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PAIXÃO DO OUTRO MUNDO

Barbara Delinsky

Copyright (c) 1992 by Barbara Delinsky

Originalmente publicado em 1992 pela Silhouette Books,

Divisão da Harlequin Enterprise Limited.

Título original: THE OUTSIDER

Tradução: Nicole Anne Collet

Copyright para a língua portuguesa: 1993

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Momentos Íntimos Extra nº 140

2 histórias:

Lembranças do passado

Joan Hohl

&

Paixão do outro mundo



Barbara Delinsky

Este Livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.

Sua comercialização é estritamente proibida.

Digitalização: Palas Atenéia

Revisão: Fátima Tomás

Paixão do outro mundo

Barbara Delinsky

Murmurando palavras de amor, Cameron beija e acaricia Samantha por inteiro, detendo-se nos pontos mais sensíveis. No auge desse delicioso suplício, ela anseia fundir-se

ao corpo másculo com um desejo que a aterroriza... Porque Cameron não é um homem comum. Mas um misterioso forasteiro que, após salvá-la da fúria do oceano, a enfeitiçou

com seus olhos azuis. Um enigmático viajante cuja desatinada sensualidade não pode ser deste mundo!

CAPÍTULO I

O temporal chegou do sul. A meteorologia já havia detectado a formação de chuvas e ventos fortes, mas, mesmo sem essas previsões, Samantha Van Vorn teria intuído

sua aproximação. Era curioso como qualquer oscilação de temperatura alterava sua pressão sangüínea. Mas sempre fora assim, desde sua mais tenra infância. Ao menor

sinal de uma mudança de tempo, ficava invariavelmente inquieta e irritadiça.

De acordo com o boletim meteorológico do rádio, o temporal dessa vez vinha do Atlântico. Não chegaria a causar maiores danos no continente, todavia passaria de roldão

por todas as ilhas das vizinhanças.

Surpreendentemente, a ilha de Pride era uma delas. Isso explicava por que Samantha fora apanhada desprevenida. Na realidade, havia pressentido a aproximação da tempestade,

mas se convencera de que esta, como tantas outras, se dissiparia antes de atingir o Estado do Maine.

Ou, talvez, quisera convencer-se disso, pois agosto era o mês em que viajava para Van Vornland, o refúgio secreto de sua família. A ilha, deserta, não constava em

nenhum mapa da região. Como última remanescente da linhagem dos Van Vorn, Samantha tinha especial prazer em passar uma temporada ali, todos os anos. Não fosse pelos

rigorosos invernos de Van Vornland e pelos pôneis selvagens de que cuidava em Pride, não pensaria duas vezes em se mudar definitivamente para o recanto privado de

sua família.

A tempestade estava se aproximando com uma rapidez preocupante. O céu escurecia progressivamente, os ventos sopravam cada vez mais forte. Samantha procurou manter

a calma. Com um pouco de sorte, conseguiria aportar em Pride a tempo de se

safar da tempestade. Em tempo de calmaria, o usual seria cobrir a distância entre as duas ilhas em oito horas, mas, com os ventos se intensificando, havia a necessidade

de chegar em casa antes disso.

Mais uma hora transcorreu até Samantha perceber que suas estimativas haviam sido por demais otimistas. As nuvens acinzentadas revolviam-se no céu cor de chumbo.

Ela censurou-se por não ter deixado Van Vornland com maior antecedência. Preparando-se para o pior, vestiu uma capa de chuva sobre a camiseta sem mangas e a bermuda,

e prendeu os longos cabelos loiros. Era uma mulher bonita, de vinte e oito anos, com olhos de um verde translúcido e pele vistosa. Naquele momento, porém, seu rosto

estava transfigurado pelo terror.

Uma hora mais tarde, Samantha fechou os olhos e rezou. Estava colada ao fundo do barco para evitar o impacto das ondas que passavam por cima de sua cabeça. Não era

a primeira vez que enfrentava o mau tempo no mar, mas jamais deparara com uma tempestade tão terrível. Tudo o que podia fazer era empenhar-se para manter o barco

na direção oeste. E rezar, tentando não esmorecer.

A chuva finalmente alcançou-a, ricocheteando, inclemente, sobre o barco. Samantha baixou as velas, enquanto a embarcação se curvava ante a fúria das águas e oscilava

violentamente. Ela abraçou o mastro e deixou-se ficar à deriva. Vagas gigantescas dançavam à sua volta, inundando o barco. Com um estrépito, o mastro partiu-se em

dois. Em pânico, Samantha segurou-se no que restou dele. Nesse momento, o barco virou. Ela sentiu uma pontada de dor e mergulhou nas águas tortuosas. Batendo as

pernas e braços com movimentos frenéticos, emergiu segundos depois, engasgando com a água salgada. Fez várias tentativas de alcançar a embarcação até que, por fim,

como que compadecendo-se dela, o mar empurrou-a na direção desejada. Samantha colidiu com o casco de madeira e agarrou-se a ele, ignorando a dor que sentia na parte

posterior da cabeça. A chuva açoitava-a sem dó, turvan-do-lhe a visão e precipitando-a num pesadelo. Seus braços não resistiriam por muito tempo. Mais um minuto

e estaria morta.

Segure-se, Samantha! Lute! Ela pensou nos pôneis. Pensou na cabana nas proximidades dos prados, onde a mãe a havia criado e onde, ainda hoje, morava. Pensou na flauta

de madeira que costumava tocar ao entardecer, sentada à soleira da porta enquanto contemplava o pôr-do-sol, com suas cores poéticas e melancólicas.

Imaginou-se tocando suaves melodias na flauta. A música tomou conta de seu espírito e abafou o canto raivoso do vento e o rugido das ondas.

Samantha atingiu o limite de suas forças. Às vezes procurava movimentar as pernas para não sobrecarregar os braços, mas isso de pouco adiantava. A uma certa altura,

teve dificuldade de respirar. Como num sonho, sentiu a cabeça girar e relaxou a pressão dos dedos no casco do barco. Escorregou para à água e, cerrando os dentes,

arrastou-se novamente para o topo do casco.

Instantes depois, tornou a deslizar para a superfície turbulenta das águas. Engasgou. Procurou o barco e não o avistou. Nadou então em círculos, desesperada. Quis

gritar, mas tudo o que conseguiu foi engolir mais água. Em sua angústia, debateu-se cegamente e afundou. Agitando-se, no auge da aflição, voltou à tona. Tentou boiar.

Seu corpo, porém, insistia em submergir, alheio à sua vontade.

Foi quando algo a tocou. Por um segundo, pensou na possibilidade de tratar-se de um tubarão e quase desfaleceu. Mas, logo a seguir, um braço enlaçou-a e a manteve

à superfície.

- Respire! - uma voz rouca comandou.

Samantha obedeceu prontamente, inspirando o máximo que podia.

A voz, masculina e potente, prosseguiu:

- Devagar, devagar, senão vai engasgar. Acalme-se. Você logo estará a salvo.

O desconhecido segurava-a com firmeza, enquanto nadava. Samantha tentou, de novo, encontrar o barco.

- Onde está o meu barco?

- Foi levado pelas ondas! - ele gritou. Colocou-a às costas, fazendo com que ela firmasse as mãos ao redor de seu pescoço. - Segure-se bem...

Samantha fechou os olhos. O desconhecido iniciou então uma série de vigorosas braçadas. Em meio ao seu torpor, ela percebeu que, a despeito das condições adversas,

estavam fazendo progressos. Embora estivesse fraca, sem capacidade de raciocinar, perguntava-se de onde tinha surgido aquele homem. Onde estaria o barco dele? Como

conseguia avançar naquele mar revolto?

Sua consciência ia e voltava, como as vagas do oceano. Tremia, mas não se dava conta disso. Sonhava de olhos abertos, num transe de morte. Entrementes, seu salvador

continuava nadando com movimentos enérgicos e determinados.

De repente, ela notou uma mudança no ritmo das braçadas. Forçando-se a aguçar a vista para enxergar em meio à chuva, viu uma massa escura avultando-se a poucos metros

dali. No mesmo instante, o homem tomou-a nos braços e levou-a para a praia.

- Pride! - Samantha murmurou, reconhecendo, vagamente o local. - Como você conseguiu?

- Não estávamos muito longe daqui.

Ele depositou-a na areia úmida e ajoelhou-se a seu lado.

- Como se sente?

- Tonta.


O desconhecido passou a mão sob a nuca dela e amparou-a.

- Você precisa de roupas secas. Onde mora?

O corpo de Samantha era sacudido por tremores, mas ela mal notava que estava enregelada. Só sabia que a idéia de abrir a porta de sua casa para um estranho não lhe

agradava. Ao mesmo tempo, dificilmente teria forças para caminhar até a cabana. Sem alternativa, deu-lhe as coordenadas:

- Vivo na parte alta da ilha, a quinze minutos daqui. Você vai encontrar uma trilha no meio das árvores. A trilha desemboca numa estrada.

Mal tinha acabado de falar e o homem ergueu-a e carregou-a para a trilha indicada. Não escapava a Samantha que estava exaurido, e perguntou-se onde ele encontraria

energias para levá-la até em casa. Contudo, sem desanimar, o desconhecido seguiu pela trilha íngreme e tomou a estrada. Investindo contra o vento, prosseguiu a caminhada,

conservando-a junto ao tórax musculoso.

Os braços do desconhecido eram fortes e estranhamente reconfortantes. Samantha fechou os olhos. Sussurrou:

- Um pouco mais adiante você verá uma estrada secundária. Siga-a até o fim e dobre à esquerda.

Ela só voltou a abrir os olhos quando se acercaram da cabana.

- Vamos parar um instante. Quero verificar o pasto.

- Agora não.

- Mas eu preciso checar se os pôneis estão bem!

- Não há nada que possa fazer nessa tempestade. Alem disso, você está ferida.

- Estou bem. Juro... - ela mentiu, pois, na verdade, começava a sentir as pernas latejando, especialmente em um dos joelhos.

O desconhecido não lhe deu ouvidos e avançou pelo atalho que levava à cabana. Quando ele, afinal, fechou a porta atrás de si, Samantha foi envolvida por um inesperado

silêncio.

Estava contente de voltar para casa. A cabana era uma construção rústica de madeira. No sótão, ficava o banheiro e um dormitório despojado. Embaixo ficava a sala,

com os móveis essenciais e uma estante cheia de livros e discos, e uma diminuta cozinha com paredes caiadas de branco. Vasos de flores e folhagens, espalhados por

todos os cantos, tornavam o ambiente alegre e aconchegante.

Cheio de cuidado, o homem estendeu-a no sofá e virou-se para a lareira de pedra que havia na extremidade oposta da sala.

Samantha soergueu-se, lutando contra a dormência que paralisava seus músculos. Apoiando as mãos no encosto do sofá, tentou ficar de pé. Experimentou uma das pernas

e sentiu uma dor lancinante no joelho. No momento seguinte o homem estava a seu lado, empurrando-a suavemente para o sofá. Sua voz era branda e suas mãos, firmes.

- Por favor, não se mexa. Ainda não sabemos se você fraturou algum osso.

Ele começou a cobri-la com uma manta que estava sobre uma cadeira, mas Samantha, resoluta, desvencilhou-se.

- Estou ensopada. Preciso trocar de roupa. - O desconhecido fez menção de ajudá-la. De novo, ela protestou: - Não, pode deixar que eu faço isso sozinha.

- Você está fraca demais. Eu cuido disso.

- Não!

- Por que não?



Antes que pudesse argumentar, uma onda de lassidão engolfou-a. Consciente de que qualquer movimento brusco lhe suscitaria dor, o homem desabotoou a capa de chuva

e tirou primeiro um braço, depois o outro. Abaixou as alças da camiseta e puxou-a pela cabeça. Embaraçada por sua nudez, Samantha escondeu-se sob a manta.

Entrementes, o homem procurou o interruptor de luz.

- Não temos eletricidade durante os temporais - ela avisou, enrolando-se como podia na manta. - Use o lampião que está pendurado sobre a pia. Os fósforos estão em

cima do fogão.

Samantha tornou a fechar os olhos, concentrando-se para controlar a dor que se espalhava gradualmente por seu corpo. Piscou ao perceber um foco de claridade sobre

ela e fitou o homem, que se ajoelhara ao lado do sofá. O rosto másculo ganhava misteriosos contornos à luz do lampião. Um par de olhos azuis a encaravam, cheios

de preocupação, por sob uma mecha de cabelos negros.

- Onde você sente dor?

- No corpo inteiro. - Samantha esboçou um débil sorriso, rindo da própria ironia. Parecia-lhe que toda a superfície de sua pele estava sendo atingida por agulhadas.

- Espere um pouco. Vou acender o fogo e você se sentirá melhor.

Assim que as chamas cresceram na lareira, o homem voltou para junto dela. Com infinita delicadeza, pressionou-lhe as têmporas.

- Está com dor de cabeça?

Samantha aquiesceu e olhou para os dedos dele. Estavam manchados de vermelho.

- Estou sangrando?

- Receio que sim.

Ele deixou-a por alguns instantes. Samantha ouviu as tábuas do assoalho estalando sob seus passos, enquanto gavetas rangiam ao ser abertas e fechadas. Uma voz fraca

soava em seu cérebro, ordenando-lhe que se sentasse e

mandasse o estranho embora. Podia muito bem cuidar de si mesma. A voz em seu cérebro, porém, foi ficando mais e mais fraca, até reduzir-se a um murmúrio quase inaudível.

Samantha estava cansada. Tudo o que desejava naquele momento era dormir e esquecer seu corpo maltratado.

Sentiu o toque dele, mas não abriu os olhos. As mãos hábeis estavam limpando o corte no alto de sua cabeça e aplicando-lhe um curativo. O homem parecia muito ciente

do que fazia. Devia ser médico, Samantha deduziu, tranqüilizando-se. Ainda assim, quando o desconhecido começou a puxar a manta, ela se retesou e agarrou o cobertor,

num ato reflexo.

- Eu só quero ajudá-la - ele disse, e sua voz macia encheu-a de paz. Samantha fitou-o. Os olhos azuis eram penetrantes, mas gentis. - Você precisa de cuidados. Eu

não a salvei para me aproveitar da situação.

Ele está mentindo, acusou a voz no cérebro de Samantha. Mas a sinceridade que emanava da fisionomia grave dele desarmou-a. Não protestou dessa vez, quando ele afastou

a manta. Limitou-se a apertar os olhos, sem coragem de encará-lo. Sentiu as mãos másculas em seu corpo, ágeis e capazes. Eram grandes, quentes. Tateavam e massageavam

seu corpo com cautela e persistência. Cada vez que Samantha gemia de dor, as mãos se imobilizavam e esperavam alguns segundos para prosseguir o exame.

- Parece que você machucou algumas costelas - foi o diagnóstico. A seguir, o homem voltou sua atenção para a região dos quadris. Antes que Samantha pudesse objetar,

abriu o zíper da bermuda dela e puxou-a para baixo. - Temos uma lesão feia aqui.

Ele trabalhou de forma metódica, esterilizando o ferimento e cobrindo-o com pomada e gaze. Quando o desconhecido tocou seu joelho, ela se contorceu e gritou. A dor

ali era insuportável.

Ele obrigou-a a ficar imóvel. Massageou-lhe as têmporas com dedos tão leves que, em breve, Samantha sentiu uma onda de sonolência dominá-la. Enquanto isso, o estranho

ia sussurrando palavras de encorajamento. Ela não compreendia o sentido exato do que lhe dizia, mas sentia-se revigorada. Quando o homem tocou novamente seu joelho,

a dor já não lhe pareceu tão terrível como da primeira vez. Mais calma, deixou-se embalar pela sensação de torpor e adormeceu.

Quando acordou, já estava escuro. A fúria do vento ainda não tinha recrudescido, e as grossas gotas de chuva eram atiradas contra as vidraças. Mas, contrastando

com o clima inóspito lá fora, a sala estava aconchegante graças ao calor da lareira.

O desconhecido sentara-se ao pé do sofá. Tinha o peito nu e os pés descalços, e só a calça jeans, de um azul-celeste desbotado, cobria-lhe agora o corpo. As chamas

avermelhadas banhavam-lhe o rosto anguloso, de queixo quadrado e nariz reto. Samantha teve apenas alguns preciosos segundos para estudá-lo, antes que ele se virasse

e seus olhares se encontrassem.

- Está melhor? - o homem perguntou, com uma voz que era ao mesmo tempo possante e aveludada.

Ele falava com extrema brandura. Contudo, sua descontração a colocou de sobreaviso. A visão do corpo sólido e musculoso a assustava. O tórax, recoberto de pêlos

negros, adquiria tons dourados, refletindo o brilho do fogo. Aquele homem inspirava uma imagem de força e virilidade, e Samantha se conscientizou de sua própria

vulnerabilidade.

Ele franziu o cenho e sorriu, entre sério e meigo.

- Não vou machucar você. Samantha engoliu em seco. Seu olhar recaiu sobre o peito nu dele.

-Eu estava com frio. Precisei tirar as minhas roupas molhadas - o desconhecido explicou.

Ela sentiu-se mesquinha. Aquele homem salvara-lhe a vida e tratara de seus ferimentos. Não fosse por sua intervenção, ela teria sido tragada pelo oceano. Não era

possível que a machucasse depois de tudo o que havia feito.

Observou-o abertamente. Algo em seu semblante pareceu-lhe familiar, mas não soube precisar o quê.

- Como se sente?

- Estou com o corpo moído. Obrigada por ter me trazido até aqui. - Ela estremeceu ao recordar o horror que enfrentara no mar. Sentia-se agradecida por estar viva.

De uma certa forma, era como se tivesse renascido.

Ele inclinou ligeiramente a cabeça em sinal de compreensão.

- E a cabeça, melhorou? Ela aquiesceu.

- Ainda dói, mas não como antes.

- Suas costelas vão cicatrizar logo. E o joelho? Samantha lembrou-se da dor lancinante que experimentara e fez uma careta.

- Eu quebrei a rótula ou qualquer coisa parecida, não é?

- Não. Você torceu a perna, só isso.

Ela aceitou a explicação com certa reserva. Podia jurar que havia quebrado um osso, senão vários. Nunca sentira uma dor tão excruciante como aquela. Agora constatava

que o ponto sensível apenas latejava. Era inacreditável.

Olhou para as próprias pernas e só então percebeu que estava usando somente uma camisola, sem nada por baixo. Ficou ruborizada. Nenhum homem jamais a vira nua.

Ou, para ser mais correta, havia um que quase a vira. Fora muitos e muitos anos antes, numa tarde nebulosa de novembro. Ela estava carregando sacolas de compras,

voltando para casa, quando o homem a encurralara. Também ele era grande e forte. Seus olhos, no entanto, transbordavam com a urgência de um desejo tão desenfreado,

que mal se apercebeu quando Samantha ergueu o joelho e o atingiu em cheio nos testículos. Depois de golpeá-lo, ela fugiu em desabalada carreira. Correu como louca,

e só parou quando finalmente chegou em casa. Depois passou a noite inteira sentada na sala, com um revólver apontado para a porta. Mas aquele homem nunca voltaria

a atacá-la. Uma semana mais tarde, seu corpo fora atirado à praia, sem vida: morrera nos braços do mar. Samantha não lamentara o fato. Seu assaltante mostrara-se

de uma crueldade atroz para com ela. O mundo podia muito bem passar sem gente daquela laia. E quanto a esse homem? De onde viera?

- Quem é você? - indagou, num fio de voz.

- Meu nome é Cameron. Cameron Divine.

- De onde você é?

- Vim do Norte.

Samantha supôs que se tratasse de um canadense. Muitos turistas do Canadá desciam até o Maine durante o verão. Se aquele desconhecido fosse um visitante regular

da ilha de Pride, então, provavelmente ela já o vira alguma vez na vila. Isso explicaria a familiaridade que os traços dele lhe evocavam.

- Você já esteve na ilha antes?

- Não.


Samantha ficou desapontada.

- E o que fazia no meio do oceano?

- O mesmo que você. Estava velejando.

Um sorriso oblíquo formou-se no canto de sua boca bem desenhada.

- Vinha de outra ilha? - ela perguntou, já sabendo qual seria a resposta. Existia um sem-número de ilhas ao longo da costa.

- Isso mesmo.

- Sozinho?

- Sozinho.

Samantha observou-o de soslaio. Não via um único corte ou contusão no corpo dele. Seu olhar percorreu os feixes de músculos que começavam nos ombros largos e iam

até os pulsos grossos. Ela se perguntou como aquele estranho conseguira escapar ileso à tempestade.

- Tive muita sorte - disse Cameron, como que lendo seus pensamentos. - Fui atirado para fora do meu barco segundos antes que ele se despedaçasse.

Samantha não se esquecia da maneira como Cameron Divine a havia trazido até a praia. Não importava quão forte aquele homem fosse, sua façanha fora sobrenatural.

- Como conseguiu chegar até aqui?

- Estou em boa forma - ele declarou, encolhendo os ombros de modo casual.

Isso era mais que óbvio, Samantha pensou. O fato de que ninguém a tivesse visto nua não implicava que a recíproca fosse necessariamente verdadeira. Já tratara de

muitos homens na ilha. Quando a medicina convencional falhava, a população de Pride não hesitava em recorrer aos seus bálsamos e poções. Procuravam-na na calada

da noite, em visitas clandestinas para que o resto da vila não soubesse. Assim era que conhecia o corpo de um nativo tão bem quanto o seu. Mas, na verdade, não era

necessário um exame mais minucioso para verificar que a forma física de Cameron Divine superava em muito a dos nativos da ilha.

- Mesmo assim, nós estávamos no meio de um furacão.

- É tudo uma questão de manter o ritmo certo. Eu não precisei me esforçar tanto quanto você imagina. As ondas nos empurraram para a praia.

- Mas nós não afundamos - Samantha persistiu, cética.

- Eu enchi os pulmões de ar. Foi isso que nos fez flutuar. Samantha não estava nem um pouco convencida com as justificativas dele.

- Qualquer um, na nossa situação, teria morrido! Lentamente, Cameron virou-se para fitá-la.

Nós não morremos, seus olhos azuis disseram. É isso que conta. Depois, em voz alta, ele mudou de assunto:

- Quer tomar um caldo quente?

Ela estava por demais absorta na "eloqüência" do olhar dele para assimilar a pergunta de imediato. Após alguns instantes, volveu os olhos para o fogão e viu uma

panela fumegante.

- Tomei a liberdade de cozinhar algo para você - Cameron desculpou-se. - Não sei se vai gostar. Encontrei ingredientes muito estranhos no armário da cozinha.

Samantha sorriu, sabendo perfeitamente a que ele se referia. Chás medicinais eram sua especialidade, daí ela guardar "ingredientes estranhos" em seu armário: cascas

de árvores, ervas, sementes, pó de gravetos. A ironia era que, agora que mais precisava de seus dons curativos, estava impossibilitada de preparar uma infusão que

lhe restaurasse as forças. Cameron foi até o fogão e encheu uma xícara com um líquido amarelado. Voltou para junto dela e ajudou-a a sentar-se. Depois ofereceu-lhe

a xícara. Samantha aceitou-a, mas, antes de provar seu conteúdo, aspirou o aroma dos ingredientes, a fim de identificar o que Cameron havia usado. Uma combinação

errada de ervas poderia surtir efeitos desastrosos.

Ao que tudo indicava, contudo, ele misturara os ingredientes certos.

- Que tal? Acertei? - Cameron perguntou. De novo, parecia adivinhar seus pensamentos.

Constrangida por ter evidenciado suas suspeitas, Samantha apressou-se em assentir com um sorriso.

O olhar dele provocou-lhe uma inusitada sensação de calor.

- Beba antes que esfrie - ele instou, e voltou a contemplar o fogo.

Samantha notou que os olhos dele eram fascinantes, assim como seu rosto de feições nobres e o corpo bem proporcionado. Pegou-se imaginando como seria o beijo dele

e ficou espantada consigo mesma, porque nunca desejara nenhum homem. Isso era perturbador.

O que mais a abalava era o fato de que ele parecia disposto a passar a noite ali. Estreitando os olhos, Samantha perguntou à queima-roupa:

- Você é médico?

- Não.

- Qual é o seu ramo de atividade, então?



- Sou cientista. Faço pesquisas.

- Onde?


- No Norte.

- Você tem família?

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