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Por que usar o celular e redes sociais de forma excessiva?

Por Eduardo Guedes para o RH.com.br


Eduardo Guedes
Membro do Instituto Delete, pesquisador do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e especialista sobre o impacto das redes sociais no comportamento humano. Pesquisador do Laboratório de Pânico e Respiração do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (LABPR/IPUB). Pioneiro no Brasil com o estudo de transtornos de dependência de redes sociais (Facebook Addiction Disorder). Bacharel em Comunicação Social pela PUC-Rio com curso PNL e extensão na Stanford Business School. Desde 1998, liderou equipes em grandes empresas e multinacionais na introdução de produtos de tecnologia e telecomunicações no mercado. Autor do livro "Nomofobia" da editora Atheneu, sobre dependência de celular e internet ("No Mobile Fobia").


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Não faz muito tempo que para falar com alguém precisaríamos ligar para o telefone fixo da pessoa. Conhecíamos as vozes dos pais, irmãos, filhos, marido ou esposa. Tínhamos certa disciplina e normas de etiqueta social, pois telefonar muito tarde para a casa de alguém significaria, possivelmente, acordar a sua família inteira. Tínhamos também certo planejamento, pois marcar um encontro no final de semana exigia pontualidade no horário e local previamente acordado.



O mundo evolui. E evoluiu rápido, felizmente. O telefone fixo, que antes era patrimônio declarado no imposto de renda, deixou de ser a estrela da casa. Cada membro da família ganhou o seu telefone particular. Na verdade, mais do que isso, receberam poderosos computadores de bolso que funcionam como tocadores de músicas, despertador, e-mail, GPS, mensagens instantâneas, câmera fotográfica, gravador, entre milhares de outras funções.

Sem dúvida, não podemos negar os benefícios que os avanços das tecnologias de informação e comunicação (TICS) produziram e produzem. Desde as tecnologias mais antigas, como a pintura rupestre, o propósito original sempre foi otimizar o tempo, encurtar distâncias ou nutrir as relações humanas. Através do Waze, você consegue escolher as melhores rotas, fugir do transito e otimizar o seu tempo; com o WhatsApp, você compartilha momentos com fotos e emoticons enviados para a sua esposa e filhos; e através das redes sociais se comunica com pessoas distantes com quem não falaria normalmente no dia a dia.O curioso é que estas mesmas tecnologias que aproximam pessoas distantes, se mal utilizadas, também distanciam pessoas próximas, prejudicam o tempo e servem como gatilho de problemas relacionais. Na verdade, o problema não é a tecnologia em si, ou o tempo que você dedica, mas sim o uso abusivo e a forma com que se relaciona com a tecnologia. A esposa que briga com o marido pela mensagem que foi lida, mas não foi respondida naquele mesmo instante; a família que mal conversa entre si durante os almoços de domingo, pois cada um prefere ficar mergulhado no mundo particular de seus dispositivos e apps; e as horas de sono perdidas em navegações intermináveis madrugada adentro no mural do Facebook. O mundo das tecnologias é mesmo muito convidativo, benéfico e transformador, mas pode se tornar um universo raso, de muitas interações e pouca profundidade e, também, palco de fuga ou idealizações.
Assim como aconteceu com a chegada do jornal, do rádio e da televisão, a internet está atualmente transformando o hábito da sociedade. Em paralelo a vida real há uma sociedade virtual, movida por meio das novas tecnologias. Em função disso, as pessoas também estão vivendo vidas paralelas: uma real e uma virtual. Através da internet, elas adicionam novos amigos, namoram, compram, trabalham, ganham dinheiro, pesquisam, estudam, escrevem mensagens no lugar de bilhetes ou cartas. O problema é que muitos agem como se tivessem de fato duas personalidades, o que na verdade é uma ilusão. A vida virtual é uma extensão da vida real e não um substituto ou uma alternativa.

O mecanismo do prazer, vivenciado através de redes sociais, estimula uma determinada área do cérebro conhecida como córtex cerebral e ativa um sistema de recompensa equivalente a se alimentar, dormir, praticar sexo, ganhar dinheiro etc.

O uso abusivo destas tecnologias ativa o mesmo sistema neurobiológico, estimulado no consumo de álcool e drogas, liberando no corpo substâncias como a dopamina, que geram uma sensação de prazer. Entretanto, na prática, o usuário abusivo começa a, lentamente, substituir as relações na vida real pelo mundo virtual e passa a ter um comportamento repetitivo em busca das mesmas sensações de prazer vivenciadas anteriormente.

Em outras palavras: falar de si mesmo gera prazer. Nas conversas normais uma pessoa usa em torno de 30% do tempo para falar de si próprio. Nas redes sociais este indicador sobe para 90%, com possibilidade de um feedback instantâneo, pois muitas pessoas curtem ou comentam a foto ou a mensagem publicada. Entretanto, pesquisas indicam que, mais da metade dos usuários ativos de redes sociais consideram-se mais infelizes do que os seus amigos virtuais, pois substituem as relações na vida real pelo mundo virtual e vivem uma história editada, que não conseguem sustentar no dia a dia. No Facebook e Instagram, não existe crise financeira nem problemas conjugais, todos têm dinheiro, o emprego dos sonhos, o casamento perfeito, viagens maravilhosas etc.



Vivemos realmente tempos barulhentos. Nossa cultura ensina que é preciso produzir sempre mais como indicador de sucesso ou felicidade. Dentro deste contexto, precisamos postar e compartilhar numa tentativa de gritar ao mundo o desejo de pertencimento e alimentar a satisfação do próprio ego. Nos casos mais graves, as redes sociais passam a ser um palco sombrio de fuga ou idealização, em uma peça de teatro inventada, mas que sempre terá plateia cheia.

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