem o lugar.

Ali tinha agulhas, mas de nada serviriam. Eram apenas para

canalizar o soro até suas veias.

Joana mais uma vez tentou se mexer, mas o que conseguiu foi

apenas tirar a agulha, causando um pouco de estrago em seu braço.

O sangue gotejava da veia, molhando o lençol. Joana balbuciou um

palavrão.

Naquele momento sua velha mãe se levantou e olhou para ela

extasiada.

— Você está bem, minha filha? Você está bem? Ah! É você

mesma, minha querida. Minhas orações foram ouvidas. Obrigada,

meu Deus, muito obrigada.

Sua mãe a tocava, orando e agradecendo aos médicos, aos anjos e a

Deus, pelo retorno de Joana à vida.

Joana não tinha certeza se era realmente a vida, mas retornara para

prosseguir suas novas experiências. O tempo passou na lentidão das

horas difíceis, e transcorria tudo conforme as escolhas de cada um.

O tempo diluía-se nas horas.

Alguns meses depois, já com a saúde relativamente recuperada,

Joana dirigiu-se a um barzinho. Parece que o ambiente pesado

daquele lugar a atraía. O vício chamava-a para os seus braços. E,

junto com o vício, a prostituição. Sim, a sintonia com aquele local a

fazia chegar lentamente à mesma vida de antes. Somente uma força

maior poderia tirá-la daquele pesadelo.

— Tem que ser algo muito forte, que supere a experiência dolorosa

pela qual eu passei — pensava Joana. — Parece que desci ao mais

profundo do abismo. A morte me rejeitou, e eu retornei para novo

aprendizado. Tornei-me tão abjeta, tão mesquinha comigo mesma

que não consegui nem morrer.

Deus? Não passava pela mente de Joana nem a leve possibilidade

de sua presença ou existência. Deus não existia para Joana.

Ela queria mesmo era retornar para as ruas, para a vida, para os

"amigos" de antes. Desejava, ansiava, enlouquecia de vontade. Ela

não mudara nem um pouco.

4

Na Casa de Oroção



Fui também à igreja, mos, com uma

pedra no lugar do coração, não

me sensibilizei com as orações,

os cânticos, as pregações.

O templo estava repleto de gente naquela noite. Era uma casa

simples, mas a construção espiritual que se justapunha à do plano

físico era realmente soberba, pela paz que irradiava. Para quem

olhasse, dir-se-ia que urna moderna construção se erguia em nosso

plano sobre a casa singela que era a Casa de Oração.

Os fiéis se dirigiam todos ao seu lugar e, depois de breve

cumprimento aos irmãos de fé, ajoelhavam-se para orar. Um

silencio comovedor dominava a nave da igreja. Um certo brilho

parecia refletir de móveis e objetos, formando uma aura magnética,

irisando o ambiente de luzes com nuances indescritíveis.

Olhei para o nosso instrutor, e ele me socorreu:

— Não, Ângelo! Você não está numa casa espírita. Veja como o

clima de oração produz um ambiente calmo e de energias

balsamizantes. Este templo religioso é um dos departamentos da

grande escola de libertação das almas. Como em todas as religiões,

estes irmãos que aqui se reúnem trazem a sua contribuição para o

aperfeiçoamento da obras do bem, na implantação do reino do amor

na face da Terra.

Apontando em direção ao púlpito, local onde o pastor realizaria sua

pregação, Ernesto indicou certa senhora, de aparência simples, que

naquele momento se ajoelhava para orar. Aproximamo-nos dela, e

Ernesto deixou-se trair por uma discreta lágrima que descia de seus

olhos.

— Esta é Altina Gomides, companheira muito dileta do meu



coração. Estivemos juntos em várias encarnações, mas foi em nossa

penúltima existência que estreitamos ainda mais os laços de afeto

que unem nossas almas.

"Altina foi minha mãe na existência a que me refiro. Na época,

tínhamos sob nossa tutela um espírito, disfarçado sob o manto

familiar como irmã nossa, bem-amada.

"Nós a adotamos junto ao coração, mas ela conservava-se arredia,

não se integrando aos costumes familiares. Preferia permanecer nas

ruas, à cata de emoções mais fortes e experiências menos dignas.

Veio a desencarnar a pobrezinha, colocando-se em situação difícil.

Altina, que na época chamava-se Henriqueta, desencarnou mais

tarde, vítima de doença desconhecida. Eu segui anos depois, e nos

reencontramos deste lado de cá da vida.

"Henriqueta assumiu novo corpo físico e, no tempo devido, recebeu

nossa querida Efigênia, a alma que adotáramos como irmã, naquela

existência. Agora, como Joana, escolheu caminhos difíceis, e

Henriqueta, reencarnada como Altina, faz todos os esforços para

sua recuperação. De minha parte, tento quanto posso auxiliar essas

almas queridas, com os recursos espirituais de que disponho."

Ernesto passou as mãos nos cabelos de Altina, e esta pareceu

arrebatada a estranho êxtase, colocando-se em prece:

— Pai amado, em nome de seu filho Jesus, da sua vida e do seu

sangue derramado, venho lhe agradecer, Senhor, por ter libertado a

minha Joana das garras da morte. Mas se posso lhe pedir algo, meu

Pai, é que o Senhor tenha misericórdia de minha filha, pois, como

sabe, eu só tenho ela por mim. Salve minha Joana, meu Deus, salve-

a das mãos do demônio que se utiliza das drogas e do sexo para

prendê-la em suas garras. Socorro, meu Deus!

Luz safirina envolvia Altina naquele momento sublime, enquanto

ela recebia as vibrações de Ernesto. Era comovedora a ação da prece

sentida. Ela parecia refazer suas energias; sentia-se mais confortada.

Levantou-se da posição em que se encontrava e, as-sentando-se,

tomou a Bíblia nas mãos, enquanto Ernesto, através de intenso

magnetismo, a conduziu na leitura do salmo 23, de Davi:

[O] Senhor é o meu pastor; nada me faltam.

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a

águas tranqüilas, refrigera a minha alma.

Guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.

Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não

temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o

teu cajado me consolam.

Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus

inimigos. Unges a minha cabeça com óleo; o meu cálice

transborda.

Certamente que a bondade e o amor me seguirão todos os dias

da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para sempre.2

Com a leitura que fizera, auxiliada por Ernesto, Altina alcançou

maiores expressões de tranqüilidade. Colocara-se na posição de

receber os recursos que a espiritualidade enviaria naquela noite.

Olhei para a Bíblia que Altina conservava nas mãos e vi que o livro

sagrado parecia diluir-se em meio a estranha névoa de luz. Parecia

haver descido do céu e se materializado nas mãos da nobre senhora.

Mais uma vez Ernesto me esclareceu:

—A Bíblia, para nossos irmãos evangélicos ou protestantes,

2 As citações bíblicas foram extraídas da Bíblia de referência Thompson.

Tradução de João Ferreira de Almeida, ed. contemporânea. São Paulo: Vida, 1998,

8ª impressão.

representa a única regra de fé e prática. Para eles, a Bíblia é o livro

sagrado, a própria palavra de Deus, considerada infalível. Deixando

de lado as interpretações de nossos irmãos, eles impregnam sua

Bíblia com tanto amor e carinho que criam essa luz que você vê

envolvendo o livro. Ela é o resultado das criações mentais

superiores que nossos irmãos realizam constantemente, ao

estudarem os textos sagrados.

Mas a Bíblia tem esse significado para os espíritos também? — ousei

perguntar.

Cada um tem suas próprias idéias e merece nosso carinho e

respeito. No entanto, considerando a pergunta em relação ao

crescimento do ser espiritual e à evolução do pensamento, a Bíblia é

vista pelos espíritos superiores apenas como um livro de caráter

mediúnico, histórico e de grande importância para a educação de

milhares de seres humanos. Mas não podemos dizer que seja a

palavra de Deus.

—Então, de onde vêm essa expressão "palavra de Deus" e a crença

na infalibilidade da Bíblia?.

—Quando os irmãos chamados protestantes tiveram que lutar, no

passado, contra os abusos da Igreja, sentiram necessidade de se

apoiar em algo que lhes desse força moral para realizarem a tarefa

da Reforma. A Igreja romana, para estabelecer sua doutrina, se

baseava na revelação e na tradição dos pais da igreja. Os

protestantes passaram, então, a considerar unicamente a Bíblia como

regra de fé e de sua conduta, em oposição à Igreja. Como a

consideravam a palavra divina, daí nasceu a crença em sua

infalibilidade.

Fiquei pensando um pouco a respeito do que Ernesto me falou,

enquanto a Casa de Oração foi enchendo cada vez mais. Três

homens de terno se colocaram à frente da igreja. Um deles, de nome

Augusto, convidou os fiéis a cantar hinos de louvor e gratidão a

Deus.

— Observe agora, Ângelo! — falou Ernesto.



Coloquei todos os meus sentidos em alerta. Um velho piano

começou a tocar, dedilhado por um companheiro encarnado,

enquanto o povo acompanhava com um cântico arrebatador.

Notei que, à medida que cantavam, muita gente era socorrida por

mensageiros do nosso plano. A música fazia vibrar os fluidos

ambientes, e as energias mais densas que porventura estivessem

impregnadas nos companheiros encarnados eram dispersas na

atmosfera. A música boa e elevada funcionava como uma espécie de

passe magnético, dispersando os fluidos densos.

Uma outra coisa acontecia. Enquanto os crentes cantavam louvores,

espíritos luminosos aproveitavam a elevação dos sentimentos e

pensamentos e desligavam as entidades infelizes do campo áurico

de várias pessoas que ofereciam condições para o socorro espiritual.

Ao que me parecia, aquela era a oportunidade de realizar uma

espécie de limpeza magnética de grande intensidade. Dependendo

da música que cantavam, do hino que elevavam em agradecimento

a Deus, as vibrações da melodia desfaziam a rede de fluidos nocivos

que ligavam as entidades perturbadas a algumas de suas vítimas.

Era uma varredura espiritual.

— Os nossos irmãos não estão desamparados dos recursos

espirituais — falou Ernesto. — Todos eles recebem o auxílio de

acordo com o merecimento e a necessidade. Como vê, meu amigo,

aqui também operam as forças do bem, e não só nos centros

espíritas.

A música parou. Vinha agora o período de orações, quando um dos

presentes levantou-se e orou com o fervor característico de nossos

irmãos evangélicos:

— Glória ao nome soberano do Senhor! Oh! Glórias! A tua

bondade, Pai, nos permitiu aqui nos reunirmos em nome do teu

filho Jesus, a fim de adorar-te e reverenciar o teu nome...

A oração continuava, enquanto eu observava os presentes. Descia

do Alto uma chuva prateada de pétalas, parecendo estruturada em

pura luz. Entidades luminosas penetravam no ambiente trazendo

fluidos balsâmicos e refazendo as energias. Eu presenciava uma

reunião espírita, do lado de cá da vida, embora num templo

evangélico.

Comovia-me diante da demonstração de espiritualidade. Nunca

imaginaria que os espíritos atuassem tão diretamente dentro das

igrejas. Era uma grata surpresa poder presenciar o que se passava à

volta.


Ernesto se dirigiu ao púlpito quando o pastor Eduardo começaria

sua pregação. O nosso instrutor parou alguns segundos junto ao

missionário evangélico e, colocando as mãos sobre sua cabeça,

inspirou-lhe na pregação.

A cabeça do pastor parecia iluminar-se. A glândula pineal emitia

luzes de tonalidades variadas e mais parecia uma chama que

iluminava todo o cosmo orgânico. O córtex cerebral parecia uma

rede tênue de fios luminosos. Do bulbo raquidiano, partia um fio

dourado, ligando-o ao instrutor espiritual.

Para os nossos irmãos evangélicos o pastor recebia os dons do

Espírito Santo. Para os nossos irmãos espíritas ele estava

incorporado, utilizando-nos da expressão mais comum. O

missionário falava ligado diretamente à mente de Ernesto.

Fiquei admirado. Presenciava o intercâmbio mediúnico dentro de

uma igreja evangélica. Um pastor que falava mediunizado. Ele era

um médium de Jesus que recebia as intuições do plano maior da

vida. Naturalmente, a sua pregação, embora intuída, não

contrariava os ensinamentos de sua religião. Doutrinariamente,

pareciam suas idéias as mesmas de antes, mas, no conteúdo moral

do que falava, percebia-se a intensidade do pensamento do espírito

que o auxiliava.

A mediunidade não encontra barreiras. Qualquer que seja a religião,

a mediunidade está aí, presente nas vidas dos homens, objetivando

elevar e fazer progredir, embora muitos a utilizem com fins

diferentes daqueles para os quais foi programada. Mediunidade

funciona como uma espécie de parceria entre os encarnados e

desencarnados.

O espírito comunicante transmite a idéia, o pensamento, e o

médium, na medida de sua capacidade, reveste a idéia de seus

próprios recursos, de seu vocabulário. O cérebro perispiritual ou

espiritual é repleto de conhecimentos arquivados durante as vidas

pretéritas. No intercâmbio, o espírito toma das expressões próprias

do médium, de seus conhecimentos arquivados na memória

espiritual e reveste o seu pensamento com tais recursos,

estabelecendo a comunicação.

Para que o fenômeno aconteça, não importa qual seja a religião do

medianeiro. A atuação espiritual se faz presente. Muitas e muitas

vezes os espíritos se utilizam dos homens sem que eles ao menos o

suspeitem. Escritores, médicos, pastores, padres e oradores são

invariavelmente médiuns, inconscientes da atividade que os

espíritos exercem sobre eles.

Muitos conceitos morais e orientações de ordem superior vêm

através de oradores, das pregações de pastores e padres, sem que

eles saibam que estão trabalhando como médiuns. Da mesma

forma, muitos espíritos irresponsáveis, sem nenhum compromisso

com a verdade, se utilizam dos seres humanos, em qualquer lugar

em que se encontrem, como médiuns seus. Desse intercâmbio infeliz

nascem as intuições negativas, as idéias errôneas, os conluios tenebrosos

que dão lugar às obsessões de toda espécie. Tudo é questão

de sintonia.

O auditório estava cheio. Havia ali algumas dezenas de pessoas. Foi

quando senti que era difícil não me comover pelo entusiasmo

daqueles companheiros. O coral do templo cantou belíssimos hinos,

e os testemunhos que as pessoas deram falavam de uma única coisa:

do seu encontro com Deus através de Jesus.

O pastor Eduardo falava de Deus, de Jesus e do compromisso

espiritual dos seguidores do Mestre. Coloquei atenção no que o

pastor falava, intuído por Ernesto, o companheiro espiritual. Eram

conceitos muito elevados. Nunca imaginei que pudesse ouvir de um

pastor tanta coisa bonita e de elevado padrão vibracional. Ernesto o

envolvia completamente. As emoções afloravam em todos nós,

desencarnados e encarnados. O missionário evangélico transmitia,

sem que o suspeitasse, os pensamentos de Ernesto, um espírito.

5

A noite da alma



Droguei-me, abusei do sexo

na ânsia de encontrar a plenitude.

Em vôo. Não encontrei o Deus

que eu procurava.

Após o culto dirigimo-nos, Ernesto e eu, à residência de Altina

Gomides, acompanhando-a. Ela morava num bairro próximo e não

precisava tomar ônibus para chegar até em casa.

Antes, porém, Altina resolvera passar na padaria para fazer

algumas compras. Assim que entrou, encontrou Anastácio, dono da

pequena padaria, que foi logo puxando conversa:

—A senhora vem do culto, D. Altina?

—Venho sim, Seu Anastácio. Hoje foi uma noite de muitas bênçãos.

Qualquer dia o senhor tem que nos visitar...

—Ah! Sei! Qualquer dia, D. Altina; qualquer dia. Por acaso a

senhora tem notícias da Joana?

Altina Gomides, diante da pergunta, pareceu alertar a mente, como

se algo tivesse acontecido.

—Eu a deixei em casa e parecia-me que estava repousando...

—É que eu a vi logo ali, na esquina, junto com aquela amiga dela, a

senhora sabem quem é...

—Ai, meu Deus! Será que eu não terei sossego com esta menina?

Altina Gomides saiu feito louca, esquecendo-se das compras, à

procura da filha Joana. Acompanhamo-la rumo à rua próxima, onde

ela julgava encontrar a filha. O caso aparentava gravidade.

Joana acabara de sair de uma situação difícil e já voltava às

companhias de antes. Sensível como era às influências externas,

Joana acabaria por se entregar às mesmas experiências difíceis de

outrora.

A família era pobre, e Altina sobrevivia de uma pensão que lhe

deixara o marido, morto havia alguns anos. Além do pouco

dinheiro que recebia, fazia bicos para ganhar alguns trocados e

manter o lar, bem como pagar o aluguel da pequena casa onde

morava com Joana. Para piorar a situação, vivia no médico, com

problemas graves do coração, tendo sintomas de angina. Apesar de

tudo era uma mulher de fibra. Não desistia da vida e nem de lutar

por sua Joana.

Encontramos Joana junto à amiga, já drogada e sem forças para

movimentar-se. Junto dela, quatro entidades pareciam sugar-lhe as

reservas vitais, imantadas ao seu corpo.

Altina, num misto de desespero e dor, envolveu Joana nos braços,

chorando muito.

— Ah! Senhor da Glória! Socorre minha filha; não a deixe nas garras

do inimigo; liberte-a do demônio.

A pobre mulher chorava convulsivamente tendo a filha nos braços,

enquanto a companheira de Joana jazia deitada num canto, com

uma seringa na veia.

A um gesto de Ernesto, saí rápido em direção à padaria onde

estivemos antes. Encontrando Anastácio, logo me coloquei ao seu

lado, envolvendo-o em meus pensamentos. Anastácio pareceu

captar imediatamente meu apelo e foi saindo para a rua. Algo que

ele não sabia o que era o impulsionava a ir na mesma direção em

que vira antes Joana e a amiga.

Encontrou Altina com a filha nos braços, ambas sentadas naquele

lugar escuro e pouco freqüentado.

— Deixe-me ajudá-la, D. Altina — falou Anastácio, já se achegando

e procurando tirar Joana dos braços da mãe.

Ergueu-a com naturalidade e saiu depressa em direção à casa de

Altina, que, aflita, abriu a porta, ainda chorando. Preparou a cama

simples para que Anastácio depositasse o corpo de Joana, que

parecia desfalecida.

—É difícil, Seu Anastácio, mas tenho fé em Deus e no sangue de

Jesus que ele vai libertar a minha Joana.

—Eu acho que a única coisa que temos a fazer é rezar por ela. Bem

— falou Anastácio — vou deixá-las aqui e voltarei para socorrer a

amiga de Joana. Nem sei ainda como proceder.

— Traga-a para minha casa também, Seu Anastácio. Eu cuidarei de

ambas.

Anastácio saiu, deixando Altina com Joana, quase morta, após o uso



das drogas.

As companhias espirituais de Joana estavam tão intimamente

ligadas a ela que não podíamos, de imediato, separá-las, sem que

Joana sofresse abalos maiores. Precisávamos de tempo.

Enquanto Altina preparava um café forte para tentar reanimar a

filha, eu e Ernesto observávamos a moça, que parecia desmaiada.

Notei a solicitude de Ernesto para com a pequena família e as

lágrimas pouco disfarçadas que desciam de seus olhos.

Olhei e vi que do corpo espiritual das quatro entidades partiam fios

semelhantes a teias de aranha, de uma negritude sinistra,

envolvendo o córtex cerebral da moça. Uma das entidades parecia

absorver mais os fluidos das drogas consumidas por Joana, que

parecia, à nossa visão espiritual, mais alienada. Não encontro

palavras no vocabulário do médium para descrever a cena trágica

que eu presenciava. O espírito, demente, parecia gemer ao lado do

corpo estendido. O corpo espiritual da entidade parecia pulsar,

gotejando de suor, num processo de simbiose psíquica com a vítima

encarnada.

— Estamos diante de um processo de obsessão intenso — falou

Ernesto. Espero que consigamos realizar algo em favor de Joana.

Antes que o instrutor espiritual pudesse continuar, Anastácio

entrou com um amigo, trazendo, desfalecido, o corpo da

companheira de drogas de Joana.

A rua tinha uma linguagem toda especial, particular.

—Ei, lindona! Onde vai a esta hora?

—Na ruela. Vou ficar adoidada hoje! Numa boa!

íamos ficar as duas com a cabeça feita. Era assim que nos referíamos

à situação de drogadas. Tínhamos que conhecer a língua do povo,

das gangues, dos traficantes.

Gostávamos de nos reunir e fazer barulho. Quando dava,

utilizávamos a casa da família; no meu caso, só minha mãe, eu e

meu irmão formávamos a família. Dançávamos ao som de um rock

pesado ou fazíamos outras coisas menos confessáveis.

Quando chegava a hora dos pais chegarem em casa, limpávamos

tudo, e todo mundo ia embora para suas casas. A gente se sentia

outro na hora da festa. E depois também, quando tudo acabava,

toda aquela bagunça.

Eu tinha pouco mais de 18 anos quando fui aceita num desses

grupos de fumantes e picados, como a gente dizia na época. Nosso

grupo, quando se reunia, tinha a fama de ser o grupo mais unido e

também o mais doidão.

Com o tempo eu ganhei muita fama entre os integrantes do grupo

de viciados. Ganhei tanta fama que eles mesmos ficaram com medo

de mim. Aí, bem, aí me expulsaram da turma, e eu fiquei vagando

sozinha até encontrar a Joana.

Ela sim, era amiga. Dividia todos os babados comigo. Juntas,

formávamos a dupla do terror. Ninguém podia conosco. Tentei

mais de uma vez convencer meu irmão a cheirar e picar, ou talvez

apenas fumar um baseado, mas ele se recusava terminantemente.

Ele era careta demais. Um amorzinho. Só que ultrapassado. Não

dava para conviver com ele. Caretas! Nem de longe.

Sempre que não estávamos numa festa ou numa bagunça,

estávamos brigando ou "fazendo". Éramos viciados, embora nos

julgássemos donos da situação. A Joana então, coitada! Parecia que

depois que fora internada estava um pouco tonta. Queria desistir.

Eu não deixaria que ela se entregasse a essa caretisse. Desistir das

drogas? Jamais!

Eu acho que a mãe de Joana é a responsável por ela estar desse jeito.

Com aquela mania de rezar, ir à igreja...

Joana já não é mais a mesma de antes. Eu não sei bem o que se

passa, mas alguma coisa mudou nela. Bem, deixa pra lá.

Comecei a sentir desprezo pela minha vida. Mas também pelas

vidas de minha mãe e meu irmão. Caretões que eram.

Sempre me considerei uma solitária, mais ainda do que os outros da

nossa turma. Nunca quis me envolver com alguém. Embora eu não

sonhasse mais com o vestido branco e o casamento, considerava-me

suficientemente esperta para não me deixar envolver por alguém.

Esse negócio de amor era caretisse. Nunca amaria. Mas o que eu não

admitia era o fato de que eu também não era amada.

Ruas calçadas de ouro e dinheiro fácil: era o que diziam as cartas

que eu recebia quando estava em Bauru. Meus familiares que

moravam na capital paulista sempre enfeitavam as narrativas a

respeito da facilidade de ganhar a vida em São Paulo. E para lá nos

mudamos, a velha, o mano e eu. Papai já havia abandonado a

família há três anos.

Quando chegamos lá procurando os familiares, a situação era outra.

Foi muito difícil a adaptação nos primeiros tempos. Tivemos de ir

morar com uma tia, em um apartamento com dois quartos e,

imaginem, cinco filhos do barulho, no verdadeiro sentido da

palavra. Um dos primos tinha de dormir em cima da mesa. Era o

lugar mais confortável. Mas, mesmo assim, tivemos que nos

acostumar, até que pudéssemos alugar nosso barraco. Eram três

cômodos, e não havia muito lugar de sobra.

Nos estudos eu sempre fui um fracasso. Não queria nada de sério

na vida. Sonhava em ser famosa, sem estudo e sem trabalho.

A única fama que consegui na vida toda foi ter o meu nome

estampado em manchetes de jornais. Na parte dos crimes. "Mulher

é presa roubando joalheria." Foi só. Uma fama muito louca.

Com o tempo conheci uma turma pesada. Vieram as drogas, a

maconha e a cocaína. A heroína veio mais tarde e, com ela, a

prostituição, o prazer fácil, vulgar. Passei a roubar para sustentar o

vício. Desci! Desci muito e me atolei na lama moral. Conheci Joana e

entramos por outros babados. Não deu certo.

Hoje estou aqui, com o resultado de meus desvarios. Estou drogada,

tonta, sem fé, sem Deus. Estou simplesmente morta.

A droga foi fatal. Não voltei daquele sono, que, para mim, foi

enganador. Dormi. Apenas dormi. Com direito a intensos pesadelos

e tudo o mais.

Eu morri e não sabia o que era a vida, nem mesmo após a vida.

Minutos depois a amiga de Joana estertorava, convulsionava.

Anastácio tentou correr em busca de ajuda. Mas de nada adiantou.

A moça estava nos últimos minutos de sua existência.

Do nosso lado, duas entidades de aparência grotesca, animalizante,

sugavam-lhe as energias e pareciam tentar beber-lhe o sangue das

veias, sem conseguir alcançar seu intento. Ensaiavam rasgar as

roupas da moça ou arrancar-lhe os cabelos, num gesto tresloucado.

—Esperam o momento do desligamento definitivo de sua vítima —

falou Ernesto. — Ela lhes deu o alimento durante a vida física;

agora, esperam-na para continuarem se alimentando de suas

energias vitais.

—Procuremos libertá-la, Ernesto — falei apressado.

—Por ora não podemos realizar nada, Ângelo. Se alcançássemos

alguma melhora no quadro da moça, em breve ela retornaria à

presença de seus comparsas.

Olhando para a moça, vi que se esforçava para permanecer ligada

ao corpo físico, em cujas veias havia injetado violenta dose de

droga.

O corpo, porém, parecia querer expulsar o espírito hospedeiro, pois



demonstrava imenso desequilíbrio.

As entidades vampirizadoras pareciam se agarrar ao espírito da

infeliz mulher, puxando-a do corpo físico. Queriam arrancar o

espírito do corpo combalido, com muita violência.

—Venha, miserável! Venha, sua megera! Necessitamos de seu corpo

ou do que resta nele. Temos sede de vitalidade — falavam, aos

berros, os espíritos infelizes.

—Não podemos fazer nada para auxiliar? — perguntei ao instrutor.

—Observe, meu amigo — falou Ernesto.

Aproximando-se de Altina Gomides, o instrutor espiritual colocou-

lhe as mãos na fronte e no bulbo raquidiano, concentrando-se um

pouco.


A nobre senhora, percebendo a inspiração momentânea, falou com

Anastácio.

— Seu Anastácio, sei que o senhor tem me auxiliado muito neste

caso, mas gostaria de lhe pedir mais uma coisa, se posso me atrever

a tanto.

— Fale, D. Altina! Fale!

— É que eu gostaria de fazer uma oração, antes que alguma coisa

mais aconteça. O senhor me acompanha?

Hesitando um pouco, Anastácio cedeu ao pedido.

Abrindo sua Bíblia, Altina deparou com um salmo de Davi, o qual

dizia:

Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do



Onipotente descansará.

Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o

meu Deus, em quem confio.

Certamente ele te livrará do laço do passarinheiro, e da

peste perniciosa.

Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas

estarás seguro; a sua fidelidade será teu escudo e broquel.

Não temerás o terror noturno, nem a seta que voa de dia,

nem peste que anda na escuridão, nem a praga que destrói

ao meio-dia [SI 91:1-6].

O salmo tocou muito fundo no coração de Anastácio, e Altina

começou então a orar:

— Pai de infinita graça, em vosso nome sagrado e eterno e no nome

poderoso de Jesus, venho humildemente rogar a vossa interferência,

Senhor! Não peço por mim, que não mereço as vossas bênçãos.

Peço-lhe por estas que sofrem, por Joana em particular. Permita,

Senhor da Glória, que os teus anjos nos socorram, mas que, acima

de tudo, se faça a tua, e não a nossa vontade. Amém.

A casa humilde banhou-se de safirina luz, e as entidades perversas

sentiram o choque vibratório, demandando em retirada.

A mulher infeliz, que tinha suas energias sugadas, pareceu

imediatamente aliviada.

Ernesto aproximou-se da pobre irmã e, com passes longitudinais,

desligou-a do corpo físico, o que não foi muito fácil. A operação

demorou quase uma hora.

Observei atento o ocorrido, quando vi uma espécie de luminosidade

esvair-se do corpo da moça agonizante. Parecia uma névoa que se

erguia do corpo físico que morria. Com olhar mais atento, notei que

a espécie de vapor luminoso assumia a mesma forma do corpo

físico, como se fosse um duplo do organismo somático. Entretanto,

o corpo me parecia muito mais bonito do que a parte espiritual que

se desprendia. O espírito semiliberto trazia as marcas da loucura e

do terror estampadas em sua aparência espiritual.

Recém-liberto do corpo físico, o espírito da amiga de Joana parecia

mergulhado em intenso pesadelo. Olhos arregalados

desmesuradamente olhavam-nos, sem perceber-nos a presença ou

entender o que se passava. Estava transtornada diante da própria

realidade. Não sabia ainda que estava desencarnada.

— A oração sincera — principiou o nosso instrutor — tem um poder

que os homens estão longe de compreender. Orando, a alma coloca-

se em ligação direta com a fonte de todo o bem e amor. O coração

que se eleva atrai os recursos do Alto e entra em sintonia com o Pai.

Se todos soubessem, adquiririam o hábito de orar e vigiar as

matrizes do pensamento. Orar é falar com Deus, que sempre

responde aos seus filhos.

A lição era muito profunda. Fiquei por ali algum tempo, depois me

retirei para, eu mesmo, orar. Agradeci a Deus a oportunidade que

me concedia de aprendizado.

6

Vampirismo



Descobri que, durante todo o tempo em que

errava, em que caminhava prisioneira de

minha máscara, apenas procurava por Deus.

Após o incidente com Joana e sua amiga, uma nova etapa começava

em sua vida. A amiga desencarnara por overdose. Isso, para Joana,

foi como um choque elétrico que a fez acordar um pouco para a

realidade. Com as orações da mãe e a interferência de amigos,

Ernesto e eu conseguimos inspirar os companheiros encarnados a

procurar um tratamento mais completo para Joana. Entretanto, em

matéria de pensamento, de transmissão de nossas inspirações, os

companheiros encarnados sentem dificuldades em captar-nos a influência.

Com muita boa vontade conseguem refletir nossas idéias e

intuições, porém, muitas vezes, a essência se perde, em meio aos

pensamentos desencontrados ou pouco acostumados à disciplina.

Assim, nossa influência sobre Joana e sua mãe Altina foi

interpretada como a necessidade de internar Joana numa espécie de

clínica de recuperação de viciados. Mas o que sugeríramos não era

bem isso. Porém, tudo faríamos para auxiliar. O caso merecia o

nosso concurso.

Ernesto e eu dirigimo-nos a um núcleo espírita próximo à casa de

Joana. Lá encontramos outros companheiros espirituais que nos

auxiliariam no caso. Indicamos à equipe espiritual o local onde a

infeliz enferma residia. Auxiliaram quanto podiam, inclusive

acompanhando os familiares da amiga de Joana durante todo o

tempo em que providenciavam o sepultamento do corpo. A equipe

de espíritos amigos tudo fazia a fim de que as entidades

vampirizadoras fossem afastadas.

No velório, todos da família procuravam evitar tocar no assunto das

drogas. Tentaram esconder o fato de que a pobre criatura era

viciada e que morrera de overdose.

— Como está bonita, minha filhinha — dizia a mãe. — É um anjo de

Deus...


Chorava amargamente a mãe de Adriane, a garota que

desencarnara.

Do nosso lado, Adriane espírito parecia tresloucada, não

entendendo a situação. Tentava se apossar do corpo físico a todo

custo, mas este se recusava a obedecer-lhe o comando. A cada

elogio que os familiares lhe endereçavam, sentia um choque

vibratório intenso. Os elogios e comentários eram uma tentativa de

disfarçar a verdade, a verdadeira situação. Não significavam a

realidade dos sentimentos dos familiares, que de certa forma se

sentiam aliviados com a morte da moça.

Os parentes mais próximos de Adriane pensavam até na

tranqüilidade que teriam devido ao desencarne da criatura. Não

imaginavam que, embora os convidados não pudessem ler seus

pensamentos e sentimentos, o espírito de Adriane a tudo ouvia,

naquele momento considerado sagrado para todos.

Novamente vimos a turba de espíritos se aproximar do corpo de

Adriane. Para ela mesma, como espírito re-cém-liberto, a falange de

seres tenebrosos se parecia com demônios que disputavam seu

corpo. Desgovernada, saiu correndo porta afora, sendo seguida por

um companheiro do nosso plano.

Ernesto mais uma vez entrou em ação, auxiliado por oito entidades

que nos acompanhavam. Dispersou as últimas reservas de fluidos

vitais do antigo corpo de Adriane. Agindo assim, os espíritos

vampirizadores nada puderam fazer, saindo logo em seguida atrás

da moça.

A cena que se desdobrou à nossa visão espiritual foi aterradora. O

bando de entidades obsessoras encontrou Adriane em pleno

desequilíbrio, ao lado de uma sepultura, no cemitério onde seu

corpo estava sendo velado. O espírito, recém-liberto da roupagem

física, não tinha noção de seu verdadeiro estado. Captando as

influências perniciosas, Adriane entrou em sintonia com as

entidades infelizes, e o que vimos foi uma verdadeira fúria

demoníaca.

Os espíritos perturbados assenhorearam-se de Adriane, que se

debatia parecendo vítima de algum pesadelo. Entre palavrões e

algazarras, o espírito de Adriane foi levado pelos malfeitores

espirituais.

Ernesto indicou um espírito de nossa equipe para acompanhar o

caso, embora não pudéssemos fazer muita coisa em benefício de

Adriane. Ela escolhera o seu destino. Só mais tarde, quando a dor

do arrependimento batesse em seu coração, é que seria realmente

liberta.

— Não se preocupe, Ângelo — falou o instrutor Ernesto. — O

espírito de Adriane não estará desamparado. Um abnegado irmão

da nossa equipe estará ao seu lado constantemente, esperando o

momento em que ela desperte da letargia espiritual que a domina.

Por agora, o que podemos fazer é orar e esperar.

Observei o cemitério e vi que muitas lápides pareciam iluminadas

por estranho brilho. Eram o resultado das orações dos familiares,

que ali concentravam suas energias mentais. Endereçavam seus

recursos psíquicos e sentimentais não ao morto, ou desencarnado,

mas à própria sepultura, como se fosse um templo sagrado onde

repousava para sempre seu ente querido. Muita gente ignora a

verdadeira realidade espiritual.

Saindo do cemitério, agucei meus sentidos de repórter ao ver uma

estranha cena.

Uma mulher, vestida de um costume preto e vermelho, parecia

embriagar-se com estranha bebida, sentada sobre a própria

sepultura. Seus pés, entretanto, pareciam ser picados por milhares

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