Encontro com a vida robson pinheiro



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ROBSON PINHEIRO

ENCONTRO COM A VIDA

ENCONTRO COM A VIDA

ROBSON PINHEIRO

ENCONTRO COM A VIDAé mais do que um

romance. É a saga de várias almas em direção à descoberta de sua

felicidade. Em meio a erros e acertos, quedas e vitórias, descobrem-

se filhas da vida, muito embora, às vezes, em outros planos da vida.

Desde a fuga através das drogas, do sexo e do descompromisso até

a descoberta dos valores internos, da família, da força da fé, que se

expressa na paixão religiosa e no amor singelo de alguém que se

aprende a amar. Joana Gomides, o personagem principal dessa

saga, dessa novela da vida, aproxima-se muitíssimo de nós ao se

abrir e se mostrar humana a ponto de errar, cair e chorar pela

própria derrota. Porém, eleva-se qual pássaro de luz ao se descobrir

capaz de superar-se e de ser auxiliada pelo amor da mãe e por

amigos que a amparam. Daí em diante, a trama se desenvolve cheia

de paixão pela vida, numa história entremeada de espiritualidade e

descoberta da religiosidade interior.

***

"O SANGUE DE JESUS TEM PODER!", "Tá amarrado,



em nome de Jesus! Tá queimado!" são expressões típicas de alguns

fiéis evangélicos. Em Encontro com a vida você verá além e

presenciará acontecimentos extraordinários ocorrendo dentro e fora

das igrejas. Milagres ou não — que importa? São os espíritos ou

anjos de Deus que incorporam em pastores, inspiram médiuns e

profetas e descortinam os caminhos da espiritualidade numa

linguagem diferente. Nem queimados, nem amarrados, mas com o

poder do Evangelho de Jesus, os emissários do Alto permanecem

trabalhando onde é necessário e onde quer que a fé humana os

conclame. Em meio às drogas e ao fantasma do HIV, uma mãe cheia

de fé e um espírita sincero unem-se em prol de uma jovem que

busca encontrar-se com a vida. Em seu despertar, ela conduzirá

você por um caminho que deixa claro que as barreiras e

preconceitos não resistem à força soberana do amor.

LIVRO ORIGINALMENTE PUBLICADO SOB O

NOME "O TRANSE".

ROBSON PINHEIRO

M I N E I R O , filho de Everilda Batista, Robson Pinheiro

convive com sua mediunidade desde a infâcia. Durante a

juventude, ingressou na igreja evangélica. Anos mais tarde, após

conhecer o espiritismo, em 1979, receberia uma comunicação

mediúnica de sua mãe, através das mãos de Chico Xavier. Ela

expressava seu desejo de dar prosseguimento ao trabalho de auxílio

que realizara quando encarnada. Nasceria assim, em 1992, a

Sociedade Espírita Everilda Batista, instituição onde Robson

Pinheiro se dedica a atividades sociais e mediúnicas.

Fundador também da Casa dos Espíritos Editora, tem diversos

títulos mediúnicos publicados, todos com os direitos autorais

doados aos projetos de ação social e de divulgação espírita.

Robson Pinheiro pelo espírito Ângelo Inácio

Sumário

APRESENTAÇÃO

O encontro por Robson Pinheiro

PREFACIO

Encontro com o vida por Angelo Inácio

O livro do vida por Alex Zorthú, o Indiano

PRÓLOGO

Peregrino do tempo por Joana Gomides

CAPÍTULO 1

Novas observações

CAPÍTULO 2

R caravana

CAPITULO 3

R morte e o morrer

CAPITULO 4

Na Casa de Oração

CAPITULO 5

R noite da alma

CAPITULO 6

Vampirismo 85

CAPÍTULO 7

Pesadelo

CAPITULO 8

Terapia espiritual

CAPÍTULO 9

Recordações do passado

CAPITULO 1 0

A visita de Paulo

CAPÍTULO 11

Converso íntima

CAPÍTULO 1 2

Lágrimas

CAPÍTULO 1 3

Novo nascimento 161

CAPÍTULO 1 4

Sholom


CAPÍTULO 1 5

Dores e paixões

CAPÍTULO 1 6

Comunidade gospel 193

CAPÍTULO 1 7

A teoria do incerteza

CAPÍTULO 1 8

Preliminares

CAPÍTULO 1 9

Reencarnação e vida

CAPÍTULO 20

O passado ressurge 241

CAPÍTULO 21

Entre o aqui e o Além

CAPÍTULO 22

Nasce uma estrela

CAPÍTULO 23

Um final diferente

EPÍLOGO

Retrato de uma vida por Joana Gomides

Apresentação

O encontro

por Robson Pinheiro

“O Sangue de Jesus tem poder”

Sinto-me confortável em publicar um livro que traga em sua

temática a realidade das igrejas evangélicas. Lembro com clareza

meus dias de protestante, em Governador Valadares, região leste de

Minas Gerais. Era jovem, sonhava com meu primeiro traje, via-me

pastor da igreja à qual me dedicava de corpo e alma.

O projeto dos espíritos, contudo, era outro. O "demônio"

manifestava-se à minha vidência desde a infância, e eu convivia

com a mediunidade sem saber ao certo o que se passava.

Numa dessas tardes, na igreja, seria avaliado por um colegiado, que

aprovaria minha solicitação de ingressar na escola de formação de

pastores, no estado do Espírito Santo. Mas o Divino Espírito Santo

não estava comigo, pensava eu; e os demónios a me atormentar...

— Em nome de Jesus, você não fala! — eu, para o espí rito que me

acompanhava, após todos os esforços do pastor e do coral em

expulsar o "diabo".

— Em nome de Jesus, eu já estou falando — insistia o espírito. —

Vire para trás.

Quando ouço a instrução — daquele que, vim a saber mais tarde,

era o mentor Alex Zarthú, o Indiano —, fico chocado com o que

presencio. Pela primeira vez, vejo o espírito falando através de

minha mediunidade, e eu, impotente. Tomado de estranheza, não

me recordo do que se passou durante o transe, mas lembro-me

perfeitamente da minha imediata expulsão daquela comunidade e

da proposta espírita apresentada por esses mesmos "demônios".

Após longos anos de trabalho — esse episódio ocorreu em 1979 —,

o espírito Ângelo Inácio, que já escreveu Tambores de Angola, entre

outros, traz o romance Encontro com a vida, anteriormente editado

com o título O transe.

Ângelo é, no mundo extrafísico, um dos coordenadores do jornal

Spiritus (edição Casa dos Espíritos, fundado em 1997). Nele

apresentamos com constância textos psicografados por Ângelo, que

se auto-intitula repórter do Além. Dono de um estilo eloqüente e

vivaz, é fã de temas polêmicos e palpitantes — como todo bom

jornalista. Em Tambores de Angola, preconceito, umbanda e

espiritismo são o assunto em pauta. Agora, numa narrativa ainda

mais ousada e moderna — que deixa transparecer seu viés literário

—, drogas, juventude e prostituição marcam a vida da protagonista,

Joana Gomides. Juntamente com Altina, sua mãe, mulher

evangélica e cheia de fé, Joana vive nas páginas a seguir uma

história de amor-ação, de superação de barreiras e limites em busca

de uma vida mais plena. Mesmo tendo chegado ao fundo do poço,

não lhe faltaram amparo nem a mão amiga.

Há momentos em que Ângelo narra a história. Em outros, ele

empresta a voz narrativa à protagonista, Joana Gomides, a fim de

transmitir a intensidade do enredo com mais propriedade. Essa

transição nem sempre está objetivamente demarcada, como no

prólogo e no epílogo, porém fica patente à leitura mais atenta. É

que, ao sair do convencional, Ângelo preferiu contar com um leitor

mais participativo, disposto a perceber sutilezas às quais nem todos

estão habituados.

Encontro com a vida marcou minha vida profundamente, assim como

a dos companheiros de trabalho da Casa dos Espíritos Editora e da

Sociedade Espírita Everilda Batista, casa espírita à qual nos

vinculamos. Eles conheceram a obra ainda no prelo, antes mesmo

de nascer completamente. As chamadas "bonecas", rascunhos do

livro, são como a ultra-sonografia — nós nos esforçando por ver a

vida, o feto por detrás da imagem difusa. Quero partilhar Encontro

com a vida com vocês, no momento de dar à luz. Cuidei do pré-natal,

em parceria com a equipe Casa dos Espíritos, para que mais este

filho possa estar hoje repousando sobre suas mãos, aguardando por

você.

Prefácio



Encontro com a vida

por Ângelo Inácio

Eis-me aqui novamente. Depois da repercussão e da percussão dos

tambores de Angola1, retorno ao convívio de vocês. Sinto-me mais

leve agora. É que o instrumento mediúnico parece-me mais afinado

depois de tantos barulhos, depois do ritmo e da cadência de sons

dos tambores.

Creio que jamais me esquecerão entre os ortodoxos e os

preconceituosos. É que os tambores de Angola incomodaram as

pretensões descabidas de muitos donos da verdade.

Retorno agora bem no início de um novo século, inaugurando uma

literatura que fale de espiritismo, de espíritos, mas também de

outros filhos de Deus que não são exatamente os espíritas.

O centro das atenções agora se transfere para as igrejas, para

aqueles que se julgam salvos.

Encontro com a vida é a reportagem sobre uma vida, várias vidas.

Um relato que mostra o transe ao qual nos entregamos quando nos

distanciamos de Deus ou quando adormecemos a nossa consciência.

Retorno à ativa para falar de fé, de perseverança. Aliás, não sou tão

ortodoxo quanto a maioria dos autores desencarnados ou

encarnados que disputam um lugar no ibope espiritualista. Há

muito que aprendi a não me envolver nessas disputas por um lugar

especial nas prateleiras empoeiradas das bibliotecas de centros ou

fraternidades. Não faço pregação.

Prefiro fazer literatura, o que naturalmente não agrada àqueles que

são apegados aos discursos doutrinários.

Por isso, Encontro com a vida não é um livro doutrinário. É um relato

de vida, de experiências e de valores.

Espero, meu amigo, que você possa apreciar esse tipo de literatura.

Talvez, nas entrelinhas, possa verificar quanto Deus age, quanto

Deus fala, quanto Deus caminha nas próprias pegadas humanas.

Ou, mais ainda, não descobrirá — quem sabe? — que todos

trazemos um átomo divino pulsando em nossos corações.

Não trabalhei com o óbvio. É preciso sensibilidade e muita procura

para transcender as aparências e encontrar-se com a vida de Joana

Gomides, entrando em conexão com o espírito que se esconde atrás

das letras.

' O primeiro livro escrito pelo autor espiritual é Tambores de Angola, romance

mediúnico que fala das origens da umbanda e do espiritismo. Casa dos Espíritos

Editora, 1998; 2a edição revista e ampliada em 2006. [Nota do editor.]

O livro da vida

por Alex Zarthú, o Indiano

O tempo escoa veloz sobre os acontecimentos das vidas humanas.

Um minuto na eternidade, e foi-se toda uma existência física. Para

os humanos o período que se mede entre o berço e o túmulo é

enriquecido com o passar silencioso dos segundos e a impressão da

sucessão interminável dos eventos. Assim se passa a história da

humanidade, e é dessa mesma forma que ocorrem as experiências

individuais.

A vida humana é um livro de história em que cada página é escrita

com as emoções da dor, do sofrimento, da alegria e do prazer. Cada

novo dia e todas as experiências vividas marcam indelevelmente as

páginas de um novo capítulo nos dramas de todos nós. Mudam-se

as páginas, os dramas existenciais transformam-se ao sabor da

vontade humana. Novos capítulos são escritos diariamente mediante

acertos e desacertos que o homem imprime nas páginas vivas que

o tempo lhe proporciona escrever.

As ondas de luz, da luz imperecível, incumbem-se de tornar eternas

as diversas histórias criadas, plasmadas e vividas pela humanidade.

Registra-se cada letra, cada símbolo do alfabeto vivo de nossas

existências. Nada se perde: nem um único detalhe, nem um único

pensamento. Às vezes os próprios seres que pisam o solo do planeta

e interagem com o mundo onde vivem acabam se esquecendo dos

detalhes que, somados, formam suas histórias. Mas a luz, a luz

imaterial, astral, eterna e imutável, registra os fatos. Absolutamente

nada se passa sem que impressione eternamente os registros

sensíveis do mundo oculto. Tudo é luz. O homem é luz que se

manifesta no mundo de forma consciente; e a consciência é a

própria luz acrescida de sensibilidade, de inteligência emotiva, de

emoção inteligente ou de luminosidade mental-emotiva. Todo ser é

luz. Por isso, a história de uma vida sempre é possível de ser

revivida, reavaliada e reprogramada.

Ocorre que cada um traz em si mesmo o registro de suas

experiências transatas.

O tempo passa, abre-se o livro da vida, e as ondas de luz jorram de

suas páginas à semelhança de uma cascata viva, que nos obriga a

nos enfrentar, a realizar uma avaliação sincera de nossa conduta, de

nossos valores. Somos luz; somos luzes que orbitam em torno da luz

maior, eterna, imperecível, imortal.

Nestas páginas, Ângelo Inácio apresenta-nos de forma brilhante a

história de uma vida, ao levantar o véu da ilusão e mostrar-nos a

sensibilidade de uma estrela. A história é verdadeira, porém pode

ser a história de qualquer um de nós. É a história de uma estrela

cadente que deixou seu trono de luzes e nublou-se por um

momento em contato com o pântano, para, logo após, voltar ao

constelatório e descobrir-se pura luz, diamantífera, imperecível,

filha de Deus.

Prólogo


Peregrino, do tempo

por Joana Gomides

Fui pedra, Fui areio, talvez até fui uma

pedra bruta que tentava ser gente.

Eis que o meu espírito ouviu uma voz. Não sei por quanto tempo

durou a impressão. Não sei mesmo se foi um som ou uma projeção

dessa luz que tudo devassa, esquadrinha, aprofunda. Não sei dizer

ao certo. Não guardo a impressão do tempo. Ouvi, eis apenas o que

posso dizer.

Alguma coisa despertou dentro de mim, e vi-me na condição de

uma criança que se deixa surpreender numa de suas brincadeiras

ou estripulias. Assim foi como o meu espírito despertou com uma

voz que simplesmente me acordava, me trazia à vida, às minhas

lembranças. Alguma força irresistível me arrastava dos meus

sonhos ou pesadelos para encarar a realidade. Não tenho palavras

para descrever a imensidão daquela força moral que eu sentia me

esmagar, me arrastar, talvez até me coagir a viver, reviver e tornar

públicos os relatos de minha vida; despir-me de minha privacidade

quanto às desgraças que um dia causei a mim e, com certeza,

também a outros.

Senti-me viva novamente; desperta de um sono a que me entregara

por vontade própria, numa fuga desenfreada que eu pensava ser a

fuga da própria vida. Eu tinha vergonha da vida. E aquela voz

suave, porém firme, arrancava-me dos meus loucos pesadelos e

trazia-me de volta à realidade.

— Joana! Joana! — falava-me a voz nas profundezas de mim

mesma. — Acorda, Joana; vem novamente reviver suas lutas, suas

emoções. É preciso enfrentar-se, é preciso coragem para viver.

De onde vinha aquela voz? De quem era aquela força irresistível

que me arrastava através dos porões do tempo e fazia-me rever

cada passo de minha vida, que eu teimava em sepultar nas trevas de

minha memória? Não havia trevas, apenas luz. Uma luz que

teimava em arder e clarear por dentro de mim mesma. E aquela voz

da qual eu não podia fugir. Eu não tinha como me esconder,

tamanha a força moral de que ela se revestia. Não adiantava lutar.

Era uma força inconcebível, que eu jamais pensara existir. Talvez,

essa era a força do amor, que só agora eu estava preparada para

enfrentar. Era a força moral de quem ama.

— Eu evoco o espírito de Joana Gomides, para que retorne das

profundezas do tempo e restaure as experiências que tentou

sepultar dentro de si mesma. Eu sou a força que a arrasta das trevas

do sepulcro e lhe traz a luz da consciência.

"Eu evoco o espírito de Joana Gomides, a ovelha desgarrada, a filha

pródiga, o espírito imortal.

"Ressurja, Joana, e venha novamente à luz trazer ao mundo uma

parcela de sua vida, um capítulo de sua história. Sou eu, a luz que

dilui as trevas da inconsciência e torno minhas as suas experiências,

pois que eu as vivo juntamente com você. Eu sou a força viva que a

sustenta para que você enfrente a própria história e reviva cada ato

do drama de sua vida. Eu sou aquele de quem você não pode se

esconder. Sua mente é minha mente; seus pensamentos são meus

pensamentos. Eu albergo seu espírito na irradiação de minha alma e

o conduzo para a verdadeira ressurreição da vida..."

Eu ouvia tudo como alguém que era arrancado das sombras da

inconsciência, ou dos tormentos de um pesadelo. Eu era obrigada a

ouvir e ceder. Eu me deixava embriagar naquela luz; afinal, eu era

também uma luz.

— Volte, Joana, retorne a si mesma. Eu a evoco como se evoca a

maior força do universo, a força do amor. Eu a evoco, mas evoco

também as suas experiências, a sua memória, o rastro de eternidade

que se deixou nublar na poeira do tempo. Eu a tomo pelas mãos e a

trago em meus braços para a luz da consciência...

Eu acordei, despertei de um sono que não se mede pela duração,

mas pela profundidade. Em minha volta, apenas luzes. Uma, duas,

três, muitas, mas muitas luzes. Não conseguia ver direito diante de

tanta força que irradiava daqueles focos de luz. Era uma

constelação. E eu me diluía em pranto, deixava-me inebriar nas

ondas de amor, às quais não podia resistir. Senti vergonha, a

princípio. Mas, depois, até mesmo a vergonha se diluiu, como eu

diluía a minha alma.

O tempo parecia não existir para mim. O tempo era apenas um

átomo que se perdia no vasto campo da eternidade. Minha mente

era plenamente aceita e despertada pelas outras mentes que me

recebiam, que me chamavam. Eu já não me sentia culpada, e o

remorso pelo que fui, pelo que fiz, se transformava em um

sentimento que mesmo agora eu não saberia definir. Sei apenas que

eu pairava, opaca, fraca e bruxuleante, mas eu também era uma luz,

uma chama entre os sóis. Eu era uma filha de Deus.

As imagens de minha vida foram se passando diante de mim.

Sozinha não teria como descrevê-las. Não poderia, tamanha a

emoção que dominava o meu ser. Por isso sou ajudada, sou

envolvida, sou impulsionada por uma força externa, ou será

interna?

Só sei que algo me induz a rever o passado, e a minha memória

parece deslocar-se no tempo. Sinto-me diluir entre os mundos e

minha alma vagar entre as estrelas; sinto que cada mundo é uma

lembrança, que cada estrela é uma vida, que cada constelação

representa a experiência que vivi num mundo chamado Terra.

Fui poeira entre os caminhos. Vivi a pedra, vivi a vida.

Sonhei, aquecida no interior da Terra. Mineral entre os minerais.

Minha força interna, bruta e rudimentar, movimentou os átomos e

atraiu os cristais. Eu vivia. Eu vibrava, mas não sabia.

Fui algo indefinível, talvez apenas uma célula, um átomo de vida, e

me vi entre os vegetais. Uma planta, uma folha, talvez de

trepadeira. Ou, quem sabe, eu tenha vibrado à sombra de um

penhasco, de uma ribanceira, como uma grama, uma plantinha que

se arrastou durante a sua vida inteira, sonhando, sem saber, em um

dia se transformar numa linda estrela tremeluzindo na amplidão.

Apenas talvez...

Fui fera entre os animais. Perdi-me entre as pradarias, nos campos,

nas montanhas, nas florestas. Senti a vida vibrar, o sangue ferver, os

olhos saltarem diante das experiências de ser, mesmo sem saber. Eu

era a força indomável dos animais. Eu me transformei em mil

formas e mil vidas, mas também voei. Sim! Isso mesmo, eu voei nas

asas do beija-flor, nas asas da gaivota e aprendi a cantar, a bailar,

aprendi a viver na forma de uma mulher.

Eu precisava de colo, de aconchego e de carinho; por isso eu me

deixei atrair para um recanto de amor e aos poucos eu me vi

aquecida num corpo bem quentinho, que também oferecia algo que

antes eu não conhecia. Eu fui aquecida na presença do amor.

Mas também conheci a dor, o pranto, o sofrer. Vivi assim, mil

dramas, mil formas, mil vidas. Enfim, eu sou a soma de mim

mesma, sou uma luz pequenina. Se a algo posso me comparar, sou

simplesmente um sapo que sonha, em seu pântano particular, com

o brilho das estrelas.

Eu revia a minha vida, conhecia cada detalhe de minhas

experiências. A força irresistível que me trazia da escuridão de mim

mesma é a mesma que me fazia rever, relembrar, contar novamente

e chorar de saudades. Vi a Galileia, ouvi os salmos de Davi, cantei

entre os bárbaros, sonhei entre os párias. Eu fui a semente de mim

mesma. Semeei e fui semente.

Revia a minha vida, e o que vi me assustou. Vi inúmeras realidades,

reavaliei imensas possibilidades de caminhos diferentes e ousei

sonhar também. Ah! Como sonhei.

Sonhei ser uma sacerdotisa do sol, num tempo recuado e esquecido

em que o mundo tinha uma outra face e as estrelas não eram as

mesmas de agora. Vivi entre os filhos de Atlântida. E antes disso eu

vivi; e depois de tudo eu vivi; e mais ainda eu viverei.

Vi os exércitos dos selêucidas, vi as armas do infame Sigismundo;

fui selvagem nas Américas e agora sou eu, Joana, que retorno para

reviver, para relatar, para descrever a história de minha vida

arrolada nas páginas do tempo. Sou uma luz entre as luzes, sou

uma filha de Deus, peregrina da eternidade. Sou eu, Joana Gomides.

Ah! Como eu morro, aliás, como eu vivo e sobrevivo de saudades;

de saudades de mim mesma, de quem fui, de quem serei. Talvez,

saudades das estrelas..

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Nova s


observações

A vida me ensinou o ser mois sensível.

As lições que aprendemos na vida são bênçãos do Alto para o nosso

crescimento espiritual. Desde que comecei a pesquisar a respeito da

religiosidade do homem, deste lado da vida, cresci muito. Sempre

deparo com situações ou pessoas que têm muito a me oferecer em

conhecimento. Quando fiz meus apontamentos a respeito da

umbanda, aprendi lições de humildade e fraternidade que até hoje

repercutem em minha alma de maneira intensa. A simplicidade e a

sabedoria dos trabalhadores da umbanda me comovem ainda hoje.

Agora, no entanto, fui convidado a observar outros campos de

atividades.

Numa reunião na Casa da Verdade, conheci o instrutor Ernesto. Os

estudos se realizavam em torno da espiritualidade do povo

brasileiro e suas expressões de religiosidade. A Casa da Verdade era

uma universidade, onde estudávamos todo o conhecimento

religioso que até então o Alto enviara à Terra. Estudávamos desde

as primeiras manifestações do conhecimento, nos primórdios da

humanidade, até as dos dias atuais, quando as luzes do Consolador

iluminavam as vidas humanas na revelação eterna do espiritismo.

Ernesto convidou-me a fazer algumas anotações a fimde, mais tarde,

poder ser útil a alguém. Afinal, através das observações anteriores,

algumas pessoas foram esclarecidas. Não poderia perder tamanha

oportunidade de trabalho e aprendizado.

Assim, eu ouvia as observações do instrutor espiritual, para aquela

assembléia de espíritos:

— Meus amigos — falava Ernesto — muitos de nossos irmãos na

Terra, quando encarnados, não têm a mínima noção da vida

espiritual. Ignoram completamente a realidade do espírito e

permanecem presos a velhas concepções terrenas. Limitam-se,

muitas vezes, a lições elementares de religião nos moldes ortodoxos,

fechando as portas da compreensão para outras expressões da

verdade.

"Assim, encontramos companheiros que estagiam nas chamadas

religiões cristãs engalfinhando-se, tentando provar que a sua visão

da vida é a mais correta. Outros, que se dizem apologistas da fé

cristã, se arvoram em carrascos da fé alheia, julgando que possuem

um lugar especial no paraíso, em detrimento dos outros que não

pensam como eles. Nos meios considerados mais espiritualizados

presenciamos a lamentável ignorância a respeito da essência dos

ensinamentos dos mestres e mentores da espiritualidade. Muitos

dos que se dizem espiritualizados ainda teimam em manter as

acanhadas posturas que geraram o pensamento religioso ortodoxo,

criando seitas de seguidores fanáticos ou extremistas. Ainda impera

a intolerância em toda parte.

"Somos convidados a contribuir para a nova etapa de conhecimento

a que está destinada a humanidade, com a implantação de uma

mentalidade mais eclética, universal ou holística. A religião do

futuro é a do amor. E só podemos entender o amor através das

expressões de fraternidade.

"Com o conhecimento espiritual, é impossível permanecermos

ligados ao atavismo milenar das religiões humanas. É preciso

renovar a face do planeta com o conhecimento integral.

Necessitamos de espíritos para servir, cuja mentalidade esteja acima

dos limites estreitos e separatistas das religiões criadas pelo homem.

A urgência da hora que se avizinha exige de cada um de nós uma

postura diferente daquela a que nos acostumamos ao longo dos

séculos.

'A própria mensagem do Consolador nos traz uma proposta

diferente, embora alguns de seus representantes ou seguidores

encarnados ainda permaneçam atados a antigos dogmas,

disfarçados de roupagens novas. É hora de renovar. E para renovar

é necessário conhecer. Para conhecer é preciso pesquisar, dedicar

seu precioso tempo aos labores do conhecimento, iluminados pela

luz do sentimento e do bom senso.

"A Terra corre o risco de se ver levada pelo fanatismo religioso, base

de muitos abusos e crimes perpetrados no passado como no

presente. Nossos estudos visam ao esclarecimento das consciências

para o despertamento da necessidade do autoconhecimento."

Ernesto falava-nos na assembléia, enquanto acima e em volta da

multidão de espíritos eram mostradas imagens que ilustravam sua

exposição. Às vezes mantínhamos os olhos fechados, mas

percebíamos as irradiações mentais do nosso instrutor, que se

faziam perceptíveis através da ideoplastia. Os fluidos refletiam

perfeitamente os pensamentos do iluminado mentor.

— As imagens que vocês vêem não são meras criações de nossa

mente para ilustração do tema de hoje. São reflexos de cada um de

vocês, do sentimento religioso que cada um experimentou ao longo

dos séculos e dos anseios de espiritualização de cada um — falou

Ernesto.

Sua palavra esclarecedora continuou por algum tempo a nos

iluminar interiormente, despertando em nós um sentimento como

eu não experimentava há muito tempo e, é claro, a minha natural

curiosidade a respeito do assunto.

Terminada a exposição do instrutor, procurei-o para alguns

esclarecimentos a respeito do tema e fui amorosamente recebido.

Após algumas respostas às minhas dúvidas, aventurei-me a

perguntar:

—Não seria interessante alguma excursão à Crosta para

observações e aprendizado?

—Certamente, meu amigo, e asseguro-lhe que em breve estarei, eu

mesmo, participando de uma caravana em direção à Terra. Quem

sabe você não gostaria de participar?

—falou o instrutor. — Teremos a oportunidade de estudar alguns

casos que nos requerem imediato concurso, num dos segmentos

religiosos dos nossos irmãos encarnados.

—Com certeza será de imenso valor, para mim, a participação em

tarefa semelhante — falei.

—Fiquei sabendo de suas últimas observações junto aos

companheiros umbandistas. Fiquei feliz, Ângelo, pois seus

apontamentos se mostraram valiosos para muitos companheiros.

Espero que a sua participação em nossa caravana seja também

proveitosa. Acredito que terá inúmeras oportunidades e poderá, no

futuro, transmitir algo para nossos irmãos na Crosta. Portanto —

acrescentou

—seja bem-vindo à nossa turma.

Para um espírito acostumado a pesquisas e ao estudo, essa era uma

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