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CANOPUS EM ARGOS:

ARQUIVOS
OS CASAMENTOS ENTRE AS ZONAS TRÊS, QUATRO E CINCO

(CONFORME NARRATIVA DOS CRONISTAS DA ZONA TRÊS)
Tradução de Aulyde Soares Rodrigues
EDITORA NOVA FRONTEIRA
Boatos geram comentários. Mais do que isso, geram canções. Nós, os Cronistas e cancioneiros da Zona Três, somos testemunhas de que as canções estavam entre nós, de uma extre­midade a outra da nossa Zona, muito antes de os dois dire­tamente interessados compreenderem o que significavam para eles as novas diretivas. E naturalmente o mesmo aconteceu na Zona Quatro.
Grande para Pequeno

Alto para Baixo

Quatro em Três

Não pode entrar.
Era um jogo infantil. Da minha janela via as crianças brincando e cantando depois de termos sabido das novas. E, na rua, uma delas correu para mim com uma adivinhação que ouvira dos pais: se você acasala um ganso com um cisne, qual deles ficará por cima?

Quanto aos comentários feitos nos acampamentos e quar­téis da Zona Quatro, preferimos não registrar. Não que se­jamos puritanos. Mas cada cronista tem o seu estilo.

Estou dizendo que os povos das duas Zonas se despre­zavam? Não. Não nos é permitido criticar abertamente as dispensações dos Provedores, mas digamos que nós, da Zona Três, não tínhamos esquecido — como demonstravam os versos populares cantados naqueles dias:
Três vem antes de Quatro.

Nossos costumes são de paz e fartura

Os deles — a guerra!
Muitos dias se passaram antes que alguma coisa acon­tecesse.

E, enquanto o casamento famoso era celebrado na ima­ginação dos dois reinos, os interessados permaneciam onde estavam. Não sabiam o que desejavam deles.

Ninguém esperava esse casamento. Não tinha nem mesmo sido objeto da especulação popular. As Zonas Três e Quatro estavam muito bem, com Al.Ith para nós, Ben Ata para eles. Pelo menos era o que pensávamos.

Independentemente do casamento em si, havia várias questões secundárias. O que poderia significar a ordem para que nossa Al.Ith fosse ao território de Ben Ata para a celebração do casamento?

O que, nesse contexto, seriam as núpcias?

O que, afinal, o casamento?

Quando Al.Ith soube da Ordem, pensou que era uma brincadeira. Ela e a irmã riram, toda a Zona Três ouviu suas risadas. E então chegou a mensagem que só podia ser interpretada como censura e o povo começou a se reunir em con­ferências e conselhos, em toda a Zona Três. Mandaram-nos chamar — os Cronistas, os poetas, os cancioneiros e as Me­mórias. Durante semanas só se falava em núpcias e casamen­tos, e todas as antigas histórias que conseguimos encontrar foram examinadas em busca de informação.

Foram enviados mensageiros à Zona Cinco, onde, acreditávamos, ocorriam ainda cerimônias nupciais primitivas. Mas toda a fronteira da Zona Cinco com a Zona Quatro estava em guerra e eles não conseguiram atravessá-la.

Perguntamos se esse casamento deveria seguir os padrões antigos, se as Zonas Três e Quatro deveriam se unir em um festival. Mas as Zonas não podem se unir, são inimigas naturais. Nem sabíamos ao certo onde ficavam as fronteiras. Nosso lado não era guardado. Os habitantes da Zona Três que se aproximavam da fronteira, por acaso ou por curiosi­dade, especialmente as crianças e os jovens, eram repelidos pela atmosfera, pelo ar, por uma aversão que se manifestava como uma letargia gelada como o tédio. Não podemos dizer que a Zona Quatro tivesse para nós a atração e o fascínio do proibido; o mais exato seria dizer que havíamos nos esquecido dela.

Talvez o mais certo fosse realizar dois festivais simul­tâneos, um em cada Zona, ambos comemorando o fato de que nossos dois países, tão diferentes, podiam se refletir pelo me­nos desse modo. Mas qual seria a utilidade disso? Afinal, fes­tivais e celebrações não eram exatamente prazeres dos quais nos privássemos.

Deveria haver pequenas comemorações das núpcias, entre nós, para assinalar a ocasião?

Roupas novas? Decorações nos lugares públicos? Dádi­vas, presentes? Tudo isso era sancionado pelas antigas histórias e canções.

Mais tempo se passou. Sabíamos que Al.Ith estava triste e não saía de casa. Nunca fizera isso antes; estava sempre a nossa disposição, sempre pronta a nos ouvir. As mulheres es­tavam desanimadas e de mau humor.

As crianças começavam a sofrer.

Tivemos então a primeira manifestação visível dos novos tempos. Ben Ata enviou uma mensagem na qual dizia que seus homens viriam buscar Al. Ith para levá-la até ele. Essa atitude grosseira era exatamente o que esperávamos daquela Zona. Um reino em guerra não precisa se preocupar com cortesias. E provava que estávamos certos em não querer que a Zona Quatro nos dominasse.

Al.Ith ficou ofendida, revoltada. Não iria, anunciou.

Mais uma vez a Ordem, e dizia simplesmente que ela devia ir.

Al. Ith vestiu uma roupa azul-escura de luto, o único mo­do pelo qual lhe era permitido expressar seus sentimentos mais íntimos. Não deu instruções para o Pesar geral, mas era o que todos nós sentíamos.

Nossos sentimentos estavam confusos e eram — suspeitávamos — errados. Emoções desse tipo não têm valor para nós. Há tanto tempo não temos registro de nada diferente! Como indivíduos, não esperamos — e não são esperados de nós — choro, lamentos, sofrimento. O que pode nos acontecer que nãó aconteça a todas as' pessoas, em algum tempo de suas vidas? O pesar pela privação, pela perda pessoal é for­malizado, ritualizado em ocasiões públicas, consideradas por todos como canais e veículos para nossos pequenos sentimen­tos pessoais. Isso não significa que somos insensíveis! — sig­nifica que os sentimentos devem ser sempre dirigidos para o exterior e usados para fortalecer o conceito geral de nós mes­mos e do nosso reino. Mas com essa nova Ordem para Al.Ith, o oposto parecia estar acontecendo.

Jamais a nossa Zona conhecera tantas lágrimas, tantas acusações, tanta hostilidade irracional.

Al.Ith mandou chamar todos os seus filhos e quando eles choraram não os impediu.

Disse que isso pelo menos lhe devia ser permitido sem que fosse considerado um ato de rebelião.

Alguns de nós — muitos — ficaram perturbados, outros a criticaram.

Não nos lembrávamos de nada parecido, e logo começa­mos a comentar há quanto tempo não recebíamos uma Ordem dos nossos Provedores. Ou quantas prévias mudanças das Necessidades — sempre usávamos essa palavra, simplesmente, sem maiores definições — tinham sido recebidas por nós? E por que agora essa inversão? Perguntávamos a nós mesmos se nos tínhamos habituado a uma falsa imagem das nossas pessoas. Mas como poderia ser errado aprovar as nossas próprias harmonias, a riqueza e amenidade da nossa terra? Acre­ditávamos que nossa Zona era igual a pelo menos uma outra em prosperidade e ausência de discórdia. Teria sido um erro nos orgulharmos disso?

E percebemos há quanto tempo não pensávamos no que havia para além das nossas fronteiras. Que a Zona Três era um dos muitos reinos administrados das Alturas, sabíamos. Quando pensávamos nisso, víamos a nós mesmos funcionando em interação com todos os outros reinos, mas de um modo abstrato. Talvez tivéssemos nos tornado insulares? Auto-suficientes?

Al.Ith esperava nos seus aposentos.

E, então, eles apareceram, um grupo de vinte cavaleiros com armaduras leves. Traziam escudos que os protegiam con­tra o ar mais rarefeito, o que era necessário. Mas para que a proteção na cabeça e os famosos coletes refratários que repeliam qualquer arma mortífera? Os que estavam nas proximi­dades do caminho escolhido por nossos visitantes indesejáveis os observavam sombrios e reprovadores. Estávamos decididos a não dar nenhuma demonstração de agrado. Os cavaleiros também não nos cumprimentaram. Em silêncio, o grupo de homens dirigiu-se ao palácio e parou sob as janelas de Al.Ith. Levavam consigo um cavalo arreado, sem cavaleiro. Al.Ith os viu chegar. Houve uma longa espera. Então, ela apareceu no alto da escadaria branca, uma figura de sombra, com roupas escuras. Ficou imóvel e silenciosa, observando os soldados cu­ja presença em seu país, nessas circunstâncias, só podia signi­ficar captura. Deixou que eles a observassem por algum tempo, que vissem a sua beleza, sua força, a auto-suficiência do seu porte. Desceu então os degraus, lentamente, desacompanhada. Caminhou diretamente para o cavalo que lhe fora designado, olhou-o nos olhos e colocou a mão no focinho do animal. O cavalo era Yori, que se tornou célebre a partir desse momento. Era um belo animal negro, em nada diferente dos que os soldados montavam. Depois de tê-lo cumprimentado, ela er­gueu a pesada sela das costas do animal. Segurou-a nos braços, olhando fixamente para os homens, até um soldado perceber o que ela queria. Al.Ith atirou a sela para o homem e a montaria dele trocou de pernas para equilibrar o peso extra. O cavaleiro fez uma careta ridícula. Olhou de relance para os companheiros, enquanto ela, com os braços cruzados, os observava. O homem a olhou como se olha uma criança que acaba de fazer algo acima de suas forças. Naturalmente, nada disso passou despercebido a Al.Ith e então, para demonstrar que não tinham ainda compreendido sua verdadeira intenção, tirou o freio e a rédea do cavalo, com movimentos lentos e deliberados, e atirou-os para o soldado.

Al.Ith inclinou a cabeça para trás e os cabelos, frouxa­mente presos, cascatearam por suas costas. Nossas mulheres usam vários tipos de penteados, e quando o cabelo, está pre­so, em tranças ou de outro modo, e elas sacodem a cabeça, soltando-o de determinada maneira, é sinal de pesar. Mas os soldados não compreenderam e limitaram-se a admirá-la com expressão intrigada; talvez o gesto fosse destinado às pessoas que observavam a cena, aglomeradas na pequena praça. Os lábios de Al. Ith curvaram-se com desprezo e impaciência. De­vo registrar aqui que esse tipo de arrogância — sim, tenho de usar essa palavra — não era o que esperávamos dela. Quando comentamos o incidente, todos concordaram que a amargura de Al.Ith por causa do casamento talvez a tivesse perturbado.

De pé, com os cabelos soltos e os olhos ardentes, ela colocou um véu preto e fino sobre a cabeça e os ombros, com movimentos vagarosos. Pesar, outra vez. Através da negra transparência, seus olhos brilhavam.

Um soldado fez menção de descer do cavalo para ajudá-la, mas Al.Ith estava montada antes que os pés dele tocassem o chão. Ela virou o animal e galopou, atravessando os jardins, para o leste, para as fronteiras da Zona Quatro. Os soldados a seguiram. Para nós, que os observávamos, era como se eles a estivessem perseguindo.

Quando saíram da cidade, ela pôs o cavalo a passo. Os soldados fizeram o mesmo. O povo, na estrada, a aclamava e olhava fixamente para os soldados, e agora não parecia mais uma perseguição, porque os homens estavam embaraçados e riam idiotamente, e ela era a Al.Ith que eles conheciam.

Há um declive que leva do alto do planalto central de nossas terras à planície, através de desfiladeiros e gargantas, onde não é possível andar depressa; além disso, Al.Ith parava sempre que alguém demonstrava desejo de falar com ela. Pu­xava as rédeas do cavalo e esperava que se aproximasse.

Agora os soldados pareciam aborrecidos e resmungavam, pois tinham planejado chegar à fronteira ao cair da noite. Afinal, quando outro grupo acenou, chamando por ela, Al.Ith ouviu as vozes iradas dos soldados, virou sua montaria e apro­ximou-se deles, parando a alguns passos da primeira linha de cavaleiros, obrigando-os a conter os animais, rapidamente.


  • Qual é o seu problema? — perguntou ela. — Não seria melhor se me dissessem francamente, em vez de ficarem se lamuriando como crianças?

Os homens se ofenderam e fizeram um movimento encolerizado, mas o comandante os conteve.

  • Temos nossas ordens — explicou ele.

  • Enquanto estiver no meu país — retrucou Al.Ith —, procederei de acordo com nossos costumes.

Percebeu que não tinham compreendido e disse:

  • Ocupo esta posição pela vontade do povo. Não tenho o direito de passar por eles arrogantemente, quando precisam falar comigo.

Entreolharam-se mais uma vez. A expressão do coman­dante era de indisfarçada impaciência.

  • Não esperam que eu sacrifique nossos costumes em fa­vor dos seus — acrescentou ela.

  • Só temos rações de emergência para uma refeição li­geira — explicou o comandante.

Al.Ith sacudiu a cabeça, incrédula, como se não pudesse acreditar no que ouvia.

Não tinha intenção de demonstrar desprezo, mas eles as­sim interpretaram o seu gesto. O comandante dos cavaleiros ficou vermelho e disse bruscamente:



  • Qualquer um de nós é capaz de ficar sem comer du­rante muitos dias, em campanha, se for preciso.

  • Não estou pedindo tanto — replicou Al.Ith, séria, e desta vez eles ouviram zombaria. Riram, aliviados, e ela sorriu levemente, suspirou e disse: — Sei que não estão aqui voluntariamente, mas por causa dos Provedores.

Mas, inexplicavelmente para ela, tomaram essas palavras como um insulto e um desafio, e seus cavalos moveram-se inquietos, contagiados pelas emoções dos cavaleiros.

Ela ergueu os ombros, virou a montaria e aproximou-se de um grupo de jovens que a esperava ao lado da estrada. Lá embaixo estendia-se a vasta planície; atrás deles, erguiam-se as montanhas. A planície, pincelada ainda de amarelo pelos raios do sol poente, os picos das montanhas luzindo ensolara­dos, mas, ali onde estavam, só frio e sombra. Os jovens ro­dearam a montaria de Al. Ith sem temor ou reverência e os rostos dos soldados refletiam estupefação. Quando um dos jo­vens ergueu a mão para acariciar levemente a cabeça do ca­valo da rainha, deixaram escapar um longo murmúrio de de­saprovação. Mas estavam inseguros. Não era possível desprezar esse imenso reino ou seus dirigentes, sabiam muito bem. Con­tudo, a cena a que assistiam era uma contradição de tudo o que consideravam certo.

Ela acenou uma despedida para os jovens e os soldados puseram-se em marcha, a esse sinal que não era para eles. Al.Ith cavalgou na frente até chegarem à borda da planície e, então, voltou-se, mais uma vez.


  • Sugiro que acampem aqui, com as montanhas às suas costas.

  • Em primeiro lugar — disse o comandante, aborrecido por ver que os soldados continuavam em frente, sem esperar por ele —, em primeiro lugar, não pensei em parar antes de chegarmos à fronteira. E, em segundo. .. — a cólera im­pediu-o de continuar.

  • Estou fazendo uma sugestão— explicou ela. — Va­mos levar nove ou dez horas até a fronteira.

  • Neste passo, sim.

  • Em qualquer passo. À noite, geralmente, sopra um vento leste extremamente forte na planície.

  • Senhora! O que pensa que são estes homens? O que pensa que somos?

  • Vejo que são soldados. Mas estava pensando nos ani­mais. Estão cansados.

  • Farão o que lhes for ordenado. E nós também.

Nossos Cronistas e artistas exploraram extraordinariamen­te essa troca de palavras entre Al.Ith e os soldados. Várias histórias começam nesse ponto. Ela, ereta sobre o cavalo, na frente deles, o animal com a cabeça baixa, depois da longa e difícil jornada. Al.Ith o acaricia com a mão carregada de jóias... mas Al. Ith era conhecida pela simplicidade no vestir e por não usar jóias ou adereços vistosos! Eles mostram seus longos cabelos negros flutuando ao vento, as pontas do véu presas na testa com um broche brilhante. Mostram o comandante irritado, o rosto crispado e os soldados com ar de escár­nio. O vento cortante é indicado por nuvens esgarçadas e coloridas e pela relva da planície que se dobra até o solo.

O quadro está repleto de pequenos animais de toda a espécie. Pássaros pairam sobre a cabeça dela. Um pequeno gamo, o animal favorito das nossas crianças, tendo alcançado a estrada de terra, ergue o nariz para a cabeça inclinada do cavalo, dando-lhe conforto ou transmitindo mensagens dos ou­tros animais. Esses quadros geralmente intitulam-se "Os Ani­mais de Al.Ith". Algumas histórias contam que os soldados tentaram apanhar os pássaros e o gamo, mas que foram repreendidos por Al.Ith.

Tomo a liberdade de duvidar que a ocasião tenha pa­recido tão dramática para os soldados ou para Al.Ith. Os homens queriam continuar a jornada e sair dessa terra que não compreendiam e que os perturbava. O comandante não desejava se colocar em posição de obedecer a ordens dela, mas também não estava disposto a cavalgar durante horas con­tra o vento frio.

Que, na verdade, começava a se fazer sentir.

Al.Ith estava agora mais senhora de si do que nas úl­timas semanas. Compreendia que em vez de se entregar à dor nos seus aposentos devia ter feito muitas outras coisas. Deveres tinham sido negligenciados. Lembrava-se de mensa­gens que tinham chegado e às quais não respondera, absorta nos seus pensamentos selvagens.

Percebia seu ato de desobediência e os resultados deste. E isso a fazia ser gentil agora com esse grupo de bárbaros e com seu comandante-menino.



  • Não me disse seu nome — falou Al.Ith.

Ele hesitou e depois respondeu:

  • Jarnti.

  • Comanda os cavaleiros do rei?

  • Sou comandante de todas as forças. Abaixo do rei.

  • Desculpe-me. — Al.Ith suspirou e todos ouviram. Interpretaram como fraqueza. Essa experiência com ela acendia neles o sentimento de triunfo típico das naturezas bárbaras ante qualquer sinal de fraqueza; do mesmo modo que se aco­vardam e se agrupam temerosos quando enfrentam a força.

  • Preciso deixá-los por algumas horas — disse ela.

Todos instintivamente, sem esperar a ordem do chefe,

agruparam-se em volta dela. Al.Ith estava dentro de um círculo de captores.



  • Não posso permitir — disse Jarnti.

  • Quais são as ordens do rei? — perguntou ela com voz calma e paciente, mas eles interpretaram como subser­viência.

E uma gargalhada sonora e uníssona cortou o ar. A ten­são contida explodiu. Riam e gritavam e o eco respondia nos picos rochosos. Pássaros, acomodados para a noite, voaram assustados. Na relva alta que ladeava a estrada, os animais escondidos fugiram ruidosamente.

O que Ben Ata tinha gritado para todos os seus homens fora:



  • Vão buscar aquela... e tragam-na aqui. Estou disposto a tudo se não...

Pois, enquanto Al.Ith chorava sua revolta, ele estava esbravejando e praguejando, para cima e para baixo, nos acam­pamentos dos seus exércitos. Não havia um soldado que não tivesse ouvido o que o rei pensava desse casamento que lhe fora imposto e todos simpatizavam com ele, bebendo, rindo, erguendo brindes irreverentes que eram repetidos de uma extre­midade a outra da Zona Quatro.

Esta é outra cena favorita dos nossos contadores de his­tórias e dos nossos artistas. Al.Ith ereta no seu cavalo can­sado, cercada pelos homens com suas risadas brutais. O vento frio da planície aconchega-lhe o manto contra o corpo. O comandante está inclinado para ela com expressão animalesca. Al.Ith está em perigo.

E na verdade estava. Pela primeira vez.

Era noite agora, Apenas o céu atrás deles estava ilu­minado. O pôr-do-sol enviava lampejos para o alto, colocando cintilações nos picos dos montes. A planície escura estendia-se à frente e, espalhadas na distância, piscavam as luzes das vilas e das povoações. No planalto tinham passado por cidades po­pulosas; era uma terra operosa, com muitos habitantes. Mas, agora, pareciam estar à beira do nada, da escuridão. A terra daqueles soldados era quase toda plana e baixa e não havia cidades construídas em colinas ou encostas. Não gostavam das alturas. Mais do que isso: como veremos, tinham aprendido a temê-las. Enquanto desciam estavam ansiosos para deixar aque­le platô assustador que se alteava entre os picos gigantescos. Uma vez lá embaixo, seus pensamentos associando planícies com a idéia de habitações encontraram apenas o vazio. Havia pânico nas suas risadas. Terror. Não podiam parar de rir. E, entre eles, a pequena figura silenciosa de Al.Ith, imóvel, enquanto os homens se agitavam nas selas, emitindo sons, acre­ditava ela, que pareciam vir de animais assustados.

Mas não podiam rir indefinidamente. E, quando pararam, tudo estava na mesma. Ela ainda estava ali. Não a tinham impressionado com todo aquele barulho. A escuridão infinita estendia-se ante eles.


  • Quais foram as ordens de Ben Ata? — perguntou Al.Ith novamente.

Uma explosão de risos irônicos, mas o comandante desta vez dirigiu um olhar severo aos homens, embora há pouco os tivesse acompanhado nas gargalhadas.

  • As ordens dele? — insistiu Al.Ith.

Silêncio.

  • Que deviam me levar a ele, creio.

Silêncio.

  • Não me levarão a ele antes de amanhã.

Ela nao se moveu. O vento uivava agora na planície e os cavalos mal conseguiam firmar o passo.

O comandante deu uma ordem breve, em tom constran­gido. O grupo se desfez, procurando na orla da planície um lugar para acampar. Al.Ith e o comandante continuaram onde estavam, montados nos animais exaustos, esperando. Normalmente, Jarnti estaria com os homens que, acostumados às or­dens e orientação, pareciam não saber o que fazer. Afinal, ele indicou um lugar e todos desmontaram.

Os animais, habituados à atmosfera opressiva da Zona Quatro, estavam exaustos por causa da altitude, e seus corpos tremiam.


  • Atrás daquela rocha há um nascente — disse Al.Ith. Jarnti ordenou aos soldados que levassem os animais para tomar água. Al.Ith e ele desmontaram então. Um soldado levou os dois cavalos para o outro lado da rocha. Uma pequena fogueira crepitava entre duas pedras. As selas estavam no chão, a intervalos regulares. Serviriam de travesseiro para os soldados.

Jarnti continuava ao lado de Al.Ith. Não sabia o que fazer com ela.

Os homens retiraram as rações das mochilas e começaram a comer. O cheiro acre e rançoso da carne-seca. O odor ácido do álcool.

Jarnti disse, com um sorriso embaraçado:


  • Senhora, parece muito interessada em nossos soldados. São assim tão diferentes dos seus?

  • Não temos soldados.

Esta cena é também famosa entre nós. Os soldados ilu­minados pela luz do fogo, recostados nas selas, sobre a relva, comendo carne-seca e bebendo nos cantis. Outros trazem de volta os cavalos que levaram para tomar água. Al.Ith está ao lado de Jarnti, na entrada do pequeno forte natural. Observam os homens que conduzem os animais para um pequeno curral formado por rochas altas. Os cavalos estão com fome. Não há alimento para eles naquela noite. Al.Ith olha-os pesarosa. Jarnti, imenso ao lado da pequena figura indómita da nossa rainha, tem um ar arrogante e pretensioso.

  • Não têm soldados? — pergunta, incrédulo. Mas na­turalmente já tinha ouvido falar nisso.

  • Não temos inimigos — explicou ela. E ajuntou, sorrin­do para ele: — Vocês têm?

A pergunta deixou-o perplexo.

Mal podia acreditar nos pensamentos que essas palavras faziam surgir em sua mente.

Al.Ith sorria ainda quando um soldado deixou o pequeno acampamento e colocou-se de pé ao lado deles.


  • Por que ele está aqui?

  • Nunca ouviu falar de sentinelas? — perguntou Jarnti com sarcasmo.

  • Sim, ouvi. Mas ninguém vai atacá-los.

  • Sempre colocamos sentinelas.

Ela ergueu os ombros.

Alguns soldados já dormiam. Os cavalos, com as cabeças pendidas, descansavam ao lado das rochas altas.



  • Jarnti, vou deixá-los por algumas horas — disse ela.

  • Não posso permitir.

  • Se me impedir estará excedendo suas ordens.

Ele ficou calado.

Esta é também uma cena favorita. O fogo alto ilumi­nava as figuras dos soldados adormecidos, os pobres cavalos e Jarnti, que puxa a barba em atônita frustração. Al.Ith sorri para ele.



  • Além disso — observou Jarnti —, ainda não comeu.

Ela perguntou, com ar zombeteiro:

  • Tem ordens também para me obrigar a comer?

E então, desafiando-a, perturbado, obstinado, porque sen­tia-se virado pelo avesso, manipulado por ela e pela situação, ele disse:

  • Sim, a meu ver, minhas ordens implicam obrigá-la a comer. E talvez a dormir também, se for preciso.

  • Veja, Jarnti — disse ela, dirigindo-se a um pequeno arbusto, não muito afastado de onde ele estava. Colheu algu­mas pequenas frutas. Tinham a superfície irregular e eram envoltas em folhas finas como papel. Al.Ith retirou as folhas. Em cada uma delas havia fragmentos de uma substância bran­ca. Al.Ith comeu algumas, com expressão de desagrado. — Não coma, se não quer ficar acordado — disse ela. Mas na­turalmente ele não poderia resistir. Aproximou-se dos arbustos, apanhou algumas frutas e fez uma careta ao sentir o gosto amargo. — Jarnti — disse ela —, você não pode deixar este acampamento, uma vez que é o comandante, certo?

  • Certo — respondeu ele, tentando uma familiaridade desajeitada, o único modo que conhecia para corresponder ao tom amistoso dela.

  • Muito bem. Vou caminhar alguns quilômetros. Uma vez que pretende fazer com que esse pobre homem fique acordado a noite toda, para nada, sugiro que lhe dê ordem para me acompanhar, assim ficará certo de que voltarei.

Jarnti começava a sentir os efeitos dos frutos que comera. Estava alerta e sabia que não teria sono agora.

  • Vou deixá-lo de guarda e eu mesmo a acompanharei.

E afastou-se para dar as ordens.

Quando ele' se dirigiu para o pequeno acampamento, Al. Ith foi até onde estavam os cavalos e deu a cada um deles algumas frutas do arbusto. Antes mesmo de sair do curral improvisado, os animais estavam de cabeça erguida e com os olhos brilhantes.

Al.Ith e Jarnti caminharam na escuridão da planície, na direção do primeiro conjunto de luzes tremulantes.

Esta cena é também representada em quadro. O céu re­pleto de estrelas, uma fatia iluminada de lua, e o soldado an­dando com passos largos, destacando-se o brilho da armadura e do escudo. Ao seu lado, Al. Ith é apenas uma sombra escura, mas seus olhos brilham suavemente atrás do véu.

Essa imagem não poderia ser real. O vento frio e cortante açoitava-lhes o rosto. Ela envolvera a cabeça com o véu — a capa de Jarnti cobria a armadura — e o escudo era usado para protegê-los contra o vento. Ele havia resolvido acom­panhar aquela rainha em uma excursão nada agradável e na certa já estava arrependido.

Levaram três horas para chegar ao povoado. Era composto de tendas e cabanas de pastores. Passaram entre centenas de animais que erguiam a cabeça ao vê-los, mas não se aproximavam nem fugiam. Toda a sua energia estava sendo usada para resistir ao vento e não tinham forças para mais nada. Mas, quando se aproximaram das primeiras barracas protegidas por algumas árvores, os animais foram farejar Al.Ith no es­curo e ela falou com eles, estendendo as mãos para que chei­rassem, em forma de cumprimento.

Homens e mulheres estavam sentados ao redor de uma fogueira, do lado de fora das tendas.

Levantaram a cabeça ao perceber a aproximação de es­tranhos, e Al.Ith disse:



  • É Al.Ith.

Disseram-lhe que se aproximasse.

Tudo isso era espantoso para Jarnti, que a acompanhara até a fogueira, mas a alguma distância.

As pessoas ao redor do fogo pareceram surpresas ao vê-lo.


  • Este é Jarnti, da Zona Quatro — explicou Al.Ith, com voz calma. — Veio para me levar ao seu rei.

Em todo o país não havia uma só pessoa que desconhe­cesse seus sentimentos sobre esse casamento e por isso a examinaram com curiosidade, observando-lhe o rosto e os olhos. Mas ela demonstrou não estar preocupada com isso, no mo­mento. Esperou que trouxessem tapetes de uma tenda próxima e, quando os estenderam no chão, sentou-se, fazendo sinal a Jarnti para fazer o mesmo. Disse a eles que Jarnti não tinha comido e trouxeram creme de aveia e pão. Al.Ith não quis comer. Aceitou, porém, um copo de vinho e Jarnti tomou grande quantidade da bebida forte de paladar suave. Ele dava sinais de desconforto, de mal-estar mesmo; a altitude do nosso planalto o havia afetado, comera muitos frutos estimulantes e não se tinha alimentado. O vento cortante que passava sobre as cabeças dos homens e das mulheres, sentados perto do fogo, atingia-o, por causa da sua altura.

Esta é outra cena favorita dos artistas.

Mostra sempre Al.Ith alerta e sorridente, rodeada por homens e mulheres do povoado, o copo de vinho na mão, e ao lado dela Jarnti sonolento e entorpecido. Acima deles, o vento varre as nuvens e o céu está límpido e estrelado. As pequenas árvores inclinam-se quase até o solo. Os animais estão em volta da fogueira, atentos, à espera de um olhar da sua rainha.

Ela disse:



  • Quando saí da capital, na descida para o desfiladeiro, muitas pessoas falaram comigo. O que significa isso que estão dizendo sobre os animais?

O porta-voz dos pastores era um homem idoso.

  • O que lhe disseram, Al.Ith?

  • Que alguma coisa não está bem.

  • Al.Ith, enviamos mensageiros à capital com infor­mações.

Al.Ith ficou em silêncio por alguns segundos e depois falou:

  • A culpa é toda minha. Chegaram mensagens, mas eu estava muito preocupada com meu problema e não lhes dei atenção.

Jarnti estava sentado, a cabeça inclinada para a frente, meio adormecido, mas, ao ouvir isso, endireitou-se com um movimento brusco, deu uma risada rouca e triunfante e mur­murou:

  • Devem puni-la, espancá-la, ouviram? Ela admite! — e a cabeça rolou sobre o peito novamente. Estava com a boca aberta e a caneca de vinho frouxamente segura entre os dedos. Uma jovem tentou retirá-la cuidadosamente. Jarnti sentou-se, estendeu o lábio inferior, ergueu o queixo com beligerância, viu que a moça era bonita — e teria passado o braço pela sua cintura se ela não se afastasse agilmente, desaparecendo na sombra. Ele submergiu de novo na sonolência.

Os olhos de Al.Ith estavam marejados de lágrimas. As mulheres, depois os homens, vendo aquele homem rude e suas maneiras, compreenderam o que estava reservado para ela — e iam erguer as vozes em um lamento fúnebre, mas Al.Ith levantou a mão impedindo-os.

  • Não se pode fazer nada — disse, em voz baixa, os lábios trêmulos. — Temos nossas ordens. E é evidente que na Zona Quatro não estão mais satisfeitos do que nós.

Olharam interrogativamente para ela e Al.Ith fez um ges­to afirmativo com a cabeça.

  • Sim, Ben Ata está muito zangado. Deduzi das con­versas que escutei.

  • Ben Ata... Ben Ata... — resmungou o soldado, e sua cabeça rolou de um lado para outro. — Ele vai tirar suas roupas antes que o enfeitice com seus frutos mágicos e suas artimanhas.

Um dos homens levantou-se, disposto a arrastar Jarnti para longe, segurou-o pelas axilas, mas Al.Ith o interrompeu com um gesto.

  • Estou mais preocupada com os animais — disse ela. — O que dizia a mensagem que me enviaram?

  • Nada definido, Al.Ith. Apenas, que nossos animais parecem perturbados. Estão tristes.

  • E isso acontece em toda a planície?

  • Sim, em toda a nossa Zona, é o que ouvimos. Não lhe disseram o mesmo no planalto?

  • Já expliquei que a culpa é minha. Não estava aten­dendo aos meus deveres.

Silêncio. O vento sibilava sobre suas cabeças, mas com menor intensidade agora.

Jarnti estava meio deitado, o copo ainda na mão, olhando para o fogo e pestanejando. Na verdade, estava ouvindo, pois os frutos tinham a propriedade de manter a mente alerta, mesmo quando os músculos se afrouxavam e não obedeciam. Essa con­versa seria reproduzida em todos os campos militares da Zona Quatro, e inalterada, embora para eles a ênfase estivesse no fato de a rainha da Zona Três estar sentada "como uma serva" ao pé do fogo. E, naturalmente, o fato de que "lá" eles fala­vam sobre os animais como se fossem gente.

Al.Ith dirigiu-se ao ancião:


  • Já perguntou aos animais?

  • Tenho estado com os rebanhos desde que isso come­çou. Dia após dia, tenho estado com eles. Nenhum deles diz algo diferente. Não sabem por quê, mas estão tristes a ponto de morrer. Perderam o gosto pela vida, Al. Ith.

  • Estão concebendo? Procriando?

  • Ainda estão procriando. Mas tem razão em perguntar se estão concebendo...

Nesse momento, Jarnti resmungou:

  • Eles dizem à sua rainha que ela tem razão! Eles ou­sam! Levem-nos daqui! Açoitem-nos!...

Eles o ignoraram. Com compaixão, agora. Jarnti estava quase deitado, o rosto rubro, e para eles parecia pior do que um animal. Algumas mulheres choravam silenciosamente a sorte da sua irmã, enquanto o observavam.

  • Acreditamos que não estão concebendo.

Silêncio. O vento não sibilava agora. Era um lamento surdo. Os animais que estavam em volta deles ergueram os focinhos farejando o ar; logo o vento ia parar e o sofrimento noturno estaria terminado.

  • E vocês, o povo?

Todos fizeram um gesto afirmativo com a cabeça.

  • Acho que o mesmo está acontecendo conosco.

  • Quer dizer que começam a sentir o que os animais sentem?

  • Sim, Al.Ith.

E ficaram em silêncio por longo tempo. Entreolhavam-se interrogando, confirmando, os olhos se encontravam e se desviavam, transmitindo os sentimentos, até todos pensarem e sen­tirem como uma só pessoa.

Durante todo esse tempo, o soldado ficou imóvel. Mais tarde, ele diria aos companheiros que "lá" eles tinham drogas perigosas e as usavam inescrupulosamente.

O vento amainara. Tudo era silêncio. No céu varrido, as estrelas brilhavam. Mas farrapos de nuvens começavam a se formar a leste, sobre a fronteira da Zona Quatro.

Afinal, uma das jovens falou.



  • Al.Ith, estamos pensando se essa nova Ordem dos Provedores não será a causa da nossa tristeza?

Al.Ith assentiu com a cabeça.

  • Nenhum de nós tem lembrança de nada parecido —- disse o ancião.

Al.Ith observou:

  • As Memórias falam de tempos como este. Mas foi em época tão remota que os historiadores nada sabem a res­peito.

  • E o que aconteceu? — perguntou Jarnti, subitamente alerta.

  • Fomos invadidos — disse Al.Ith — pela Zona Qua­tro. Não há nada na sua história? Em sua tradição?

Jarnti ergueu o queixo, sacudindo a barba em ponta na direção deles, e sorriu triunfante.

  • Não pode nos contar nada? — perguntou Al.Ith.

Sorriu malicioso para uma das mulheres, depois para ou­tra, e a sua cabeça pendeu novamente sobre o peito.

  • Al.Ith — disse uma jovem que estava sentada, imó­vel, com o rosto banhado de lágrimas. — Al.Ith, o que vai fazer com estes homens?

  • Talvez Ben Ata não seja tão mau — observou outra.

  • Este homem é o comandante de todos os exércitos - explicou Al.Ith, com um estremecimento.

  • Este homem? Este?

Jarnti sentiu o horror e a aversão que lhes inspirava e os teria punido se tivesse forças. Conseguiu erguer a cabeça, lançando a todos um olhar colérico, mas seu corpo tremia de fraqueza.

  • Ele vai ter de voltar ao acampamento no sopé das colinas — disse Al.Ith.

Dois jovens entreolharam-se e se levantaram. Seguraram Jarnti pelas axilas e começaram a andar com ele de um lado para outro. Cambaleando, protestou a princípio, mas depois deixou-se levar, pois seu cérebro lúcido dizia-lhe que era necessário.

Esta cena é conhecida como "A Caminhada de Jarnti" e tem servido de veículo para o humor dos nossos artistas e contadores de histórias.



  • Creio que não posso fazer muita coisa — disse Al. Ith.

  • Se for uma doença antiga, nossa medicina talvez nada saiba sobre ela. Se for nova, os médicos logo descobrirão do que se trata. Mas, se for um mal da alma, então os Provedores provavelmente saberão o que fazer.

Silêncio.

  • Já devem saber o que fazer — disse ela, com um sorriso sem alegria. — Por favor, digam a todos que estive aqui esta noite, que conversamos e meditamos.

Nós diremos, garantiram eles. Então, levantaram-se e a acompanharam na direção dos rebanhos. Uma jovem chamou três cavalos, que se aproximaram e ficaram imóveis esperando obedientemente. Um jovem colocou Jarnti sobre um deles, Al.Ith montou no segundo e a jovem no outro. Os animais cercaram e saudaram Al. Ith.

Na planície, de volta ao acampamento, a relva, alta agora, tinha tons acinzentados na luz fraca da alvorada e o céu parecia em chamas, no nascente.

Jarnti estava bem acordado e mantinha-se ereto sobre o cavalo, em postura militar.


  • Senhora — perguntou ele —, como é que o seu povo fala com os animais?

  • Vocês não falam com os seus?

  • Não.

  • Ficamos ao lado deles. Nós os observamos. Colocamos as mãos neles e sentimos o que sentem. Olhamos nos olhos deles. Ouvimos as cadências de suas vozes, dos seus chamados. Quando percebem que nós os compreendemos, comunicam-se e prestamos atenção às inflexões das coisas que nos dizem. Pois, se não os escutarmos, não tentarão de novo. Logo sentimos o que eles sentem e sabemos o que estão pensando, mesmo quando não nos dizem.

Jarnti ficou em silêncio por algum tempo. Os rebanhos tinham ficado para trás.

  • Naturalmente, nós observamos a aparência dos ani­mais, para verificar se estão doentes ou coisa assim.

  • Ninguém sabe interpretar o que dizem os animais?

  • Alguns de nós são bons com eles, sim.

Al.Ith não parecia disposta a continuar a conversa.

  • Talvez sejamos muito impacientes — disse Jarnti.

Al.Ith e a moça não disseram nada. Continuaram a ca­valgar na direção das colinas. Agora, os picos imensos estavam rosados e brilhavam na selvagem luz matutina.

  • Senhora — disse Jarnti, com voz áspera, porque não sabia tratar bem as pessoas —, quando estiver conosco, poderá ensinar essa habilidade aos homens encarregados dos cavalos?

Ela demorou para responder. Afinal, disse:

  • Sabe, sempre me chamam apenas de Al. Ith. Compreen­de que nunca fui chamada de senhora ou coisa parecida?

Foi a vez de Jarnti ficar em silêncio.

  • Muito bem, fará isso? — perguntou, mal-humorado.

  • Se puder, farei — concordou ela.

Jarnti lutou consigo mesmo para expressar gratidão, prazer. Não conseguiu.

Tinham vencido mais da metade do caminho.

Jarnti esporeou com o calcanhar das botas os flancos do cavalo, subitamente, e o animal relinchou e empinou. E ficou imóvel.

As duas mulheres pararam também.



  • Você queria passar na frente? — perguntou a moça.

Ele olhou-a taciturno.

— O cavalo não o levará agora — disse ela, desmontando graciosamente. Jarnti desmontou também. — Monte no meu.

Ele obedeceu. A moça acalmou o animal, que parecia con­fuso com o que tinha acontecido, e montou-o de um salto.


  • Pense que você quer cavalgar na nossa frente — disse a jovem.

Jarnti parecia embaraçado, envergonhado. Ficou vermelho.

  • Acho que deve fazer o que estamos dizendo — disse Al.Ith.

Quando avistaram o acampamento, ela saltou do cavalo, que deu meia-volta e galopou imediatamente na direção dos rebanhos. Jarnti desmontou também e seu cavalo fez o mesmo. O soldado olhava com admiração a bela jovem que se preparava para deixá-los.

  • Se for algum dia à Zona Quatro — gritou ele —, pro­cure-me.

A moça lançou um longo olhar de comiseração para Al. Ith e observou:

  • Tenho sorte por não ser uma rainha. — E galopou pela planície, com os outros dois cavalos relinchando alegremente ao seu lado.

Al.Ith e Jarnti caminharam para o acampamento, dando as costas para o nascente.

Muito antes de chegarem, sentiram o cheiro forte de carne queimada.

Al.Ith não disse nada, mas seus olhos falavam por ela.


  • Vocês não matam animais? — perguntou Jarnti, a contragosto, impelido pela curiosidade.

  • Só quando é necessário. Temos outros alimentos em abundância.

  • Como aquelas frutas horríveis — disse ele, tentando fazer humor.

Os soldados haviam caçado um gamo. Al.Ith não compartilhou a refeição.

Quando terminaram, os cavalos foram selados, menos o de Al.Ith. Ela olhava pesarosa para os outros animais, que ajustavam as rédeas na boca.

Al.Ith montou agilmente e murmurou algo para o cavalo. Jarnti a observava, desconfiado.


  • O que disse para ele? — perguntou.

  • Que sou sua amiga.

E mais uma vez ela cavalgou na frente, para o leste, através da planície.

Passaram a alguma distância dos rebanhos que tinham visto na noite anterior e os animais pareciam apenas uma mancha escura na paisagem.

Jarnti ia logo atrás de Al.Ith.

Agora, ele pensava na conversa da noite anterior, ao redor do fogo, na descontração de todos. Desejava algo parecido, algo que sentira haver entre eles, pois jamais conhecera aquela inti­midade. Exceto com uma mulher, disse para si mesmo, às vezes, depois de uma boa trepada.

Perguntou, com ansiedade na voz:


  • Pode sentir a tristeza daqueles animais?

AI. Ith olhava constantemente para o rebanho distante, com ar preocupado.

— Você não sente?

Jarnti percebeu que ela estava chorando, enquanto ca­valgava.

Ficou furioso. Irritado. Sentia-se completamente excluído de algo a que julgava ter direito.

Atrás deles, o tilintar metálico da companhia de soldados.

Ao longe, a fronteira. Subitamente, ela inclinou-se, murmurou alguma coisa, e seu cavalo abriu o galope. Jarnti e a companhia a acompanharam. Começaram a gritar. Al.Ith não tinha o escudo de proteção contra a atmosfera mortal — para ela — da Zona Quatro. Cavalgava como os ventos selvagens que varriam as planícies todas as noites, até de madrugada, os longos cabelos soltos esvoaçando, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Jarnti alcançou-a depois de alguns quilômetros. Levava o escudo que um dos soldados atirara para ele. Os cavalos estavam agora quase emparelhados.


  • Al. Ith — gritava ele —, você precisa disto! — E ergueu o escudo. Depois de muito tempo ela pareceu compreender. Voltou o rosto, sem diminuir a louca corrida, e Jarnti estremeceu ao ver a agonia na face pálida. Ergueu o escudo. Ela levantou o braço para apanhá-lo. Jarnti hesitou, porque era tuna peça pesada. Lembrou-se de como a jovem atirara a pesada sela para o soldado, no dia anterior, e jogou-lhe o escudo. Al.Ith apanhou-o com uma só mão, sem diminuir a velocidade do cavalo. Aproximavam-se da fronteira. Eles a observavam para ver como a densidade do ar iria afetá-la, pois tinham ficado doentes ao entrar na Zona Três, no dia anterior. Al.Ith atra­vessou a barreira invisível sem demonstrar fraqueza, embora estivesse pálida. Passada a linha da fronteira, lá estavam as torres de observação, a 500m umas das outras, repletas de soldados e armamentos. Ela não parou. Jarnti e os outros galopavam atrás dela, gritando para que os soldados das torres não atirassem. Al.Ith passou pelas torres sem olhar para elas.

Mais uma vez estavam no alto de uma descida que atra­vessava colinas e rochas, terminando em imensa planície. Quan­do chegou à borda da escarpa, ela parou.

Todos pararam atrás dela. Al. Ith olhava para aquela terra coberta de fortes e acampamentos.

Saltou do cavalo. Soldados correram dos fortes, na direção deles, levando cavalos descansados. Os animais da companhia, exaustos, eram levados para o descanso merecido. Mas o de Al.Ith não quis deixá-la. Estremecia e relinchava, dava voltas sobre si mesmo e, quando os soldados se aproximaram para segurá-lo, recusou-se a ir com eles.


  • Quer o cavalo de presente, Al . Ith? — perguntou Jarnti, e ela sorriu, satisfeita, apenas um leve sorriso, tudo o que as forças lhe permitiam.

Mais uma vez Al.Ith retirou a sela do cavalo descansado trazido pelos soldados, as rédeas, o bridão, e atirou-os aos ho­mens atônitos. E entrou na Zona Quatro na frente deles, com Yori trotando ao seu lado e continuamente encostando o focinho nela.

E assim Al. Ith passou para a Zona da qual tínhamos ouvido falar tanto, que nos intrigava e que não conhecíamos.

Embora protegida pelo escudo, não se sentia bem. O ar parecia parado, sem vida. A paisagem transmitia confinamento e opressão. Em nosso reino, para onde quer que se olhe há um vigor selvagem, expresso pelos contornos das montanhas, dos planaltos, pela turbulenta variedade. O planalto central, onde estão muitas das nossas cidades, não é regular, mas rodeado de montanhas e cortado por vales com rios de leitos profundos. Em nossa Zona, o olhar é atraído pelo movimento contínuo e volta-se sempre para os imensos picos nevados, esculpidos pelos ventos, e para o colorido do nosso céu. E o ar, frio e rarefeito, revigora o sangue. Mas, agora, Al.Ith olhava para a extensão plana e uniforme, cortada por canais e regatos dominados pelo homem, ladeados por árvores decotadas, e pontilhada de acam­pamentos militares. As cidades e as aldeias não pareciam maiores do que esses acampamentos. O céu era azul-acinzentado e refletia a cor baça das águas paradas. Sobre uma colina de pouca altura havia um parque, ou jardim, o único consolo na paisagem.

Desciam ainda a escarpa.

Uma volta da estrada revelou um enorme edifício circular de pedra cinzenta, pesadamente instalado entre dois canais. Parecia uma construção recente, porque as rochas e a terra ao lado dele estavam nuas e recém-partidas. A consternação de Al.Ith à idéia de que essa seria sua futura residência fez com que seu cavalo parasse indeciso. Os homens pararam atrás dela, e Al. Ith, voltando-se, viu o triunfo dissimulado nos olhos deles. Jarnti procurava reprimir um sorriso, como fazem os líderes quando querem indicar que gostariam de unir-se aos subordi­nados em uma demonstração qualquer. Então, enquanto estavam ali parados, os cávalos batendo com os cascos nas pedras do caminho, Al.Ith compreendeu que se enganara; o que temera não provocaria aquela expressão de triunfo que seus captores demonstravam.


  • Quando esperam chegar ao rei? — perguntou, e Jarnti imediatamente viu na pergunta a intenção de fazê-lo recordar-se da autoridade dela. Olhou para os homens com ar de censura e voltou-se com atitude obediente.

Ela observava, compreendendo — e se deu conta do quan­to eram bárbaros.

Tinham imaginado que Al. Ith estava intimidada com a famosa "fortaleza redonda de raios mortíferos", como a descrevia uma de nossas canções.

Disse a si mesma, não pela primeira, nem pela décima vez, que não se acostumaria com facilidade a esse povo com alma de escravo, e, para testá-los, dirigiu o cavalo para a estrada que levava ao edifício. Imediatamente Jarnti colocou-se ao seu lado, estendendo a mão para a cabeça do cavalo dela. Al. Ith parou.


  • Gostaria de ver o interior de umà das famosas forta­lezas circulares da sua Zona — disse ela.

  • Oh, não, não, não deve, é proibido — observou ele, cheio de importância.

  • Mas, por quê? Suas armas não estão apontadas para nós, estão?

  • É perigoso....

Mas, nesse momento, surgiu um bando de crianças ao lado do prédio, correndo e se espalhando, e duas delas entraram por uma porta que estava aberta.

  • Sim, estou vendo — disse Al.Ith, e continuou o ca­minho pela estrada principal, sem olhar para Jarnti ou para os soldados.

Quando estavam quase na planície, viram um menino tomando conta do gado que pastava ao lado da estrada.

Jarnti chamou-o e o garoto correu para eles. Jarnti disse para Al.Ith:



  • Pode ensinar a ele o seu método de entender os animais?

Quando o menino chegou à estrada, pálido e assustado, Jarnti gritou:

  • Deite-se! Não vê que estamos levando a senhora para o rei?

O menino deitou-se de bruços na relva. Não fazia nem um minuto que Jarnti o tinha chamado.

O comandante dirigiu a Al. Ith um olhar que era um misto de súplica e autoridade, enquanto seu cavalo dançava alegremente sentindo o interesse do cavaleiro em aprender o modo de se comunicar com os animais.



  • Bem — disse ela —, acho que não se pode aprender nem ensinar muita coisa nestas condições.

Jarnti, percebendo que agira idiotamente, enrubesceu irrita­do e gritou.

  • A senhora aqui quer saber se seus animais estão bem.

Nenhuma resposta, e então, depois de algum tempo, um lamento quase inaudível:

  • Muito bem, sim, bem, senhor.

Al.Ith desceu do cavalo graciosamente, aproximou-se do menino e disse:

  • Fique de pé. — Era um comando, uma vez que co­mando era o que ele entendia. Tremendo, ele obedeceu e ficou parado, quase desmaiando de medo. Esperou que o garoto, depois de alguns olhares furtivos, visse que ela nada tinha de assustador, e disse:

  • Sou da Zona Três. Nossos animais não estão bem. Pode dizer se notou alguma coisa diferente nos seus?

O menino tinha as mãos cruzadas sobre o peito e ofegava, como se tivesse corrido quilômetros. Afinal, conseguiu falar:

  • Sim, sim, isto é, acho que sim.

Atrás deles, a voz de Jarnti, zombeteira e estridente:

  • Eles estão tendo pensamentos sombrios? — E toda a companhia riu com desprezo.

Al.Ith percebeu que nada mais podia fazer e disse para o menino:

  • Não tenha medo. Volte para os seus animais.

Esperou que ele se afastasse correndo e voltou para perto do seu cavalo. Mais uma vez Jarnti sentiu que agira desastradamente, mas foi mais forte do que ele, aquela mulher pequena e desarmada, ali de pé, ao lado do garoto indefeso e assustado, fizera surgir dentro dele a necessidade de exibir força e auto­ridade.

Ela montou rapidamente e prosseguiu, sem olhar para eles. Nossa pobre Al.Ith estava muito abatida. Foi seu pior momento. Sentia-se magoada pelo modo com que o menino tinha sido tratado; mas esse era o costume deles e não acreditava que, naquela hora triste, pudesse se comunicar com aqueles brutos. E, naturalmente, pensava no seu encontro com Ben Ata.

Cavalgaram, quase o dia todo, atravessando a planície cor­tada por valas e por infindáveis fileiras de árvores tristonhas. Ela ia na frente. Yori, o cavalo sem cavaleiro, logo atrás, ao lado de Jarnti, e depois a companhia de soldados. Todos esta­vam em silêncio. Al.Ith não fez nenhum comentário sobre o encontro com o menino, mas os homens imaginavam que quando se encontrasse com o rei por certo não falaria bem deles. Por isso estavam sombrios e amuados. Havia poucas pessoas ao lado da estrada ou nas barcas dos canais, mas os que os viram passar contaram que não havia nem a sombra de um sorriso nos rostos dos homens. Aquela procissão de casamento mais parecia um funeral. E o cavalo sem cavaleiro também provocou comentários. Diziam que Al.Ith sofrera uma queda e estava morta, pois a pequena figura que cavalgava à frente dos homens não tinha nada que chamasse atenção. Mais parecia uma serva, ou uma acompanhante, com o vestido simples azul-escuro e a cabeça coberta pelo véu negro.

Uma balada conta como o cavalo de Al.Ith acompanhou os homens para dizer ao rei que a sua noiva estava morta e que não ia haver casamento. O cavalo pára na entrada da câmara nupcial e relincha três vezes, Ben Ata, Ben Ata, Ben Ata — e, quando o rei aparece, ele diz:


Frio e negro o seu leito nupcial,

Ó Rei, sua noiva está morta.

O reino sobre o qual ela impera está frio e escuro.
E tornou-se uma balada popular, que todos cantavam, mesmo depois de saber que Al.Ith não estava morta e que o câsamento tinha se realizado. Que não era o mais tranqüilo dos casamentos todos souberam desde o princípio. Como? Como se tornam conhecidas essas coisas? Estavam sempre adicionando novos versos à canção. Eis aqui três deles, feitos no alojamento dos soldados casados da Zona Quatro:

Bravo Rei, seu reino é forte e bom.

Onde os animais se acasalam e as mulheres estão ansiosas.

Serei sua escrava, bravo Rei.
Em nenhum lugar e em nenhum tempo, versos como esses poderiam ter sido compostos pelo nosso povo; tínhamos baladas ternas e cheias de compaixão sobre Al.Ith. Muitos dizem que onde há poder existe esse tipo de crítica, pois, não importa a altura do soberano, faz parte da natureza dos súditos o desejo de uma identificação no mais baixo nível. Dizemos que não é verdade, e a Zona Três é uma prova disso. Reconhecer e ce­lebrar os níveis quotidianos da autoridade não significa ca­luniá-la.

Essas baladas da Zona Quatro chegaram até nós e foram modificadas ao cruzar a fronteira. Em primeiro lugar, não precisávamos das inversões, das ambigüidades criadas pelo temor que inspira a autoridade arbitrária.

Podemos mesmo dizer que um certo tipo de balada não pode existir entre nós: a que se baseia em lamentações ou na comemoração de alguma perda.

Na Zona Quatro, o cavalo sem cavaleiro deu origem a canções de morte e de dor; na nossa, a baladas de amor e amizade.

A estrada que cortava a planície em linha reta, e era cruzada por outra bem no centro, começou a subir a pequena elevação que Al.Ith contemplara com alívio do alto da escarpa. Os canais tinham ficado para trás, com seu peso morto de água parada. Surgiam agora algumas árvores que não tinham sido cruelmente podadas como as da planície. No topo da colina havia jardins e a água corria rapidamente nos canais caindo em pequenas cachoeiras, de um nível para o outro, formando fontes. O ar era fresco e revigorante e Al.Ith sentiu-se mais ani­mada ao ver um pavilhão com pilares coloridos e arcos deli­cados. Mas não se via ninguém. Ela comparou o jardim vazio, aparentemente deserto, com a convidativa amplidão dos jardins da Zona Três. A uma ordem de Jarnti, a companhia fez alto. Os soldados desmontaram e cercaram Al.Ith, e, quando ela saltou do cavalo, conduziram-na em passo de marcha, como uma cativa de guerra — e ela percebeu que não era a primeira vez que faziam isso, pela precisão dos seus movimentos.

Mas, quando fecharam o círculo à sua volta, Jarnti um pouco à frente, ela colocou a mão no pescoço de Yori, o cavalo que ganhara.

E foi assim que chegou aos degraus do pavilhão. Ben Ata apareceu na entrada, os braços cruzados, as pernas afastadas, um soldado com barba, vestido exatamente como Jarnti e os outros. Era alto e louro, os músculos fortes por causa das manobras militares constantes, o rosto e os braços morenos, quei­mados de sol. Seus olhos tinham um tom acinzentado. Ben Ata não olhava para Al.Ith mas para o cavalo, pois seu primeiro pensamento foi que sua noiva estava morta.

Al.Ith passou rapidamente pelos soldados, suspeitando de que devia haver outros precedentes que não desejava fossem levados a cabo, e ficou na frente de Ben Ata, segurando o cavalo.

Então ele olhou para ela, surpreso e com o cenho cerrado.


  • Sou Al.Ith — disse ela —, e este cavalo é um pre­sente gentil de Jarnti. Quer, por favor, dar ordens para que seja bem tratado?

Ben Ata parecia incapaz de pronunciar uma palavra. Assentiu com a cabeça. Jarnti segurou o pescoço do animal e tentou levá-lo. Mas Yori deu um passo atrás, procurando libertar-se, e foi preciso que Al.Ith o confortasse, prometendo vê-lo muito em breve.

  • Hoje, eu juro. — E, voltando-se para Jarnti: — Por­tanto, não o leve para longe. E, por favor, providencie para que seja bem tratado e bem alimentado.

Jarnti parecia embaraçado, os soldados sorriam zombe­teiros, disfarçadamente, porque a expressão de Ben Ata não os encorajava. Normalmente, em ocasiões semelhantes, a mulher era empurrada brutalmente para dentro, de acordo com os cos­tumes, mas, agora, ninguém sabia o que fazer.

Al.Ith disse:



  • Ben Ata, suponho que tenha aposentos nos quais eu possa descansar por algum tempo. Cavalguei o dia todo.

Ben Ata estava se refazendo da surpresa. Sua expressão era severa, amarga mesmo. Não sabia o que esperar e tinha se preparado para ser cordato, mas essa mulher com roupas sombrias não lhe agradava. Ela não retirara o véu e tudo o que Ben Ata podia ver eram os cabelos escuros. Preferia mulheres louras.

Ele ergueu os ombros, olhou para Jarnti e entrou no pa­vilhão. E, assim, foi Jarnti quem a levou aos seus aposentos e providenciou para que tivesse tudo o que precisava. Al.Ith recusou comida e bebida e disse que dentro de alguns momentos estaria pronta para ver o rei.

E foi encontrar-se com ele, surgindo sem cerimônia dos seus aposentos, ainda com a roupa escura da viagem. Mas ti­rara o véu e o cabelo caía-lhe pelas costas em uma longa trança.

Ben Ata estava sentado em uma cama baixa, na sala clara e arejada, quase desprovida de móveis. Ela percebeu que era a câmara nupcial, preparada para a ocasião. O noivo, porém, com o cotovelo apoiado nos joelhos e o rosto na mão, não se le­vantou à sua entrada. Não havia outro lugar para sentar-se, por isso Al.Ith acomodou-se na beirada da cama, um pouco afastada dele, apoiando-se em uma das mãos, como se tivesse pousado ali, pronta para se levantar rapidamente. Olhou para ele, sem sorrir. Ele olhou para ela e não havia nem a sombra de um sorriso no seu rosto.



  • Muito bem, o que acha deste lugar? — perguntou Ben Ata asperamente. Não sabia o que dizer ou o que fazer.

  • Então, foi construído especialmente?

  • Sim. Ordens. Construído segundo especificações. Exatamente. Terminaram esta manhã.

  • É muito elegante e agradável — disse ela. — Muito diferente de tudo o que tenho visto por aqui.

  • Não é o meu estilo — observou ele. — Mas, se lhe agrada, é tudo o que importa.

Era um galanteio, mas Ben Ata estava inquieto, suspirava continuamente e era óbvio que desejava sair dali o mais depressa possível.

  • Suponho que a finalidade era agradar a nós dois? — perguntou ela.

  • A mim não importa — respondeu Ben Ata com rude violência, suas emoções vindo afinal à tona. — E, obviamente, a você também não.

  • Temos de fazer o melhor possível — observou ela, procurando demonstrar resignação, mas sua voz era desesperada e amarga.

Entreolharam-se, com uma troca sincera de cumplicidade; dois prisioneiros que nada têm em comum a não ser o cárcere.

Esse primeiro e tênue momento de compreensão foi fugaz.

Ben Ata deitou-se no leito nupcial com as mãos sob a cabeça e os pés, calçados de sandálias poeirentas, sobre as co­bertas, que eram de fina lã, tingida de cores suaves, e bordada. Em nenhum outro lugar pareceria tão deslocado. Enquanto olha­va para o teto, como se ela não estivesse presente, Al.Ith teve tempo de reconstruir na imaginação o ambiente habitual dele.

Ela examinou a sala. Era um aposento enorme com arcos que se abriam para o jardim, de dois lados. As outras duas pa­redes tinham portas discretas que davam para os aposentos onde ela já estivera e para os aposentos de Ben Ata. O teto era curvo, alto e canelado. A sala toda era pintada de marfim brilhante com desenhos em ouro, vermelho suave e azul, e as cortinas dos arcos eram bordadas e estavam seguras por prendedores incrus­tados de pedrarias. Ouvia-se o murmúrio das fontes e da água corrente. Não era muito diferente da alegria e da frescura dos edifícios públicos de Andaroun, a nossa capital, embora os apo­sentos de Al. Ith fossem mais simples do que estes.

O grande quarto não estava completamente vazio. Uma coluna erguia-se no centro e curvava-se, dividindo-se em várias outras, caneladas e ornamentadas de ouro, azul-celeste e ver­melho. O assoalho era de madeira suavemente perfumada. Além da grande cama baixa, havia uma pequena mesa, perto dos arcos, com duas graciosas cadeiras.

Um cavalo relinchou. Quase imediatamente, Yori apareceu em uma das portas em arco e teria entrado se Al.Ith não corresse para impedi-lo. Não era difícil adivinhar o que tinha acontecido. O animal fora confinado em algum lugar e fugira, sem que os soldados que o guardavam ousassem segui-lo nos jardins do pavilhão, que há semanas era motivo dos comentários de todos. Ela colocou as mãos nos dois lados do focinho de Yori, trouxe a cabeça dele para si, murmurou alguma coisa, primeiro em uma orelha e depois na outra, e o animal deu meia-volta e desapareceu no jardim, de volta à sua guarda.

Quando Al.Ith se voltou, Ben Ata estava de pé, perto dela, com expressão colérica.


  • Vejo que é verdade o que se comenta. Vocês são fei­ticeiros no seu país.

  • É uma feitiçaria fácil de aprender — respondeu Al. Ith, mas, como ele continuasse a encará-la com desagrado, perdeu a paciência, atravessou rapidamente a sala, foi até o grande leito, jogou no chão uma das almofadas e sentou-se sobre ela, com as pernas cruzadas sob o corpo. Não se preocupou com a idéia de que ele devia fazer o mesmo, ou se devia ficar sentado na cama, mas Ben Ata hesitou, como se tivesse sido desafiado e, jogando outra almofada para um canto, sentou-se como Al. Ith. De frente um para o outro, cada um na sua almofada.

Ela à vontade, pois sempre se sentava assim; ele, mal acomodado, parecia temer que a almofada escorregasse pelo assoalho polido ao menor movimento.

  • Sempre usa roupas como essa?

  • Vesti-as especialmente para você — respondeu ela, e Ben Ata enrubesceu. Desde a sua chegada, Al.Ith tinha visto mais homens irados e embaraçados do que já vira em toda a sua vida e começava a imaginar se não sofriam de algum dis­túrbio sangüíneo ou cutâneo.

  • Se soubesse que você ia chegar assim, teria providen­ciado alguns vestidos. Como ia saber que se veste como uma serva?

  • Ben Ata, nunca uso roupas luxuosas.

Ele olhava a simplicidade do vestido de Al.Ith com desa­grado e exasperação.

  • Pensei que fosse uma rainha.

  • Você se veste como os seus soldados.

Subitamente ele deu um largo sorriso e resmungou algo como: "Tire essa coisa e eu lhe mostro."

Al.Ith sabia que ele estava zangado, mas não imaginava quanto. Nas campanhas, quando o exército chegava a um novo território, levavam uma mulher para a tenda de Ben Ata e a faziam deitar-se no chão, aos seus pés. Quase sempre elas che­gavam chorando. Ou esbravejando e gritando insultos. Às vezes mordiam e arranhavam quando ele as possuía. Outras choravam o tempo todo, sem parar. Algumas cerravam os dentes, sem que se abatesse o ódio que sentiam por ele. Ben Ata não gostava de infligir sofrimento, por isso as mandava de volta para casa. Mas as que choravam ou opunham resistência de um determi­nado modo que ele conhecia davam-lhe prazer e lentamente as dominava. Essas eram as convenções. E ele lhes obedecia. Tinha possuído muitas mulheres, engravidado algumas. Mas jamais se casara, não pretendia se casar, pois esse arranjo com Al.Ith não correspondia ao conceito que fazia do casamento; tinha as idéias sentimentais e imaginosas de um homem que não conhecia as mulheres. Essa mulher que teria de suportar quase indefinida­mente era algo além da sua experiência.



Tudo nela o perturbava. Não deixava de ser bela, com os grandes olhos escuros, cabelos negros e todo o resto, mas nada em Al.Ith o excitava fisicamente.

  • Quanto tempo deverei ficar com você? — perguntou ela, exatamente com o tom de voz seco e frio que ele — som­briamente — esperava dela.

  • Eles disseram alguns dias.

Fez-se um longo silêncio. O quarto, espaçoso e agradável, estava repleto da sonoridade da água corrente e de reflexos das fontes e dos pequenos lagos.

  • Como fazem isso no seu país? — perguntou Ben Ata, reconhecendo que estava sendo rude, mas sem poder imaginar outro modo.

  • Fazemos o que?

  • Bem, todos sabem que têm muitos filhos, para começar.

  • Tenho cinco meus. Mas sou mãe de muitos mais. Mais de 50.

Al.Ith sentia que suas palavras aumentavam a distância entre eles.

  • Segundo nossos costumes, quando uma criança fica órfã eu passo a ser sua mãe.

  • Adota-a.

  • Não usamos essa palavra. Passo a ser sua mãe.

  • Suponho que rente por eles o mesmo que por seus filhos — disse ele, como se estivesse arremedando algo que ela não dissera.

  • Não, não é isso. Além do mais, com 50 filhos não posso ter contato íntimo com todos.

  • Como são seus filhos, então?

  • Todos têm os mesmos direitos. E, sempre que posso, passo o mesmo tempo com eles.

  • Não é a idéia que faço da mãe dos meus filhos.

  • Acredita que é isso que esperam de nós?

A pergunta o deixou furioso. Não pensara muito nessa imposição chocante e ofensiva, reagira apenas emocionalmente. Mas supunha que teriam filhos "para cimentar a aliança" — ou algo parecido.

  • Ora, e o que mais poderia ser? O que pretende? Uma ligação amorosa, com intervalos de várias semanas? Logo com você! — Ben Ata riu com desprezo.

Al.Ith tentava não olhar fixamente para ele — notara que o olhar direto e atento, como era seu costume, o em­baraçava. Além disso, Ben Ata a atraía menos do que ela a ele. Achava grosseiro esse soldado com a pele queimada, os olhos ardentes e cheios de ressentimento, o cabelo amarelado pelo sol, que fazia lembrar o pêlo de uma raça de carneiros das montanhas.

  • A união entre um homem e uma mulher é algo mais do que ter filhos — observou ela.

O bom senso dessas palavras provocou um gemido surdo e Ben Ata bateu com o punho fechado no assoalho ao lado da almofada.

  • Bem, se é assim, devo supor que sabe muito sobre isso?

  • Sim, eu sei — respondeu ela. — De fato, é uma das especialidades da nossa Zona.

  • Oh, não, não, não, não. — Ele levantou-se de um salto e começou a andar pelo quarto dando socos nas paredes delicadas.

Ela, imóvel, as pernas cruzadas, observava-o com inte­resse, como se ele fosse uma espécie nova e estranha.

Ben Ata parou. Aparentemente com esforço. Então, vol­tou-se e com os dentes cerrados foi até onde ela estava, er­gueu-a e atirou-a na cama. Pôs a mão sobre a boca de Al.Ith, como era seu costume, levantou o vestido dela, apalpou-se para verificar se estava pronto, penetrou-a e cumpriu a tarefa, com meia dúzia de movimentos rápidos.

Endireitou-se. Não tirara os pés do chão durante todo o processo. Ainda embaraçado, demonstrou reconhecer que algo estava errado, com um gesto pouco comum para ele: puxou o vestido de Al. Ith para baixo e retirou a mão do rosto dela, gentilmente.

Al.Ith ficou deitada, olhando para ele com expressão va­zia. Paralisada. Não chorava. Não arranhava. Não dizia de­saforos. Também não demonstrava a repulsa instintiva que ele temia ver nas mulheres que possuía. Nada. Ocorreu a Ben Ata que ela parecia estudar um fenômeno totalmente desco­nhecido.



  • Oh, você! — resmungou ele, entre os dentes. — Co­mo fui deixar que me impusessem esse fardo!

E ela deixou escapar uma risada zombeteira. Depois, sen­tou-se na cama, pôs as pernas para fora e de súbito começou a chorar silenciosamente, o corpo todo estremecendo, e, como tinha começado, parou e voltou para a sua almofada. Sentou-se de costas para a parede, os olhos fitos nele.

Ben Ata percebeu que Al.Ith estava com medo dele, mas não se comoveu.



  • Bem — disse ele. — É isso. — Olhou-a de relance, à espera de algum comentário.

  • É isso realmente o que você faz? — perguntou ela. — Ou é porque não gosta de mim?

Então, Ben Ata dirigiu-lhe um olhar que era um apelo e sentou-se na beirada da cama, batendo com, os punhos cerrados nas cobertas.

Nesse momento, Al. Ith compreendeu que ele era um me­nino, não passava de um garotinho. Comparou-o aos seus filhos mais velhos e pela primeira vez seu coração se abrandou.

Ainda com lágrimas nos grandes olhos negros, fitou-o e disse:


  • Sabe, acho que vocês podem aprender alguma coisa conosco.

Ele sacudiu a cabeça vigorosa como se muita coisa esti­vesse chegando aos seus ouvidos de uma só vez. Mas con­tinuou inclinado para a frente, sem olhar para ela, escutando.

  • Por exemplo, já ouviu dizer que se pode escolher o tempo para ter filhos?

Ele estremeceu. Mais uma vez ela falava sobre filhos. Bateu com o punho na cama e depois ficou imóvel.

  • Não sabe que a natureza de uma criança pode ser determinada pelo modo como é concebida?

Ele sacudiu a cabeça. Suspirou.

  • Se eu ficar grávida — o que pode acontecer — essa criança não terá motivo nenhum para nos agradecer.

Subitamente, ele atirou-se na cama, de bruços, e ficou imóvel, com os braços abertos.

Outro longo silêncio. O leve odor do sexo era uma desagradável lembrança do desejo animal, e Ben Ata ergueu os olhos para ela. Al.Ith estava sentada, as costas contra a pa­rede, muito pálida, cansada, e tinha uma marca ao lado da boca onde ele apertara com o polegar.

Ben Ata gemeu.


  • Parece que posso aprender com você — disse, e sua voz agora não era a de um garotinho.

Ela assentiu com a cabeça. Olhos nos olhos, compreen­deram que eram ambos infelizes e que não sabiam o que esperar um do outro.

Al.Ith levantou-se e foi sentar-se ao lado dele, na cama. Colocou as mãos pequeninas, uma de cada lado do pescoço de Ben Ata, enquanto ele continuava de bruços, com o queixo apoiado nas costas da mão fechada.

Afinal, ele virou-se. Custava-lhe olhar para ela.

Segurou as mãos de Al.Ith e ficou imóvel. Ela, em si­lêncio ao seu lado, tentou sorrir, mas seus lábios estavam trêmulos e as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Com uma exclamação breve, Ben Ata fê-la deitar-se ao seu lado. Com surpresa sentiu os próprios olhos marejados.

Tentou reconfortar aquela estranha mulher. Sentiu as mãos pequeninas nos seus ombros, com uma leve pressão de consolo e de pena.

E adormeceram juntos, cansados afinal.

Foi o primeiro ato de amor entre os dois, o aconteci­mento que acalorava a imaginação de dois reinos.

Ele acordou, imediatamente alerta. Todos os sentidos funcionando ansiosamente, mapeando o espaço que o rodeava de medo estranho, habituando os ouvidos aos sons murmuran­tes que sugeriam perigo. A entrada da tenda estava aberta... mas a abertura era maior do que deveria ser; teria sido des­mantelada pelo vento ou por um ataque inimigo? Água.., água corrente e subindo; os canais estavam transbordando e logo estaria dentro d'água? Pronto para aceitar nos tornozelos o abraço frio de uma calamitosa enchente, lançou as pernas para fora da cama, para o assoalho seco, e deu alguns passos largos, gritando para seu ordenança com uma voz assustada e rouca, própria dos pesadelos, quando percebeu que o que pensara ser a abertura da tenda era a curva da alta coluna central onde ela se encontrava com o teto. Lembrou-se ime­diatamente. Voltou-se, no escuro, esperando o riso zombeteiro daquela mulher, Al.Ith. Mas não conseguia ver a cama. Tudo o que desejava era sair daquele lugar para sempre. Compreendeu que confundira o canto das fontes com o rumor de uma

inundação e pensou, em pânico, que talvez estivesse fora de si. Sentia-se enfraquecido, castrado, um covarde... Estreme­ceu sentindo a amargura que secava sua boca. Estava simplesmente chocado — com a situação, cons;go mesmo, com ela. Mas, se havia algo que compreendia muito bem era a obediência. Uma ordem o levara àquele pavilhão efeminado e o dever o levaria de volta àquela cama. Convencido de que ela devia estar acordada, observando-o, caminhou cuidadosamente no escuro, até suas pernas sentirem a maciez das cobertas. Inclinou-se e estendeu a mão, procurando o corpo dela — procurando-a. E, então, suas mãos frenéticas apalparam a cama vazia. Ela fugira! Alívio! A culpa era exclusivamente

dela, não dele! Não teria de fazer nada! Mas esses sentimentos foram logo substituídos pela indignação e pelo desejo de conquista. Se ela escapara, devia ser apanhada. As confusões e indecisões dos últimos minutos combinaram-se, gerando um fluxo de energia. Chegou a assobiar alegremente — então, pensou que ela poderia estar no quarto, talvez atrás de uma coluna, observando-o. E rindo dele. Voltou-se rapidamente e tateou ao redor da coluna. Nada. Ia chamar o ordenança quando se lembrou de que não havia ninguém ali. Não se importava com isso: este rei sentia-se feliz quando em campanha, um soldado entre soldados, diferindo deles apenas na obrigação de tomar as decisões. Mas importava-se por estar a sós com ela, sem a presença nem mesmo de empregados. Encarcerado com uma mulher. Com esta mulher. Que, como feiticeira que era, devia estar em algum canto, enxergando no escuro. A cólera deu forças à sua decisão. Envolveu-se no manto militar e caminhou até a porta que dava para a fonte.

Acordara no escuro e não sabia as horas. Nos acampa­mentos, uma sentinela parava do lado de fora da sua tenda e anunciava — não com um chamado, mas com uma informa­ção — a passagem de cada meia hora. Se estivesse acordado, precisava saber em que região estava do país da noite. Do qual não gostava, que encarava com desconfiança. Gostava de deitar-se logo depois da refeição da noite e dor­mir até as primeiras horas da manhã, sem tomar conhecimento das horas noturnas — mas, se por algum motivo ficava acor­dado, esperava ouvir a voz grave e confortadora da sentinela.

Agora, parou no arco de entrada, o quarto escuro às suas costas, olhando os outros arcos e pórticos, e imediatamente teve certeza de que estava a uma hora do nascer do sol, embora não houvesse lua nem estrelas no céu e nuvens baixas passassem rapidamente. Um vulto irregular marcava o longo retângulo do pequeno lago onde brincavam sete jatos de água. As dimensões do pavilhão, das construções adjacentes, as vias de acesso, as galerias que o circundavam, os jardins, os vários lagos e fontes, as aléias e os degraus que levavam de um nível a outro — tudo especificado exatamente, determinado, medido, e nais medidas mais absurdas — em metades, quartos e pequenas frações e pedaços, irregularidades e formas inesperadas. Os arquitetos, que naturalmente jamais haviam construído outra coisa que não fossem fortes, torres e quartéis, durante anos, estiveram a ponto de se amotinar. De qualquer modo, esse lago especial, longo e estreito, ou canal, como ele o tinha classificado ao ver as plan­tas, devia ter, segundo as especificações, sete jatos d'água. Não dez, ou cinco, ou 20, mas sete. E o lago oval, atrás dele, tinha três, de tamanhos diferentes.. . um grupo de nove árvores de especiarias fora plantado ao lado dos lagos e sob elas ele dis­tinguiu alguma coisa sombria e estranha. Mas era grande demais para ser uma mulher. Ouviu o ruído de movimento. Percebeu que era um cavalo — aquele maldito cavalo! — e seus olhos, adaptados agora à escuridão, viram que ela estava sentada imóvel em uma das extremidades do longo lago, entre este e o lago oval, em uma elevação de pedra ou terraço formado por um círculo com o raio de exatamente 2,29m. Os pedreiros que o tinham construído disseram jocosamente que seria uma boa cama. Oh, as piadas, as brincadeiras, ele as abominara, estava farto delas, farto dessa coisa toda... não sabia se ela podia vê-lo. Mas ocorreu-lhe que, se ele a via, naturalmente Al.Ith podia enxergá-lo também.

Mas nada havia de ridículo em sua atitude, ali parado, as pernas afastadas, os braços cruzados, uma postura militar abso­lutamente correta.

Pensou que estava ainda alerta e pronto para o movimento porque persistiam ainda as expectativas de uma perseguição, de uma procura: se ela estava ali sentada, não seria preciso per­segui-la como a uma fugitiva desesperada pelos pântanos e alagados, com a metade do seu exército e ele à frente... portanto, ficou menos tenso.



Não faria o primeiro movimento de aproximação. Não que­ria cumprimentá-la. Não sentia nenhum impulso amistoso. Esquecera-se do momento de ternura que os unira, e, se pensasse nele, o teria repudiado.. . ficou ali parado por alguin tempo. Minutos. Ela não esboçou o menor movimento. Ben Ata distinguia o rosto de Al.Ith como uma mancha branca e bri­lhante. O vestido lúgubre e escuro naturalmente era absorvido pela noite. Acreditava que ela devia odiá-lo. Ben Ata sentia o cheiro da brisa leve e úmida que precedia o amanhecer. Gostava de ser acordado por aquele vento suave, que se esguei­rava sorrateiramente sobre a terra, movendo os arbustos, trazendo o odor da relva e da água. Durante as marchas do exército, sempre acordava quando esse vento soprava, comparando-o então com os ventos de chuva que açoitavam suas terras planas muitas vezes por semana, seguidamente... sem perceber, começou a andar ao longo do lago. Estava ainda com as sandálias e não era possível evitar o ruído dos seus passos e surpreendê-la. Estava ainda imóvel. Aproximara-se de Al.Ith, passando pelos sete jatos d'água idiotas, alcançando a borda do pequeno terraço, quando ela voltou a cabeça e observou:

  • Está muito agradável aqui, Ben Ata.

  • Posso ver que não dormiu bem!

  • Nunca durmo mais de duas ou três horas.

Isso o aborreceu: naturalmente ela estaria em casa du­rante a noite — onde mais poderia estar?

E como não havia nada mais a fazer, ele sentou-se na outra extremidade do terraço, longe dela.



Agora percebia que havia dois cavalos sob as árvores, o dela — negro — e outro, branco. Distinguia o primeiro apenas porque estava muito próximo do outro, tuna sombra escura contra a forma branca.

  • Vejo que no seu país vocês têm cavalos como nós te­mos cães.

  • Não, Ben Ata.

Ele ouvia na voz dela — mal podia distinguir-lhe o rosto — um tom conciliatório ou talvez um pouco temeroso? Sen­tiu o sangue acelerar-se nas veias à idéia de que ela estivesse com medo, mas logo se acalmou. Suspirou. Era como se es­tivesse sob a pressão de um peso leve. O entusiasmo evaporou- se. Todo o seu ser, suas memórias, suas esperanças diziam-lhe o quanto essa mulher era estranha, como essa estranheza pesava sobre ele, oprimindo-o. Vasculhava freneticamente na memória a lembrança de mulheres com as quais pudesse compará-la, para uma orientação, pois sinceramente Ben Ata pretendia tentar compreendê-la. Mas não havia nada parecido, nem mesmo remotamente. Sua mãe? Certamente que não! Sua mãe tinha sido uma mulher tola — na sua opinião. Mas, na verdade, não estivera com ela, realmente, depois dos sete anos, quando foi mandado para o exército, para começar seu treinamento. Suas irmãs? Também não voltara a vê-las a partir dessa idade, a não ser em breves encontros durante suas visitas à casa e tinham se casado e viviam em regiões distantes da Zona Quatro. As mulheres dos seus oficiais? A questão era que jamais fora perturbado por uma mulher, e era isso o que estava acontecendo agora. Ela nunca reagia de acordo com suas ex­pectativas. Ben Ata estava tenso e irritado como um cavalo malconduzido... cavalos outra vez. Na verdade, não gostava de cavalos. E não se lembrava de ter alguma vez pensado se gostava ou não; eles estavam ali, era tudo.

  • Ben Ata, quando me levantei e vim para cá, vi meu cavalo ao lado da fonte. Pensei que não tinha sido bem tratado, mas não era isso. Ele não estava com fome ou com sede...

Ambos ouviram o ar ser exalado lentamente dos pulmões de Ben Ata, não um suspiro de exasperação, mas de pura incredulidade, uma espécie de paciência atônita e imposta.

  • ...mas ele estava perturbado e fugiu do curral para me encontrar. Por isso acordei, creio. Mas não é fácil saber exatamente o que aconteceu. Mandei que ele fosse buscar um dos seus amigos...

Mais uma vez Ben Ata soltou o ar lentamente: agora, um suspiro cauteloso.

  • O que me admira — disse ele com voz suave, hesi­tante, como se estivesse experimentando um novo tipo de sar­casmo — é você não ter ido aos estábulos para trazer o ca­valo.

  • Mas, Ben Ata, você sabe que não posso sair deste lugar. Não sem o meu escudo. Estou confinada ao pavilhão e aos jardins. Se sair, o ar da Zona Quatro me fará adoecer.

  • Está certo, está certo. Tinha me esquecido. Não, não me esqueci... mas... oh, pelo amor de Deus, não...

Imprecações de toda a espécie recusavam-se a sair dos seus lábios e ele ouviu as próprias palavras como se fossem pronunciadas por um estranho.

  • Ele se foi. Depois de algum tempo, trouxe este cavalo branco. Conhece este animal?

  • Não.

  • Os dois chegaram no momento em que você apareceu na porta. Olhe para eless Ben Ata.

De fato, ele podia ver que os animais estavam parados lado a lado com as cabeças baixas. Eram a própria imagem do desânimo.

  • Vou até lá. — E ela caminhou descalça, passando pelas fontes. Agora ele a distinguia claramente contra o céu do nascente. Uma imensa sombra cinzenta cobria a terra. Farrapos de nuvens passavam céleres e baixo. Ben Ata a seguiu, a contragosto, e os animais, ao vê-la, saíram de sob as árvores e aproximaram-se, de cabeça baixa. Ele a viu acariciar o ca­valo negro, depois o branco; viu-a curvar-se, falando ora com um, ora com o outro. Viu as mãos dela sobre o pêlo úmido. E, então, ela passou um braço ao redor do pescoço de cada um e ficou imóvel, entre eles. Em seguida, afastou-se, bateu palmas uma vez e eles desceram a colina a galope, saltando agilmente o muro da cocheira.

Al.Ith voltou-se. Agora ele podia ver seu rosto. Pálido e preocupado. O cabelo, solto sobre os ombros, umedecido com pequenas gotas de orvalho. Ao lado da boca, a marca de sua mão. Ao vê-la, Ben Ata sentiu uma necessidade pre­mente de agarrá-la e abraçá-la com força — não com amor ou desejo, com algo muito diferente. Um impulso de bruta­lidade quase tomou conta dos seus sentidos. Mas sentiu a mão pequenina na sua e ficou completamente desarmado. Talvez, em sua infância, alguém tivesse segurado sua mão com con­fiança e amizade, mas, depois disso, jamais.

Não podia acreditar! No momento em que tentava con­trolar impulsos de pura hostilidade e repulsa, ela colocou a mão na dele, como se fosse a coisa mais natural. A mão de Ben Ata estava rígida e esquiva.

Então, ela apressou o passo e andou na frente dele, pas­sando pelas flores, pelas fontes, até chegar ao terraço redondo, onde se sentou, com os pés descalços sob a saia do vestido.

Os pensamentos de Ben Ata giravam num torvelinho de atônito protesto. Esta grande rainha, esta conquista — pois não podia deixar de pensar dessa forma — era mais simples do que as mulheres que cuidavam do gado.



Ela ergueu os olhos para ele, insistente, preocupada:

  • Ben Ata, alguma coisa está errada.

Outro suspiro profundo.

  • Se você acha.

  • Sim. Sim, eu acho. Diga-me, seus rebanhos, seus ani­mais, tem havido algum caso de doença?

Agora ele a olhou de frente, sério, pensativo.

  • Sim, houve alguns relatórios. Mas, espere um pou­co... ninguém parece saber do que se trata.

  • E o índice de nascimentos entre eles?

  • Baixou. Sim, está mais baixo. — Embora confir­mando o que ela temia, não pôde conter o sarcasmo: — E o que os dois cavalos lhe contaram?

  • Não sabem o que está errado. Mas estão abatidos, todos eles. Perderam a vontade de se acasalar... — Perce­bendo a iminência da zombaria inevitável, continuou rapi­damente, ignorando-a — e ignorando-o, sentiu Ben Ata. — Não, escute-me, Ben Ata. São todos os animais. Todos. E os pássaros. E, como sabemos, isso significa o reino vegetal também, se não agora, muito em breve...

  • Como, sabemos?

  • Sim, naturalmente.

Apesar da tentativa de zombaria, os olhos dele fitaram os dela com seriedade, com uma interrogação interessada. Acreditava nela. Estava atento e pronto a fazer o que fosse possível. Esse modo de encarar o assunto os aproximou mais do que nunca, mas não no sentido de Ben Ata sentir conforto ou segurança no contato físico entre os dois.

  • O número de nascimentos continua o mesmo?

  • Não, não continua. Tem havido um decréscimo cons­tante.

  • Sim, entre nós também.

  • Certas partes da periferia da nossa Zona estão completamente abandonadas.

  • Sim, o mesmo se dá conosco.

Ficaram em silêncio por longo tempo. Varando o ar úmi­do do céu, a leste, a luz do sol nascente começava a surgir. As nuvens eram flocos de ouro pálido e uma névoa dourada envolvia tudo. As árvores perfumadas engrinaldavam-se de ar­co-íris, e lanças de luz opalina rasgavam a neblina que se erguia dos pântanos. A água jorrava das fontes e seu canto parecia abafado pela umidade geral.

  • Suponho que seja bonito — disse ela com voz baixa e desanimada, e de súbito deu uma gargalhada cheia de calor.

  • Ora, vamos, não é tão mau assim — disse ele. — Vai ver, quando o sol nascer e tudo estiver seco. Temos dias muito agradáveis aqui, pode estar certa.

  • Espero que sim! Ponha a mão no meu vestido, Bem Ata!

Mas esse convite os fez voltar no tempo. Não fora um ato provocante, e ser convidado a tocar o vestido dela por qualquer outro motivo o ofendia. Segurou a fazenda entre o polegar e o indicador e disse que estava úmida.

  • Ben Ata, erramos em alguma coisa. Nossas duas Zo­nas. Um erro sério. O que vamos fazer?

Ele largou o vestido. Franziu a testa.

  • Por que não nos dizem o que está errado, simples­mente, e acabam com isso? Assim poderíamos reparar o erro. — Ele viu o leve sorriso de Al.Ith. — Muito bem, o que há de errado nisso?

  • Acho que querem que encontremos a solução por nós mesmos.

  • Mas, por quê? Para quê? Qual a utilidade disso? É perda de tempo!

  • Não é assim que as coisas são conduzidas... creio que é isso — disse ela, quase num sussurro.

  • Como sabe? — Mas, ao fazer a pergunta, percebeu que a resposta já fora dada. — Há quanto tempo você não recebia uma Ordem?

  • Tanto que ninguém se recorda. Mas temos velhas his­tórias. E canções.

  • Bem, eu naturalmente não me lembro de nada. Quan­do me tornei rei nada me foi dito. Quando a Ordem chegou, lembrei-me apenas de que devia ser obedecida. Disso eu sabia. Mas era tudo.

  • Em toda a minha vida, não recebemos nada. Nem no tempo da minha mãe.

  • E a mãe dela?

  • Nada, durante gerações de Mães.

  • Ah! — exclamou ele, rápida e evasivamente.

  • Quer saber, acho que as coisas estão muito sérias. Muito mal. Perigosas. Só pode ser!

  • Você acha mesmo?

  • Bem, para estarmos juntos deste modo. Por causa da Ordem. Não percebe?

Ele ficou novamente em silêncio. Franziu a testa. Sus­pirou, sem perceber que o fazia, pelo esforço de pensamentos aos quais não estava habituado — não costumava questionar esses assuntos. Al.Ith o observava: este Ben Ata, quieto, pen­sando, tentando desvendar o significado daquele dilema — deste homem ela poderia vir a gostar. A respeitar. Mais uma vez sua mão procurou a dele, num impulso de amizade, e a mão forte de Ben Ata fechou-se sobre a dela como um alça­pão prendendo uma ave. Abriu-a rapidamente, e Al.Ith viu-o olhar para sua mão e a dele com ar de incredulidade. E, então, olhou-a com uma expressão indefesa no rosto moreno.

Ela suspirou, retirou a mão rapidamente e levantou-se.

Voltou as costas para o amarelo dourado do leste e olhou para o céu por sobre os ombros dele. Via as montanhas e os altos picos do seu reino.


  • Ohhhh — suspirou —, olhe... não tinha idéia... não tinha a menor idéia...

As montanhas da Zona Três erguiam-se a mais de um terço da altura da direção do zénite. Ela ficou com a cabeça inclinada para trás olhando para as formas majestosas ilu­minadas. O sol nascente refletia brilhos de cristal e os cumes agudos dos picos mais altos pareciam envoltos em nuvens cor-de-rosa, vermelhas e douradas — mas não eram nuvens, era a neve acumulada de milhares de anos. E lá embaixo, recortada sobre a massa de montanhas, estava a borda escura, rochosa, circundada por um forte de pedra, a escarpa que ela descera na véspera. A vasta planície que se estendia da escarpa e do sopé do planalto, a base das inúmeras cadeias de montanhas da nossa terra, não podia ser vista daquele ponto. Ninguém poderia adivinhar a sua existência. Os habitantes dessa zona baixa e pantanosa jamais poderiam imaginar, olhando para as cadeias de montanhas, as infinitas variações de uma pai­sagem e de um país invisíveis para eles. Al.Ith estava de pé, as mãos cruzadas atrás da cabeça, olhando para cima, mais para cima, sorrindo de satisfação e cheia de saudade, e cho­rando de felicidade.

Ben Ata observava-a atentamente. Sentia-se pouco à von­tade.



  • Não faça isso — disse ele asperamente.

Com relutância, ela baixou os olhos e viu a desaprovação

dele.


  • Mas, por que não?

  • Não é direito.

  • O que não é direito?

  • Nós não encorajamos isso.

  • O quê?

  • Devaneio, nós chamamos.

  • Você quer dizer, as pessoas não olham para cima, para toda... toda aquela glória?

  • Ê debilitante.

  • Mas não acredito que seja, Ben Ata!

  • Mas é. Essas são as leis.

  • Se eu tivesse de viver lá embaixo, acho que não con­seguiria tirar os olhos dessa cena. Olhe, olhe... — E ela abriu os braços, exultante, para os vastos panoramas de luz e cor que enchiam os céus do nosso ocidente. — Nuvens! — cantou ela. — Não são nuvens, é o nosso país, é lá que estamos.

  • Temos certos momentos para contemplar as monta­nhas. Momentos determinados. Festivais. De dez em dez anos. Fora disso, as pessoas que passam muito tempo olhando para elas são punidas.

  • E como são punidas?

  • Colocamos pesados fardos em suas cabeças para não poderem olhar para cima.

  • Ben Ata, isso é cruel.

  • Eu não fiz a lei. Sempre foi a nossa lei.

  • Sempre, sempre, sempre... como sabe?

  • Não acredito que isso tenha sido jamais questionado. Você é a primeira.

Al.Ith sentou-se ao lado dele. Bem perto. Mais uma vez Ben Ata evitou o contato, instintivamente. Essa exultação, esse encantamento eram detestáveis. Mal suportava olhar para o rosto dela radiante e sorridente. Mas sentiu-se aliviado; afinal ela não era sempre tão pálida e séria. O rosto de Al.Ith, iluminado agora pela luz rosada das montanhas distantes, tinha o colorido e a graça de uma face de menina, e os cabelos abundantes, pontilhados com pérolas de orvalho, dançavam, emoldurando o sorriso.

Mas:


  • Não deve olhar assim. É contra a lei. Enquanto estiver aqui, deve obedecer às nossas leis.

  • Sim, faz sentido — murmurou ela, desviando os olhos.

  • Quando estiver no seu país naturalmente poderá agir como quiser. — Ben Ata a fazia lembrar de seu irmão que fora administrador da sua casa por muitos anos, antes de pedir transferência para o posto de curador das Memórias.

  • Mas, no nosso país, é assim que somos, Ben Ata.

Como se atingida por um súbito raio luminoso, Al.Ith sen­tiu-se atordoada.

  • Ben Ata, tive uma... — mas já passara. Al.Ith se­gurou o rosto com as duas mãos e balançou-se para a frente e para trás, tentando lembrar-se daquilo que tão rapidamente pas­sara por ela.

  • Está doente?

  • Não, não estou. Mas quase cheguei a compreender al­guma coisa.

  • Muito bem, avise-me quando tiver compreendido.

Com essas palavras, o soldado levantou-se e — por um

breve momento — olhou para a glória das montanhas paradisíacas destacando-se contra o céu: Resmungou: "E muito certo proibir que as pessoas percam tempo com isso", e, des­viando os olhos resolutamente, marchou para os pavilhões. Al.Ith acompanhou-o, com passos lentos, ao lado do lago estreito, passando pelos jatos d'água, um, dois, três — lançou tam­bém um último olhar ao seu país, desviou os olhos para os sete chafarizes que toldavam a superfície do lago, impedindo-a de refletir o céu cinzento e pesado.

Dentro do pavilhão, tudo os esperava. O quarto imenso, silencioso, arejado, reluzente, com seus desenhos delicados e cores brilhantes. A cama era baixa e larga, mal desfeita pelo encontro dos dois. Através dos arcos via-se apenas a paisagem acinzentada. Chovia e a encosta ajardinada que descia para os acampamentos estava envolta em névoa.

Ben Ata estava no meio do quarto, ao lado da coluna, observando Al.Ith com uma expressão de cômico embaraço. E ela sorriu para ele.

Nesse momento sentiram-se unidos por amizade. Companheirismo. Eram ambos, sem dúvida, representantes e perso­nificações dos seus respectivos países. Preocupados com seus reinos. Nele, essa preocupação tomava a forma de obediência. Dever. Nela, a compulsão restrita era amenizada pela respon­sabilidade sobre acontecimentos e situações, mas ainda eram iguais. Seu povo era o que eles eram, o que eram seus pensa­mentos. Suas vidas não poderiam ser nada mais, ou menos... contudo, agora ambos compreendiam profundamente, e isso os chocava no mais íntimo do ser, que todo esse cuidado e esses deveres não os tinham impedido de errar... Entreolhavam-se, sem desviar os olhos, tentando penetrar aqueles olhos acinzen­tados e pensativos dele, o brilho suave dos olhos negros dela, para alcançarem algo mais profundo, alcançar um ao outro.


  • O que vamos fazer, Ben Ata? — murmurou ela.

Desta vez foi ele quem estendeu a mão e Al.Ith, aproximando-se, tomou-a entre as suas.

  • Precisamos pensar — disse ela. — Precisamos tentar descobrir...

Então, ele passou os braços fortes cuidadosamente pelos ombros dela, como se temesse que seu tamanho e seu peso a esmagassem, e como se estivesse tentando, experimentando sensações completamente novas e não de todo bem-vindas e, evi­tando a marca ao lado da boca de Al.Ith, olhou aquele rosto que lhe parecia feito de uma substância ou de uma luz que ele ja­mais esperaria, nem desejaria possuir. Beijou-a, desajeitado como um garoto. Sentiu os lábios dela respondendo com uma vivaci­dade que ainda o alarmava. Beijos rápidos e leves, o gosto sutil do sorriso e do companheirismo descontraído, a provocação, a resposta na resposta na resposta — tudo isso era uma imposição excessiva, e, depois de alguns minutos, ele levou-a mais uma vez para o grande leito. Não deixou de notar que, quando a manteve imóvel para penetrá-la, Al.Ith enrijeceu o corpo como se tudo nela o repudiasse. Sentiu isso e comparou com as ca­rícias sensuais que ele havia interrompido. Os modos dela pa­reciam-lhe estranhos, difíceis, além do seu alcance. E os seus pareciam-lhe agora rudes... ele só conseguia penetrá-la e pos­suí-la depois de um olhar furtivo à marca deixada pelo seu dedo no rosto dela, e isso o envergonhava agora, enquanto ejaculava, gemia e finalmente ficava imóvel. Ele estava estranhamente aca­brunhado pelo remorso.

Al.Ith ficou imóvel, os olhos muito abertos cheios de mágoa.



  • Muito bem — disse ele. — Sei que me acha um bruto.

  • Vocês têm péssimos hábitos no seu país — observou ela, afinal, com voz fria. Mas Ben Ata tinha esperança de que o companheirismo de há pouco voltasse.

Ele levantou-se rapidamente, envolveu-se no longo manto e cobriu as pernas dela com o vestido azul.

  • Sabe o que vou fazer? — sibilou, com voz autoritária. — Vou mandar vir alguns vestidos da cidade.

Al.Ith começou a rir. Balançava a cabeça levemente de um lado para outro, com a mão sobre a boca, mas estava rindo. Ben Ata sorriu, aliviado, embora soubesse que aquele riso podia muito bem ser pranto.

  • De qualquer modo, está na hora de comermos alguma coisa — disse ele. E, mais do que nunca, parecia o irmão de Al.Ith, o administrador, e ela riu, mas, depois, virou-se na cama, colocou os braços sobre a cabeça e disse:

  • Saia daqui, saia daqui, deixe-me sozinha!

Ben Ata obedeceu e foi rapidamente para os aposentos que lhe tinham sido destinados, à direita do pavilhão central.

Ele tomou banho, trocou de roupa. Vestiu uma túnica pró­pria para cerimônias especiais, pois não encontrou no guarda- roupa nada que lhe parecesse apropriado para esse encontro amoroso, para essa primeira refeição nupcial.

Voltou então ao quarto central. Al.Ith estava ainda nos seus aposentos. Ben Ata sentou-se à pequena mesa ao lado dos arcos, na frente de uma janela onde a chuva, trazida pelo vento úmido, batia sonoramente, e, apoiando o queixo na mão, medi­tou sobre os dilemas de ambos como soberanos. Assim ela o en­controu mais tarde, tão imerso em pensamentos que não a viu chegar.

Al.Ith encontrara um roupão de linho branco, leve, deixado por uma das empregadas que fizera a limpeza do pavilhão. Ti­rou o vestido azul, vestiu o roupão e foi para Ben Ata — que reconheceu imediatamente a roupa da empregada, assim que deu pela presença dela.

Não fez nenhum comentário. Notou que o branco ficava bem nela. Pensou que Al.Ith era razoavelmente bonita, ou seria, se conseguisse demonstrar maior boa vontade para agradar-lhe. Mas ela estava séria novamente, o que combinava com o que ele sentia naquele momento.

Entre as duas cadeiras havia uma pequena mesa quadrada feita de madeiras coloridas e lavradas. Feita também segundo as especificações da Ordem.

Ben Ata perguntou:


  • O que quer comer?

Antes que ela pudesse responder, Ben Ata bateu palmas e apareceram sobre a mesa frutas, pão, uma bebida quente e aro­mática.

  • Muito frugal — observou ele, e bateu palmas nova­mente. Desta vez surgiu um prato de carnes e um tipo de bis­coito sólido que os soldados costumavam comer quando em campanha.

  • Muito frugal — observou ela.

  • Não está impressionada com o meu pequeno truque? — perguntou Ben Ata, secamente, mas com uma insinuação de fraterno desafio.

  • Sim, mas creio que faz parte das coisas fornecidas pela Ordem.

  • Sim, é verdade. Já tinha visto algo parecido?

  • Não, nunca.

  • Bem, é só pensar em alguma coisa, e ela aparece. — E ela percebeu, pelo prazer infantil estampado no rosto dele, que Ben Ata estava a ponto de fazer algo mais se materializar.

  • Não, não faça isso — disse ela. — Não devemos abusar.

  • Tem razão. Naturalmente. — E ele começou a comer pondo enormes garfadas na boca.

A refeição foi deliberadamente prolongada pelos dois. Ao que parecia, apreciavam-se mais quando estavam desempe­nhando o papel de soberanos responsáveis — pensativos, sérios. Ben Ata dizia a si mesmo que teria preferido que Al. Ith se comportasse como as mulheres às quais estava acostumado, mas na verdade começava a aceitá-la, a confiar nela. Quanto a Al.Ith, só podia ignorar a aversão natural pelo tipo físico de Ben Ata e pelos seus modos quando o via pensativo, tentando aproxi­mar-se dela para compartilharem os problemas que os defron­tavam.

Falaram mais do que comeram e ficaram ali sentados, observando a chuva interminável que passava com o vento lá fora dos arcos, envolvendo-os em uma quietude tranqüila.

No fim da tarde, a chuva parou, e os dois, descalços, caminharam ao redor das fontes que fielmente se lançavam nos pequenos lagos, transbordantes agora. Andavam com os pés mer­gulhados na água morna. Ben Ata arrastava os pés e chutava a água, como uma criança. Al.Ith pensou que ele parecia estar preso a uma longa correia. Era uma imagem tola e desagradável. Ali estava um homem incapaz de se distrair descontraidamente. Parecia sentir-se culpado, passível de punição. Depois de algum tempo, ela sugeriu que entrassem, e a reação de Ben Ata, o ar sério e formal, parecia a de uma criança a quem tivessem cha­mado a atenção. Al.Ith olhou rapidamente para as montanhas do seu país, agora levemente iluminadas pelo sol que se punha atrás delas no céu azul cristalino, e viu-o apertar os lábios e sa­cudir a cabeça. Para ela não havia meio-termo — licença ou proibição, uma ou outra! Mas, quando chegaram ao pavilhão, estavam calmos e voltaram a conversar.

Não tinham chegado a nenhuma conclusão sobre o que estava errado nos dois reinos, nem sabiam onde tinham errado — pois estava claro para ambos que esse tinha sido o caso. Contudo, a todo momento pareciam estar perto de uma revelação que continuava fora do seu alcance.

As sombras do cair da noite envolveram o pavilhão e as luzes se acenderam nas sancas caneladas do teto. Os dois esta­vam andando de um lado para outro na sua prisão. Ambos sabiam que era isso o que sentiam. Mas não lhes era possível colocarem-se um no lugar do outro o suficiente para uma com­preensão total. Ben Ata sentia, em cada partícula do seu ser, a necessidade de afastar-se daquele ambiente, e dela, daquela mu­lher cuja simples presença provocava nele uma resistência ir­ritada, enquanto andava para lá e para cá, sua passagem por ele provocando em seu corpo um protesto e uma repulsa. Jamais experimentara nada parecido em toda a sua vida. Mas também jamais passara tanto tempo sozinho com uma mulher, muito menos uma que conversava com ele e, em sua opinião, "com­portava-se como um homem". Esses surtos emocionais eram tão intensos que, quando diminuíam, sentia-se atônito, imaginando se não estaria doente. Voltaram os pensamentos das possíveis habilidades dela nas artes mágicas. Quanto a Al.Ith, estava pe­sarosa, triste, com vontade de chorar. Eram emoções estranhas para ela. Não se lembrava de ter sentido antes essa necessidade premente e intensa de chorar, sucumbir, deitar a cabeça no ombro de alguém — não de qualquer um, e muito menos de Ben Ata. Entretanto, mais de uma vez surpreendeu-se desejando que ele a carregasse de novo para aquele leito baixo, não para "fa­zer amor" — certamente que não, pois ele era um bárbaro —, mas para envolvê-la em seus braços. Essa urgência a intrigava e inquietava. Com certeza estava sofrendo os efeitos do ar dessa Zona, tão debilitantes e desanimadores. Apesar do escudo, das dimensões especiais do pavilhão, talvez tivesse sido corrompida de alguma forma. Todo o seu ser desejava estar livre e de volta ao seu reino, onde todos esperavam sentir uma leveza de espírito amiga e descontraída, e onde as lágrimas eram sinal de doença física.

A caminhada dos dois pelo grande quarto tornou-se tão intensa que ambos riram, mas de súbito ele deixou escapar uma exclamação abafada, que ela facilmente reconheceu como o si­nal de alguém chegando ao limite da resistência, e disse:

— Preciso sair e tratar de algumas coisas... — e desapa­receu na noite, descendo a pequena colina.

Ela sabia que ele fora para os acampamentos — eram o seu lar.

Al.Ith começou a respirar com mais facilidade. Mas, en­quanto continuava a andar pelo quarto, as palavras chegaram-lhe claras como se tivessem sido ditas ao seu ouvido: "Está na hora de você voltar para casa, agora, Al.Ith. Deverá voltar, mais tarde, mas agora vá para casa."

Não duvidou de que eram as palavras da Ordem. Animou- se imediatamente. Sem perder tempo para trocar de roupa, saiu como estava, correndo na direção oposta àquela que Ben Ata tomara, e, parando no meio das fontes, chamou o seu cavalo. Apenas pensou que ele devia vir para ela. Logo o ouviu galopar na subida da colina e atravessar os jardins e os lagos. Es­tava montada e na estrada que levava para oeste antes mesmo que Ben Ata tivesse chegado ao acampamento dos seus soldados.

Al.Ith não temia ser detida. Estava escuro. Tinha apenas de seguir a estrada reta, sem cruzamentos, sempre em frente, passando pelas linhas de árvores podadas que pareciam montes de ramos fracos cobertos de folhas, de um lado, e o canal, do outro. Poucas pessoas saíam à noite, nesse lugar. Na verdade, Ben Ata ficara chocado ao saber que em seu país aproveitavam a noite para visitas, festas e todo o tipo de divertimentos. Tinha concordado que o ar na Zona Três não era tão perigoso quanto, teve de admitir, o da sua Zona. Al.Ith achou-o desagradavelmente pesado e úmido, e, muito antes da aurora, a estrada co­meçou a subir, na direção da escarpa da beira do planalto. Não podia ser detida pelos soldados deste lado da fronteira. Arrancou as mangas do robe que usava e envolveu com elas as patas de seu cavalo. E continuou, silenciosamente.

Não viu os rebanhos ao passar por eles, mas ouviu-os e pensou no pobre menino assustado que se deitara aos seus pés. Não viu o grande vulto do lugar "perigoso", e prometeu a si mesma que, em sua próxima visita, que era inevitável, pergun­taria a Ben Ata sobre ele. Não viu pessoa alguma na estrada. Ouviu o canto e as vozes altas dos soldados, não muito longe da fronteira, mas passou por eles sem dificuldade.

Quando a aurora incendiou o céu atrás dela, e Al.Ith er­gueu os olhos para as neves maravilhosas das suas montanhas, ouviu o galope de um cavalo que a perseguia e pensou que era Ben Ata. Parou sua montaria e esperou pacientemente por ele. Era Jarnti, Estava sem armadura, mas levava o escudo e a capa do exército.

— Aonde vai, senhora?



  • Para casa. Como me ordenaram.

  • Ben Ata não sabe disso. Ele está na tenda, com os oficiais.

  • Tenho certeza de que está — disse ela, mas ele não respondeu à tentativa de humor. Não olhava para ela, mas para o lado. Tinha a expressão embaraçada e furtiva que ela lem­brava muito bem. Mas Jarnti parecia esforçar-se por manter os olhos desviados... então, com alguma dificuldade de movimen­tos, voltou a cabeça para o outro lado. Depois, pareceu querer erguer a cabeça sem conseguir.

Subitamente ela pensou estar a ponto de compreender.

  • Jarnti, você nunca olha para as montanhas?

  • Não — e ele fez seu cavalo negro voltar-se, em pro­testo.

  • Por quê?

  • É proibido.

  • Parece que muitas coisas são proibidas. Olhe agora, olhe como são belas.

Mais uma vez o cavalo negaceou e deu voltas na estrada, e Al.Ith viu que ele se esforçava por olhar para o alto. Mas seus olhos iam de um lado para o outro, sem que ele erguesse a cabeça. Não podia.

  • Quando era criança você devaneava?

  • Sim.

  • E era punido com o pesado capacete. Por quanto tempo?

  • Um longo tempo — respondeu ele, com cólera sú­bita à lembrança. E a obediência dominou-o novamente.

  • Muitas crianças desobedecem e olham para as mon­tanhas?

  • Sim, muitas. E às vezes os jovens também.

  • E todos eles usam capacetes como castigo e daí em diante ficam obedientes?

  • Sim, é isso.

  • Como soube que eu tinha partido?

  • Este cavalo ficou sozinho, pulou o muro de pedra e saiu galopando atrás do seu. Eu sabia que você tinha fugido, por isso montei-o.

  • Bem, devo continuar agora, Jarnti, e creio que nos veremos outra vez. Mas diga a Ben Ata que, se ele receber a Ordem para novo encontro aqui em sua Zona, não precisa mandar uma companhia de soldados.

  • Fazemos o que achamos que é certo.

  • Quantos soldados a Ordem especificou como neces­sários para me trazer aqui? Nenhum, creio eu.

  • Não é seguro viajar sozinha.

  • Cheguei em segurança até aqui, e, uma vez além da fronteira e no meu país, pode estar certo de que nada tenho a temer.

  • Eu sei disso — disse ele em voz baixa, com admira­ção e tanto sentimento que Al.Ith compreendeu seu desejo de voltar à Zona Três para o resto da vida. Embora ele mesmo não compreendesse por quê.

Al.Ith examinou o soldado e ele desviou os olhos.

Tinha a mesma constituição de Ben Ata, forte, pele quei­mada de sol, mas os cabelos e os olhos eram negros. Ela o conhecia intimamente, por causa de Ben Ata. Seria o mesmo com sua mulher ou suas mulheres: fanfarrão e grosseiro. Con­tudo, por um momento assaltou-a um desejo, que a surpreen­deu com sua intensidade, de estar entre aqueles braços fortes como pilares, "segura" e "a salvo". Disse:



  • Até logo, Jamti, e diga a Ben Ata que o verei quando for preciso.

A expressão constrangida do rosto de Jarnti foi a recom­pensa do seu assomo de malícia, e ela imediatamente sentiu remorso.

  • Diga a ele... diga.. . — mas ela não conseguia pen­sar em nada suave e delicado para dizer. — Diga que parti porque precisava — falou rapidamente, afinal, e pôs o cavalo num galope rápido subindo a encosta da escarpa. Voltou-se e viu Jarnti esforçando-se por erguer a cabeça para as monta­nhas proibidas. Mas não conseguiu: apenas levantou um pouco, mas logo abaixou-a novamente.

Al.Ith atravessou a fronteira usando o escudo protetor, e então, quando chegou ao ar fresco e cantante da sua terra, atirou o escudo para longe, saltou do cavalo e dançou em volta dele, rindo sem parar. E, nos picos das montanhas que se estendiam para o céu, a manhã se erguia escarlate e púrpura.

Desejava mais do que tudo estar no planalto, ao pé das montanhas, mas antes disso precisava verificar certas coisas. Assim, depois de dançar e cantar, recuperando seu habitual estado de espírito, tornou a montar e, deixando a estrada que levava ao planalto, tomou o caminho que o circundava e que a levaria às regiões periféricas da sua Zona. Eram, na sua maior parte, centros de criação de gado e fazendas de plan­tação, e Al.Ith sempre gostara de visitá-las... mas há muito não fazia essa viagem... há quanto tempo? Bem no fundo da sua mente estava a certeza de que fazia muito, muito tempo. O que tinha acontecido? Por que se descuidara desse modo? Pois fora descuidada. Irresponsável. Não existia palavra pior. Sentia-se castigada, açoitada por ela. Normalmente, depois do deleite de dançar e recuperar sua alegria de espírito, a ponto de cada átomo do seu corpo cantar e regozijar-se, ela caval­gava, andava ou corria sobre a relva perfumada da planície, perseguida apenas pelos prazeres do dia, a luz do sol, os ven­tos frescos e aromáticos, a mudança da luz, sempre diferente nos picos... mas não, desta vez não foi assim. Ela tinha er­rado. Por quê? Chegou mesmo a saltar do cavalo e abraçou o pescoço do animal, o rosto encostado no calor escorregadio do pêlo, como se a força dele pudesse transmitir compreensão à sua mente. Estivera especialmente ocupada? Não, não tinha sido isso. A vida fora como sempre deliciosa, com os filhos, os amigos, os amantes, a paz amiga do seu reino determinando o ritmo do corpo e do espírito para o bom humor, a bondade... pensando nos rostos sorridentes e satisfeitos da sua vida, re­voltava-se à idéia de haver algo errado — como era possível!

Uma voz de homem perguntou:

  • Precisa de ajuda?

Al.Ith voltou-se e viu um fazendeiro de uma das fazendas coletivas. Jovem, saudável, com aquele calor irradiante especial que era a marca do bem-estar e do bom humor, e que não existia no reino de Ben Ata.

  • Não, estou bem — disse ela. Mas ele a observava com expressão de dúvida. Al.Ith lembrou-se que usava ainda o leve robe branco, agora sem mangas e amassado, e as patas do cavalo estavam ainda envoltas em pano. Retirou os pedaços de fazenda das patas do animal, e ele exclamou:

  • Ah, vejo agora quem é. E como é o casamento na Zona Quatro?

Era o tipo de pergunta amistosa que ela devia esperar normalmente, mas Al.Ith lançou um olhar desconfiado ao fazendeiro, definido por ela própria de "olhar da Zona Quatro". Mas, não, naturalmente ele não estava sendo "impertinente" — uma palavra da Zona Quatro! Oh, como ela havia mudado em um dia e meio naquele lugar!

  • Tem razão, sou Al.Ith. E tinha me esquecido que es­tou usando isto. Diga-me, será que uma das mulheres da sua família poderia me emprestar um vestido?

  • Naturalmente. Eu vou buscar.

E ele correu para um conjunto de casas, cercado por re­banhos de vacas e ovelhas.

Enquanto esperava, Al.Ith soltou o cavalo para pastar e sentou-se à sombra de uma árvore.

Quando ele voltou correndo, com o vestido na mão, viu-a ali sentada e o cavalo pastando ao seu lado, de vez em quando acariciando-a com o focinho.

  • Como se chama o seu cavalo, Al.Ith?

  • Ainda não achei um bom nomé para ele.

  • Ah, então é um amigo especial?

  • Sim, ele me escolheu para amiga no momento em que nos encontramos.

  • Yori disse ele. Seu companheiro, seu amigo.

  • Sim, é muito bom! E ela acariciou o nariz do ani­mal, murmurando o nome Yori na sua orelha.

  • E eu também disse o homem. Naturalmente eu a conhecia, mas logo que a vi percebi que era minha amiga. Meu nome é Yori. E ele sentou-se na relva de frente para ela, apoiou os braços nos joelhos e inclinou-se para a frente, sorrindo.

Agora, Al.Ith estava completamente confusa. Ela sorriu, assentiu com a cabeça, mas ficou em silêncio. Se tudo estivesse normal, ela teria respondido imediatamente às palavras dele. Esse homem era igual a ela e seus físicos se comunicavam com facilidade, desde o primeiro olhar. Ali sentados, sobre a relva morna, seca e levemente perfumada, com a sombra da pe­quena árvore fazendo desenhos silenciosos, seria perfeitamente natural estender a mão para ele e passarem uma ou duas horas deliciosas. Mas dentro dela havia vozes que diziam: Não! Não! Por quê? Estaria grávida? Oh, esperava que não, pois no pas­sado sempre escolhera o momento da concepção de modo bem diferente. Mas, se estivesse grávida, então, pela ordem natural das coisas, na verdade por exigência e determinação, devia ser alimentada e inundada pelo ser individual desse homem, para que a criança fosse sustentada com as essências dele e ouvisse suas palavras. Das outras vezes, quando engravidava depois de escolha cuidadosa, pensada e longamente considerada —, assim que tinha certeza, escolhia, para influenciar benefica­mente a criança, vários homens, os quais, sabendo por que e para que tinham sido escolhidos, cooperavam com ela nesse ato de abençoar e favorecer a criança. Esses homens tinham um lugar especial no seu coração e nos anais da Zona Três. Eram tão Pais das crianças quanto os Pais Genéticos. Todas as crianças da sua Zona tinham Pais Espirituais, tão respon­sáveis por elas quanto os Pais Genéticos. Formavam um grupo com a Mãe Genética e com as mulheres que tomavam conta das crianças, considerando-se pais comuns, sempre à dispo­sição dela, ou dele, em qualquer momento, individual ou coletivamente. Se estivesse grávida, já era tempo de começar a es­colher as influências benéficas para a criança.

  • Yori... — o cavalo ergueu as orelhas e aproximou-se mais; os dois sorriram e o acariciaram gentilmente. — Você acha que eu estou grávida?

  • Não sei.

  • Saberia, se tudo fosse normal?

  • Sim, sempre soube.

  • Você é pai muitas vezes?

  • Duas vezes Pai Genético — e espero ser outra vez, dentro de cinpo anos, quando deverá chegar a minha vez. E sete vezes Pai Espiritual.

  • E sempre soube?

  • Sim, desde o primeiro.

Entreolharam-se pensativamente, um olhar que levaria ao jogo do amor, mas havia uma barreira entre os dois.

  • Se eu estivesse como sempre, escolheria você, acima de qualquer outro, e o escolheria também para Pai Genético, se precisasse ter um filho, mas...

As sombras corriam pela imensa estepe, a relva sibilava e murmurava, a árvore sob a qual estavam farfalhou, Yori, o cavalo, levantou a cabeça e relinchou como se estivesse se libertando de pensamentos dolorosos demais para serem guardados, e ela ficou imóvel, as lágrimas correndo-lhe pelo rosto.

  • Al. Ith! Você está chorando — disse ele, com voz baixa e chocada.

  • Eu sei. Não tenho feito outra coisa nos últimos dias. Por quê? Não compreendo a mim mesma! Não compreendo nada! — E ela cobriu o rosto com as mãos e chorou, enquanto Yori, o homem, lhe acariciava as mãos, e Yori, o cavalo, to­cava o braço dela com o focinho.

Ondas de compreensão passaram entre ela e o homem através de suas mãos, sua carne lamentava-se, porque os cor­pos sabiam que deviam estar unidos, e ela disse:

  • Aquele é um lugar horrível. Terei sido envenenada por ele?

  • Por que horrível? Como é?

  • Como vou saber? — Percebeu a irritação na própria voz e ficou chocada. Levantou-se de um salto. — Estou irri­tada! Zangada! Sinto necessidade de me atirar em braços fortes, e chorar — os seus... oh, não fique chocado, não tenha medo. Não vou fazer nada disso. Tornei-me desconfiada de palavras e olhares... diga você agora qual a natureza da Zona Quatro.

  • Sente-se, Al.Ith. — O tom de comando — pois foi como ela o interpretou — fez com que obedecesse; e sentou-se, pensando que ele não tivera intenção de dar uma ordem, um comando, apenas a sugestão de um amigo, mas ela ouvira uma ordem.

— É um lugar de compulsões — disse ela. — Existem pressões que não temos aqui, que nem conhecemos. Só rea­gem a ordens, à coerção.

  • Ordens?

  • Não, não a Ordem, não Ordem. Mas, faça isto. Faça aquilo. Não possuem o conhecimento intuitivo da Lei.

  • Sempre foram assim? — perguntou ele, com uma iluminação súbita que a fez inclinar-se e examinar seu rosto atentamente.

  • Sim — disse ela. — Deve ser isso. Você deve estar certo.

  • Al.Ith, as coisas estão muito ruins por aqui.

  • Sim, eu sei. Sei agora. Devia ter sabido antes. Se não tivesse sido negligente.

  • Sim, estamos comentando agora que você deve ter negligenciado seus deveres. Mas só agora. Pois só agora esses acontecimentos diferentes começam a formar um todo compreensível.

  • Por que ninguém foi falar comigo?... — E lembrou- se de que a tinham procurado, mas ela não os ouvira. — Oh, eu mereço ser punida... — exclamou, e a estranheza dessas palavras fez com que continuasse, em voz muito baixa: — Ouviu isso? É o que quero dizer sobre eles.

  • Eu ouvi.

Mais uma vez ficaram em silêncio, lado a lado, envoltos em harmonia.

  • Talvez se nos uníssemos você ficasse curada? su­geriu ele.

Al.Ith disse:

  • Quando você falou, meu primeiro pensamento foi de suspeita não, espere, ouça. "Ele está dizendo isso no próprio interesse." Não, não fique chocado. Estou tentando ex­plicar... lá é assim e eu fui infectada por eles... Acredito que, talvez, se nos uníssemos completamente, eu ficasse cu­rada ou pelo menos melhor. Mas existe em mim outra obri­gação, uma imposição à qual devo obedecer... sinto que não seria honroso.

  • Honroso? E seu sorriso era intrigado.

  • Sim. Honroso.

  • Você não pertence a Ben Ata e ao reino dele.

  • Quem sabe! E ela levantou-se outra vez. O fino robe branco quase não lhe cobria a nudez. Era o mesmo que estar sem roupas. Ele usava as roupas dos fazendeiros, calças largas e camiseta. Ficaram juntos, de mãos dadas. Yori, o cavalo negro, esticou o pescoço na direção dos dois. Esta é uma cena muito do agrado dos Cronistas e artistas do nosso reino. É chamada "A Separação". Ou, para as mentes mais sutis: "A Descida de Al.Ith ao Reino das Trevas".

  • Eu o convidaria para viajar comigo disse ela:. Mas não vou fazê-lo. Não me conheço mais. Não confio em mim mesma. Devo ir sozinha. E, agora, diga-me depressa como estão as coisas nesta parte da estepe.

Segurando as duas mãos dela, ele falou sobre a tristeza dos animais, das fracas colheitas, a inconstância do tempo, a diminuição da concepção entre animais e entre o povo.

  • Obrigada. Agora preciso vestir esta roupa. Diga-me a quem devo devolvê-la.

  • É da minha irmã. Ela a enviou com sua amizade.

  • Mandarei outra para ela, com minha gratidão, quando chegar em casa.

Ele a saudou com um sorriso e um beijo gentil no rosto, e afastou-se. Al.Ith tirou o robe branco, ficou por algum tempo nua entre as plantas aquecidas pelo sol e então pôs o vestido da irmã do fazendeiro, vermelho-escuro, do feitio de que ela mais gostava, justo no busto e nas mangas, folgado na saia.

Montou Yori e cavalgou para a região norte do seu reino.

Em todos os lugares em que parou, fazendas, acampa­mentos de pastores, para conversar e fazer perguntas, ouviu as mesmas notícias. Ou as coisas estavam piorando rapidamente em toda a parte ou estavam piores no Norte, onde o primeiro frio de um outono precoce espessava o ar.

Demorou-se apenas o tempo necessário em cada lugar. Era recebida com a bondade de sempre, embora todos, homens, mulheres e até crianças, concordassem que Al.Ith havia cometido algum erro e que esse casamento, essa aproximação com a Zona Quatro, relacionava-se com seu erro ou sua falha.

E, enquanto cavalgava pela região norte, mais selvagem, montanhosa, fartamente irrigada, às vezes agressivamente escarpada, lembrava-se — lembrava-se apenas — dos momentos descontraídos e lentos do passado, pois agora Ben Ata, Ben Ata, Ben Ata pulsava sonoramente no seu sangue, não podia esquecê-lo, embora cada lembrança fosse dolorosa e carregada de sofrimento; sabia, e a cada momento mais se convencia de estar prestes a descer às possibilidades que existiam dentro dela que jamais acreditara serem reais. E nada podia fazer para evitar.

Deixando a região norte, sempre com os maciços à sua esquerda, dirigiu-se para oeste. Aí estavam ainda no fim do verão e o sol quente e imóvel. Cavalgou pelas paisagens de abundância e plenitude, mas a informação era a mesma, e mulher, homem e criança a saudavam, perguntando: "Al.Ith, o que está errado? Onde foi que erramos? Onde foi que você errou?"

O peso incômodo que sentia, era culpa. No entanto, era-lhe desconhecida, pois jamais soubera da possibilidade de tal estado de espírito. Reconhecendo, entre as várias e calamitosas emoções que a assaltavam, que tomavam as mais diversas to­nalidades e pesos e formas, esta que voltava com insistência, parecendo afinal transformar-se na própria essência de todas as outras, Al.Ith sentiu seu gosto e textura. Culpa, ela a cha­mou. Eu, Al.Ith, sou culpada. Mas, sempre que esse pensa- mento a assaltava, procurava afastá-lo com desgosto e des­confiança. Como podia ela, Al.Ith, ser culpada, como podia ela, apenas ela estar errada... podia estar escravizada à Zona Quatro, mas não perdera o conhecimento, a base de todo o conhecimento, de que tudo era interligado e combinado, tu­do era uno, que não existe isso de um indivíduo estar errado, que não poderia existir. Se havia um erro, devia ser proprie­dade de todos, de todos, em todas as Zonas e, sem dúvida, além delas também. Esse pensamento atingiu-a violentamen­te, como uma advertência. Há muito tempo não pensava no que acontecia além das Zonas... na verdade, mesmo agora, pensou muito pouco sobre as Zonas Um e Dois e a Zona Dois estava bem ali, a noroeste, além do horizonte que parecia se dobrar e se desdobrar em azul ou púrpura... Não tinha se interessado há... há. .. nem podia se lembrar há quanto tempo. Estava em uma pequena elevação, no centro da região oeste. Desceu do nobre Yori, e com o braço sobre o pescoço dele, como procurando conforto, olhou para noroeste, para a Zona Dois. O que havia lá? Não tinha idéia! Jamais pensara nisso! Jamais imaginara! Ou teria pensado, há muito, muito tempo? Não se lembrava de ter estado assim como agora, olhando naquela direção, imaginando, deixando os olhos per­derem-se naquelas distâncias longas, azuis e enganadoras... seus olhos pareciam atraídos e seguiam, dissolvendo-se em azul, azul... um azul mesclado, variado, ondulante... Al.Ith voltou a si, depois de um lapso de tempo nas regiões mais profundas de si mesma, com um novo conhecimento que, esta­va certa, frutificaria. Não já, mas em breve... "Está lá", murmurava para si mesma. "Lá... se eu pudesse alcançá- lo..." Montou novamente e continuou a sua viagem circular, virando para a esquerda e passando para as regiões do Sul. Suas favoritas, sempre suas favoritas, sim, tinha arranjado des­culpas para visitá-las com mais freqüência do que as outras... estivera no Sul há pouco tempo, com todos os filhos e sua corte, e ao que parecia, com metade do povo do planalto. E como fora maravilhoso festas, canções —, agora, lem­brando o passado, parecia-lhe que tinham dançado e cantado durante todo o verão. E nunca parava por muito tempo em sua vida ocupada, para descansar os olhos no azul infinito da Zona que estava muito acima da Zona Três, tanto quanto esta estava da Zona Quatro... A idéia a deixou chocada, atingiu-a com a força de uma concepção — com a força que teria uma concepção devidamente preparada e orquestrada —, aí estava alguma necessidade urgente e poderosa, que ela devia estar satisfazendo, procurando alcançar...

Entretanto, enquanto atravessava as fazendas e ranchos do Sul, saudada por todos com bondade e reconhecimento pelo tempo maravilhoso que haviam compartilhado, lá estava outra vez, mais do que nunca — "Você é culpada, Al.Ith, culpada. (...)"

E seguiu seu caminho, dizendo para si mesma: não sou, não sou, como posso ser, se sou rainha foi porque vocês me escolheram, e me escolheram porque eu sou vocês, e todos sabem disso — sou a melhor parte de vocês, meu povo e eu os chamo de meus, como vocês me chamam de nossa, nossa Al.Ith, e portanto não posso ser mais culpada do que vocês — o erro está em alguma outra parte, em lugar mais profundo, em lugar mais alto? E continuou a cavalgar, subindo as colinas cobertas com as ricas vinhas do Sul, avistando a região noroeste, os olhos estendendo-se pelas montanhas azuis daquela outra terra — até dar a volta no maciço e perdê-las de vista, para só voltar a vê-las quando chegasse ao planalto, que pre­tendia cruzar rapidamente, parando apenas para ver seus filhos e todos nós e chegar na borda do mesmo, de onde se des­cortinava o Oeste e o Noroeste, para fitar a bruma azul até que aquilo de que se devia lembrar — e sabia que era importante — lhe viesse à mente.

Al.Ith percorreu as Zonas do Sul de ponta a ponta. Várias vezes encontrou-se com os homens que, se tudo esti­vesse normal, ela teria escolhido para transferir-lhe as quali­dades que seriam proveitosas para a criança que talvez tivesse concebido — mas, teria mesmo? E essa questão era também origem de amarga auto-recriminação e auto-insuficiência, pois já fazia um mês que tinha estado com Ben Ata e não tinha idéia se estava ou não grávida. Pois naturalmente era fácil reconhecer esse estado, pelas reações e pela intensificação da intuição de todo o ser, e não por causa de fatores puramente físicos. Culpa, oh, culpa... mas não era culpada, e esse pen­samento era em si mesmo motivo de culpa — tão tolo, tão voltado para ela mesma, tão fixo em sua pessoa. E assim viajava Al.Ith, agitada e em conflito. Sua mente estava calma, clara e equilibrada, mas sob ela contorciam-se e gemiam e balbuciavam emoções revoltas, que lhe pareciam ridículas.

Quanto ao resto, as altas regiões nas quais normalmente ela pairava, e nas quais confiava — aquelas distâncias no seu íntimo que sabia serem seu verdadeiro ser —, bem, pareciam extremamente remotas nesses dias. Era uma criatura decaída, a pobre Al.Ith, e sabia disso.

E, durante todo o tempo, Ben Ata, Ben Ata soava no pulsar do seu sangue e no passo do cavalo.

Quando voltou à estrada que levava das fronteiras da Zona Quatro diretamente ao planalto central, através da pla­nície, voltou o cavalo para a esquerda, na direção de casa. Mas a voz inconfundível soou de súbito e com clareza em sua mente: "Volte para Ben Ata...", e, como ela hesitasse: "Vá agora, Al.Ith."

E ela dirigiu o cavalo para o leste. Ao sair da Zona Quatro, na sua dança de alívio e triunfo, jogara longe o es­cudo, feliz por se ver livre dele. Não podia entrar agora sem proteção. Como não sabia o que fazer, não fez coisa alguma: eles deviam conhecer sua dificuldade e tomariam providências. Voltava a cabeça para trás constantemente para olhar a massa imensa, o coração de sua terra com seu brilho, suas luzes, suas sombras... e agora veio-lhe um pensamento com­pletamente novo... pensava, ao mesmo tempo, nas distâncias azuis além. Assim seu belo reino aparecia na sua mente di­latado ou aumentado; antes era finito, limitado, conhecido completamente em cada detalhe, fechado em si mesmo... mas agora desdobrava-se e ondulava para fora e para cima, para além, alcançando interiores que eram como possibilidades des­conhecidas da sua mente.

Sempre que olhava para trás, obrigava-se resolutamente a virar a cabeça para a frente e enfrentar o que a esperava.

Atrás, alturas, distâncias, perspectivas; à sua frente, a Zona Quatro.

E Ben Ata. E veio-lhe à mente a idéia de que esse homem desajeitado, há pouco tempo introduzido em sua vida, era uma forma de compensação para as alturas distantes e azuis da Zona Dois mas não sorriu. Não era agora uma criatura capaz de sorrir. O que começava a observar em si mesma era um impulso completamente estranho para idéias vazias. Nunca antes, em toda a sua vida, encontrara um ser, mulher, homem, criança, sem abrir completamente seu coração, sem que o fluxo de intimidade corresse imediatamente entre eles e, agora, artes e sutilezas sobre as quais nada sabia funcionavam dentro dela, contra a sua vontade, ou pelo menos acreditava que assim fosse. Quando se encontrasse com Ben Ata, agiria assim, e assim, e assim e Al.Ith imaginava olhares, sorrisos, evasivas, a oferta de si mesma. E isso a revoltava.

Quando chegou à fronteira, viu, como esperava, uma fi­gura a cavalo, mas não era Jarnti, nem Ben Ata. Montada em uma bela égua castanha, lá estava uma mulher forte, os cabelos escuros trançados em volta da cabeça, como um dia­dema. Seu olhar era franco e honesto. Mas parecia insegura, toda ela expressava a necessidade de ser aceita, o que eviden­temente se esforçava por ocultar. Na parte da frente da sela pesada, a indispensável sela da Zona Quatro, Al.Ith viu dois objetos alongados de metal brilhante: o escudo para Al.Ith.

Sou Dabeeb, mulher de Jarnti disse ela. Ben Ata mandou que eu viesse.

As duas mulheres, cada uma em seu cavalo, examinaram-se com amistosa franqueza.

Dabeeb viu uma mulher bonita e esguia, o cabelo caindo-lhe pelas costas e olhos tão calorosos e tão cheios de bondade que teve ímpetos de chorar.

Al.Ith viu uma mulher bela que, em sua Zona, seria designada, imediatamente, para uma função da maior responsabilidade — no entanto, ali ela tinha a marca inconfundível da escrava.

Os olhos de Dabeeb não deixavam o rosto de Al.Ith, à procura de censura ou repúdio. Punição mesmo... contudo, na verdade ela estava, por assim dizer, desmanchando-se em sinceridade e simpatia.

  • Está tentando imaginar por que estou aqui, minha se­nhora?

  • Não... por favor, não! Meu nome é Al.Ith... — e a lembrança dos costumes de sua Zona fez com que todo o seu ser se encolhesse de dor.

  • É difícil para nós — observou Dabeeb. Mas sua voz tinha um tom de auto-respeito obstinado, que chamou a aten­ção de Al.Ith.

  • Nunca ouvi o nome Dabeeb antes.

  • Significa uma coisa amaciada com pancada.

Al.Ith riu.

  • Sim, é verdade.

  • E quem o escolheu para você?

  • Minha mãe.

  • Ah... compreendo.

  • Sim, ela gostava de uma piada, gostava mesmo.

  • Você sente falta dela! — exclamou Al.Ith, vendo lágrimas nos olhos de Dabeeb.

  • Sim, sinto. Ela compreendia as coisas como elas são, assim era a minha mãe.

  • E fez de você uma mulher forte — a que foi amaciada com pancada.

  • Sim. Como ela mesma. Sempre ceder, mas nunca dar-se por vencida. Era o que ela dizia.

  • Por que está aqui sozinha? Não é incomum uma mu­lher viajar sozinha?

  • É impossível — disse Dabeeb. — Nunca acontece. Mas acho que Ben Ata quis agradar-lhe... e tem mais. Jarnti estava pronto para vir encontrá-la...

  • Muito delicado da parte dele.

Um leve sorriso malicioso.

  • Ben Ata ficou com ciúmes... — um olhar rápido para ver como suas palavras eram recebidas. E ficou imóvel, a cabeça levemente abaixada, mordendo os lábios.

  • Com ciúmes? exclamou Al.Ith. Não conhecia a palavra, mas lembrou-se então de tê-la visto nas velhas crô­nicas. Tentando compreender o seu significado nesse contexto, viu que Dabeeb corara e parecia insultada; Dabeeb pensou que Al.Ith não considerava Jarnti à altura dela.

  • Acho que nunca senti ciúmes. Não estamos preparados para essa emoção.

  • Então, são muito diferentes de nós, minha senhora.

As duas mulheres atravessaram juntas o desfiladeiro. Avaliavam-se mutuamente, com todos os sentidos que possuíam, visíveis e invisíveis.

Os sentimentos de Dabeeb fizeram-na exclamar, depois de algum tempo:

  • Oh, queria ser como a senhora, oh, se pudesse ser como a senhora! É livre! Deixaria que a acompanhasse quan­do voltar para casa outra vez?

  • Se for permitido e ambas suspiraram, sentindo o peso da Ordem.

E Al.Ith pensava que essa mulher possuía uma força, algo obstinado e duradouro; sofrimentos e dores que Al.Ith sequer imaginava a tinham feito assim. Estava curiosa, ansiosa para conhecê-la melhor. Mas não sabia fazer as perguntas ou que perguntas fazer.

  • Se você, uma mulher, pode vir encontrar-se comigo com a permissão de Ben Ata, isso significa que as mulheres agora terão maior liberdade?

  • Ben Ata deu permissão. Meu marido não. E deu uma risada breve e maliciosa, que Al.Ith sabia agora ser característica.

  • Então, o que ele vai fazer agora?

  • Bem, estou certa de que descobrirá um modo de se fazer sentir. E esperou que Al.Ith a acompanhasse em uma das suas típicas risadas.

  • Acho que não compreendo o que quer dizer. — Mas, notando a expressão divertida e paciente de Dabeeb, compreendeu.

  • Já pensou em se revoltar?

Dabeeb abaixou a voz:

  • Mas é a Ordem... não é?

  • Eu não sei.

  • Não sabe?

  • Estou descobrindo que não sei muita coisa que pen­sava saber. Por exemplo, sabe quando uma mulher está grá­vida?

  • Naturalmente, você não?

  • Sempre soube, até agora. Mas não sei, neste momento. Não aqui.

Dabeeb compreendeu imediatamente, assentiu com a ca­beça, e disse:

  • Compreendo. Bem, a senhora não está grávida, posso garantir.

  • Bem, isso já é alguma coisa.

  • Está planejando não engravidar? — E mais uma vez ela baixou a voz, lançando olhares furtivos para os lados, em­bora estivessem na entrada dos campos e canais e não houvesse vivalma por perto.

  • Acho que usamos a palavra planejar de modo di­ferente.

  • Podia me ensinar? — veio o murmúrio quase inau­dível, abafado pelo ruído dos cascos dos cavalos na estrada de terra.

  • Eu lhe ensinarei o que puder. O que for permitido.

— Ah, sim... eu sei. — E o suspiro que deixou escapar

dizia tudo o que Al.Ith precisava saber sobre as mulheres da Zona Quatro.

Resignação, aceitação. Humor. E sempre, no fundo des­sas armaduras de vigilância, paciência e humor, o aguilhão permanente de uma terrível carência.

Al. Ith fez seu cavalo parar. Dabeeb parou também. Al.Ith estendeu a mão. Depois de uma breve luta contra as cautelas e resistências, Dabeeb estendeu a sua. Al.Ith mur­murou:

  • Eu lhe direi tudo o que puder. Ajudarei no que puder. Serei sua amiga. Tanto quanto possível. Prometo. Pois sentira que as palavras eram necessárias. Esse tipo de pa­lavras. Jamais as usara na Zona Três, jamais imaginara que fosse preciso usá-las. Mas, agora, via as lágrimas descendo dos belos olhos de Dabeeb e orvalhando as faces coradas. As palavras eram certas e necessárias.

  • Obrigada, Al.Ith murmurou ela, com voz embar­gada.

Quando chegaram ao ponto da estrada de onde se avis­tava o pavilhão, Al.Ith disse:

  • Gostaria que me emprestasse um dos seus vestidos. Ben Ata acha que não me visto adequadamente.

Dabeeb olhou com apreciação para o vestido vermelho- escuro bordado que Al.Ith estava usando e respondeu:

  • Esse é mais bonito do que qualquer um da nossa Zona. Mas eles não vão entender isso, nem em um milhão de anos! Falou com a indulgência afetuosa que Al.Ith jamais pensaria em usar referindo-se a um adulto. E havia também em suas palavras um terrível desprezo. Você é elegante, Al.Ith. Gostaria de saber ser elegante...

E olhou para o próprio vestido, de fazenda estampada, bonito, mas sem o encanto e a elegância das roupas da Zona Três.

  • Não precisa se preocupar com isso. Todos estão co­mentando as roupas que Ben Ata encomendou na cidade para você. Os armários estão cheios... embora não possa imaginar o que vai fazer com elas.

Quando chegaram à subida da colina, onde começavam as fontes e os jardins, Dabeeb inclinou-se para o lado e abraçou Al.Ith com emoção.

  • Pensarei na senhora. Todas nós, todas as mulheres, estamos com a senhora, não se esqueça! E desceu a colina, suas lágrimas espalhando-se no vento, como chuva.

Al.Ith cavalgou lentamente até o fim dos jardins, des­montou, mandou que Yori fosse para a cocheira e caminhou atravessando os jardins, olhando para os pavilhões, esperando o momento de ver Ben Ata. Sentia a mais notável constelação de emoções estranhas, que, examinadas como um todo, definiam-se como uma espécie de antagonismo que não conhecia. E uma espécie de zombeteiro divertimento: "Vou lhe mostrar!" E mais: "Acha que vai me vencer!"

Não era animosidade contra Ben Ata, mas um desafio agradável e combativo.

Esperava mesmo ansiosamente pelo encontro, para que esse novo relacionamento pudesse começar. Não havia lágrimas no seu horizonte, naturalmente que não!

Estava completamente confiante e calma, todos os seus poderes controlados e prontos para serem usados.

Havia também nela um fundo de invencibilidade que reconheceu porque o sentira e avaliara em Dabeeb durante toda a travessia da planície.

Nesse estado de espírito, esperava o encontro com Ben Ata.

Este estava encostado na coluna central, braços cruzados, numa pose que refletia os pensamentos de Al.Ith. Ele sorriu, severo e zombeteiro.

  • Gostou da sua acompanhante? perguntou, fazendo-a lembrar-se de que ele sentira ciúmes.

  • Muito. Não tanto quanto teria apreciado a companhia do belo Jarnti, naturalmente.

Ele adiantou-se rapidamente com os olhos brilhando e Al.Ith percebeu que Ben Ata estava a ponto de agredi-la. Mas ele sorriu, e o sorriso dizia que Al.Ith pagaria por isso, mais tarde, e estendeu as duas mãos. Al.Ith segurou-as, balan- çando-as levemente, de um lado para outro, com um sorriso divertido.

  • É um belo vestido observou Ben Ata, pois tinha resolvido ser gentil.

  • Então, gosta de vermelho?

  • Acho que gosto de você disse ele, abraçando-a, a contragosto, pois, na verdade, gostava dela cada vez menos. Deixando que seus sentidos o informassem que essa mulher provocante de vestido vermelho podia muito bem vir a agradar-lhe, Ben Ata esquecia-se da independência dela, que se expressava em cada sorriso, olhar, em cada gesto.

Al.Ith afastou-se, deslizando levemente para o outro lado do quarto, com um olhar de desafio lançado sobre o ombro que a deixou atônita — não compreendia o que se passava com ela! E Ben Ata, para provocá-la, não a seguiu. Ficou imóvel, uma figura imensa com a túnica verde curta, o cinto de couro, os braços cruzados. Al.Ith então, sorrindo "enigma­ticamente" — e ficou assombrada ao sentir esse tipo de sorriso nos próprios lábios —, colocou as mãos nos lados da coluna e balançou o corpo de leve, num movimento extremamente pro­vocante. Ben Ata ficou excitado, mas não pretendia ceder.

Ele sorria, ela se balançava...

Na noite em que Al.Ith o deixara, há tantas semanas, Ben Ata voltara relutante, à meia-noite, depois de ter se acal­mado com a companhia dos soldados, e não a encontrara. Fu­rioso, compreendeu que ela havia obedecido a ordens, e sentiu-se invadido por uma carência, uma necessidade, uma incapacidade que não sabia diagnosticar ou suprir. Não sentia falta de Al.Ith, disso tinha certeza.

Ben Ata era, acima de tudo, um homem minucioso.

Compreendera que tinha pouco conhecimento de certas práticas; na verdade, que seu conhecimento era falho em muitas coisas.

Desprezava os homens que freqüentavam a parte baixa da cidade; para ele era uma forma de auto-indulgência. Mas, agora, era para onde se dirigia. Depois de interrogar metodicamente Jarnti e outros oficiais, foi a um certo estabelecimento e pediu uma entrevista com a madame. Ela compreendeu o motivo dessa visita assim que ouviu dizer que Ben Ata ia procurá-la. Mas ouviu as explicações dele, constrangidas mas precisas, com um leve sorriso.

Levou-o a um quarto onde o esperava uma mulher à qual tinham sido dadas instruções detalhadas, pois a capacidade e as falhas de Ben Ata haviam sido discutidas, em todo o país, pelas mulheres. Afinal de contas, tantas campanhas, treinamento militar, tantos saques, estupros e pilhagens haviam dei­xado muitas mulheres violentadas ou desiludidas para comentar o assunto.

Ben Ata foi instruído nas artes do amor por uma mulher tão experiente que o surpreendeu. Não se pode dizer que tenha sido inteiramente do seu agrado essa prolongada dedicação ao prazer, pois continuava a considerar o ato como ocupação pouco masculina.

Mas a verdade é que Ben Ata mergulhara nos prazeres, o único jeito de descrever o que acontecera durante o mês em que Al. Ith percorreu seu reino, procurando saber o estado das coisas. Ele aprendeu, como se fosse em uma escola, uma imensa variedade de noções sobre a anatomia, as possibilidades, as potencialidades do corpo do homem e da mulher. Não foi um aluno exemplar. Mas também não era dos piores, e quando se decidia por alguma coisa ia até o fim.

Essa cortesã — pois não era uma prostituta comum —, escolhida entre muitas pela dona do bordel, viera de outra cidade, por causa de sua reputação, e ensinou a Ben Ata tudo o que sabia.

O que Elys conseguiu em um mês de trabalho duro foi ajustar a mente de Ben Ata para a idéia de que o prazer pode ser multifuncional. Essa era pelo menos a noção básica.

Ele pensava que agora sabia tudo o que havia para saber.

Mas, no momento em que Al.Ith entrou, graciosa e provocante, ele lembrou-se de algo que tinha afastado comple­tamente da lembrança durante aquele mês enervante. Os beijos leves, furtivos, excitantes, aos quais não soube corresponder, ha­viam desaparecido de sua mente. O convite, a resposta e per­gunta, a reação mútua, a contra-resposta — nada disso fazia parte dos ensinamentos da cortesã Elys, pois jamais em sua vida ela tivera esse tipo de relacionamento com um homem ou mulher.

Enquanto Al.Ith balançava-se com leveza e graça, sor­rindo e esperando, ele compreendeu que tinha de começar tudo de novo. Não havia outra saída. Não podia recusar, pois aquele mês como aprendiz entusiasmado era uma aceitação do que estava para acontecer.

Ben Ata estava desafiando e antagonizando uma igual seu olhar revelava isso. Então, ela afastou-se da coluna, aproximou-se dele e começou a ensiná-lo a ser igual e a se pre­parar para o amor.

Foi extremamente chocante para ele, porque viu-se expos­to a prazeres que sequer tinha imaginado com Elys. Não havia comparação possível entre a sensualidade pesada da cortesã e as mudanças e sensações desses ritmos. Estava exposto não somente a respostas físicas que jamais imaginara, mas, o que era pior, a emoções que não desejava sentir. Viu-se mergulhado em ternura, paixão, nas selvagens intensidades que não sabia se eram dor ou prazer... e tudo isso enquanto ela, completamente à vontade, em seu próprio país, conquistava-o mais e mais, um companheiro decidido mas inquieto.

Naturalmente, ele não agüentou muito tempo. A igual­dade não se aprende em uma ou duas lições. Por natureza, suas reações eram lentas e pesadas; sempre seria assim. Impos­síveis sempre seriam para ele os prazeres mercuriais. Mas, den­tro dos seus limites de resistência, fora introduzido a potencialidades muito além de tudo o que julgava possível. E, quando desistiram, ele meio aliviado e meio desgostoso com a inter­rupção das intensidades, ela não permitiu que Ben Ata deixasse o plano de sensibilidade que haviam atingido. Fizeram amor a noite toda, e no dia seguinte, e não pararam para se alimentar, embora tivessem pedido vinho, e quando afinal estavam inteira e completamente unidos, de modo que não poderiam distinguir, pelo tato, onde um começava e o outro acabava, sendo pre­ciso para isso a ajuda visual, caíram num sono profundo que durou outras 24 horas. E, quando acordaram, ao cair da noite, ouviram batidas de tambor vindas do jardim e sabiam que era o sinal, para todo o país, de que o casamento fora consumado. E o tambor deveria tocar sempre que se encontrassem, até ter­minarem, para que todo o povo soubesse que estavam juntos e compartilhasse do casamento, em espírito, em apoio e natu­ralmente, em emulação.

Ficaram abraçados como se estivessem nas profundezas do mar. Mas agora começava o lento e cauteloso afastamento da carne, a coxa da coxa, o joelho do joelho... era quase noite e embora ambos sentissem que suas personalidades co­muns não estavam de acordo com as maravilhas dos dias e noites que tinham passado, felizmente não percebiam nenhuma dissonância, pois já não podiam acreditar no que tinham feito. Ele, com um movimento terno e quase de desculpas, retirou o braço de sob o pescoço dela, sentou-se, depois levantou-se, espreguiçando-se. Havia alívio em cada movimento daqueles músculos fortes, e ele sorriu na semi-obscuridade. Quanto a ela, voltava a si do mesmo modo. Mas evidentemente ele acha­va que seria pouco delicado deixá-la imediatamente, e, envol­vendo-se em sua capa militar, sentou-se nos pés da cama.

  • Se nos arrumarmos um pouco, podemos nos encontrar para jantar disse ele.

  • Que ótima idéia! — Ela já estava na porta dos seus aposentos, pois tinha saído da cama sem que ele percebesse. E Al.Ith saiu do quarto.

Nada tinha mudado, exceto um armário, que cobria a parede inteira, agora repleto de vestidos, peles, pelerines. Al.Ith jamais vira coisa igual, e, resmungando que se tratava sem dúvida de um depósito de roupas para um exército de prostitutas tinha aprendido a palavra com ele —, começou a tirar tudo, peça por peça, de dentro do armário. As fazendas eram de boa qualidade, e ela examinou sedas, cetins, lãs, com a experiência de uma profissional sem dúvida este país sabia fabricar tecidos. Mas ficou estupefata com o mau gosto dos modelos. Não conseguia encontrar um que não fosse exagerado, de um modo ou de outro, que não fosse feito para enfatizar as nádegas ou os seios, ou expô-los, ou apertá-los incomodamente, ou, então, a cor ou a fazenda não combinavam com o estilo. Não havia o sentimento instintivo da combinação certa entre o modelo e a fazenda, e nenhuma su­tileza. Sentindo, porém, que a sedução imediata não era a ordem do dia ideal para as circunstâncias, escolheu um robe verde discreto que a deixou atônita por sua incrível disparidade em todos os sentidos, mas era o melhor de todos. Tomou banho, penteou o cabelo, procurando imitar o penteado de Dabeeb um estilo muito feminino, talvez —, e vestiu o robe verde. Então, voltou ao quarto central, onde Ben Ata a espe­rava, taciturno, sentado à pequena mesa perto da janela. Ao ver o vestido seus olhos brilharam, mas logo pareceu desa­pontado.

  • É um dos nossos? perguntou, duvidando.

E ela respondeu:

  • Sem dúvida, grande rei. E trocaram um sorriso ami­go e compreensivo dos que estão realmente unidos. Olhando-se agora, de volta às suas dissociações absolutas, aos seus outros eus, esses dois habitantes de reinos diferentes não podiam acre­ditar no que haviam conquistado durante aquelas horas de imersão completa um no outro. Para ele, ela era novamente uma mulher estranha, tudo nela diferente, embora querido, o que o afastava mais do que o unia, pois Ben Ata temia, no mais íntimo do seu ser, o que ela poderia fazer com ele. E Al.Ith, olhando para aquele soldado grande e forte, com o cabelo molhado ainda do banho, pensava que na verdade devia se congratular por ter conseguido levá-lo tão longe.

Mentalmente pediram uma refeição substancial e, durante algum tempo, comeram avidamente.

Enquanto isso, o tambor no jardim, batendo, batendo, batendo.

Assim que terminaram a refeição, levantaram-se e caminharam no jardim, de uma extremidade a outra. Não viram tambores. Mas o som ali estava... em algum lugar... aqui?, .. não, ali, pareciam sempre a ponto de chegar à origem do som, mas nada encontravam.

Compreendendo que jamais saberiam de onde vinham as batidas, voltaram ao pavilhão. Não de mãos dadas. Nem mesmo muito próximos um do outro. Ambos sentiam-se fechados, com­pletos, contidos em si mesmos, cada um absolutamente impe­netrável àquele e àquela pessoa estranha.

  • Entretanto disse ela, como se continuasse uma con­versa —, sem dúvida estou grávida.

  • Está? Tem certeza? Esplêndido! Sentindo que seria adequado pelo menos um abraço, ele fez menção de se aproximar, mas, vendo que Al.Ith absolutamente não precisava disso, interrompeu o gesto.

  • Naturalmente estou certa.

  • Por quê? Como?

  • Como as mulheres do seu país sabem, não como no meu país. — E ela riu. Riu, enquanto ele a observava poli­damente, esperando que parasse de rir.

  • Bem, ótimo, estou encantado.

  • Eu também, uma vez que provavelmente é o que espe­ravam de nós.

  • Tem certeza?

  • Não, é claro que não. Não tenho certeza de nada.

  • O que devemos fazer agora?

  • Como vou saber? Mas talvez eles queiram que eu volte para casa.

Ao ver a expressão de alívio no rosto dele, Al.Ith deu uma gargalhada, com o dedo indicador apontado para ele, e Ben Ata compreendendo que ela sentia a mesma coisa, co­meçou a rir também. Quando terminaram de rir viram que faltava muito ainda para a meia-noite, e que, livres um do outro, certamente se separariam.

  • Xadrez? — sugeriu ele.

  • Por que não?

Ele ganhou uma partida, ela ganhou a outra. Eram muito bons, na verdade mestres nesse jogo, nos respectivos reinos. Sendo assim, as partidas foram demoradas e o dia raiava quando terminaram.

Os dois imaginavam (esperando que o outro não adi­vinhasse) se seria adequada outra sessão amorosa, mas re­solveram que não era.
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